Sebenta · Executar métodos sísmicos de prospeção (em perfis) na prospeção de recursos minerais (UC01861)
- Introdução
- 1. Porque se faz prospeção sísmica na pesquisa de recursos minerais
- 2. Ondas sísmicas e propagação no subsolo
- 3. Planear um perfil de prospeção
- 4. Equipamento de prospeção sísmica e manobra no terreno
- 5. Calibração do equipamento
- 6. Refração sísmica convencional
- 7. Refração sísmica tomográfica
- 8. Reflexão sísmica
- 9. Topo rochoso e espessura do capeamento
- 10. Down-hole
- 11. Up-hole
- 12. Cross-hole convencional
- 13. Cross-hole tomográfico
- 14. Escolher o método certo
- 15. Segurança e saúde no trabalho: EPI e normas
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a executar métodos sísmicos de prospeção em perfis, aplicados à pesquisa de recursos minerais. A prospeção sísmica usa ondas mecânicas geradas artificialmente para caracterizar o subsolo sem escavar tudo: localiza o topo rochoso, mede a espessura do capeamento de solo, deteta zonas de fraqueza e, nos métodos mais profundos, desenha a estrutura geológica que controla uma mineralização.
O percurso segue a lógica de um técnico no terreno: primeiro compreende-se como as ondas se propagam e como se planeia um perfil, depois como se monta, calibra e manobra o equipamento, em seguida estudam-se os métodos de superfície (refração convencional, refração tomográfica e reflexão) e os métodos em furo (down-hole, up-hole, cross-hole convencional e cross-hole tomográfico), e por fim como se escolhe o método certo e se trabalha em segurança.
Cada capítulo tem exemplos resolvidos passo a passo, com contas feitas por extenso. Os números dos exemplos são ilustrativos: servem para treinar o raciocínio e confirmar ordens de grandeza, não substituem os valores medidos em cada local.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar potenciais recursos minerais a serem prospetados; calibrar o equipamento de prospeção sísmica; manobrar o equipamento de prospeção sísmica; adequar o tipo de prospeção sísmica à finalidade do trabalho; garantir a aplicação dos princípios de calibração do equipamento; executar a refração convencional e tomográfica de reflexão, a prospeção de down-hole, up-hole, cross-hole convencional e cross-hole tomográfico; utilizar os equipamentos de proteção individual; aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho.
Como ler "refração convencional e tomográfica de reflexão". O referencial junta numa só expressão métodos que, na prática, são distintos. Nesta sebenta a expressão lê-se como três técnicas de superfície: refração convencional (interpretação por camadas, capítulo 6), refração tomográfica (modelo contínuo de velocidades obtido por inversão, capítulo 7) e reflexão (capítulo 8). No capítulo 8 também se explica o que é a tomografia de reflexão, uma técnica de processamento que existe com esse nome, para que a matéria fique coberta em qualquer das leituras possíveis.
1. Porque se faz prospeção sísmica na pesquisa de recursos minerais
A prospeção sísmica é um método geofísico indireto: não se vê o material do subsolo, infere-se a sua natureza a partir do tempo que uma onda leva a atravessá-lo ou a refletir-se numa interface. É usada em várias fases da pesquisa porque cobre distâncias grandes com pouca intervenção no terreno e dá informação contínua ao longo de um perfil, ao passo que um furo de sondagem só informa sobre o ponto onde foi feito.
No contexto desta UC, o trabalho decorre nas duas frentes indicadas no referencial:
- Área de prospeção e pesquisa, onde se caracteriza uma zona ainda pouco conhecida.
- Minas, onde se complementa o conhecimento geológico já existente, por exemplo entre furos de sondagem ou junto a galerias.
O que a prospeção sísmica procura responder
- Onde está o topo rochoso, isto é, a interface entre o solo e a rocha alterada por cima e a rocha competente por baixo.
- Qual a espessura do capeamento de solo acima desse topo rochoso.
- Se existem zonas de fraqueza, falhas, cavidades ou variações laterais de material.
- Que velocidades sísmicas caracterizam cada camada, informação que também serve para dimensionar trabalhos posteriores (sondagem, escavação, desmonte).
- Nos métodos de reflexão, que estruturas geológicas profundas (contactos, dobras, falhas) podem controlar a posição de um corpo mineralizado.
Analisar o potencial recurso mineral
A primeira realização da UC é analisar potenciais recursos minerais a serem prospetados. A pergunta que o técnico faz é: que tipo de recurso é, a que profundidade pode estar e que contraste de propriedades físicas se espera? A resposta orienta o método.
| Tipo de recurso ou alvo | O que interessa saber | Contributo típico da sísmica |
|---|---|---|
| Depósitos aluvionares (areias e cascalhos com minerais pesados) | espessura dos sedimentos e forma do fundo rochoso | refração: profundidade do substrato ao longo do vale |
| Massas minerais para pedreira (granito, calcário, areias) | espessura do capeamento a remover, qualidade da rocha | refração: capeamento e velocidade da rocha (indicador de fraturação e de facilidade de desmonte) |
| Caulino, argilas e rochas alteradas | espessura da zona alterada | refração e down-hole |
| Depósitos profundos (por exemplo sulfuretos maciços) | estrutura geológica a centenas de metros | reflexão, com sondagens para confirmar |
| Zona já em exploração (mina) | cavidades, zonas de fraqueza entre furos | cross-hole convencional e tomográfico |
A sísmica mede velocidades e contrastes, não teores. Um corpo mineralizado só é "visível" se tiver velocidade ou impedância diferente da rocha encaixante. Por isso a interpretação cruza-se sempre com a geologia, as sondagens e outros métodos geofísicos.
Enquadramento: mina ou pedreira
Em Portugal a distinção entre mina e pedreira é legal, não de profundidade nem de tamanho. Os depósitos minerais (por exemplo minérios metálicos) pertencem ao domínio público do Estado e regem-se pela Lei n.º 54/2015 e pelo Decreto-Lei n.º 30/2021; as massas minerais (rochas para construção e indústria, exploradas em pedreira) são propriedade privada e regem-se pelo Decreto-Lei n.º 270/2001. A entidade licenciadora é a DGEG (Direção-Geral de Energia e Geologia); o LNEG é o laboratório do Estado para a geologia e as minas. O método sísmico é o mesmo nos dois casos; muda o enquadramento do trabalho e quem o autoriza.
Casos portugueses
A Faixa Piritosa Ibérica, que atravessa o sul de Portugal e se prolonga por Espanha, tem jazigos de sulfuretos maciços vulcanogénicos como Neves-Corvo (cobre, zinco e estanho) e Aljustrel. Em Neves-Corvo fizeram-se levantamentos de sísmica de reflexão 2D e 3D e, em 2019, um ensaio com perfis à superfície e perfis dentro das galerias da mina, a cerca de 650 m de profundidade, para testar a imagem sísmica de sulfuretos a grande profundidade. Outros recursos portugueses conhecidos, como o volfrâmio e o estanho da Panasqueira ou os pegmatitos com lítio do Barroso, servem de exemplo para discutir que alvo e que contraste se esperaria em cada caso.
A analogia do eco
Bater com os nós dos dedos numa parede e ouvir o som que volta permite perceber, sem abrir a parede, onde estão as vigas ou onde o material é diferente. A prospeção sísmica faz isto à escala do subsolo, com ondas mecânicas e com tempos medidos ao décimo de milissegundo.
2. Ondas sísmicas e propagação no subsolo
Toda a prospeção sísmica assenta em três fenómenos físicos: a propagação da onda, a sua refração ao mudar de meio e a sua reflexão numa interface.
Tipos de onda
| Onda | Movimento das partículas | Onde se propaga | Uso em prospeção |
|---|---|---|---|
| P (primária, de compressão) | na direção de propagação (compressão e distensão) | sólidos, líquidos e gases | a mais rápida, chega primeiro: base da refração e da reflexão convencionais |
| S (secundária, de corte ou cisalhamento) | perpendicular à direção de propagação | só em sólidos (não se propaga em fluidos) | mais lenta do que a P; informa sobre a rigidez; usada em down-hole e cross-hole |
| Rayleigh (superficial) | elíptico, junto à superfície | ao longo da superfície do terreno | base do método MASW (análise multicanal de ondas de superfície) |
| Love (superficial) | horizontal, perpendicular à propagação | ao longo da superfície, quando há camadas | pouco usada nos métodos desta UC |
Num sólido comum a onda S tem cerca de 50 a 60 % da velocidade da P: para um coeficiente de Poisson de 0,25, a razão Vp/Vs é √3 ≈ 1,73. Nos métodos de refração e reflexão com ondas P, as ondas superficiais são quase sempre ruído (chegam tarde e com grande amplitude, o chamado ground roll); no método MASW são o próprio sinal, porque a dispersão das ondas de Rayleigh permite estimar o perfil de velocidade das ondas S.
Como a onda S não se propaga em fluidos, a água dos poros não lhe altera muito a velocidade. A onda P, pelo contrário, é muito sensível à saturação. Esta diferença é importante para distinguir o nível freático do topo rochoso (capítulo 9).
Refração, reflexão e lei de Snell
Quando uma onda encontra uma interface entre dois materiais com velocidades V1 (em cima) e V2 (em baixo):
- Parte da energia reflete-se, voltando para o meio de origem com o mesmo ângulo com que chegou.
- Parte da energia refrata-se, mudando de direção ao entrar no novo meio, segundo a lei de Snell:
sen(i) / V1 = sen(r) / V2
Se V2 > V1, o raio refratado afasta-se da normal. Existe um ângulo crítico ic para o qual o raio refratado segue ao longo da interface (r = 90°):
sen(ic) = V1 / V2
A energia que viaja ao longo da interface, à velocidade V2, vai devolvendo energia à camada de cima sempre com o ângulo crítico. Essa onda, que regressa à superfície, chama-se onda de cabeça (ou onda cónica) e é a que a refração sísmica explora.
Exemplo resolvido · Ângulo crítico
Capeamento com V1 = 500 m/s sobre rocha com V2 = 2000 m/s.
- sen(ic) = V1 / V2 = 500 / 2000 = 0,25.
- ic = arcsen(0,25) ≈ 14,5°.
Se a rocha fosse mais lenta do que o capeamento (V2 < V1), V1/V2 seria maior do que 1 e não haveria ângulo crítico: não se forma onda de cabeça. É por isso que a refração exige velocidades a aumentar em profundidade.
Velocidade sísmica e tipo de material
A velocidade de propagação depende da rigidez, da densidade, da porosidade, da fraturação, da alteração e do grau de saturação do material. Os intervalos seguintes são ordens de grandeza da onda P, semelhantes às que se encontram nos manuais de geofísica aplicada; variam muito de local para local e servem apenas para ajuizar se um resultado faz sentido.
| Material | Velocidade da onda P (ordem de grandeza) |
|---|---|
| Ar | cerca de 340 m/s |
| Solo solto, areia seca, aterro | algumas centenas de m/s (cerca de 200 a 1000 m/s) |
| Água, e sedimentos soltos saturados | cerca de 1500 m/s (sedimentos saturados, 1500 a 2000 m/s) |
| Argila | cerca de 1000 a 2500 m/s |
| Rocha alterada ou muito fraturada | muito variável, tipicamente entre a do solo e a da rocha sã |
| Calcário, arenito | intervalo largo, cerca de 2000 a 6000 m/s |
| Granito são | cerca de 5000 a 6000 m/s |
O que interessa à interpretação é o contraste de velocidade entre camadas, não o número isolado. E há uma armadilha clássica: um solo saturado tem velocidade P próxima de 1500 m/s, semelhante à de uma rocha alterada. A refração com ondas P pode confundir o nível freático com o topo rochoso.
Impedância acústica
A impedância acústica de uma camada é o produto da densidade pela velocidade (Z = ρ × V). A fração de energia refletida numa interface depende do contraste de impedância entre as duas camadas. Para incidência vertical, o coeficiente de reflexão é:
R = (Z2 − Z1) / (Z2 + Z1)
Exemplo resolvido · Coeficiente de reflexão
Xisto com ρ1 = 2700 kg/m³ e V1 = 5000 m/s sobre um corpo de sulfuretos maciços com ρ2 = 4500 kg/m³ e V2 = 5500 m/s (valores ilustrativos).
- Z1 = 2700 × 5000 = 13 500 000 kg/(m²·s) = 13,5 × 10⁶.
- Z2 = 4500 × 5500 = 24 750 000 = 24,75 × 10⁶.
- R = (24,75 − 13,5) / (24,75 + 13,5) = 11,25 / 38,25 ≈ 0,29.
Um coeficiente desta ordem produz uma reflexão forte. É a densidade elevada dos sulfuretos maciços que os torna candidatos à sísmica de reflexão, mesmo quando a velocidade é parecida com a da rocha à volta.
3. Planear um perfil de prospeção
Antes de ligar qualquer equipamento, o técnico analisa o potencial recurso mineral a prospetar e só depois desenha o perfil de trabalho. Planear bem evita a situação mais cara de todas: voltar ao terreno porque o perfil não respondeu à pergunta.
Definir a finalidade do trabalho
- Que informação se procura: profundidade do topo rochoso, espessura do capeamento, deteção de cavidades, caracterização entre furos, estrutura profunda?
- Que profundidade se quer atingir: poucos metros (capeamento), dezenas de metros (rocha alterada, aluviões espessos) ou centenas de metros (estrutura de um jazigo)?
- Que escala de trabalho é necessária: prospeção regional, com menos detalhe e maior área, ou caracterização local, com mais detalhe e menor área?
- Que acesso e recursos existem: há furos disponíveis? há ruído de tráfego ou de máquinas? é possível usar explosivos?
Elementos do perfil
| Elemento | O que se decide | Critério |
|---|---|---|
| Espaçamento entre geofones | distância entre recetores consecutivos | mais apertado dá mais resolução, mas cobre menos terreno com o mesmo número de canais |
| Comprimento do dispositivo | distância entre o primeiro e o último geofone | tem de ultrapassar com folga a distância de cruzamento esperada (refração) |
| Posição dos tiros | onde se dispara a fonte | na refração: pelo menos um tiro em cada extremo (tiro direto e tiro inverso), tiros centrais e, se possível, tiros afastados para lá dos extremos |
| Orientação | direção do perfil | em regra perpendicular à estrutura geológica que se quer atravessar |
| Georreferenciação | coordenadas e cota de cada geofone e de cada tiro | indispensável para corrigir a topografia e cruzar com mapas e sondagens |
Geofones e intervalos não são a mesma coisa. Um dispositivo de 24 geofones espaçados de 5 m tem 23 intervalos e mede 23 × 5 = 115 m, não 120 m. Com 48 geofones a 2 m: 47 intervalos, 94 m. Contar mal os intervalos é um erro frequente no planeamento e na folha de campo.
Quanto tem de medir o perfil de refração
A onda refratada só passa a ser a primeira a chegar a partir da distância de cruzamento x_c (capítulo 6). Para uma interface horizontal:
x_c = 2h × √[ (V2 + V1) / (V2 − V1) ]
A raiz é sempre maior do que 1, por isso x_c é sempre maior do que 2h: a onda refratada só aparece como primeira chegada a mais do dobro da profundidade da interface. E, para medir a velocidade V2 com confiança, são precisos vários geofones (quatro ou cinco, pelo menos) para lá de x_c.
Exemplo resolvido · Comprimento mínimo do dispositivo
Espera-se o topo rochoso a cerca de h = 10 m, com V1 = 500 m/s e V2 = 2000 m/s. Os geofones ficam a 5 m.
- (V2 + V1) / (V2 − V1) = 2500 / 1500 ≈ 1,667; raiz ≈ 1,291.
- x_c = 2 × 10 × 1,291 ≈ 25,8 m.
- Para ter pelo menos cinco geofones na onda refratada, depois de x_c: 25,8 + 5 × 5 ≈ 51 m.
- Com margem para o topo rochoso ser mais profundo do que o previsto, um dispositivo de 12 geofones a 5 m (11 intervalos, 55 m) fica no limite; 24 geofones a 5 m (115 m) dá folga confortável.
Conclusão: a profundidade esperada e o contraste de velocidades dimensionam o perfil. Não se escolhe o comprimento "a olho".
Exemplo resolvido · Decidir o método pela finalidade
Uma equipa precisa de confirmar a presença de uma cavidade suspeita entre dois furos de sondagem já existentes, separados por 15 metros.
- O alvo está entre furos, não perto da superfície: a refração e a reflexão de superfície não são o método principal.
- Se bastasse saber a velocidade média entre os furos a algumas profundidades, o cross-hole convencional seria suficiente.
- Como se procura uma anomalia localizada, de posição desconhecida, é preferível o cross-hole tomográfico, que combina disparos e receções a várias profundidades e constrói uma imagem de velocidades entre os furos.
- Decisão: cross-hole tomográfico, apesar de exigir mais tempo de campo e de processamento, porque é isso que a finalidade do trabalho exige.
Este raciocínio, feito antes do trabalho de campo, é o que torna a escolha do método um critério de desempenho e não um hábito.
4. Equipamento de prospeção sísmica e manobra no terreno
Um sistema de prospeção sísmica é composto por várias peças que têm de funcionar em conjunto e sincronizadas. Manobrar o equipamento, a terceira realização da UC, é saber montar, operar, verificar e desmontar cada uma delas.
| Componente | Função |
|---|---|
| Fonte sísmica | gera a vibração (impacto à superfície, queda de peso, explosivo, fonte de furo) |
| Geofones | sensores que convertem a velocidade de vibração do solo num sinal elétrico |
| Cabo sísmico | liga os geofones ao sismógrafo, com uma saída por canal |
| Sismógrafo (registador multicanal) | amplifica, filtra, digitaliza e regista os sinais de todos os canais (12, 24, 48 ou mais) |
| Sistema de disparo (trigger) | marca o instante zero: sensor no martelo, geofone junto à placa ou circuito do disparador de explosivos |
| GPS, estação total ou nível | georreferencia a fonte e cada geofone, incluindo a cota |
| Hidrofones e sondas de furo | recetores e fontes para os métodos em furo |
Fontes sísmicas
| Fonte | Energia e alcance | Notas de campo |
|---|---|---|
| Marreta e placa | baixa; adequada a perfis curtos e pouco profundos | barata e repetível; soma-se o registo de várias pancadas (empilhamento) |
| Queda de peso (weight drop) | média | mais energia e repetibilidade; exige veículo ou estrutura |
| Explosivos | alta; perfis longos e alvos mais profundos | exige autorização e operador habilitado (capítulo 15) |
| Fontes de furo (martelo de furo, faísca elétrica, pequenas cargas) | adaptada ao furo | usadas em up-hole e cross-hole |
| Prancha de corte batida lateralmente | gera ondas S horizontais | batendo nos dois topos obtêm-se ondas S de polaridade oposta |
Geofones
- Geofones verticais registam sobretudo a componente vertical do movimento: são os usados para ondas P em refração e reflexão.
- Geofones horizontais registam o movimento horizontal: são os usados para ondas S.
- Geofones triaxiais (três componentes) são comuns em down-hole e cross-hole.
- Cada geofone tem uma frequência natural; abaixo dela a sensibilidade cai. Para ondas de superfície (MASW) usam-se geofones de frequência baixa (4,5 Hz é comum); para reflexão de alta resolução, geofones de frequência mais alta.
Empilhamento vertical
Em fontes fracas, como a marreta, repete-se a pancada no mesmo ponto e soma-se o registo. O sinal, que é igual em todas as pancadas, soma-se; o ruído, aleatório, soma-se de forma incoerente. A relação sinal/ruído melhora aproximadamente com √N, sendo N o número de pancadas.
Exemplo resolvido · Quantas pancadas?
- Com N = 4 pancadas, a relação sinal/ruído melhora cerca de √4 = 2 vezes.
- Com N = 16 pancadas, melhora cerca de √16 = 4 vezes.
- Para duplicar a melhoria obtida com 4 pancadas é preciso passar a 16, isto é, quadruplicar o número de pancadas.
Consequência prática: empilhar melhora muito ao início e cada vez menos depois. Se 16 pancadas não chegam, compensa mais reduzir o ruído (esperar que o camião passe) ou usar uma fonte mais forte.
Parâmetros de registo no sismógrafo
| Parâmetro | O que é | Critério |
|---|---|---|
| Intervalo de amostragem | tempo entre duas amostras digitais | pequeno face à precisão pretendida: com 0,25 ms, a leitura dos tempos tem essa resolução e a frequência máxima registável (frequência de Nyquist) é 1 / (2 × 0,00025) = 2000 Hz |
| Duração do registo | tempo total gravado depois do disparo | tem de ultrapassar a chegada mais tardia de interesse (a primeira chegada no geofone mais afastado, ou a reflexão mais profunda) |
| Pré-disparo (pre-trigger) | pequena janela gravada antes do instante zero | permite ver o ruído antes do disparo e confirmar o sincronismo |
| Ganho | amplificação do sinal | evitar saturação nos geofones próximos e sinal ilegível nos afastados |
| Filtros | cortes de frequência (passa-alto, corta-banda de 50 Hz da rede elétrica) | usar com prudência no campo: um filtro mal escolhido destrói sinal que não se recupera |
Exemplo resolvido · Duração do registo
Perfil de refração com o geofone mais afastado a 104 m do tiro, V1 = 500 m/s, V2 = 2000 m/s, tempo de interceção t_i = 30 ms (capítulo 6).
- Tempo da onda direta a 104 m: 104 / 500 = 0,208 s = 208 ms.
- Tempo da onda refratada a 104 m: t_i + x / V2 = 30 + 104 / 2000 × 1000 = 30 + 52 = 82 ms.
- A primeira chegada é a refratada, aos 82 ms. Um registo de 250 ms cobre-a com folga, e ainda apanha a onda direta se for precisa para controlo.
Montagem e manobra no terreno
- Implantar o perfil: marcar a linha, as estacas dos geofones e dos tiros, e levantar as coordenadas e cotas.
- Estender o cabo ao longo do perfil, sem o arrastar sobre arestas nem o deixar atravessar caminhos sem proteção.
- Plantar os geofones: espigão bem enterrado, geofone na vertical (os verticais), sem folgas, sem vegetação nem pedras soltas por baixo; em terreno duro usa-se uma base ou abre-se um pequeno furo.
- Ligar cada geofone ao seu canal, pela ordem do perfil, e anotar qualquer troca na folha de campo.
- Ligar o sistema de disparo e confirmar que a fonte marca o instante zero.
- Calibrar e testar (capítulo 5) antes do primeiro tiro válido.
- Registar os tiros pela ordem planeada, verificando cada registo no ecrã antes de avançar.
- Desmontar pela ordem inversa, verificando que não fica material nem furos abertos no terreno.
Folha de campo
Cada tiro fica registado numa folha de campo (em papel ou digital) com: número do ficheiro, posição do tiro, fonte usada, número de pancadas empilhadas, canais com problemas, ruído observado (tráfego, vento, máquinas), hora e operador. Sem folha de campo, um registo sísmico é um ficheiro sem contexto.
Um geofone mal plantado é um dos erros mais frequentes e mais difíceis de detetar depois, já longe do terreno: o sinal parece "estranho" mas já não há forma de repetir a medição sem voltar ao local.
5. Calibração do equipamento
Calibrar é garantir que o equipamento responde de forma correta e comparável, antes de confiar nos dados que regista. O referencial pede duas coisas: calibrar o equipamento (realização) e garantir a aplicação dos princípios de calibração (critério de desempenho).
Princípios da calibração
- Resposta dos geofones: todos devem reagir de forma semelhante ao mesmo estímulo, com a mesma polaridade; um geofone com resposta diferente, invertida ou sem sinal é substituído ou revisto.
- Continuidade e isolamento: cabos e ligações sem cortes nem fugas (humidade nos conectores é causa frequente de ruído).
- Sincronismo: o instante do disparo (trigger) tem de corresponder ao instante zero do registo; qualquer atraso desloca todos os tempos medidos.
- Ganho e filtros: ajustados à intensidade esperada do sinal e ao ruído do local, para não saturar nem perder o sinal.
- Registo de referência: testes guardados antes do levantamento, para comparação se surgirem dúvidas.
- Rastreabilidade: o sismógrafo e os sensores são verificados periodicamente segundo o manual do fabricante; a data da última verificação fica no processo do trabalho.
Testes no terreno
| Teste | Como se faz | O que deteta |
|---|---|---|
| Autoteste do sismógrafo | rotina interna do equipamento, se existir | canais avariados, ruído interno |
| Teste de continuidade dos canais | medição de resistência ou teste do próprio sismógrafo | cabo cortado, geofone desligado, fuga por humidade |
| Registo de ruído | gravar sem disparar | nível de ruído de fundo em cada canal |
| Pancada leve junto a cada geofone | bater levemente no chão junto ao geofone e ver o canal | ordem dos canais, polaridade, geofone solto |
| Disparo de teste | disparo real com todos os canais ligados | amplitude e forma de onda semelhantes, tempo zero correto |
Exemplo resolvido · Rotina de calibração no terreno
- Inspeção visual: cabos, conectores e geofones (danos, humidade, ligações soltas).
- Alimentação e canais: ligar o sistema, confirmar a bateria e o estado de cada canal no ecrã do sismógrafo.
- Registo de ruído: gravar sem disparar e identificar canais anormalmente ruidosos.
- Disparo de teste: verificar que todos os geofones registam sinal, com amplitude e forma de onda semelhantes e a mesma polaridade.
- Tempo zero: confirmar que o instante do disparo coincide com o início do registo; num tiro junto ao primeiro geofone, a primeira chegada nesse geofone tem de aparecer praticamente em t = 0.
- Ajuste de ganho e filtros, em função do ruído medido.
- Registar na folha de campo os resultados e só então iniciar o levantamento efetivo.
Exemplo resolvido · O que faz um atraso de 2 ms no sistema de disparo
Num perfil com V1 = 500 m/s e V2 = 2000 m/s, o sistema de disparo arranca o registo 2 ms depois da pancada real. Todos os tempos medidos ficam 2 ms mais curtos do que os verdadeiros.
- Os declives das retas da dromocrónica não mudam (a reta desloca-se toda para baixo), por isso as velocidades calculadas ficam certas.
- O tempo de interceção baixa 2 ms. Como h = t_i × V1 × V2 / (2 × √(V2² − V1²)) (capítulo 6), o fator que multiplica t_i é 500 × 2000 / (2 × √(4 000 000 − 250 000)) = 1 000 000 / (2 × 1936,5) ≈ 258 m/s.
- Erro na profundidade: 0,002 s × 258 m/s ≈ 0,5 m, sistemático, em todo o perfil.
Meio metro pode parecer pouco, mas num capeamento de 3 m é um erro de mais de 15 %. E é exatamente o tipo de erro que a verificação do tempo zero apanha em segundos.
Uma calibração mal feita não se corrige em escritório: obriga a repetir a recolha de dados no terreno, com o custo de tempo e deslocação que isso implica.
6. Refração sísmica convencional
A dromocrónica
Quando a velocidade aumenta com a profundidade, a partir de uma certa distância da fonte a onda de cabeça, que viaja pela camada rápida, ultrapassa a onda direta, que viaja pela camada lenta. Marcando o tempo da primeira chegada em cada geofone em função da distância à fonte obtém-se a dromocrónica (gráfico tempo-distância). Num modelo de duas camadas horizontais:
Onda direta: t = x / V1
Onda refratada: t = x / V2 + t_i
- Cada reta tem declive igual ao inverso da velocidade: velocidade = 1 / declive = Δx / Δt.
- A reta da onda refratada, prolongada até x = 0, corta o eixo dos tempos no tempo de interceção t_i.
- As duas retas cruzam-se na distância de cruzamento x_c.
A profundidade da interface calcula-se por qualquer das duas fórmulas equivalentes:
h = (t_i / 2) × V1 × V2 / √(V2² − V1²)
h = (x_c / 2) × √[ (V2 − V1) / (V2 + V1) ]
As duas dão o mesmo resultado porque, no ponto de cruzamento, x_c / V1 = x_c / V2 + t_i, isto é, t_i = x_c × (1/V1 − 1/V2). Na prática a fórmula do tempo de interceção é a mais usada, porque t_i se lê com mais precisão do que x_c (que depende do sítio exato onde as duas retas se cruzam).
Ler as primeiras chegadas
A picagem (do inglês picking) é a leitura, em cada traço, do instante em que chega a primeira energia. Lê-se no primeiro desvio do traço em relação ao ruído de fundo, não no pico da onda. Os programas de interpretação ajudam, mas o técnico confirma traço a traço: um canal ruidoso, uma polaridade invertida ou um tiro fraco podem enganar a leitura automática.
Exemplo resolvido · Interpretar uma dromocrónica completa
Tiro em x = 0; geofones de 5 m em 5 m, de 5 m a 60 m (12 geofones, 11 intervalos). Primeiras chegadas lidas:
| x (m) | 5 | 10 | 15 | 20 | 25 | 30 | 35 | 40 | 45 | 50 | 55 | 60 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| t (ms) | 10,0 | 20,0 | 30,0 | 40,0 | 42,5 | 45,0 | 47,5 | 50,0 | 52,5 | 55,0 | 57,5 | 60,0 |
- Primeira reta (5 a 20 m): passa na origem e o tempo aumenta 10 ms por cada 5 m. V1 = Δx / Δt = 15 m / 0,030 s = 500 m/s.
- Segunda reta (20 a 60 m): o tempo aumenta 2,5 ms por cada 5 m. V2 = 40 m / (60,0 − 40,0) ms = 40 / 0,020 = 2000 m/s.
- Tempo de interceção: prolongar a segunda reta até x = 0. t_i = 60,0 − 60 / 2000 × 1000 = 60,0 − 30,0 = 30,0 ms.
- Distância de cruzamento: as duas retas encontram-se onde x / 500 = x / 2000 + 0,030, ou seja x × (0,002 − 0,0005) = 0,030, x_c = 0,030 / 0,0015 = 20 m (confirma-se na tabela: aos 20 m as duas ondas chegam aos 40 ms).
- Profundidade pelo tempo de interceção: √(2000² − 500²) = √(4 000 000 − 250 000) = √3 750 000 ≈ 1936,5. h = (0,030 / 2) × 500 × 2000 / 1936,5 = 0,015 × 1 000 000 / 1936,5 ≈ 7,7 m.
- Verificação pela distância de cruzamento: h = (20 / 2) × √(1500 / 2500) = 10 × √0,6 = 10 × 0,775 ≈ 7,7 m. As duas fórmulas coincidem.
Resultado: capeamento com cerca de 500 m/s e cerca de 7,7 m de espessura sobre um substrato com cerca de 2000 m/s. Como o modelo é de interface horizontal, a profundidade é a mesma ao longo do perfil; se a interface não for horizontal, é preciso o tiro inverso (a seguir).
Tiro direto e tiro inverso: camadas inclinadas
Se a interface for inclinada, um tiro só num extremo dá uma velocidade aparente para a camada de baixo, não a verdadeira. Por isso se dispara sempre nos dois extremos do dispositivo:
- Tiro direto e tiro inverso (em inglês, forward e reverse) medem o mesmo refrator nos dois sentidos.
- Disparando no sentido descendente da inclinação (a interface afunda-se para longe do tiro), a velocidade aparente é menor do que a verdadeira; no sentido ascendente, é maior.
- Para inclinações pequenas, a velocidade verdadeira aproxima-se pela média harmónica das duas aparentes:
V2 ≈ 2 × Vd × Vs / (Vd + Vs)
(Vd: velocidade aparente medida a disparar no sentido descendente; Vs: no sentido ascendente.)
- Os tempos de interceção também diferem nos dois tiros: a interface é mais profunda do lado onde o tempo de interceção é maior.
- Tempos recíprocos: o tempo de percurso de A até B tem de ser igual ao de B até A. Comparar os tempos recíprocos é um controlo de qualidade simples; uma diferença grande indica erro de picagem ou de sincronismo.
Exemplo resolvido · Velocidade verdadeira com tiro direto e inverso
O tiro direto (sentido descendente) dá Vd = 1800 m/s; o tiro inverso (sentido ascendente) dá Vs = 2250 m/s.
- Produto: 2 × 1800 × 2250 = 8 100 000.
- Soma: 1800 + 2250 = 4050.
- V2 ≈ 8 100 000 / 4050 = 2000 m/s.
Se o técnico tivesse feito só o tiro direto, teria usado 1800 m/s, um erro de 10 %, e todas as profundidades calculadas com esse valor ficariam erradas.
Interfaces irregulares no método convencional
O método de duas camadas planas é a base, mas a refração convencional tem técnicas para topos rochosos com algum relevo, que usam os tiros direto e inverso para calcular a profundidade sob cada geofone: o método dos tempos de atraso (delay times), o método mais-menos (plus-minus, de Hagedoorn) e o método recíproco generalizado (GRM). Todos continuam a interpretar o subsolo como camadas separadas por interfaces; quando isso deixa de ser razoável, passa-se à refração tomográfica (capítulo 7).
Limitações da refração: camada oculta e inversão de velocidade
| Situação | O que acontece | Efeito na interpretação |
|---|---|---|
| Inversão de velocidade (camada lenta sob uma camada mais rápida) | não há onda de cabeça nessa interface: a camada lenta não aparece na dromocrónica | a camada não é detetada e a profundidade das interfaces abaixo dela sai sobrestimada |
| Camada oculta (camada fina de velocidade intermédia) | a sua onda refratada nunca chega em primeiro lugar | a camada não é detetada e a profundidade das interfaces abaixo sai subestimada |
| Nível freático num capeamento arenoso | a velocidade P salta para cerca de 1500 m/s | o nível freático pode ser confundido com o topo rochoso |
| Contraste fraco | as duas retas quase se confundem | x_c e t_i mal definidos, profundidade pouco fiável |
Defesas práticas contra estas armadilhas: calibrar a interpretação com sondagens ou down-hole (capítulo 10), comparar com a geologia conhecida e, quando o nível freático é suspeito, recorrer a ondas S, que não são afetadas pela água da mesma forma.
Três camadas
Com três camadas de velocidades crescentes (V1 < V2 < V3), a dromocrónica tem três retas. Calcula-se primeiro a espessura da primeira camada (como no caso de duas camadas) e depois a da segunda, usando o segundo tempo de interceção. O raciocínio é o mesmo, com uma fórmula mais longa, que os programas de interpretação aplicam automaticamente; o que o técnico tem de garantir é que cada reta tem pontos suficientes para ser bem definida.
7. Refração sísmica tomográfica
A refração tomográfica usa o mesmo equipamento e o mesmo tipo de registo da refração convencional, mas muitos mais tiros ao longo do perfil e uma interpretação diferente: em vez de ajustar retas e camadas, um programa de inversão procura o modelo contínuo de velocidades que melhor explica todos os tempos de primeira chegada medidos.
Como funciona a inversão
- Divide-se a secção por baixo do perfil numa malha de células (ou nós).
- Parte-se de um modelo inicial (por exemplo, o resultado da refração convencional ou um gradiente de velocidade).
- O programa traça os raios entre cada tiro e cada geofone através do modelo e calcula os tempos teóricos.
- Compara os tempos teóricos com os medidos e corrige as velocidades das células atravessadas.
- Repete (iterações) até a diferença ser pequena, medida em regra pelo erro médio quadrático (RMS) em milissegundos.
Geometria de aquisição
Exemplo resolvido · Quantos tempos de chegada tem um perfil tomográfico?
Dispositivo de 48 geofones a 2 m (47 intervalos, 94 m, do metro 0 ao metro 94). Tiros em: −10, 0, 12, 24, 36, 48, 60, 72, 84, 94 e 104 m.
- Número de tiros: contam-se as posições, 11 tiros (dois afastados, dois nos extremos e sete no interior).
- Cada tiro é registado pelos 48 geofones: 11 × 48 = 528 traços, cada um com uma primeira chegada para picar.
- Na refração convencional bastariam, no mínimo, os dois tiros dos extremos (2 × 48 = 96 traços). A tomografia multiplica os dados por mais de cinco, e é isso que lhe permite desenhar variações laterais.
Refração convencional ou tomográfica?
| Situação | Método mais indicado |
|---|---|
| Topo rochoso plano e regular, camadas bem definidas | refração convencional |
| Topo rochoso irregular, com depressões, falhas ou variações laterais | refração tomográfica |
| Transição gradual solo, rocha alterada, rocha sã | refração tomográfica (representa gradientes) |
| Poucos recursos de tempo e de processamento | refração convencional |
| Necessidade de imagem contínua e detalhada | refração tomográfica |
Limites da tomografia
- Resolução decrescente com a profundidade: no fundo do modelo passam poucos raios; os bordos e a base da secção são as zonas menos fiáveis.
- Não-unicidade: vários modelos podem explicar os mesmos tempos; o modelo inicial e os parâmetros de suavização influenciam o resultado.
- Inversões de velocidade continuam a ser um problema, porque a tomografia de primeiras chegadas também só usa a energia que chega primeiro.
- Aspeto contínuo não é garantia: uma imagem bonita com um erro RMS elevado ou com poucos raios numa zona é uma imagem pouco fiável. O técnico confirma sempre a cobertura de raios e o erro final.
Os dois métodos de refração partilham o mesmo equipamento de base e a mesma calibração; o que muda é o número de pontos de disparo e o método de interpretação. Os mesmos dados de um perfil tomográfico podem ser interpretados também pelo método convencional, o que é um bom controlo cruzado.
8. Reflexão sísmica
Numa interface com contraste de impedância acústica, parte da energia volta à superfície. Na reflexão mede-se o tempo duplo (ida e volta, em inglês two-way time): o tempo que a onda leva a descer até à interface e a regressar.
Tempo duplo e profundidade
Com fonte e recetor no mesmo ponto (afastamento nulo) e velocidade média V acima da interface:
t0 = 2h / V logo h = V × t0 / 2
Com a fonte e o recetor separados por um afastamento x, o tempo segue uma hipérbole:
t(x) = √( t0² + x² / V² )
A diferença entre t(x) e t0 chama-se sobretempo normal (normal moveout, NMO). Corrigir o NMO é "endireitar" a hipérbole, para que todas as reflexões do mesmo ponto fiquem ao mesmo tempo t0.
Exemplo resolvido · Profundidade e correção NMO
Uma reflexão chega com t0 = 100 ms (0,100 s) e a velocidade média acima dela é V = 1800 m/s.
- Profundidade: h = V × t0 / 2 = 1800 × 0,100 / 2 = 90 m.
- Tempo no geofone a x = 60 m: x / V = 60 / 1800 ≈ 0,0333 s; (x / V)² ≈ 0,00111 s².
- t0² = 0,0100 s². Soma: 0,01111 s². t(60) = √0,01111 ≈ 0,1054 s = 105,4 ms.
- Correção NMO a 60 m: 105,4 − 100,0 ≈ 5,4 ms.
Erro comum: esquecer que o tempo é duplo e calcular h = V × t0, obtendo 180 m em vez de 90 m.
Ponto médio comum, correção NMO e empilhamento
O processamento de reflexão assenta em três ideias:
- Ponto médio comum (CMP, common midpoint): pares fonte-recetor diferentes, com o mesmo ponto médio, iluminam o mesmo ponto de uma interface horizontal. Agrupam-se os traços por ponto médio.
- Correção NMO: com a velocidade certa, as hipérboles de cada grupo ficam horizontais. A escolha da velocidade que melhor as endireita chama-se análise de velocidades.
- Empilhamento (stacking): somam-se os traços corrigidos de cada grupo. A reflexão reforça-se; o ruído aleatório atenua-se, com uma melhoria da relação sinal/ruído aproximadamente proporcional a √N, sendo N a cobertura (número de traços por ponto médio).
A cobertura de um levantamento com todos os canais de um lado da fonte calcula-se por:
cobertura = (número de canais × espaçamento dos geofones) / (2 × espaçamento dos tiros)
Exemplo resolvido · Cobertura e resolução
- 48 canais, geofones a 2 m, tiros a cada 4 m: cobertura = (48 × 2) / (2 × 4) = 96 / 8 = 12. Melhoria esperada da relação sinal/ruído: √12 ≈ 3,5 vezes.
- Resolução vertical: a regra corrente é cerca de um quarto do comprimento de onda. Com V = 3000 m/s e frequência dominante de 60 Hz, λ = V / f = 3000 / 60 = 50 m e λ / 4 ≈ 12,5 m. Camadas mais finas do que isto não se separam bem.
Tomografia de reflexão
A tomografia de reflexão é uma técnica de processamento que aplica a lógica da inversão tomográfica aos tempos das reflexões, em vez dos tempos das primeiras chegadas. O programa ajusta um modelo de velocidades até que os tempos de reflexão calculados coincidam com os medidos, e esse modelo serve depois para colocar as reflexões na posição e profundidade certas. É uma técnica sobretudo de levantamentos de reflexão maiores e de processamento especializado; para o técnico de campo, o que muda é a exigência de boa cobertura e de registos limpos, porque a inversão só é tão boa quanto os tempos que lhe são dados.
Reflexão na prospeção mineral
- É o método sísmico com maior profundidade de investigação, usado para mapear contactos, dobras e falhas que controlam jazigos a centenas de metros.
- Em rochas cristalinas e metamórficas, típicas de muitos jazigos metálicos, as camadas não são tão contínuas como numa bacia sedimentar: o sinal é mais difícil de interpretar e exige processamento cuidado.
- Na Faixa Piritosa Ibérica a reflexão tem sido usada para cartografar a estrutura em profundidade; em Neves-Corvo fizeram-se levantamentos 2D e 3D e ensaios com recetores dentro da mina (capítulo 1). É um exemplo de como a sísmica de reflexão se usa em conjunto com gravimetria, métodos eletromagnéticos e sondagens.
- Existe também a reflexão de alta resolução a pequena profundidade (dezenas de metros), com fontes ligeiras e geofones de frequência mais alta, usada em geotecnia e na caracterização de aluviões.
| Refração | Reflexão | |
|---|---|---|
| Condição necessária | velocidade aumenta com a profundidade | contraste de impedância acústica |
| O que se lê no registo | primeiras chegadas | chegadas posteriores (tempo duplo) |
| Afastamentos fonte-geofone | grandes face à profundidade (x_c > 2h) | em regra pequenos a moderados face à profundidade |
| Alvo típico | topo rochoso e camadas a pequena profundidade | estruturas mais profundas ou complexas |
| Processamento | mais simples | mais exigente (CMP, NMO, empilhamento) |
9. Topo rochoso e espessura do capeamento
O referencial destaca dois conhecimentos que são, na prática, os resultados mais pedidos a um perfil sísmico: o topo rochoso e a espessura do capeamento de solo.
O que é o topo rochoso "sísmico"
Na geologia, a passagem do solo à rocha sã raramente é uma superfície nítida: há solo, rocha muito alterada, rocha alterada e fraturada e, por fim, rocha sã. A sísmica define o topo rochoso como a interface onde a velocidade aumenta de forma marcada. Isso significa que:
- O topo rochoso sísmico pode coincidir com o topo da rocha alterada ou com o topo da rocha sã, conforme o contraste de velocidades.
- O resultado deve ser sempre calibrado com sondagens (ou com um down-hole) para dizer a que material geológico corresponde a interface sísmica.
- Na refração tomográfica, onde a passagem é gradual, define-se o topo rochoso por uma isolinha de velocidade escolhida e justificada (por exemplo, a velocidade medida no topo da rocha num furo próximo).
Espessura do capeamento e volumes
A espessura do capeamento é a profundidade do topo rochoso medida a partir da superfície do terreno. Num perfil com topografia, as profundidades calculam-se em relação a cada ponto do perfil e depois convertem-se em cotas do topo rochoso (cota do terreno menos espessura).
Exemplo resolvido · Do perfil à cota e ao volume de descubra
Num perfil de refração obteve-se, sob três geofones, a espessura do capeamento: 3,0 m, 3,6 m e 3,9 m. As cotas do terreno nesses pontos são 212,4 m, 211,8 m e 211,1 m.
- Cotas do topo rochoso: 212,4 − 3,0 = 209,4 m; 211,8 − 3,6 = 208,2 m; 211,1 − 3,9 = 207,2 m.
- Espessura média no perfil: (3,0 + 3,6 + 3,9) / 3 = 10,5 / 3 = 3,5 m.
- Se vários perfis numa área de 120 m × 80 m confirmarem uma espessura média de 3,5 m, o volume de capeamento a remover para abrir uma frente de pedreira é cerca de 120 × 80 × 3,5 = 9600 m² × 3,5 m = 33 600 m³.
Este tipo de estimativa entra no planeamento da exploração (descubra, depósito de terras, custos) e só é válido com perfis bem distribuídos e confirmados por sondagens.
Velocidade e facilidade de escavação
A velocidade sísmica da rocha é usada como indicador da facilidade de escavação: rocha lenta (alterada, fraturada) tende a poder ser escavada ou ripada com meios mecânicos; rocha rápida e maciça tende a exigir desmonte com explosivos. Os limites exatos dependem do tipo de rocha e do equipamento, e constam das tabelas dos fabricantes de máquinas; o técnico usa-os como orientação, nunca como garantia.
Topo rochoso ou nível freático? Se a "camada rápida" tiver velocidade P próxima de 1500 m/s e coincidir com a profundidade da água num poço ou piezómetro próximo, é muito provável que seja o nível freático e não a rocha. Confirma-se com sondagem, com ondas S ou comparando perfis feitos em épocas diferentes do ano.
10. Down-hole
Quando existem furos de sondagem, é possível medir velocidades sísmicas com muito mais precisão vertical do que à superfície. No down-hole a fonte fica à superfície, a uma pequena distância da boca do furo (o afastamento), e um recetor (em regra um geofone triaxial, ou um hidrofone num furo com água) desce dentro do furo a profundidades sucessivas. Em cada profundidade dispara-se a fonte e regista-se o tempo de chegada. Obtém-se um perfil de velocidade em função da profundidade naquele ponto. Para ondas S usa-se uma prancha batida lateralmente e um geofone com componentes horizontais.
O ensaio está normalizado, por exemplo na norma ASTM D7400 (ensaios sísmicos down-hole), muito usada em geotecnia; os princípios aplicam-se igualmente à prospeção mineral.
Procedimento
- Preparar o furo: confirmar a profundidade livre, a presença de água e o revestimento (tubo bem acoplado ao terreno, em regra com a folga cimentada, para a onda passar do terreno para o recetor).
- Fixar a fonte a um afastamento constante da boca do furo (poucos metros), medido e anotado.
- Descer o recetor até à primeira profundidade prevista e fixá-lo contra a parede (os recetores de furo têm um sistema de fixação).
- Disparar e registar; repetir o disparo para confirmar o tempo (e, nas ondas S, disparar nos dois sentidos para inverter a polaridade).
- Descer ao incremento seguinte (por exemplo 1 m) e repetir.
- Continuar até à profundidade máxima de interesse.
- Verificar a coerência do perfil de tempos ainda no terreno: um tempo que diminui com a profundidade é sinal de erro.
Mudar a posição da fonte a meio do ensaio invalida a comparação entre profundidades: o afastamento tem de se manter igual do primeiro ao último disparo.
Correção do afastamento
Como a fonte não está exatamente sobre o furo, o raio percorre uma distância inclinada r = √(z² + a²), sendo z a profundidade do recetor e a o afastamento. Para obter o tempo vertical equivalente (admitindo trajeto retilíneo):
t_vertical = t_medido × z / r
A velocidade de intervalo entre duas profundidades é Δz / Δt_vertical.
Exemplo resolvido · Down-hole com afastamento de 2 m
| z (m) | t medido (ms) | r = √(z² + 2²) (m) | t vertical = t × z / r (ms) |
|---|---|---|---|
| 2 | 7,07 | 2,83 | 5,0 |
| 4 | 11,18 | 4,47 | 10,0 |
| 6 | 11,60 | 6,32 | 11,0 |
| 8 | 12,37 | 8,25 | 12,0 |
| 10 | 13,26 | 10,20 | 13,0 |
- Exemplo de uma linha: z = 4 m, r = √(16 + 4) = √20 ≈ 4,47 m; t vertical = 11,18 × 4 / 4,47 ≈ 10,0 ms.
- Velocidades de intervalo: 0 a 2 m: 2 / 0,0050 = 400 m/s; 2 a 4 m: 2 / 0,0050 = 400 m/s; 4 a 6 m: 2 / 0,0010 = 2000 m/s; 6 a 8 m e 8 a 10 m: também 2000 m/s.
- Interpretação: capeamento com cerca de 400 m/s até aos 4 m; abaixo, rocha com cerca de 2000 m/s. O topo rochoso está a cerca de 4 m neste furo.
- Sem correção, o intervalo de 4 a 6 m daria 2 / (0,01160 − 0,01118) = 2 / 0,00042 ≈ 4760 m/s, mais do dobro do valor corrigido. Perto da superfície, onde z é comparável ao afastamento, a correção é indispensável.
O down-hole é o método de referência para calibrar a interpretação dos perfis de refração que passam perto do furo: dá, no mesmo ponto, a profundidade do topo rochoso e as velocidades reais das camadas.
11. Up-hole
O up-hole é a geometria inversa do down-hole: a fonte está dentro do furo, a profundidades sucessivas, e os geofones ficam à superfície, junto à boca do furo. Em prospeção sísmica é o método clássico para caracterizar a zona meteorizada (a camada superficial alterada e lenta): a sua espessura e velocidade servem para calcular as correções estáticas dos levantamentos de reflexão e de refração feitos na mesma zona. Quando se usa a mesma fonte em furo que o levantamento de reflexão (por exemplo, pequenas cargas), o up-hole aproveita os próprios furos de tiro.
Procedimento
- Colocar os geofones à superfície, a pequena distância da boca do furo, e anotar a distância.
- Posicionar a fonte à profundidade máxima prevista.
- Disparar e registar.
- Passar a fonte ao nível seguinte e repetir, até perto da superfície. O tempo de percurso da fonte até à superfície chama-se, em inglês, uphole time.
- Aplicar aos tempos a mesma correção de trajeto inclinado do down-hole, se o afastamento dos geofones não for desprezável.
Exemplo resolvido · Zona meteorizada e correção estática
Up-hole com geofone à boca do furo (afastamento desprezável). Tempos medidos:
| Profundidade da fonte (m) | 1 | 2 | 3 | 5 | 7 |
|---|---|---|---|---|---|
| Tempo (ms) | 2,0 | 4,0 | 6,0 | 7,11 | 8,22 |
- De 0 a 3 m o tempo cresce 2 ms por metro: velocidade = 1 m / 0,002 s = 500 m/s (zona meteorizada).
- De 3 a 7 m: 4 m / (8,22 − 6,0) ms = 4 / 0,00222 ≈ 1800 m/s (abaixo da zona meteorizada).
- Espessura da zona meteorizada: 3 m (onde o declive muda).
- Correção estática: atraso que a zona meteorizada introduz face a um terreno que tivesse, até à superfície, a velocidade de baixo: 3 × (1/500 − 1/1800) = 3 × (0,002000 − 0,000556) = 3 × 0,001444 ≈ 0,00433 s = 4,3 ms em cada passagem vertical pela zona meteorizada. Esta correção aplica-se aos tempos dos levantamentos de superfície feitos junto ao furo.
| Down-hole | Up-hole | |
|---|---|---|
| Fonte | à superfície, com afastamento fixo | dentro do furo, a várias profundidades |
| Recetor | dentro do furo, a várias profundidades | à superfície, junto à boca |
| Uso típico | perfil de velocidades (P e S) junto ao furo; calibração da refração | zona meteorizada e correções estáticas |
| Cuidado principal | afastamento constante e correção do trajeto inclinado | segurança da fonte dentro do furo; estado do furo entre disparos |
12. Cross-hole convencional
O cross-hole mede a velocidade sísmica entre furos. A fonte desce num furo e o recetor (ou os recetores) descem no(s) furo(s) vizinho(s), à mesma cota. Mede-se o tempo de percurso horizontal entre furos e, repetindo a várias profundidades, obtém-se um perfil vertical de velocidades da faixa de terreno entre os furos. Serve para detetar zonas de fraqueza, variações laterais e camadas finas que a refração não resolve.
A norma ASTM D4428 (ensaios sísmicos cross-hole) recomenda em regra três furos alinhados: um para a fonte e dois para recetores. Com dois recetores a distâncias diferentes, a velocidade calcula-se pela diferença de tempos entre os dois recetores, o que elimina qualquer atraso comum do sistema de disparo.
Verticalidade e distância real
Nenhum furo é perfeitamente vertical. Antes (ou depois) do ensaio, mede-se o desvio de cada furo com uma sonda de inclinação, em intervalos regulares de profundidade, e calcula-se a distância real entre furos a cada cota. Usar a distância medida à superfície introduz um erro que cresce com a profundidade.
Exemplo resolvido · Velocidade entre furos, atraso do disparo e desvio
Três furos alinhados: A (fonte), B a 5,00 m e C a 10,00 m de A, distâncias reais à cota de ensaio. Velocidade verdadeira do terreno: 2000 m/s. O sistema de disparo tem um atraso não detetado de 0,20 ms (os tempos medidos ficam 0,20 ms maiores).
- Tempos verdadeiros: A→B = 5 / 2000 = 2,50 ms; A→C = 10 / 2000 = 5,00 ms. Tempos medidos: 2,70 ms e 5,20 ms.
- Velocidade direta A→B com o tempo medido: 5,00 / 0,00270 ≈ 1852 m/s (erro de cerca de −7 %).
- Velocidade por diferença B→C: (10,00 − 5,00) / (5,20 − 2,70) ms = 5,00 / 0,00250 = 2000 m/s. O atraso comum anula-se na subtração.
- Efeito do desvio: a 15 m de profundidade o furo B afastou-se 0,40 m de A, e a distância real é 5,40 m. O tempo verdadeiro é 5,40 / 2000 = 2,70 ms. Usando por engano os 5,00 m da superfície: 5,00 / 0,00270 ≈ 1852 m/s, um erro de cerca de −7,4 %, igual à proporção do erro na distância (0,40 / 5,40).
Procedimento
- Confirmar que os furos estão revestidos e acoplados ao terreno (e, se usarem hidrofones, cheios de água).
- Medir as coordenadas das bocas dos furos e o desvio de cada furo em profundidade.
- Descer a fonte e os recetores à mesma cota e fixá-los.
- Disparar, registar e repetir para confirmar o tempo (para ondas S, com inversão de polaridade).
- Passar à cota seguinte, com o mesmo incremento nos furos todos.
- Calcular as velocidades com as distâncias reais a cada cota.
13. Cross-hole tomográfico
O cross-hole tomográfico alarga o princípio do cross-hole convencional: dispara-se a fonte a várias profundidades num furo e, para cada disparo, regista-se em várias profundidades no furo vizinho. Em vez de raios horizontais, obtém-se um leque de raios cruzados que atravessam o plano entre os furos em muitas direções. A inversão tomográfica desses tempos (a mesma lógica do capítulo 7) produz uma imagem contínua de velocidades no plano entre os furos.
Geometria e número de raios
Exemplo resolvido · Planear a aquisição
Dois furos a 10 m um do outro. Quer-se investigar entre os 5 m e os 25 m de profundidade, com posições de 1 m em 1 m.
- De 5 a 25 m há 20 intervalos de 1 m, logo 21 posições em cada furo (não 20).
- Cada uma das 21 posições da fonte é registada nas 21 posições do recetor: 21 × 21 = 441 raios.
- Se o modelo usar células de 1 m × 1 m, o plano de 10 m × 20 m tem 10 × 20 = 200 células (e 11 × 21 = 231 nós nos cantos das células). Há mais raios do que células, condição necessária, mas não suficiente, para uma boa inversão.
- Com uma cadeia de recetores (por exemplo, 12 hidrofones de uma vez), cada disparo regista várias posições em simultâneo e o tempo de campo reduz-se muito.
Que anomalia se consegue ver
Exemplo resolvido · Atraso causado por uma zona de fraqueza
Rocha com 4000 m/s entre furos a 10 m. Um raio horizontal atravessa uma zona fraturada de 2 m de largura com 1500 m/s.
- Raio só em rocha sã: 10 / 4000 = 0,00250 s = 2,50 ms.
- Raio que cruza a zona: 8 / 4000 + 2 / 1500 = 0,00200 + 0,00133 = 0,00333 s = 3,33 ms.
- Atraso: 3,33 − 2,50 ≈ 0,83 ms, bem acima da precisão de leitura de um bom registo.
Mas atenção: os raios reais contornam as zonas lentas (seguem o caminho mais rápido), pelo que o atraso medido é menor do que o calculado com raios retos. Por isso as cavidades e zonas lentas pequenas são mais difíceis de resolver do que as zonas rápidas, e a interpretação é sempre cruzada com as sondagens.
Limites
- A cobertura angular é limitada: não há raios verticais (só se mede de furo para furo), pelo que as anomalias tendem a aparecer alongadas na horizontal.
- A resolução depende do comprimento de onda e do espaçamento das posições: anomalias muito menores do que estas grandezas não aparecem.
- Quanto maior for a altura investigada em relação à distância entre furos, maior a variedade de inclinações dos raios e melhor a cobertura; com furos muito afastados face à altura, quase todos os raios são próximos da horizontal.
- A verticalidade e a posição exata das sondas continuam a ser críticas: um erro de posição transforma-se diretamente numa falsa anomalia.
O cross-hole tomográfico é o método indicado quando se procura uma anomalia localizada e de posição incerta entre dois furos, como uma cavidade, uma zona de fraqueza ou um corpo mineralizado pequeno com contraste de velocidade.
14. Escolher o método certo
Visão de conjunto dos métodos sísmicos
| Método | Fonte | Recetores | O que dá |
|---|---|---|---|
| Refração convencional | superfície | superfície, ao longo do perfil | camadas: velocidades e profundidades (topo rochoso, capeamento) |
| Refração tomográfica | superfície, muitos tiros | superfície, ao longo do perfil | modelo contínuo de velocidades, topo rochoso irregular |
| Reflexão | superfície | superfície, ao longo do perfil | interfaces mais profundas ou complexas |
| Down-hole | superfície, junto ao furo | dentro de um furo | perfil de velocidades junto ao furo; calibração |
| Up-hole | dentro de um furo | superfície | zona meteorizada; correções estáticas |
| Cross-hole convencional | dentro de um furo | dentro de outro(s) furo(s), mesma cota | velocidade horizontal entre furos, por cota |
| Cross-hole tomográfico | dentro de um furo, várias cotas | dentro de outro furo, várias cotas | imagem contínua entre furos |
A escolha depende sempre de três perguntas:
- Onde está o alvo? Perto da superfície, em profundidade, ou entre furos já existentes?
- Que profundidade e detalhe são precisos? Grande área com menos detalhe, ou zona pequena com muito detalhe?
- Que recursos, acessos e tempo há? Há furos? É possível usar explosivos? Há ruído no local?
Exemplo resolvido · Um plano com dois métodos
Numa futura pedreira de granito quer-se saber a espessura do capeamento numa área de 300 m × 200 m e confirmar a qualidade da rocha junto a um furo de 30 m já feito.
- Área extensa, alvo a poucos metros, sem furos na maior parte da área: refração em perfis paralelos. Se o granito tiver alteração irregular (muito comum), refração tomográfica.
- Junto ao furo existente: down-hole, que dá velocidades P e S em profundidade e calibra os perfis de refração que passam perto.
- Não se justifica reflexão (alvo raso) nem cross-hole (só há um furo).
15. Segurança e saúde no trabalho: EPI e normas
O referencial exige utilizar os equipamentos de proteção individual e aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho. Na prospeção sísmica os riscos são concretos e repetem-se em todos os levantamentos.
Riscos e medidas
| Risco | Onde aparece | Medidas |
|---|---|---|
| Projeção de fragmentos e impacto | marreta e placa, queda de peso | óculos de proteção, luvas, calçado de proteção; ninguém junto à placa durante a pancada |
| Ruído | pancadas repetidas, explosivos, máquinas | proteção auditiva; limitar a exposição |
| Lesões musculoesqueléticas | marreta, transporte de cabos e baterias | técnica de pancada, rotação de tarefas, pausas, carga dividida |
| Explosivos | fontes de maior energia, up-hole | só operador habilitado, com as autorizações necessárias; perímetro de segurança; comunicação antes de cada disparo |
| Trânsito | perfis junto ou através de estradas e caminhos | vestuário de alta visibilidade, sinalização, cabos protegidos nas travessias, autorização da entidade que gere a via |
| Quedas e furos abertos | down-hole, up-hole, cross-hole | tampas e sinalização nos furos; nunca deixar um furo aberto sem vigilância |
| Terreno irregular, vegetação, animais | todo o perfil | calçado adequado, reconhecimento prévio do local |
| Condições climáticas | calor, frio, trovoada | água, proteção solar; interromper o trabalho com trovoada, porque o cabo sísmico estendido no terreno é um condutor |
| Trabalho em mina | ensaios em galerias ou junto a frentes | cumprir o plano de segurança da mina e as instruções do responsável |
Equipamentos de proteção individual
- Capacete de proteção, junto a fontes de impacto, taludes, frentes de pedreira e em mina.
- Óculos de proteção, sobretudo para quem manobra a marreta ou está junto à placa.
- Proteção auditiva, junto a fontes de impacto e explosivos.
- Luvas adequadas à manipulação de cabos, geofones, marreta e equipamento de furo.
- Calçado de proteção com biqueira e sola resistente, em terreno irregular.
- Vestuário de alta visibilidade, junto a vias, máquinas e em pedreiras.
Enquadramento legal em Portugal
- Lei n.º 102/2009: regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho; obriga o empregador a avaliar os riscos e a organizar a prevenção, e o trabalhador a cumprir as instruções e a usar corretamente o EPI.
- Decreto-Lei n.º 348/93 e Portaria n.º 988/93: prescrições mínimas para a utilização de equipamentos de proteção individual.
- Decreto-Lei n.º 182/2006: exposição dos trabalhadores ao ruído; a partir de 80 dB(A) de exposição diária o empregador tem de disponibilizar proteção auditiva e, a partir de 85 dB(A), a sua utilização é obrigatória.
- Decreto-Lei n.º 324/95: prescrições mínimas de segurança e saúde nas indústrias extrativas (minas e pedreiras), aplicáveis quando o levantamento decorre numa exploração.
- Explosivos: o operador tem de ter cédula de operador de substâncias explosivas, explosivos ou pólvoras, emitida pela PSP (Departamento de Armas e Explosivos), e a aquisição e o emprego de produtos explosivos precisam de autorização da PSP. Em minas e pedreiras aplicam-se ainda as regras próprias da exploração.
Antes de cada disparo: "atenção, vai disparar", confirmação de que a zona está livre, e só depois o disparo. Esta sequência de comunicação é combinada no início do dia e não se altera, mesmo ao fim de cem tiros.
Sustentabilidade
O perfil sísmico é um método de baixo impacto, mas deixa marcas se for mal executado: repor o terreno nos pontos de tiro, fechar e selar furos que já não sejam precisos, recolher todo o material (espigões, fita, restos de cargas), respeitar culturas, muros e vedações, e preferir a fonte menos agressiva que responda à finalidade do trabalho.
Erros comuns
- Escolher o método sem definir primeiro a finalidade do trabalho, gastando tempo de campo sem responder à pergunta certa.
- Dimensionar o perfil "a olho", esquecendo que a onda refratada só é primeira chegada para lá de x_c, que é sempre maior do que 2h.
- Confundir geofones com intervalos: 24 geofones têm 23 intervalos.
- Fazer só o tiro direto num refrator que pode estar inclinado, e usar a velocidade aparente como verdadeira.
- Picar o pico da onda em vez do primeiro desvio do traço.
- Esquecer o tempo duplo na reflexão, e calcular o dobro da profundidade.
- Confundir o nível freático com o topo rochoso numa refração com ondas P.
- Ignorar a camada oculta e a inversão de velocidade, que a refração não vê.
- Confundir down-hole com up-hole, trocando a posição da fonte com a dos recetores.
- Não corrigir o afastamento da fonte no down-hole, sobretudo perto da superfície.
- Não verificar a verticalidade dos furos no cross-hole, introduzindo erro na distância e na velocidade.
- Saltar o disparo de teste e a verificação do tempo zero para poupar tempo.
- Trocar a ordem dos geofones no cabo sem atualizar a folha de campo.
- Retirar o EPI por incómodo depois de algum tempo de trabalho, quando o risco não diminui com a rotina.
- Confiar numa imagem tomográfica sem olhar para a cobertura de raios e para o erro final.
Glossário
- Prospeção sísmica: método geofísico que usa ondas mecânicas geradas artificialmente para caracterizar o subsolo.
- Perfil: linha de trabalho ao longo da qual se dispõem a fonte e os geofones.
- Dispositivo (spread): conjunto de geofones ligados ao sismógrafo num perfil.
- Topo rochoso: interface entre o solo e a rocha alterada (capeamento) e a rocha competente por baixo, definida na sísmica por um aumento marcado de velocidade.
- Capeamento de solo: camada de solo e material alterado acima do topo rochoso.
- Onda P: onda de compressão, a mais rápida; propaga-se em sólidos, líquidos e gases.
- Onda S: onda de corte (cisalhamento), mais lenta que a P; não se propaga em fluidos.
- Ondas de Rayleigh e de Love: ondas superficiais; as de Rayleigh são a base do MASW.
- Lei de Snell: relação entre os ângulos de incidência e de refração e as velocidades dos dois meios.
- Ângulo crítico: ângulo de incidência a partir do qual o raio refratado segue ao longo da interface; sen(ic) = V1/V2.
- Onda de cabeça: onda que viaja ao longo da interface à velocidade da camada inferior e regressa à superfície; é a explorada na refração.
- Dromocrónica: gráfico do tempo de primeira chegada em função da distância à fonte.
- Tempo de interceção: tempo em que a reta da onda refratada, prolongada, corta o eixo dos tempos.
- Distância de cruzamento: distância à fonte onde a onda direta e a refratada chegam ao mesmo tempo.
- Picagem: leitura do instante da primeira chegada em cada traço.
- Tiro direto e tiro inverso: disparos nos dois extremos do dispositivo, para medir o refrator nos dois sentidos.
- Camada oculta: camada que existe mas não produz primeiras chegadas.
- Inversão de velocidade: camada mais lenta por baixo de uma mais rápida; não produz onda de cabeça.
- Impedância acústica: produto da densidade pela velocidade; o seu contraste controla a reflexão.
- Tempo duplo: tempo de ida e volta de uma onda refletida.
- CMP (ponto médio comum): conjunto de traços com o mesmo ponto médio entre fonte e recetor.
- Correção NMO: correção do sobretempo que endireita as hipérboles de reflexão.
- Empilhamento: soma de registos (pancadas repetidas ou traços de um CMP) para melhorar a relação sinal/ruído.
- Cobertura: número de traços somados em cada ponto médio.
- Tomografia sísmica: inversão que constrói um modelo contínuo de velocidades a partir de muitos raios cruzados.
- Down-hole: fonte à superfície, recetor dentro do furo.
- Up-hole: fonte dentro do furo, recetor à superfície.
- Cross-hole: fonte e recetores em furos diferentes, à mesma cota (convencional) ou a várias cotas (tomográfico).
- Zona meteorizada: camada superficial alterada e lenta.
- Correção estática: correção de tempo que compensa o efeito da zona meteorizada e da topografia.
- Geofone: sensor que converte a velocidade de vibração do solo num sinal elétrico.
- Hidrofone: sensor de pressão usado em furos cheios de água.
- Sismógrafo: equipamento que amplifica, filtra, digitaliza e regista os sinais dos canais.
- Trigger (sistema de disparo): dispositivo que marca o instante zero do registo.
- EPI: equipamento de proteção individual.
Síntese
A prospeção sísmica em perfis segue sempre a mesma lógica: analisar o recurso mineral e a finalidade do trabalho → planear o perfil (comprimento a partir da profundidade e do contraste esperados, espaçamento, tiros, orientação) → montar e calibrar o equipamento (continuidade, polaridade, ruído, tempo zero, ganho e filtros) → escolher e executar o método de acordo com o alvo (refração convencional ou tomográfica e reflexão à superfície; down-hole, up-hole, cross-hole convencional ou tomográfico em furo) → interpretar com controlo (dromocrónica, tiros recíprocos, correção de afastamento, distâncias reais entre furos, calibração com sondagens) → executar em segurança, com EPI e normas de segurança e saúde no trabalho sempre presentes → documentar tudo na folha de campo. As contas são simples; o que distingue um bom técnico é saber quando cada fórmula se aplica e que erro a deita abaixo.
Exercícios resolvidos
1. Uma equipa quer saber a profundidade do topo rochoso ao longo de uma grande área, com terreno regular. Que método escolher e porquê?
Resolução: refração convencional. O terreno é regular (a hipótese de camadas aproximadamente planas é razoável), a área é grande e não há indicação de necessidade de grande detalhe, pelo que o método mais rápido e simples de interpretar responde à finalidade. Dispara-se nos dois extremos (tiro direto e inverso) para controlar uma eventual inclinação, e calibra-se com uma sondagem se existir.
2. Um perfil de refração convencional mede V1 = 400 m/s, V2 = 1800 m/s e uma distância de cruzamento de 16 m. Calcula a profundidade do topo rochoso e o tempo de interceção.
Resolução: h = (x_c / 2) × √[(V2 − V1) / (V2 + V1)] = (16 / 2) × √(1400 / 2200) = 8 × √0,636 ≈ 8 × 0,798 ≈ 6,4 m. Tempo de interceção: t_i = x_c × (1/V1 − 1/V2) = 16 × (0,002500 − 0,000556) = 16 × 0,001944 ≈ 0,0311 s = 31,1 ms. Verificação: h = (t_i / 2) × V1 × V2 / √(V2² − V1²) = 0,01555 × 720 000 / √3 080 000 ≈ 11 196 / 1755 ≈ 6,4 m. As duas fórmulas coincidem.
3. Numa dromocrónica, a reta da onda refratada passa pelos pontos (30 m; 45 ms) e (60 m; 60 ms). Calcula V2 e o tempo de interceção.
Resolução: V2 = Δx / Δt = (60 − 30) / (0,060 − 0,045) = 30 / 0,015 = 2000 m/s. Tempo de interceção: t_i = 60 ms − 60 / 2000 s = 60 − 30 = 30 ms.
4. Um tiro direto dá uma velocidade aparente de 1800 m/s para o refrator e o tiro inverso dá 2250 m/s. Qual a velocidade verdadeira aproximada e em que sentido afunda a interface?
Resolução: V2 ≈ 2 × 1800 × 2250 / (1800 + 2250) = 8 100 000 / 4050 = 2000 m/s. A velocidade aparente mais baixa corresponde a disparar no sentido em que a interface afunda: a interface afunda no sentido do tiro direto, isto é, afasta-se da superfície à medida que se avança a partir do ponto desse tiro.
5. Uma reflexão chega com tempo duplo de 80 ms, com velocidade média de 2500 m/s. A que profundidade está a interface?
Resolução: h = V × t0 / 2 = 2500 × 0,080 / 2 = 100 m. Quem se esquecer de dividir por 2 obtém 200 m, o dobro.
6. Num down-hole com a fonte a 2 m da boca do furo, o tempo medido com o geofone a 3 m é 8,65 ms. Qual o tempo vertical corrigido?
Resolução: r = √(3² + 2²) = √13 ≈ 3,61 m. t vertical = 8,65 × 3 / 3,606 ≈ 7,20 ms. Sem a correção, a velocidade média até aos 3 m seria 3 / 0,00865 ≈ 347 m/s; com a correção, 3 / 0,00720 ≈ 417 m/s.
7. Porque é que o up-hole é o método clássico para corrigir os levantamentos de superfície na zona meteorizada?
Resolução: porque mede diretamente, com a fonte a várias profundidades e o recetor à superfície, o tempo vertical através da zona meteorizada, dando a sua espessura e velocidade. Com esses dois valores calcula-se a correção estática que retira aos tempos dos levantamentos de superfície o atraso introduzido por essa camada lenta.
8. Numa medição de cross-hole convencional, o técnico não verificou a verticalidade dos furos. Que consequência pode ter?
Resolução: a distância real entre furos à profundidade medida pode ser diferente da medida à superfície. Como a velocidade é distância a dividir pelo tempo, o erro relativo na distância passa, igual, para a velocidade: um desvio de 0,40 m em 5,40 m dá cerca de 7 % de erro, e pode levar a interpretar como "zona de fraqueza" o que é só um furo desviado.
9. Que método escolherias para localizar uma cavidade suspeita, de posição incerta, entre dois furos existentes? E quantos raios terias com posições de 0,5 m entre os 10 m e os 20 m em ambos os furos?
Resolução: cross-hole tomográfico, que combina disparos e receções a várias profundidades e permite localizar uma anomalia de posição incerta. De 10 a 20 m, com passo de 0,5 m, há 10 / 0,5 = 20 intervalos, logo 21 posições por furo e 21 × 21 = 441 raios.
10. Antes de iniciar um levantamento, a equipa salta o disparo de teste "para poupar tempo". Que risco corre?
Resolução: o disparo de teste confirma que todos os geofones respondem de forma semelhante e com a mesma polaridade, e que o tempo zero está certo. Sem ele, um erro (por exemplo um atraso de 2 ms no disparo, que num capeamento lento desloca a profundidade cerca de 0,5 m) repete-se em todo o perfil sem ser detetado e só se percebe em escritório, quando já não é possível corrigir sem voltar ao local.