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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC01993

Executar análise de circuitos RLC

Sebenta · Eletromagnetismo, AC, reatância, impedância, ressonância, filtros
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Sist. Comp. Redes, T. Eletrónica e mais 4 cursos ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Apresentação

UC01993 (50h · 4,5 pts) do curso Técnico de Sistemas de Computação e Redes. Parte das interações eletromagnéticas (campo magnético, indução, Faraday, Lenz, histerese, correntes de Foucault) para chegar à análise em corrente alternada (AC): sinais sinusoidais, reatância de condensadores e bobinas, impedância, desfasamento, potência AC, ressonância, filtros RLC e sistemas trifásicos. É a base de áudio, rádio, comunicações, motores e fontes comutadas. Continua UC01988 e UC01992.

1. Interações eletromagnéticas

Campo magnético e linhas de força

Um íman, ou um condutor percorrido por corrente, cria à sua volta um campo magnético (B), representado por linhas de força fechadas: saem do polo norte, entram no polo sul e fecham-se dentro do material. Onde as linhas estão mais próximas, o campo é mais intenso. Num condutor retilíneo percorrido por corrente, as linhas de campo são círculos concêntricos em torno do fio: o sentido dá-se pela regra da mão direita (polegar no sentido da corrente, dedos indicam o sentido de B).

A experiência de Oersted

Em 1820, Hans Christian Oersted mostrou que uma agulha de bússola colocada perto de um fio se desvia quando o fio conduz corrente elétrica. Foi a primeira prova experimental de que corrente elétrica e magnetismo estão ligados: uma corrente gera sempre um campo magnético à sua volta. Esta observação abriu caminho ao eletromagnetismo como campo de estudo e a toda a tecnologia que hoje depende dele: motores, transformadores, altifalantes, relés.

Indução eletromagnética, Lei de Faraday e Lei de Lenz

O inverso também é verdade: um campo magnético variável através de um circuito induz nele uma força eletromotriz (f.e.m.), fenómeno chamado indução eletromagnética. A Lei de Faraday relaciona a f.e.m. induzida com a rapidez com que varia o fluxo magnético (Φ) que atravessa o circuito:

$$ \varepsilon = -N \cdot \frac{\Delta\Phi}{\Delta t} $$

O sinal negativo traduz a Lei de Lenz: o sentido da corrente induzida é sempre tal que se opõe à variação de fluxo que a criou (por exemplo, gerando um campo magnético contrário ao que se aproxima). É uma consequência da conservação de energia: se a corrente induzida ajudasse a variação em vez de a travar, um gerador produziria energia do nada. A indução eletromagnética é o princípio de funcionamento de geradores, alternadores, transformadores e travões de indução.

Curvas de magnetização e histerese

Num material ferromagnético (ferro, aço, ferrite), a relação entre o campo magnetizante (H) e a indução resultante (B) não é uma linha reta: é a curva de magnetização, que sobe rapidamente e depois entra em saturação, ponto a partir do qual aumentar H já não aumenta B de forma significativa.

Se o material for sujeito a um campo alternado, a curva B-H não percorre o mesmo caminho na subida e na descida: forma um laço fechado chamado ciclo de histerese. Isto significa que o material "guarda memória" da magnetização anterior. A área do ciclo corresponde à energia dissipada em calor a cada ciclo, as perdas por histerese. Núcleos de transformadores e motores usam materiais de ciclo estreito (baixa histerese) precisamente para minimizar este desperdício.

Correntes de Foucault

Quando um condutor maciço está sujeito a um fluxo magnético variável, induzem-se dentro dele correntes de Foucault (eddy currents), correntes que circulam em anéis fechados no próprio material. Por efeito de Joule, aquecem o condutor e representam perdas de energia. Em núcleos de transformadores e motores, este efeito é reduzido laminando o núcleo (finas chapas isoladas entre si em vez de um bloco maciço), o que corta os percursos das correntes induzidas. Por outro lado, o mesmo efeito é aproveitado de propósito em travões de indução e em fogões de indução, onde o aquecimento por correntes de Foucault é o objetivo.

Força de Laplace e motores

Um condutor percorrido por corrente I, colocado num campo magnético B, sofre uma força (Força de Laplace ou força de Lorentz sobre o condutor):

$$ F = B \cdot I \cdot L \cdot \sin\theta $$

onde L é o comprimento do condutor dentro do campo e θ o ângulo entre o condutor e o campo. É esta força que faz rodar o rotor de um motor elétrico: a corrente nos enrolamentos, dentro do campo do estator, gera um binário. É também a base de altifalantes (a bobina móvel dentro do campo do íman) e de instrumentos de medida analógicos.

Associação de bobines

Tal como resistências, as bobinas (indutâncias) combinam-se conforme a ligação, quando não há acoplamento magnético entre elas:

Quando as bobinas estão magneticamente acopladas (partilham o mesmo núcleo, como num transformador), a indutância mútua altera este cálculo, um caso à parte que sai do âmbito desta UC.

2. Sinais AC

A onda sinusoidal

$$ v(t) = V_p \cdot \sin(2\pi f t + \varphi) $$

Parâmetro Significado
Vp (amplitude/pico) valor máximo
Vpp (pico-a-pico) 2·Vp
Vrms (eficaz) Vp/√2 ≈ 0,707·Vp
f (frequência) ciclos por segundo (Hz)
T (período) 1/f
ω (pulsação) 2πf (rad/s)
φ (fase) deslocamento angular

Rede elétrica em Portugal: 230 V RMS, 50 Hz (Vp ≈ 325 V).

Valor eficaz (RMS)

$$ V_{rms} = \frac{V_p}{\sqrt{2}} $$

É a tensão DC que dissiparia a mesma potência numa resistência. É o valor que:

3. Reatância

Resistências têm R fixo. Condensadores e bobinas oferecem uma "resistência" dependente da frequência, chamada reatância (X, em ohm).

Reatância capacitiva

$$ X_C = \frac{1}{2\pi f C} $$

Reatância indutiva

$$ X_L = 2\pi f L $$

Desfasamento V-I

Mnemónica "ELI the ICE man":

4. Impedância

A oposição total ao AC, combinando resistência e reatâncias.

$$ Z = \sqrt{R^2 + (X_L - X_C)^2} $$

Notação complexa e fasorial

Z = R + j(X_L − X_C), onde j é a unidade imaginária. Permite somar impedâncias como números complexos:

Os fasores representam amplitude e fase de cada grandeza, simplificando a álgebra de circuitos AC.

5. Potência em AC

Como há desfasamento, distinguem-se três potências:

Potência Símbolo Unidade Significado
Aparente S VA V·I (total fornecido)
Ativa P W trabalho útil (P = S·cos φ)
Reativa Q var "vai-e-vem" em L/C (Q = S·sin φ)

Relação: S² = P² + Q² (triângulo de potências).

Fator de potência = cos φ = P/S. Ideal ≈ 1 (carga resistiva). Cargas indutivas (motores) baixam o fator de potência, o que exige compensação (bancos de condensadores) na indústria para não desperdiçar capacidade e evitar penalizações. A Lei de Joule (P = R·I²) explica onde essa energia ativa se dissipa em calor nos condutores e cargas resistivas; a componente reativa não realiza trabalho útil, mas continua a exigir corrente e a carregar cabos e transformadores.

Exemplo resolvido · compensação do fator de potência

Uma instalação consome P = 10 kW com um fator de potência indutivo cos φ1 = 0,7, à tensão de 230 V e f = 50 Hz. Pretende-se corrigir o fator de potência para cos φ2 = 0,95 com um banco de condensadores em paralelo.

  1. Ângulos: φ1 = arccos(0,7) ≈ 45,6°; φ2 = arccos(0,95) ≈ 18,2°.
  2. Potência reativa antes: Q1 = P · tan φ1 = 10 000 × tan(45,6°) ≈ 10 200 var.
  3. Potência reativa depois: Q2 = P · tan φ2 = 10 000 × tan(18,2°) ≈ 3290 var.
  4. Reativa a compensar: Qc = Q1 − Q2 ≈ 6910 var (fornecida pelo banco de condensadores).
  5. Capacidade necessária: C = Qc / (2πf · V²) = 6910 / (2π · 50 · 230²) ≈ 416 µF.

Depois da correção, a instalação continua a consumir a mesma potência ativa (10 kW), mas exige menos corrente da rede para o mesmo trabalho útil, o que reduz perdas nos cabos. Em Portugal, a energia reativa indutiva é faturada aos clientes em AT, MT e BTE quando tg φ ≥ 0,3 (cos φ abaixo de cerca de 0,96) nas horas fora de vazio: para deixar de a pagar, a compensação tem de levar o cos φ acima desse valor, pelo que 0,95 ainda fica no primeiro escalão.

6. Ressonância

Num circuito RLC existe uma frequência em que X_L = X_C (anulam-se):

$$ f_0 = \frac{1}{2\pi\sqrt{LC}} $$

Nessa frequência de ressonância:

A ressonância é a base de:

Fator de qualidade (Q) e largura de banda

Exemplo resolvido · Q e largura de banda

Um circuito ressonante tem f0 = 100 kHz e Q = 25.

  1. Largura de banda: BW = f0/Q = 100 000/25 = 4000 Hz = 4 kHz.
  2. Limites da banda: o pico estende-se aproximadamente entre f0 − BW/2 = 98 kHz e f0 + BW/2 = 102 kHz.
  3. Se o mesmo circuito tivesse Q = 100, a banda passaria a BW = 100 000/100 = 1000 Hz, um pico quatro vezes mais estreito, mais seletivo, mas também mais sensível a desvios de f0 causados por tolerância dos componentes.

7. Filtros

Circuitos RC/RL/RLC que selecionam frequências.

Tipo Deixa passar Bloqueia
Passa-baixo (LPF) baixas altas
Passa-alto (HPF) altas baixas
Passa-banda (BPF) uma faixa resto
Rejeita-banda (notch) tudo uma faixa

Frequência de corte (filtro RC de 1ª ordem):

$$ f_c = \frac{1}{2\pi R C} $$

É a frequência onde o sinal cai 3 dB (≈ 70,7% da tensão / metade da potência).

Aplicações

Diagrama de Bode

Gráfico do ganho (dB) e da fase em função da frequência (escala log). Mostra a frequência de corte, a inclinação (−20 dB/década por ordem) e a resposta do filtro de forma compacta.

Exemplo resolvido · filtro passa-baixo RC

Filtro RC de 1ª ordem com R = 1,6 kΩ e C = 100 nF.

  1. Frequência de corte: fc = 1/(2πRC) = 1/(2π · 1600 · 100×10⁻⁹) ≈ 995 Hz ≈ 1 kHz.
  2. Abaixo de fc (por exemplo 100 Hz): X_C é grande face a R, o sinal quase não é atenuado, o filtro deixa passar.
  3. Em fc: o sinal de saída cai −3 dB, cerca de 70,7% da amplitude de entrada, é o ponto convencionado como "corte".
  4. Acima de fc (por exemplo 10 kHz, uma década acima): a atenuação cresce cerca de −20 dB por década, o sinal fica cada vez mais fraco.

Um erro comum é trocar µF por nF na fórmula, o que desloca fc em três ordens de grandeza e faz o filtro cortar a frequência errada. O mesmo circuito, lido ao contrário (saída aos terminais da resistência em vez do condensador), transforma-se num filtro passa-alto com a mesma fc: é o que deixa passar o agudo do crossover de um tweeter.

8. Análise de circuitos RLC

RLC série

  1. Calcular X_L e X_C à frequência de trabalho.
  2. Z = √(R² + (X_L − X_C)²).
  3. I = V / Z (RMS).
  4. Tensões: V_R = R·I, V_L = X_L·I, V_C = X_C·I (atenção às fases, somam vetorialmente, não aritmeticamente).
  5. φ = arctan((X_L − X_C)/R).

RLC paralelo

Trabalha-se com admitância (Y = 1/Z) e correntes em cada ramo, somando vetorialmente; a ressonância dá impedância máxima.

Método prático

Exemplo resolvido · circuito RLC série

Circuito série com R = 50 Ω, L = 10 mH, C = 1 µF, alimentado a V = 5 Vrms e f = 1 kHz.

  1. Reatâncias à frequência de trabalho: X_L = 2πfL = 2π · 1000 · 0,01 ≈ 62,8 Ω X_C = 1/(2πfC) = 1/(2π · 1000 · 1×10⁻⁶) ≈ 159,2 Ω
  2. Impedância: Z = √(R² + (X_L − X_C)²) = √(50² + (62,8 − 159,2)²) = √(2500 + 9294) ≈ 108,6 Ω
  3. Corrente (RMS): I = V/Z = 5/108,6 ≈ 0,046 A = 46 mA
  4. Ângulo de fase: φ = arctan((X_L − X_C)/R) = arctan(−96,4/50) = arctan(−1,928) ≈ −62,6°

O sinal negativo de φ diz que o circuito é capacitivo a esta frequência (X_C > X_L): a corrente adianta-se à tensão. Se a frequência subisse até f0 = 1/(2π√(LC)) ≈ 1592 Hz, X_L igualaria X_C, φ passaria a 0° e Z cairia ao valor mínimo, R.

Erros comuns

9. Corrente alternada trifásica

Em transporte e distribuição de energia, e na maioria dos motores industriais, usa-se corrente alternada trifásica: três tensões sinusoidais da mesma amplitude e frequência, desfasadas 120° entre si.

Vantagens do sistema trifásico

Tensões simples e compostas

Um quadro elétrico doméstico português típico recebe uma fase (230 V), enquanto uma instalação industrial com motores trifásicos recebe as três fases e o neutro (230 V/400 V).

Cargas equilibradas e desequilibradas

Uma instalação trifásica é equilibrada quando as três fases alimentam cargas iguais (mesma impedância em cada fase): as correntes ficam com a mesma amplitude, desfasadas 120° entre si, e a corrente no neutro é praticamente nula. É desequilibrada quando as cargas por fase são diferentes (por exemplo, mais iluminação numa fase do que noutra), o que faz circular uma corrente apreciável pelo neutro e pode sobrecarregar uma fase enquanto as outras trabalham com folga. Em instalações elétricas procura-se distribuir as cargas monofásicas o mais equilibradamente possível pelas três fases.

10. Instrumentos e medição

Procedimento de resposta em frequência: injetar sinusoide de amplitude fixa, variar f, medir a amplitude de saída, traçar ganho vs f para identificar fc, banda, ressonância.

11. Segurança em AC

Síntese

Apêndice A · Fórmulas essenciais

Φ (fluxo magnético)     ε = -N·ΔΦ/Δt     F = B·I·L·senθ
Vrms = Vp/√2            T = 1/f          ω = 2πf
X_C = 1/(2πfC)          X_L = 2πfL
Z = √(R² + (X_L−X_C)²)  V = Z·I
φ = arctan((X_L−X_C)/R)
f0 = 1/(2π√(LC))        BW = f0/Q
fc(RC) = 1/(2πRC)
S = V·I   P = S·cosφ   Q = S·sinφ   S² = P²+Q²
U = √3·V (trifásico: composta vs simples)
ELI the ICE man (fases em L e C)

Apêndice B · Glossário

Bode. Gráfico ganho/fase vs frequência. Correntes de Foucault. Correntes induzidas num condutor maciço por fluxo variável, geram calor (perda). Fasor. Vetor que representa amplitude e fase de um sinal AC. Fator de potência. cos φ, razão P/S. Fluxo magnético. Quantidade de campo magnético que atravessa uma superfície. Histerese. Atraso da magnetização de um material face ao campo aplicado; a área do ciclo é energia perdida. Impedância (Z). Oposição total ao AC (R + reatâncias). Reatância (X). "Resistência" de C/L dependente da frequência. Ressonância. f onde X_L = X_C. RMS. Root Mean Square, valor eficaz. Trifásico. Sistema de três tensões sinusoidais desfasadas 120° entre si. Lei de Faraday. A f.e.m. induzida é proporcional à rapidez de variação do fluxo magnético. Lei de Lenz. A corrente induzida opõe-se sempre à variação de fluxo que a origina. Admitância (Y). Inverso da impedância (Y = 1/Z), usada em circuitos paralelo. Compensação do fator de potência. Correção de cos φ com bancos de condensadores, para reduzir a potência reativa pedida à rede.

Apêndice C · Recursos