Implementar circuitos com semicondutores
Apresentação
UC01995 (25h) do curso Técnico de Sistemas de Computação e Redes. Introduz os dispositivos semicondutores fundamentais — díodo e transistor BJT — com ênfase na retificação de tensão AC, na filtragem capacitiva e no uso do BJT como comutador eletrónico. É a base para as UCs de amplificadores (UC02845) e amplificadores operacionais (UC01996).
1. Semicondutores
1.1 Materiais e estrutura
O silício (Si) é o semicondutor dominante na electrónica moderna. A 300 K (temperatura ambiente), a energia térmica quebra algumas ligações covalentes na rede cristalina, gerando pares electrão-lacuna:
- Electrão livre (e⁻): portador de carga negativa, desloca-se contra o campo eléctrico
- Lacuna (h⁺): ausência de electrão, comporta-se como carga positiva, desloca-se no sentido do campo eléctrico
A concentração intrínseca de portadores no Si a 25°C: ni ≈ 1,5 × 10¹⁰ cm⁻³ (muito baixa comparada com um condutor: ≈ 10²³ cm⁻³).
1.2 Dopagem tipo N
A adição de uma pequena quantidade de átomos pentavalentes (P, As, Sb) ao Si puro — processo denominado dopagem — cria material tipo N:
- O átomo dopante tem 5 electrões de valência
- 4 electrões formam ligações covalentes com os 4 Si vizinhos
- O 5.º electrão fica fracamente ligado e é facilmente libertado → torna-se electrão livre
- Portadores maioritários: electrões
- Portadores minoritários: lacunas
- O material mantém-se electricamente neutro (o ião dopante fica fixo na rede)
Concentração típica de dopagem: 10¹⁵ a 10¹⁸ cm⁻³ (muito superior a ni)
1.3 Dopagem tipo P
A adição de átomos trivalentes (B, Al, In) cria material tipo P:
- O átomo dopante tem apenas 3 electrões de valência
- Forma apenas 3 ligações covalentes → falta 1 electrão → cria uma lacuna
- Portadores maioritários: lacunas
- Portadores minoritários: electrões
1.4 Junção P-N e camada de depleção
Ao unir Si tipo P com Si tipo N forma-se a junção P-N, base de todos os dispositivos semicondutores:
- Difusão: electrões do tipo N difundem para o tipo P; lacunas do tipo P difundem para o tipo N
- Recombinação: electrões e lacunas aniquilam-se mutuamente na vizinhança da junção
- Zona de depleção: região desprovida de portadores livres; ficam apenas iões fixos (negativos no lado P, positivos no lado N)
- Campo eléctrico interno: criado pelos iões fixos, aponta de N para P, opõe-se à difusão
- Potencial de barreira (Vbi): equilíbrio → Vbi ≈ 0,6–0,7 V para Si; ≈ 0,2–0,3 V para Ge
2. Díodos
2.1 Díodo ideal vs díodo real
| Característica | Díodo ideal | Díodo real (Si) |
|---|---|---|
| Tensão directa | 0 V | 0,6–0,7 V (limiar) |
| Resistência directa | 0 Ω | rd = nVT/ID (dinâmica) |
| Corrente inversa | 0 A | Ir = nA a µA |
| Ruptura inversa | Não existe | PIV → avalanche → destruição |
Equação de Shockley (díodo real):
$$I_D = I_S \left(e^{V_D / (n V_T)} - 1\right)$$
Onde: - IS = corrente de saturação inversa (10⁻¹² a 10⁻⁹ A) - n = factor de idealidade (1 a 2) - VT = tensão térmica = kT/q ≈ 26 mV a 25°C
2.2 Curva característica I-V
A curva I-V divide-se em três regiões:
Região direta (VD > 0): - Para VD < Vth (≈ 0,6 V): corrente negligenciável - Para VD ≥ Vth: corrente cresce exponencialmente - A cada 60 mV de aumento de VD, a corrente multiplica por 10
Região inversa (VD < 0): - Corrente de fuga muito pequena: Ir ≈ –IS (nA a µA) - Aumenta com temperatura (dobra aproximadamente cada 10°C)
Ruptura (VD << 0): - Ruptura por avalanche: portadores acelerados pelo campo colidem e criam novos pares (multiplicação) - Ruptura por efeito Zener: túnel quântico (a baixas tensões de ruptura, < 6 V) - Potência dissipada limita a corrente → sem limitação externa, o díodo é destruído
2.3 Díodo Zener
O díodo Zener é fabricado para operar de forma controlada e repetível na região de ruptura:
- Tensão Zener Vz: valores normalizados (2,4 V; 3,3 V; 4,7 V; 5,1 V; 6,2 V; 9,1 V; 12 V; 15 V; etc.)
- Regulação de tensão: enquanto IZ > IZ(min), Vout = Vz (praticamente constante)
Circuito regulador elementar:
Vs ───[Rs]───┬─── Vout = Vz
│
[Z] ← díodo Zener (cátodo ligado ao +)
│
GND
Cálculo de Rs:
$$R_S = \frac{V_S - V_Z}{I_Z + I_L}$$
Onde IZ deve ser > IZ(min) ≈ 5 mA e IL é a corrente da carga.
Potência dissipada no Zener:
$$P_Z = V_Z \times I_Z$$
Escolher Pz(nominal) ≥ 2 × PZ(real) como margem de segurança.
Exemplo: VS = 15 V, VZ = 5,1 V, IL = 50 mA, IZ(trabalho) = 20 mA - RS = (15 – 5,1) / (0,020 + 0,050) = 9,9 / 0,070 = 141 Ω → escolher 120 Ω - PZ = 5,1 × 0,020 = 102 mW → Zener de 1/4 W adequado
2.4 LED — Light Emitting Diode
O LED é um díodo de gap de energia directo (GaAs, GaN, GaAsP, InGaN):
- Quando polarizado diretamente, electrões e lacunas recombinnam na junção e libertam energia na forma de fotões
- A frequência (cor) do fotão depende do gap de energia do material
| Cor | Material | Vf típica | Comprimento de onda |
|---|---|---|---|
| Infravermelho | GaAs | 1,2 V | 850–950 nm |
| Vermelho | GaAsP | 1,8 V | 620–750 nm |
| Laranja | GaAsP | 2,0 V | 590–620 nm |
| Amarelo | GaAsP | 2,1 V | 570–590 nm |
| Verde | GaP / InGaN | 2,2 V | 520–570 nm |
| Azul | InGaN | 3,3 V | 450–495 nm |
| Branco | InGaN + fósforo | 3,2–3,4 V | — |
Resistência série (sempre necessária para limitar corrente):
$$R_{série} = \frac{V_{cc} - V_{LED}}{I_{LED}}$$
Corrente nominal típica: 10–20 mA (LEDs standard); 350 mA – 1 A (LEDs de potência).
Exemplo: VCC = 5 V, VLED = 2 V, ILED = 15 mA → R = (5 – 2) / 0,015 = 200 Ω → escolher 220 Ω
2.5 Fotodiodo
O fotodiodo opera em modo fotocondutivo (polarização inversa) ou fotovoltaico (sem polarização):
- Fotões absorvidos na camada de depleção geram pares electrão-lacuna
- A corrente gerada é proporcional à intensidade luminosa: I ≈ R × Φ (R = responsividade, A/W)
- Aplicações: receptores de fibra óptica, sensores de posição (encoders), câmaras CCD/CMOS
Procedimento de teste de díodo com multímetro:
- Colocar multímetro no modo diodo (símbolo ▷|)
- Ligação direta: sonda vermelha ao ânodo, preta ao cátodo → display mostra 0,6–0,7 V (Si) ou 0,2–0,3 V (Ge)
- Ligação inversa: sonda preta ao ânodo, vermelha ao cátodo → display mostra "OL" ou "1" (circuito aberto)
- Se mostrar 0 V em ambos os sentidos → díodo em curto-circuito (avariado)
- Se mostrar "OL" em ambos os sentidos → díodo em aberto (avariado)
- Para LEDs: em modo diodo, o LED pode acender fracamente (corrente de teste do multímetro ≈ 1 mA)
3. Retificação
3.1 Retificador de meia onda
Circuito com apenas 1 díodo:
$$V_{out(pico)} = V_{s(pico)} - 0{,}7\text{ V}$$ $$V_{out(médio)} = \frac{V_{s(pico)}}{\pi} \approx 0{,}318 \times V_{s(pico)}$$
- Frequência de ripple = frequência da rede = 50 Hz
- Factor de ripple: r = Vrms(AC) / VDC ≈ 1,21
- Eficiência de rectificação: η ≈ 40,6 %
- Desvantagens: desperdício de metade do ciclo; filtro maior necessário (f_ripple mais baixa)
3.2 Retificador de onda completa — Ponte de Graetz
Quatro díodos em ponte rectificadora:
$$V_{out(pico)} = V_{s(pico)} - 1{,}4\text{ V} \quad (\text{queda em 2 díodos})$$ $$V_{out(médio)} = \frac{2 \times V_{s(pico)}}{\pi} \approx 0{,}636 \times V_{s(pico)}$$
- Frequência de ripple = 2 × f_rede = 100 Hz
- Factor de ripple: r ≈ 0,48 (muito melhor que meia onda)
- Eficiência: η ≈ 81,2 %
- Vantagens: usa toda a onda; filtro menor; tensão média mais alta
3.3 Filtro capacitivo — Cálculo completo
O condensador electrolítico em paralelo com a carga armazena energia durante os picos e cede-a durante os vales:
Tensão de ripple pico-a-pico (aproximação linear):
$$V_{ripple} = \frac{I_{carga}}{f_{ripple} \times C}$$
Tensão DC média:
$$V_{DC} \approx V_{pico} - \frac{V_{ripple}}{2}$$
Capacidade necessária para um ripple especificado:
$$C = \frac{I_{carga}}{f_{ripple} \times V_{ripple}}$$
Procedimento de cálculo completo de uma fonte:
Dados: Vout = 12 V DC, Imax = 1 A, Vripple ≤ 1 V (ripple ≤ 8,3%)
-
Tensão de pico necessária após díodos: Vpico(min) = Vout + Vripple/2 = 12 + 0,5 = 12,5 V (sem regular com Zener) Com margem para queda nos díodos: Vpico = 12,5 + 1,4 = 13,9 V
-
Tensão RMS do transformador: Vsec = Vpico / √2 = 13,9 / 1,414 = 9,8 V RMS → usar trafo 12 V RMS (margem)
-
Condensador de filtro: C = Icarga / (f_ripple × Vripple) = 1,0 / (100 × 1,0) = 10 000 µF Tensão de trabalho: ≥ 1,25 × Vpico = 1,25 × (12×√2 – 1,4) ≈ 20 V → usar 10 000 µF / 25 V
-
Especificação dos díodos:
- PIV ≥ 2 × Vpico = 2 × 16 = 32 V → 1N4007 (PIV = 1000 V, OK)
- If(médio) ≥ Imax = 1 A → 1N4007 (If = 1 A, margem apertada) ou 1N5401 (3 A)
- Potência: Pd = 0,7 × Imédia = 0,7 × (1/π) ≈ 220 mW por díodo (manter dentro dos limites)
4. Transistor BJT
4.1 Estrutura e terminais
O BJT (Bipolar Junction Transistor) contém duas junções P-N em série:
Tipo NPN (mais comum): emissor N — base P — coletor N Tipo PNP: emissor P — base N — coletor P
Os terminais são: B (Base), C (Coletor), E (Emissor)
Convenção de correntes (NPN): - IB, IC entram no transistor; IE sai - IE = IC + IB
Relações fundamentais:
$$I_C = \beta \cdot I_B \qquad (\beta = h_{FE}, \text{ ganho de corrente DC})$$ $$I_C = \alpha \cdot I_E \qquad (\alpha = \beta/(\beta+1) \approx 0{,}99)$$ $$I_E = (\beta + 1) \cdot I_B$$
4.2 Regiões de operação
Corte (BJT desligado): - VBE < 0,6 V (junção BE em inversa ou com baixa polarização directa) - IC ≈ ICEO ≈ 0 (apenas corrente de fuga) - VCE ≈ VCC (todo o VCC cai no BJT)
Região activa (amplificação): - VBE ≈ 0,7 V (JBE em directa), VBC em inversa (VCE > VCE(sat)) - IC = β × IB (relação linear) - VCE = VCC – IC × RC
Saturação (BJT completamente ligado): - VBE ≈ 0,7 V, VBC também em directa - VCE(sat) ≈ 0,1–0,3 V (tipicamente 0,2 V) - IC é determinado pelo circuito externo: IC(sat) = (VCC – VCE(sat)) / RC - IB > IC(sat) / β → BJT sobredrivado
4.3 Parâmetro β (hFE)
O β (ou hFE) é o ganho de corrente DC:
| Transistor | β típico | Aplicação |
|---|---|---|
| BC547 / BC548 | 100–800 | Uso geral, baixa potência |
| 2N2222 | 75–300 | Comutação rápida |
| TIP31/TIP32 | 25–50 | Potência média |
| TIP120/TIP125 | >1000 | Darlington, comutação potência |
| BD139/BD140 | 40–160 | Potência média áudio |
Variação do β: o β não é constante — varia com IC, temperatura e de transistor para transistor da mesma referência. Por isso, no projecto de comutadores, não se deve depender do β exacto — usa-se sempre sobredriving.
5. BJT como Comutador
5.1 Cálculo de polarização para saturação
Para garantir saturação independentemente da variação de β:
Dados necessários: - VCC (tensão de alimentação) - RC (resistência de coletor) ou IC(carga) directamente - β(min) do transistor (usar o pior caso do datasheet) - Vin (sinal de entrada)
Passo a passo:
- Calcular IC(sat): IC(sat) = (VCC – VCE(sat)) / RC ≈ VCC / RC
- Calcular IB(min): IB(min) = IC(sat) / β(min)
- Aplicar factor de sobredriving (× 5 a × 10): IB = 10 × IB(min)
- Calcular RB: RB = (Vin – VBE) / IB = (Vin – 0,7) / IB
- Verificar potência em RB: PRB = (Vin – 0,7)² / RB
Exemplo completo — relay driver a partir de 3,3 V:
Dados: Relé 12V, bobina 180 Ω, transistor BC547 (β(min) = 100), Vin = 3,3 V
- IC(relé) = VCC_relé / R_bobina = 12 / 180 = 66,7 mA
- IB(min) = 66,7 mA / 100 = 0,667 mA
- IB(trabalho) = 10 × 0,667 = 6,67 mA
- RB = (3,3 – 0,7) / 0,00667 = 2,6 / 0,00667 = 390 Ω → escolher 330 Ω (padrão E24)
- Verificar: IB real = (3,3–0,7)/330 = 7,9 mA ✓ (> IB(min))
- PRB = 2,6² / 330 = 20 mW (muito baixo, OK)
- Díodo de roda livre 1N4007 em antiparalelo com a bobina do relé (obrigatório!)
5.2 Montagem de fonte de alimentação regulada 5V
Lista de materiais: - Transformador 230V / 9V RMS, 1A - 4× díodo 1N4007 - 1× condensador electrolítico 4700 µF / 25V - 1× condensador cerâmico 100 nF (bypass) - 1× regulador 7805 (tensão fixa 5V, 1A) OU Zener 5V1 / 1W + resistência série - 1× LED vermelho + resistência 220 Ω (indicador de alimentação) - 1× fusível 500 mA (no primário do transformador) - Placa de protótipo / PCB
Procedimento de montagem: 1. Ligar o transformador ao primário (230 VAC) — com fusível 2. Montar a ponte de Graetz com 4× 1N4007 numa breadboard 3. Ligar C1 = 4700 µF entre o positivo da ponte e a massa (verificar polaridade!) 4. Ligar C2 = 100 nF em paralelo com C1 (filtra ruído de alta frequência) 5. Ligar o 7805: pino 1 (Vin) ao + da ponte, pino 2 (GND) à massa, pino 3 (Vout) ao + de saída 6. Ligar LED + R220Ω entre Vout e GND 7. Medir: Vout deve ser 5,0 V ±2%
Medições de verificação: | Ponto | Valor esperado | |---|---| | Secundário do trafo (AC) | 9 V RMS | | Saída da ponte (DC, sem carga) | 12,7 V | | Saída da ponte (com carga 500 mA) | 11–12 V | | Ripple (osciloscópio, com carga) | < 2 V | | Saída regulada (7805) | 5,0 ±0,1 V |
6. Tabela de referência rápida
| Componente | Parâmetro-chave | Fórmula/valor típico |
|---|---|---|
| Díodo Si | Tensão de threshold | Vth = 0,6–0,7 V |
| Díodo Ge | Tensão de threshold | Vth = 0,2–0,3 V |
| Díodo Zener | Regulação | Vout = Vz (enquanto Iz > Iz_min) |
| LED vermelho | Tensão forward | Vf = 1,8–2,2 V |
| LED azul/branco | Tensão forward | Vf = 3,0–3,5 V |
| Ponte Graetz | Vdc médio | 0,636 × Vpico |
| Filtro capacitivo | Ripple | Vr = I/(f×C) |
| BJT — corte | VBE | < 0,6 V |
| BJT — activo | VBE | ≈ 0,7 V, VCE > Vce(sat) |
| BJT — saturação | VCE(sat) | ≈ 0,1–0,3 V |
| BJT comutador | RB | (Vin – 0,7) / (10 × IC/β) |
7. Glossário
Avalanche: multiplicação de portadores por ionização por impacto — ruptura controlada (Zener de alta tensão)
Camada de depleção: zona da junção P-N sem portadores livres; largura varia com polarização
Díodo de roda livre (freewheeling): díodo em anti-paralelo com uma carga indutiva para absorver o pico de tensão ao desligar
hFE: ganho de corrente DC do BJT (= β); medido em modo DC
Lacuna: ausência de electrão numa ligação covalente; comporta-se como portador de carga positiva
PIV (Peak Inverse Voltage): tensão inversa máxima suportada pelo díodo sem ruptura
Ripple: variação residual de tensão AC na saída DC de uma fonte rectificada
Sobredriving: forçar IB muito maior que o mínimo para saturação, garantindo saturação mesmo com β mínimo
TVS: Transient Voltage Suppressor — díodo Zener rápido para absorver picos transitórios (ESD, lightning)
VCE(sat): tensão coletor-emissor na saturação ≈ 0,2 V — mínima queda de tensão quando BJT está completamente ON