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UC · Unidade de Competência · UC01873

Sebenta · Recolher, armazenar e processar dados na prospeção de recursos minerais (UC01873)

Recolha de dados de campo, bases de dados, modelação de informação, Sistemas de Informação Geográfica e tipologia de depósitos
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Prospeção e Pesquisa de ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a gerir a informação de um projeto de prospeção de recursos minerais, desde o momento em que um dado nasce no terreno até à interpretação final num Sistema de Informação Geográfica (SIG). Um projeto de prospeção só vale o que valem os seus dados: uma descoberta geológica excelente, mal registada ou mal guardada, perde todo o seu valor. Pior: um dado errado que ninguém deteta pode levar a gastar dinheiro numa sondagem no sítio errado.

O percurso segue o ciclo real de um gabinete técnico. Primeiro entendemos o que é a prospeção, em que quadro legal decorre e que tipos de depósitos minerais existem. Depois vemos como se recolhem dados no terreno e como se georreferenciam no sistema oficial português. De seguida aprendemos a armazenar e organizar esses dados em bases de dados relacionais bem modeladas, a manusear software de gestão de informação e SIG, e por fim a processar, analisar, modelar e cruzar a informação para chegar a conclusões defensáveis, sempre com controlo de qualidade e segurança.

Objetivos de aprendizagem (referencial): recolher e armazenar dados da prospeção de recursos minerais; implementar e organizar bases de dados provenientes da prospeção; analisar e processar informação resultante da prospeção; interpretar e controlar essa informação; manusear software de gestão e Sistemas de Informação Geográfica; identificar diferentes tipos de depósitos de recursos minerais; e modelar a informação proveniente da prospeção.

Como estudar com esta sebenta: lê cada capítulo e refaz sozinho, com papel e calculadora, cada exemplo resolvido. As contas são simples (médias, distâncias, conversões de unidades), mas é nelas que se apanham os erros mais caros. No fim, resolve os exercícios sem olhar para a resolução.

1. A prospeção de recursos minerais

A prospeção é o conjunto de trabalhos técnicos e científicos que procura, localiza e caracteriza depósitos de recursos minerais com interesse económico, antes de se avançar para a exploração e extração. A legislação portuguesa fala em prospeção e pesquisa: a prospeção procura indícios, a pesquisa caracteriza o depósito encontrado. Um recurso mineral só se torna um projeto de mina depois de um longo trabalho que reduz a incerteza sobre onde está, quanto existe e com que qualidade.

O trabalho divide-se em duas frentes que se complementam:

O Técnico de Prospeção e Pesquisa de Recursos Minerais apoia geólogos e engenheiros de minas sobretudo na segunda frente: recolher e armazenar dados com rigor, implementar e organizar bases de dados, e analisar e processar a informação para apoiar as decisões técnicas do projeto. O contexto de trabalho definido no referencial é o gabinete técnico.

Fases de um projeto de prospeção

Fase Objetivo Dados típicos recolhidos Escala típica
Reconhecimento identificar áreas de interesse bibliografia, cartografia geológica, imagens de satélite, bases de dados públicas regional (dezenas a centenas de km²)
Prospeção geral delimitar zonas anómalas sedimentos de corrente, geofísica aérea ou terrestre, cartografia local (alguns km²)
Prospeção de pormenor caracterizar o alvo malhas de solos, trincheiras, sondagens, primeiros modelos alvo (centenas de metros)
Avaliação decidir se o projeto avança sondagens em malha, ensaios, cálculo de recursos, estudos de viabilidade depósito

Em todas as fases repete-se o mesmo ciclo de gestão de informação: recolher, registar, armazenar, processar e interpretar. A quantidade de dados cresce de fase para fase: um reconhecimento pode ter umas dezenas de amostras, uma avaliação tem dezenas de milhares de metros de sondagem e centenas de milhares de resultados analíticos. É por isso que uma folha de cálculo que chegava no início deixa de chegar mais tarde.

A distinção que interessa ao técnico de dados não é a profundidade nem o tamanho da exploração: é jurídica.

Conceito O que é Regime Exemplo
Depósitos minerais ocorrências de minerais com interesse económico (minérios metálicos, lítio, urânio, sal-gema, entre outros) pertencem ao domínio público do Estado; Lei n.º 54/2015 (bases do regime dos recursos geológicos) e Decreto-Lei n.º 30/2021, que a regulamenta; direitos atribuídos por contrato com o Estado minas de Neves-Corvo, Panasqueira, Aljustrel
Massas minerais rochas e ocorrências minerais sem as características dos depósitos (granito, calcário, mármore, areias para construção) propriedade privada do dono do terreno; exploradas em pedreiras, regime do Decreto-Lei n.º 270/2001 pedreiras de granito, de calcário, de mármore

As entidades públicas que o técnico encontra no dia a dia são duas:

Para o técnico de gabinete, isto tem uma consequência direta: os dados de um projeto têm de ser organizados de forma a poderem ser entregues e auditados (relatórios à entidade licenciadora, auditorias de investidores), e a fase de reconhecimento começa quase sempre por consultar as bases de dados públicas do LNEG antes de pôr os pés no terreno.

2. Tipologia de depósitos minerais

Um depósito mineral é uma concentração natural de um ou mais minerais, num volume de rocha ou sedimento, com potencial valor económico. Conhecer a tipologia de um depósito é essencial porque condiciona todo o resto do trabalho: que elementos analisar, que dados recolher, que forma esperar para o corpo mineralizado e como organizar e interpretar a informação.

Recurso, reserva e teor

Três palavras que se usam todos os dias e que não são sinónimos:

O técnico de dados trabalha sobretudo antes destas estimativas, mas é a qualidade da sua base de dados que as sustenta.

Classificação pela génese

Principais tipos de depósitos

Tipo Como se forma Forma típica Assinatura nos dados Exemplos
Magmático segregação de minerais a partir de um magma em arrefecimento camadas ou massas dentro de rochas ígneas máficas e ultramáficas cromite, sulfuretos de níquel e cobre; anomalias magnéticas e gravimétricas complexos de Bushveld (África do Sul) e Sudbury (Canadá)
Hidrotermal filoniano fluidos quentes depositam minerais em fraturas filões (corpos tabulares, estreitos e extensos) quartzo, sulfuretos, alteração das rochas encaixantes; teores muito variáveis em pouca distância Panasqueira (volfrâmio e estanho, com cobre)
Pórfiro fluidos associados a intrusões graníticas pouco profundas grandes volumes de rocha com rede de veios finos, teores baixos e regulares cobre e molibdénio (por vezes ouro); zonas de alteração concêntricas grandes minas de cobre dos Andes (Chile, Peru)
Sulfuretos maciços vulcanogénicos (VMS) precipitação de sulfuretos no fundo do mar, junto a centros vulcânicos lentículas maciças de sulfuretos, com zona de alimentação por baixo pirite abundante, cobre, zinco, chumbo, prata; anomalias gravimétricas e elétricas Faixa Piritosa Ibérica: Neves-Corvo (cobre, zinco e estanho), Aljustrel (zinco, cobre e chumbo)
Pegmatítico cristalização final de magmas graníticos ricos em elementos raros filões e massas de cristais grandes lítio (espodumena, lepidolite, petalite), estanho, tântalo, feldspato aplito-pegmatitos com lítio do Barroso
Sedimentar deposição em bacias sedimentares camadas extensas estratificação regular; teores contínuos ao longo da camada ferro de Moncorvo, sal-gema de Loulé, carvão do Pejão
Placer concentração mecânica de minerais densos por rios ou ondas leitos de cascalho em vales e praias minerais pesados no concentrado de bateia: ouro, cassiterite, volframite explorações históricas de ouro e estanho aluvionar no Norte
Laterítico / supergénico meteorização intensa lixivia uns elementos e concentra outros manto superficial, zonas de oxidação sobre o depósito primário óxidos de ferro (chapéu de ferro ou gossan), enriquecimento em profundidade lateritos de níquel e bauxite (regiões tropicais); gossans da Faixa Piritosa

A tabela não é para decorar de uma vez: é para voltares a ela sempre que um conjunto de dados te obrigar a perguntar "que depósito estamos a procurar?".

Classificação pelo tipo de recurso

Categoria Exemplos Uso típico
Metálicos ouro, cobre, zinco, estanho, volfrâmio, lítio, ferro indústria, eletrónica, baterias, construção
Não metálicos / industriais quartzo, feldspato, caulino, argilas, sal-gema cerâmica, vidro, indústria química
Rochas ornamentais e agregados granito, mármore, calcário, areias construção (geralmente massas minerais, em pedreira)
Energéticos carvão, urânio produção de energia

Porque é que a tipologia muda a base de dados

Se o alvo é... ... a base de dados precisa de Unidades típicas
filão de volfrâmio e estanho espessura real do filão, atitude (direção e inclinação), elementos W, Sn, Cu, As % ou ppm
VMS litologia vulcânica detalhada, % de sulfuretos, Cu, Zn, Pb, Ag, Au, densidade % para metais base, g/t para Ag e Au
pegmatito com lítio mineralogia (espodumena, lepidolite, petalite), Li expresso como Li₂O % Li₂O
placer volume de cascalho, peso de concentrado, contagem de pintas de ouro g/m³
ouro filoniano Au em g/t ou ppb, elementos farejadores (As, Sb, Bi) g/t, ppb

Exemplo resolvido: escolher o método pelo tipo de depósito

Situação: existe suspeita de um depósito aluvionar de estanho num vale, e de um filão de quartzo com volfrâmio numa vertente próxima.

  1. Para o placer: a recolha faz-se por poços ou sondagens rasas nos cascalhos e por bateia (lavagem manual), procurando minerais densos concentrados no leito e nos terraços do rio.
  2. Para o filão hidrotermal: a recolha faz-se por amostragem de rocha em afloramento e em trincheira, perpendicular ao filão, e, se justificado, por sondagem com recuperação de testemunho (coroa diamantada) que atravesse o filão em profundidade.
  3. Em ambos os casos, cada amostra recebe um identificador único, coordenadas, sistema de referência e a descrição geológica.
  4. Os dois conjuntos entram na mesma base de dados do projeto, mas os atributos diferem: para o placer interessa o volume de cascalho e o peso de concentrado; para o filão, a espessura, a atitude e o teor.

Conclusão: reconhecer o tipo de depósito não é um exercício académico, é o que determina o desenho da recolha e da base de dados.

Exemplo resolvido: converter Li em Li₂O

Situação: o laboratório entrega um resultado de lítio de 6 000 ppm Li, mas o projeto reporta em % Li₂O.

  1. Passar ppm a percentagem: 1 % = 10 000 ppm, logo 6 000 ppm = 0,60 % Li.
  2. O fator de conversão resulta das massas molares: Li₂O tem 2 × 6,94 + 16,00 = 29,88 g/mol, dos quais 13,88 g são lítio. Fator = 29,88 ÷ 13,88 ≈ 2,153.
  3. 0,60 % Li × 2,153 ≈ 1,29 % Li₂O.

Conclusão: a coluna da base de dados tem de dizer explicitamente se guarda Li ou Li₂O. Misturar os dois na mesma coluna é um erro de mais de duas vezes no teor.

3. Recolher dados no campo

A recolha de dados de prospeção combina vários métodos complementares, cada um produzindo um tipo de informação diferente, com necessidades próprias de registo.

Método O que produz Tipo de dado para a base Geometria no SIG
Cartografia geológica litologias, contactos, falhas, atitudes (direção e inclinação) observações descritivas e medições estruturais pontos, linhas, polígonos
Geoquímica de sedimentos de corrente teores em sedimento fino de linhas de água resultados analíticos por amostra pontos (e a bacia a montante, em polígono)
Geoquímica de solos teores em solo, em malha regular resultados analíticos por amostra pontos em malha
Amostragem de rocha teores em afloramento, trincheira ou galeria resultados analíticos, com comprimento de amostra em canal pontos ou linhas
Sondagens geologia e teores em profundidade colar, desvios, intervalos de litologia e de amostra pontos (colar) e traço 3D
Geofísica propriedades físicas: magnetismo, gravimetria, resistividade, radiometria leituras em pontos, perfis ou grelhas pontos, linhas, raster

Amostragem de sedimentos de corrente

É o método clássico de prospeção geral: o sedimento fino de uma linha de água representa, de forma aproximada, a rocha de toda a bacia hidrográfica a montante do ponto amostrado. Regras de campo que o técnico tem de conhecer, porque se refletem nos dados:

No gabinete, cada ponto de sedimento fica associado ao polígono da sua bacia de drenagem, e é essa bacia que se "pinta" quando a amostra é anómala.

Malhas de amostragem

Na prospeção de pormenor, os solos amostram-se muitas vezes em malha regular: linhas paralelas a um espaçamento fixo, com pontos a intervalos fixos ao longo de cada linha. O técnico prepara a malha no SIG, exporta os pontos para o recetor GNSS e recebe de volta as amostras.

Exemplo resolvido: contar os pontos de uma malha

Situação: uma área retangular de 2 000 m (Este-Oeste) por 1 500 m (Norte-Sul) vai ser amostrada numa malha de 100 m × 100 m, com um ponto em cada nó, incluindo os limites.

  1. Intervalos na direção Este-Oeste: 2 000 ÷ 100 = 20 intervalos, logo 21 nós por linha (há sempre mais um nó do que intervalos).
  2. Intervalos na direção Norte-Sul: 1 500 ÷ 100 = 15 intervalos, logo 16 linhas.
  3. Número de pontos de amostragem: 21 × 16 = 336 nós.
  4. Número de células da malha (quadrados de 100 m × 100 m): 20 × 15 = 300 células, que cobrem 3 km².
  5. Se o plano de controlo de qualidade previr, por exemplo, uma amostra de controlo por cada 20 amostras de rotina, somam-se 336 ÷ 20 = 16,8, arredondado para 17 amostras de controlo, e o lote enviado ao laboratório tem 353 amostras.

Conclusão: confundir nós com células é um erro frequente que faz faltar 36 amostras no orçamento e no número de sacos levados para o campo.

Sondagens

As sondagens são a única forma de ver diretamente a geologia em profundidade, e são o dado mais caro de um projeto.

Os dados de uma sondagem organizam-se sempre da mesma forma, e é esta estrutura que a base de dados vai reproduzir:

Conjunto de dados Conteúdo Uma linha por...
Colar (boca do furo) identificador, coordenadas, cota, azimute e inclinação iniciais, profundidade final, datas furo
Desvios (survey) profundidade da medição, azimute, inclinação medição ao longo do furo
Litologia profundidade "de" e "até", código de litologia, alteração, descrição intervalo geológico
Amostras identificador da amostra, "de" e "até", tipo de amostra intervalo amostrado
Ensaios identificador da amostra, elemento, resultado, unidade, método, certificado resultado analítico

Também se registam a recuperação do testemunho (comprimento recuperado ÷ comprimento furado, em %) e o RQD, índices da qualidade do maciço rochoso.

Exemplo resolvido: recuperação de testemunho

Situação: numa manobra de 3,00 m (de 45,00 m a 48,00 m) recuperaram-se 2,64 m de testemunho.

  1. Recuperação = 2,64 ÷ 3,00 × 100 = 88 %.
  2. Se o intervalo de 45,00 m a 48,00 m for mineralizado, os 0,36 m perdidos podem corresponder precisamente à rocha mais fraturada e mineralizada.
  3. Regista-se a recuperação na tabela de intervalos; uma recuperação baixa é um alerta de que o teor desse intervalo pode não ser representativo.

A ficha de campo e os metadados obrigatórios

Cada elemento recolhido (amostra, ponto de observação, furo) só é útil ao gabinete técnico se vier acompanhado de metadados, os dados sobre o próprio dado:

Uma amostra sem estes metadados chega ao gabinete como um número isolado, sem história e sem valor para a análise.

Exemplo resolvido: preencher uma ficha de campo

Situação: foi recolhida uma amostra de rocha alterada, com sulfuretos visíveis, num afloramento junto a uma estrada.

  1. Atribuir o identificador segundo a convenção do projeto, por exemplo PR23-ROC-014 (projeto, ano, tipo de amostra, número sequencial). Os identificadores são preparados antes da campanha, em etiquetas pré-impressas, para evitar repetições.
  2. Registar a coordenada, o sistema de coordenadas configurado no recetor GNSS e a precisão indicada pelo aparelho.
  3. Anotar a litologia observada (ex.: granito alterado, com veios de quartzo) e a estrutura próxima (ex.: fratura com direção N-S).
  4. Anotar que a amostra foi recolhida junto a uma estrada: é um possível contaminante, que tem de ficar escrito para quem interpretar o resultado.
  5. Fotografar o afloramento e a amostra, com o nome do ficheiro de imagem associado ao identificador da amostra.
  6. Registar a data e o operador, e enviar a amostra para o laboratório com uma guia de remessa que repete o identificador.

Conclusão: o identificador único é o fio que liga a amostra física, a ficha de campo, a fotografia e, mais tarde, o resultado laboratorial na base de dados.

4. Georreferenciação e sistemas de coordenadas

Georreferenciar é atribuir a um ponto uma posição exata e inequívoca na superfície da Terra, num sistema de coordenadas definido e documentado. Em prospeção, quase todas as perguntas são espaciais ("onde está a anomalia?", "este furo atravessa aquele filão?"), por isso um erro de coordenadas é um erro de interpretação.

Três ideias que não se podem confundir

O sistema oficial em Portugal

Território Datum Coordenadas planas (projeção) Código EPSG
Portugal continental ETRS89 PT-TM06/ETRS89 (projeção Transversa de Mercator; coordenadas M e P em metros) 3763
Açores e Madeira PTRA08 projeção UTM do respetivo fuso varia com o arquipélago
Coordenadas geográficas ETRS89 ETRS89 nenhuma (latitude e longitude) 4258
Recetores GNSS, por defeito WGS84 nenhuma (latitude e longitude) 4326

O ETRS89 é o datum; o PT-TM06 é a projeção. Dizer "o datum PT-TM06" é um erro de conceito. O código EPSG é o número que identifica o sistema dentro do software de SIG e deve ficar registado nos metadados de cada camada.

Dados antigos: os sistemas que ainda aparecem

Relatórios e sondagens de décadas anteriores estão muitas vezes noutros sistemas: Datum 73 e Datum Lisboa, em projeção Hayford-Gauss, ou o ED50 em UTM. As coordenadas destes sistemas não coincidem com as de ETRS89, e as diferenças podem chegar a dezenas ou centenas de metros, o bastante para pôr um furo fora do filão que atravessou. A conversão faz-se no SIG com as transformações oficiais (grelhas de transformação no formato NTv2, publicadas para Portugal), nunca somando uma diferença "à mão".

Como funciona o GNSS

GNSS é o nome genérico dos sistemas de posicionamento por satélite (GPS, Galileo, GLONASS, BeiDou). O recetor mede o tempo que o sinal de cada satélite demora a chegar e converte-o numa distância (pseudodistância). Com as distâncias a pelo menos quatro satélites, calcula a posição e corrige o erro do seu relógio. É um método de trilateração (por distâncias), não de triangulação (que mediria ângulos).

Modo de posicionamento Precisão horizontal típica Uso em prospeção
Recetor de mão, autónomo alguns metros pontos de reconhecimento, sedimentos de corrente
Com correção EGNOS (sistema europeu de aumento por satélite) da ordem de 1 a 3 metros amostras de solo em malha larga
Diferencial / RTK (com estação de referência ou rede de estações permanentes) centimétrica colares de sondagem, limites, levantamentos topográficos
Estação total (topografia clássica) centimétrica a milimétrica levantamento de pormenor, galerias

Precisão e exatidão

Um aparelho pode ser preciso e pouco exato (dá sempre o mesmo valor, mas desviado) ou o contrário. O método e a precisão de cada coordenada têm de ficar registados junto dela, porque condicionam a confiança que se pode depositar num furo ou num limite.

Exemplo resolvido: distância entre dois pontos em PT-TM06

Situação: o colar do furo A está em M = −18 250,0 m, P = −95 600,0 m e o do furo B em M = −17 890,0 m, P = −95 120,0 m, ambos em PT-TM06/ETRS89.

  1. Diferença em M: −17 890,0 − (−18 250,0) = 360,0 m (B está 360 m para Este de A).
  2. Diferença em P: −95 120,0 − (−95 600,0) = 480,0 m (B está 480 m para Norte de A).
  3. Distância horizontal: √(360² + 480²) = √(129 600 + 230 400) = √360 000 = 600,0 m.

As coordenadas em PT-TM06 podem ser negativas: a origem da projeção fica no centro do continente, e os pontos a Oeste ou a Sul dela têm M ou P negativos. Não é erro, e não se "corrige" tirando o sinal.

Conclusão: só se podem fazer estas contas com coordenadas planas no mesmo sistema. Com latitude e longitude em graus, a mesma conta não dá metros.

Exemplo resolvido: integrar um furo de um relatório antigo

Situação: um relatório dos anos 80 apresenta a localização de um furo, sem indicar o sistema de coordenadas.

  1. Procurar o sistema no próprio relatório (legenda do mapa, anexos) ou nos metadados do ficheiro. A ordem de grandeza dos números ajuda: coordenadas de um sistema antigo e de PT-TM06 para o mesmo lugar têm valores claramente diferentes.
  2. Converter para PT-TM06/ETRS89 no SIG, com a transformação oficial adequada ao sistema de origem.
  3. Comparar a posição convertida com elementos verificáveis: vestígios do furo no terreno, fotografia aérea, caminhos ou plataformas referidos no relatório.
  4. Registar na base de dados o sistema original, as coordenadas originais, as convertidas e a transformação usada. Se a posição não bater certo, marcar o registo como posição duvidosa em vez de o aceitar sem verificação.

Conclusão: nunca se assume que uma coordenada está no sistema certo; confirma-se sempre a origem antes de a cruzar com dados novos, e guarda-se o valor original.

5. Registo e armazenamento de dados

Tradicionalmente os dados de campo eram registados em cadernos e fichas de papel, sendo depois transcritos no gabinete. Hoje, a tendência é registar digitalmente desde o terreno, reduzindo transcrições e erros:

A regra de ouro do armazenamento é: registar o dado uma vez, na fonte, e nunca voltar a transcrevê-lo à mão. Cada transcrição manual é uma nova oportunidade de introduzir um erro. A segunda regra é: os ficheiros originais nunca se editam. O ficheiro do laboratório e a exportação do formulário de campo guardam-se tal como chegaram, numa pasta de dados brutos; as correções fazem-se na base de dados, com registo.

Formatos de ficheiro

Formato Tipo Uso típico Cuidados
CSV tabela em texto simples trocar dados entre programas, ficheiros de laboratório indicar separador, codificação (UTF-8) e se a vírgula é separador decimal ou de campos
Folha de cálculo (.xlsx, .ods) tabela listas de trabalho, relatórios não serve de base de dados; cuidado com conversões automáticas de datas e de códigos
Base de dados (ficheiro ou servidor) tabelas relacionadas o projeto completo cópias de segurança e controlo de acessos
GeoPackage (.gpkg) vetorial e raster, num único ficheiro formato aberto recomendado para projetos de SIG um só ficheiro pode conter várias camadas e tabelas
Shapefile (.shp) vetorial formato antigo, ainda muito usado para trocar dados é um conjunto de vários ficheiros (.shp, .shx, .dbf, .prj) que viajam juntos; nomes de campo limitados a 10 caracteres
GeoTIFF (.tif) raster georreferenciado modelos de elevação, grelhas geofísicas, superfícies interpoladas guarda o sistema de coordenadas dentro do ficheiro
Imagem / PDF documento fotografias de campo e de testemunhos, certificados, relatórios nome do ficheiro ligado ao identificador

Um shapefile enviado sem o ficheiro .prj chega sem sistema de coordenadas: é um dos problemas mais comuns na troca de dados.

Valores abaixo do limite de deteção

Todo o método analítico tem um limite de deteção (LD): abaixo dele, o laboratório não consegue distinguir o elemento do zero. O resultado vem escrito como "<5" (menor que 5 ppm, por exemplo). Este caso tem regras próprias:

Situação Como se regista Porquê
Resultado abaixo do LD "<LD" com o valor do limite (ex.: "<5"), num campo de texto ou com um indicador próprio preserva a informação original
Valor numérico para cálculo uma convenção documentada, por exemplo metade do LD (2,5 para "<5") permite calcular médias e mapas
Amostra não analisada para esse elemento vazio (nulo), com a razão não é o mesmo que "não tem o elemento"
Resultado igual a zero quase nunca existe em geoquímica um zero na base de dados é, em regra, um erro de conversão

Nunca se regista um "<LD" como zero, nem como vazio indistinto: zero diz "não tem", vazio diz "não sabemos", e "<LD" diz "tem menos do que X". São três informações diferentes. E se o limite de deteção mudar entre campanhas (outro laboratório, outro método), a convenção passa a dar valores diferentes para o mesmo "nada", o que tem de ser tido em conta ao juntar os dados.

Unidades: conversões que se fazem todos os dias

De Para Regra
% ppm × 10 000 (1 % = 10 000 ppm)
ppm g/t igual (1 ppm = 1 g/t)
ppb ppm (ou g/t) ÷ 1 000 (1 000 ppb = 1 ppm)
g/t oz/t (onça troy por tonelada) ÷ 31,1035

Exemplo resolvido: harmonizar unidades antes de importar

Situação: dois laboratórios enviam resultados para o mesmo projeto. O laboratório A dá o cobre em % e o ouro em ppb; o laboratório B dá o cobre em ppm e o ouro em g/t. A base de dados guarda Cu em ppm e Au em g/t.

  1. Cobre de A, 0,45 %: 0,45 × 10 000 = 4 500 ppm.
  2. Ouro de A, 850 ppb: 850 ÷ 1 000 = 0,85 g/t.
  3. Cobre de B, 3 200 ppm: já está em ppm, fica 3 200 ppm.
  4. Ouro de B, 1,2 g/t: já está em g/t, fica 1,2 g/t.
  5. Ouro de A, "<5 ppb": regista-se "<5 ppb" no campo original e, se a convenção for metade do LD, 2,5 ppb = 0,0025 g/t no campo de cálculo.

Conclusão: a unidade é um campo da base de dados, não uma suposição. Um teor sem unidade não se importa.

Organização de pastas e convenção de nomes

Uma boa organização implica uma estrutura de pastas fixa por projeto, igual em todos os projetos da empresa, e uma convenção de nomes aplicada sem exceções.

PR23_Serra/
  01_bruto/        dados tal como chegaram (laboratório, GNSS, formulários); só leitura
  02_base_dados/   a base de dados do projeto
  03_sig/          projeto de SIG, GeoPackages, rasters
  04_fotografias/  PR23-ROC-014_afloramento.jpg ...
  05_relatorios/   relatórios e certificados em PDF
  06_documentos/   licenças, planos, correspondência

Boas regras para nomes de ficheiros: datas no formato ano-mês-dia (2026-03-14), que ordenam corretamente; sem espaços nem acentos; o identificador da amostra ou do furo sempre no início do nome.

6. Bases de dados relacionais

Uma base de dados organiza informação de forma estruturada, permitindo guardar, procurar, relacionar e atualizar dados com fiabilidade. Uma base de dados relacional guarda a informação em tabelas ligadas entre si por identificadores, e é gerida por um sistema de gestão de bases de dados (SGBD), que impõe regras que uma folha de cálculo não impõe.

Conceitos fundamentais

Relações entre tabelas

Relação Significado Exemplo em prospeção
Um para muitos (1:N) um registo de A liga-se a vários de B um furo tem muitos intervalos de amostra; um certificado tem muitas amostras
Muitos para muitos (N:M) vários de A ligam-se a vários de B uma amostra é analisada para vários elementos e cada elemento é analisado em muitas amostras
Um para um (1:1) a cada registo de A corresponde no máximo um de B pouco usada; por exemplo, separar dados confidenciais de um furo numa tabela à parte

Uma relação muitos para muitos resolve-se com uma tabela intermédia. No exemplo acima, essa tabela é precisamente a tabela de ensaios: cada linha junta uma amostra, um elemento e o resultado.

Furo (1) ──── (N) Amostra (1) ──── (N) Ensaio (N) ──── (1) Elemento

Repara no erro que é fácil cometer: dizer que "uma amostra tem uma análise" (1:1). Na realidade, uma amostra tem muitos resultados: um por elemento, e às vezes mais do que um para o mesmo elemento (repetição, outro método, laboratório de controlo). Por isso a relação Amostra–Ensaio é de um para muitos.

Validação na entrada: listas fechadas e regras

A melhor correção de um erro é impedir que ele entre. Um SGBD permite:

O dicionário de dados

O dicionário de dados documenta cada campo: nome, significado, tipo, unidade, obrigatoriedade e valores aceites. É o documento que permite a outra pessoa, anos depois, perceber a base de dados.

Tabela Campo Tipo Unidade Obrigatório Regra
furo id_furo texto · sim chave primária; formato PR23-SD-000
furo m, p decimal m sim PT-TM06/ETRS89
furo cota decimal m sim altitude ortométrica
furo azimute decimal graus sim 0 a 360
furo inclinacao decimal graus sim −90 a 0
furo prof_final decimal m sim maior que 0
amostra id_amostra texto · sim chave primária; único no projeto
amostra id_furo texto · sim (sondagem) chave estrangeira para furo
amostra de, ate decimal m sim (sondagem) de < ate ≤ prof_final
ensaio id_amostra, elemento, metodo texto · sim chave estrangeira; lista fechada de elementos e métodos
ensaio valor_original texto · sim tal como no certificado ("<5", "0,45")
ensaio valor_num decimal ver unidade não convenção documentada para "<LD"
ensaio unidade texto · sim lista fechada: ppm, ppb, %, g/t
ensaio certificado texto · sim número do certificado do laboratório

Consultar a base de dados

As bases de dados relacionais consultam-se com SQL, uma linguagem de pedidos. Não é preciso ser programador para ler consultas simples:

SELECT a.id_amostra, a.de, a.ate, e.valor_num
FROM amostra a
JOIN ensaio e ON e.id_amostra = a.id_amostra
WHERE a.id_furo = 'PR23-SD-004'
  AND e.elemento = 'Cu'
ORDER BY a.de;

Lê-se assim: "dá-me as amostras do furo PR23-SD-004, com o seu intervalo e o resultado de cobre, ordenadas por profundidade". O JOIN é o que junta duas tabelas pela chave comum. Os programas de SIG e muitos programas de gestão fazem estas consultas por trás de janelas e botões, mas o raciocínio é o mesmo.

7. Modelação de informação

"Modelar informação" tem dois sentidos nesta unidade, e ambos contam:

  1. Modelar os dados: desenhar a estrutura da base de dados (tabelas, campos, relações) antes de introduzir o primeiro dado real.
  2. Modelar o depósito: transformar os dados organizados em representações que ajudam a decidir: secções, mapas interpolados, superfícies e modelos tridimensionais.

Modelar os dados: o modelo entidade-relação

O modelo entidade-relação representa as entidades (furo, amostra, ensaio), os seus atributos e as ligações entre elas. É o "desenho técnico" da base de dados. Para uma base de dados de prospeção com sondagens e geoquímica de superfície, um modelo típico é:

Tabela Chave primária Chaves estrangeiras Descreve
projeto id_projeto · nome, titular, área, sistema de coordenadas
furo (colar) id_furo id_projeto posição e orientação da boca do furo
desvio id_furo + profundidade id_furo trajetória do furo
litologia id_furo + de id_furo, codigo_lito intervalos geológicos
amostra id_amostra id_furo (se for de sondagem), id_projeto intervalo de sondagem ou ponto de superfície, com tipo
lote id_lote · envio ao laboratório: data, laboratório, certificado
ensaio id_amostra + elemento + método id_amostra, id_lote um resultado analítico
tabelas de códigos código · litologias, tipos de amostra, elementos, métodos, operadores

Repara em duas decisões de modelação:

Normalização

Normalizar um modelo é organizá-lo para eliminar redundância e inconsistência: cada facto guardado num único sítio, cada tabela a descrever um único tipo de entidade. Na prática, três perguntas chegam para um técnico:

  1. Há informação repetida em muitas linhas (nome do projeto, geólogo, laboratório)? Então passa para uma tabela própria, ligada por um identificador.
  2. Há colunas que se repetem com nomes diferentes (Cu_1, Cu_2, Cu_3)? Então são linhas de outra tabela, não colunas.
  3. Há algum campo que depende de outra coisa que não a chave da tabela (a coordenada do furo guardada em cada amostra)? Então está na tabela errada.

A tabela de ensaios é o melhor exemplo: em vez de uma coluna por elemento (Cu, Zn, Pb, Au... que obriga a mudar a estrutura sempre que se analisa um elemento novo), guarda uma linha por resultado. Para ver os resultados lado a lado, faz-se uma consulta que os "vira" em colunas, sem alterar a estrutura.

Exemplo resolvido: modelar as tabelas de um projeto simples

Situação: um projeto tem furos de sondagem, cada um com várias amostras, cada amostra analisada para cobre, zinco e ouro num laboratório.

  1. Tabela furo: id_furo (chave primária), m, p, cota, azimute, inclinação, data de execução, profundidade final.
  2. Tabela amostra: id_amostra (chave primária), id_furo (chave estrangeira), de, até, tipo de amostra.
  3. Tabela ensaio: id_amostra (chave estrangeira), elemento, método, valor original, valor numérico, unidade, certificado. A chave primária é a combinação id_amostra + elemento + método.
  4. Contar as linhas: 3 furos com 40 amostras cada = 120 amostras; 120 amostras × 3 elementos = 360 linhas de ensaio, e não 120.
  5. Verificar que nenhum campo repete informação já guardada noutra tabela: a coordenada do furo não se repete em cada amostra, porque se obtém através da relação com a tabela furo.

Conclusão: num modelo bem desenhado, corrigir um único valor (por exemplo, a coordenada de um furo mal registada) propaga a correção a todas as amostras associadas, sem tocar em nenhuma delas.

Exemplo resolvido: validar intervalos de sondagem

Situação: o furo PR23-SD-004 tem profundidade final de 120,00 m. Na importação chegam estes intervalos de amostra:

id_amostra de (m) até (m)
A0101 40,00 41,00
A0102 41,00 42,20
A0103 42,00 43,00
A0104 43,50 44,50
A0105 119,50 120,80
  1. A0102 e A0103: A0103 começa em 42,00 m, mas A0102 só acaba em 42,20 m. Sobreposição de 0,20 m: o mesmo pedaço de rocha estaria em duas amostras. Erro a corrigir com a ficha de amostragem.
  2. A0103 e A0104: entre 43,00 m e 43,50 m não há amostra. Lacuna de 0,50 m. Pode ser legítima (troço não amostrado, sem recuperação), mas tem de ficar registada como tal.
  3. A0105: acaba em 120,80 m, depois da profundidade final do furo (120,00 m). Ou o intervalo está errado, ou a profundidade final está errada.
  4. Em todas: verificar que de < até e que o identificador não existe já na base de dados.

Conclusão: estas quatro verificações (sobreposições, lacunas, fim do furo, identificadores repetidos) fazem-se sempre que se importam intervalos, e são das primeiras que um software de gestão de dados geológicos automatiza.

Modelar o depósito: dos dados às representações

Com a base de dados organizada, a informação modela-se de várias formas, da mais simples à mais elaborada:

Antes de modelar, os intervalos de amostra, que têm comprimentos diferentes, são muitas vezes compostos em intervalos de comprimento igual. O teor de um composto é a média dos teores ponderada pelo comprimento, nunca a média simples.

Exemplo resolvido: teor médio ponderado de um intervalo

Situação: entre 20,00 m e 24,00 m de um furo há três amostras: 20,00 a 21,50 m com 0,80 % Cu; 21,50 a 22,50 m com 1,60 % Cu; 22,50 a 24,00 m com 0,40 % Cu.

  1. Comprimentos: 1,50 m; 1,00 m; 1,50 m. Total: 4,00 m.
  2. Produto comprimento × teor: 1,50 × 0,80 = 1,20; 1,00 × 1,60 = 1,60; 1,50 × 0,40 = 0,60. Soma: 3,40 m·%.
  3. Teor ponderado: 3,40 ÷ 4,00 = 0,85 % Cu.
  4. A média simples daria (0,80 + 1,60 + 0,40) ÷ 3 = 0,93 % Cu, sobrevalorizando o intervalo porque a amostra rica é a mais curta.

Conclusão: num relatório, o intervalo reporta-se como "4,00 m com 0,85 % Cu, de 20,00 m a 24,00 m", indicando que é comprimento medido ao longo do furo, que só coincide com a espessura real do corpo mineralizado se o furo o atravessar perpendicularmente. A média simples é um erro que favorece sempre, ou prejudica sempre, os intervalos com amostras curtas.

8. Software de gestão de informação e SIG

Ferramentas de gestão de informação

Tipo Para que serve Exemplos
Folha de cálculo tarefas pontuais, verificações rápidas, gráficos LibreOffice Calc, Microsoft Excel
Base de dados de secretária projetos pequenos, um utilizador de cada vez LibreOffice Base, Microsoft Access, SQLite
Base de dados de servidor projetos grandes, vários utilizadores em simultâneo, acessos controlados PostgreSQL (com a extensão espacial PostGIS), SQL Server
Gestão de dados geológicos importação de laboratório, validação de sondagens, QA/QC, auditoria programas comerciais específicos do setor mineiro, como o acQuire
Modelação geológica e mineira secções, modelos 3D, modelo de blocos Leapfrog, Datamine, Micromine, entre outros
SIG componente espacial, mapas, análise espacial QGIS (livre e gratuito), ArcGIS

A escolha depende da dimensão do projeto, do orçamento e da equipa, mas o fluxo de trabalho é sempre o mesmo: recolher, validar, armazenar, processar, interpretar. Quem domina os conceitos (chaves, relações, sistemas de coordenadas, tipos de dados) muda de programa em poucos dias; quem só decorou botões fica perdido na primeira versão nova.

Os recursos previstos no referencial para esta unidade incluem hardware e software de gestão de informação, manuais técnicos, simuladores e estudos de caso. Nas aulas, o QGIS e uma base de dados livre permitem fazer todo o percurso sem licenças.

O que é um Sistema de Informação Geográfica

Um Sistema de Informação Geográfica (SIG) é um sistema que permite guardar, visualizar, analisar e cruzar dados com localização geográfica. Cada elemento é representado com a sua geometria e uma tabela de atributos associada. O SIG combina a lógica de uma base de dados com a componente espacial e visual do mapa, sendo a ferramenta central para cruzar dados de diferentes fontes sobre o mesmo território.

Vetorial e raster

Modelo Representa por Exemplos em prospeção Bom para
Vetorial pontos, linhas e polígonos amostras e colares (pontos), falhas e estradas (linhas), litologias e áreas de concessão (polígonos) objetos discretos com limites definidos e muitos atributos
Raster uma grelha regular de células (pixels), cada uma com um valor imagem de satélite, modelo digital de elevação, grelha de magnetismo, superfície interpolada fenómenos contínuos no espaço

A resolução de um raster é o tamanho da célula no terreno: um modelo de elevação com células de 25 m não mostra um talude de 5 m. Um projeto de SIG combina normalmente os dois modelos em camadas sobrepostas.

O sistema de coordenadas no QGIS

Um projeto de QGIS tem um sistema de coordenadas do projeto (no continente, EPSG:3763, PT-TM06/ETRS89) e cada camada tem o seu próprio sistema. O QGIS consegue desenhar camadas de sistemas diferentes umas sobre as outras, reprojetando-as "em tempo real", o que é cómodo mas perigoso: se uma camada tiver o sistema mal declarado, aparece no sítio errado e o programa não avisa. Regra prática: para medir, cruzar e exportar, todas as camadas guardadas no mesmo sistema do projeto.

Operações que o técnico faz todos os dias no SIG

Operação O que faz Exemplo
Importar texto delimitado cria pontos a partir de um CSV com colunas de coordenadas carregar o ficheiro de amostras de solo
Junção por atributo (join) liga à camada uma tabela pela chave comum juntar os resultados de Cu aos pontos das amostras pelo id_amostra
Seleção por atributo escolhe elementos que cumprem uma condição amostras com Cu > 200 ppm
Seleção por localização escolhe elementos pela posição em relação a outra camada amostras dentro do polígono do granito
Zona de influência (buffer) desenha uma faixa a uma distância fixa faixa de 250 m à volta de uma falha
Interseção e recorte cruza ou corta camadas de polígonos parte da área de prospeção dentro de uma zona protegida
Simbologia graduada colore por classes de valor pontos coloridos por classe de teor

Exemplo resolvido: do ficheiro do laboratório ao mapa

Situação: tens um CSV com as amostras de solo (id_amostra, m, p, data, operador) e outro CSV do laboratório com os resultados (id_amostra, Cu_ppm).

  1. Criar um projeto de QGIS em EPSG:3763 (PT-TM06/ETRS89).
  2. Importar o CSV das amostras como texto delimitado, indicando que o X é a coluna m e o Y a coluna p, e declarando o sistema EPSG:3763.
  3. Importar o CSV do laboratório como tabela sem geometria.
  4. Fazer a junção por atributo pela chave id_amostra. Contar: se há 336 amostras e só 330 ficaram com resultado, há 6 identificadores que não batem certo (erro de escrita, amostra perdida, amostra ainda por analisar). Investigar antes de continuar.
  5. Guardar o resultado num GeoPackage, com o sistema de coordenadas incluído.
  6. Aplicar simbologia graduada ao Cu, com classes por percentis (capítulo 9), e acrescentar a camada de geologia por baixo.

Conclusão: o passo 4, contar os registos antes e depois da junção, é o controlo mais simples e mais esquecido de todo o processo.

9. Análise espacial, interpolação e mapas

O SIG organiza a informação em camadas (layers), cada uma com um tema: geologia, amostras, estradas, concessões, hidrografia. Ligar e desligar camadas permite focar a análise no que interessa em cada momento, e sobrepor camadas permite procurar relações, por exemplo entre amostras de alto teor e a proximidade de uma falha.

Para além de visualizar, o SIG permite calcular relações espaciais:

Interpolação por inverso da distância (IDW)

O método IDW (inverse distance weighting, inverso da distância ponderado) estima o valor num ponto sem amostra como uma média dos valores vizinhos, em que cada vizinho pesa tanto mais quanto mais perto está. O peso de cada vizinho é 1 ÷ distânciaᵖ, em que p é a potência (muito usada p = 2).

Exemplo resolvido: estimar um teor por IDW

Situação: quer-se estimar o teor de cobre no ponto P a partir de três amostras: A com 120 ppm a 50 m de P; B com 60 ppm a 100 m; C com 30 ppm a 200 m. Potência p = 2.

  1. Pesos: A = 1 ÷ 50² = 1 ÷ 2 500 = 0,000400; B = 1 ÷ 100² = 0,000100; C = 1 ÷ 200² = 0,000025.
  2. Soma dos pesos: 0,000400 + 0,000100 + 0,000025 = 0,000525.
  3. Soma dos produtos peso × teor: 0,000400 × 120 = 0,04800; 0,000100 × 60 = 0,00600; 0,000025 × 30 = 0,00075. Total: 0,05475.
  4. Estimativa: 0,05475 ÷ 0,000525 ≈ 104 ppm.
  5. Com p = 1 os pesos seriam 0,020, 0,010 e 0,005, e a estimativa daria (2,40 + 0,60 + 0,15) ÷ 0,035 = 90 ppm. Quanto maior a potência, mais o resultado se "cola" à amostra mais próxima.

Conclusão: a estimativa fica sempre entre o mínimo e o máximo das amostras usadas (30 e 120 ppm). O IDW nunca "inventa" um valor mais alto do que o maior medido, e gera círculos concêntricos à volta de amostras isoladas, os chamados "olhos de boi".

Krigagem e variograma

A krigagem é um método de interpolação geoestatístico. Em vez de usar pesos só pela distância, baseia-se no variograma, uma função que mede como a diferença entre duas amostras cresce com a distância entre elas:

A krigagem dá, além da estimativa, uma medida da sua incerteza, e respeita a continuidade própria de cada depósito (por exemplo, maior continuidade ao longo de um filão do que perpendicularmente). Exige mais dados e mais conhecimento do que o IDW; o técnico deve saber o que é e o que precisa, mesmo quando a modelação é feita por um especialista.

Método Base Vantagem Limitação
IDW distância simples, rápido, fácil de explicar não mede a incerteza; "olhos de boi"
Krigagem variograma modela a continuidade espacial, dá a incerteza exige muitos dados e interpretação do variograma

Mapas de anomalias: classes por percentis

Os teores de elementos-traço têm distribuições muito assimétricas (capítulo 10), por isso classes de amplitude igual (0 a 100, 100 a 200 ppm...) põem quase todas as amostras na primeira classe. A prática corrente é usar classes por percentis: o percentil 90 (P90) é o valor abaixo do qual ficam 90 % das amostras.

Classe Intervalo Leitura
1 até P50 fundo geoquímico
2 P50 a P75 fundo alto
3 P75 a P90 ligeiramente anómalo
4 P90 a P95 anómalo
5 acima de P95 fortemente anómalo

Num conjunto de 200 amostras, acima do P95 ficam as 10 amostras mais altas. Os limites exatos das classes são uma escolha do projeto, e têm de vir escritos na legenda.

Simbologia e legenda

Exemplo resolvido: interpretar um mapa interpolado de teores

Situação: a partir de dez pontos de amostragem de solo com teor de cobre, foi gerado um mapa interpolado.

  1. Identificar as zonas de teor mais elevado (a anomalia geoquímica).
  2. Verificar a densidade de pontos nessa zona: uma anomalia sustentada por vários pontos próximos merece mais confiança do que uma baseada num único ponto isolado.
  3. Assinalar como zona de menor confiança as áreas longe de qualquer ponto, onde a interpolação é apenas uma estimativa. Com IDW, uma zona longe de todos os pontos tende para a média dos vizinhos, nunca para um máximo novo; se aparecer um máximo aí, há um erro nos dados ou no método.
  4. Apresentar o mapa sempre acompanhado dos pontos originais, nunca só a superfície interpolada.

Conclusão: um mapa interpolado comunica um padrão, mas a decisão de prospeção apoia-se sempre nos dados observados.

10. Processar e analisar dados de prospeção

Preparar os dados

Antes de qualquer análise, os dados têm de ser limpos e organizados:

Estatística descritiva

Medida O que diz Cuidado
Média valor central, somando tudo muito sensível a valores extremos
Mediana valor do meio, com os dados ordenados resistente a valores extremos; melhor para o fundo
Mínimo, máximo, amplitude gama de variação um só valor errado estraga o máximo
Desvio-padrão dispersão em torno da média inflacionado pelos valores extremos
Percentis posição de um valor no conjunto base das classes dos mapas de anomalias

A distribuição lognormal dos elementos-traço

Os elementos-traço (cobre, zinco, ouro, arsénio, lítio em solos...) não se distribuem de forma simétrica, em "sino": há muitos valores baixos e poucos valores muito altos. Em geral, é o logaritmo dos teores que tem uma distribuição aproximadamente normal. Diz-se que a distribuição é lognormal. Consequências práticas:

Exemplo resolvido: analisar um conjunto de teores

Situação: vinte amostras de solo deram estes teores de cobre (ppm), já ordenados:

15 · 18 · 22 · 25 · 27 · 30 · 31 · 33 · 35 · 38 · 40 · 42 · 45 · 48 · 52 · 55 · 58 · 320 · 365 · 480

  1. Soma de todos os valores: 1 779 ppm. Média: 1 779 ÷ 20 = 88,95 ppm, arredondada a 89 ppm.
  2. Mediana: com 20 valores, é a média do 10.º e do 11.º: (38 + 40) ÷ 2 = 39 ppm.
  3. A média é mais do dobro da mediana: os três valores altos "puxam" a média. A mediana representa melhor o fundo.
  4. Amplitude: 480 − 15 = 465 ppm. Desvio-padrão do conjunto completo: cerca de 132 ppm.
  5. O histograma mostra dois grupos: 17 valores entre 15 e 58 ppm e 3 valores entre 320 e 480 ppm. São duas populações.
  6. Limiar clássico "média + 2 desvios-padrão" calculado com todos os dados: 89 + 2 × 132 ≈ 354 ppm. Este limiar deixaria de fora a amostra de 320 ppm: os próprios valores anómalos inflacionam a média e o desvio-padrão e escondem-se a si mesmos.
  7. Calculado só com a população de fundo (os 17 valores baixos): soma 614, média ≈ 36,1 ppm, desvio-padrão ≈ 12,8 ppm, limiar ≈ 36,1 + 2 × 12,8 ≈ 62 ppm. Os três valores altos estão todos muito acima.
  8. Com os logaritmos do fundo, o limiar equivalente (média geométrica × fator de dispersão ao quadrado) fica em cerca de 74 ppm, e a conclusão mantém-se.

Conclusão: os três valores altos tratam-se como anomalia geoquímica a investigar, não como erros. O passo seguinte é vê-los no SIG: se estão agrupados, reforçam a hipótese de um alvo; se estão dispersos e junto a estradas ou povoações, a contaminação é uma hipótese a verificar.

Correlação entre elementos

A correlação mede se dois elementos variam em conjunto. O coeficiente de correlação de Pearson vai de −1 a +1: perto de +1, quando um sobe o outro sobe; perto de 0, não há relação linear. Em geoquímica calcula-se de preferência sobre os logaritmos (ou usa-se a correlação por ordens, de Spearman), porque os valores extremos distorcem muito o coeficiente calculado sobre os teores brutos.

A correlação ajuda a identificar elementos farejadores (pathfinders): elementos que acompanham a mineralização e se detetam mais facilmente ou mais longe do que o próprio metal. Por exemplo, em muitos sistemas de ouro filoniano o arsénio acompanha o ouro. Uma correlação forte não prova causa: dois elementos podem subir juntos apenas porque ambos se concentram na mesma litologia.

Exemplo resolvido: detetar um erro de unidades

Situação: a mediana de cobre de uma campanha é 35 ppm, mas um lote de 40 amostras de outro laboratório tem mediana 0,0036.

  1. 0,0036 não é plausível em ppm para solos. Em %, 0,0036 % × 10 000 = 36 ppm, em linha com o resto.
  2. Confirmar no certificado do laboratório que a unidade é %.
  3. Converter o lote para ppm com registo da correção (data, operador, motivo, certificado).

Conclusão: comparar a mediana de cada lote com a das restantes é uma verificação rápida que apanha trocas de unidades antes de estragarem um mapa.

11. Cruzar informação de várias fontes

Nenhuma fonte de dados isolada conta a história completa de um depósito mineral. Cruzar informação é combinar fontes diferentes para chegar a uma interpretação mais robusta do que qualquer fonte sozinha permitiria:

Cada tipo de depósito tem a sua combinação esperada. Num VMS da Faixa Piritosa, por exemplo, procura-se a coincidência entre rochas vulcânicas favoráveis, anomalias de metais base e uma anomalia gravimétrica ou elétrica (os sulfuretos maciços são densos e condutores). Num filão de volfrâmio, a coincidência entre uma estrutura cartografada, anomalias de W, Sn e As e, eventualmente, a proximidade de uma cúpula granítica.

Este cruzamento, feito sobre bases de dados bem organizadas e visualizado num SIG, corresponde diretamente aos critérios de desempenho desta unidade: implementar e organizar bases de dados e cruzar informação proveniente da prospeção.

Exemplo resolvido: cruzamento passo a passo até a um alvo de sondagem

Situação: existem amostras de solo com teor de cobre elevado numa área, e existem também dados de geofísica e de geologia de superfície da mesma zona.

  1. Confirmar que as três camadas estão no mesmo sistema de coordenadas (PT-TM06/ETRS89) e com a qualidade verificada.
  2. Sobrepor no SIG os pontos de geoquímica (teor de cobre, em classes por percentis) com o mapa de geologia.
  3. Verificar se a anomalia geoquímica coincide com uma litologia favorável, por exemplo rocha alterada por fluidos hidrotermais, e se está a jusante (na encosta) de uma fonte possível, já que o solo pode ter migrado.
  4. Cruzar com a geofísica, procurando uma anomalia física (por exemplo, de resistividade ou de cargabilidade) no mesmo local.
  5. Excluir explicações alternativas: estrada, escombreira antiga, povoação, contaminação.
  6. Se as fontes convergem, o local passa a alvo prioritário para sondagem. Registar a interpretação e a decisão na base de dados do projeto, com data e responsável.

Conclusão: cruzar dados não é olhar para tudo ao mesmo tempo; é um processo sistemático, fonte a fonte, documentado passo a passo.

Exemplo resolvido: uma matriz de pontuação simples

Situação: há três zonas candidatas (Z1, Z2, Z3) e a equipa decide pontuar cada critério com 1 (sim) ou 0 (não).

Critério Z1 Z2 Z3
Cu acima do P95 em pelo menos 3 amostras vizinhas 1 1 0
Litologia favorável 1 0 1
Anomalia geofísica coincidente 1 0 1
Sem fonte de contaminação próxima 1 0 1
Total 4 1 3
  1. Z1 soma 4 em 4: alvo prioritário.
  2. Z3 tem geologia e geofísica favoráveis mas sem anomalia geoquímica: talvez o solo seja transportado e não reflita a rocha; propor amostragem de outro meio antes de sondar.
  3. Z2 só tem geoquímica, e há uma fonte de contaminação: verificar antes de investir.

Conclusão: uma matriz simples torna a decisão explícita e discutível. Os critérios e o peso de cada um são decididos pela equipa técnica e ficam escritos.

12. Controlo de qualidade da informação

O controlo de qualidade (em inglês, QA/QC) garante que os dados são fiáveis antes de servirem de base a decisões técnicas ou de investimento. Começa no terreno e acaba na base de dados.

Amostras de controlo

Tipo O que é O que controla
Duplicado de campo segunda amostra recolhida no mesmo local ou segunda metade do mesmo testemunho variabilidade da amostragem mais a da análise
Duplicado de preparação ou de laboratório segunda porção retirada da mesma amostra preparada (polpa) precisão do laboratório
Branco material estéril, com o elemento de interesse abaixo do limite de deteção contaminação durante a preparação e a análise
Material de referência certificado (padrão) material com teor conhecido e certificado exatidão do laboratório
Análise de controlo noutro laboratório parte das polpas reanalisada num segundo laboratório desvios sistemáticos do laboratório principal

As amostras de controlo inserem-se às cegas, com identificadores da mesma série das amostras normais, para que o laboratório não as reconheça. A proporção e as tolerâncias de cada tipo definem-se no plano de controlo de qualidade do projeto, antes da campanha.

Exemplo resolvido: avaliar um duplicado e um padrão

Situação: uma amostra deu 250 ppm Cu e o seu duplicado de campo 230 ppm. No mesmo lote, um padrão certificado com 1,05 % Cu e desvio-padrão certificado de 0,03 % Cu deu 1,13 %. O plano do projeto aceita padrões dentro de ±2 desvios-padrão, trata como alerta entre 2 e 3 e rejeita acima de 3.

  1. Diferença relativa do duplicado: |250 − 230| ÷ ((250 + 230) ÷ 2) = 20 ÷ 240 ≈ 8 %. Compara-se com a tolerância definida no plano para duplicados de campo.
  2. Intervalo do padrão a ±2 desvios-padrão: 1,05 ± 0,06 = de 0,99 a 1,11 %. A ±3: 1,05 ± 0,09 = de 0,96 a 1,14 %.
  3. O resultado 1,13 % está fora de ±2 mas dentro de ±3: alerta. Verificar os padrões seguintes e anteriores do mesmo laboratório.
  4. Se o padrão tivesse dado 1,20 %, estaria fora de ±3: o lote é rejeitado e pede-se ao laboratório a reanálise, registando o pedido.

Conclusão: o controlo de qualidade só funciona se os resultados de controlo forem avaliados quando chegam, lote a lote, e não no fim da campanha.

Auditoria e rastreabilidade

Cada dado deve ser rastreável: quem o recolheu, quando, com que método, em que laboratório e certificado, e quem o validou. Um registo de alterações documenta cada correção feita depois da introdução inicial (valor antigo, valor novo, data, autor, motivo). Auditorias periódicas comparam uma amostra de registos com o suporte original: a ficha de campo, o certificado do laboratório, a fotografia do testemunho. A rastreabilidade transforma uma base de dados numa prova defensável, essencial se o projeto for auditado pela entidade licenciadora ou avaliado por investidores.

13. Segurança da informação, versões e atitudes profissionais

Cópias de segurança: a regra 3-2-1

Os dados de um projeto de prospeção representam anos de trabalho de campo, caro e muitas vezes irrepetível (uma sondagem não se repete, um testemunho amostrado já foi cortado). A regra prática mais usada é a 3-2-1:

Uma cópia de segurança nunca testada pode falhar precisamente no momento em que é necessária, por isso o restauro testa-se periodicamente. E uma cópia que é sincronizada automaticamente com o original (uma pasta partilhada, por exemplo) copia também os erros e os ficheiros apagados: não substitui uma cópia de segurança com histórico.

Controlo de versões

Os dados mudam: chegam resultados novos, corrigem-se erros, reinterpreta-se a geologia. Controlar versões é saber, em qualquer momento, que versão dos dados serviu para cada mapa ou relatório.

Controlo de acessos e confidencialidade

Atitudes profissionais

O referencial avalia atitudes tanto quanto o domínio técnico. No gabinete de dados, cada uma tem um rosto concreto:

Atitude No dia a dia
Responsabilidade pelas suas ações assumir a autoria de cada correção, assinando-a no registo de alterações
Autonomia organizar o próprio trabalho de validação sem esperar que alguém o mande, dentro das regras do projeto
Assertividade comunicar ao geólogo responsável que um padrão falhou, mesmo que isso atrase o relatório
Rigor não arredondar, não "corrigir" sem fonte, não aceitar dados sem sistema de coordenadas
Sentido analítico estranhar uma mediana fora do normal e procurar a causa
Sentido de organização pastas, nomes e versões sempre iguais
Liderança coordenar a equipa de campo na etiquetagem e no registo, quando aplicável

Erros comuns

Glossário

Síntese

A gestão de informação de um projeto de prospeção segue sempre o mesmo ciclo: conhecer o quadro legal e o tipo de depósitorecolher dados de campo com todos os metadados → georreferenciar em PT-TM06/ETRS89 → armazenar os dados uma única vez, na fonte, com unidades e limites de deteção explícitos → modelar uma base de dados relacional com chaves, listas fechadas e dicionário de dados → usar software de gestão e SIG para validar, visualizar e analisar → processar e analisar com estatística adequada a dados lognormais → modelar o depósito com interpolações e secções → cruzar informação de várias fontes até chegar a alvos defensáveis → manter sempre controlo de qualidade, rastreabilidade, versões e cópias de segurança. Domina este fluxo e serás capaz de transformar dados dispersos de um terreno num modelo em que a equipa técnica pode confiar.

Exercícios resolvidos

1. Um colega diz que a prospeção é "só ir ao terreno". Está certo?

Resolução: não. A prospeção combina trabalho de campo (cartografia, amostragem, sondagens, geofísica) com trabalho de gabinete (introduzir, validar, organizar, cruzar e interpretar dados). O técnico desta unidade atua sobretudo na gestão da informação produzida no terreno, no gabinete técnico.

2. Uma pedreira de granito tem 60 m de profundidade e uma mina de cobre começou a céu aberto com 20 m. Um colega diz que a diferença entre mina e pedreira é a profundidade. Comenta.

Resolução: está errado. A distinção é jurídica: os depósitos minerais (como o cobre) pertencem ao domínio público do Estado (Lei n.º 54/2015 e Decreto-Lei n.º 30/2021) e são explorados em minas; as massas minerais (como o granito para construção ou ornamental) são privadas e exploradas em pedreiras (Decreto-Lei n.º 270/2001). A entidade licenciadora é a DGEG.

3. Que método de recolha escolherias para caracterizar um placer de estanho num rio, e porquê?

Resolução: poços ou sondagens rasas nos cascalhos, com concentração por bateia, porque o placer concentra minerais densos (cassiterite) no leito e nos terraços do rio. A sondagem com coroa diamantada é própria de rocha consolidada, como nos depósitos primários.

4. Associa cada exemplo ao seu tipo de depósito: Neves-Corvo; Panasqueira; aplito-pegmatitos do Barroso.

Resolução: Neves-Corvo é um depósito de sulfuretos maciços vulcanogénicos (VMS) da Faixa Piritosa Ibérica, com cobre, zinco e estanho; Panasqueira é um depósito hidrotermal filoniano de volfrâmio e estanho; o Barroso tem aplito-pegmatitos com lítio.

5. Uma malha de solos tem 1 200 m por 800 m, com espaçamento de 50 m e pontos em todos os nós, incluindo os limites. Quantas amostras são?

Resolução: 1 200 ÷ 50 = 24 intervalos, logo 25 nós por linha; 800 ÷ 50 = 16 intervalos, logo 17 linhas. Total: 25 × 17 = 425 amostras. As células são 24 × 16 = 384; usar este número faltaria 41 amostras.

6. Um técnico escreveu nos metadados "datum: PT-TM06". Corrige.

Resolução: o datum é o ETRS89; o PT-TM06 é a projeção. O sistema de coordenadas completo é PT-TM06/ETRS89 (EPSG:3763). Nas regiões autónomas usa-se o PTRA08.

7. Porque é que um recetor GNSS precisa de pelo menos quatro satélites? E um colega diz que o GNSS usa triangulação. Está certo?

Resolução: o recetor mede distâncias (pseudodistâncias) aos satélites e tem de calcular quatro incógnitas: as três coordenadas da posição e o erro do seu relógio. Por isso precisa de pelo menos quatro satélites. O método é trilateração (por distâncias), não triangulação (que usaria ângulos).

8. Calcula a distância horizontal entre C (M = 12 300, P = −45 200) e D (M = 12 540, P = −45 380), em PT-TM06/ETRS89.

Resolução: ΔM = 12 540 − 12 300 = 240 m; ΔP = −45 380 − (−45 200) = −180 m. Distância = √(240² + 180²) = √(57 600 + 32 400) = √90 000 = 300 m.

9. O laboratório devolveu "<10" para o zinco de uma amostra. Como registas e como usas este valor?

Resolução: guarda-se o valor original "<10" (ppm), com indicação de que está abaixo do limite de deteção. Para cálculo, aplica-se a convenção documentada do projeto, por exemplo metade do LD, 5 ppm. Nunca se regista zero nem vazio, que teriam outros significados.

10. Desenha (em texto) o modelo de tabelas para um projeto com furos, amostras e ensaios multielementares.

Resolução: tabela furo (id_furo, m, p, cota, azimute, inclinação, profundidade final); tabela amostra (id_amostra, id_furo, de, até, tipo); tabela ensaio (id_amostra, elemento, método, valor original, valor numérico, unidade, certificado), com chave primária id_amostra + elemento + método. Relações: furo 1:N amostra; amostra 1:N ensaio. Tabelas de códigos para litologias, elementos e métodos.

11. Três amostras seguidas de um furo: 1,0 m a 2,5 g/t Au; 0,5 m a 8,0 g/t; 1,5 m a 0,4 g/t. Qual o teor do intervalo de 3,0 m?

Resolução: (1,0 × 2,5 + 0,5 × 8,0 + 1,5 × 0,4) ÷ 3,0 = (2,5 + 4,0 + 0,6) ÷ 3,0 = 7,1 ÷ 3,0 ≈ 2,37 g/t Au. A média simples, (2,5 + 8,0 + 0,4) ÷ 3 ≈ 3,63 g/t, sobrevaloriza o intervalo.

12. Estima por IDW (p = 2) o teor num ponto a 20 m de uma amostra com 50 ppm e a 40 m de outra com 10 ppm.

Resolução: pesos 1 ÷ 400 = 0,0025 e 1 ÷ 1 600 = 0,000625; soma 0,003125. Produtos: 0,0025 × 50 = 0,125 e 0,000625 × 10 = 0,00625; soma 0,13125. Estimativa: 0,13125 ÷ 0,003125 = 42 ppm, mais perto da amostra mais próxima, como esperado.

13. Porque é que o limiar "média + 2 desvios-padrão" calculado com todas as amostras pode esconder uma anomalia?

Resolução: porque os valores anómalos entram no cálculo e aumentam muito a média e o desvio-padrão, elevando o limiar acima de alguns deles. No exemplo do capítulo 10, o limiar com todos os dados dava cerca de 354 ppm e deixava de fora a amostra de 320 ppm; calculado só com o fundo, ficava em cerca de 62 ppm. Em dados lognormais trabalha-se de preferência com logaritmos, percentis e gráficos de probabilidade.

14. Um padrão certificado de 2,50 g/t Au (desvio-padrão 0,10 g/t) deu 2,85 g/t. Com a regra do projeto de rejeitar fora de ±3 desvios-padrão, o que fazes?

Resolução: ±3 desvios-padrão dá 2,50 ± 0,30, de 2,20 a 2,80 g/t. O resultado 2,85 g/t está fora: o lote é rejeitado, pede-se a reanálise ao laboratório e regista-se a ocorrência no registo de controlo de qualidade, sem usar os resultados do lote até haver resposta.

15. A empresa guarda a base de dados no servidor do escritório e uma cópia num disco externo, na mesma sala. Cumpre a regra 3-2-1?

Resolução: não. Há 2 cópias (e não 3) e nenhuma fora do local: um incêndio ou um roubo leva ambas. Falta uma terceira cópia noutro local (outro edifício ou nuvem), e deve testar-se o restauro periodicamente.

16. Explica, com um exemplo, o que significa "cruzar informação de várias fontes" nesta unidade.

Resolução: significa combinar, por exemplo, uma anomalia geoquímica de cobre com a geologia de superfície e com uma anomalia geofísica no mesmo local, depois de confirmar que todas as camadas estão no mesmo sistema de coordenadas e excluir fontes de contaminação. Se as três fontes convergem, o local passa a alvo prioritário de sondagem, uma conclusão muito mais robusta do que a de qualquer fonte isolada.