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UC · Unidade de Competência · UC01854

Sebenta · Implementar técnicas de prospeção tática (geoquímica e geofísica) na prospeção de recursos minerais

Amostragem geoquímica de detalhe, medições geofísicas e segurança de campo, do local escolhido ao alvo priorizado
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Prospeção e Pesquisa de ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a implementar técnicas de prospeção tática numa campanha de recursos minerais, combinando geoquímica e geofísica de detalhe. A prospeção tática é a fase que se segue à prospeção estratégica: já se sabe em que área trabalhar, falta encontrar o alvo concreto dentro dela.

O percurso segue a lógica de uma campanha real: primeiro prepara-se o trabalho de campo e a segurança, depois lê-se o terreno (geomorfologia, meteorização), segue-se a amostragem geoquímica (rocha, solo, sedimentos, concentrados de bateia) e o tratamento estatístico dos resultados (fundo, limiar, anomalia). Por fim, planeia-se e executa-se a campanha geofísica (magnetometria, gravimetria, métodos elétricos e eletromagnéticos, sísmica) para confirmar ou descartar os alvos encontrados.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar locais para amostragem geoquímica de detalhe; recolher amostras dos diferentes tipos de rochas, solos e sedimentos; analisar locais para medição de parâmetros geofísicos; medir parâmetros geofísicos (gravimétricos, elétricos, magnetométricos, eletromagnéticos, sísmicos), sempre com rigor, autonomia e respeito pelas normas de segurança e saúde no trabalho.

1. Da prospeção estratégica à prospeção tática

A prospeção de recursos minerais organiza-se em duas escalas sucessivas, com objetivos diferentes e ferramentas diferentes.

A prospeção estratégica trabalha à escala regional: reconhecimento geral do território, compilação de dados já existentes (cartas geológicas, estudos anteriores), construção de modelos metalogénicos (que tipo de mineralização se espera numa dada zona geológica) e uso de deteção remota (imagens de satélite, dados aerogeofísicos). O produto desta fase é a seleção de áreas promissoras dentro de um território muito maior.

A prospeção tática, que é o objeto desta UC, trabalha à escala local, dentro de uma área já selecionada pela fase estratégica. Define alvos concretos através de:

Escala Área Ferramentas típicas Produto
Estratégica regional deteção remota, cartografia, modelos metalogénicos áreas selecionadas
Tática local geoquímica de detalhe, geofísica terrestre alvos priorizados

O contexto de trabalho da UC inclui a área de prospeção e pesquisa e as minas, sejam elas em atividade, em fecho ou já abandonadas, que servem muitas vezes de referência geológica local. Cada campanha decorre dentro de um polígono de direitos de prospeção e pesquisa já atribuído a uma empresa, e o técnico trabalha sempre reportando a um geólogo responsável.

Exemplo resolvido · Situar uma campanha

Uma empresa tem direitos de prospeção numa área de 40 km², onde estudos regionais anteriores (deteção remota e geologia estrutural) apontaram três zonas de possível mineralização. A campanha tática:

  1. Foca-se apenas nas três zonas apontadas, não na área inteira de 40 km².
  2. Dentro de cada zona, desenha uma malha de amostragem geoquímica de detalhe.
  3. Nos pontos onde a geoquímica revelar anomalias, planeia uma malha geofísica mais apertada, centrada nesses pontos.
  4. Só nos alvos finais, já muito reduzidos em área, se justificará avançar para trincheiras ou sondagens.

Este afunilamento progressivo, de 40 km² para alguns hectares, é a lógica central da prospeção tática: cada método reduz a incerteza e a área de interesse antes de se justificar o investimento no método seguinte, mais caro.

2. Trabalho de campo: preparação e segurança

Preparar o trabalho e o equipamento

Preparar bem uma saída de campo é a primeira aptidão do referencial e a que condiciona todas as outras. Uma lista de verificação típica antes de sair:

Segurança de campo e normas de segurança e saúde no trabalho

O trabalho de campo em prospeção tem riscos específicos, que exigem disciplina de equipa:

⚠️ Em caso de desorientação no terreno: parar, tentar reorientar-se com carta, bússola e GNSS, e só depois considerar deslocar-se. Se não conseguir reorientar-se, ficar num local visível e pedir ajuda. Nunca seguir a linha de água a jusante como regra de orientação: leva frequentemente a ravinas e cascatas, e é causa reconhecida de acidentes de campo.

Posicionamento no terreno: cartas e GNSS

Todo o trabalho de campo desta UC depende de localizar com rigor cada ponto de amostragem ou de medição. Duas ferramentas trabalham sempre em conjunto:

Duas armadilhas a evitar sempre:

Fontes de erro do GNSS a ter em conta no planeamento de campo: geometria dos satélites (DOP), multitrajeto em vales encaixados ou junto de taludes e edifícios, obstrução por copado denso ou relevo acentuado, e atrasos ionosférico e troposférico do sinal. A chuva, por si só, não degrada de forma relevante a qualidade do posicionamento GNSS.

Regista-se sempre, para cada waypoint: coordenadas, data, hora, precisão estimada e o operador responsável pela leitura.

3. Critérios de campo e leitura do terreno

Critérios de campo

Os critérios de campo são as regras práticas que orientam onde e como se recolhe informação durante um dia de trabalho:

Análise geomorfológica

A análise geomorfológica interpreta as formas do relevo para orientar a amostragem e a leitura geológica de uma área, porque o relevo controla onde os produtos da meteorização se acumulam.

Elemento do relevo O que indica para a prospeção
Vertentes e declives direção do transporte de solos e sedimentos, de montante para jusante
Vales e linhas de água pontos de acumulação e de amostragem de sedimentos de corrente
Terraços e depósitos zonas de deposição antiga, possíveis concentrações residuais
Afloramentos rochosos acesso direto à litologia, sem cobertura de solo

Antes de marcar qualquer ponto de amostragem num mapa, lê-se primeiro o relevo: é ele que dita, por exemplo, onde a água (e o que ela transporta) se concentra, e por isso onde faz sentido colocar um ponto de sedimento de corrente.

Exemplo resolvido · Ler o relevo antes de amostrar

Numa vertente com um pequeno vale encaixado, a equipa identifica: (1) um afloramento rochoso no topo, (2) uma encosta com solo residual a meia altura, (3) uma linha de água no fundo do vale, com uma confluência 200 m a jusante.

A leitura geomorfológica sugere: amostra de rocha no afloramento (1), para caracterizar a litologia de base; amostra de solo a meia encosta (2), representativa da meteorização local; e sedimento de corrente na linha de água (3), preferencialmente antes da confluência, para não misturar já o material de duas bacias distintas.

4. Meteorização das rochas

A meteorização é o processo que transforma a rocha-mãe em solo e em material disponível para transporte, e é o mecanismo que liberta os elementos químicos que a prospeção geoquímica vai depois detetar.

Meteorização física

A meteorização física fragmenta a rocha, sem alterar a sua composição química:

A abrasão (desgaste por atrito de partículas transportadas pela água, pelo vento ou pelo gelo) aparece muitas vezes nesta lista, mas está na fronteira com a erosão, porque depende do transporte de material: fragmenta, mas só onde há agente a transportar.

O resultado é rocha desfeita em fragmentos cada vez menores, mas ainda com a mesma mineralogia da rocha original.

Meteorização química

A meteorização química transforma os minerais originais noutros minerais, geralmente mais estáveis à superfície:

Este processo é decisivo para a prospeção geoquímica: é ele que liberta os elementos de interesse dos minerais originais, permitindo que circulem depois em solos, sedimentos e águas, formando halos de dispersão secundária à volta e a jusante de uma eventual mineralização.

É importante distinguir os dois tipos de halo, porque se amostram de maneira diferente:

Tipo de halo Quando e como se forma Onde se amostra
Dispersão primária ao mesmo tempo que a mineralização, pelos fluidos mineralizantes que impregnam a rocha encaixante à volta do corpo mineralizado; não depende da meteorização rocha (afloramentos, trincheiras, testemunhos de sondagem)
Dispersão secundária depois, à superfície, pela meteorização da mineralização e do seu halo primário, com transporte mecânico (rastejo, escorrência) e químico (águas) solos, sedimentos de corrente, águas, vegetação

Consequência prática: um halo secundário em solo raramente fica exatamente por cima da fonte. Numa encosta, o material desloca-se para jusante por rastejo e escorrência, e a anomalia de solo "escorrega" pela vertente abaixo, alongando-se no sentido do declive. A fonte deve procurar-se na extremidade a montante da anomalia, não no meio dela (ver o caso resolvido do capítulo 16).

Os óxidos de ferro e manganês e os minerais argilosos produzidos pela meteorização química têm grande capacidade de fixar (adsorver) metais como o cobre, o zinco, o chumbo ou o arsénio. É uma das razões por que o horizonte B, onde estes produtos se acumulam, é o horizonte preferido na amostragem de solos. Em sentido inverso, um chapéu de ferro (gossan), a massa de óxidos de ferro que resulta da meteorização de sulfuretos à superfície, é um indício de campo clássico, mas pode ser lixiviado de parte dos metais: um gossan pobre em cobre não prova que em profundidade não haja sulfuretos de cobre.

5. Amostragem geoquímica de detalhe: selecionar locais

Selecionar bem o local de amostragem é a primeira realização avaliada desta UC: analisar locais para amostragem geoquímica de detalhe.

Critérios de seleção

Malha de amostragem e boas práticas

Depois de escolhidos os locais, a recolha segue um protocolo rigoroso, comum a todos os tipos de amostra:

⚠️ Uma amostra sem ficha de campo completa perde grande parte do seu valor: o dado geológico está tanto na amostra física como no registo que a acompanha.

QA/QC em pormenor

As três famílias de amostras de controlo respondem a perguntas diferentes:

Amostra de controlo O que é Pergunta a que responde
Duplicado de campo segunda amostra recolhida no mesmo ponto, com o mesmo procedimento, e enviada com outro número a amostragem é repetível? a variação natural num ponto é pequena face às anomalias?
Duplicado de preparação ou de laboratório segunda fração da mesma amostra, depois de britada ou pulverizada a preparação e a análise são repetíveis?
Branco material sem o elemento de interesse (por exemplo, areia de quartzo limpa) há contaminação no transporte, na preparação ou entre amostras consecutivas?
Padrão certificado (CRM) material com teor conhecido e certificado, com o respetivo desvio-padrão o laboratório dá o valor certo (exatidão)?

Regras que tornam o QA/QC útil:

Exemplo resolvido · Ler os resultados de QA/QC de um lote

Um lote de solos incluiu um padrão certificado de cobre com 520 ppm de valor certificado e desvio-padrão certificado de 15 ppm, um branco e dois pares de duplicados de campo.

Passo 1, limites do padrão:

O laboratório devolveu 568 ppm para o padrão. Como 568 > 565, o padrão falhou: todo o lote é reanalisado antes de se interpretar qualquer anomalia.

Passo 2, branco: devolveu um teor de cobre claramente acima do limite de deteção, e a amostra anterior na sequência era um solo rico. Suspeita-se de contaminação na preparação (britador ou pulverizador mal limpo entre amostras); o laboratório tem de o confirmar.

Passo 3, duplicados de campo (diferença relativa = |A − B| / média de A e B):

O par 2 mostra que, naquele ponto, duas amostras recolhidas lado a lado diferem quase para o dobro. Antes de se considerar anómalo um valor de 58 ppm naquela zona, é preciso rever o procedimento (mesmo horizonte? mesma fração peneirada?) ou aceitar que a variabilidade local é grande e aumentar a densidade de amostragem.

6. Recolha de amostras de rocha

Tipos de amostra de rocha

Tipo Como se recolhe Uso típico
Amostra de mão fragmento único, com martelo de geólogo identificação litológica rápida
Amostra por lascas (chip) vários fragmentos ao longo de um percurso definido teor médio de um troço ou afloramento
Amostra em canal corte contínuo e uniforme numa frente exposta teor representativo de uma frente ou filão

A amostra em canal é a mais rigorosa para estimar um teor, porque corta uma secção contínua e uniforme, sem escolher apenas os fragmentos com aspeto mais interessante. Escolher só os fragmentos "bonitos" introduz um viés de seleção que sobrestima o teor real de uma frente.

Procedimento de recolha

  1. Identificar e descrever o afloramento: litologia, estruturas visíveis, grau de alteração.
  2. Escolher o método (mão, lascas ou canal) conforme o objetivo da amostragem.
  3. Recolher com o martelo de geólogo, evitando contaminação por ferramentas oxidadas ou sujas de amostras anteriores.
  4. Etiquetar o saco com o número da amostra e registar na ficha de campo: coordenadas, litologia, orientação de estruturas (quando aplicável).
  5. Fotografar o ponto com escala antes de recolher a amostra.
  6. Fechar e armazenar em segurança até à entrega no laboratório, respeitando a cadeia de custódia.

Identificar a rocha no campo

Antes de decidir o método de amostragem, o técnico descreve a rocha no local, com critérios simples e repetíveis:

Critério O que se observa
Cor e textura tom da rocha fresca e da superfície alterada; grão fino, médio ou grosseiro
Granularidade e minerais visíveis tamanho e identidade dos cristais observáveis a olho nu ou à lupa
Efervescência com HCl diluído teste de campo para identificar carbonatos, que libertam CO₂ em contacto com o ácido
Dureza comparação com a escala de Mohs; o canivete tem dureza aproximada de 5,5
Risca cor do pó que o mineral deixa ao ser riscado numa placa de porcelana
Magnetismo resposta a um íman de bolso, indício de minerais como a magnetite
Densidade sensação de peso do fragmento em relação ao seu tamanho

Estas observações de campo, registadas na ficha, orientam desde logo a decisão sobre o tipo de rocha (magmática, sedimentar ou metamórfica) e sobre a probabilidade de conter minerais de interesse, mesmo antes de qualquer resultado de laboratório.

7. Recolha de amostras de solo

O solo é um dos meios de amostragem mais usados em prospeção tática, por ser abundante e por refletir, em boa parte, a rocha subjacente e a sua meteorização.

Amostragem de solos

Escolher sempre o mesmo horizonte é o que torna os pontos comparáveis entre si: se um ponto amostra o horizonte A e outro o horizonte B, os resultados deixam de ser diretamente comparáveis, porque os dois horizontes têm composições diferentes por natureza.

Procedimento de recolha de solo

  1. Localizar o ponto da malha com GNSS.
  2. Abrir uma pequena cova até se atingir o horizonte B.
  3. Recolher a quantidade de solo definida no protocolo da campanha (a suficiente para, depois de seca e peneirada, sobrar a fração fina que o laboratório pede), evitando raízes e matéria orgânica visível.
  4. Peneirar no campo, se o protocolo o exigir, mantendo apenas a fração fina.
  5. Ensacar, numerar e registar na ficha: coordenadas, profundidade, cor, textura e humidade do solo.
  6. Fotografar o ponto e a cova aberta, com escala.

8. Recolha de sedimentos e concentrados de bateia

Sedimentos de corrente

Os sedimentos de corrente amostram-se em linhas de água, porque integram, num único ponto, o material erodido de toda a bacia hidrográfica a montante. É por isso uma amostragem muito eficiente em termos de área coberta.

Concentrados de bateia

Os concentrados de bateia usam a diferença de densidade entre minerais para separar, por lavagem, os minerais mais pesados do sedimento comum:

Bateia e sedimento de corrente respondem a perguntas diferentes e complementam-se: a bateia separa por densidade (método físico), enquanto o sedimento fino serve a análise química geral do laboratório.

9. Fundo, limiar e anomalia

Depois de recolhidas, as amostras seguem para o laboratório, onde se determina o teor de cada elemento de interesse. Os resultados analisam-se depois estatisticamente, à volta de três conceitos fundamentais.

Os três conceitos

A ordem é sempre a mesma: primeiro descreve-se o fundo (a normalidade da área), depois traça-se a fronteira do limiar, e só depois se assinalam os pontos que caem fora dela como anomalias.

Que desvio-padrão? Há duas fórmulas. O desvio-padrão amostral divide a soma dos quadrados dos desvios por $n-1$; o populacional divide por $n$. Como as amostras de uma campanha são uma amostra do terreno e não a população inteira, usa-se o amostral (é o que dá a função DESVPAD, ou STDEV.S, das folhas de cálculo). Com poucas amostras a diferença pesa: no exemplo seguinte, o amostral dá 19,12 ppm e o populacional 18,31 ppm. Escolhe-se um e diz-se qual no relatório.

Exemplo resolvido · cobre em sedimentos de corrente

Consideremos 12 amostras de sedimento de corrente, com o seguinte teor de cobre, em partes por milhão (ppm):

18, 22, 15, 19, 24, 20, 17, 85, 21, 16, 23, 19

Passo 1, média (fundo):

$$\bar{x} = \frac{18+22+15+19+24+20+17+85+21+16+23+19}{12} = 24{,}92 \text{ ppm}$$

Passo 2, desvio-padrão (amostral, com $n-1$ no denominador):

$$s = 19{,}12 \text{ ppm}$$

Passo 3, limiar:

$$\text{limiar} = \bar{x} + 2s = 24{,}917 + 2 \times 19{,}119 = 63{,}155 \approx 63{,}2 \text{ ppm}$$

(Nas contas intermédias guardam-se três casas decimais e só se arredonda o resultado final; se se arredondassem primeiro os operandos a duas casas, 24,92 + 2 × 19,12 daria 63,16, e não 63,15.)

Passo 4, comparar cada valor com o limiar: de todos os valores do conjunto, só 85 ppm está acima de 63,2 ppm (85 > 63,2).

Conclusão: 1 em 12 amostras é anómala. Esse ponto marca-se no mapa como alvo prioritário para a fase seguinte, a geofísica.

Elementos-guia (pathfinder elements)

Nem sempre se procura diretamente o elemento de maior valor económico. Muitas vezes é mais eficaz procurar um elemento-guia (pathfinder): um elemento associado à mesma mineralização, mas que se dispersa de forma mais ampla ou mais facilmente detetável no solo, no sedimento ou na água. Um halo de dispersão de um elemento-guia pode ser maior e mais fácil de amostrar do que o halo do próprio elemento económico, funcionando como um "sinal de aviso" que aponta para a zona a investigar em mais detalhe.

Nota sobre a robustez do cálculo

Se recalcularmos a média e o desvio-padrão sem o valor anómalo de 85 ppm, obtemos uma média de 19,45 ppm e um desvio-padrão de 2,88 ppm, o que dá um novo limiar de apenas 25,21 ppm. Isto mostra como um único valor extremo distorce fortemente a estatística de um conjunto pequeno: em campanhas reais, é prática comum recalcular o fundo depois de retirar os valores já identificados como anómalos, para obter um retrato mais fiel do fundo geológico "limpo" da área. Com o limiar "limpo" de 25,21 ppm, nenhum dos outros onze valores passa a anómalo (o maior é 24 ppm), o que confirma que o 85 ppm é um valor isolado e não a ponta de uma população maior.

Dados geoquímicos são tipicamente lognormais

A regra "média + 2 desvios-padrão" foi pensada para dados com distribuição normal (a curva em sino, simétrica). Os teores de elementos vestigiais em solos, sedimentos e rochas raramente são normais: a maior parte das amostras tem teores baixos e parecidos, e umas poucas têm teores muito mais altos. O histograma fica assimétrico, com uma "cauda" longa para a direita. Em muitos conjuntos, é o logaritmo dos teores que se aproxima de uma distribuição normal: diz-se que os dados são lognormais.

Por isso, na prática corrente, o tratamento estatístico faz-se sobre os logaritmos dos teores:

  1. Calcular $y = \log_{10}(\text{teor})$ para cada amostra.
  2. Calcular a média $\bar{y}$ e o desvio-padrão amostral $s_y$ dos logaritmos.
  3. Limiar em logaritmos: $\bar{y} + 2 s_y$.
  4. Voltar à unidade original: limiar $= 10^{\,\bar{y} + 2 s_y}$ ppm. O fundo correspondente, $10^{\bar{y}}$, é a média geométrica.

Sinais de que os dados devem ser tratados em logaritmos: a média é bem maior do que a mediana; o histograma dos teores é muito assimétrico e o dos logaritmos fica mais próximo de um sino; o desvio-padrão é da mesma ordem de grandeza da média.

Exemplo resolvido · O mesmo cobre, tratado em logaritmos

Com os mesmos 12 teores de cobre do exemplo anterior (mediana 19,5 ppm, bem abaixo da média de 24,92 ppm: primeiro sinal de assimetria):

Passo 1, logaritmos (arredondados a três casas só para leitura): 1,255; 1,342; 1,176; 1,279; 1,380; 1,301; 1,230; 1,929; 1,322; 1,204; 1,362; 1,279.

Passo 2, média e desvio-padrão amostral dos logaritmos: $\bar{y} = 1{,}3384$; $s_y = 0{,}1962$.

Passo 3, limiar em logaritmos:

$$\bar{y} + 2 s_y = 1{,}3384 + 2 \times 0{,}1962 = 1{,}7308$$

Passo 4, voltar a ppm:

$$\text{limiar} = 10^{1{,}7308} \approx 53{,}8 \text{ ppm} \qquad \text{fundo (média geométrica)} = 10^{1{,}3384} \approx 21{,}8 \text{ ppm}$$

Passo 5, classificar: só 85 ppm está acima do limiar (log 1,929 > 1,7308). A conclusão é a mesma, mas o limiar desceu de 63,2 para 53,8 ppm: um teor de, por exemplo, 58 ppm, comparado com estes dois limiares, seria anómalo pelo método em logaritmos e passaria despercebido pelo método aritmético. Em conjuntos grandes e assimétricos, a diferença entre os dois métodos pode mudar a lista de alvos.

Nota: o limiar estatístico é um ponto de partida, não uma verdade. Um geólogo experiente confirma-o olhando para o histograma e para o mapa: anomalias que formam grupos coerentes, alinhados com estruturas ou litologias, valem mais do que um valor isolado, mesmo que este seja mais alto.

Do limiar ao mapa de anomalias

Nos mapas de resultados geoquímicos, cada ponto costuma representar-se com um símbolo cujo tamanho ou cor depende da classe de teor. Uma classificação simples, coerente com o que ficou dito:

Classe Critério (em logaritmos) Leitura
Fundo até $\bar{y} + s_y$ normalidade da área
Possivelmente anómalo (sub-anomalia) entre $\bar{y} + s_y$ e $\bar{y} + 2s_y$ orla do halo; merece atenção se formar grupo
Anómalo acima de $\bar{y} + 2s_y$ alvo a confirmar

Também é comum usar percentis (por exemplo, os 5 % de valores mais altos numa classe à parte) em vez do desvio-padrão; qualquer que seja a regra, tem de ser a mesma para todo o mapa e estar escrita na legenda. O capítulo 16 interpreta um mapa de solos completo com esta classificação.

10. Planeamento da malha geofísica

Analisar locais para medição de parâmetros geofísicos

Tal como na geoquímica, a geofísica começa por escolher onde medir, não por ligar o equipamento ao acaso pelo terreno:

Espaçamento de linhas e de estações

O espaçamento da malha geofísica tem de ser mais apertado do que o alvo que se quer detetar: se a malha for larga demais, o levantamento pode "saltar" completamente por cima de um alvo pequeno. Regra prática conservadora: o espaçamento entre linhas deve ser, no máximo, cerca de metade da dimensão do alvo medida no sentido em que as linhas se sucedem (num alvo aproximadamente redondo, metade da sua menor dimensão), para garantir pelo menos duas linhas a atravessá-lo. A mesma lógica vale para as estações ao longo de cada linha: no máximo metade da largura do alvo que a linha atravessa.

Outras regras de desenho que se aplicam tanto à malha geofísica como à malha geoquímica de detalhe:

Exemplo resolvido · Escolher o espaçamento a partir do alvo

A geologia prevê um filão mineralizado com cerca de 40 m de largura aflorante e pelo menos 300 m de extensão, com direção N-S.

A lição do exemplo: a "menor dimensão do alvo" que controla cada espaçamento é a que é atravessada nessa direção. Numa estrutura alongada, é a largura que controla as estações e o comprimento que controla as linhas.

Exemplo resolvido · calcular o número de estações de uma malha

Uma área de prospeção mede 800 m por 600 m. Planeia-se uma malha com 50 m de espaçamento entre linhas e 25 m de espaçamento entre estações ao longo de cada linha.

Passo 1, número de linhas:

$$n_{\text{linhas}} = \frac{800}{50} + 1 = 17 \text{ linhas}$$

Passo 2, número de estações por linha:

$$n_{\text{estações/linha}} = \frac{600}{25} + 1 = 25 \text{ estações}$$

Passo 3, total de estações da malha:

$$n_{\text{total}} = 17 \times 25 = 425 \text{ estações}$$

O "+1" em cada uma das contas é essencial: sem ele, contam-se apenas os intervalos entre linhas ou entre estações, e não as próprias linhas ou estações, incluindo sempre a primeira. Esquecer este "+1" é um erro comum que subestima o número real de pontos a medir e, por isso, o tempo e o custo real de uma campanha.

11. Magnetometria

Medições magnetométricas

A magnetometria mede o campo magnético terrestre (normalmente a sua intensidade total) e as pequenas variações locais desse campo, causadas por rochas e minerais com diferente susceptibilidade magnética (e, nalguns casos, com magnetização remanescente).

Exemplo resolvido · correção da variação diurna

O campo magnético terrestre varia naturalmente ao longo do dia, num fenómeno chamado variação diurna. Para se poder comparar leituras feitas a horas diferentes do mesmo dia, é preciso corrigir essa variação.

A regra é fixa: a correção diurna subtrai a variação registada na estação base, em relação ao seu valor de referência, à leitura bruta feita no terreno.

$$\text{corrigida} = \text{bruta} - (\text{base no momento} - \text{base de referência})$$

Dados do exemplo:

Passo 1, variação diurna:

$$49\,845 - 49\,820 = +25 \text{ nT}$$

Passo 2, leitura corrigida:

$$49\,900 - 25 = 49\,875 \text{ nT}$$

O valor 49 875 nT é o que entra no mapa magnético final, já comparável com leituras feitas a outras horas do mesmo levantamento. A mesma fórmula aplica-se sempre, mesmo quando a base do momento é inferior à base de referência: nesse caso, a variação diurna é negativa, e subtrair um número negativo equivale a somá-lo, elevando ligeiramente a leitura corrigida.

Procedimento de um levantamento magnetométrico

  1. Instalar a estação base num local magneticamente "calmo" (longe de estradas, vedações, linhas elétricas e da própria malha), com o relógio sincronizado com o do magnetómetro de campo. Os dois relógios desfasados estragam a correção diurna.
  2. Fazer uma leitura de controlo num ponto fixo no início e no fim do dia (e, se possível, a meio): se o valor corrigido desse ponto mudar muito, há problema de equipamento ou de procedimento.
  3. Percorrer as linhas com o sensor sempre à mesma altura e com a mesma orientação do operador em relação ao norte, para evitar o chamado erro de rumo (heading), e ler cada estação com a hora registada.
  4. Anotar no registo todas as fontes de ruído encontradas: vedação a 10 m, poste, tubo enterrado, veículo, sucata. Uma anomalia junto de uma nota destas é, até prova em contrário, ruído cultural.
  5. Suspender as leituras durante uma tempestade magnética (variações rápidas e fortes na estação base): a correção diurna deixa de ser fiável.

Como se lê uma anomalia magnética

Nas latitudes médias do hemisfério norte, como em Portugal, um corpo magnetizado pelo campo atual não dá um simples "monte" no mapa: dá uma anomalia dipolar, com um máximo deslocado para sul do corpo e um mínimo mais fraco do lado norte. O corpo fica, aproximadamente, por baixo da zona entre os dois, mais perto do máximo. Ler só o máximo e pôr a sondagem em cima dele é um erro de interpretação comum.

Outras leituras úteis:

12. Gravimetria

A gravimetria mede variações muito pequenas do campo gravítico terrestre, causadas por diferenças de densidade das rochas em profundidade.

A gravimetria é um método mais lento por estação do que a magnetometria e exige correções mais elaboradas e altitudes muito rigorosas. Em prospeção tática usa-se sobretudo para testar se uma zona já assinalada por outros métodos tem um excesso de massa compatível com um corpo denso, como um sulfureto maciço.

Procedimento: circuitos com regresso à base

O gravímetro de prospeção mede diferenças de gravidade em relação a uma estação base, e a sua leitura "desliza" lentamente ao longo do dia (deriva). Por isso trabalha-se em circuitos: começa-se na base, lê-se uma série de estações e regressa-se à base dentro de poucas horas. A diferença entre as duas leituras da base mede a deriva (somada ao efeito da maré, se esta não for corrigida à parte), que se reparte linearmente no tempo pelas estações do circuito.

Cuidados de campo: nivelar o instrumento com cuidado em cada estação; protegê-lo do sol e do vento; transportá-lo sem choques (um choque pode causar um salto na leitura, detetável porque o circuito não fecha); registar a hora de cada leitura; levantar a altitude de cada estação com rigor.

Exemplo resolvido · Correção de deriva

Leituras de um circuito (em mGal, depois de convertidas as unidades do instrumento):

Estação Hora Leitura (mGal)
Base 08:00 1523,40
G1 10:00 1524,10
Base 12:00 1523,64

Passo 1, deriva do circuito: 1523,64 − 1523,40 = +0,24 mGal em 4 horas, ou seja, 0,24 / 4 = 0,06 mGal/h.

Passo 2, deriva acumulada em G1 (2 h depois da primeira leitura da base): 0,06 × 2 = 0,12 mGal.

Passo 3, leitura corrigida de G1: 1524,10 − 0,12 = 1523,98 mGal.

Passo 4, diferença em relação à base: 1523,98 − 1523,40 = +0,58 mGal.

Tal como na correção diurna da magnetometria, a deriva subtrai-se com o sinal que tiver: se a base tivesse descido ao longo do dia, a deriva seria negativa e a correção faria subir as leituras.

Exemplo resolvido · Que precisão de altitude é precisa?

O campo gravítico diminui com a altitude a um ritmo de 0,3086 mGal por metro (gradiente de ar livre). A camada de rocha por baixo da estação compensa parte disso: a correção de Bouguer vale 0,04193 × ρ mGal por metro, com ρ em g/cm³. Para a densidade de referência habitual de 2,67 g/cm³:

$$0{,}04193 \times 2{,}67 \approx 0{,}1120 \text{ mGal/m}$$

$$\text{efeito combinado} \approx 0{,}3086 - 0{,}1120 = 0{,}1966 \text{ mGal/m} \approx 0{,}2 \text{ mGal por metro}$$

Se o levantamento procura anomalias de poucas décimas de mGal e se quer que o erro de altitude não pese mais de 0,05 mGal por estação:

$$\Delta h \le \frac{0{,}05}{0{,}1966} \approx 0{,}25 \text{ m}$$

Conclusão prática: a altitude de cada estação tem de ser conhecida a cerca de um quarto de metro, o que um GNSS portátil de navegação (precisão de alguns metros) não garante. Na gravimetria de detalhe, as estações levantam-se com GNSS RTK ou nivelamento topográfico. Um erro de 3 m na altitude produziria, sozinho, um erro de cerca de 0,6 mGal, maior do que muitas das anomalias procuradas.

13. Métodos elétricos e eletromagnéticos

Métodos elétricos: resistividade e polarização induzida

Os métodos elétricos injetam ou medem corrente elétrica no solo, através de elétrodos cravados no terreno, para caracterizar a sua resistividade.

Unidades. A resistividade exprime-se em ohm·metro (Ω·m). Como o subsolo não é homogéneo, o valor calculado a partir de uma medição chama-se resistividade aparente (ρa): é a resistividade que teria um terreno homogéneo que desse a mesma leitura. A cargabilidade (IP no domínio do tempo) exprime-se em mV/V (milivolts de tensão residual por volt de tensão primária) ou em milissegundos (ms), conforme o instrumento integre a curva de descarga; no domínio da frequência usa-se o efeito de frequência percentual (%) ou a fase (em mrad). Numa campanha, usa-se sempre a mesma unidade e o mesmo instrumento para todo o mapa.

Exemplo resolvido · Resistividade aparente com o arranjo de Wenner

No arranjo de Wenner, os quatro elétrodos ficam em linha, igualmente espaçados de uma distância a: os dois exteriores injetam a corrente I, os dois interiores medem a diferença de potencial ΔV. A resistividade aparente é:

$$\rho_a = 2\pi a \frac{\Delta V}{I}$$

Dados: a = 20 m, I = 0,5 A (500 mA), ΔV = 0,40 V.

$$\rho_a = 2\pi \times 20 \times \frac{0{,}40}{0{,}5} = 2\pi \times 20 \times 0{,}8 \approx 100{,}5 \ \Omega\cdot\text{m}$$

Erros típicos: esquecer de converter os miliamperes em amperes (usar I = 500 dá um valor mil vezes menor) e trocar ΔV com I na fração.

Segurança nos métodos elétricos

Os transmissores de resistividade e de IP injetam no terreno correntes com tensões elevadas, que podem ser perigosas. Regras mínimas:

Anomalias de IP que não são minério

A IP responde a grãos condutores disseminados, mas não distingue sozinha que grãos são. Fontes conhecidas de anomalias de IP "falsas", do ponto de vista económico:

Por isso a anomalia de IP cruza-se sempre com a geologia (há xistos grafitosos no mapa?) e com a geoquímica (há cobre, zinco ou ouro no solo por cima?). O capítulo 16 trabalha este cruzamento.

Métodos eletromagnéticos

Os métodos eletromagnéticos (EM) induzem correntes no subsolo através de um campo eletromagnético variável, sem necessidade de cravar elétrodos no terreno:

Os métodos elétricos e os eletromagnéticos complementam-se: uns caracterizam a resistividade geral do meio, outros detetam diretamente condutores discretos no subsolo.

14. Sísmica

A sísmica usa ondas mecânicas, geradas artificialmente por impacto ou por fonte controlada, para estudar a geometria das camadas em profundidade.

Procedimento de um perfil de refração

  1. Estender o cabo e cravar os geofones em linha reta, com espaçamento regular, bem enterrados e na vertical (um geofone mal cravado regista ruído).
  2. Disparar a fonte em várias posições: nas duas extremidades do perfil (tiro direto e tiro inverso) e, se possível, a meio e fora do perfil. Os tiros nos dois sentidos permitem perceber se a camada inferior é inclinada.
  3. Somar vários impactos (empilhamento) em cada posição para melhorar a relação sinal/ruído, sobretudo com vento, trânsito ou máquinas perto.
  4. Registar a posição de cada geofone e de cada tiro, e a topografia do perfil.
  5. Ler em gabinete os primeiros tempos de chegada e construir o gráfico tempo-distância (dromocrónica).

Exemplo resolvido · Espessura da cobertura por refração

No gráfico tempo-distância de um perfil, os primeiros pontos alinham-se numa reta com velocidade V1 = 600 m/s (cobertura alterada) e os mais afastados numa reta com velocidade V2 = 3000 m/s (rocha sã). Prolongando a segunda reta até à distância zero, obtém-se o tempo de interseção ti = 20 ms = 0,020 s. Para duas camadas horizontais, a espessura da primeira é:

$$h = \frac{t_i}{2} \cdot \frac{V_1 V_2}{\sqrt{V_2^2 - V_1^2}}$$

$$h = \frac{0{,}020}{2} \times \frac{600 \times 3000}{\sqrt{3000^2 - 600^2}} = 0{,}010 \times \frac{1\,800\,000}{2939{,}4} \approx 6{,}1 \text{ m}$$

Leitura prática: uma trincheira para chegar à rocha sã nesse ponto teria de ultrapassar cerca de 6 m de cobertura, o que pode justificar, em vez dela, uma sondagem curta. Erro típico: esquecer de passar os milissegundos a segundos (usar 20 em vez de 0,020 dá 1000 vezes mais).

Nota: radiometria (espectrometria gama)

Fora da lista de métodos do referencial, mas comum em campanhas táticas, a radiometria mede a radiação gama natural emitida pelo potássio (K), pelo urânio (U) e pelo tório (Th) das rochas e solos. Um cintilómetro dá a contagem total, em contagens por segundo (cps); um espectrómetro gama separa os três elementos e exprime-os como K em % e U e Th equivalentes em ppm (eU, eTh). Usa-se para cartografar litologias (granitos ricos em K e Th, por exemplo), zonas de alteração potássica e, naturalmente, mineralizações de urânio. Tal como na magnetometria, exige uma estação de controlo e o registo das condições (a humidade do solo e a chuva recente fazem variar as contagens).

Quadro-resumo dos métodos geofísicos

Antes de planear uma campanha geofísica, vale a pena olhar para os cinco métodos vistos nesta UC lado a lado: cada um responde a um contraste físico diferente, e a escolha do método certo depende sempre do que se espera encontrar.

Método O que se mede (propriedade que gera o contraste) Unidade Alvo típico Custo/velocidade por estação
Magnetometria campo magnético total (contraste de susceptibilidade magnética) nT corpos com magnetite ou pirrotite; falhas, diques rápido e barato
Gravimetria campo gravítico (contraste de densidade) mGal corpos densos (sulfuretos maciços) lento; exige altitude rigorosa
Resistividade resistividade elétrica aparente Ω·m zonas condutoras, fraturas com água, contactos moderado
Polarização induzida (IP) cargabilidade mV/V ou ms (domínio do tempo) sulfuretos disseminados moderado
Eletromagnéticos resposta de condutores ao campo induzido (condutividade) % ou ppm do campo primário, ou tensão normalizada condutores maciços (sulfuretos maciços, grafite) rápido com instrumentos portáteis; mais lento com espiras grandes
Sísmica (refração) velocidade de propagação das ondas m/s espessura da cobertura, rocha sã, zonas de falha moderado a lento
Radiometria (nota) radiação gama natural cps; K %, eU e eTh ppm litologias, alteração potássica, urânio rápido

Numa campanha real, raramente se usa um único método isolado: a combinação de dois ou três métodos, com contrastes físicos diferentes, dá muito mais confiança na interpretação final do que qualquer método sozinho.

15. Equipamento, EPI e atitudes profissionais

Manuseamento do equipamento de prospeção geofísica

O manuseamento correto do equipamento é uma aptidão transversal a todos os métodos geofísicos vistos nesta UC:

Equipamentos de proteção individual e normas de segurança e saúde no trabalho

Os EPI e as normas de segurança e saúde no trabalho aplicam-se em qualquer saída de campo, independentemente do método técnico em uso: botas, capacete junto de taludes ou frentes, óculos ao partir rocha, trabalho em pares, comunicação disponível e plano de dia partilhado com a base.

Atitudes profissionais

O referencial da UC valoriza tanto as atitudes como as técnicas: responsabilidade pelas próprias ações, autonomia no âmbito das funções, rigor no registo de dados e no manuseamento do equipamento, respeito pelos princípios da sustentabilidade (recuperação do terreno, sem abandono de resíduos), conduta profissional, sentido crítico e sentido analítico na leitura dos resultados, sentido de organização e respeito pelas regras e normas definidas.

Em Portugal, a atividade de prospeção e pesquisa de recursos geológicos exige direitos atribuídos por contrato, ao abrigo da Lei n.º 54/2015 (bases do regime jurídico dos recursos geológicos) e do Decreto-Lei n.º 30/2021, que a regulamenta para os depósitos minerais. A entidade responsável pela tutela do setor é a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG). Nenhuma campanha de campo se inicia sem que estes direitos estejam formalmente atribuídos à empresa promotora.

16. Interpretar mapas de anomalias: casos resolvidos

Medir bem é metade do trabalho; a outra metade é ler os resultados. Os casos seguintes usam dados construídos para o ensino, mas com o comportamento que se encontra em campanhas reais. Em todos, a pergunta final é a mesma: onde está a fonte provável, e o que se faz a seguir?

Caso 1 · Mapa de cobre em solos numa encosta

Malha de solos com linhas E-W a 50 m (de 0N a 200N) e estações a 25 m (de 0E a 150E), 35 amostras de horizonte B. O terreno desce para sul (a linha 200N é a mais alta). Teores de cobre em ppm:

Linha 0E 25E 50E 75E 100E 125E 150E
200N 18 21 19 24 22 20 17
150N 20 23 31 48 27 21 19
100N 22 29 64 112 41 24 20
50N 19 26 47 86 58 30 21
0N 17 21 27 44 39 26 18

Passo 1, olhar para a distribuição. Mediana = 24 ppm; média aritmética = 32,0 ppm; desvio-padrão = 20,7 ppm. A média é bem maior do que a mediana e o desvio-padrão é da ordem de grandeza da média: dados assimétricos, trabalha-se em logaritmos.

Passo 2, estatística em logaritmos (log₁₀ dos 35 teores): $\bar{y} = 1{,}4481$; $s_y = 0{,}2061$.

Passo 3, classificar (regra "> limiar", como em toda a UC):

Passo 4, ler a forma. As anomalias e sub-anomalias formam um grupo coerente, centrado na coluna 75E, com o máximo em 100N e uma "cauda" que se prolonga e alarga para sul, isto é, pela encosta abaixo. A norte do máximo, o teor cai depressa (48 ppm em 150N, fundo em 200N); a sul, cai devagar (86, depois 44).

Passo 5, interpretar. Um halo secundário em encosta desloca-se para jusante por rastejo e escorrência (capítulo 4). A forma assimétrica, abrupta a montante e arrastada a jusante, é a de uma fonte a montante do máximo: a mineralização deve procurar-se entre 100N e 150N, à volta de 75E, e não no meio da cauda em 50N ou 0N. Se a cauda seguisse uma direção que não a do declive (por exemplo, NE-SW, com o terreno plano), a leitura seria outra: um alinhamento estrutural, como um filão.

Passo 6, o que se faz a seguir. Adensar a amostragem de solos entre 100N e 175N (linhas a 25 m); correr perfis geofísicos E-W sobre essa zona, com IP e magnetometria, prolongados para lá de 0E e de 150E para terminar em fundo; e confirmar o 112 ppm com um duplicado de campo antes de gastar dinheiro em trincheiras.

Caso 2 · Perfil magnético sobre um corpo magnetizado

Perfil S-N com estações a 20 m, valores já corrigidos da variação diurna e com o campo regional descontado (anomalia em nT):

Distância (m, de S para N) 0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200
Anomalia (nT) +2 +5 +18 +62 +120 +75 +10 −35 −22 −8 −3

Leitura:

  1. O perfil começa e acaba em valores próximos de zero: as extremidades estão em fundo, como deve ser.
  2. Há um máximo de +120 nT aos 80 m e um mínimo de −35 nT aos 140 m, do lado norte do máximo.
  3. Este par máximo a sul, mínimo a norte, é a assinatura dipolar esperada, em Portugal, de um corpo magnetizado pelo campo atual (capítulo 11). O corpo está, aproximadamente, sob a zona entre os dois extremos, mais perto do máximo: algures entre os 80 e os 110 m.
  4. A anomalia sobe e desce em poucas estações (de +18 para +120 nT em 40 m): a fonte é relativamente pouco profunda.

Decisão: não se marca uma sondagem "em cima do pico" dos 80 m. Primeiro, repetem-se perfis paralelos, a norte e a sul deste, para ver se o corpo é alongado (e em que direção); medem-se susceptibilidades em afloramentos próximos para saber que rocha é magnética; e verifica-se na ficha de campo se não há uma vedação ou tubo enterrado perto dos 80 m. Uma anomalia magnética diz que há magnetite ou pirrotite, não que há metal com valor: o cruzamento com a geoquímica decide.

Caso 3 · Cruzar métodos para decidir entre quatro alvos

Numa área com sequência vulcano-sedimentar, quatro zonas deram os seguintes resultados:

Zona Cu em solo IP (cargabilidade) Resistividade Condutor EM Gravimetria Magnetometria Geologia no local
A anómalo alta baixa fraco ou ausente sem anomalia fundo vulcânicas alteradas
B fundo muito alta muito baixa forte sem anomalia fundo xistos negros
C anómalo (um ponto) fundo normal ausente sem anomalia fundo berma de estrada
D sub-anómalo alta baixa forte excesso de massa anomalia moderada vulcânicas, sob cobertura

Interpretação zona a zona:

A lição: a zona com o maior valor de cobre no solo (C) é a menos interessante, e a zona com cobre apenas sub-anómalo (D) é a melhor. Nenhum método, sozinho, teria chegado a esta ordem.

Caso 4 · Profundidade de um corpo denso pela gravimetria

Depois de descontado o campo regional, um perfil gravimétrico sobre a zona D do caso anterior mostra uma anomalia residual em forma de sino, simétrica, com máximo de +0,80 mGal. A anomalia cai para metade do máximo (+0,40 mGal) a 60 m de cada lado do pico.

Para uma primeira estimativa, aproxima-se o corpo por uma esfera. Para uma esfera, a profundidade do centro relaciona-se com a meia-largura a meia-altura, $x_{1/2}$, por:

$$z \approx 1{,}3 \times x_{1/2} = 1{,}3 \times 60 \approx 78 \text{ m}$$

Leitura: o centro de massa do corpo denso estará perto dos 80 m de profundidade; o topo, mais acima. É uma ordem de grandeza para planear a sondagem (que tem de passar bem abaixo dos 80 m), não uma medição exata: se o corpo for alongado, achatado ou inclinado, a estimativa muda. Regra que se generaliza: anomalias mais largas indicam fontes mais profundas, em gravimetria como em magnetometria.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Uma campanha de prospeção tática segue sempre a mesma ordem: preparar o trabalho e a segurança de campo, ler o terreno (geomorfologia, meteorização), selecionar locais e recolher amostras geoquímicas (rocha, solo, sedimentos, concentrados de bateia) com rigor e QA/QC, tratar estatisticamente os resultados (fundo, limiar, anomalia, de preferência em logaritmos, porque os dados geoquímicos são tipicamente lognormais), selecionar locais e planear a malha geofísica, e medir parâmetros geofísicos (magnéticos, com correção diurna; gravimétricos; elétricos e eletromagnéticos; sísmicos) para confirmar ou descartar os alvos. Na leitura dos mapas, a forma conta tanto como o valor: um halo de solo escorrega pela encosta abaixo, um corpo magnético dá um par máximo-mínimo, e uma anomalia larga indica uma fonte funda. Nenhum dado isolado decide sozinho: é o cruzamento de geoquímica e geofísica, sempre com rigor, autonomia e respeito pelas normas de segurança, que aponta o alvo final para a fase de sondagem.

Exercícios resolvidos

1. Uma equipa quer amostrar sedimento de corrente numa bacia com uma povoação a montante. Onde deve, e onde não deve, colocar o ponto de amostragem?

Resolução: deve amostrar antes (a montante) da entrada de esgotos ou escoamento da povoação na linha de água, ou então numa linha de água afluente que não passe pela povoação. Nunca deve amostrar imediatamente a jusante da povoação, porque o material transportado (lixo, esgoto, material de obras) contamina o resultado geoquímico e mascara o sinal geológico natural.

2. Calcula o limiar de uma campanha geoquímica com média de 30 ppm e desvio-padrão de 8 ppm. Uma amostra com 44 ppm é anómala?

Resolução: limiar = média + 2 × desvio-padrão = 30 + 2 × 8 = 46 ppm. Como 44 ppm é inferior a 46 ppm, esta amostra não é considerada anómala, apesar de estar acima da média.

3. Numa correção diurna, a base de referência do início do dia marcou 51 200 nT e, no momento da leitura de campo, a base voltou a marcar 51 180 nT. A leitura bruta no terreno foi de 51 250 nT. Qual é a leitura corrigida?

Resolução: variação diurna = 51 180 − 51 200 = −20 nT. Leitura corrigida = bruta − variação = 51 250 − (−20) = 51 250 + 20 = 51 270 nT. Quando a base do momento é inferior à de referência, a variação é negativa, e a correção acaba por somar, em vez de subtrair, ao valor bruto.

4. Uma área de 400 m por 300 m vai ser levantada com uma malha de 40 m entre linhas e 20 m entre estações. Quantas estações tem a malha?

Resolução: número de linhas = 400/40 + 1 = 11; estações por linha = 300/20 + 1 = 16; total = 11 × 16 = 176 estações.

5. Que método geofísico escolherias para procurar sulfuretos disseminados numa zona onde a resistividade sozinha não mostra um contraste claro? Porquê?

Resolução: a polarização induzida (IP), porque mede a capacidade de a rocha reter, por breves instantes, uma pequena carga elétrica, um efeito muitas vezes visível em sulfuretos disseminados mesmo quando a resistividade não distingue bem esses corpos da rocha encaixante.

6. Um colega afirma "se me perder no terreno, sigo sempre a linha de água até encontrar uma estrada". Porque está a dar um mau conselho?

Resolução: seguir a linha de água a jusante como regra fixa é perigoso, porque leva frequentemente a ravinas, taludes íngremes e cascatas, sendo uma causa reconhecida de acidentes de campo. O procedimento correto em caso de desorientação é parar, tentar reorientar-se com carta, bússola e GNSS, e só depois considerar deslocar-se; se isso não resultar, ficar num local visível e pedir ajuda.

7. No campo, um fragmento de rocha efervesce ao contacto com uma gota de HCl diluído, risca-se facilmente com o canivete, mas não com a unha. Que tipo de mineral é provável e que cuidado se deve ter ao interpretar só este teste?

Resolução: a efervescência com HCl diluído é o teste clássico para carbonatos (como a calcite), que libertam CO₂ em contacto com o ácido; riscar-se com o canivete (≈ 5,5) mas não com a unha indica dureza intermédia, compatível com a calcite (dureza 3 na escala de Mohs). O cuidado a ter é não tirar conclusões definitivas de um único teste de campo: a identificação completa da rocha exige cruzar vários critérios (cor, textura, dureza, risca, magnetismo, densidade) e, sempre que possível, confirmação em laboratório.

8. Uma equipa recebe autorização de prospeção e pesquisa e prepara-se para a primeira saída de campo. Além do equipamento técnico, que dois documentos ou registos têm de existir antes de qualquer amostra ser recolhida?

Resolução: primeiro, a confirmação de que a empresa tem direitos de prospeção e pesquisa atribuídos por contrato para aquela área, ao abrigo da Lei n.º 54/2015 e do Decreto-Lei n.º 30/2021; segundo, a autorização dos proprietários dos terrenos concretos onde se vai amostrar. Sem estes dois níveis de autorização, formal e local, nenhuma amostra deve ser recolhida.

9. Doze sedimentos de corrente deram, em ppm de arsénio: 12, 14, 11, 13, 15, 12, 58, 14, 13, 16, 12, 15. A média dos logaritmos é 1,1766 e o desvio-padrão amostral dos logaritmos é 0,1911. Calcula o limiar em logaritmos, converte-o em ppm e classifica as amostras.

Resolução: limiar em logaritmos = 1,1766 + 2 × 0,1911 = 1,5588; em ppm, 10^1,5588 ≈ 36,2 ppm. Só 58 ppm está acima (58 > 36,2). O fundo, pela média geométrica, é 10^1,1766 ≈ 15,0 ppm, próximo da mediana (13,5 ppm) e bem abaixo da média aritmética (17,08 ppm), que o valor de 58 puxa para cima. Pelo método aritmético, o limiar seria 43,0 ppm: a conclusão é a mesma, mas o limiar em logaritmos é mais baixo e mais sensível.

10. Num arranjo de Wenner com a = 10 m, injetou-se I = 200 mA e mediu-se ΔV = 0,12 V. Qual é a resistividade aparente?

Resolução: passar a corrente a amperes: I = 0,2 A. ρa = 2π × a × ΔV / I = 2π × 10 × 0,12 / 0,2 = 2π × 10 × 0,6 ≈ 37,7 Ω·m. Valor baixo, típico de terreno húmido, argiloso ou com condutores; interpreta-se em conjunto com a IP e a geologia.

11. Um mapa de cobre em solos numa encosta mostra um máximo de 150 ppm e uma "cauda" de valores sub-anómalos que se prolonga 200 m pela encosta abaixo. Onde se deve concentrar a geofísica e porquê?

Resolução: na extremidade a montante da anomalia, à volta e um pouco acima do máximo, com perfis perpendiculares à direção provável da estrutura. O halo secundário desloca-se para jusante por rastejo e escorrência; a cauda pela encosta abaixo é material transportado, não a fonte.