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UC · Unidade de Competência · UC01856

Sebenta · Executar a prospeção geoquímica de solos e sedimentos de corrente na prospeção de recursos minerais (UC01856)

Localizar pontos de amostragem, recolher e acondicionar amostras, e analisar potenciais fontes de contaminação no terreno
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Prospeção e Pesquisa de ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a executar uma campanha de prospeção geoquímica de solos e sedimentos de corrente, uma das técnicas centrais da prospeção e pesquisa de recursos minerais. A prospeção geoquímica procura, na composição química dos materiais à superfície, os indícios de um depósito mineral que pode estar escondido em profundidade ou tapado por solo e vegetação.

O percurso segue o de uma campanha real: primeiro planeia-se a partir do mapeamento geológico, depois localizam-se os pontos de amostragem, recolhem-se e acondicionam-se as amostras de solo e de sedimento de corrente, e por fim analisam-se as potenciais fontes de contaminação e os resultados, sempre com rigor, segurança e respeito pela sustentabilidade.

Objetivos de aprendizagem (referencial): localizar pontos de amostragem de solos e sedimentos; recolher amostras de sedimentos e solos, em perfil, em malha e no leito das linhas de água; acondicionar amostras de sedimentos e solos; e analisar potenciais fontes de contaminação, os riscos e impactos da campanha, e as principais propriedades das rochas amostradas.

Para estudares sozinho, esta tabela mostra onde está cada ponto do referencial:

O que o referencial pede Onde está nesta sebenta
Mapeamento geológico capítulo 2
Localizar pontos de amostragem capítulo 3
Solos em perfil · recolher amostras de solo em perfil capítulo 4
Solos em malha · recolher amostras de solo em malha capítulo 5
Sedimentos de corrente · recolher amostras de sedimentos capítulo 6
Tipos de amostras geoquímicas · diferenciar amostras capítulo 7
Tipos de análises geoquímicas capítulo 8
Acondicionamento de amostras capítulo 9
Contaminações · identificar potenciais contaminações capítulo 10
Medidas de pH capítulo 11
EPI · normas de segurança e saúde no trabalho capítulo 12
Riscos e impactos da campanha capítulo 13
Propriedades das rochas amostradas capítulo 14

1. Prospeção geoquímica: conceito e enquadramento

A prospeção geoquímica estuda a distribuição de elementos químicos nos materiais superficiais (solos, sedimentos de corrente, rochas, águas e, por vezes, plantas) para localizar concentrações anómalas que indiciem a presença de um depósito mineral.

O princípio de base é simples: um depósito mineral tem uma composição muito diferente da rocha que o rodeia e, com o tempo, liberta elementos que se dispersam à sua volta, formando um halo geoquímico. Detetar esse halo, que é sempre maior do que o próprio depósito, é muito mais barato e rápido do que sondar toda uma área à procura do depósito.

Halos primários e halos secundários

Tipo de halo Onde se forma Como se forma Como se amostra
Primário na rocha à volta do depósito pelos mesmos fluidos que formaram a mineralização, ao mesmo tempo que ela amostras de rocha, de afloramento ou de sondagem
Secundário em solos, sedimentos, águas e plantas pela meteorização e erosão do depósito e do halo primário, muito depois de se formarem amostras de solo, de sedimento de corrente, de água

Esta UC trabalha sobretudo com halos secundários. Eles formam-se por dois mecanismos de dispersão:

Destes mecanismos resultam as formas típicas das anomalias: no solo, uma mancha por cima do depósito, muitas vezes deslocada vertente abaixo; num sistema de drenagem, um rasto de dispersão ao longo da linha de água, que se vai diluindo para jusante à medida que entram sedimentos de outras partes da bacia.

Fases da prospeção

A prospeção geoquímica insere-se numa sequência de fases, cada uma mais focada do que a anterior, e cada uma existe para reduzir o custo da seguinte:

Fase Escala típica Meio de amostragem mais usado Densidade de amostragem
Reconhecimento regional centenas a milhares de km² sedimentos de corrente muito baixa
Seguimento (follow-up) uma bacia ou um conjunto de bacias anómalas sedimentos de corrente mais densos, concentrados de bateia baixa a média
Detalhe um alvo de poucos km² ou menos solos em malha ou em perfis, rocha alta
Sondagem alvo confirmado testemunhos e detritos de sondagem pontual e intensiva

Esta UC aplica-se em áreas de prospeção e pesquisa e também em minas já em exploração, onde a geoquímica de solos e sedimentos ajuda a procurar prolongamentos de corpos conhecidos e a controlar a qualidade ambiental à volta da exploração.

Em Portugal, a revelação e o aproveitamento dos recursos geológicos regem-se pela Lei n.º 54/2015, regulamentada, para os depósitos minerais, pelo Decreto-Lei n.º 30/2021. Alguns pontos essenciais para o técnico de campo:

Uma anomalia geoquímica não é, por si só, um depósito economicamente viável. É um indício que precisa de ser confirmado por trabalho geológico, geofísico e, mais tarde, por sondagem.

Casos portugueses

Portugal tem vários exemplos clássicos em que a geoquímica é uma ferramenta de trabalho corrente:

2. Mapeamento geológico e planeamento da campanha

O mapeamento geológico regista litologias, estruturas (falhas, dobras, filões), zonas de alteração e mineralizações observadas em afloramento. É a base de todo o planeamento: sem ele, a amostragem geoquímica é feita às cegas e os resultados não têm contexto para serem interpretados.

Fontes de informação

Formações geológicas favoráveis e lineamentos estruturais, que funcionam como percursos de circulação de fluidos mineralizantes, orientam a escolha das zonas a amostrar. A direção estrutural dominante (a direção das camadas, filões ou falhas) é particularmente importante: é ela que decide a orientação das linhas de amostragem de solos (capítulo 5).

O que se decide antes de sair para o terreno

  1. O objetivo: reconhecimento regional, seguimento de uma anomalia ou detalhe sobre um alvo.
  2. O tipo de mineralização procurado, que define os elementos de interesse e os elementos indicadores a analisar.
  3. O meio de amostragem: sedimento de corrente, solo, rocha ou uma combinação.
  4. A densidade de amostragem: espaçamento da malha ou número de pontos por área de bacia.
  5. O protocolo de recolha: horizonte e profundidade do solo, fração do sedimento, massa de amostra, ferramentas.
  6. O controlo de qualidade: onde entram os duplicados, brancos e padrões.
  7. A logística e segurança: acessos, autorizações dos proprietários, equipas, prazos, meteorologia, plano de emergência.

O estudo de orientação

Quando se trabalha numa região nova ou com um tipo de depósito pouco conhecido, é boa prática fazer primeiro um estudo de orientação: amostra-se, numa zona com mineralização conhecida e numa zona "limpa" próxima, vários meios e várias variantes (horizontes do solo, frações do sedimento) para ver qual dá o melhor contraste entre a zona mineralizada e o fundo. Só depois se fixa o protocolo para toda a campanha. O capítulo 4 tem um exemplo resolvido.

Exemplo resolvido · preparar uma campanha de reconhecimento

Uma equipa recebe o encargo de reconhecer geoquimicamente uma região de algumas dezenas de km², com indícios antigos de mineralização de cobre.

  1. Analisa-se a carta geológica e identificam-se as litologias e estruturas favoráveis à mineralização de cobre.
  2. Escolhe-se o sedimento de corrente como meio principal, por ser o mais eficiente numa fase de reconhecimento: cada amostra representa toda a bacia a montante.
  3. Sobre a carta topográfica, marca-se um ponto em cada afluente, um pouco a montante da sua confluência com a linha de água principal, e pontos adicionais na linha principal entre confluências, de modo a que cada amostra represente uma bacia bem delimitada.
  4. Assinalam-se na carta as fontes de contaminação conhecidas (estradas, povoações, escombreiras) e ajustam-se os pontos para ficarem a montante delas.
  5. Definem-se os elementos a analisar (cobre e os seus indicadores), a fração a crivar e a cadência de controlos de qualidade.
  6. Preparam-se as fichas de campo, os sacos numerados, o GNSS com os pontos carregados, os crivos, e os equipamentos de proteção individual, e trata-se das autorizações de acesso.

Um planeamento assim reduz erros no terreno e garante que a amostragem é representativa da área de interesse.

3. Localizar pontos de amostragem

Localizar um ponto de amostragem tem duas partes: escolher o ponto no plano (no gabinete) e encontrá-lo e registá-lo no terreno.

Escolher o ponto

A escolha cruza vários critérios: a geologia e as estruturas do mapeamento, a morfologia do terreno (vertentes, cumeadas, vales), a rede de drenagem e as anomalias já conhecidas de campanhas anteriores.

Sistema de coordenadas

Em Portugal continental, o sistema de coordenadas oficial é o PT-TM06/ETRS89: o ETRS89 é o sistema de referência (o datum) e o PT-TM06 é a projeção cartográfica (Transversa de Mercator) que dá coordenadas planas em metros, M (para este) e P (para norte). Nas regiões autónomas usa-se o PTRA08. Muitos projetos de prospeção usam também coordenadas UTM sobre o ETRS89. O importante é que toda a campanha use o mesmo sistema, que esse sistema fique escrito na ficha e no relatório, e que o recetor esteja configurado para ele.

Encontrar o ponto com GNSS

Os recetores GNSS (GPS e outras constelações, como a europeia Galileo) calculam a posição medindo as distâncias (pseudodistâncias) a vários satélites em simultâneo, por trilateração, e não medindo ângulos. Um recetor de mão tem uma precisão típica da ordem de alguns metros; com correção EGNOS melhora para a ordem de 1 a 3 metros. Para amostragem de solos e sedimentos esta precisão chega: o que importa é que o ponto seja reencontrável e esteja no sítio certo da malha ou da bacia.

Boas práticas:

Tornar o ponto rastreável

Exemplo resolvido · deslocar um ponto sem perder o controlo

O ponto de solo S-L0400-E0250 cai, no plano, em cima de um caminho de terra batida.

  1. O técnico reconhece que o caminho é uma zona perturbada (material de aterro, poeiras, óleos) e não representa o solo natural.
  2. Desloca o ponto 5 m para fora do caminho, para solo natural, ao longo da mesma linha de amostragem, para manter o espaçamento o mais regular possível.
  3. Regista as coordenadas reais do novo ponto, e na ficha escreve: "deslocado 5 m para este, ponto planeado sobre caminho".
  4. O código da amostra mantém-se, porque a amostra continua a representar aquele nó da malha.

Um ponto mal registado invalida toda a interpretação posterior dos dados, mesmo que a amostra tenha sido bem recolhida no terreno.

4. Solos em perfil

O perfil do solo e os seus horizontes

O solo forma-se pela meteorização da rocha e pela ação dos seres vivos, e organiza-se em camadas sobrepostas, os horizontes. O conjunto dos horizontes, visto de cima a baixo numa parede de uma cova, é o perfil do solo.

Horizonte Características Interesse para a prospeção
O restos orgânicos (folhas, raízes) em decomposição, à superfície fraco: dominado pela matéria orgânica e pela vegetação
A mistura de matéria orgânica e mineral, geralmente mais escuro; dele saem, por lavagem, argilas e elementos solúveis variável: muito influenciado pela vegetação, pelas lavouras e pela contaminação superficial
E presente só em alguns solos: horizonte claro, empobrecido por lavagem fraco
B horizonte de acumulação: recebe argilas, óxidos de ferro e manganês e parte dos elementos lavados de cima o mais usado: os óxidos e as argilas fixam os metais, e é menos afetado pela contaminação superficial
C rocha alterada e desagregada, ainda com a estrutura da rocha-mãe útil quando o B falta ou é muito fino, ou para "ver" a rocha por baixo
R rocha-mãe sã amostra de rocha, não de solo

Para prospeção geoquímica escolhe-se normalmente o horizonte B, e a regra de ouro é: o mesmo horizonte, à mesma profundidade aproximada, em toda a campanha, com a profundidade e o horizonte registados em cada ponto. Em solos muito finos ou esqueléticos, comuns em vertentes declivosas de Portugal, o B pode não existir; nesse caso o protocolo da campanha define a alternativa (por exemplo, o horizonte C) e aplica-a de forma consistente.

Solo residual e solo transportado

Antes de amostrar, é preciso saber se o solo se formou no local, a partir da rocha que está por baixo (solo residual), ou se é feito de material transportado de outro sítio:

Só o solo residual reflete diretamente a rocha subjacente. Num solo transportado, uma anomalia pode vir de montante (ou pode estar escondida por baixo de uma camada "limpa"). Por isso, a ficha de campo regista sempre o tipo de solo e a posição na vertente, e as anomalias em solos de sopé ou de fundo de vale interpretam-se com cuidado. Mesmo em solo residual, a reptação (o deslizamento lento do solo vertente abaixo) desloca a anomalia um pouco para jusante da sua origem.

"Solos em perfil": os dois sentidos da expressão

Em prospeção, "amostrar solos em perfil" usa-se em dois sentidos, e o técnico tem de dominar os dois:

  1. Perfil vertical: abre-se uma cova ou trincheira e colhe-se uma amostra por horizonte, de cima para baixo, para conhecer a variação dos teores em profundidade. É o que se faz num estudo de orientação e para confirmar uma anomalia.
  2. Perfil (linha de amostragem): amostra-se o mesmo horizonte em estações regularmente espaçadas ao longo de uma linha traçada no terreno, geralmente perpendicular à direção estrutural esperada (por exemplo, perpendicular a um filão). Várias linhas paralelas formam uma malha (capítulo 5).

Recolher uma amostra de solo em perfil vertical

Ferramentas: pá de ponta e enxada ou picareta para abrir a cova, sacho ou espátula de aço inoxidável (ou de plástico duro) para colher, trado manual quando se amostra só a profundidade, fita métrica, faca para limpar a parede, sacos, fichas e máquina fotográfica.

  1. Abre-se uma cova até ultrapassar o horizonte pretendido. As covas pouco profundas, de algumas dezenas de centímetros, abrem-se à mão; covas e trincheiras mais fundas obrigam a medidas de segurança contra o desmoronamento (capítulo 12).
  2. Limpa-se uma parede da cova, de baixo para cima, raspando alguns centímetros para retirar o material arrastado pela pá.
  3. Identificam-se os horizontes pela cor, textura e estrutura, e mede-se a profundidade do topo e da base de cada um.
  4. Colhe-se cada horizonte de baixo para cima, para que o material que cai não contamine o horizonte a colher a seguir, e em sacos separados.
  5. Evitam-se raízes, seixos grandes e material estranho.
  6. Regista-se, por amostra: horizonte, profundidade (de... a...), cor, textura, humidade e presença de fragmentos de rocha.
  7. Fotografa-se a parede com uma escala (fita métrica visível).
  8. Tapa-se a cova, repondo os horizontes pela ordem original.

Exemplo resolvido · estudo de orientação para escolher o horizonte

Numa campanha de detalhe para cobre, a equipa abre duas covas: uma sobre um filão mineralizado conhecido e outra a 300 m, em rocha do mesmo tipo sem mineralização conhecida (o "fundo"). Colhe os horizontes A, B e C nas duas. Resultados de cobre (em ppm):

Horizonte Cova sobre o filão Cova de fundo Contraste (sobre o filão ÷ fundo)
A (0 a 15 cm) 35 25 35 ÷ 25 = 1,4
B (30 a 45 cm) 120 30 120 ÷ 30 = 4,0
C (cerca de 70 cm) 95 28 95 ÷ 28 ≈ 3,4

Leitura:

  1. O contraste mede quantas vezes o teor sobre a mineralização é maior do que o fundo. Quanto maior, mais fácil é distinguir a anomalia.
  2. O horizonte A tem contraste 1,4: a anomalia quase desaparece, "diluída" pela matéria orgânica e pela lavagem.
  3. O horizonte B tem o maior contraste (4,0) e está a uma profundidade acessível à mão.
  4. Decisão: o protocolo da campanha fixa o horizonte B, a cerca de 30 a 45 cm, para toda a malha. O C fica como alternativa escrita no protocolo para os pontos onde o B não exista.

O estudo de orientação custa poucas amostras e pode poupar uma campanha inteira de centenas de amostras colhidas no horizonte errado.

5. Solos em malha

A amostragem de solo em malha cobre sistematicamente uma área com pontos (as estações) dispostos ao longo de linhas paralelas e regularmente espaçadas. É o método típico da fase de detalhe, sobre um alvo já identificado (por exemplo, uma bacia com sedimentos anómalos ou um lineamento favorável).

Desenhar a malha

Contar os pontos de uma malha: nós e intervalos

Um erro frequente é confundir o número de intervalos com o número de pontos. Numa linha de 600 m com estações a 25 m há 600 ÷ 25 = 24 intervalos, mas 24 + 1 = 25 estações, porque há uma estação em cada extremo. Do mesmo modo, uma malha de 20 intervalos por 20 intervalos tem 21 × 21 = 441 nós (pontos de amostragem) e 20 × 20 = 400 células.

Exemplo resolvido · dimensionar uma malha de solos

Um alvo de cobre ocupa uma área retangular de 800 m na direção norte-sul (a direção estrutural, dada por um filão N-S) por 600 m na direção este-oeste. Espera-se uma anomalia de solo com cerca de 60 m de largura e pelo menos 300 m de comprimento.

Passo 1, orientação. O filão é N-S, logo as linhas são E-W (perpendiculares) e distribuem-se ao longo dos 800 m N-S.

Passo 2, espaçamentos.

Passo 3, número de linhas. 800 ÷ 100 = 8 intervalos, logo 9 linhas.

Passo 4, estações por linha. 600 ÷ 25 = 24 intervalos, logo 25 estações por linha.

Passo 5, total de amostras de campo. 9 × 25 = 225 amostras.

Passo 6, controlo de qualidade. Se o protocolo mandar inserir um duplicado de campo, um branco e um padrão por cada 20 amostras: 225 ÷ 20 = 11,25, que se arredonda para cima, 12 grupos, logo 12 × 3 = 36 amostras de controlo. O lote enviado ao laboratório tem 225 + 36 = 261 amostras.

Passo 7, tempo de campo. Se, naquele terreno, uma equipa de duas pessoas fizer cerca de 40 estações por dia (valor a confirmar no primeiro dia), são precisos 225 ÷ 40 ≈ 5,6, ou seja, 6 dias de campo.

Verificação das ordens de grandeza. A área é 0,8 km × 0,6 km = 0,48 km². 225 amostras em 0,48 km² dão cerca de 470 amostras por km², uma densidade própria do detalhe e muito maior do que a de uma campanha regional de sedimentos, onde uma amostra representa vários km².

Executar a amostragem em malha

  1. Implantar a linha de base e as linhas com GNSS (e, no detalhe muito apertado, com bússola e fita), marcando as estações.
  2. Em cada estação, afastar a folhada (horizonte O) e abrir uma pequena cova, ou usar o trado, até ao horizonte definido no protocolo (normalmente o B), à profundidade definida.
  3. Colher a massa de solo definida no protocolo (a suficiente para, depois de seca e crivada, sobrar a fração fina que o laboratório pede), sem raízes nem pedras grandes.
  4. Registar em cada estação: código, coordenadas, horizonte, profundidade, cor, textura, tipo de solo (residual ou transportado), declive, vegetação, uso do solo e qualquer fonte de contaminação à vista.
  5. Tapar a cova.
  6. Manter a mesma ferramenta, o mesmo horizonte, a mesma profundidade e o mesmo procedimento em todas as estações. Qualquer exceção fica escrita na ficha.

A uniformidade é essencial: variar o procedimento entre pontos introduz ruído nos dados e pode criar ou mascarar uma anomalia. A malha permite depois construir mapas de isoteores por interpolação entre os pontos, e esses mapas só valem se todos os pontos forem comparáveis.

Uma estação mudada de horizonte sem registo parece, no mapa, uma anomalia (ou um "buraco" na anomalia). Não há forma de a corrigir depois, só de a repetir.

6. Sedimentos de corrente

Os sedimentos de corrente são os materiais depositados no leito das linhas de água. A erosão arrasta para a linha de água material de toda a encosta, por isso cada amostra integra a assinatura geoquímica de toda a bacia de drenagem a montante do ponto amostrado: essa bacia é a área representada pela amostra. Isto torna o método muito eficiente para o reconhecimento regional, porque uma única amostra representa uma área extensa.

Onde amostrar

Como percorrer a linha de água

Percorre-se a linha de água de jusante para montante. Assim, a lama que o técnico levanta ao caminhar e ao colher vai para trás, para pontos já amostrados, e não para o ponto seguinte.

Colher e crivar

  1. Colher sedimento em vários sítios do leito ativo, ao longo de um troço curto (algumas dezenas de metros), e juntá-lo numa amostra composta. Isto reduz o efeito do acaso de um único buraco.
  2. Crivar para a fração fina. A fração fina, silte e areia muito fina, tem mais superfície e mais óxidos e argilas, concentra melhor os elementos de interesse e dá amostras mais homogéneas. Uma fração muito usada é a inferior a 180 µm, que corresponde ao crivo de 80 mesh. A crivagem pode fazer-se no campo, por via húmida (com a própria água da linha de água), ou no laboratório depois da secagem; seja qual for, é a mesma em toda a campanha.
  3. Usar crivos de nylon ou de aço inoxidável, nunca de latão nem de metal galvanizado: o latão é uma liga de cobre e zinco e contamina a amostra precisamente nos elementos que muitas vezes se procuram.
  4. Deixar decantar e escorrer o excesso de água, e colocar a amostra num saco de papel Kraft resistente à humidade (capítulo 9).
  5. Registar: código, coordenadas, largura e profundidade da linha de água, caudal aproximado, cor e turvação da água, tipo de sedimento, litologias dos seixos do leito, e fontes de contaminação a montante.

Um saco cheio de areia grossa e seixos dilui o sinal geoquímico. A fração fina é a que melhor regista a assinatura química da bacia, por isso se crivam as amostras sempre para a mesma fração.

Porque a anomalia decai para jusante

A anomalia de um afluente que drena uma zona mineralizada vai-se diluindo para jusante, à medida que entram sedimentos "limpos" do resto da bacia. Um modelo simples, que supõe que toda a bacia é erodida ao mesmo ritmo, dá o teor esperado num ponto:

$$C = \frac{A_{\text{min}} \times (C_{\text{min}} - C_{\text{f}})}{A_{\text{total}}} + C_{\text{f}}$$

em que $A_{\text{min}}$ é a área da zona mineralizada, $C_{\text{min}}$ o teor do sedimento que ela produz, $C_{\text{f}}$ o teor de fundo e $A_{\text{total}}$ a área total da bacia a montante do ponto.

Exemplo resolvido · diluição de uma anomalia de cobre

Um afluente drena 2 km² de terreno mineralizado, cujos sedimentos têm 400 ppm de cobre. O fundo regional é de 30 ppm.

Ponto 1, no afluente, a montante da confluência (bacia de 2 km², toda mineralizada): C = 400 ppm. Contraste = 400 ÷ 30 ≈ 13.

Ponto 2, na linha principal, logo abaixo da confluência (bacia total de 20 km²):

$$C = \frac{2 \times (400 - 30)}{20} + 30 = \frac{740}{20} + 30 = 37 + 30 = 67 \text{ ppm}$$

Contraste = 67 ÷ 30 ≈ 2,2.

Ponto 3, muito mais a jusante (bacia total de 60 km²):

$$C = \frac{2 \times 370}{60} + 30 \approx 12{,}3 + 30 \approx 42 \text{ ppm}$$

Contraste = 42 ÷ 30 = 1,4, já difícil de distinguir da variação natural.

Conclusões:

  1. A amostra do afluente, colhida a montante da confluência, mostra a anomalia com toda a força. Uma amostra na linha principal quase a perde.
  2. A densidade de amostragem tem de ser suficiente para que as bacias amostradas não sejam demasiado grandes em relação ao alvo procurado.
  3. Na prática, a diluição é só uma parte da história: a química da água e a seleção dos grãos pela corrente também mudam os teores ao longo do percurso.

Concentrados de bateia: técnica complementar

Os concentrados de bateia separam, por lavagem numa bateia (um prato cónico), os minerais pesados (densos) do sedimento comum. Colhe-se sedimento mais grosseiro do que para a análise química, sobretudo nos sítios onde a corrente abranda e os pesados se acumulam (atrás de blocos, na base do cascalho), e lava-se até restar um pequeno concentrado.

Em regiões com volfrâmio e estanho, como as da Beira Interior e do Norte de Portugal, a bateia é um método natural de seguimento de anomalias.

7. Tipos de amostras geoquímicas

Além de solo e sedimento de corrente, a prospeção geoquímica recorre a outros meios de amostragem, cada um respondendo a uma pergunta diferente:

Tipo de amostra O que é Área que representa Quando se usa
Sedimento de corrente fração fina do sedimento ativo do leito toda a bacia a montante reconhecimento regional e seguimento
Concentrado de bateia minerais pesados separados por lavagem toda a bacia a montante minerais densos e resistentes (ouro, cassiterite, volframite)
Solo horizonte definido (normalmente B), em perfil ou em malha o ponto e o que está por baixo e a montante, na vertente detalhe sobre um alvo, sobretudo em área coberta
Rocha fragmento de afloramento, lascas, canal, testemunho de sondagem o próprio ponto confirmação direta da mineralização e halos primários
Água água superficial ou subterrânea a bacia ou o aquífero a montante dispersão hidromórfica, drenagem ácida, ambiente
Vegetação (biogeoquímica) folhas, casca ou ramos de uma espécie definida a zona das raízes casos especiais, em áreas de cobertura espessa

Diferenciar as amostras

Diferenciar bem as amostras é uma aptidão do referencial e evita interpretações erradas:

Exemplo resolvido · escolher o tipo de amostra

Situação Tipo de amostra Porquê
Região de 300 km² nunca estudada sedimento de corrente poucas amostras cobrem muitas bacias
Bacia anómala em estanho, rio com cascalho concentrado de bateia a cassiterite é densa e resistente
Vertente coberta por solo, sem afloramentos, sobre um lineamento favorável solo em malha o solo "vê" a rocha por baixo da cobertura
Filão de quartzo com sulfuretos visíveis rocha confirma diretamente o teor
Linha de água avermelhada junto a uma mina antiga água (com pH) e sedimento avaliar a drenagem ácida e a dispersão

8. Tipos de análises geoquímicas

As amostras seguem para um laboratório, que as prepara e as analisa. O técnico de campo não faz as análises, mas tem de saber o que se pede e porquê, porque isso condiciona a recolha (massa, fração, embalagem).

Preparação no laboratório

  1. Secagem a baixa temperatura, normalmente abaixo de 60 °C, para não perder elementos voláteis (como o mercúrio).
  2. Crivagem para a fração definida (por exemplo, inferior a 180 µm, 80 mesh), se não foi feita no campo.
  3. Pulverização da fração, quando o método o exige.
  4. Digestão (passagem a solução) de uma pequena porção, para os métodos que analisam líquidos.

Digestões: parcial ou total

Digestão O que dissolve Consequência
Água-régia (ácidos clorídrico e nítrico) sulfuretos, óxidos, carbonatos, a parte "móvel" digestão parcial: não dissolve bem os silicatos resistentes nem minerais como a cassiterite; muito usada em prospeção de metais base e ouro
Quatro ácidos (inclui ácido fluorídrico) quase todos os minerais, incluindo silicatos digestão quase total; alguns minerais muito resistentes continuam por dissolver
Fusão a amostra toda, fundida com um fundente total; necessária para elementos presos em minerais resistentes (estanho, volfrâmio, alguns elementos raros)

A escolha da digestão tem consequências práticas: numa prospeção de estanho, uma digestão por água-régia daria teores muito baixos e enganadores, porque a cassiterite quase não se dissolve.

Técnicas analíticas

Técnica O que mede Uso típico
ICP-OES (espetrometria de emissão ótica com plasma) dezenas de elementos em solução metais base e elementos maiores, em rotina
ICP-MS (espetrometria de massa com plasma) dezenas de elementos em solução, com limites de deteção muito baixos elementos-traço e indicadores
Absorção atómica (AAS) um elemento de cada vez, em solução análises pontuais; também como acabamento do ensaio ao fogo
Fluorescência de raios-X (FRX) de laboratório composição elementar da amostra sólida elementos maiores e alguns traço, com boa exatidão
FRX portátil (pXRF) composição elementar, no terreno triagem rápida, com amostra seca e homogénea; não substitui o laboratório
Ensaio ao fogo (fire assay) ouro e platinoides método de referência para o ouro

Unidades

Unidade Equivalência
1 % 10 000 ppm
1 ppm 1 mg/kg = 1 g/t
1 ppb 1 µg/kg = 0,001 ppm

Exemplo: um solo com 50 ppb de ouro tem 50 × 0,001 = 0,05 ppm = 0,05 g/t de ouro. Um sedimento com 0,12 % de zinco tem 0,12 × 10 000 = 1200 ppm de zinco. Na ficha de resultados, confirma sempre a unidade de cada coluna antes de comparar valores.

Elementos indicadores (pathfinders)

Alguns elementos acompanham um tipo de mineralização e dispersam-se de forma mais ampla ou são mais fáceis de medir do que o próprio metal procurado: são os elementos indicadores. Exemplos bem estabelecidos:

Fundo, limiar e anomalia (ideia essencial)

Controlo de qualidade (QA/QC)

Sem controlo de qualidade não se pode confiar nos resultados. Inserem-se no lote, com códigos da mesma sequência das amostras normais para o laboratório não os distinguir:

Controlo O que é O que verifica
Duplicado de campo segunda amostra colhida no mesmo ponto, com o mesmo procedimento a repetibilidade da amostragem
Branco material sem os elementos de interesse contaminação na preparação ou no transporte
Padrão certificado material com teor conhecido e certificado a exatidão do laboratório

Exemplo resolvido · ler um duplicado de campo. O ponto SO-0147 deu 110 ppm de cobre e o seu duplicado deu 130 ppm. Diferença relativa = |110 − 130| ÷ média = 20 ÷ 120 ≈ 17 %. Para um solo, uma diferença desta ordem é normalmente aceitável; se tivesse dado 110 e 260 ppm (diferença de 150 ÷ 185 ≈ 81 %), seria preciso rever o procedimento de recolha naquele ponto antes de interpretar os resultados. O limite aceitável é o que o protocolo da campanha fixar.

9. Acondicionar amostras de sedimentos e solos

Depois de recolhida, cada amostra tem de ser acondicionada para chegar ao laboratório sem perdas, sem misturas e sem contaminação, e com a identidade garantida.

Embalagens

Embalagem Para quê Cuidados
Saco de papel Kraft resistente à humidade solos e sedimentos de corrente deixa a amostra secar dentro do próprio saco; fecha-se dobrando a aba várias vezes, sem agrafos nem clipes metálicos
Saco de plástico resistente (polietileno) amostras que têm de manter a humidade, rocha, ou como segundo invólucro de um saco Kraft molhado não deixa secar; uma amostra húmida fechada em plástico pode ganhar bolor ou alterar-se
Frasco de plástico lavado águas enche-se até cima; conservação segundo o protocolo do laboratório
Caixa ou saco grande de ráfia agrupar vários sacos de um lote não empilhar sacos molhados de papel uns sobre os outros sem proteção

As embalagens são de uso único: nunca se reutiliza um saco de amostra.

Identificação

Secagem, transporte e armazenamento

Cadeia de custódia

A cadeia de custódia é o registo escrito de todas as mãos por onde a amostra passou: quem recolheu, quando, quem transportou, onde esteve guardada, quem entregou ao laboratório e quem recebeu. Cada passagem fica assinada e datada numa guia de remessa, que acompanha o lote e indica o número de amostras, os códigos e as análises pedidas.

Amostra testemunho

Quando o protocolo o prevê, guarda-se uma porção testemunho de cada amostra (ou pede-se ao laboratório que devolva ou guarde a sobra da preparação), para poder repetir a análise se surgirem dúvidas sem voltar ao terreno.

Exemplo resolvido · preparar um lote para o laboratório

Uma equipa recolheu, num dia, 12 solos em malha e 4 sedimentos de corrente.

  1. Os solos têm os códigos SO-0101 a SO-0112 e os sedimentos SC-0021 a SC-0024. Um dos solos foi duplicado no campo, com o código SO-0113, e acrescenta-se um branco com o código SO-0114: os controlos seguem a numeração normal.
  2. Cada saco Kraft tem o código no exterior e um talão no interior. A ficha de campo de cada ponto tem o mesmo código.
  3. Os sacos secam à sombra dois dias, fechados, em tabuleiros separados para solos e sedimentos.
  4. Preenche-se a guia de remessa: 18 amostras (12 + 1 duplicado + 1 branco = 14 solos; 4 sedimentos), os códigos, a preparação pedida (secagem abaixo de 60 °C, crivagem a 180 µm) e o pacote analítico.
  5. O técnico que entrega assina a guia; o laboratório assina a receção e confirma o número de sacos. Qualquer diferença regista-se de imediato.

Uma etiqueta ambígua ou apagada pode invalidar semanas de trabalho de campo. A cadeia de custódia protege a credibilidade dos dados perante um cliente, um investidor ou uma auditoria.

10. Contaminações

Analisar potenciais fontes de contaminação é uma realização central desta UC, porque um resultado anómalo pode ser, na verdade, um artefacto e não uma descoberta. Uma anomalia falsa desvia recursos para um alvo que não existe; uma contaminação num branco ou num padrão pode invalidar um lote inteiro.

Fontes de contaminação

Origem Exemplos Elementos mais afetados
Equipamento de amostragem crivos de latão, baldes galvanizados, ferramentas pintadas ou enferrujadas, sacos reutilizados cobre e zinco (latão), zinco (galvanizado), chumbo (tintas antigas), ferro
O próprio técnico anéis e alianças, cremes e protetores solares, tabaco ouro e prata (joias), zinco e titânio (protetores solares)
Atividade humana no terreno estradas e caminhos, pontes, povoações, lixeiras, linhas férreas chumbo (antigos combustíveis com chumbo), zinco (desgaste de pneus), vários metais
Agricultura vinhas e pomares tratados com produtos cúpricos (como a calda bordalesa), adubos, estrumes cobre (muito comum nas vinhas portuguesas), fósforo, zinco
Mineração antiga escombreiras, lavarias, fundições antigas os metais da própria mineralização, com uma assinatura que imita uma anomalia natural
Contaminação cruzada material de uma amostra rica passa para a seguinte, no campo, no transporte ou no laboratório todos

Prevenir

Registar

Mesmo com todos os cuidados, há contaminação que não se consegue evitar. Por isso, a ficha de campo regista qualquer fonte possível à vista: "estrada a 20 m a montante", "vinha em toda a vertente", "escombreira antiga 100 m a montante". Sem este registo, o intérprete não tem forma de separar uma anomalia natural de uma anomalia antrópica.

Exemplo resolvido · anomalia verdadeira ou contaminação?

Numa malha de solos, três estações seguidas da linha L0600 dão cobre entre 250 e 310 ppm, para um fundo de cerca de 30 ppm. A ficha de campo diz, nas três: "vinha, com manchas azuladas nas cepas".

  1. Hipótese de contaminação: as manchas azuladas são típicas dos tratamentos cúpricos da vinha, que enriquecem o solo superficial em cobre.
  2. Teste 1, forma da anomalia: as três estações coincidem exatamente com os limites da vinha, e não seguem a direção estrutural. Indício de contaminação.
  3. Teste 2, outros elementos: se a anomalia fosse de uma mineralização de sulfuretos, esperava-se que viesse acompanhada de indicadores (por exemplo, zinco, chumbo, arsénio). Os indicadores estão no fundo. Novo indício de contaminação.
  4. Teste 3, profundidade: colhe-se um perfil vertical numa das estações. Se o cobre for alto em cima e baixar em profundidade, a origem é superficial (contaminação); se aumentar para o horizonte C, a origem pode ser a rocha.
  5. Conclusão provisória: anomalia provavelmente antrópica; não se descarta sem o teste 3, mas não passa a alvo prioritário.

Descartar a contaminação vem sempre antes de aceitar uma anomalia como genuína. As perguntas certas são: coincide com alguma coisa feita pelo ser humano? Tem os elementos companheiros que a mineralização esperada teria? Como varia com a profundidade?

11. Medidas de pH

O pH mede a acidez ou a alcalinidade de um meio (água, ou a solução do solo). A escala vai, na prática, de 0 a 14: abaixo de 7 é ácido, 7 é neutro, acima de 7 é alcalino (básico).

A escala é logarítmica

O pH é o logaritmo (com sinal negativo) da concentração de iões hidrogénio. Por isso, uma unidade de pH corresponde a um fator de 10 na acidez:

Porque interessa à prospeção

O pH condiciona a mobilidade dos elementos, e por isso a forma e o tamanho das anomalias:

Por isso, registar o pH das águas e dos solos ajuda a interpretar porque é que uma anomalia é maior, menor ou está deslocada.

Medir o pH de uma água no terreno

  1. Calibrar o medidor de pH (peagómetro) com pelo menos duas soluções-tampão (por exemplo, pH 7 e pH 4, ou pH 7 e pH 10, conforme a gama esperada), no início de cada dia de trabalho e sempre que as leituras pareçam derivar.
  2. Lavar o elétrodo com água destilada e secá-lo com papel, sem esfregar.
  3. Mergulhar o elétrodo na água, num ponto com água corrente, ou num copo cheio com a água do ponto.
  4. Esperar que a leitura estabilize e registar o valor, a temperatura (muitos aparelhos compensam-na automaticamente) e a hora.
  5. Lavar de novo o elétrodo antes do ponto seguinte e guardá-lo húmido, na solução de conservação indicada pelo fabricante.

As tiras indicadoras de pH são mais baratas e dão uma ideia rápida, mas com precisão muito menor; servem para triagem, não para registo rigoroso.

Medir o pH de um solo

O pH do solo mede-se numa suspensão de solo num líquido. A norma ISO 10390 mede-o numa suspensão de 1 parte de solo para 5 de líquido, em volume, podendo o líquido ser água, uma solução de cloreto de cálcio (0,01 mol/L) ou de cloreto de potássio (1 mol/L). Os três dão valores diferentes para o mesmo solo, por isso o resultado indica sempre o meio usado (por exemplo, "pH (H₂O) = 5,6").

Procedimento simplificado de campo ou de laboratório escolar:

  1. Juntar o solo seco e crivado ao líquido na proporção de 1 para 5.
  2. Agitar bem durante alguns minutos e deixar repousar o tempo indicado no procedimento.
  3. Medir com o elétrodo calibrado, na parte líquida por cima do depósito.
  4. Registar o valor, o meio (água, CaCl₂ ou KCl) e a temperatura.

Exemplo resolvido · ler o pH ao longo de uma linha de água

Uma equipa mede o pH e colhe sedimentos ao longo de uma linha de água que passa por uma escombreira antiga:

Ponto Posição pH da água Zinco no sedimento (ppm)
A 500 m a montante da escombreira 7,1 90
B 50 m a jusante da escombreira 3,4 60
C 1 km a jusante, depois de um afluente de pH neutro 6,5 480

Leitura:

  1. Em B, o pH desce de 7,1 para 3,4, ou seja, a água fica 10^(7,1 − 3,4) = 10^3,7 ≈ 5000 vezes mais ácida: sinal de drenagem ácida da escombreira.
  2. Em B, o zinco no sedimento é baixo apesar de estar mesmo ao lado da fonte: em meio muito ácido, o zinco fica dissolvido na água e não se fixa no sedimento.
  3. Em C, o pH volta a subir e o zinco sai da solução, fixado sobretudo nos óxidos de ferro que precipitam: o sedimento fica muito enriquecido. A anomalia do sedimento está deslocada 1 km para jusante da fonte.
  4. Conclusão: esta anomalia é antrópica (escombreira) e o seu desenho só se percebe com o pH. Sem as medidas de pH, poderia procurar-se uma mineralização no sítio errado.

12. Equipamentos de proteção individual e normas de segurança e saúde no trabalho

O trabalho de campo em prospeção geoquímica tem riscos reais. A prevenção segue uma ordem: primeiro eliminar ou reduzir o risco (planear, escolher o método, evitar o perigo), depois as proteções coletivas (sinalizar, escorar, vedar) e só por fim os equipamentos de proteção individual (EPI), que protegem quem os usa mas não eliminam o perigo.

EPI no trabalho de campo

EPI Protege de Quando
Botas de segurança, com biqueira e palmilha resistentes à perfuração, e sola antiderrapante quedas de objetos, perfurações, torções e escorregadelas sempre
Luvas de trabalho (e luvas de nitrilo para águas e amostras molhadas) cortes, abrasão, contacto com águas ácidas ou contaminadas; também evitam contaminar as amostras ao escavar, crivar e manusear amostras
Óculos de proteção projeção de partículas e de salpicos ao partir rocha, ao usar picareta, ao manusear águas ácidas
Capacete queda de objetos e pancadas junto a taludes, frentes de pedreira ou de mina, trincheiras, e sempre em zonas com máquinas
Colete de alta visibilidade atropelamento junto de estradas, máquinas e viaturas
Proteção solar (chapéu, roupa comprida, protetor no rosto) insolação, queimaduras dias de sol e calor
Botas de água ou perneiras impermeáveis frio, humidade, cortes na água amostragem em linhas de água

Normas de segurança no campo

13. Riscos e impactos da campanha de amostragem

Analisar os riscos e impactos antes de sair para o terreno é um critério de desempenho explícito desta UC.

Riscos para a equipa

Grupo Exemplos
Terreno quedas, torções, vertentes instáveis, taludes, linhas de água com corrente
Covas e trincheiras desmoronamento das paredes, sobretudo com chuva ou em solos arenosos; queda de pessoas ou animais nas covas abertas
Meteorologia calor e insolação, frio e hipotermia, trovoadas, nevoeiro que desorienta
Seres vivos cães, víboras, vespas e abelhas, carraças (podem transmitir doenças), plantas urticantes
Águas afogamento em corrente forte; doenças transmitidas por águas contaminadas (lavar as mãos, não beber água das linhas de água); águas ácidas
Deslocação acidentes de viatura em caminhos de terra, avarias ou atolamentos em locais sem rede de telemóvel
Áreas mineiras antigas poços e galerias abandonados, escombreiras instáveis, águas ácidas
Incêndios rurais trabalho em zonas de mato no verão
Esforço levantar e carregar sacos de amostras pesados, longas caminhadas

Avaliar o risco: probabilidade × gravidade

Um método simples é pontuar cada risco pela probabilidade (1 = rara, 2 = possível, 3 = provável) e pela gravidade (1 = ligeira, 2 = séria, 3 = muito grave) e multiplicar: o resultado vai de 1 a 9. Riscos de 6 ou mais exigem medidas antes de começar.

Exemplo resolvido · matriz de risco de uma campanha

Campanha de 20 covas de solo, com cerca de 60 cm de profundidade, numa vertente, em época de chuvas, com amostragem de sedimentos num ribeiro.

Risco Probabilidade Gravidade Nível Medida
Queda de pessoas numa cova aberta 2 2 4 sinalizar e tapar cada cova no próprio dia
Desmoronamento de uma cova 1 2 2 covas pouco fundas; não entrar na cova
Escorregar no ribeiro com o caudal alto 3 2 6 não entrar na água com corrente forte; botas antiderrapantes; trabalhar em pares
Picada de carraça 2 2 4 roupa comprida, verificação no fim do dia
Atolamento da viatura 2 1 2 verificar acessos; levar comunicação

O risco mais alto (6) é o do ribeiro: a medida é adiar a amostragem de sedimentos para dias de caudal baixo, e não só "ter cuidado". Uma trincheira funda, aberta com máquina, teria um risco de desmoronamento muito maior e exigiria entivação ou taludes, e nunca se entraria nela sem essas medidas.

Impactos ambientais e mitigação

A prospeção geoquímica é uma das técnicas de menor impacto, mas tem impactos:

Medidas de mitigação:

Sustentabilidade e rigor andam juntos: uma campanha bem planeada colhe as amostras certas uma vez só, e perturba menos o terreno do que uma campanha improvisada que tem de voltar a repetir pontos.

14. Propriedades das rochas amostradas

Cada ponto de amostragem, mesmo de solo ou de sedimento, está sobre uma rocha, e a interpretação geoquímica depende dela. Analisar criticamente as principais propriedades das rochas amostradas é um critério de desempenho desta UC.

O que observar e registar

Propriedade O que se observa Porque importa
Litologia tipo de rocha (granito, xisto, grauvaque, rocha vulcânica, quartzito...) cada rocha tem o seu fundo geoquímico: um xisto negro tem naturalmente mais metais do que um quartzito
Cor e textura cor da rocha fresca e alterada; grão fino, médio, grosseiro ajuda a identificar a rocha e a alteração
Grau de alteração (meteorização) rocha sã, pouco alterada, muito alterada, completamente decomposta a meteorização liberta e redistribui os elementos
Alteração hidrotermal silicificação, argilização, sericitização, cloritização, carbonatação rodeia muitos depósitos: é um halo visível
Estrutura xistosidade, fraturas, falhas, filões, com a sua orientação controla a circulação dos fluidos e a forma dos corpos
Mineralização visível sulfuretos (pirite, calcopirite, galena, esfalerite, arsenopirite), óxidos, minerais secundários indício direto
Minerais secundários e produtos de oxidação óxidos de ferro (limonite), malaquite e azurite (verdes e azuis, de cobre), chapéus de ferro (gossans) revelam sulfuretos meteorizados por baixo

Observações rápidas de campo ajudam: a efervescência com ácido clorídrico diluído identifica carbonatos; o íman identifica a magnetite e a pirrotite; a lupa (10×) mostra os minerais; o canivete e a escala de Mohs dão a dureza.

Da rocha ao solo e ao sedimento

A leitura crítica consiste em perguntar se a composição da rocha explica os resultados:

Por isso, o fundo e o limiar estimam-se, sempre que possível, por litologia.

Exemplo resolvido · descrever uma amostra de rocha no terreno

Uma equipa recolhe um fragmento de rocha junto a um veio de quartzo com pontos metálicos brilhantes, dourados, numa rocha esbranquiçada e friável.

  1. Litologia: granito de grão médio, reconhecido pelo quartzo, feldspato e mica.
  2. Alteração: muito alterado; feldspatos esbranquiçados e argilosos (argilização), rocha friável; perto do veio a rocha está mais dura e rica em sílica (silicificação).
  3. Estrutura: veio de quartzo com 10 cm de espessura, com a direção e a inclinação medidas à bússola.
  4. Mineralização: os pontos dourados testam-se com o canivete. O ouro é mole e deixa-se riscar e deformar com facilidade; a pirite (amarelo-pálido, dura, muitas vezes em cubos) não se risca com o canivete; a calcopirite (amarelo-latão, por vezes com manchas irisadas) risca-se, mas é quebradiça. Aqui os grãos são duros e cúbicos: regista-se "sulfuretos amarelos, provavelmente pirite", e não "ouro".
  5. Produtos de oxidação: manchas de limonite (castanho-alaranjadas) à volta dos sulfuretos.
  6. Fotografa-se o afloramento e a amostra com escala, e preenche-se a ficha com o código RC-0007.

Este registo, cruzado mais tarde com os resultados analíticos, explica muitas vezes porque uma zona apresenta uma anomalia geoquímica, e evita conclusões apressadas.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Executar uma campanha de prospeção geoquímica de solos e sedimentos de corrente segue sempre a mesma ordem:

  1. Enquadrar e planear: direitos de prospeção e acessos tratados, mapeamento geológico, objetivo, meio de amostragem, densidade, protocolo, QA/QC, segurança.
  2. Localizar cada ponto no plano e no terreno, em PT-TM06/ETRS89, com código único e ficha.
  3. Recolher solos: horizonte B, à mesma profundidade, em perfis verticais (orientação e confirmação) ou em linhas e malhas perpendiculares à estrutura, com espaçamento entre linhas maior do que entre estações.
  4. Recolher sedimentos de corrente: sedimento ativo, cada afluente a montante da confluência, de jusante para montante, a montante das fontes de contaminação, crivado para a fração fina com crivos de nylon ou inox; bateia como complemento.
  5. Diferenciar os tipos de amostra e saber que análises e digestões se pedem.
  6. Acondicionar: sacos Kraft de uso único, código dentro e fora, secagem a baixa temperatura, cadeia de custódia.
  7. Analisar as contaminações: prevenir, registar e testar antes de aceitar qualquer anomalia.
  8. Medir o pH com o aparelho calibrado, e usá-lo para perceber a mobilidade dos elementos.
  9. Trabalhar com EPI e segundo as normas de SST, depois de avaliados os riscos e impactos.
  10. Descrever criticamente as rochas, porque a rocha explica o fundo e dá sentido à anomalia.

Exercícios resolvidos

1. Que horizonte do solo se escolhe habitualmente para prospeção geoquímica, e porquê?

Resolução: o horizonte B, porque é o horizonte de acumulação, onde as argilas e os óxidos de ferro e manganês fixam os metais, e é menos afetado pela matéria orgânica e pela contaminação superficial do que o A. Amostra-se o mesmo horizonte, à mesma profundidade, em toda a campanha, e regista-se a profundidade e o horizonte em cada ponto.

2. Num estudo de orientação, o cobre deu, sobre a mineralização e no fundo: A 40 e 32 ppm; B 150 e 30 ppm; C 90 e 30 ppm. Que horizonte escolher?

Resolução: contrastes: A = 40 ÷ 32 = 1,25; B = 150 ÷ 30 = 5,0; C = 90 ÷ 30 = 3,0. Escolhe-se o horizonte B, que tem o maior contraste.

3. Uma malha tem linhas E-W com 1,2 km, estações a 50 m, e as linhas estão a 200 m umas das outras ao longo de 1 km. Quantas amostras de campo tem?

Resolução: estações por linha = 1200 ÷ 50 + 1 = 24 + 1 = 25. Linhas = 1000 ÷ 200 + 1 = 5 + 1 = 6. Total = 25 × 6 = 150 amostras. Erro típico: fazer 24 × 5 = 120, contando intervalos em vez de pontos.

4. Onde se colhe a amostra de sedimento de um afluente, e em que sentido se percorre a linha de água?

Resolução: no afluente, um pouco a montante da confluência, no sedimento ativo, para que a amostra represente só a bacia desse afluente. Percorre-se a linha de água de jusante para montante, para que a lama levantada não contamine o ponto seguinte.

5. Um afluente drena 3 km² de terreno com sedimentos a 250 ppm de zinco; o fundo é de 50 ppm. Que teor se espera logo abaixo da confluência, se a bacia total for de 15 km²?

Resolução: C = 3 × (250 − 50) ÷ 15 + 50 = 600 ÷ 15 + 50 = 40 + 50 = 90 ppm. O contraste cai de 250 ÷ 50 = 5 no afluente para 90 ÷ 50 = 1,8 abaixo da confluência: é por isso que se amostra cada afluente.

6. Porque é que não se usa um crivo de latão para crivar sedimentos?

Resolução: o latão é uma liga de cobre e zinco e liberta partículas desses metais para a amostra, criando anomalias falsas precisamente em elementos muito procurados. Usam-se crivos de nylon ou de aço inoxidável.

7. Converte: 0,35 % de cobre em ppm, e 80 ppb de ouro em g/t.

Resolução: 0,35 × 10 000 = 3500 ppm de cobre. 80 ppb = 80 × 0,001 = 0,08 ppm = 0,08 g/t de ouro.

8. Três solos seguidos, dentro de uma vinha, dão cobre muito alto, sem zinco, chumbo ou arsénio anómalos. Que passo dar antes de os considerar um alvo?

Resolução: analisar a contaminação: os tratamentos cúpricos da vinha explicam cobre alto no solo superficial. A falta dos elementos indicadores e a coincidência com os limites da vinha apontam para contaminação; confirma-se com um perfil vertical (se o cobre diminuir em profundidade, a origem é superficial).

9. A água de um ribeiro passa de pH 6,8 para pH 3,8 a jusante de uma escombreira. Quantas vezes ficou mais ácida, e o que significa?

Resolução: 10^(6,8 − 3,8) = 10³ = 1000 vezes mais ácida. Indica drenagem ácida da escombreira (oxidação de sulfuretos), que dissolve metais e os transporta para jusante, onde se voltam a fixar quando o pH sobe.

10. O que deve constar da cadeia de custódia de um lote de amostras?

Resolução: quem recolheu e quando, quem transportou, onde as amostras estiveram guardadas, quem entregou ao laboratório e quem recebeu, com assinaturas e datas, na guia de remessa, que indica também o número de amostras, os códigos e as análises pedidas.

11. Numa campanha, o risco "escorregar no ribeiro com caudal alto" tem probabilidade 3 e gravidade 2. Que nível tem e que medida se toma?

Resolução: nível = 3 × 2 = 6, que exige medidas antes de começar: adiar a amostragem de sedimentos para caudal baixo, trabalhar em pares e usar calçado antiderrapante. A medida mais eficaz é evitar o perigo, e não só usar EPI.

12. Porque é que um teor alto de metais num solo sobre xisto negro não é, por si só, uma anomalia?

Resolução: porque os xistos negros têm naturalmente teores de fundo mais altos de vários metais (matéria orgânica e sulfuretos disseminados). O fundo e o limiar devem calcular-se por litologia; comparar esse solo com o fundo de um granito levaria a uma anomalia falsa.