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UC · Unidade de Competência · UC01861

Sebenta · Executar métodos sísmicos de prospeção (em perfis) na prospeção de recursos minerais (UC01861)

Do princípio físico da onda sísmica ao perfil de campo: refração convencional e tomográfica, reflexão, down-hole, up-hole e cross-hole
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Prospeção e Pesquisa de ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a executar métodos sísmicos de prospeção em perfis, aplicados à pesquisa de recursos minerais. A prospeção sísmica usa ondas mecânicas geradas artificialmente para caracterizar o subsolo sem escavar tudo: localiza o topo rochoso, mede a espessura do capeamento de solo, deteta zonas de fraqueza e, nos métodos mais profundos, desenha a estrutura geológica que controla uma mineralização.

O percurso segue a lógica de um técnico no terreno: primeiro compreende-se como as ondas se propagam e como se planeia um perfil, depois como se monta, calibra e manobra o equipamento, em seguida estudam-se os métodos de superfície (refração convencional, refração tomográfica e reflexão) e os métodos em furo (down-hole, up-hole, cross-hole convencional e cross-hole tomográfico), e por fim como se escolhe o método certo e se trabalha em segurança.

Cada capítulo tem exemplos resolvidos passo a passo, com contas feitas por extenso. Os números dos exemplos são ilustrativos: servem para treinar o raciocínio e confirmar ordens de grandeza, não substituem os valores medidos em cada local.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar potenciais recursos minerais a serem prospetados; calibrar o equipamento de prospeção sísmica; manobrar o equipamento de prospeção sísmica; adequar o tipo de prospeção sísmica à finalidade do trabalho; garantir a aplicação dos princípios de calibração do equipamento; executar a refração convencional e tomográfica de reflexão, a prospeção de down-hole, up-hole, cross-hole convencional e cross-hole tomográfico; utilizar os equipamentos de proteção individual; aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho.

Como ler "refração convencional e tomográfica de reflexão". O referencial junta numa só expressão métodos que, na prática, são distintos. Nesta sebenta a expressão lê-se como três técnicas de superfície: refração convencional (interpretação por camadas, capítulo 6), refração tomográfica (modelo contínuo de velocidades obtido por inversão, capítulo 7) e reflexão (capítulo 8). No capítulo 8 também se explica o que é a tomografia de reflexão, uma técnica de processamento que existe com esse nome, para que a matéria fique coberta em qualquer das leituras possíveis.

1. Porque se faz prospeção sísmica na pesquisa de recursos minerais

A prospeção sísmica é um método geofísico indireto: não se vê o material do subsolo, infere-se a sua natureza a partir do tempo que uma onda leva a atravessá-lo ou a refletir-se numa interface. É usada em várias fases da pesquisa porque cobre distâncias grandes com pouca intervenção no terreno e dá informação contínua ao longo de um perfil, ao passo que um furo de sondagem só informa sobre o ponto onde foi feito.

No contexto desta UC, o trabalho decorre nas duas frentes indicadas no referencial:

O que a prospeção sísmica procura responder

Analisar o potencial recurso mineral

A primeira realização da UC é analisar potenciais recursos minerais a serem prospetados. A pergunta que o técnico faz é: que tipo de recurso é, a que profundidade pode estar e que contraste de propriedades físicas se espera? A resposta orienta o método.

Tipo de recurso ou alvo O que interessa saber Contributo típico da sísmica
Depósitos aluvionares (areias e cascalhos com minerais pesados) espessura dos sedimentos e forma do fundo rochoso refração: profundidade do substrato ao longo do vale
Massas minerais para pedreira (granito, calcário, areias) espessura do capeamento a remover, qualidade da rocha refração: capeamento e velocidade da rocha (indicador de fraturação e de facilidade de desmonte)
Caulino, argilas e rochas alteradas espessura da zona alterada refração e down-hole
Depósitos profundos (por exemplo sulfuretos maciços) estrutura geológica a centenas de metros reflexão, com sondagens para confirmar
Zona já em exploração (mina) cavidades, zonas de fraqueza entre furos cross-hole convencional e tomográfico

A sísmica mede velocidades e contrastes, não teores. Um corpo mineralizado só é "visível" se tiver velocidade ou impedância diferente da rocha encaixante. Por isso a interpretação cruza-se sempre com a geologia, as sondagens e outros métodos geofísicos.

Enquadramento: mina ou pedreira

Em Portugal a distinção entre mina e pedreira é legal, não de profundidade nem de tamanho. Os depósitos minerais (por exemplo minérios metálicos) pertencem ao domínio público do Estado e regem-se pela Lei n.º 54/2015 e pelo Decreto-Lei n.º 30/2021; as massas minerais (rochas para construção e indústria, exploradas em pedreira) são propriedade privada e regem-se pelo Decreto-Lei n.º 270/2001. A entidade licenciadora é a DGEG (Direção-Geral de Energia e Geologia); o LNEG é o laboratório do Estado para a geologia e as minas. O método sísmico é o mesmo nos dois casos; muda o enquadramento do trabalho e quem o autoriza.

Casos portugueses

A Faixa Piritosa Ibérica, que atravessa o sul de Portugal e se prolonga por Espanha, tem jazigos de sulfuretos maciços vulcanogénicos como Neves-Corvo (cobre, zinco e estanho) e Aljustrel. Em Neves-Corvo fizeram-se levantamentos de sísmica de reflexão 2D e 3D e, em 2019, um ensaio com perfis à superfície e perfis dentro das galerias da mina, a cerca de 650 m de profundidade, para testar a imagem sísmica de sulfuretos a grande profundidade. Outros recursos portugueses conhecidos, como o volfrâmio e o estanho da Panasqueira ou os pegmatitos com lítio do Barroso, servem de exemplo para discutir que alvo e que contraste se esperaria em cada caso.

A analogia do eco

Bater com os nós dos dedos numa parede e ouvir o som que volta permite perceber, sem abrir a parede, onde estão as vigas ou onde o material é diferente. A prospeção sísmica faz isto à escala do subsolo, com ondas mecânicas e com tempos medidos ao décimo de milissegundo.

2. Ondas sísmicas e propagação no subsolo

Toda a prospeção sísmica assenta em três fenómenos físicos: a propagação da onda, a sua refração ao mudar de meio e a sua reflexão numa interface.

Tipos de onda

Onda Movimento das partículas Onde se propaga Uso em prospeção
P (primária, de compressão) na direção de propagação (compressão e distensão) sólidos, líquidos e gases a mais rápida, chega primeiro: base da refração e da reflexão convencionais
S (secundária, de corte ou cisalhamento) perpendicular à direção de propagação só em sólidos (não se propaga em fluidos) mais lenta do que a P; informa sobre a rigidez; usada em down-hole e cross-hole
Rayleigh (superficial) elíptico, junto à superfície ao longo da superfície do terreno base do método MASW (análise multicanal de ondas de superfície)
Love (superficial) horizontal, perpendicular à propagação ao longo da superfície, quando há camadas pouco usada nos métodos desta UC

Num sólido comum a onda S tem cerca de 50 a 60 % da velocidade da P: para um coeficiente de Poisson de 0,25, a razão Vp/Vs é √3 ≈ 1,73. Nos métodos de refração e reflexão com ondas P, as ondas superficiais são quase sempre ruído (chegam tarde e com grande amplitude, o chamado ground roll); no método MASW são o próprio sinal, porque a dispersão das ondas de Rayleigh permite estimar o perfil de velocidade das ondas S.

Como a onda S não se propaga em fluidos, a água dos poros não lhe altera muito a velocidade. A onda P, pelo contrário, é muito sensível à saturação. Esta diferença é importante para distinguir o nível freático do topo rochoso (capítulo 9).

Refração, reflexão e lei de Snell

Quando uma onda encontra uma interface entre dois materiais com velocidades V1 (em cima) e V2 (em baixo):

sen(i) / V1 = sen(r) / V2

Se V2 > V1, o raio refratado afasta-se da normal. Existe um ângulo crítico ic para o qual o raio refratado segue ao longo da interface (r = 90°):

sen(ic) = V1 / V2

A energia que viaja ao longo da interface, à velocidade V2, vai devolvendo energia à camada de cima sempre com o ângulo crítico. Essa onda, que regressa à superfície, chama-se onda de cabeça (ou onda cónica) e é a que a refração sísmica explora.

Exemplo resolvido · Ângulo crítico

Capeamento com V1 = 500 m/s sobre rocha com V2 = 2000 m/s.

  1. sen(ic) = V1 / V2 = 500 / 2000 = 0,25.
  2. ic = arcsen(0,25) ≈ 14,5°.

Se a rocha fosse mais lenta do que o capeamento (V2 < V1), V1/V2 seria maior do que 1 e não haveria ângulo crítico: não se forma onda de cabeça. É por isso que a refração exige velocidades a aumentar em profundidade.

Velocidade sísmica e tipo de material

A velocidade de propagação depende da rigidez, da densidade, da porosidade, da fraturação, da alteração e do grau de saturação do material. Os intervalos seguintes são ordens de grandeza da onda P, semelhantes às que se encontram nos manuais de geofísica aplicada; variam muito de local para local e servem apenas para ajuizar se um resultado faz sentido.

Material Velocidade da onda P (ordem de grandeza)
Ar cerca de 340 m/s
Solo solto, areia seca, aterro algumas centenas de m/s (cerca de 200 a 1000 m/s)
Água, e sedimentos soltos saturados cerca de 1500 m/s (sedimentos saturados, 1500 a 2000 m/s)
Argila cerca de 1000 a 2500 m/s
Rocha alterada ou muito fraturada muito variável, tipicamente entre a do solo e a da rocha sã
Calcário, arenito intervalo largo, cerca de 2000 a 6000 m/s
Granito são cerca de 5000 a 6000 m/s

O que interessa à interpretação é o contraste de velocidade entre camadas, não o número isolado. E há uma armadilha clássica: um solo saturado tem velocidade P próxima de 1500 m/s, semelhante à de uma rocha alterada. A refração com ondas P pode confundir o nível freático com o topo rochoso.

Impedância acústica

A impedância acústica de uma camada é o produto da densidade pela velocidade (Z = ρ × V). A fração de energia refletida numa interface depende do contraste de impedância entre as duas camadas. Para incidência vertical, o coeficiente de reflexão é:

R = (Z2 − Z1) / (Z2 + Z1)

Exemplo resolvido · Coeficiente de reflexão

Xisto com ρ1 = 2700 kg/m³ e V1 = 5000 m/s sobre um corpo de sulfuretos maciços com ρ2 = 4500 kg/m³ e V2 = 5500 m/s (valores ilustrativos).

  1. Z1 = 2700 × 5000 = 13 500 000 kg/(m²·s) = 13,5 × 10⁶.
  2. Z2 = 4500 × 5500 = 24 750 000 = 24,75 × 10⁶.
  3. R = (24,75 − 13,5) / (24,75 + 13,5) = 11,25 / 38,25 ≈ 0,29.

Um coeficiente desta ordem produz uma reflexão forte. É a densidade elevada dos sulfuretos maciços que os torna candidatos à sísmica de reflexão, mesmo quando a velocidade é parecida com a da rocha à volta.

3. Planear um perfil de prospeção

Antes de ligar qualquer equipamento, o técnico analisa o potencial recurso mineral a prospetar e só depois desenha o perfil de trabalho. Planear bem evita a situação mais cara de todas: voltar ao terreno porque o perfil não respondeu à pergunta.

Definir a finalidade do trabalho

Elementos do perfil

Elemento O que se decide Critério
Espaçamento entre geofones distância entre recetores consecutivos mais apertado dá mais resolução, mas cobre menos terreno com o mesmo número de canais
Comprimento do dispositivo distância entre o primeiro e o último geofone tem de ultrapassar com folga a distância de cruzamento esperada (refração)
Posição dos tiros onde se dispara a fonte na refração: pelo menos um tiro em cada extremo (tiro direto e tiro inverso), tiros centrais e, se possível, tiros afastados para lá dos extremos
Orientação direção do perfil em regra perpendicular à estrutura geológica que se quer atravessar
Georreferenciação coordenadas e cota de cada geofone e de cada tiro indispensável para corrigir a topografia e cruzar com mapas e sondagens

Geofones e intervalos não são a mesma coisa. Um dispositivo de 24 geofones espaçados de 5 m tem 23 intervalos e mede 23 × 5 = 115 m, não 120 m. Com 48 geofones a 2 m: 47 intervalos, 94 m. Contar mal os intervalos é um erro frequente no planeamento e na folha de campo.

Quanto tem de medir o perfil de refração

A onda refratada só passa a ser a primeira a chegar a partir da distância de cruzamento x_c (capítulo 6). Para uma interface horizontal:

x_c = 2h × √[ (V2 + V1) / (V2 − V1) ]

A raiz é sempre maior do que 1, por isso x_c é sempre maior do que 2h: a onda refratada só aparece como primeira chegada a mais do dobro da profundidade da interface. E, para medir a velocidade V2 com confiança, são precisos vários geofones (quatro ou cinco, pelo menos) para lá de x_c.

Exemplo resolvido · Comprimento mínimo do dispositivo

Espera-se o topo rochoso a cerca de h = 10 m, com V1 = 500 m/s e V2 = 2000 m/s. Os geofones ficam a 5 m.

  1. (V2 + V1) / (V2 − V1) = 2500 / 1500 ≈ 1,667; raiz ≈ 1,291.
  2. x_c = 2 × 10 × 1,291 ≈ 25,8 m.
  3. Para ter pelo menos cinco geofones na onda refratada, depois de x_c: 25,8 + 5 × 5 ≈ 51 m.
  4. Com margem para o topo rochoso ser mais profundo do que o previsto, um dispositivo de 12 geofones a 5 m (11 intervalos, 55 m) fica no limite; 24 geofones a 5 m (115 m) dá folga confortável.

Conclusão: a profundidade esperada e o contraste de velocidades dimensionam o perfil. Não se escolhe o comprimento "a olho".

Exemplo resolvido · Decidir o método pela finalidade

Uma equipa precisa de confirmar a presença de uma cavidade suspeita entre dois furos de sondagem já existentes, separados por 15 metros.

  1. O alvo está entre furos, não perto da superfície: a refração e a reflexão de superfície não são o método principal.
  2. Se bastasse saber a velocidade média entre os furos a algumas profundidades, o cross-hole convencional seria suficiente.
  3. Como se procura uma anomalia localizada, de posição desconhecida, é preferível o cross-hole tomográfico, que combina disparos e receções a várias profundidades e constrói uma imagem de velocidades entre os furos.
  4. Decisão: cross-hole tomográfico, apesar de exigir mais tempo de campo e de processamento, porque é isso que a finalidade do trabalho exige.

Este raciocínio, feito antes do trabalho de campo, é o que torna a escolha do método um critério de desempenho e não um hábito.

4. Equipamento de prospeção sísmica e manobra no terreno

Um sistema de prospeção sísmica é composto por várias peças que têm de funcionar em conjunto e sincronizadas. Manobrar o equipamento, a terceira realização da UC, é saber montar, operar, verificar e desmontar cada uma delas.

Componente Função
Fonte sísmica gera a vibração (impacto à superfície, queda de peso, explosivo, fonte de furo)
Geofones sensores que convertem a velocidade de vibração do solo num sinal elétrico
Cabo sísmico liga os geofones ao sismógrafo, com uma saída por canal
Sismógrafo (registador multicanal) amplifica, filtra, digitaliza e regista os sinais de todos os canais (12, 24, 48 ou mais)
Sistema de disparo (trigger) marca o instante zero: sensor no martelo, geofone junto à placa ou circuito do disparador de explosivos
GPS, estação total ou nível georreferencia a fonte e cada geofone, incluindo a cota
Hidrofones e sondas de furo recetores e fontes para os métodos em furo

Fontes sísmicas

Fonte Energia e alcance Notas de campo
Marreta e placa baixa; adequada a perfis curtos e pouco profundos barata e repetível; soma-se o registo de várias pancadas (empilhamento)
Queda de peso (weight drop) média mais energia e repetibilidade; exige veículo ou estrutura
Explosivos alta; perfis longos e alvos mais profundos exige autorização e operador habilitado (capítulo 15)
Fontes de furo (martelo de furo, faísca elétrica, pequenas cargas) adaptada ao furo usadas em up-hole e cross-hole
Prancha de corte batida lateralmente gera ondas S horizontais batendo nos dois topos obtêm-se ondas S de polaridade oposta

Geofones

Empilhamento vertical

Em fontes fracas, como a marreta, repete-se a pancada no mesmo ponto e soma-se o registo. O sinal, que é igual em todas as pancadas, soma-se; o ruído, aleatório, soma-se de forma incoerente. A relação sinal/ruído melhora aproximadamente com √N, sendo N o número de pancadas.

Exemplo resolvido · Quantas pancadas?

  1. Com N = 4 pancadas, a relação sinal/ruído melhora cerca de √4 = 2 vezes.
  2. Com N = 16 pancadas, melhora cerca de √16 = 4 vezes.
  3. Para duplicar a melhoria obtida com 4 pancadas é preciso passar a 16, isto é, quadruplicar o número de pancadas.

Consequência prática: empilhar melhora muito ao início e cada vez menos depois. Se 16 pancadas não chegam, compensa mais reduzir o ruído (esperar que o camião passe) ou usar uma fonte mais forte.

Parâmetros de registo no sismógrafo

Parâmetro O que é Critério
Intervalo de amostragem tempo entre duas amostras digitais pequeno face à precisão pretendida: com 0,25 ms, a leitura dos tempos tem essa resolução e a frequência máxima registável (frequência de Nyquist) é 1 / (2 × 0,00025) = 2000 Hz
Duração do registo tempo total gravado depois do disparo tem de ultrapassar a chegada mais tardia de interesse (a primeira chegada no geofone mais afastado, ou a reflexão mais profunda)
Pré-disparo (pre-trigger) pequena janela gravada antes do instante zero permite ver o ruído antes do disparo e confirmar o sincronismo
Ganho amplificação do sinal evitar saturação nos geofones próximos e sinal ilegível nos afastados
Filtros cortes de frequência (passa-alto, corta-banda de 50 Hz da rede elétrica) usar com prudência no campo: um filtro mal escolhido destrói sinal que não se recupera

Exemplo resolvido · Duração do registo

Perfil de refração com o geofone mais afastado a 104 m do tiro, V1 = 500 m/s, V2 = 2000 m/s, tempo de interceção t_i = 30 ms (capítulo 6).

  1. Tempo da onda direta a 104 m: 104 / 500 = 0,208 s = 208 ms.
  2. Tempo da onda refratada a 104 m: t_i + x / V2 = 30 + 104 / 2000 × 1000 = 30 + 52 = 82 ms.
  3. A primeira chegada é a refratada, aos 82 ms. Um registo de 250 ms cobre-a com folga, e ainda apanha a onda direta se for precisa para controlo.

Montagem e manobra no terreno

  1. Implantar o perfil: marcar a linha, as estacas dos geofones e dos tiros, e levantar as coordenadas e cotas.
  2. Estender o cabo ao longo do perfil, sem o arrastar sobre arestas nem o deixar atravessar caminhos sem proteção.
  3. Plantar os geofones: espigão bem enterrado, geofone na vertical (os verticais), sem folgas, sem vegetação nem pedras soltas por baixo; em terreno duro usa-se uma base ou abre-se um pequeno furo.
  4. Ligar cada geofone ao seu canal, pela ordem do perfil, e anotar qualquer troca na folha de campo.
  5. Ligar o sistema de disparo e confirmar que a fonte marca o instante zero.
  6. Calibrar e testar (capítulo 5) antes do primeiro tiro válido.
  7. Registar os tiros pela ordem planeada, verificando cada registo no ecrã antes de avançar.
  8. Desmontar pela ordem inversa, verificando que não fica material nem furos abertos no terreno.

Folha de campo

Cada tiro fica registado numa folha de campo (em papel ou digital) com: número do ficheiro, posição do tiro, fonte usada, número de pancadas empilhadas, canais com problemas, ruído observado (tráfego, vento, máquinas), hora e operador. Sem folha de campo, um registo sísmico é um ficheiro sem contexto.

Um geofone mal plantado é um dos erros mais frequentes e mais difíceis de detetar depois, já longe do terreno: o sinal parece "estranho" mas já não há forma de repetir a medição sem voltar ao local.

5. Calibração do equipamento

Calibrar é garantir que o equipamento responde de forma correta e comparável, antes de confiar nos dados que regista. O referencial pede duas coisas: calibrar o equipamento (realização) e garantir a aplicação dos princípios de calibração (critério de desempenho).

Princípios da calibração

Testes no terreno

Teste Como se faz O que deteta
Autoteste do sismógrafo rotina interna do equipamento, se existir canais avariados, ruído interno
Teste de continuidade dos canais medição de resistência ou teste do próprio sismógrafo cabo cortado, geofone desligado, fuga por humidade
Registo de ruído gravar sem disparar nível de ruído de fundo em cada canal
Pancada leve junto a cada geofone bater levemente no chão junto ao geofone e ver o canal ordem dos canais, polaridade, geofone solto
Disparo de teste disparo real com todos os canais ligados amplitude e forma de onda semelhantes, tempo zero correto

Exemplo resolvido · Rotina de calibração no terreno

  1. Inspeção visual: cabos, conectores e geofones (danos, humidade, ligações soltas).
  2. Alimentação e canais: ligar o sistema, confirmar a bateria e o estado de cada canal no ecrã do sismógrafo.
  3. Registo de ruído: gravar sem disparar e identificar canais anormalmente ruidosos.
  4. Disparo de teste: verificar que todos os geofones registam sinal, com amplitude e forma de onda semelhantes e a mesma polaridade.
  5. Tempo zero: confirmar que o instante do disparo coincide com o início do registo; num tiro junto ao primeiro geofone, a primeira chegada nesse geofone tem de aparecer praticamente em t = 0.
  6. Ajuste de ganho e filtros, em função do ruído medido.
  7. Registar na folha de campo os resultados e só então iniciar o levantamento efetivo.

Exemplo resolvido · O que faz um atraso de 2 ms no sistema de disparo

Num perfil com V1 = 500 m/s e V2 = 2000 m/s, o sistema de disparo arranca o registo 2 ms depois da pancada real. Todos os tempos medidos ficam 2 ms mais curtos do que os verdadeiros.

  1. Os declives das retas da dromocrónica não mudam (a reta desloca-se toda para baixo), por isso as velocidades calculadas ficam certas.
  2. O tempo de interceção baixa 2 ms. Como h = t_i × V1 × V2 / (2 × √(V2² − V1²)) (capítulo 6), o fator que multiplica t_i é 500 × 2000 / (2 × √(4 000 000 − 250 000)) = 1 000 000 / (2 × 1936,5) ≈ 258 m/s.
  3. Erro na profundidade: 0,002 s × 258 m/s ≈ 0,5 m, sistemático, em todo o perfil.

Meio metro pode parecer pouco, mas num capeamento de 3 m é um erro de mais de 15 %. E é exatamente o tipo de erro que a verificação do tempo zero apanha em segundos.

Uma calibração mal feita não se corrige em escritório: obriga a repetir a recolha de dados no terreno, com o custo de tempo e deslocação que isso implica.

6. Refração sísmica convencional

A dromocrónica

Quando a velocidade aumenta com a profundidade, a partir de uma certa distância da fonte a onda de cabeça, que viaja pela camada rápida, ultrapassa a onda direta, que viaja pela camada lenta. Marcando o tempo da primeira chegada em cada geofone em função da distância à fonte obtém-se a dromocrónica (gráfico tempo-distância). Num modelo de duas camadas horizontais:

Onda direta:    t = x / V1
Onda refratada: t = x / V2 + t_i

A profundidade da interface calcula-se por qualquer das duas fórmulas equivalentes:

h = (t_i / 2) × V1 × V2 / √(V2² − V1²)

h = (x_c / 2) × √[ (V2 − V1) / (V2 + V1) ]

As duas dão o mesmo resultado porque, no ponto de cruzamento, x_c / V1 = x_c / V2 + t_i, isto é, t_i = x_c × (1/V1 − 1/V2). Na prática a fórmula do tempo de interceção é a mais usada, porque t_i se lê com mais precisão do que x_c (que depende do sítio exato onde as duas retas se cruzam).

Ler as primeiras chegadas

A picagem (do inglês picking) é a leitura, em cada traço, do instante em que chega a primeira energia. Lê-se no primeiro desvio do traço em relação ao ruído de fundo, não no pico da onda. Os programas de interpretação ajudam, mas o técnico confirma traço a traço: um canal ruidoso, uma polaridade invertida ou um tiro fraco podem enganar a leitura automática.

Exemplo resolvido · Interpretar uma dromocrónica completa

Tiro em x = 0; geofones de 5 m em 5 m, de 5 m a 60 m (12 geofones, 11 intervalos). Primeiras chegadas lidas:

x (m) 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60
t (ms) 10,0 20,0 30,0 40,0 42,5 45,0 47,5 50,0 52,5 55,0 57,5 60,0
  1. Primeira reta (5 a 20 m): passa na origem e o tempo aumenta 10 ms por cada 5 m. V1 = Δx / Δt = 15 m / 0,030 s = 500 m/s.
  2. Segunda reta (20 a 60 m): o tempo aumenta 2,5 ms por cada 5 m. V2 = 40 m / (60,0 − 40,0) ms = 40 / 0,020 = 2000 m/s.
  3. Tempo de interceção: prolongar a segunda reta até x = 0. t_i = 60,0 − 60 / 2000 × 1000 = 60,0 − 30,0 = 30,0 ms.
  4. Distância de cruzamento: as duas retas encontram-se onde x / 500 = x / 2000 + 0,030, ou seja x × (0,002 − 0,0005) = 0,030, x_c = 0,030 / 0,0015 = 20 m (confirma-se na tabela: aos 20 m as duas ondas chegam aos 40 ms).
  5. Profundidade pelo tempo de interceção: √(2000² − 500²) = √(4 000 000 − 250 000) = √3 750 000 ≈ 1936,5. h = (0,030 / 2) × 500 × 2000 / 1936,5 = 0,015 × 1 000 000 / 1936,5 ≈ 7,7 m.
  6. Verificação pela distância de cruzamento: h = (20 / 2) × √(1500 / 2500) = 10 × √0,6 = 10 × 0,775 ≈ 7,7 m. As duas fórmulas coincidem.

Resultado: capeamento com cerca de 500 m/s e cerca de 7,7 m de espessura sobre um substrato com cerca de 2000 m/s. Como o modelo é de interface horizontal, a profundidade é a mesma ao longo do perfil; se a interface não for horizontal, é preciso o tiro inverso (a seguir).

Tiro direto e tiro inverso: camadas inclinadas

Se a interface for inclinada, um tiro só num extremo dá uma velocidade aparente para a camada de baixo, não a verdadeira. Por isso se dispara sempre nos dois extremos do dispositivo:

V2 ≈ 2 × Vd × Vs / (Vd + Vs)

(Vd: velocidade aparente medida a disparar no sentido descendente; Vs: no sentido ascendente.)

Exemplo resolvido · Velocidade verdadeira com tiro direto e inverso

O tiro direto (sentido descendente) dá Vd = 1800 m/s; o tiro inverso (sentido ascendente) dá Vs = 2250 m/s.

  1. Produto: 2 × 1800 × 2250 = 8 100 000.
  2. Soma: 1800 + 2250 = 4050.
  3. V2 ≈ 8 100 000 / 4050 = 2000 m/s.

Se o técnico tivesse feito só o tiro direto, teria usado 1800 m/s, um erro de 10 %, e todas as profundidades calculadas com esse valor ficariam erradas.

Interfaces irregulares no método convencional

O método de duas camadas planas é a base, mas a refração convencional tem técnicas para topos rochosos com algum relevo, que usam os tiros direto e inverso para calcular a profundidade sob cada geofone: o método dos tempos de atraso (delay times), o método mais-menos (plus-minus, de Hagedoorn) e o método recíproco generalizado (GRM). Todos continuam a interpretar o subsolo como camadas separadas por interfaces; quando isso deixa de ser razoável, passa-se à refração tomográfica (capítulo 7).

Limitações da refração: camada oculta e inversão de velocidade

Situação O que acontece Efeito na interpretação
Inversão de velocidade (camada lenta sob uma camada mais rápida) não há onda de cabeça nessa interface: a camada lenta não aparece na dromocrónica a camada não é detetada e a profundidade das interfaces abaixo dela sai sobrestimada
Camada oculta (camada fina de velocidade intermédia) a sua onda refratada nunca chega em primeiro lugar a camada não é detetada e a profundidade das interfaces abaixo sai subestimada
Nível freático num capeamento arenoso a velocidade P salta para cerca de 1500 m/s o nível freático pode ser confundido com o topo rochoso
Contraste fraco as duas retas quase se confundem x_c e t_i mal definidos, profundidade pouco fiável

Defesas práticas contra estas armadilhas: calibrar a interpretação com sondagens ou down-hole (capítulo 10), comparar com a geologia conhecida e, quando o nível freático é suspeito, recorrer a ondas S, que não são afetadas pela água da mesma forma.

Três camadas

Com três camadas de velocidades crescentes (V1 < V2 < V3), a dromocrónica tem três retas. Calcula-se primeiro a espessura da primeira camada (como no caso de duas camadas) e depois a da segunda, usando o segundo tempo de interceção. O raciocínio é o mesmo, com uma fórmula mais longa, que os programas de interpretação aplicam automaticamente; o que o técnico tem de garantir é que cada reta tem pontos suficientes para ser bem definida.

7. Refração sísmica tomográfica

A refração tomográfica usa o mesmo equipamento e o mesmo tipo de registo da refração convencional, mas muitos mais tiros ao longo do perfil e uma interpretação diferente: em vez de ajustar retas e camadas, um programa de inversão procura o modelo contínuo de velocidades que melhor explica todos os tempos de primeira chegada medidos.

Como funciona a inversão

  1. Divide-se a secção por baixo do perfil numa malha de células (ou nós).
  2. Parte-se de um modelo inicial (por exemplo, o resultado da refração convencional ou um gradiente de velocidade).
  3. O programa traça os raios entre cada tiro e cada geofone através do modelo e calcula os tempos teóricos.
  4. Compara os tempos teóricos com os medidos e corrige as velocidades das células atravessadas.
  5. Repete (iterações) até a diferença ser pequena, medida em regra pelo erro médio quadrático (RMS) em milissegundos.

Geometria de aquisição

Exemplo resolvido · Quantos tempos de chegada tem um perfil tomográfico?

Dispositivo de 48 geofones a 2 m (47 intervalos, 94 m, do metro 0 ao metro 94). Tiros em: −10, 0, 12, 24, 36, 48, 60, 72, 84, 94 e 104 m.

  1. Número de tiros: contam-se as posições, 11 tiros (dois afastados, dois nos extremos e sete no interior).
  2. Cada tiro é registado pelos 48 geofones: 11 × 48 = 528 traços, cada um com uma primeira chegada para picar.
  3. Na refração convencional bastariam, no mínimo, os dois tiros dos extremos (2 × 48 = 96 traços). A tomografia multiplica os dados por mais de cinco, e é isso que lhe permite desenhar variações laterais.

Refração convencional ou tomográfica?

Situação Método mais indicado
Topo rochoso plano e regular, camadas bem definidas refração convencional
Topo rochoso irregular, com depressões, falhas ou variações laterais refração tomográfica
Transição gradual solo, rocha alterada, rocha sã refração tomográfica (representa gradientes)
Poucos recursos de tempo e de processamento refração convencional
Necessidade de imagem contínua e detalhada refração tomográfica

Limites da tomografia

Os dois métodos de refração partilham o mesmo equipamento de base e a mesma calibração; o que muda é o número de pontos de disparo e o método de interpretação. Os mesmos dados de um perfil tomográfico podem ser interpretados também pelo método convencional, o que é um bom controlo cruzado.

8. Reflexão sísmica

Numa interface com contraste de impedância acústica, parte da energia volta à superfície. Na reflexão mede-se o tempo duplo (ida e volta, em inglês two-way time): o tempo que a onda leva a descer até à interface e a regressar.

Tempo duplo e profundidade

Com fonte e recetor no mesmo ponto (afastamento nulo) e velocidade média V acima da interface:

t0 = 2h / V      logo      h = V × t0 / 2

Com a fonte e o recetor separados por um afastamento x, o tempo segue uma hipérbole:

t(x) = √( t0² + x² / V² )

A diferença entre t(x) e t0 chama-se sobretempo normal (normal moveout, NMO). Corrigir o NMO é "endireitar" a hipérbole, para que todas as reflexões do mesmo ponto fiquem ao mesmo tempo t0.

Exemplo resolvido · Profundidade e correção NMO

Uma reflexão chega com t0 = 100 ms (0,100 s) e a velocidade média acima dela é V = 1800 m/s.

  1. Profundidade: h = V × t0 / 2 = 1800 × 0,100 / 2 = 90 m.
  2. Tempo no geofone a x = 60 m: x / V = 60 / 1800 ≈ 0,0333 s; (x / V)² ≈ 0,00111 s².
  3. t0² = 0,0100 s². Soma: 0,01111 s². t(60) = √0,01111 ≈ 0,1054 s = 105,4 ms.
  4. Correção NMO a 60 m: 105,4 − 100,0 ≈ 5,4 ms.

Erro comum: esquecer que o tempo é duplo e calcular h = V × t0, obtendo 180 m em vez de 90 m.

Ponto médio comum, correção NMO e empilhamento

O processamento de reflexão assenta em três ideias:

  1. Ponto médio comum (CMP, common midpoint): pares fonte-recetor diferentes, com o mesmo ponto médio, iluminam o mesmo ponto de uma interface horizontal. Agrupam-se os traços por ponto médio.
  2. Correção NMO: com a velocidade certa, as hipérboles de cada grupo ficam horizontais. A escolha da velocidade que melhor as endireita chama-se análise de velocidades.
  3. Empilhamento (stacking): somam-se os traços corrigidos de cada grupo. A reflexão reforça-se; o ruído aleatório atenua-se, com uma melhoria da relação sinal/ruído aproximadamente proporcional a √N, sendo N a cobertura (número de traços por ponto médio).

A cobertura de um levantamento com todos os canais de um lado da fonte calcula-se por:

cobertura = (número de canais × espaçamento dos geofones) / (2 × espaçamento dos tiros)

Exemplo resolvido · Cobertura e resolução

  1. 48 canais, geofones a 2 m, tiros a cada 4 m: cobertura = (48 × 2) / (2 × 4) = 96 / 8 = 12. Melhoria esperada da relação sinal/ruído: √12 ≈ 3,5 vezes.
  2. Resolução vertical: a regra corrente é cerca de um quarto do comprimento de onda. Com V = 3000 m/s e frequência dominante de 60 Hz, λ = V / f = 3000 / 60 = 50 m e λ / 4 ≈ 12,5 m. Camadas mais finas do que isto não se separam bem.

Tomografia de reflexão

A tomografia de reflexão é uma técnica de processamento que aplica a lógica da inversão tomográfica aos tempos das reflexões, em vez dos tempos das primeiras chegadas. O programa ajusta um modelo de velocidades até que os tempos de reflexão calculados coincidam com os medidos, e esse modelo serve depois para colocar as reflexões na posição e profundidade certas. É uma técnica sobretudo de levantamentos de reflexão maiores e de processamento especializado; para o técnico de campo, o que muda é a exigência de boa cobertura e de registos limpos, porque a inversão só é tão boa quanto os tempos que lhe são dados.

Reflexão na prospeção mineral

Refração Reflexão
Condição necessária velocidade aumenta com a profundidade contraste de impedância acústica
O que se lê no registo primeiras chegadas chegadas posteriores (tempo duplo)
Afastamentos fonte-geofone grandes face à profundidade (x_c > 2h) em regra pequenos a moderados face à profundidade
Alvo típico topo rochoso e camadas a pequena profundidade estruturas mais profundas ou complexas
Processamento mais simples mais exigente (CMP, NMO, empilhamento)

9. Topo rochoso e espessura do capeamento

O referencial destaca dois conhecimentos que são, na prática, os resultados mais pedidos a um perfil sísmico: o topo rochoso e a espessura do capeamento de solo.

O que é o topo rochoso "sísmico"

Na geologia, a passagem do solo à rocha sã raramente é uma superfície nítida: há solo, rocha muito alterada, rocha alterada e fraturada e, por fim, rocha sã. A sísmica define o topo rochoso como a interface onde a velocidade aumenta de forma marcada. Isso significa que:

Espessura do capeamento e volumes

A espessura do capeamento é a profundidade do topo rochoso medida a partir da superfície do terreno. Num perfil com topografia, as profundidades calculam-se em relação a cada ponto do perfil e depois convertem-se em cotas do topo rochoso (cota do terreno menos espessura).

Exemplo resolvido · Do perfil à cota e ao volume de descubra

Num perfil de refração obteve-se, sob três geofones, a espessura do capeamento: 3,0 m, 3,6 m e 3,9 m. As cotas do terreno nesses pontos são 212,4 m, 211,8 m e 211,1 m.

  1. Cotas do topo rochoso: 212,4 − 3,0 = 209,4 m; 211,8 − 3,6 = 208,2 m; 211,1 − 3,9 = 207,2 m.
  2. Espessura média no perfil: (3,0 + 3,6 + 3,9) / 3 = 10,5 / 3 = 3,5 m.
  3. Se vários perfis numa área de 120 m × 80 m confirmarem uma espessura média de 3,5 m, o volume de capeamento a remover para abrir uma frente de pedreira é cerca de 120 × 80 × 3,5 = 9600 m² × 3,5 m = 33 600 m³.

Este tipo de estimativa entra no planeamento da exploração (descubra, depósito de terras, custos) e só é válido com perfis bem distribuídos e confirmados por sondagens.

Velocidade e facilidade de escavação

A velocidade sísmica da rocha é usada como indicador da facilidade de escavação: rocha lenta (alterada, fraturada) tende a poder ser escavada ou ripada com meios mecânicos; rocha rápida e maciça tende a exigir desmonte com explosivos. Os limites exatos dependem do tipo de rocha e do equipamento, e constam das tabelas dos fabricantes de máquinas; o técnico usa-os como orientação, nunca como garantia.

Topo rochoso ou nível freático? Se a "camada rápida" tiver velocidade P próxima de 1500 m/s e coincidir com a profundidade da água num poço ou piezómetro próximo, é muito provável que seja o nível freático e não a rocha. Confirma-se com sondagem, com ondas S ou comparando perfis feitos em épocas diferentes do ano.

10. Down-hole

Quando existem furos de sondagem, é possível medir velocidades sísmicas com muito mais precisão vertical do que à superfície. No down-hole a fonte fica à superfície, a uma pequena distância da boca do furo (o afastamento), e um recetor (em regra um geofone triaxial, ou um hidrofone num furo com água) desce dentro do furo a profundidades sucessivas. Em cada profundidade dispara-se a fonte e regista-se o tempo de chegada. Obtém-se um perfil de velocidade em função da profundidade naquele ponto. Para ondas S usa-se uma prancha batida lateralmente e um geofone com componentes horizontais.

O ensaio está normalizado, por exemplo na norma ASTM D7400 (ensaios sísmicos down-hole), muito usada em geotecnia; os princípios aplicam-se igualmente à prospeção mineral.

Procedimento

  1. Preparar o furo: confirmar a profundidade livre, a presença de água e o revestimento (tubo bem acoplado ao terreno, em regra com a folga cimentada, para a onda passar do terreno para o recetor).
  2. Fixar a fonte a um afastamento constante da boca do furo (poucos metros), medido e anotado.
  3. Descer o recetor até à primeira profundidade prevista e fixá-lo contra a parede (os recetores de furo têm um sistema de fixação).
  4. Disparar e registar; repetir o disparo para confirmar o tempo (e, nas ondas S, disparar nos dois sentidos para inverter a polaridade).
  5. Descer ao incremento seguinte (por exemplo 1 m) e repetir.
  6. Continuar até à profundidade máxima de interesse.
  7. Verificar a coerência do perfil de tempos ainda no terreno: um tempo que diminui com a profundidade é sinal de erro.

Mudar a posição da fonte a meio do ensaio invalida a comparação entre profundidades: o afastamento tem de se manter igual do primeiro ao último disparo.

Correção do afastamento

Como a fonte não está exatamente sobre o furo, o raio percorre uma distância inclinada r = √(z² + a²), sendo z a profundidade do recetor e a o afastamento. Para obter o tempo vertical equivalente (admitindo trajeto retilíneo):

t_vertical = t_medido × z / r

A velocidade de intervalo entre duas profundidades é Δz / Δt_vertical.

Exemplo resolvido · Down-hole com afastamento de 2 m

z (m) t medido (ms) r = √(z² + 2²) (m) t vertical = t × z / r (ms)
2 7,07 2,83 5,0
4 11,18 4,47 10,0
6 11,60 6,32 11,0
8 12,37 8,25 12,0
10 13,26 10,20 13,0
  1. Exemplo de uma linha: z = 4 m, r = √(16 + 4) = √20 ≈ 4,47 m; t vertical = 11,18 × 4 / 4,47 ≈ 10,0 ms.
  2. Velocidades de intervalo: 0 a 2 m: 2 / 0,0050 = 400 m/s; 2 a 4 m: 2 / 0,0050 = 400 m/s; 4 a 6 m: 2 / 0,0010 = 2000 m/s; 6 a 8 m e 8 a 10 m: também 2000 m/s.
  3. Interpretação: capeamento com cerca de 400 m/s até aos 4 m; abaixo, rocha com cerca de 2000 m/s. O topo rochoso está a cerca de 4 m neste furo.
  4. Sem correção, o intervalo de 4 a 6 m daria 2 / (0,01160 − 0,01118) = 2 / 0,00042 ≈ 4760 m/s, mais do dobro do valor corrigido. Perto da superfície, onde z é comparável ao afastamento, a correção é indispensável.

O down-hole é o método de referência para calibrar a interpretação dos perfis de refração que passam perto do furo: dá, no mesmo ponto, a profundidade do topo rochoso e as velocidades reais das camadas.

11. Up-hole

O up-hole é a geometria inversa do down-hole: a fonte está dentro do furo, a profundidades sucessivas, e os geofones ficam à superfície, junto à boca do furo. Em prospeção sísmica é o método clássico para caracterizar a zona meteorizada (a camada superficial alterada e lenta): a sua espessura e velocidade servem para calcular as correções estáticas dos levantamentos de reflexão e de refração feitos na mesma zona. Quando se usa a mesma fonte em furo que o levantamento de reflexão (por exemplo, pequenas cargas), o up-hole aproveita os próprios furos de tiro.

Procedimento

  1. Colocar os geofones à superfície, a pequena distância da boca do furo, e anotar a distância.
  2. Posicionar a fonte à profundidade máxima prevista.
  3. Disparar e registar.
  4. Passar a fonte ao nível seguinte e repetir, até perto da superfície. O tempo de percurso da fonte até à superfície chama-se, em inglês, uphole time.
  5. Aplicar aos tempos a mesma correção de trajeto inclinado do down-hole, se o afastamento dos geofones não for desprezável.

Exemplo resolvido · Zona meteorizada e correção estática

Up-hole com geofone à boca do furo (afastamento desprezável). Tempos medidos:

Profundidade da fonte (m) 1 2 3 5 7
Tempo (ms) 2,0 4,0 6,0 7,11 8,22
  1. De 0 a 3 m o tempo cresce 2 ms por metro: velocidade = 1 m / 0,002 s = 500 m/s (zona meteorizada).
  2. De 3 a 7 m: 4 m / (8,22 − 6,0) ms = 4 / 0,00222 ≈ 1800 m/s (abaixo da zona meteorizada).
  3. Espessura da zona meteorizada: 3 m (onde o declive muda).
  4. Correção estática: atraso que a zona meteorizada introduz face a um terreno que tivesse, até à superfície, a velocidade de baixo: 3 × (1/500 − 1/1800) = 3 × (0,002000 − 0,000556) = 3 × 0,001444 ≈ 0,00433 s = 4,3 ms em cada passagem vertical pela zona meteorizada. Esta correção aplica-se aos tempos dos levantamentos de superfície feitos junto ao furo.
Down-hole Up-hole
Fonte à superfície, com afastamento fixo dentro do furo, a várias profundidades
Recetor dentro do furo, a várias profundidades à superfície, junto à boca
Uso típico perfil de velocidades (P e S) junto ao furo; calibração da refração zona meteorizada e correções estáticas
Cuidado principal afastamento constante e correção do trajeto inclinado segurança da fonte dentro do furo; estado do furo entre disparos

12. Cross-hole convencional

O cross-hole mede a velocidade sísmica entre furos. A fonte desce num furo e o recetor (ou os recetores) descem no(s) furo(s) vizinho(s), à mesma cota. Mede-se o tempo de percurso horizontal entre furos e, repetindo a várias profundidades, obtém-se um perfil vertical de velocidades da faixa de terreno entre os furos. Serve para detetar zonas de fraqueza, variações laterais e camadas finas que a refração não resolve.

A norma ASTM D4428 (ensaios sísmicos cross-hole) recomenda em regra três furos alinhados: um para a fonte e dois para recetores. Com dois recetores a distâncias diferentes, a velocidade calcula-se pela diferença de tempos entre os dois recetores, o que elimina qualquer atraso comum do sistema de disparo.

Verticalidade e distância real

Nenhum furo é perfeitamente vertical. Antes (ou depois) do ensaio, mede-se o desvio de cada furo com uma sonda de inclinação, em intervalos regulares de profundidade, e calcula-se a distância real entre furos a cada cota. Usar a distância medida à superfície introduz um erro que cresce com a profundidade.

Exemplo resolvido · Velocidade entre furos, atraso do disparo e desvio

Três furos alinhados: A (fonte), B a 5,00 m e C a 10,00 m de A, distâncias reais à cota de ensaio. Velocidade verdadeira do terreno: 2000 m/s. O sistema de disparo tem um atraso não detetado de 0,20 ms (os tempos medidos ficam 0,20 ms maiores).

  1. Tempos verdadeiros: A→B = 5 / 2000 = 2,50 ms; A→C = 10 / 2000 = 5,00 ms. Tempos medidos: 2,70 ms e 5,20 ms.
  2. Velocidade direta A→B com o tempo medido: 5,00 / 0,00270 ≈ 1852 m/s (erro de cerca de −7 %).
  3. Velocidade por diferença B→C: (10,00 − 5,00) / (5,20 − 2,70) ms = 5,00 / 0,00250 = 2000 m/s. O atraso comum anula-se na subtração.
  4. Efeito do desvio: a 15 m de profundidade o furo B afastou-se 0,40 m de A, e a distância real é 5,40 m. O tempo verdadeiro é 5,40 / 2000 = 2,70 ms. Usando por engano os 5,00 m da superfície: 5,00 / 0,00270 ≈ 1852 m/s, um erro de cerca de −7,4 %, igual à proporção do erro na distância (0,40 / 5,40).

Procedimento

  1. Confirmar que os furos estão revestidos e acoplados ao terreno (e, se usarem hidrofones, cheios de água).
  2. Medir as coordenadas das bocas dos furos e o desvio de cada furo em profundidade.
  3. Descer a fonte e os recetores à mesma cota e fixá-los.
  4. Disparar, registar e repetir para confirmar o tempo (para ondas S, com inversão de polaridade).
  5. Passar à cota seguinte, com o mesmo incremento nos furos todos.
  6. Calcular as velocidades com as distâncias reais a cada cota.

13. Cross-hole tomográfico

O cross-hole tomográfico alarga o princípio do cross-hole convencional: dispara-se a fonte a várias profundidades num furo e, para cada disparo, regista-se em várias profundidades no furo vizinho. Em vez de raios horizontais, obtém-se um leque de raios cruzados que atravessam o plano entre os furos em muitas direções. A inversão tomográfica desses tempos (a mesma lógica do capítulo 7) produz uma imagem contínua de velocidades no plano entre os furos.

Geometria e número de raios

Exemplo resolvido · Planear a aquisição

Dois furos a 10 m um do outro. Quer-se investigar entre os 5 m e os 25 m de profundidade, com posições de 1 m em 1 m.

  1. De 5 a 25 m há 20 intervalos de 1 m, logo 21 posições em cada furo (não 20).
  2. Cada uma das 21 posições da fonte é registada nas 21 posições do recetor: 21 × 21 = 441 raios.
  3. Se o modelo usar células de 1 m × 1 m, o plano de 10 m × 20 m tem 10 × 20 = 200 células (e 11 × 21 = 231 nós nos cantos das células). Há mais raios do que células, condição necessária, mas não suficiente, para uma boa inversão.
  4. Com uma cadeia de recetores (por exemplo, 12 hidrofones de uma vez), cada disparo regista várias posições em simultâneo e o tempo de campo reduz-se muito.

Que anomalia se consegue ver

Exemplo resolvido · Atraso causado por uma zona de fraqueza

Rocha com 4000 m/s entre furos a 10 m. Um raio horizontal atravessa uma zona fraturada de 2 m de largura com 1500 m/s.

  1. Raio só em rocha sã: 10 / 4000 = 0,00250 s = 2,50 ms.
  2. Raio que cruza a zona: 8 / 4000 + 2 / 1500 = 0,00200 + 0,00133 = 0,00333 s = 3,33 ms.
  3. Atraso: 3,33 − 2,50 ≈ 0,83 ms, bem acima da precisão de leitura de um bom registo.

Mas atenção: os raios reais contornam as zonas lentas (seguem o caminho mais rápido), pelo que o atraso medido é menor do que o calculado com raios retos. Por isso as cavidades e zonas lentas pequenas são mais difíceis de resolver do que as zonas rápidas, e a interpretação é sempre cruzada com as sondagens.

Limites

O cross-hole tomográfico é o método indicado quando se procura uma anomalia localizada e de posição incerta entre dois furos, como uma cavidade, uma zona de fraqueza ou um corpo mineralizado pequeno com contraste de velocidade.

14. Escolher o método certo

Visão de conjunto dos métodos sísmicos

Método Fonte Recetores O que dá
Refração convencional superfície superfície, ao longo do perfil camadas: velocidades e profundidades (topo rochoso, capeamento)
Refração tomográfica superfície, muitos tiros superfície, ao longo do perfil modelo contínuo de velocidades, topo rochoso irregular
Reflexão superfície superfície, ao longo do perfil interfaces mais profundas ou complexas
Down-hole superfície, junto ao furo dentro de um furo perfil de velocidades junto ao furo; calibração
Up-hole dentro de um furo superfície zona meteorizada; correções estáticas
Cross-hole convencional dentro de um furo dentro de outro(s) furo(s), mesma cota velocidade horizontal entre furos, por cota
Cross-hole tomográfico dentro de um furo, várias cotas dentro de outro furo, várias cotas imagem contínua entre furos

A escolha depende sempre de três perguntas:

  1. Onde está o alvo? Perto da superfície, em profundidade, ou entre furos já existentes?
  2. Que profundidade e detalhe são precisos? Grande área com menos detalhe, ou zona pequena com muito detalhe?
  3. Que recursos, acessos e tempo há? Há furos? É possível usar explosivos? Há ruído no local?

Exemplo resolvido · Um plano com dois métodos

Numa futura pedreira de granito quer-se saber a espessura do capeamento numa área de 300 m × 200 m e confirmar a qualidade da rocha junto a um furo de 30 m já feito.

  1. Área extensa, alvo a poucos metros, sem furos na maior parte da área: refração em perfis paralelos. Se o granito tiver alteração irregular (muito comum), refração tomográfica.
  2. Junto ao furo existente: down-hole, que dá velocidades P e S em profundidade e calibra os perfis de refração que passam perto.
  3. Não se justifica reflexão (alvo raso) nem cross-hole (só há um furo).

15. Segurança e saúde no trabalho: EPI e normas

O referencial exige utilizar os equipamentos de proteção individual e aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho. Na prospeção sísmica os riscos são concretos e repetem-se em todos os levantamentos.

Riscos e medidas

Risco Onde aparece Medidas
Projeção de fragmentos e impacto marreta e placa, queda de peso óculos de proteção, luvas, calçado de proteção; ninguém junto à placa durante a pancada
Ruído pancadas repetidas, explosivos, máquinas proteção auditiva; limitar a exposição
Lesões musculoesqueléticas marreta, transporte de cabos e baterias técnica de pancada, rotação de tarefas, pausas, carga dividida
Explosivos fontes de maior energia, up-hole só operador habilitado, com as autorizações necessárias; perímetro de segurança; comunicação antes de cada disparo
Trânsito perfis junto ou através de estradas e caminhos vestuário de alta visibilidade, sinalização, cabos protegidos nas travessias, autorização da entidade que gere a via
Quedas e furos abertos down-hole, up-hole, cross-hole tampas e sinalização nos furos; nunca deixar um furo aberto sem vigilância
Terreno irregular, vegetação, animais todo o perfil calçado adequado, reconhecimento prévio do local
Condições climáticas calor, frio, trovoada água, proteção solar; interromper o trabalho com trovoada, porque o cabo sísmico estendido no terreno é um condutor
Trabalho em mina ensaios em galerias ou junto a frentes cumprir o plano de segurança da mina e as instruções do responsável

Equipamentos de proteção individual

Antes de cada disparo: "atenção, vai disparar", confirmação de que a zona está livre, e só depois o disparo. Esta sequência de comunicação é combinada no início do dia e não se altera, mesmo ao fim de cem tiros.

Sustentabilidade

O perfil sísmico é um método de baixo impacto, mas deixa marcas se for mal executado: repor o terreno nos pontos de tiro, fechar e selar furos que já não sejam precisos, recolher todo o material (espigões, fita, restos de cargas), respeitar culturas, muros e vedações, e preferir a fonte menos agressiva que responda à finalidade do trabalho.

Erros comuns

Glossário

Síntese

A prospeção sísmica em perfis segue sempre a mesma lógica: analisar o recurso mineral e a finalidade do trabalhoplanear o perfil (comprimento a partir da profundidade e do contraste esperados, espaçamento, tiros, orientação) → montar e calibrar o equipamento (continuidade, polaridade, ruído, tempo zero, ganho e filtros) → escolher e executar o método de acordo com o alvo (refração convencional ou tomográfica e reflexão à superfície; down-hole, up-hole, cross-hole convencional ou tomográfico em furo) → interpretar com controlo (dromocrónica, tiros recíprocos, correção de afastamento, distâncias reais entre furos, calibração com sondagens) → executar em segurança, com EPI e normas de segurança e saúde no trabalho sempre presentes → documentar tudo na folha de campo. As contas são simples; o que distingue um bom técnico é saber quando cada fórmula se aplica e que erro a deita abaixo.

Exercícios resolvidos

1. Uma equipa quer saber a profundidade do topo rochoso ao longo de uma grande área, com terreno regular. Que método escolher e porquê?

Resolução: refração convencional. O terreno é regular (a hipótese de camadas aproximadamente planas é razoável), a área é grande e não há indicação de necessidade de grande detalhe, pelo que o método mais rápido e simples de interpretar responde à finalidade. Dispara-se nos dois extremos (tiro direto e inverso) para controlar uma eventual inclinação, e calibra-se com uma sondagem se existir.

2. Um perfil de refração convencional mede V1 = 400 m/s, V2 = 1800 m/s e uma distância de cruzamento de 16 m. Calcula a profundidade do topo rochoso e o tempo de interceção.

Resolução: h = (x_c / 2) × √[(V2 − V1) / (V2 + V1)] = (16 / 2) × √(1400 / 2200) = 8 × √0,636 ≈ 8 × 0,798 ≈ 6,4 m. Tempo de interceção: t_i = x_c × (1/V1 − 1/V2) = 16 × (0,002500 − 0,000556) = 16 × 0,001944 ≈ 0,0311 s = 31,1 ms. Verificação: h = (t_i / 2) × V1 × V2 / √(V2² − V1²) = 0,01555 × 720 000 / √3 080 000 ≈ 11 196 / 1755 ≈ 6,4 m. As duas fórmulas coincidem.

3. Numa dromocrónica, a reta da onda refratada passa pelos pontos (30 m; 45 ms) e (60 m; 60 ms). Calcula V2 e o tempo de interceção.

Resolução: V2 = Δx / Δt = (60 − 30) / (0,060 − 0,045) = 30 / 0,015 = 2000 m/s. Tempo de interceção: t_i = 60 ms − 60 / 2000 s = 60 − 30 = 30 ms.

4. Um tiro direto dá uma velocidade aparente de 1800 m/s para o refrator e o tiro inverso dá 2250 m/s. Qual a velocidade verdadeira aproximada e em que sentido afunda a interface?

Resolução: V2 ≈ 2 × 1800 × 2250 / (1800 + 2250) = 8 100 000 / 4050 = 2000 m/s. A velocidade aparente mais baixa corresponde a disparar no sentido em que a interface afunda: a interface afunda no sentido do tiro direto, isto é, afasta-se da superfície à medida que se avança a partir do ponto desse tiro.

5. Uma reflexão chega com tempo duplo de 80 ms, com velocidade média de 2500 m/s. A que profundidade está a interface?

Resolução: h = V × t0 / 2 = 2500 × 0,080 / 2 = 100 m. Quem se esquecer de dividir por 2 obtém 200 m, o dobro.

6. Num down-hole com a fonte a 2 m da boca do furo, o tempo medido com o geofone a 3 m é 8,65 ms. Qual o tempo vertical corrigido?

Resolução: r = √(3² + 2²) = √13 ≈ 3,61 m. t vertical = 8,65 × 3 / 3,606 ≈ 7,20 ms. Sem a correção, a velocidade média até aos 3 m seria 3 / 0,00865 ≈ 347 m/s; com a correção, 3 / 0,00720 ≈ 417 m/s.

7. Porque é que o up-hole é o método clássico para corrigir os levantamentos de superfície na zona meteorizada?

Resolução: porque mede diretamente, com a fonte a várias profundidades e o recetor à superfície, o tempo vertical através da zona meteorizada, dando a sua espessura e velocidade. Com esses dois valores calcula-se a correção estática que retira aos tempos dos levantamentos de superfície o atraso introduzido por essa camada lenta.

8. Numa medição de cross-hole convencional, o técnico não verificou a verticalidade dos furos. Que consequência pode ter?

Resolução: a distância real entre furos à profundidade medida pode ser diferente da medida à superfície. Como a velocidade é distância a dividir pelo tempo, o erro relativo na distância passa, igual, para a velocidade: um desvio de 0,40 m em 5,40 m dá cerca de 7 % de erro, e pode levar a interpretar como "zona de fraqueza" o que é só um furo desviado.

9. Que método escolherias para localizar uma cavidade suspeita, de posição incerta, entre dois furos existentes? E quantos raios terias com posições de 0,5 m entre os 10 m e os 20 m em ambos os furos?

Resolução: cross-hole tomográfico, que combina disparos e receções a várias profundidades e permite localizar uma anomalia de posição incerta. De 10 a 20 m, com passo de 0,5 m, há 10 / 0,5 = 20 intervalos, logo 21 posições por furo e 21 × 21 = 441 raios.

10. Antes de iniciar um levantamento, a equipa salta o disparo de teste "para poupar tempo". Que risco corre?

Resolução: o disparo de teste confirma que todos os geofones respondem de forma semelhante e com a mesma polaridade, e que o tempo zero está certo. Sem ele, um erro (por exemplo um atraso de 2 ms no disparo, que num capeamento lento desloca a profundidade cerca de 0,5 m) repete-se em todo o perfil sem ser detetado e só se percebe em escritório, quando já não é possível corrigir sem voltar ao local.