Sebenta · Recolher, armazenar e processar dados na prospeção de recursos minerais (UC01873)
- Introdução
- 1. A prospeção de recursos minerais
- 2. Tipologia de depósitos minerais
- 3. Recolher dados no campo
- 4. Georreferenciação e sistemas de coordenadas
- 5. Registo e armazenamento de dados
- 6. Bases de dados relacionais
- 7. Modelação de informação
- 8. Software de gestão de informação e SIG
- 9. Análise espacial, interpolação e mapas
- 10. Processar e analisar dados de prospeção
- 11. Cruzar informação de várias fontes
- 12. Controlo de qualidade da informação
- 13. Segurança da informação, versões e atitudes profissionais
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a gerir a informação de um projeto de prospeção de recursos minerais, desde o momento em que um dado nasce no terreno até à interpretação final num Sistema de Informação Geográfica (SIG). Um projeto de prospeção só vale o que valem os seus dados: uma descoberta geológica excelente, mal registada ou mal guardada, perde todo o seu valor. Pior: um dado errado que ninguém deteta pode levar a gastar dinheiro numa sondagem no sítio errado.
O percurso segue o ciclo real de um gabinete técnico. Primeiro entendemos o que é a prospeção, em que quadro legal decorre e que tipos de depósitos minerais existem. Depois vemos como se recolhem dados no terreno e como se georreferenciam no sistema oficial português. De seguida aprendemos a armazenar e organizar esses dados em bases de dados relacionais bem modeladas, a manusear software de gestão de informação e SIG, e por fim a processar, analisar, modelar e cruzar a informação para chegar a conclusões defensáveis, sempre com controlo de qualidade e segurança.
Objetivos de aprendizagem (referencial): recolher e armazenar dados da prospeção de recursos minerais; implementar e organizar bases de dados provenientes da prospeção; analisar e processar informação resultante da prospeção; interpretar e controlar essa informação; manusear software de gestão e Sistemas de Informação Geográfica; identificar diferentes tipos de depósitos de recursos minerais; e modelar a informação proveniente da prospeção.
Como estudar com esta sebenta: lê cada capítulo e refaz sozinho, com papel e calculadora, cada exemplo resolvido. As contas são simples (médias, distâncias, conversões de unidades), mas é nelas que se apanham os erros mais caros. No fim, resolve os exercícios sem olhar para a resolução.
1. A prospeção de recursos minerais
A prospeção é o conjunto de trabalhos técnicos e científicos que procura, localiza e caracteriza depósitos de recursos minerais com interesse económico, antes de se avançar para a exploração e extração. A legislação portuguesa fala em prospeção e pesquisa: a prospeção procura indícios, a pesquisa caracteriza o depósito encontrado. Um recurso mineral só se torna um projeto de mina depois de um longo trabalho que reduz a incerteza sobre onde está, quanto existe e com que qualidade.
O trabalho divide-se em duas frentes que se complementam:
- Trabalho de campo: cartografia geológica, amostragem, sondagens, medições geofísicas, tudo o que acontece no terreno.
- Trabalho de gabinete: introdução, validação, organização, cruzamento e interpretação dos dados recolhidos, produção de mapas, modelos e relatórios.
O Técnico de Prospeção e Pesquisa de Recursos Minerais apoia geólogos e engenheiros de minas sobretudo na segunda frente: recolher e armazenar dados com rigor, implementar e organizar bases de dados, e analisar e processar a informação para apoiar as decisões técnicas do projeto. O contexto de trabalho definido no referencial é o gabinete técnico.
Fases de um projeto de prospeção
| Fase | Objetivo | Dados típicos recolhidos | Escala típica |
|---|---|---|---|
| Reconhecimento | identificar áreas de interesse | bibliografia, cartografia geológica, imagens de satélite, bases de dados públicas | regional (dezenas a centenas de km²) |
| Prospeção geral | delimitar zonas anómalas | sedimentos de corrente, geofísica aérea ou terrestre, cartografia | local (alguns km²) |
| Prospeção de pormenor | caracterizar o alvo | malhas de solos, trincheiras, sondagens, primeiros modelos | alvo (centenas de metros) |
| Avaliação | decidir se o projeto avança | sondagens em malha, ensaios, cálculo de recursos, estudos de viabilidade | depósito |
Em todas as fases repete-se o mesmo ciclo de gestão de informação: recolher, registar, armazenar, processar e interpretar. A quantidade de dados cresce de fase para fase: um reconhecimento pode ter umas dezenas de amostras, uma avaliação tem dezenas de milhares de metros de sondagem e centenas de milhares de resultados analíticos. É por isso que uma folha de cálculo que chegava no início deixa de chegar mais tarde.
O quadro legal em Portugal
A distinção que interessa ao técnico de dados não é a profundidade nem o tamanho da exploração: é jurídica.
| Conceito | O que é | Regime | Exemplo |
|---|---|---|---|
| Depósitos minerais | ocorrências de minerais com interesse económico (minérios metálicos, lítio, urânio, sal-gema, entre outros) | pertencem ao domínio público do Estado; Lei n.º 54/2015 (bases do regime dos recursos geológicos) e Decreto-Lei n.º 30/2021, que a regulamenta; direitos atribuídos por contrato com o Estado | minas de Neves-Corvo, Panasqueira, Aljustrel |
| Massas minerais | rochas e ocorrências minerais sem as características dos depósitos (granito, calcário, mármore, areias para construção) | propriedade privada do dono do terreno; exploradas em pedreiras, regime do Decreto-Lei n.º 270/2001 | pedreiras de granito, de calcário, de mármore |
As entidades públicas que o técnico encontra no dia a dia são duas:
- DGEG (Direção-Geral de Energia e Geologia): é a entidade licenciadora, que atribui e acompanha os direitos de prospeção e pesquisa e de exploração, e a quem os titulares entregam relatórios e dados.
- LNEG (Laboratório Nacional de Energia e Geologia): é o laboratório do Estado para a geologia e as minas. Publica as cartas geológicas e disponibiliza no seu geoportal bases de dados públicas, entre elas o SIORMINP, o Sistema de Informação de Ocorrências e Recursos Minerais Portugueses, com a localização, substâncias, morfologia e contexto geológico das ocorrências minerais conhecidas.
Para o técnico de gabinete, isto tem uma consequência direta: os dados de um projeto têm de ser organizados de forma a poderem ser entregues e auditados (relatórios à entidade licenciadora, auditorias de investidores), e a fase de reconhecimento começa quase sempre por consultar as bases de dados públicas do LNEG antes de pôr os pés no terreno.
2. Tipologia de depósitos minerais
Um depósito mineral é uma concentração natural de um ou mais minerais, num volume de rocha ou sedimento, com potencial valor económico. Conhecer a tipologia de um depósito é essencial porque condiciona todo o resto do trabalho: que elementos analisar, que dados recolher, que forma esperar para o corpo mineralizado e como organizar e interpretar a informação.
Recurso, reserva e teor
Três palavras que se usam todos os dias e que não são sinónimos:
- Teor: a concentração do elemento útil na rocha, expressa em percentagem (%), em gramas por tonelada (g/t) ou em partes por milhão (ppm). Para metais preciosos usa-se g/t; para metais base (cobre, zinco, chumbo) usa-se normalmente %.
- Recurso mineral: concentração com perspetivas razoáveis de vir a ser explorada, estimada a partir dos dados de prospeção.
- Reserva mineral: a parte do recurso que, depois de estudos técnicos e económicos, se demonstra ser explorável com lucro.
O técnico de dados trabalha sobretudo antes destas estimativas, mas é a qualidade da sua base de dados que as sustenta.
Classificação pela génese
- Depósitos primários (endógenos): formam-se por processos no interior da crosta: magmáticos (cristalização e segregação a partir de um magma), hidrotermais (fluidos quentes que circulam e depositam minerais em fraturas ou substituem a rocha), metamórficos ou associados a vulcanismo submarino.
- Depósitos secundários (exógenos): formam-se à superfície ou perto dela, por meteorização, erosão, transporte e deposição. Incluem os placers (depósitos aluvionares ou de praia de minerais densos e resistentes), os depósitos sedimentares e os depósitos residuais e supergénicos (lateritos, zonas de oxidação e enriquecimento).
Principais tipos de depósitos
| Tipo | Como se forma | Forma típica | Assinatura nos dados | Exemplos |
|---|---|---|---|---|
| Magmático | segregação de minerais a partir de um magma em arrefecimento | camadas ou massas dentro de rochas ígneas máficas e ultramáficas | cromite, sulfuretos de níquel e cobre; anomalias magnéticas e gravimétricas | complexos de Bushveld (África do Sul) e Sudbury (Canadá) |
| Hidrotermal filoniano | fluidos quentes depositam minerais em fraturas | filões (corpos tabulares, estreitos e extensos) | quartzo, sulfuretos, alteração das rochas encaixantes; teores muito variáveis em pouca distância | Panasqueira (volfrâmio e estanho, com cobre) |
| Pórfiro | fluidos associados a intrusões graníticas pouco profundas | grandes volumes de rocha com rede de veios finos, teores baixos e regulares | cobre e molibdénio (por vezes ouro); zonas de alteração concêntricas | grandes minas de cobre dos Andes (Chile, Peru) |
| Sulfuretos maciços vulcanogénicos (VMS) | precipitação de sulfuretos no fundo do mar, junto a centros vulcânicos | lentículas maciças de sulfuretos, com zona de alimentação por baixo | pirite abundante, cobre, zinco, chumbo, prata; anomalias gravimétricas e elétricas | Faixa Piritosa Ibérica: Neves-Corvo (cobre, zinco e estanho), Aljustrel (zinco, cobre e chumbo) |
| Pegmatítico | cristalização final de magmas graníticos ricos em elementos raros | filões e massas de cristais grandes | lítio (espodumena, lepidolite, petalite), estanho, tântalo, feldspato | aplito-pegmatitos com lítio do Barroso |
| Sedimentar | deposição em bacias sedimentares | camadas extensas | estratificação regular; teores contínuos ao longo da camada | ferro de Moncorvo, sal-gema de Loulé, carvão do Pejão |
| Placer | concentração mecânica de minerais densos por rios ou ondas | leitos de cascalho em vales e praias | minerais pesados no concentrado de bateia: ouro, cassiterite, volframite | explorações históricas de ouro e estanho aluvionar no Norte |
| Laterítico / supergénico | meteorização intensa lixivia uns elementos e concentra outros | manto superficial, zonas de oxidação sobre o depósito primário | óxidos de ferro (chapéu de ferro ou gossan), enriquecimento em profundidade | lateritos de níquel e bauxite (regiões tropicais); gossans da Faixa Piritosa |
A tabela não é para decorar de uma vez: é para voltares a ela sempre que um conjunto de dados te obrigar a perguntar "que depósito estamos a procurar?".
Classificação pelo tipo de recurso
| Categoria | Exemplos | Uso típico |
|---|---|---|
| Metálicos | ouro, cobre, zinco, estanho, volfrâmio, lítio, ferro | indústria, eletrónica, baterias, construção |
| Não metálicos / industriais | quartzo, feldspato, caulino, argilas, sal-gema | cerâmica, vidro, indústria química |
| Rochas ornamentais e agregados | granito, mármore, calcário, areias | construção (geralmente massas minerais, em pedreira) |
| Energéticos | carvão, urânio | produção de energia |
Porque é que a tipologia muda a base de dados
| Se o alvo é... | ... a base de dados precisa de | Unidades típicas |
|---|---|---|
| filão de volfrâmio e estanho | espessura real do filão, atitude (direção e inclinação), elementos W, Sn, Cu, As | % ou ppm |
| VMS | litologia vulcânica detalhada, % de sulfuretos, Cu, Zn, Pb, Ag, Au, densidade | % para metais base, g/t para Ag e Au |
| pegmatito com lítio | mineralogia (espodumena, lepidolite, petalite), Li expresso como Li₂O | % Li₂O |
| placer | volume de cascalho, peso de concentrado, contagem de pintas de ouro | g/m³ |
| ouro filoniano | Au em g/t ou ppb, elementos farejadores (As, Sb, Bi) | g/t, ppb |
Exemplo resolvido: escolher o método pelo tipo de depósito
Situação: existe suspeita de um depósito aluvionar de estanho num vale, e de um filão de quartzo com volfrâmio numa vertente próxima.
- Para o placer: a recolha faz-se por poços ou sondagens rasas nos cascalhos e por bateia (lavagem manual), procurando minerais densos concentrados no leito e nos terraços do rio.
- Para o filão hidrotermal: a recolha faz-se por amostragem de rocha em afloramento e em trincheira, perpendicular ao filão, e, se justificado, por sondagem com recuperação de testemunho (coroa diamantada) que atravesse o filão em profundidade.
- Em ambos os casos, cada amostra recebe um identificador único, coordenadas, sistema de referência e a descrição geológica.
- Os dois conjuntos entram na mesma base de dados do projeto, mas os atributos diferem: para o placer interessa o volume de cascalho e o peso de concentrado; para o filão, a espessura, a atitude e o teor.
Conclusão: reconhecer o tipo de depósito não é um exercício académico, é o que determina o desenho da recolha e da base de dados.
Exemplo resolvido: converter Li em Li₂O
Situação: o laboratório entrega um resultado de lítio de 6 000 ppm Li, mas o projeto reporta em % Li₂O.
- Passar ppm a percentagem: 1 % = 10 000 ppm, logo 6 000 ppm = 0,60 % Li.
- O fator de conversão resulta das massas molares: Li₂O tem 2 × 6,94 + 16,00 = 29,88 g/mol, dos quais 13,88 g são lítio. Fator = 29,88 ÷ 13,88 ≈ 2,153.
- 0,60 % Li × 2,153 ≈ 1,29 % Li₂O.
Conclusão: a coluna da base de dados tem de dizer explicitamente se guarda Li ou Li₂O. Misturar os dois na mesma coluna é um erro de mais de duas vezes no teor.
3. Recolher dados no campo
A recolha de dados de prospeção combina vários métodos complementares, cada um produzindo um tipo de informação diferente, com necessidades próprias de registo.
| Método | O que produz | Tipo de dado para a base | Geometria no SIG |
|---|---|---|---|
| Cartografia geológica | litologias, contactos, falhas, atitudes (direção e inclinação) | observações descritivas e medições estruturais | pontos, linhas, polígonos |
| Geoquímica de sedimentos de corrente | teores em sedimento fino de linhas de água | resultados analíticos por amostra | pontos (e a bacia a montante, em polígono) |
| Geoquímica de solos | teores em solo, em malha regular | resultados analíticos por amostra | pontos em malha |
| Amostragem de rocha | teores em afloramento, trincheira ou galeria | resultados analíticos, com comprimento de amostra em canal | pontos ou linhas |
| Sondagens | geologia e teores em profundidade | colar, desvios, intervalos de litologia e de amostra | pontos (colar) e traço 3D |
| Geofísica | propriedades físicas: magnetismo, gravimetria, resistividade, radiometria | leituras em pontos, perfis ou grelhas | pontos, linhas, raster |
Amostragem de sedimentos de corrente
É o método clássico de prospeção geral: o sedimento fino de uma linha de água representa, de forma aproximada, a rocha de toda a bacia hidrográfica a montante do ponto amostrado. Regras de campo que o técnico tem de conhecer, porque se refletem nos dados:
- Amostra-se cada afluente um pouco a montante da confluência, e não na própria confluência, onde os sedimentos dos dois cursos de água se misturam e deixam de representar uma bacia única.
- Amostra-se a montante de pontes, estradas, povoações e escombreiras, que podem contaminar o sedimento.
- Regista-se a fração granulométrica recolhida e o tratamento (crivagem), para que todas as amostras do projeto sejam comparáveis.
No gabinete, cada ponto de sedimento fica associado ao polígono da sua bacia de drenagem, e é essa bacia que se "pinta" quando a amostra é anómala.
Malhas de amostragem
Na prospeção de pormenor, os solos amostram-se muitas vezes em malha regular: linhas paralelas a um espaçamento fixo, com pontos a intervalos fixos ao longo de cada linha. O técnico prepara a malha no SIG, exporta os pontos para o recetor GNSS e recebe de volta as amostras.
Exemplo resolvido: contar os pontos de uma malha
Situação: uma área retangular de 2 000 m (Este-Oeste) por 1 500 m (Norte-Sul) vai ser amostrada numa malha de 100 m × 100 m, com um ponto em cada nó, incluindo os limites.
- Intervalos na direção Este-Oeste: 2 000 ÷ 100 = 20 intervalos, logo 21 nós por linha (há sempre mais um nó do que intervalos).
- Intervalos na direção Norte-Sul: 1 500 ÷ 100 = 15 intervalos, logo 16 linhas.
- Número de pontos de amostragem: 21 × 16 = 336 nós.
- Número de células da malha (quadrados de 100 m × 100 m): 20 × 15 = 300 células, que cobrem 3 km².
- Se o plano de controlo de qualidade previr, por exemplo, uma amostra de controlo por cada 20 amostras de rotina, somam-se 336 ÷ 20 = 16,8, arredondado para 17 amostras de controlo, e o lote enviado ao laboratório tem 353 amostras.
Conclusão: confundir nós com células é um erro frequente que faz faltar 36 amostras no orçamento e no número de sacos levados para o campo.
Sondagens
As sondagens são a única forma de ver diretamente a geologia em profundidade, e são o dado mais caro de um projeto.
- Sondagem com recuperação de testemunho (coroa diamantada, também chamada carotagem): corta um cilindro contínuo de rocha, o testemunho, que se descreve, fotografa, corta ao meio e amostra.
- Sondagem destrutiva (por exemplo, a percussão com circulação inversa, RC): tritura a rocha e traz à superfície detritos (chips) recolhidos por intervalos de comprimento fixo. É mais rápida e barata, mas não preserva a estrutura da rocha.
Os dados de uma sondagem organizam-se sempre da mesma forma, e é esta estrutura que a base de dados vai reproduzir:
| Conjunto de dados | Conteúdo | Uma linha por... |
|---|---|---|
| Colar (boca do furo) | identificador, coordenadas, cota, azimute e inclinação iniciais, profundidade final, datas | furo |
| Desvios (survey) | profundidade da medição, azimute, inclinação | medição ao longo do furo |
| Litologia | profundidade "de" e "até", código de litologia, alteração, descrição | intervalo geológico |
| Amostras | identificador da amostra, "de" e "até", tipo de amostra | intervalo amostrado |
| Ensaios | identificador da amostra, elemento, resultado, unidade, método, certificado | resultado analítico |
Também se registam a recuperação do testemunho (comprimento recuperado ÷ comprimento furado, em %) e o RQD, índices da qualidade do maciço rochoso.
Exemplo resolvido: recuperação de testemunho
Situação: numa manobra de 3,00 m (de 45,00 m a 48,00 m) recuperaram-se 2,64 m de testemunho.
- Recuperação = 2,64 ÷ 3,00 × 100 = 88 %.
- Se o intervalo de 45,00 m a 48,00 m for mineralizado, os 0,36 m perdidos podem corresponder precisamente à rocha mais fraturada e mineralizada.
- Regista-se a recuperação na tabela de intervalos; uma recuperação baixa é um alerta de que o teor desse intervalo pode não ser representativo.
A ficha de campo e os metadados obrigatórios
Cada elemento recolhido (amostra, ponto de observação, furo) só é útil ao gabinete técnico se vier acompanhado de metadados, os dados sobre o próprio dado:
- Identificador único, o código da amostra ou do furo, que nunca se repete no projeto.
- Coordenadas, cota e sistema de coordenadas em que foram medidas (no continente, PT-TM06/ETRS89), com o método e a precisão do posicionamento.
- Data da recolha e operador (quem recolheu).
- Método de recolha e tipo de amostra (solo, sedimento, rocha, meia carote).
- Contexto geológico: litologia, alteração, estrutura observada.
- Fotografias e observações de campo em texto livre.
- Mais tarde, no gabinete, juntam-se o laboratório, o método analítico e o número do certificado de análise.
Uma amostra sem estes metadados chega ao gabinete como um número isolado, sem história e sem valor para a análise.
Exemplo resolvido: preencher uma ficha de campo
Situação: foi recolhida uma amostra de rocha alterada, com sulfuretos visíveis, num afloramento junto a uma estrada.
- Atribuir o identificador segundo a convenção do projeto, por exemplo
PR23-ROC-014(projeto, ano, tipo de amostra, número sequencial). Os identificadores são preparados antes da campanha, em etiquetas pré-impressas, para evitar repetições. - Registar a coordenada, o sistema de coordenadas configurado no recetor GNSS e a precisão indicada pelo aparelho.
- Anotar a litologia observada (ex.: granito alterado, com veios de quartzo) e a estrutura próxima (ex.: fratura com direção N-S).
- Anotar que a amostra foi recolhida junto a uma estrada: é um possível contaminante, que tem de ficar escrito para quem interpretar o resultado.
- Fotografar o afloramento e a amostra, com o nome do ficheiro de imagem associado ao identificador da amostra.
- Registar a data e o operador, e enviar a amostra para o laboratório com uma guia de remessa que repete o identificador.
Conclusão: o identificador único é o fio que liga a amostra física, a ficha de campo, a fotografia e, mais tarde, o resultado laboratorial na base de dados.
4. Georreferenciação e sistemas de coordenadas
Georreferenciar é atribuir a um ponto uma posição exata e inequívoca na superfície da Terra, num sistema de coordenadas definido e documentado. Em prospeção, quase todas as perguntas são espaciais ("onde está a anomalia?", "este furo atravessa aquele filão?"), por isso um erro de coordenadas é um erro de interpretação.
Três ideias que não se podem confundir
- Datum (sistema de referência geodésico): define a forma de referência da Terra (um elipsoide) e a forma como esse elipsoide está posicionado em relação à Terra real. Sem datum identificado, a mesma coordenada numérica pode corresponder a locais diferentes.
- Coordenadas geográficas (latitude e longitude): posição angular, em graus, sobre o elipsoide do datum.
- Projeção cartográfica: regra matemática que passa o elipsoide para um plano, dando coordenadas em metros, práticas para medir distâncias e áreas.
O sistema oficial em Portugal
| Território | Datum | Coordenadas planas (projeção) | Código EPSG |
|---|---|---|---|
| Portugal continental | ETRS89 | PT-TM06/ETRS89 (projeção Transversa de Mercator; coordenadas M e P em metros) | 3763 |
| Açores e Madeira | PTRA08 | projeção UTM do respetivo fuso | varia com o arquipélago |
| Coordenadas geográficas ETRS89 | ETRS89 | nenhuma (latitude e longitude) | 4258 |
| Recetores GNSS, por defeito | WGS84 | nenhuma (latitude e longitude) | 4326 |
O ETRS89 é o datum; o PT-TM06 é a projeção. Dizer "o datum PT-TM06" é um erro de conceito. O código EPSG é o número que identifica o sistema dentro do software de SIG e deve ficar registado nos metadados de cada camada.
Dados antigos: os sistemas que ainda aparecem
Relatórios e sondagens de décadas anteriores estão muitas vezes noutros sistemas: Datum 73 e Datum Lisboa, em projeção Hayford-Gauss, ou o ED50 em UTM. As coordenadas destes sistemas não coincidem com as de ETRS89, e as diferenças podem chegar a dezenas ou centenas de metros, o bastante para pôr um furo fora do filão que atravessou. A conversão faz-se no SIG com as transformações oficiais (grelhas de transformação no formato NTv2, publicadas para Portugal), nunca somando uma diferença "à mão".
Como funciona o GNSS
GNSS é o nome genérico dos sistemas de posicionamento por satélite (GPS, Galileo, GLONASS, BeiDou). O recetor mede o tempo que o sinal de cada satélite demora a chegar e converte-o numa distância (pseudodistância). Com as distâncias a pelo menos quatro satélites, calcula a posição e corrige o erro do seu relógio. É um método de trilateração (por distâncias), não de triangulação (que mediria ângulos).
| Modo de posicionamento | Precisão horizontal típica | Uso em prospeção |
|---|---|---|
| Recetor de mão, autónomo | alguns metros | pontos de reconhecimento, sedimentos de corrente |
| Com correção EGNOS (sistema europeu de aumento por satélite) | da ordem de 1 a 3 metros | amostras de solo em malha larga |
| Diferencial / RTK (com estação de referência ou rede de estações permanentes) | centimétrica | colares de sondagem, limites, levantamentos topográficos |
| Estação total (topografia clássica) | centimétrica a milimétrica | levantamento de pormenor, galerias |
Precisão e exatidão
- Precisão: quão repetível é a medição, ou seja, quão próximas ficam medições sucessivas do mesmo ponto entre si.
- Exatidão: quão perto a medição está do valor verdadeiro.
Um aparelho pode ser preciso e pouco exato (dá sempre o mesmo valor, mas desviado) ou o contrário. O método e a precisão de cada coordenada têm de ficar registados junto dela, porque condicionam a confiança que se pode depositar num furo ou num limite.
Exemplo resolvido: distância entre dois pontos em PT-TM06
Situação: o colar do furo A está em M = −18 250,0 m, P = −95 600,0 m e o do furo B em M = −17 890,0 m, P = −95 120,0 m, ambos em PT-TM06/ETRS89.
- Diferença em M: −17 890,0 − (−18 250,0) = 360,0 m (B está 360 m para Este de A).
- Diferença em P: −95 120,0 − (−95 600,0) = 480,0 m (B está 480 m para Norte de A).
- Distância horizontal: √(360² + 480²) = √(129 600 + 230 400) = √360 000 = 600,0 m.
As coordenadas em PT-TM06 podem ser negativas: a origem da projeção fica no centro do continente, e os pontos a Oeste ou a Sul dela têm M ou P negativos. Não é erro, e não se "corrige" tirando o sinal.
Conclusão: só se podem fazer estas contas com coordenadas planas no mesmo sistema. Com latitude e longitude em graus, a mesma conta não dá metros.
Exemplo resolvido: integrar um furo de um relatório antigo
Situação: um relatório dos anos 80 apresenta a localização de um furo, sem indicar o sistema de coordenadas.
- Procurar o sistema no próprio relatório (legenda do mapa, anexos) ou nos metadados do ficheiro. A ordem de grandeza dos números ajuda: coordenadas de um sistema antigo e de PT-TM06 para o mesmo lugar têm valores claramente diferentes.
- Converter para PT-TM06/ETRS89 no SIG, com a transformação oficial adequada ao sistema de origem.
- Comparar a posição convertida com elementos verificáveis: vestígios do furo no terreno, fotografia aérea, caminhos ou plataformas referidos no relatório.
- Registar na base de dados o sistema original, as coordenadas originais, as convertidas e a transformação usada. Se a posição não bater certo, marcar o registo como posição duvidosa em vez de o aceitar sem verificação.
Conclusão: nunca se assume que uma coordenada está no sistema certo; confirma-se sempre a origem antes de a cruzar com dados novos, e guarda-se o valor original.
5. Registo e armazenamento de dados
Tradicionalmente os dados de campo eram registados em cadernos e fichas de papel, sendo depois transcritos no gabinete. Hoje, a tendência é registar digitalmente desde o terreno, reduzindo transcrições e erros:
- Formulários digitais em tablet ou telemóvel (por exemplo, formulários ligados a um projeto de SIG), com validação no próprio momento da recolha: listas fechadas de litologias, coordenada lida diretamente do GNSS, campos obrigatórios.
- Folhas de cálculo, úteis para conjuntos de dados simples e temporários, mas limitadas quando o volume ou as relações entre dados crescem.
- Bases de dados, indicadas para projetos com muitos registos, várias pessoas a introduzir dados e relações entre tabelas.
A regra de ouro do armazenamento é: registar o dado uma vez, na fonte, e nunca voltar a transcrevê-lo à mão. Cada transcrição manual é uma nova oportunidade de introduzir um erro. A segunda regra é: os ficheiros originais nunca se editam. O ficheiro do laboratório e a exportação do formulário de campo guardam-se tal como chegaram, numa pasta de dados brutos; as correções fazem-se na base de dados, com registo.
Formatos de ficheiro
| Formato | Tipo | Uso típico | Cuidados |
|---|---|---|---|
| CSV | tabela em texto simples | trocar dados entre programas, ficheiros de laboratório | indicar separador, codificação (UTF-8) e se a vírgula é separador decimal ou de campos |
| Folha de cálculo (.xlsx, .ods) | tabela | listas de trabalho, relatórios | não serve de base de dados; cuidado com conversões automáticas de datas e de códigos |
| Base de dados (ficheiro ou servidor) | tabelas relacionadas | o projeto completo | cópias de segurança e controlo de acessos |
| GeoPackage (.gpkg) | vetorial e raster, num único ficheiro | formato aberto recomendado para projetos de SIG | um só ficheiro pode conter várias camadas e tabelas |
| Shapefile (.shp) | vetorial | formato antigo, ainda muito usado para trocar dados | é um conjunto de vários ficheiros (.shp, .shx, .dbf, .prj) que viajam juntos; nomes de campo limitados a 10 caracteres |
| GeoTIFF (.tif) | raster georreferenciado | modelos de elevação, grelhas geofísicas, superfícies interpoladas | guarda o sistema de coordenadas dentro do ficheiro |
| Imagem / PDF | documento | fotografias de campo e de testemunhos, certificados, relatórios | nome do ficheiro ligado ao identificador |
Um shapefile enviado sem o ficheiro .prj chega sem sistema de coordenadas: é um dos problemas mais comuns na troca de dados.
Valores abaixo do limite de deteção
Todo o método analítico tem um limite de deteção (LD): abaixo dele, o laboratório não consegue distinguir o elemento do zero. O resultado vem escrito como "<5" (menor que 5 ppm, por exemplo). Este caso tem regras próprias:
| Situação | Como se regista | Porquê |
|---|---|---|
| Resultado abaixo do LD | "<LD" com o valor do limite (ex.: "<5"), num campo de texto ou com um indicador próprio | preserva a informação original |
| Valor numérico para cálculo | uma convenção documentada, por exemplo metade do LD (2,5 para "<5") | permite calcular médias e mapas |
| Amostra não analisada para esse elemento | vazio (nulo), com a razão | não é o mesmo que "não tem o elemento" |
| Resultado igual a zero | quase nunca existe em geoquímica | um zero na base de dados é, em regra, um erro de conversão |
Nunca se regista um "<LD" como zero, nem como vazio indistinto: zero diz "não tem", vazio diz "não sabemos", e "<LD" diz "tem menos do que X". São três informações diferentes. E se o limite de deteção mudar entre campanhas (outro laboratório, outro método), a convenção passa a dar valores diferentes para o mesmo "nada", o que tem de ser tido em conta ao juntar os dados.
Unidades: conversões que se fazem todos os dias
| De | Para | Regra |
|---|---|---|
| % | ppm | × 10 000 (1 % = 10 000 ppm) |
| ppm | g/t | igual (1 ppm = 1 g/t) |
| ppb | ppm (ou g/t) | ÷ 1 000 (1 000 ppb = 1 ppm) |
| g/t | oz/t (onça troy por tonelada) | ÷ 31,1035 |
Exemplo resolvido: harmonizar unidades antes de importar
Situação: dois laboratórios enviam resultados para o mesmo projeto. O laboratório A dá o cobre em % e o ouro em ppb; o laboratório B dá o cobre em ppm e o ouro em g/t. A base de dados guarda Cu em ppm e Au em g/t.
- Cobre de A, 0,45 %: 0,45 × 10 000 = 4 500 ppm.
- Ouro de A, 850 ppb: 850 ÷ 1 000 = 0,85 g/t.
- Cobre de B, 3 200 ppm: já está em ppm, fica 3 200 ppm.
- Ouro de B, 1,2 g/t: já está em g/t, fica 1,2 g/t.
- Ouro de A, "<5 ppb": regista-se "<5 ppb" no campo original e, se a convenção for metade do LD, 2,5 ppb = 0,0025 g/t no campo de cálculo.
Conclusão: a unidade é um campo da base de dados, não uma suposição. Um teor sem unidade não se importa.
Organização de pastas e convenção de nomes
Uma boa organização implica uma estrutura de pastas fixa por projeto, igual em todos os projetos da empresa, e uma convenção de nomes aplicada sem exceções.
PR23_Serra/
01_bruto/ dados tal como chegaram (laboratório, GNSS, formulários); só leitura
02_base_dados/ a base de dados do projeto
03_sig/ projeto de SIG, GeoPackages, rasters
04_fotografias/ PR23-ROC-014_afloramento.jpg ...
05_relatorios/ relatórios e certificados em PDF
06_documentos/ licenças, planos, correspondência
Boas regras para nomes de ficheiros: datas no formato ano-mês-dia (2026-03-14), que ordenam corretamente; sem espaços nem acentos; o identificador da amostra ou do furo sempre no início do nome.
6. Bases de dados relacionais
Uma base de dados organiza informação de forma estruturada, permitindo guardar, procurar, relacionar e atualizar dados com fiabilidade. Uma base de dados relacional guarda a informação em tabelas ligadas entre si por identificadores, e é gerida por um sistema de gestão de bases de dados (SGBD), que impõe regras que uma folha de cálculo não impõe.
Conceitos fundamentais
- Tabela: um conjunto de dados do mesmo tipo, por exemplo a tabela de amostras.
- Registo (linha): um item individual, uma amostra concreta.
- Campo (coluna): um atributo do registo, como a coordenada, o resultado ou a data. Cada campo tem um tipo: texto, número inteiro, número decimal, data, verdadeiro/falso.
- Chave primária: o campo (ou conjunto de campos) que identifica cada registo de forma única dentro da tabela. Não se repete e não pode ficar vazio.
- Chave estrangeira: um campo que guarda a chave primária de outra tabela, criando a ligação entre as duas. Por exemplo, o campo
id_furona tabela de amostras. - Integridade referencial: a regra que impede uma chave estrangeira de apontar para um registo que não existe. Com ela ligada, a base de dados recusa uma amostra de um furo que não está na tabela de furos.
Relações entre tabelas
| Relação | Significado | Exemplo em prospeção |
|---|---|---|
| Um para muitos (1:N) | um registo de A liga-se a vários de B | um furo tem muitos intervalos de amostra; um certificado tem muitas amostras |
| Muitos para muitos (N:M) | vários de A ligam-se a vários de B | uma amostra é analisada para vários elementos e cada elemento é analisado em muitas amostras |
| Um para um (1:1) | a cada registo de A corresponde no máximo um de B | pouco usada; por exemplo, separar dados confidenciais de um furo numa tabela à parte |
Uma relação muitos para muitos resolve-se com uma tabela intermédia. No exemplo acima, essa tabela é precisamente a tabela de ensaios: cada linha junta uma amostra, um elemento e o resultado.
Furo (1) ──── (N) Amostra (1) ──── (N) Ensaio (N) ──── (1) Elemento
Repara no erro que é fácil cometer: dizer que "uma amostra tem uma análise" (1:1). Na realidade, uma amostra tem muitos resultados: um por elemento, e às vezes mais do que um para o mesmo elemento (repetição, outro método, laboratório de controlo). Por isso a relação Amostra–Ensaio é de um para muitos.
Validação na entrada: listas fechadas e regras
A melhor correção de um erro é impedir que ele entre. Um SGBD permite:
- Listas fechadas (tabelas de códigos): o campo litologia só aceita códigos existentes na tabela de litologias (GRN, XIS, QTZ...). Acaba com "granito", "Granito", "granito alt." e "grnt" na mesma coluna.
- Campos obrigatórios: não se grava uma amostra sem coordenadas, data ou operador.
- Intervalos de valores: a inclinação de um furo fica entre −90° e 0° (convenção em que negativo é para baixo); uma recuperação entre 0 e 100 %.
- Unicidade: o identificador da amostra não se pode repetir.
O dicionário de dados
O dicionário de dados documenta cada campo: nome, significado, tipo, unidade, obrigatoriedade e valores aceites. É o documento que permite a outra pessoa, anos depois, perceber a base de dados.
| Tabela | Campo | Tipo | Unidade | Obrigatório | Regra |
|---|---|---|---|---|---|
| furo | id_furo | texto | · | sim | chave primária; formato PR23-SD-000 |
| furo | m, p | decimal | m | sim | PT-TM06/ETRS89 |
| furo | cota | decimal | m | sim | altitude ortométrica |
| furo | azimute | decimal | graus | sim | 0 a 360 |
| furo | inclinacao | decimal | graus | sim | −90 a 0 |
| furo | prof_final | decimal | m | sim | maior que 0 |
| amostra | id_amostra | texto | · | sim | chave primária; único no projeto |
| amostra | id_furo | texto | · | sim (sondagem) | chave estrangeira para furo |
| amostra | de, ate | decimal | m | sim (sondagem) | de < ate ≤ prof_final |
| ensaio | id_amostra, elemento, metodo | texto | · | sim | chave estrangeira; lista fechada de elementos e métodos |
| ensaio | valor_original | texto | · | sim | tal como no certificado ("<5", "0,45") |
| ensaio | valor_num | decimal | ver unidade | não | convenção documentada para "<LD" |
| ensaio | unidade | texto | · | sim | lista fechada: ppm, ppb, %, g/t |
| ensaio | certificado | texto | · | sim | número do certificado do laboratório |
Consultar a base de dados
As bases de dados relacionais consultam-se com SQL, uma linguagem de pedidos. Não é preciso ser programador para ler consultas simples:
SELECT a.id_amostra, a.de, a.ate, e.valor_num
FROM amostra a
JOIN ensaio e ON e.id_amostra = a.id_amostra
WHERE a.id_furo = 'PR23-SD-004'
AND e.elemento = 'Cu'
ORDER BY a.de;
Lê-se assim: "dá-me as amostras do furo PR23-SD-004, com o seu intervalo e o resultado de cobre, ordenadas por profundidade". O JOIN é o que junta duas tabelas pela chave comum. Os programas de SIG e muitos programas de gestão fazem estas consultas por trás de janelas e botões, mas o raciocínio é o mesmo.
7. Modelação de informação
"Modelar informação" tem dois sentidos nesta unidade, e ambos contam:
- Modelar os dados: desenhar a estrutura da base de dados (tabelas, campos, relações) antes de introduzir o primeiro dado real.
- Modelar o depósito: transformar os dados organizados em representações que ajudam a decidir: secções, mapas interpolados, superfícies e modelos tridimensionais.
Modelar os dados: o modelo entidade-relação
O modelo entidade-relação representa as entidades (furo, amostra, ensaio), os seus atributos e as ligações entre elas. É o "desenho técnico" da base de dados. Para uma base de dados de prospeção com sondagens e geoquímica de superfície, um modelo típico é:
| Tabela | Chave primária | Chaves estrangeiras | Descreve |
|---|---|---|---|
| projeto | id_projeto | · | nome, titular, área, sistema de coordenadas |
| furo (colar) | id_furo | id_projeto | posição e orientação da boca do furo |
| desvio | id_furo + profundidade | id_furo | trajetória do furo |
| litologia | id_furo + de | id_furo, codigo_lito | intervalos geológicos |
| amostra | id_amostra | id_furo (se for de sondagem), id_projeto | intervalo de sondagem ou ponto de superfície, com tipo |
| lote | id_lote | · | envio ao laboratório: data, laboratório, certificado |
| ensaio | id_amostra + elemento + método | id_amostra, id_lote | um resultado analítico |
| tabelas de códigos | código | · | litologias, tipos de amostra, elementos, métodos, operadores |
Repara em duas decisões de modelação:
- A tabela amostra serve para amostras de sondagem e de superfície. Nas de sondagem,
id_furo,deeateestão preenchidos e as coordenadas obtêm-se pelo furo; nas de superfície,id_furofica vazio e as coordenadas são da própria amostra. A alternativa, também correta, é ter duas tabelas separadas. O que não se faz é obrigar uma amostra de solo a pertencer a um furo. - As amostras de controlo de qualidade (duplicados, brancos, padrões) entram na mesma tabela, com um campo tipo de amostra, para seguirem no mesmo lote e se poderem avaliar depois.
Normalização
Normalizar um modelo é organizá-lo para eliminar redundância e inconsistência: cada facto guardado num único sítio, cada tabela a descrever um único tipo de entidade. Na prática, três perguntas chegam para um técnico:
- Há informação repetida em muitas linhas (nome do projeto, geólogo, laboratório)? Então passa para uma tabela própria, ligada por um identificador.
- Há colunas que se repetem com nomes diferentes (Cu_1, Cu_2, Cu_3)? Então são linhas de outra tabela, não colunas.
- Há algum campo que depende de outra coisa que não a chave da tabela (a coordenada do furo guardada em cada amostra)? Então está na tabela errada.
A tabela de ensaios é o melhor exemplo: em vez de uma coluna por elemento (Cu, Zn, Pb, Au... que obriga a mudar a estrutura sempre que se analisa um elemento novo), guarda uma linha por resultado. Para ver os resultados lado a lado, faz-se uma consulta que os "vira" em colunas, sem alterar a estrutura.
Exemplo resolvido: modelar as tabelas de um projeto simples
Situação: um projeto tem furos de sondagem, cada um com várias amostras, cada amostra analisada para cobre, zinco e ouro num laboratório.
- Tabela furo: id_furo (chave primária), m, p, cota, azimute, inclinação, data de execução, profundidade final.
- Tabela amostra: id_amostra (chave primária), id_furo (chave estrangeira), de, até, tipo de amostra.
- Tabela ensaio: id_amostra (chave estrangeira), elemento, método, valor original, valor numérico, unidade, certificado. A chave primária é a combinação id_amostra + elemento + método.
- Contar as linhas: 3 furos com 40 amostras cada = 120 amostras; 120 amostras × 3 elementos = 360 linhas de ensaio, e não 120.
- Verificar que nenhum campo repete informação já guardada noutra tabela: a coordenada do furo não se repete em cada amostra, porque se obtém através da relação com a tabela furo.
Conclusão: num modelo bem desenhado, corrigir um único valor (por exemplo, a coordenada de um furo mal registada) propaga a correção a todas as amostras associadas, sem tocar em nenhuma delas.
Exemplo resolvido: validar intervalos de sondagem
Situação: o furo PR23-SD-004 tem profundidade final de 120,00 m. Na importação chegam estes intervalos de amostra:
| id_amostra | de (m) | até (m) |
|---|---|---|
| A0101 | 40,00 | 41,00 |
| A0102 | 41,00 | 42,20 |
| A0103 | 42,00 | 43,00 |
| A0104 | 43,50 | 44,50 |
| A0105 | 119,50 | 120,80 |
- A0102 e A0103: A0103 começa em 42,00 m, mas A0102 só acaba em 42,20 m. Sobreposição de 0,20 m: o mesmo pedaço de rocha estaria em duas amostras. Erro a corrigir com a ficha de amostragem.
- A0103 e A0104: entre 43,00 m e 43,50 m não há amostra. Lacuna de 0,50 m. Pode ser legítima (troço não amostrado, sem recuperação), mas tem de ficar registada como tal.
- A0105: acaba em 120,80 m, depois da profundidade final do furo (120,00 m). Ou o intervalo está errado, ou a profundidade final está errada.
- Em todas: verificar que
de<atée que o identificador não existe já na base de dados.
Conclusão: estas quatro verificações (sobreposições, lacunas, fim do furo, identificadores repetidos) fazem-se sempre que se importam intervalos, e são das primeiras que um software de gestão de dados geológicos automatiza.
Modelar o depósito: dos dados às representações
Com a base de dados organizada, a informação modela-se de várias formas, da mais simples à mais elaborada:
- Mapas de pontos e de superfícies interpoladas (capítulo 9).
- Secções verticais: cortes que mostram os furos, a litologia e os teores ao longo de um plano, onde o geólogo interpreta os contactos e os corpos mineralizados.
- Superfícies e sólidos 3D: o topo de uma camada, o contorno de um filão ou de uma zona mineralizada.
- Modelo de blocos: o volume dividido em blocos, cada um com um teor estimado; é a base do cálculo de recursos, feito por especialistas.
Antes de modelar, os intervalos de amostra, que têm comprimentos diferentes, são muitas vezes compostos em intervalos de comprimento igual. O teor de um composto é a média dos teores ponderada pelo comprimento, nunca a média simples.
Exemplo resolvido: teor médio ponderado de um intervalo
Situação: entre 20,00 m e 24,00 m de um furo há três amostras: 20,00 a 21,50 m com 0,80 % Cu; 21,50 a 22,50 m com 1,60 % Cu; 22,50 a 24,00 m com 0,40 % Cu.
- Comprimentos: 1,50 m; 1,00 m; 1,50 m. Total: 4,00 m.
- Produto comprimento × teor: 1,50 × 0,80 = 1,20; 1,00 × 1,60 = 1,60; 1,50 × 0,40 = 0,60. Soma: 3,40 m·%.
- Teor ponderado: 3,40 ÷ 4,00 = 0,85 % Cu.
- A média simples daria (0,80 + 1,60 + 0,40) ÷ 3 = 0,93 % Cu, sobrevalorizando o intervalo porque a amostra rica é a mais curta.
Conclusão: num relatório, o intervalo reporta-se como "4,00 m com 0,85 % Cu, de 20,00 m a 24,00 m", indicando que é comprimento medido ao longo do furo, que só coincide com a espessura real do corpo mineralizado se o furo o atravessar perpendicularmente. A média simples é um erro que favorece sempre, ou prejudica sempre, os intervalos com amostras curtas.
8. Software de gestão de informação e SIG
Ferramentas de gestão de informação
| Tipo | Para que serve | Exemplos |
|---|---|---|
| Folha de cálculo | tarefas pontuais, verificações rápidas, gráficos | LibreOffice Calc, Microsoft Excel |
| Base de dados de secretária | projetos pequenos, um utilizador de cada vez | LibreOffice Base, Microsoft Access, SQLite |
| Base de dados de servidor | projetos grandes, vários utilizadores em simultâneo, acessos controlados | PostgreSQL (com a extensão espacial PostGIS), SQL Server |
| Gestão de dados geológicos | importação de laboratório, validação de sondagens, QA/QC, auditoria | programas comerciais específicos do setor mineiro, como o acQuire |
| Modelação geológica e mineira | secções, modelos 3D, modelo de blocos | Leapfrog, Datamine, Micromine, entre outros |
| SIG | componente espacial, mapas, análise espacial | QGIS (livre e gratuito), ArcGIS |
A escolha depende da dimensão do projeto, do orçamento e da equipa, mas o fluxo de trabalho é sempre o mesmo: recolher, validar, armazenar, processar, interpretar. Quem domina os conceitos (chaves, relações, sistemas de coordenadas, tipos de dados) muda de programa em poucos dias; quem só decorou botões fica perdido na primeira versão nova.
Os recursos previstos no referencial para esta unidade incluem hardware e software de gestão de informação, manuais técnicos, simuladores e estudos de caso. Nas aulas, o QGIS e uma base de dados livre permitem fazer todo o percurso sem licenças.
O que é um Sistema de Informação Geográfica
Um Sistema de Informação Geográfica (SIG) é um sistema que permite guardar, visualizar, analisar e cruzar dados com localização geográfica. Cada elemento é representado com a sua geometria e uma tabela de atributos associada. O SIG combina a lógica de uma base de dados com a componente espacial e visual do mapa, sendo a ferramenta central para cruzar dados de diferentes fontes sobre o mesmo território.
Vetorial e raster
| Modelo | Representa por | Exemplos em prospeção | Bom para |
|---|---|---|---|
| Vetorial | pontos, linhas e polígonos | amostras e colares (pontos), falhas e estradas (linhas), litologias e áreas de concessão (polígonos) | objetos discretos com limites definidos e muitos atributos |
| Raster | uma grelha regular de células (pixels), cada uma com um valor | imagem de satélite, modelo digital de elevação, grelha de magnetismo, superfície interpolada | fenómenos contínuos no espaço |
A resolução de um raster é o tamanho da célula no terreno: um modelo de elevação com células de 25 m não mostra um talude de 5 m. Um projeto de SIG combina normalmente os dois modelos em camadas sobrepostas.
O sistema de coordenadas no QGIS
Um projeto de QGIS tem um sistema de coordenadas do projeto (no continente, EPSG:3763, PT-TM06/ETRS89) e cada camada tem o seu próprio sistema. O QGIS consegue desenhar camadas de sistemas diferentes umas sobre as outras, reprojetando-as "em tempo real", o que é cómodo mas perigoso: se uma camada tiver o sistema mal declarado, aparece no sítio errado e o programa não avisa. Regra prática: para medir, cruzar e exportar, todas as camadas guardadas no mesmo sistema do projeto.
Operações que o técnico faz todos os dias no SIG
| Operação | O que faz | Exemplo |
|---|---|---|
| Importar texto delimitado | cria pontos a partir de um CSV com colunas de coordenadas | carregar o ficheiro de amostras de solo |
| Junção por atributo (join) | liga à camada uma tabela pela chave comum | juntar os resultados de Cu aos pontos das amostras pelo id_amostra |
| Seleção por atributo | escolhe elementos que cumprem uma condição | amostras com Cu > 200 ppm |
| Seleção por localização | escolhe elementos pela posição em relação a outra camada | amostras dentro do polígono do granito |
| Zona de influência (buffer) | desenha uma faixa a uma distância fixa | faixa de 250 m à volta de uma falha |
| Interseção e recorte | cruza ou corta camadas de polígonos | parte da área de prospeção dentro de uma zona protegida |
| Simbologia graduada | colore por classes de valor | pontos coloridos por classe de teor |
Exemplo resolvido: do ficheiro do laboratório ao mapa
Situação: tens um CSV com as amostras de solo (id_amostra, m, p, data, operador) e outro CSV do laboratório com os resultados (id_amostra, Cu_ppm).
- Criar um projeto de QGIS em EPSG:3763 (PT-TM06/ETRS89).
- Importar o CSV das amostras como texto delimitado, indicando que o X é a coluna m e o Y a coluna p, e declarando o sistema EPSG:3763.
- Importar o CSV do laboratório como tabela sem geometria.
- Fazer a junção por atributo pela chave id_amostra. Contar: se há 336 amostras e só 330 ficaram com resultado, há 6 identificadores que não batem certo (erro de escrita, amostra perdida, amostra ainda por analisar). Investigar antes de continuar.
- Guardar o resultado num GeoPackage, com o sistema de coordenadas incluído.
- Aplicar simbologia graduada ao Cu, com classes por percentis (capítulo 9), e acrescentar a camada de geologia por baixo.
Conclusão: o passo 4, contar os registos antes e depois da junção, é o controlo mais simples e mais esquecido de todo o processo.
9. Análise espacial, interpolação e mapas
O SIG organiza a informação em camadas (layers), cada uma com um tema: geologia, amostras, estradas, concessões, hidrografia. Ligar e desligar camadas permite focar a análise no que interessa em cada momento, e sobrepor camadas permite procurar relações, por exemplo entre amostras de alto teor e a proximidade de uma falha.
Para além de visualizar, o SIG permite calcular relações espaciais:
- Distância e proximidade: que amostras estão a menos de uma dada distância de uma estrutura geológica.
- Interpolação: estimar um valor contínuo, como o teor, entre pontos amostrados, produzindo uma superfície (raster) a partir de pontos.
- Sobreposição de polígonos: cruzar, por exemplo, a área de prospeção com zonas protegidas ou com a carta geológica.
- Mapas temáticos: classificar e colorir dados por intervalo de valor, para comunicar visualmente um padrão.
Interpolação por inverso da distância (IDW)
O método IDW (inverse distance weighting, inverso da distância ponderado) estima o valor num ponto sem amostra como uma média dos valores vizinhos, em que cada vizinho pesa tanto mais quanto mais perto está. O peso de cada vizinho é 1 ÷ distânciaᵖ, em que p é a potência (muito usada p = 2).
Exemplo resolvido: estimar um teor por IDW
Situação: quer-se estimar o teor de cobre no ponto P a partir de três amostras: A com 120 ppm a 50 m de P; B com 60 ppm a 100 m; C com 30 ppm a 200 m. Potência p = 2.
- Pesos: A = 1 ÷ 50² = 1 ÷ 2 500 = 0,000400; B = 1 ÷ 100² = 0,000100; C = 1 ÷ 200² = 0,000025.
- Soma dos pesos: 0,000400 + 0,000100 + 0,000025 = 0,000525.
- Soma dos produtos peso × teor: 0,000400 × 120 = 0,04800; 0,000100 × 60 = 0,00600; 0,000025 × 30 = 0,00075. Total: 0,05475.
- Estimativa: 0,05475 ÷ 0,000525 ≈ 104 ppm.
- Com p = 1 os pesos seriam 0,020, 0,010 e 0,005, e a estimativa daria (2,40 + 0,60 + 0,15) ÷ 0,035 = 90 ppm. Quanto maior a potência, mais o resultado se "cola" à amostra mais próxima.
Conclusão: a estimativa fica sempre entre o mínimo e o máximo das amostras usadas (30 e 120 ppm). O IDW nunca "inventa" um valor mais alto do que o maior medido, e gera círculos concêntricos à volta de amostras isoladas, os chamados "olhos de boi".
Krigagem e variograma
A krigagem é um método de interpolação geoestatístico. Em vez de usar pesos só pela distância, baseia-se no variograma, uma função que mede como a diferença entre duas amostras cresce com a distância entre elas:
- Efeito de pepita: a variabilidade a distância quase nula (erro de amostragem e variação muito local).
- Alcance: a distância a partir da qual as amostras deixam de estar relacionadas.
- Patamar: o valor em que o variograma estabiliza, a partir do alcance.
A krigagem dá, além da estimativa, uma medida da sua incerteza, e respeita a continuidade própria de cada depósito (por exemplo, maior continuidade ao longo de um filão do que perpendicularmente). Exige mais dados e mais conhecimento do que o IDW; o técnico deve saber o que é e o que precisa, mesmo quando a modelação é feita por um especialista.
| Método | Base | Vantagem | Limitação |
|---|---|---|---|
| IDW | distância | simples, rápido, fácil de explicar | não mede a incerteza; "olhos de boi" |
| Krigagem | variograma | modela a continuidade espacial, dá a incerteza | exige muitos dados e interpretação do variograma |
Mapas de anomalias: classes por percentis
Os teores de elementos-traço têm distribuições muito assimétricas (capítulo 10), por isso classes de amplitude igual (0 a 100, 100 a 200 ppm...) põem quase todas as amostras na primeira classe. A prática corrente é usar classes por percentis: o percentil 90 (P90) é o valor abaixo do qual ficam 90 % das amostras.
| Classe | Intervalo | Leitura |
|---|---|---|
| 1 | até P50 | fundo geoquímico |
| 2 | P50 a P75 | fundo alto |
| 3 | P75 a P90 | ligeiramente anómalo |
| 4 | P90 a P95 | anómalo |
| 5 | acima de P95 | fortemente anómalo |
Num conjunto de 200 amostras, acima do P95 ficam as 10 amostras mais altas. Os limites exatos das classes são uma escolha do projeto, e têm de vir escritos na legenda.
Simbologia e legenda
- A cor e o tamanho de cada classe devem ser progressivos (do claro para o escuro, do pequeno para o grande), para se lerem sem legenda.
- As cartas geológicas publicadas pelo LNEG têm as suas próprias convenções de cores e símbolos, que se respeitam quando se usam essas cartas. Para as camadas do projeto, a simbologia é definida pela equipa e explicada na legenda; não se apresenta uma simbologia inventada como se fosse uma norma oficial.
- Um mapa de prospeção leva sempre: título, legenda com os limites das classes, escala gráfica, orientação (norte), sistema de coordenadas, fonte dos dados, data e autor.
Exemplo resolvido: interpretar um mapa interpolado de teores
Situação: a partir de dez pontos de amostragem de solo com teor de cobre, foi gerado um mapa interpolado.
- Identificar as zonas de teor mais elevado (a anomalia geoquímica).
- Verificar a densidade de pontos nessa zona: uma anomalia sustentada por vários pontos próximos merece mais confiança do que uma baseada num único ponto isolado.
- Assinalar como zona de menor confiança as áreas longe de qualquer ponto, onde a interpolação é apenas uma estimativa. Com IDW, uma zona longe de todos os pontos tende para a média dos vizinhos, nunca para um máximo novo; se aparecer um máximo aí, há um erro nos dados ou no método.
- Apresentar o mapa sempre acompanhado dos pontos originais, nunca só a superfície interpolada.
Conclusão: um mapa interpolado comunica um padrão, mas a decisão de prospeção apoia-se sempre nos dados observados.
10. Processar e analisar dados de prospeção
Preparar os dados
Antes de qualquer análise, os dados têm de ser limpos e organizados:
- Deteção de erros: valores fora de intervalo plausível, coordenadas fora da área do projeto, identificadores repetidos, unidades trocadas, zeros onde devia estar "<LD".
- Tratamento de valores em falta: decidir, caso a caso, se se completa (voltando à fonte), exclui ou assinala o registo em falta; nunca se preenche com um valor inventado.
- Consistência de unidades e de métodos: converter tudo para a mesma unidade e não misturar sem aviso resultados de métodos analíticos diferentes (por exemplo, uma digestão parcial e uma total não dão o mesmo valor para a mesma amostra).
- Documentar cada correção feita, para o processo ser reprodutível e auditável.
Estatística descritiva
| Medida | O que diz | Cuidado |
|---|---|---|
| Média | valor central, somando tudo | muito sensível a valores extremos |
| Mediana | valor do meio, com os dados ordenados | resistente a valores extremos; melhor para o fundo |
| Mínimo, máximo, amplitude | gama de variação | um só valor errado estraga o máximo |
| Desvio-padrão | dispersão em torno da média | inflacionado pelos valores extremos |
| Percentis | posição de um valor no conjunto | base das classes dos mapas de anomalias |
A distribuição lognormal dos elementos-traço
Os elementos-traço (cobre, zinco, ouro, arsénio, lítio em solos...) não se distribuem de forma simétrica, em "sino": há muitos valores baixos e poucos valores muito altos. Em geral, é o logaritmo dos teores que tem uma distribuição aproximadamente normal. Diz-se que a distribuição é lognormal. Consequências práticas:
- O histograma dos teores brutos é muito assimétrico; o histograma dos logaritmos (ou com eixo logarítmico) é mais legível e mostra melhor as populações.
- A média geométrica (o antilogaritmo da média dos logaritmos) representa melhor o valor típico do que a média aritmética.
- Os gráficos de probabilidade (percentagem acumulada numa escala de probabilidade contra o teor em escala logarítmica) mostram uma população lognormal como uma reta; quando há duas populações (fundo e anomalia), a linha dobra, e a dobra ajuda a escolher o limiar de anomalia.
Exemplo resolvido: analisar um conjunto de teores
Situação: vinte amostras de solo deram estes teores de cobre (ppm), já ordenados:
15 · 18 · 22 · 25 · 27 · 30 · 31 · 33 · 35 · 38 · 40 · 42 · 45 · 48 · 52 · 55 · 58 · 320 · 365 · 480
- Soma de todos os valores: 1 779 ppm. Média: 1 779 ÷ 20 = 88,95 ppm, arredondada a 89 ppm.
- Mediana: com 20 valores, é a média do 10.º e do 11.º: (38 + 40) ÷ 2 = 39 ppm.
- A média é mais do dobro da mediana: os três valores altos "puxam" a média. A mediana representa melhor o fundo.
- Amplitude: 480 − 15 = 465 ppm. Desvio-padrão do conjunto completo: cerca de 132 ppm.
- O histograma mostra dois grupos: 17 valores entre 15 e 58 ppm e 3 valores entre 320 e 480 ppm. São duas populações.
- Limiar clássico "média + 2 desvios-padrão" calculado com todos os dados: 89 + 2 × 132 ≈ 354 ppm. Este limiar deixaria de fora a amostra de 320 ppm: os próprios valores anómalos inflacionam a média e o desvio-padrão e escondem-se a si mesmos.
- Calculado só com a população de fundo (os 17 valores baixos): soma 614, média ≈ 36,1 ppm, desvio-padrão ≈ 12,8 ppm, limiar ≈ 36,1 + 2 × 12,8 ≈ 62 ppm. Os três valores altos estão todos muito acima.
- Com os logaritmos do fundo, o limiar equivalente (média geométrica × fator de dispersão ao quadrado) fica em cerca de 74 ppm, e a conclusão mantém-se.
Conclusão: os três valores altos tratam-se como anomalia geoquímica a investigar, não como erros. O passo seguinte é vê-los no SIG: se estão agrupados, reforçam a hipótese de um alvo; se estão dispersos e junto a estradas ou povoações, a contaminação é uma hipótese a verificar.
Correlação entre elementos
A correlação mede se dois elementos variam em conjunto. O coeficiente de correlação de Pearson vai de −1 a +1: perto de +1, quando um sobe o outro sobe; perto de 0, não há relação linear. Em geoquímica calcula-se de preferência sobre os logaritmos (ou usa-se a correlação por ordens, de Spearman), porque os valores extremos distorcem muito o coeficiente calculado sobre os teores brutos.
A correlação ajuda a identificar elementos farejadores (pathfinders): elementos que acompanham a mineralização e se detetam mais facilmente ou mais longe do que o próprio metal. Por exemplo, em muitos sistemas de ouro filoniano o arsénio acompanha o ouro. Uma correlação forte não prova causa: dois elementos podem subir juntos apenas porque ambos se concentram na mesma litologia.
Exemplo resolvido: detetar um erro de unidades
Situação: a mediana de cobre de uma campanha é 35 ppm, mas um lote de 40 amostras de outro laboratório tem mediana 0,0036.
- 0,0036 não é plausível em ppm para solos. Em %, 0,0036 % × 10 000 = 36 ppm, em linha com o resto.
- Confirmar no certificado do laboratório que a unidade é %.
- Converter o lote para ppm com registo da correção (data, operador, motivo, certificado).
Conclusão: comparar a mediana de cada lote com a das restantes é uma verificação rápida que apanha trocas de unidades antes de estragarem um mapa.
11. Cruzar informação de várias fontes
Nenhuma fonte de dados isolada conta a história completa de um depósito mineral. Cruzar informação é combinar fontes diferentes para chegar a uma interpretação mais robusta do que qualquer fonte sozinha permitiria:
- Geologia de superfície e sondagens: liga o que se observa à superfície com o que existe em profundidade.
- Geoquímica e geofísica: uma anomalia química reforçada por uma anomalia física no mesmo local é um alvo bastante mais forte do que qualquer uma sozinha.
- Dados públicos e dados do projeto: as cartas geológicas e as ocorrências minerais conhecidas (SIORMINP) enquadram os resultados novos.
- Dados históricos e dados novos: trabalhos antigos podem confirmar ou contradizer a interpretação atual, e não devem ser ignorados só por serem antigos, nem aceites sem verificar o sistema de coordenadas e a qualidade analítica.
Cada tipo de depósito tem a sua combinação esperada. Num VMS da Faixa Piritosa, por exemplo, procura-se a coincidência entre rochas vulcânicas favoráveis, anomalias de metais base e uma anomalia gravimétrica ou elétrica (os sulfuretos maciços são densos e condutores). Num filão de volfrâmio, a coincidência entre uma estrutura cartografada, anomalias de W, Sn e As e, eventualmente, a proximidade de uma cúpula granítica.
Este cruzamento, feito sobre bases de dados bem organizadas e visualizado num SIG, corresponde diretamente aos critérios de desempenho desta unidade: implementar e organizar bases de dados e cruzar informação proveniente da prospeção.
Exemplo resolvido: cruzamento passo a passo até a um alvo de sondagem
Situação: existem amostras de solo com teor de cobre elevado numa área, e existem também dados de geofísica e de geologia de superfície da mesma zona.
- Confirmar que as três camadas estão no mesmo sistema de coordenadas (PT-TM06/ETRS89) e com a qualidade verificada.
- Sobrepor no SIG os pontos de geoquímica (teor de cobre, em classes por percentis) com o mapa de geologia.
- Verificar se a anomalia geoquímica coincide com uma litologia favorável, por exemplo rocha alterada por fluidos hidrotermais, e se está a jusante (na encosta) de uma fonte possível, já que o solo pode ter migrado.
- Cruzar com a geofísica, procurando uma anomalia física (por exemplo, de resistividade ou de cargabilidade) no mesmo local.
- Excluir explicações alternativas: estrada, escombreira antiga, povoação, contaminação.
- Se as fontes convergem, o local passa a alvo prioritário para sondagem. Registar a interpretação e a decisão na base de dados do projeto, com data e responsável.
Conclusão: cruzar dados não é olhar para tudo ao mesmo tempo; é um processo sistemático, fonte a fonte, documentado passo a passo.
Exemplo resolvido: uma matriz de pontuação simples
Situação: há três zonas candidatas (Z1, Z2, Z3) e a equipa decide pontuar cada critério com 1 (sim) ou 0 (não).
| Critério | Z1 | Z2 | Z3 |
|---|---|---|---|
| Cu acima do P95 em pelo menos 3 amostras vizinhas | 1 | 1 | 0 |
| Litologia favorável | 1 | 0 | 1 |
| Anomalia geofísica coincidente | 1 | 0 | 1 |
| Sem fonte de contaminação próxima | 1 | 0 | 1 |
| Total | 4 | 1 | 3 |
- Z1 soma 4 em 4: alvo prioritário.
- Z3 tem geologia e geofísica favoráveis mas sem anomalia geoquímica: talvez o solo seja transportado e não reflita a rocha; propor amostragem de outro meio antes de sondar.
- Z2 só tem geoquímica, e há uma fonte de contaminação: verificar antes de investir.
Conclusão: uma matriz simples torna a decisão explícita e discutível. Os critérios e o peso de cada um são decididos pela equipa técnica e ficam escritos.
12. Controlo de qualidade da informação
O controlo de qualidade (em inglês, QA/QC) garante que os dados são fiáveis antes de servirem de base a decisões técnicas ou de investimento. Começa no terreno e acaba na base de dados.
Amostras de controlo
| Tipo | O que é | O que controla |
|---|---|---|
| Duplicado de campo | segunda amostra recolhida no mesmo local ou segunda metade do mesmo testemunho | variabilidade da amostragem mais a da análise |
| Duplicado de preparação ou de laboratório | segunda porção retirada da mesma amostra preparada (polpa) | precisão do laboratório |
| Branco | material estéril, com o elemento de interesse abaixo do limite de deteção | contaminação durante a preparação e a análise |
| Material de referência certificado (padrão) | material com teor conhecido e certificado | exatidão do laboratório |
| Análise de controlo noutro laboratório | parte das polpas reanalisada num segundo laboratório | desvios sistemáticos do laboratório principal |
As amostras de controlo inserem-se às cegas, com identificadores da mesma série das amostras normais, para que o laboratório não as reconheça. A proporção e as tolerâncias de cada tipo definem-se no plano de controlo de qualidade do projeto, antes da campanha.
Exemplo resolvido: avaliar um duplicado e um padrão
Situação: uma amostra deu 250 ppm Cu e o seu duplicado de campo 230 ppm. No mesmo lote, um padrão certificado com 1,05 % Cu e desvio-padrão certificado de 0,03 % Cu deu 1,13 %. O plano do projeto aceita padrões dentro de ±2 desvios-padrão, trata como alerta entre 2 e 3 e rejeita acima de 3.
- Diferença relativa do duplicado: |250 − 230| ÷ ((250 + 230) ÷ 2) = 20 ÷ 240 ≈ 8 %. Compara-se com a tolerância definida no plano para duplicados de campo.
- Intervalo do padrão a ±2 desvios-padrão: 1,05 ± 0,06 = de 0,99 a 1,11 %. A ±3: 1,05 ± 0,09 = de 0,96 a 1,14 %.
- O resultado 1,13 % está fora de ±2 mas dentro de ±3: alerta. Verificar os padrões seguintes e anteriores do mesmo laboratório.
- Se o padrão tivesse dado 1,20 %, estaria fora de ±3: o lote é rejeitado e pede-se ao laboratório a reanálise, registando o pedido.
Conclusão: o controlo de qualidade só funciona se os resultados de controlo forem avaliados quando chegam, lote a lote, e não no fim da campanha.
Auditoria e rastreabilidade
Cada dado deve ser rastreável: quem o recolheu, quando, com que método, em que laboratório e certificado, e quem o validou. Um registo de alterações documenta cada correção feita depois da introdução inicial (valor antigo, valor novo, data, autor, motivo). Auditorias periódicas comparam uma amostra de registos com o suporte original: a ficha de campo, o certificado do laboratório, a fotografia do testemunho. A rastreabilidade transforma uma base de dados numa prova defensável, essencial se o projeto for auditado pela entidade licenciadora ou avaliado por investidores.
13. Segurança da informação, versões e atitudes profissionais
Cópias de segurança: a regra 3-2-1
Os dados de um projeto de prospeção representam anos de trabalho de campo, caro e muitas vezes irrepetível (uma sondagem não se repete, um testemunho amostrado já foi cortado). A regra prática mais usada é a 3-2-1:
- 3 cópias dos dados (o original e duas cópias);
- em 2 suportes diferentes (por exemplo, o servidor e um disco externo);
- 1 cópia fora do local (outro edifício ou um serviço na nuvem).
Uma cópia de segurança nunca testada pode falhar precisamente no momento em que é necessária, por isso o restauro testa-se periodicamente. E uma cópia que é sincronizada automaticamente com o original (uma pasta partilhada, por exemplo) copia também os erros e os ficheiros apagados: não substitui uma cópia de segurança com histórico.
Controlo de versões
Os dados mudam: chegam resultados novos, corrigem-se erros, reinterpreta-se a geologia. Controlar versões é saber, em qualquer momento, que versão dos dados serviu para cada mapa ou relatório.
- Cada exportação para um relatório leva data e versão no nome (por exemplo,
PR23_ensaios_2026-03-14_v3.csv). - Os mapas indicam a data dos dados que usaram.
- Na base de dados, o registo de alterações guarda o histórico de cada valor.
- Scripts e consultas usados no processamento podem ser guardados num sistema de controlo de versões, como o Git, que regista cada alteração e quem a fez.
Controlo de acessos e confidencialidade
- Controlo de acessos: só quem precisa altera cada parte da informação; a maioria da equipa só consulta. O técnico que introduz os dados do laboratório não precisa de apagar furos.
- Confidencialidade: dados de prospeção são sensíveis do ponto de vista comercial (um resultado bom pode mexer no valor de uma empresa) e estão sujeitos às obrigações de entrega e aos prazos definidos no contrato com o Estado. Não se partilham fora dos canais definidos pelo projeto.
Atitudes profissionais
O referencial avalia atitudes tanto quanto o domínio técnico. No gabinete de dados, cada uma tem um rosto concreto:
| Atitude | No dia a dia |
|---|---|
| Responsabilidade pelas suas ações | assumir a autoria de cada correção, assinando-a no registo de alterações |
| Autonomia | organizar o próprio trabalho de validação sem esperar que alguém o mande, dentro das regras do projeto |
| Assertividade | comunicar ao geólogo responsável que um padrão falhou, mesmo que isso atrase o relatório |
| Rigor | não arredondar, não "corrigir" sem fonte, não aceitar dados sem sistema de coordenadas |
| Sentido analítico | estranhar uma mediana fora do normal e procurar a causa |
| Sentido de organização | pastas, nomes e versões sempre iguais |
| Liderança | coordenar a equipa de campo na etiquetagem e no registo, quando aplicável |
Erros comuns
- Recolher uma amostra sem registar todos os metadados obrigatórios (coordenada, sistema de coordenadas, data, operador, método).
- Chamar "datum" ao PT-TM06: o datum é o ETRS89, o PT-TM06 é a projeção.
- Misturar coordenadas de sistemas diferentes (Datum 73, ED50, ETRS89) sem as converter, ou importar um shapefile sem o ficheiro .prj.
- Dizer que o GNSS funciona por triangulação: mede distâncias, é trilateração.
- Contar os nós de uma malha como se fossem células (20 intervalos têm 21 nós).
- Amostrar sedimentos de corrente na própria confluência ou a jusante de pontes e povoações.
- Registar "<LD" como zero ou deixar vazio sem distinguir de "não analisado".
- Guardar Li e Li₂O, ou % e ppm, na mesma coluna.
- Modelar "uma amostra, uma análise" (1:1), quando uma amostra tem vários resultados.
- Criar colunas Cu_1, Cu_2, Cu_3 em vez de linhas numa tabela de ensaios.
- Calcular o teor de um intervalo com a média simples em vez da média ponderada pelo comprimento.
- Transcrever dados manualmente várias vezes entre papel, folha de cálculo e base de dados.
- Usar classes de amplitude igual para teores lognormais, ou calcular o limiar de anomalia com os próprios valores anómalos.
- Apresentar um mapa interpolado sem os pontos de amostragem.
- Remover valores atípicos sem investigar a causa.
- Avaliar as amostras de controlo só no fim da campanha.
- Corrigir um valor sem deixar registo da alteração, ou editar o ficheiro original do laboratório.
- Guardar a única cópia de segurança no mesmo local físico dos dados originais, ou nunca testar o restauro.
- Confundir mina e pedreira com uma questão de profundidade: a distinção é jurídica (depósitos minerais do Estado, massas minerais privadas).
Glossário
- Prospeção e pesquisa: trabalhos que procuram, localizam e caracterizam depósitos de recursos minerais.
- Depósito mineral: concentração natural de minerais com potencial valor económico; em Portugal, os depósitos minerais pertencem ao domínio público do Estado.
- Massa mineral: rocha ou ocorrência explorada em pedreira, de propriedade privada.
- DGEG: Direção-Geral de Energia e Geologia, entidade licenciadora.
- LNEG: Laboratório Nacional de Energia e Geologia, laboratório do Estado para a geologia e as minas.
- Teor: concentração do elemento útil (%, g/t, ppm).
- Recurso / reserva: concentração com perspetivas de exploração / parte do recurso demonstrada como economicamente explorável.
- VMS: sulfuretos maciços vulcanogénicos, tipo de depósito da Faixa Piritosa Ibérica.
- Pegmatito: rocha granítica de cristais grandes, fonte de lítio, estanho e tântalo.
- Placer: depósito secundário de minerais densos concentrados por rios ou ondas.
- Colar: boca de um furo de sondagem, com a sua posição e orientação.
- Testemunho: cilindro de rocha recuperado por sondagem com coroa diamantada.
- Metadados: dados que descrevem outro dado (quem, quando, como, onde, em que sistema).
- Datum: referência geodésica (elipsoide e seu posicionamento); em Portugal continental, o ETRS89.
- PT-TM06/ETRS89: sistema de coordenadas planas oficial de Portugal continental (EPSG:3763).
- GNSS: sistemas de posicionamento por satélite; posicionam por trilateração.
- Precisão / exatidão: repetibilidade de uma medição / proximidade ao valor real.
- Limite de deteção (LD): menor concentração que o método analítico distingue do zero.
- Chave primária / estrangeira: campo que identifica cada registo / campo que aponta para o registo de outra tabela.
- Integridade referencial: regra que impede ligações a registos inexistentes.
- Dicionário de dados: documento que descreve cada campo da base de dados.
- Normalização: organização de um modelo de dados para eliminar redundância.
- SIG: sistema que guarda, visualiza e analisa dados com localização geográfica.
- Vetorial / raster: representação por objetos (pontos, linhas, polígonos) / por grelha de células.
- GeoPackage / GeoTIFF: formatos abertos para dados vetoriais e raster.
- IDW: interpolação pelo inverso da distância ponderado.
- Krigagem: interpolação geoestatística baseada no variograma.
- Variograma: função que descreve como a diferença entre amostras cresce com a distância.
- Distribuição lognormal: distribuição em que o logaritmo dos valores é aproximadamente normal.
- Percentil: valor abaixo do qual fica uma dada percentagem das amostras.
- Elemento farejador: elemento que acompanha a mineralização e ajuda a detetá-la.
- QA/QC: garantia e controlo de qualidade (duplicados, brancos, padrões).
- Material de referência certificado: amostra com teor certificado, usada para medir a exatidão.
- Rastreabilidade: capacidade de reconstituir a origem e o histórico de cada dado.
- Regra 3-2-1: três cópias, dois suportes, uma fora do local.
Síntese
A gestão de informação de um projeto de prospeção segue sempre o mesmo ciclo: conhecer o quadro legal e o tipo de depósito → recolher dados de campo com todos os metadados → georreferenciar em PT-TM06/ETRS89 → armazenar os dados uma única vez, na fonte, com unidades e limites de deteção explícitos → modelar uma base de dados relacional com chaves, listas fechadas e dicionário de dados → usar software de gestão e SIG para validar, visualizar e analisar → processar e analisar com estatística adequada a dados lognormais → modelar o depósito com interpolações e secções → cruzar informação de várias fontes até chegar a alvos defensáveis → manter sempre controlo de qualidade, rastreabilidade, versões e cópias de segurança. Domina este fluxo e serás capaz de transformar dados dispersos de um terreno num modelo em que a equipa técnica pode confiar.
Exercícios resolvidos
1. Um colega diz que a prospeção é "só ir ao terreno". Está certo?
Resolução: não. A prospeção combina trabalho de campo (cartografia, amostragem, sondagens, geofísica) com trabalho de gabinete (introduzir, validar, organizar, cruzar e interpretar dados). O técnico desta unidade atua sobretudo na gestão da informação produzida no terreno, no gabinete técnico.
2. Uma pedreira de granito tem 60 m de profundidade e uma mina de cobre começou a céu aberto com 20 m. Um colega diz que a diferença entre mina e pedreira é a profundidade. Comenta.
Resolução: está errado. A distinção é jurídica: os depósitos minerais (como o cobre) pertencem ao domínio público do Estado (Lei n.º 54/2015 e Decreto-Lei n.º 30/2021) e são explorados em minas; as massas minerais (como o granito para construção ou ornamental) são privadas e exploradas em pedreiras (Decreto-Lei n.º 270/2001). A entidade licenciadora é a DGEG.
3. Que método de recolha escolherias para caracterizar um placer de estanho num rio, e porquê?
Resolução: poços ou sondagens rasas nos cascalhos, com concentração por bateia, porque o placer concentra minerais densos (cassiterite) no leito e nos terraços do rio. A sondagem com coroa diamantada é própria de rocha consolidada, como nos depósitos primários.
4. Associa cada exemplo ao seu tipo de depósito: Neves-Corvo; Panasqueira; aplito-pegmatitos do Barroso.
Resolução: Neves-Corvo é um depósito de sulfuretos maciços vulcanogénicos (VMS) da Faixa Piritosa Ibérica, com cobre, zinco e estanho; Panasqueira é um depósito hidrotermal filoniano de volfrâmio e estanho; o Barroso tem aplito-pegmatitos com lítio.
5. Uma malha de solos tem 1 200 m por 800 m, com espaçamento de 50 m e pontos em todos os nós, incluindo os limites. Quantas amostras são?
Resolução: 1 200 ÷ 50 = 24 intervalos, logo 25 nós por linha; 800 ÷ 50 = 16 intervalos, logo 17 linhas. Total: 25 × 17 = 425 amostras. As células são 24 × 16 = 384; usar este número faltaria 41 amostras.
6. Um técnico escreveu nos metadados "datum: PT-TM06". Corrige.
Resolução: o datum é o ETRS89; o PT-TM06 é a projeção. O sistema de coordenadas completo é PT-TM06/ETRS89 (EPSG:3763). Nas regiões autónomas usa-se o PTRA08.
7. Porque é que um recetor GNSS precisa de pelo menos quatro satélites? E um colega diz que o GNSS usa triangulação. Está certo?
Resolução: o recetor mede distâncias (pseudodistâncias) aos satélites e tem de calcular quatro incógnitas: as três coordenadas da posição e o erro do seu relógio. Por isso precisa de pelo menos quatro satélites. O método é trilateração (por distâncias), não triangulação (que usaria ângulos).
8. Calcula a distância horizontal entre C (M = 12 300, P = −45 200) e D (M = 12 540, P = −45 380), em PT-TM06/ETRS89.
Resolução: ΔM = 12 540 − 12 300 = 240 m; ΔP = −45 380 − (−45 200) = −180 m. Distância = √(240² + 180²) = √(57 600 + 32 400) = √90 000 = 300 m.
9. O laboratório devolveu "<10" para o zinco de uma amostra. Como registas e como usas este valor?
Resolução: guarda-se o valor original "<10" (ppm), com indicação de que está abaixo do limite de deteção. Para cálculo, aplica-se a convenção documentada do projeto, por exemplo metade do LD, 5 ppm. Nunca se regista zero nem vazio, que teriam outros significados.
10. Desenha (em texto) o modelo de tabelas para um projeto com furos, amostras e ensaios multielementares.
Resolução: tabela furo (id_furo, m, p, cota, azimute, inclinação, profundidade final); tabela amostra (id_amostra, id_furo, de, até, tipo); tabela ensaio (id_amostra, elemento, método, valor original, valor numérico, unidade, certificado), com chave primária id_amostra + elemento + método. Relações: furo 1:N amostra; amostra 1:N ensaio. Tabelas de códigos para litologias, elementos e métodos.
11. Três amostras seguidas de um furo: 1,0 m a 2,5 g/t Au; 0,5 m a 8,0 g/t; 1,5 m a 0,4 g/t. Qual o teor do intervalo de 3,0 m?
Resolução: (1,0 × 2,5 + 0,5 × 8,0 + 1,5 × 0,4) ÷ 3,0 = (2,5 + 4,0 + 0,6) ÷ 3,0 = 7,1 ÷ 3,0 ≈ 2,37 g/t Au. A média simples, (2,5 + 8,0 + 0,4) ÷ 3 ≈ 3,63 g/t, sobrevaloriza o intervalo.
12. Estima por IDW (p = 2) o teor num ponto a 20 m de uma amostra com 50 ppm e a 40 m de outra com 10 ppm.
Resolução: pesos 1 ÷ 400 = 0,0025 e 1 ÷ 1 600 = 0,000625; soma 0,003125. Produtos: 0,0025 × 50 = 0,125 e 0,000625 × 10 = 0,00625; soma 0,13125. Estimativa: 0,13125 ÷ 0,003125 = 42 ppm, mais perto da amostra mais próxima, como esperado.
13. Porque é que o limiar "média + 2 desvios-padrão" calculado com todas as amostras pode esconder uma anomalia?
Resolução: porque os valores anómalos entram no cálculo e aumentam muito a média e o desvio-padrão, elevando o limiar acima de alguns deles. No exemplo do capítulo 10, o limiar com todos os dados dava cerca de 354 ppm e deixava de fora a amostra de 320 ppm; calculado só com o fundo, ficava em cerca de 62 ppm. Em dados lognormais trabalha-se de preferência com logaritmos, percentis e gráficos de probabilidade.
14. Um padrão certificado de 2,50 g/t Au (desvio-padrão 0,10 g/t) deu 2,85 g/t. Com a regra do projeto de rejeitar fora de ±3 desvios-padrão, o que fazes?
Resolução: ±3 desvios-padrão dá 2,50 ± 0,30, de 2,20 a 2,80 g/t. O resultado 2,85 g/t está fora: o lote é rejeitado, pede-se a reanálise ao laboratório e regista-se a ocorrência no registo de controlo de qualidade, sem usar os resultados do lote até haver resposta.
15. A empresa guarda a base de dados no servidor do escritório e uma cópia num disco externo, na mesma sala. Cumpre a regra 3-2-1?
Resolução: não. Há 2 cópias (e não 3) e nenhuma fora do local: um incêndio ou um roubo leva ambas. Falta uma terceira cópia noutro local (outro edifício ou nuvem), e deve testar-se o restauro periodicamente.
16. Explica, com um exemplo, o que significa "cruzar informação de várias fontes" nesta unidade.
Resolução: significa combinar, por exemplo, uma anomalia geoquímica de cobre com a geologia de superfície e com uma anomalia geofísica no mesmo local, depois de confirmar que todas as camadas estão no mesmo sistema de coordenadas e excluir fontes de contaminação. Se as três fontes convergem, o local passa a alvo prioritário de sondagem, uma conclusão muito mais robusta do que a de qualquer fonte isolada.