Sebenta · Aplicar princípios de desenho técnico (UC01877)
- Introdução
- 1. Desenho técnico e normalização
- 2. Formatos de papel e organização da folha
- 3. Linhas no desenho técnico
- 4. Escalas no desenho técnico
- 5. Simbologia no desenho técnico
- 6. Projeções ortogonais
- 7. Projeções axonométricas e perspetiva
- 8. Cotagem
- 9. Toleranciamento
- 10. Requisitos de elaboração do desenho técnico
- 11. Desenvolvimento de produto e de projeto
- 12. Softwares de desenho assistido por computador
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a interpretar e a produzir desenho técnico de acordo com as normas internacionais e portuguesas em vigor. O desenho técnico é a linguagem gráfica comum a qualquer projeto, produto ou espaço, incluindo o mobiliário e os expositores usados em visual merchandising: define, com rigor absoluto, o que se vai fabricar antes de gastar um único material.
O percurso desta unidade curricular segue a lógica com que qualquer profissional aborda um desenho: primeiro os fundamentos da normalização (formatos de papel, linhas, escalas, símbolos), depois as formas de representar objetos tridimensionais (projeções ortogonais e axonométricas), a seguir o rigor dimensional (cotagem e toleranciamento), e por fim o enquadramento profissional: os requisitos de elaboração, o desenvolvimento de produto e os softwares de desenho assistido por computador.
Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar diferentes tipos de desenhos técnicos e visualizar produtos em desenho técnico, caracterizando a normalização, identificando as principais projeções, as características de desenvolvimento de projeto e os principais softwares de desenho assistido por computador.
1. Desenho técnico e normalização
O desenho técnico é a representação gráfica de um objeto, feita segundo regras fixas para que seja interpretada de forma inequívoca por qualquer profissional. Ao contrário do desenho artístico, aqui o objetivo não é a expressão pessoal, é a exatidão: duas pessoas, em duas empresas diferentes, têm de ler o mesmo desenho da mesma maneira.
Porque normalizar
Normalizar significa seguir regras comuns, definidas por organismos reconhecidos, em vez de cada um desenhar à sua maneira. A cadeia de normalização que se aplica em Portugal é a seguinte:
- ISO (International Organization for Standardization): define as normas técnicas internacionais.
- CEN (Comité Europeu de Normalização): adota as normas ISO à escala europeia.
- IPQ (Instituto Português da Qualidade): publica as normas nacionais NP, muitas vezes já como adoção direta de uma norma ISO ou europeia (identificadas, por exemplo, como NP EN ISO).
Um dos critérios de desempenho desta UC é precisamente caracterizar a normalização dos desenhos com as principais normas de desenho técnico. A tabela seguinte resume as normas trabalhadas ao longo desta sebenta.
| Norma | Assunto |
|---|---|
| ISO 216 / NP EN ISO 5457 | formatos de papel (série A) e organização da folha |
| ISO 128 | princípios gerais de representação, tipos de linha |
| ISO 5455 | escalas |
| ISO 5456 (partes 1 a 4) | métodos de projeção: ortogonal, axonométrica, central |
| ISO 129-1 | cotagem |
| ISO 286 | tolerâncias dimensionais (ajustamentos) |
| ISO 1101 | toleranciamento geométrico (forma, orientação, posição) |
Exemplo resolvido - identificar a norma aplicável
Um gabinete de projeto recebe um desenho de um cliente estrangeiro e precisa de confirmar se cumpre as normas usadas em Portugal. Que perguntas deve fazer, e a que norma corresponde cada uma?
Resolução, passo a passo:
- "O formato de papel e o cartucho seguem a disposição habitual?" - confronta-se com a NP EN ISO 5457.
- "As linhas ocultas estão a tracejado e os eixos a traço-ponto?" - confronta-se com a ISO 128.
- "A escala indicada no cartucho é uma das escalas normalizadas?" - confronta-se com a ISO 5455.
- "As vistas estão dispostas em 1º ou em 3º diedro?" - confronta-se com a ISO 5456-2.
- "As cotas e as tolerâncias estão completas e sem repetições?" - confronta-se com a ISO 129-1 e a ISO 286/1101.
Este exercício de verificação, norma a norma, é o que um técnico de desenho faz sempre que recebe um desenho de fora da empresa.
2. Formatos de papel e organização da folha
A série A (ISO 216)
A norma ISO 216 define os formatos de papel da série A. A regra de construção é simples e elegante: o formato A0 tem exatamente 1 m² de área, e cada formato seguinte obtém-se dobrando o anterior ao meio pelo lado maior, o que mantém sempre a mesma proporção entre lados: a razão √2 (aproximadamente 1,414).
| Formato | Dimensões (mm) | Área nominal (m²) |
|---|---|---|
| A0 | 841 × 1189 | 0,9999 |
| A1 | 594 × 841 | 0,4996 |
| A2 | 420 × 594 | 0,2495 |
| A3 | 297 × 420 | 0,1247 |
| A4 | 210 × 297 | 0,0624 |
Cada formato tem, ao nível nominal da norma, metade da área do anterior: 0,9999 → 0,4996 → 0,2495 → 0,1247 → 0,0624 m². Os valores da tabela não refletem essa divisão por dois de forma exata em todos os passos, porque as dimensões em milímetros são arredondadas (por exemplo, 841 ÷ 2 = 420,5 arredonda-se a 420 mm, por convenção da série). Essa aproximação só afeta a passagem do A0 para o A1 e do A1 para o A2; do A2 para baixo, as divisões por dois já caem em números inteiros de milímetros, pelo que a metade é exata também ao milímetro.
Exemplo resolvido - dobrar um A2 para obter o A3
Um técnico tem uma folha A2 (420 × 594 mm) e precisa de confirmar as dimensões do A3 sem consultar uma tabela.
Resolução:
- Dobrar a folha A2 ao meio, pelo lado maior (594 mm): 594 ÷ 2 = 297 mm.
- O lado que não foi dobrado mantém-se: 420 mm.
- O A3 resulta, assim, em 297 × 420 mm, exatamente o valor da tabela.
Este método de dobragem é também o motivo por que a proporção entre lados se mantém em toda a série: 420/297 ≈ 1,414 e 594/420 ≈ 1,414, a mesma razão √2.
NP EN ISO 5457: organização da folha
A norma NP EN ISO 5457, adoção portuguesa da norma europeia ISO 5457, define como se organiza o conteúdo dentro de cada formato de papel:
- Margens: espaço em branco à volta do desenho, tipicamente mais largo do lado destinado à encadernação.
- Moldura (quadro): linha que delimita a área útil do desenho, dentro das margens.
- Cartucho (legenda): bloco de informação obrigatório, situado no canto inferior direito da folha, com título do desenho, número/código, escala, nome do autor, data, formato e norma de projeção aplicada.
Este é um requisito direto de organização do desenho técnico, um dos treze conhecimentos do referencial desta UC.
3. Linhas no desenho técnico
A norma ISO 128 ("Technical drawings, General principles of presentation") estabelece os tipos de linha e o seu significado, para que qualquer contorno, eixo ou corte seja identificado apenas pela forma como a linha está traçada.
| Linha | Aspeto | Representa |
|---|---|---|
| Contínua grossa | ______ | arestas e contornos visíveis |
| Contínua fina | ______ | cotas, linhas de chamada, hachuras |
| Interrompida fina (tracejada) | _ _ _ _ | arestas e contornos ocultos |
| Traço-ponto fina | _ · _ · _ | eixos de simetria, centros de círculos |
| Traço-ponto grossa | _ · _ · _ | planos de corte, superfícies com requisito especial |
| Fina à mão livre / ziguezague | ~~~~ | limites de vista ou corte parcial |
A espessura da linha grossa é o dobro da linha fina: por exemplo, se a linha fina tiver 0,25 mm, a linha grossa terá 0,50 mm. Esta razão 2:1 mantém-se em toda a folha e é o que torna imediato distinguir, à vista, o contorno real do objeto das restantes anotações.
Regras de traçado e prioridade
Quando duas linhas coincidem no mesmo local do desenho, aplica-se uma ordem de prioridade, da mais para a menos importante:
- Contorno visível (contínua grossa).
- Contorno oculto (interrompida fina).
- Plano de corte (traço-ponto grossa).
- Eixo de simetria (traço-ponto fina).
- Linha de cota e de chamada (contínua fina).
As linhas de eixo prolongam-se ligeiramente para além do contorno da figura; as linhas de cota nunca coincidem com as arestas do objeto. Identificar os principais elementos de normalização no desenho técnico, nomeadamente as linhas, é uma das aptidões avaliadas nesta UC.
4. Escalas no desenho técnico
A escala é a relação entre a dimensão desenhada no papel e a dimensão real do objeto, escrita sempre como escala = dimensão no desenho : dimensão real. A norma ISO 5455 organiza as escalas normalizadas em três categorias.
| Categoria | Escalas normalizadas |
|---|---|
| Ampliação (desenho maior que o real) | 2:1 · 5:1 · 10:1 · 20:1 · 50:1 |
| Grandeza natural | 1:1 |
| Redução (desenho menor que o real) | 1:2 · 1:5 · 1:10 · 1:20 · 1:50 · 1:100 · 1:200 · 1:500 |
Escolhe-se uma escala de ampliação para objetos pequenos (um acessório, um parafuso) e uma escala de redução para objetos grandes (um edifício, uma montra completa, um armazém).
Exemplo resolvido - conversão numa escala de redução
Um expositor de loja mede 3,40 m de comprimento na realidade e vai ser representado à escala 1:20. Que comprimento ocupa no papel?
Resolução:
- Converter a medida real para milímetros, a mesma unidade em que se trabalha no desenho: 3,40 m = 3400 mm.
- Dividir pelo segundo número da escala: 3400 mm ÷ 20 = 170 mm.
- Verificar ao contrário: 170 mm × 20 = 3400 mm = 3,40 m. O cálculo confere.
O expositor de 3,40 m fica representado por um traço de exatamente 170 mm na folha.
Exemplo resolvido - conversão numa escala de ampliação
Um acessório de fixação de um expositor tem 4 mm de diâmetro real. Para ser cotado com clareza, é desenhado à escala de ampliação 10:1. Que diâmetro ocupa no papel?
Resolução:
- Na escala 10:1, cada milímetro real corresponde a 10 mm no papel.
- Diâmetro no papel = 4 mm × 10 = 40 mm.
- Verificação ao contrário: 40 mm ÷ 10 = 4 mm, o valor real de partida.
Se o mesmo acessório fosse desenhado a 20:1, o diâmetro no papel passaria a ser 4 mm × 20 = 80 mm: quanto maior o fator de ampliação, maior a peça no papel, para a mesma dimensão real.
5. Simbologia no desenho técnico
O desenho técnico usa símbolos curtos, colocados antes do valor da cota, para descrever a forma de um elemento sem ter de desenhar uma vista extra.
| Símbolo | Significado |
|---|---|
| Ø | diâmetro (secção circular) |
| R | raio |
| □ | lado de uma secção quadrada |
| chanfro (ex.: 2 × 45°) | aresta cortada a um ângulo definido |
| M | rosca métrica (ex.: M8) |
| profundidade (símbolo próprio) | profundidade de um furo ou rasgo |
Símbolos de projeção
No cartucho de cada desenho normalizado indica-se ainda, através de um símbolo com um tronco de cone representado em duas vistas, qual o método de projeção usado:
- 1º diedro (método europeu, designado E): o objeto fica entre o observador e o plano de projeção. É o método por defeito em Portugal e na Europa. No símbolo, a vista trapezoidal do tronco de cone fica à esquerda e os dois círculos concêntricos ficam à direita.
- 3º diedro (método americano, designado A): o plano de projeção fica entre o observador e o objeto. É o método por defeito nos Estados Unidos. No símbolo, é ao contrário: os círculos concêntricos ficam à esquerda e a vista trapezoidal fica à direita.
"E" e "A" são apenas os nomes dos métodos (europeu e americano), não algo que apareça desenhado no símbolo: o que se lê no cartucho é a posição relativa das duas vistas do tronco de cone.
Sem este símbolo, um desenho recebido do estrangeiro pode ser montado ao contrário por quem segue a convenção oposta.
6. Projeções ortogonais
A projeção ortogonal representa o objeto através de várias vistas planas, cada uma obtida por projeção perpendicular a uma das suas faces. As três vistas mais usadas são:
- Vista de frente (alçado principal): a face mais informativa, escolhida como referência.
- Vista de cima (planta): alinhada com a vista de frente, por cima ou por baixo consoante o método.
- Vista lateral (perfil): à direita ou à esquerda da vista de frente.
Caracterizar projeções ortogonais, isométricas, cilíndricas e em perspetiva é uma aptidão explícita do referencial. A norma ISO 5456-2 define como as vistas se dispõem à volta da vista de frente.
| 1º diedro (europeu) | 3º diedro (americano) | |
|---|---|---|
| Vista de cima | desenhada por baixo da de frente | desenhada por cima da de frente |
| Vista da direita | desenhada à esquerda da de frente | desenhada à direita da de frente |
| Uso habitual | Europa, Portugal | Estados Unidos, parte da Ásia |
Exemplo resolvido - posicionar as vistas em 1º diedro
Uma peça em L tem a vista de frente já desenhada. É preciso acrescentar a vista de cima e a vista da direita, seguindo o 1º diedro (o método usado em Portugal).
Resolução, passo a passo:
- Confirmar no cartucho que o desenho segue o 1º diedro (símbolo E).
- Colocar a vista de cima por baixo da vista de frente, alinhada verticalmente.
- Colocar a vista da direita à esquerda da vista de frente, alinhada horizontalmente.
- Verificar que as três vistas partilham as mesmas cotas de largura, altura e profundidade, sem contradições entre elas.
Um erro clássico neste passo é colocar a vista de cima por cima: essa disposição pertence ao 3º diedro, não ao 1º.
7. Projeções axonométricas e perspetiva
Quando se quer mostrar o objeto em três dimensões numa única vista, usa-se uma projeção axonométrica ou uma perspetiva, ambas cobertas pela norma ISO 5456, nas suas partes 3 e 4.
Projeção isométrica
- Os três eixos principais fazem 120° entre si.
- As arestas paralelas aos eixos mantêm-se paralelas no desenho (não há ponto de fuga).
- No desenho técnico corrente, as medidas transportam-se à escala real ao longo dos três eixos, para simplificar o traçado; a isometria rigorosa tem um pequeno fator de redução (cerca de 0,816), que esta convenção simplificada ignora deliberadamente.
Dimétrica, cilíndrica e perspetiva central
- Projeção dimétrica: dois dos três eixos partilham a mesma escala e o terceiro tem uma escala diferente; usa-se para destacar uma face específica do objeto.
- Projeção cilíndrica: os raios de projeção são paralelos entre si, tal como na isométrica e na dimétrica, sem serem necessariamente perpendiculares ao plano; inclui a chamada perspetiva cavaleira.
- Projeção central ou cónica (ISO 5456-4): os raios de projeção convergem num único ponto de vista, tal como o olho humano vê. É a perspetiva propriamente dita, muito usada em desenho de apresentação e em visual merchandising, para comunicar o aspeto final de um espaço ou de um expositor a um cliente.
A diferença essencial entre os dois grupos é esta: as projeções paralelas (isométrica, dimétrica, cilíndrica) não têm ponto de fuga; a perspetiva central tem sempre pelo menos um.
8. Cotagem
Cotar é indicar as dimensões reais do objeto no desenho, independentemente da escala usada para o desenhar. A norma ISO 129-1 define os elementos que compõem uma cota.
| Elemento | Função |
|---|---|
| Linha de chamada (extensão) | sai do contorno do objeto, com um pequeno afastamento |
| Linha de cota | paralela à dimensão a medir, terminada em setas |
| Seta/terminador | marca o início e o fim exatos da medida |
| Valor numérico | a dimensão real, por defeito em milímetros, sem indicar a unidade |
Regras de cotagem
- Cada dimensão cota-se uma única vez no conjunto do desenho; nunca se repete a mesma cota noutra vista.
- As cotas colocam-se, sempre que possível, fora do contorno do objeto.
- As linhas de cota não se cruzam entre si.
- As cotas relacionadas agrupam-se e alinham-se, para facilitar a leitura.
Exemplo resolvido - corrigir uma cotagem com erro
Um desenho de um painel retangular tem o comprimento total cotado como 1200 mm na vista de frente e, na vista de cima, o mesmo comprimento aparece cotado como 1195 mm. Como se resolve esta inconsistência?
Resolução:
- Identificar que se trata da mesma aresta, cotada duas vezes em vistas diferentes: isto já viola a regra de cotar uma única vez.
- Confirmar qual dos dois valores é o correto, medindo ou recalculando a partir do desenho de origem (por exemplo, a partir da soma das partes que compõem o comprimento).
- Remover uma das duas cotas repetidas e manter apenas a correta na vista mais adequada.
- Registar a correção no cartucho, com uma nova revisão do desenho.
Uma diferença de apenas 5 mm entre duas cotas da mesma medida é o tipo de erro que, levado à fábrica, obriga a refazer peças.
9. Toleranciamento
Toleranciamento dimensional (ISO 286)
Nenhuma peça é fabricada com uma medida perfeitamente exata: há sempre uma pequena margem de erro aceitável, a tolerância. A norma ISO 286 organiza essa margem através de:
- Cota nominal: a medida de referência (por exemplo, 20 mm).
- Desvio superior e desvio inferior: quanto a medida real pode variar acima e abaixo da nominal.
Exemplo resolvido - calcular os limites de uma cota tolerada
Um veio metálico de um mecanismo de expositor é cotado como Ø20 (+0,00 / −0,05). Quais os valores máximo e mínimo aceites em fábrica?
Resolução:
- A cota nominal é 20 mm.
- O desvio superior é +0,00: o valor máximo é 20 + 0,00 = 20,00 mm.
- O desvio inferior é −0,05: o valor mínimo é 20 − 0,05 = 19,95 mm.
- Qualquer peça produzida entre 19,95 mm e 20,00 mm é aceite; fora deste intervalo, é rejeitada.
Toleranciamento geométrico (ISO 1101)
Além da dimensão, a norma ISO 1101 controla a forma, orientação e posição de uma superfície, indicadas num quadro de tolerância ligado a ela por uma linha de chamada.
| Categoria | Exemplos |
|---|---|
| Forma | planeza, retilinidade, circularidade, cilindricidade |
| Orientação | paralelismo, perpendicularidade, inclinação |
| Posição | posição, concentricidade, simetria |
| Batimento | batimento circular, batimento total |
O quadro de tolerância indica o símbolo da característica, o valor máximo admitido e, quando aplicável, a referência (datum) a que a superfície se relaciona. Uma peça pode cumprir integralmente a tolerância dimensional (ISO 286) e ainda assim falhar a tolerância geométrica (ISO 1101), por exemplo se uma face que deveria ser plana sair ligeiramente empenada.
10. Requisitos de elaboração do desenho técnico
O referencial desta UC lista quatro requisitos de elaboração de um desenho técnico, todos avaliáveis de forma concreta:
- Qualidade: o desenho corresponde exatamente ao objeto pretendido, sem erros de representação.
- Precisão: as medidas, escalas e tolerâncias estão corretas e consistentes entre vistas.
- Legibilidade: o desenho lê-se sem esforço, com linhas, texto e símbolos de tamanho e tipo adequados.
- Organização: a folha segue a disposição normalizada (formato, cartucho, margens), e as vistas e cotas estão arrumadas de forma lógica.
Estes quatro requisitos não são independentes: um desenho com qualidade mas sem precisão engana quem o lê; um desenho preciso mas sem legibilidade obriga a um esforço de interpretação desnecessário; e ambos dependem de uma organização correta da folha. Rigor e sentido de organização, duas das atitudes avaliadas nesta UC, são a base do cumprimento simultâneo dos quatro requisitos.
11. Desenvolvimento de produto e de projeto
Identificar as principais características de desenvolvimento de projeto é um critério de desempenho desta UC. Um projeto de desenvolvimento de produto, incluindo o desenho técnico que o acompanha, segue geralmente seis fases:
- Objetivo: definir claramente o que se pretende obter.
- Planeamento: calendarizar tarefas, prazos e marcos.
- Alocação de recursos humanos: definir quem faz o quê, e com que competências.
- Execução e controlo: produzir o trabalho e acompanhar o progresso face ao planeado.
- Gestão de risco: identificar o que pode correr mal e como mitigar.
- Término: encerrar o projeto, entregar e documentar.
Exemplo resolvido - aplicar as fases a um projeto de expositor
Uma loja pede um novo expositor modular. Como se aplicam as seis fases a este projeto concreto?
Resolução:
- Objetivo: um expositor modular, desmontável, para um espaço de 2 m de frente.
- Planeamento: três semanas, com marcos em esboço, desenho técnico final e produção.
- Alocação de recursos humanos: um desenhador técnico, um marceneiro/serralheiro e um responsável de loja para validação.
- Execução e controlo: desenhar, rever com o cliente, produzir, comparar o executado com o desenho.
- Gestão de risco: risco identificado, atraso na entrega de material; mitigação, encomendar com margem de segurança.
- Término: entrega do expositor, do desenho técnico final e do dossiê de revisões.
O desenho técnico é, nesta sequência, o documento que nasce no planeamento e acompanha toda a execução: qualquer alteração ao produto obriga a rever o desenho e a registar uma nova revisão no cartucho.
12. Softwares de desenho assistido por computador
Identificar os principais softwares de desenho assistido por computador de acordo com a área de aplicação e o tipo de projeto é uma aptidão avaliada nesta UC.
| Tipo | Exemplos | Uso típico |
|---|---|---|
| CAD 2D | AutoCAD, LibreCAD | plantas, esquemas, desenhos técnicos planos |
| CAD 3D mecânico/paramétrico | SolidWorks, Autodesk Inventor, Fusion 360 | peças, produtos, mobiliário técnico |
| CAD de arquitetura / BIM | Revit, ArchiCAD, SketchUp | espaços, montras, lojas, edifícios |
| CAD livre e gratuito | FreeCAD, LibreCAD | aprendizagem, orçamentos reduzidos |
A escolha do software depende do tipo de projeto (uma peça isolada, um móvel, um espaço completo) e da área de aplicação (indústria, arquitetura, retalho e visual merchandising).
O fluxo de trabalho comum a qualquer software CAD
- Configurar o formato de folha, a escala e as normas do projeto.
- Desenhar/modelar o objeto, com as ferramentas de linhas, formas e camadas.
- Cotar e tolerar segundo as normas ISO 129-1 e ISO 286/1101.
- Rever com a equipa e corrigir.
- Exportar para o formato final (PDF, DWG, impressão).
Este fluxo é uma competência transferível entre programas: muda a ferramenta, não o raciocínio técnico que a norma exige.
Erros comuns
- Misturar métodos de projeção (1º e 3º diedro) no mesmo desenho, ou esquecer o símbolo no cartucho.
- Trocar os dois números da escala, lendo 1:100 como se fosse 100:1.
- Esquecer a conversão de unidades (metros para milímetros) antes de calcular uma escala.
- Repetir a mesma cota em vistas diferentes, com valores ligeiramente diferentes.
- Confundir tolerância dimensional (ISO 286) com geométrica (ISO 1101): uma peça pode ter a medida certa e a forma torta.
- Desenhar arestas ocultas com o mesmo tipo de linha das visíveis, tornando o desenho ilegível.
- Escolher o software errado para o tipo de projeto, por exemplo modelar um espaço tridimensional complexo apenas em CAD 2D.
Glossário
- Desenho técnico · representação gráfica normalizada de um objeto, para fabrico ou montagem.
- Norma · regra comum publicada por um organismo reconhecido (ISO, CEN, IPQ/NP).
- Cartucho (legenda) · bloco de informação obrigatório no canto inferior direito da folha.
- Escala · relação entre a dimensão no desenho e a dimensão real do objeto.
- 1º diedro / 3º diedro · métodos europeu e americano de disposição das vistas ortogonais.
- Projeção axonométrica · representação tridimensional com raios de projeção paralelos (ex.: isométrica).
- Perspetiva (projeção central) · representação tridimensional com raios de projeção convergentes num ponto de vista.
- Cota · valor numérico que indica a dimensão real de um elemento do desenho.
- Tolerância dimensional · margem admitida acima e abaixo da cota nominal (ISO 286).
- Toleranciamento geométrico · controlo da forma, orientação e posição de uma superfície (ISO 1101).
- CAD · Computer-Aided Design, desenho assistido por computador.
- BIM · Building Information Modeling, modelação de informação de um edifício ou espaço.
- Revisão · nova versão de um desenho técnico, registada no cartucho após uma alteração.
Síntese
O desenho técnico constrói-se em camadas sucessivas: primeiro a normalização (ISO/NP, formato de papel, cartucho), depois as linhas e a escala que definem como e a que tamanho se desenha, a seguir a simbologia e as projeções (ortogonais para rigor, axonométricas e perspetiva para visão de conjunto), e por fim o rigor dimensional através da cotagem e do toleranciamento, dimensional e geométrico. Tudo isto serve o desenvolvimento de um produto ou projeto real, do objetivo ao término, e é hoje produzido sobretudo em software CAD, escolhido de acordo com o tipo de projeto e a área de aplicação.
Exercícios resolvidos
1. Um cliente envia um desenho com o símbolo de projeção "A" no cartucho. Que método de projeção está a usar, e onde deve ficar a vista de cima em relação à de frente?
Resolução: o símbolo "A" corresponde ao 3º diedro (método americano). Nesse método, a vista de cima desenha-se por cima da vista de frente.
2. Uma sala de exposição mede 12,60 m de comprimento. Vai ser desenhada à escala 1:50. Que comprimento ocupa no papel?
Resolução: converter para milímetros, 12,60 m = 12 600 mm; dividir pela escala, 12 600 ÷ 50 = 252 mm. Verificação: 252 × 50 = 12 600 mm = 12,60 m. Confere.
3. Uma peça está cotada como Ø30 (+0,02 / −0,00). Quais os valores máximo e mínimo aceites?
Resolução: valor máximo = 30 + 0,02 = 30,02 mm; valor mínimo = 30 − 0,00 = 30,00 mm. A peça é aceite entre 30,00 mm e 30,02 mm.
4. Distingue projeção isométrica de perspetiva central quanto ao comportamento das linhas paralelas do objeto.
Resolução: na projeção isométrica (e nas restantes axonométricas), as linhas que são paralelas no objeto real mantêm-se paralelas no desenho, sem ponto de fuga. Na perspetiva central, os raios de projeção convergem num único ponto de vista, pelo que linhas paralelas no objeto parecem convergir no desenho, tal como o olho humano as vê.
5. Um desenho tem a mesma aresta cotada duas vezes, com valores de 850 mm e 855 mm. Qual a regra violada, e qual o primeiro passo para corrigir?
Resolução: viola-se a regra de que cada dimensão se cota uma única vez no desenho. O primeiro passo é confirmar, a partir do desenho de origem ou de um novo levantamento, qual dos dois valores é o correto, remover a cota repetida e registar a correção como uma nova revisão no cartucho.
6. Uma empresa vai desenhar um armário de loja completo e depois um puxador desse armário com muito detalhe. Que tipo de escala usa em cada caso?
Resolução: para o armário completo (objeto grande), usa-se uma escala de redução, por exemplo 1:20; para o puxador (peça pequena, detalhe importante), usa-se uma escala de ampliação, por exemplo 5:1 ou 10:1.