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UC · Unidade de Competência · UC01851

Sebenta · Implementar técnicas de prospeção estratégica em recursos minerais (UC01851)

Objetivos de prospeção, priorização de alvos, esquemas geológicos, geoquímica e geofísica à escala regional
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Prospeção e Pesquisa de ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a preparar e conduzir um programa de prospeção estratégica de recursos minerais: a fase de reconhecimento à escala regional que reduz uma área alargada a um pequeno número de alvos justificados, prontos para a prospeção de detalhe (tática). É o trabalho típico de um gabinete de estudos de prospeção mineira e da correspondente área de prospeção no terreno.

A prospeção estratégica não procura confirmar um depósito, procura decidir onde vale a pena continuar a procurar. Trabalha com dados existentes (cartas, bibliografia), com deteção remota, com amostragem geoquímica de malha alargada e com geofísica regional, e termina numa lista de alvos priorizados por probabilidade de sucesso.

Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar o trabalho de campo por priorização de alvos; adaptar as metodologias e o equipamento aos objetivos do trabalho; e aplicar técnicas de prospeção estratégica em recursos minerais, incluindo esquemas geológicos, cartografia geológica, prospeção geoquímica, prospeção geofísica e o uso correto de equipamentos de proteção individual e normas de segurança e saúde no trabalho.

Nota sobre os exemplos numéricos desta sebenta: sempre que aparecem valores concretos (teores, pontuações, coordenadas), são exemplos hipotéticos, criados só para ensinar o método de cálculo ou de raciocínio. Nenhum se refere a uma concessão, jazigo ou reserva real.

1. Prospeção estratégica: o que é e para que serve

1.1 Definição e escala

A prospeção estratégica é a fase de reconhecimento de um programa de exploração mineira à escala regional: cobre áreas de dezenas a centenas de quilómetros quadrados, com o objetivo de identificar e comparar alvos candidatos a mineralização, antes de se investir em trabalho de detalhe.

Distingue-se claramente da prospeção tática, que trabalha um alvo já selecionado, à escala local, com geoquímica de detalhe, geofísica terrestre, trincheiras e sondagens. As duas fases são complementares e sequenciais:

Prospeção ESTRATÉGICA (regional)    seleção de alvos    Prospeção TÁTICA (local)
área alargada, dados existentes      lista priorizada       alvo único, detalhe

Esta UC trata da fase estratégica. A fase tática é objeto de outra unidade curricular do curso, e usa métodos de maior detalhe e maior custo por unidade de área, precisamente porque já incide sobre uma área muito mais pequena.

1.2 O funil da prospeção

Um programa de prospeção funciona como um funil: cada etapa reduz a área de interesse e aumenta a confiança nos alvos que sobram.

Etapa Área típica Densidade de dados Custo por km²
Compilação e deteção remota regional (bacia) baixa muito baixo
Geoquímica e geofísica regionais regional a sub-regional média baixo
Priorização de alvos vários alvos alta nos alvos moderado
Prospeção tática (fora desta UC) um alvo muito alta alto

Quanto mais avança o funil, menor a área e maior o detalhe. Investir cedo em detalhe excessivo, numa área que ainda não foi filtrada, desperdiça recursos: é por isso que a lógica estratégica vem sempre primeiro.

1.3 Quem faz este trabalho

O gabinete de estudos de prospeção mineira integra a compilação de dados, a interpretação de deteção remota e o planeamento das campanhas de campo. A área de prospeção mineira é onde esse planeamento se valida e se executa: recolha de amostras, observações geológicas, medições geofísicas. Os dois contextos trabalham em ciclo: o gabinete planeia, o campo valida e traz dados novos, o gabinete reinterpreta.

2. Objetivos da prospeção

2.1 Definir o objetivo antes de agir

Nenhum programa de prospeção começa "a ver o que aparece". Definem-se sempre, à partida, os objetivos de prospeção:

Um objetivo mal definido compromete tudo o resto: sem saber o que se procura, não se sabe que método escolher nem que dados interpretar como relevantes.

2.2 Modelos geológicos de referência

Cada tipo de mineralização segue, tipicamente, um modelo geológico: um conjunto reconhecido de características que costuma acompanhá-la (rochas hospedeiras, estruturas, tipo de alteração, assinatura geoquímica e geofísica esperável).

Trabalhar com um modelo de referência:

  1. Filtra a área de trabalho: só interessam as zonas compatíveis com o modelo.
  2. Orienta os métodos a usar: um modelo com forte assinatura magnética justifica magnetometria; um modelo hidrotermal com halos geoquímicos amplos justifica amostragem de solos.
  3. Dá critérios de comparação: quando se avaliam vários alvos, o modelo diz que indícios procurar em cada um.

O modelo é uma ferramenta de trabalho, não uma certeza. A geologia real raramente encaixa perfeitamente num modelo de manual, e o técnico deve estar disposto a rever o modelo à luz dos dados de campo, em vez de forçar os dados a encaixar numa ideia prévia.

2.3 Modelos geológicos com exemplos portugueses

Portugal tem vários tipos de mineralização bem estudados, que servem de modelos de referência para a prospeção estratégica. Os exemplos abaixo são reais; usam-se para aprender a assinatura de cada modelo, nunca para transpor números (teores, tonelagens) de um jazigo para outra área.

Modelo Contexto geológico Exemplos portugueses Assinatura geoquímica esperada Métodos estratégicos mais úteis
Sulfuretos maciços vulcanogénicos rochas vulcânicas e sedimentares da Faixa Piritosa Ibérica (Zona Sul-Portuguesa) Neves-Corvo (Cu, Zn), Aljustrel (Zn, Cu, Pb) Cu, Zn, Pb e elementos associados em solos e sedimentos; alteração hidrotermal nas rochas encaixantes gravimetria (corpos densos), eletromagnéticos e IP, cartografia do horizonte favorável
Filões de quartzo com W e Sn metassedimentos junto a granitos variscos (Zona Centro-Ibérica) Panasqueira (volframite, cassiterite, com calcopirite) W, Sn, As em sedimentos de corrente; volframite, cassiterite e scheelite nos concentrados de bateia geoquímica de sedimentos, bateia, deteção remota de estruturas, radiometria dos granitos
Pegmatitos com lítio campos de pegmatitos em metassedimentos, perto de granitos pegmatitos com espodumena da região do Barroso; pegmatitos com lepidolite noutros locais do norte e centro Li com Cs, Rb, Sn, Nb e Ta em solos e sedimentos cartografia de campo dos corpos, geoquímica de solos, deteção remota multiespectral
Ouro em filões de quartzo zonas de cisalhamento e fraturas em metassedimentos e granitos Jales e Castromil (antigas minas de ouro, encerradas) Au, frequentemente com As (arsenopirite) e Sb bateia (ouro livre), sedimentos de corrente, cartografia estrutural
Urânio granitos e filões associados Urgeiriça (antiga mina de urânio, encerrada; a recuperação ambiental das áreas mineiras degradadas está a cargo da EDM) U e elementos associados radiometria/espectrometria gama, aérea e terrestre

Três lições deste quadro:

  1. Cada modelo pede métodos diferentes. Um corpo de sulfuretos maciços é denso e condutor, por isso a gravimetria e os métodos elétricos e eletromagnéticos fazem sentido; um filão de quartzo com volframite não tem contraste de densidade útil à escala regional, e é a geoquímica de sedimentos e a bateia que o denunciam.
  2. A assinatura geoquímica raramente é só o metal procurado. Os elementos associados (As no ouro, Cs e Rb no lítio) formam halos mais largos e são, muitas vezes, mais fáceis de detetar do que o próprio metal.
  3. O modelo filtra a área. Procurar sulfuretos maciços do tipo da Faixa Piritosa num granito do norte não faz sentido geológico, por muito barata que seja a campanha.

2.4 Exemplo resolvido: do objetivo ao plano de trabalho

Situação (hipotética): um gabinete recebe o encargo de prospetar uma área de 40 km² para volframite (mineral de volfrâmio), associada tipicamente a filões de quartzo em contexto de granitos e metassedimentos.

Resolução passo a passo:

  1. Objetivo: volframite, em filões de quartzo.
  2. Modelo geológico: filões subverticais associados a granitos, com halo de alteração e possível assinatura geoquímica em W e Sn nos sedimentos de corrente a jusante.
  3. Escala: 40 km² é compatível com uma campanha de geoquímica de sedimentos de corrente de malha regional, seguida de cartografia estrutural dirigida às zonas anómalas.
  4. Métodos escolhidos: compilação da Carta Geológica existente da área, deteção remota para mapear alinhamentos estruturais, amostragem de sedimentos de corrente em toda a bacia, cartografia de campo dirigida às sub-bacias anómalas.
  5. Equipamento: GNSS, bússola de geólogo, martelo, sacos de amostra, fichas de campo.

Este raciocínio, do objetivo ao plano concreto, repete-se em qualquer programa de prospeção estratégica, mudando apenas a substância e o modelo geológico.

3. Critérios de campo e adequação do equipamento

3.1 O que são critérios de campo

Os critérios de campo são as regras práticas, escritas e conhecidas por toda a equipa, que definem o que observar, como medir e como registar no terreno. Garantem que dois técnicos, em dias ou locais diferentes, produzem dados comparáveis.

Um critério de campo típico especifica, por exemplo:

Um dos critérios de desempenho desta UC é precisamente garantir a aplicação dos critérios e o equipamento ao tipo de trabalho: não basta ter os critérios escritos, é preciso aplicá-los de forma consistente em cada saída de campo.

3.2 Adequar as metodologias e o equipamento aos objetivos

Cada objetivo de prospeção pede uma combinação diferente de métodos e de equipamento. Adaptar as metodologias e o equipamento aos objetivos do trabalho é uma das realizações explícitas do referencial desta UC.

Objetivo do trabalho Método(s) preferencial(is) Equipamento típico
Reconhecimento amplo de bacia hidrográfica deteção remota + geoquímica de sedimentos de corrente imagens de satélite, GNSS, sacos de amostra numerados
Alvo em sulfuretos maciços (contexto vulcânico) geofísica elétrica e eletromagnética equipamento geofísico terrestre
Alvo filoniano (Sn, W) associado a granitos cartografia estrutural de detalhe + geoquímica de solos bússola de geólogo, GNSS, fichas de campo
Concentrados pesados em drenagem ativa (Au) bateia em sedimentos de corrente bateia, peneiros, lupa de campo
Mapeamento litológico regional rápido radiometria/espectrometria gama aérea equipamento aerotransportado (contratado)

Esta tabela é um ponto de partida, não uma receita fechada. A combinação real depende do terreno concreto, do orçamento e dos prazos do programa.

3.3 Erro a evitar

Usar sempre o mesmo método "porque é o que a equipa sabe fazer", em vez de escolher o método adequado à pergunta geológica que se está a colocar, é um erro recorrente e caro: gera dados que não respondem à pergunta certa, e obriga a repetir trabalho mais tarde.

4. Priorização de alvos e probabilidades de sucesso

4.1 Trabalhar com incerteza

A prospeção estratégica lida sempre com incerteza: à partida, não se sabe onde está um depósito, nem se existe algum na área estudada. Por isso, cada alvo identificado é avaliado em termos de probabilidade de sucesso, nunca de certeza.

A probabilidade combina vários indícios, idealmente independentes entre si:

Quanto mais indícios independentes convergirem sobre o mesmo alvo, maior a confiança atribuída. Um único indício forte, isolado, nunca é prova suficiente.

4.2 Construir uma matriz de priorização

Com vários alvos identificados e um orçamento limitado para a fase seguinte, é preciso ordená-los por prioridade, de forma explícita e repetível, em vez de por intuição.

Exemplo hipotético e resolvido (valores ilustrativos, sem correspondência a nenhuma área real):

Uma campanha regional identificou três alvos, A, B e C. Cada indício foi classificado em fraco, moderado ou forte, e convertido numa pontuação de 1 a 3 para permitir somar:

Alvo Indício geológico Indício geoquímico Indício geofísico Pontuação total (máx. 9)
A forte (3) forte (3) moderado (2) 8
B moderado (2) forte (3) fraco (1) 6
C fraco (1) moderado (2) forte (3) 6

Interpretação: o alvo A tem a pontuação mais alta e a convergência mais consistente entre os três indícios: avança primeiro para a prospeção tática. B e C empatam na pontuação total, mas C tem um indício geofísico forte que pode justificar uma verificação geofísica adicional antes de decidir entre os dois.

Este método (converter observações qualitativas numa pontuação comparável) é o essencial da priorização de alvos: torna a decisão explícita e auditável, em vez de depender só da opinião de quem decide.

4.3 Exemplo resolvido: matriz ponderada para desempatar

Na matriz anterior, B e C empataram com 6 pontos. Quando a equipa entende que os indícios não valem todos o mesmo para o modelo em causa, usa pesos. Suponha-se (hipoteticamente) que, para o modelo procurado, a equipa decide dar peso 0,40 ao indício geológico, 0,35 ao geoquímico e 0,25 ao geofísico (os pesos somam 1,00 e são decididos antes de ver as pontuações, para não serem ajustados ao resultado desejado).

Resolução passo a passo: multiplica-se cada pontuação pelo peso do indício e somam-se as parcelas.

Alvo Geológico × 0,40 Geoquímico × 0,35 Geofísico × 0,25 Pontuação ponderada (máx. 3,00)
A 3 × 0,40 = 1,20 3 × 0,35 = 1,05 2 × 0,25 = 0,50 2,75
B 2 × 0,40 = 0,80 3 × 0,35 = 1,05 1 × 0,25 = 0,25 2,10
C 1 × 0,40 = 0,40 2 × 0,35 = 0,70 3 × 0,25 = 0,75 1,85

Leitura: A continua em primeiro lugar; com estes pesos, B passa à frente de C, porque o modelo valoriza mais a geologia e a geoquímica do que a geofísica. Se o modelo fosse de sulfuretos maciços, onde a resposta geofísica é muito diagnóstica, os pesos seriam outros e a ordem poderia inverter-se. A lição: os pesos vêm do modelo geológico, e têm de ficar escritos e justificados no relatório.

4.4 Probabilidade de sucesso como cadeia de condições

Outra forma de pensar a probabilidade de sucesso é como uma cadeia de condições que têm de se verificar todas ao mesmo tempo para existir um depósito: rocha hospedeira favorável, uma fonte de metais e fluidos, uma estrutura que os tenha canalizado, e a preservação do depósito (não ter sido erodido). Se cada condição tiver uma probabilidade estimada e as condições forem tratadas como independentes, a probabilidade conjunta é o produto das parcelas.

Exemplo hipotético: para um alvo, a equipa estima 0,8 para a rocha hospedeira favorável, 0,5 para a existência de fonte de fluidos mineralizantes e 0,7 para a preservação. Probabilidade conjunta = 0,8 × 0,5 × 0,7 = 0,28.

Duas conclusões práticas saem deste cálculo:

Estes números são estimativas de juízo técnico, não medições: servem para comparar alvos entre si e para decidir que dado recolher a seguir, nunca para prometer um resultado ao promotor.

4.5 Cuidados na priorização

5. Esquemas geológicos em corte e em planta

5.1 O esquema em planta

O esquema em planta representa a geologia vista de cima, à semelhança de um mapa: mostra a distribuição das unidades litológicas, os contactos entre elas, as estruturas (falhas, dobras, filões) e os pontos de observação, tudo projetado sobre uma base topográfica.

A planta é a primeira ferramenta de planeamento: mostra onde as diferentes formações afloram e onde se espera encontrar cada contacto no terreno.

5.2 O esquema em corte

O esquema em corte (corte geológico) representa a geologia numa secção vertical, ao longo de uma linha escolhida na planta, como se o terreno fosse cortado em profundidade.

Planta e corte são sempre complementares e devem ser lidos em conjunto: a planta responde a "onde", o corte responde a "até onde e com que geometria em profundidade". Um erro comum é assumir que uma camada mantém a mesma espessura e inclinação observadas à superfície ao longo de toda a profundidade representada; na realidade, dobras, falhas ou variações litológicas podem alterar essa geometria.

5.3 Exemplo resolvido: da atitude medida ao esboço de corte

Situação (hipotética): no campo, mediu-se num afloramento a atitude de um contacto litológico: direção N40°E, inclinação 30° para SE (notação comum: N40°E, 30° SE).

Resolução passo a passo:

  1. Marcar na planta o ponto de observação e o símbolo de atitude, com a direção e o sentido do mergulho corretos.
  2. Escolher a linha de corte: idealmente perpendicular à direção geral das estruturas, para que o corte mostre a inclinação real (e não uma inclinação "aparente", mais suave, que aparece quando o corte é oblíquo à direção verdadeira).
  3. Projetar o contacto no corte: a partir do ponto onde a linha de corte cruza o contacto na planta, desenhar a inclinação de 30° para o lado SE.
  4. Prolongar o traço em profundidade até onde os dados (ou a extensão razoável da interpretação) permitirem, assinalando sempre no esquema até que ponto é observação e até que ponto é interpretação.

Este exercício, repetido para cada estrutura relevante, é o que transforma medições de campo isoladas num esquema geológico coerente.

6. Tipos de prospeção estratégica de recursos minerais

6.1 As técnicas e a sua sequência

A prospeção estratégica combina várias técnicas complementares, cada uma a contribuir com uma perspetiva diferente sobre a mesma área:

  1. Compilação e revisão bibliográfica: reunir tudo o que já existe sobre a área, cartas geológicas publicadas, relatórios de trabalhos anteriores, estudos de caso de áreas geologicamente semelhantes.
  2. Definição do modelo geológico e da assinatura esperada (geoquímica, geofísica) do tipo de alvo procurado.
  3. Deteção remota: interpretação de imagens de satélite e fotografia aérea, para mapear litologias, alinhamentos estruturais e zonas de alteração hidrotermal visíveis à distância.
  4. Reconhecimento de campo: validação no terreno das interpretações feitas em gabinete.
  5. Prospeção geoquímica regional: amostragem de sedimentos de corrente e, quando justificado, de solos ou águas, numa malha alargada.
  6. Prospeção geofísica regional: campanhas aéreas ou terrestres de grande cobertura, quando o modelo geológico o justifica.
  7. Integração dos dados e priorização de alvos para a fase tática seguinte (fora do âmbito desta UC).

Esta sequência é iterativa, não estritamente linear: um resultado de geoquímica pode levar a rever a interpretação da deteção remota, ou uma anomalia geofísica pode justificar amostragem geoquímica adicional numa zona antes considerada de menor interesse.

6.2 Deteção remota como técnica estratégica

A deteção remota (imagens de satélite multiespectrais, fotografia aérea, modelos digitais de terreno, radar) permite mapear, sem sair do gabinete, características relevantes numa área muito maior do que seria viável percorrer inteiramente a pé:

A deteção remota orienta o trabalho de campo, não o substitui: qualquer interpretação feita a partir de imagens tem de ser validada no terreno antes de sustentar uma decisão de investimento.

6.2.1 O que cada zona do espetro revela

Cada mineral absorve a radiação em comprimentos de onda característicos. Um sensor que tenha bandas nessas zonas "vê" essas absorções.

Zona do espetro Comprimento de onda aproximado O que revela na prospeção
Visível (VIS) 0,4 a 0,7 µm cor das rochas e solos; óxidos e hidróxidos de ferro (hematite, goethite, jarosite) refletem pouco no azul e muito no vermelho
Infravermelho próximo (NIR) 0,7 a 1,3 µm vegetação (reflete muito); absorção dos óxidos de ferro perto de 0,9 µm
Infravermelho de onda curta (SWIR) 1,3 a 2,5 µm minerais com OH e carbonatos: argilas (caulinite), micas brancas (sericite, típica da alteração fílica), alunite, com absorção perto de 2,2 µm (ligação Al-OH); clorite, epídoto e carbonatos, perto de 2,3 a 2,35 µm
Infravermelho térmico (TIR) 8 a 14 µm sílica e quartzo (silicificação), distinção entre rochas ricas e pobres em sílica
Radar (micro-ondas) centímetros textura e relevo do terreno, estruturas; funciona com nuvens e de noite

A regra prática a reter: óxidos de ferro no visível e no NIR; alteração argílica e fílica (minerais hidroxilados) no SWIR; sílica no térmico. É por isso que um sensor sem bandas SWIR não consegue mapear a alteração argílica, por melhor que seja a sua resolução espacial.

6.2.2 Sensores de uso corrente

Sensor Bandas úteis Resolução espacial Notas
Landsat 8 e 9 (OLI) visível, NIR e duas bandas SWIR (banda 6 perto de 1,6 µm e banda 7 perto de 2,2 µm) 30 m (pancromática 15 m) arquivo longo e gratuito; bandas SWIR largas, separam "grupos" de minerais, não minerais individuais
Sentinel-2 (MSI) visível e NIR a 10 m; duas bandas SWIR (B11 perto de 1,6 µm e B12 perto de 2,2 µm) a 20 m 10, 20 e 60 m gratuito, revisita frequente; muito usado em reconhecimento regional
ASTER 3 bandas VNIR (15 m), 6 bandas SWIR (30 m), 5 bandas TIR (90 m) 15 a 90 m o SWIR distingue melhor argilas, micas e carbonatos, mas o detetor SWIR deixou de funcionar em 2008: usam-se as imagens de arquivo anteriores
Hiperespetrais (satélite, avião ou drone) centenas de bandas estreitas variável identificam minerais individuais; dados mais pesados e mais caros de tratar
Radar (SAR, por exemplo Sentinel-1) micro-ondas ~10 a 20 m lineamentos e estruturas sob nuvens

6.2.3 Técnicas de processamento mais usadas

6.2.4 Exemplo resolvido: ler razões de bandas em três píxeis

Situação (hipotética): numa imagem Sentinel-2 corrigida para refletância de superfície, leram-se os valores de três píxeis.

Píxel B2 (azul) B4 (vermelho) B8 (NIR) B11 (SWIR1) B12 (SWIR2)
P1 0,08 0,20 0,24 0,32 0,22
P2 0,10 0,14 0,30 0,28 0,25
P3 0,04 0,05 0,40 0,22 0,12

Resolução passo a passo:

  1. NDVI de cada píxel: P1 = (0,24 − 0,20) / (0,24 + 0,20) = 0,04 / 0,44 ≈ 0,09; P2 = 0,16 / 0,44 ≈ 0,36; P3 = 0,35 / 0,45 ≈ 0,78. P3 é vegetação densa; P1 é quase solo ou rocha nua.
  2. Razão de óxidos de ferro (B4/B2): P1 = 0,20 / 0,08 = 2,5; P2 = 0,14 / 0,10 = 1,4; P3 = 0,05 / 0,04 = 1,25.
  3. Razão de minerais hidroxilados (B11/B12): P1 = 0,32 / 0,22 ≈ 1,45; P2 = 0,28 / 0,25 = 1,12; P3 = 0,22 / 0,12 ≈ 1,83.
  4. Interpretação: P1 tem as duas razões altas sobre terreno descoberto: é candidato a zona com óxidos de ferro e minerais de alteração hidroxilados, a verificar no campo. P3 tem a razão B11/B12 mais alta de todas, mas é vegetação (NDVI ≈ 0,78): a vegetação também tem mais refletância a 1,6 µm do que a 2,2 µm, e daria um falso alvo. É por isso que se aplica sempre uma máscara de vegetação antes de ler razões minerais. P2 não se destaca.

Cuidados: óxidos de ferro à superfície também resultam da meteorização normal de muitas rochas e dos solos, não só de alteração hidrotermal; em Portugal, a cobertura vegetal e agrícola esconde grande parte do substrato. As razões de bandas dão candidatos a verificar, nunca alvos confirmados.

6.2.5 Geofísica aérea: a "deteção remota" do subsolo

A geofísica aerotransportada (avião, helicóptero ou drone) é a outra grande ferramenta de cobertura regional. Os métodos mais comuns são a magnetometria, a espectrometria gama (K, U, Th) e, para condutores, os eletromagnéticos. Detalham-se no capítulo 9.

6.3 Estudos de caso e simuladores como recursos de aprendizagem

O referencial desta UC identifica estudos de caso e simuladores como recursos de apoio. Na prática profissional, isto corresponde a:

7. Cartografia geológica aplicada à prospeção estratégica

7.1 A carta geológica como ponto de partida

A cartografia geológica regista, sobre uma base topográfica, a distribuição das unidades litológicas, os contactos e as estruturas observadas numa área. Em Portugal, o ponto de partida é sempre a Carta Geológica de Portugal, publicada pelo LNEG (herdeiro dos antigos Serviços Geológicos de Portugal), disponível a diferentes escalas: 1:50 000 (a mais detalhada, organizada por folhas com notícia explicativa), 1:200 000 e 1:500 000.

Na prospeção estratégica, a carta publicada:

7.2 Verificar, corrigir e detalhar no terreno

A carta oficial é o ponto de partida, não a palavra final. No terreno, o técnico:

Estas observações de campo alimentam depois a construção de esquemas próprios em planta e em corte (ver capítulo 5), específicos da área ou do alvo em estudo.

7.3 Erro a evitar

Assumir que a carta geológica oficial está sempre atualizada e completa à escala de detalhe do alvo em estudo é um erro comum. As cartas regionais são feitas a uma escala que, por definição, generaliza; o trabalho de campo da prospeção estratégica existe precisamente para verificar e refinar essa base antes de a usar como fundamento de uma decisão.

8. Prospeção geoquímica regional

8.1 O que se procura

A prospeção geoquímica procura anomalias na composição química de materiais naturais, sedimentos, solos, águas ou rochas, que possam indicar a presença de mineralização em profundidade ou nas proximidades. À escala estratégica, a malha de amostragem é alargada: cobre grandes áreas com uma densidade de pontos por km² muito menor do que a usada na fase tática de detalhe.

8.2 Tipos de amostra

8.3 Boas práticas de amostragem

8.4 Interpretar os resultados: fundo, limiar e anomalia

Depois de analisados em laboratório, os teores de cada elemento comparam-se com o comportamento normal da região:

8.5 Exemplo resolvido: calcular um limiar geoquímico

Situação (hipotética): uma campanha de sedimentos de corrente analisou o teor de um elemento em 30 pontos de uma bacia. A média dos resultados foi de 45 ppm (partes por milhão) e o desvio-padrão de 12 ppm. Um dos pontos apresentou 78 ppm.

Resolução passo a passo:

  1. Calcular o limiar pela referência comum: limiar = média + 2 × desvio-padrão = 45 + 2 × 12 = 45 + 24 = 69 ppm.
  2. Comparar o ponto em análise: 78 ppm > 69 ppm, logo está acima do limiar.
  3. Classificar: o ponto é uma anomalia geoquímica, candidata a alvo.
  4. Próximo passo: localizar no mapa a bacia a montante desse ponto de amostragem, que é a área de onde pode vir o sinal, e planear amostragem adicional (ou cartografia de campo) dirigida a essa sub-bacia.

Nota: estes valores são inteiramente hipotéticos e servem apenas para treinar o cálculo do limiar; qualquer campanha real tem os seus próprios dados e a sua própria distribuição estatística.

8.6 Colheita de sedimentos de corrente numa região alargada

Efetuar a colheita de sedimentos de corrente numa região alargada é uma aptidão explícita do referencial. O procedimento tem três momentos.

Em gabinete (planeamento):

  1. Delimitar as bacias hidrográficas sobre a carta topográfica ou um modelo digital de terreno e escolher a dimensão das bacias a amostrar (em reconhecimento regional, bacias de linhas de água de pequena ordem, em que cada amostra represente uma área de captação parecida).
  2. Marcar os pontos: em cada afluente, imediatamente a montante da confluência, para que a amostra represente só essa bacia e não a mistura das duas.
  3. Evitar à partida pontos a jusante de estradas, pontes, aldeias, escombreiras e explorações agrícolas intensivas; quando não for possível, anotar a situação.
  4. Definir a densidade de amostragem (amostras por km²), a fração a peneirar e os elementos a analisar, de acordo com o modelo geológico.
  5. Numerar previamente os sacos e intercalar na sequência as amostras de controlo (duplicados, brancos, padrões).

No campo (colheita):

  1. Chegar ao ponto com o GNSS e confirmar que a linha de água é a planeada (se não for, colher no ponto equivalente e registar a mudança).
  2. Colher sedimento ativo do leito (o que a água transporta atualmente), em vários pontos ao longo de um troço curto do canal, juntando-os numa amostra composta; evitar material caído das margens e matéria orgânica.
  3. Peneirar no local ou em gabinete para obter a fração fina; é comum usar a fração inferior a cerca de 0,18 mm (malha 80), mas a fração é a que estiver definida no protocolo do programa e tem de ser a mesma em todas as amostras.
  4. Preencher a ficha de campo: número da amostra, coordenadas, data, hora, operador, largura do canal, caudal aparente, tipo de sedimento, litologias dos seixos, possíveis fontes de contaminação, fotografia com escala.
  5. Colher, quando previsto, um concentrado de bateia no mesmo ponto, num local do leito onde os minerais pesados se acumulam naturalmente (atrás de blocos, na base do cascalho).

De volta ao gabinete: secar as amostras a temperatura moderada, verificar números e fichas, preparar a guia de remessa para o laboratório e manter a cadeia de custódia.

8.6.1 Exemplo resolvido: planear uma campanha regional

Situação (hipotética): a área a reconhecer tem 120 km². A equipa escolhe uma densidade de 1 amostra por 2 km², com uma amostra de controlo de cada tipo (duplicado de campo, branco e padrão certificado) por cada 20 amostras de rotina. Uma equipa de dois técnicos consegue colher, em média, 8 amostras por dia.

Resolução passo a passo:

  1. Amostras de rotina = 120 km² ÷ 2 km² por amostra = 60 amostras.
  2. Amostras de controlo de cada tipo = 60 ÷ 20 = 3; como há três tipos, são 3 × 3 = 9 amostras de controlo.
  3. Total enviado ao laboratório = 60 + 9 = 69 amostras.
  4. Dias de campo = 60 ÷ 8 = 7,5, que se arredonda para cima: 8 dias (os brancos e os padrões não se colhem no campo; o duplicado de campo colhe-se no mesmo ponto, com pouco tempo extra). A este valor soma-se uma margem para acessos difíceis e mau tempo.

A densidade escolhida é uma decisão do programa: tem de ser coerente com a dimensão dos alvos procurados (alvos pequenos pedem mais amostras por km²) e com o orçamento.

8.7 Analisar solos, águas, rochas, minério e plantas

O referencial pede que o técnico saiba usar cinco meios de amostragem. Cada um "vê" a mineralização de uma forma diferente.

Meio O que representa Como se colhe Cuidados próprios
Solos a rocha subjacente, alterada no local horizonte B, em malha regular ou em perfis, a profundidade constante não misturar horizontes; atenção a solos transportados (coluviões, aluviões) que já não refletem a rocha de baixo
Águas elementos dissolvidos a partir da rocha e da mineralização (por exemplo, sulfato e metais junto a sulfuretos em oxidação) frascos limpos, com enxaguamento prévio com a própria água medir no local pH, condutividade e temperatura (mudam depois da colheita); filtrar e acidificar conforme o protocolo do laboratório; conservar ao fresco
Rochas a composição do afloramento e da alteração amostras de mão, lascas (chip) ou canal amostrar rocha fresca e, à parte, a alteração; registar sempre a litologia
Minério o teor e a mineralogia da própria mineralização (em afloramentos, escombreiras de antigas minas, filões) amostras seletivas ou em canal uma amostra seletiva do "melhor bocado" não representa o teor médio; identificar sempre o tipo de amostra
Plantas elementos absorvidos pelas raízes, por vezes a profundidades maiores do que as atingidas pela amostragem de solos biogeoquímica: a mesma espécie e o mesmo órgão (folhas, ramos, casca) em todos os pontos, na mesma época do ano espécies e órgãos diferentes concentram os elementos de forma diferente; nunca misturar

A geobotânica é uma variante que não analisa as plantas em laboratório: observa a presença de espécies tolerantes a metais, a ausência de vegetação ou sintomas como clorose (amarelecimento), que podem indicar solos com teores anómalos. Estes sinais também se procuram, à escala regional, em imagens de satélite (índices de vegetação).

8.7.1 Como se analisam as amostras

  1. Preparação: secagem, britagem, divisão da amostra (quarteamento) para obter uma porção representativa, e pulverização. Uma má preparação estraga uma boa amostragem.
  2. Ataque (digestão): a amostra é dissolvida. Um ataque parcial (por exemplo, água-régia) não dissolve todos os minerais; um ataque multiácido é quase total; uma fusão dissolve também minerais resistentes. O tipo de ataque tem de ser o mesmo em toda a campanha, senão os teores não se comparam.
  3. Medição: habitualmente por espetrometria de plasma (ICP-OES ou ICP-MS), que dá dezenas de elementos de uma vez; para o ouro, usa-se habitualmente o ensaio ao fogo (fire assay).
  4. Rastreio no campo: o analisador portátil de fluorescência de raios X (pXRF) dá teores aproximados em minutos e ajuda a decidir onde amostrar mais. Tem limitações importantes: mede sobretudo a superfície da amostra e não deteta elementos muito leves, como o lítio. Numa campanha de lítio, o pXRF só pode seguir elementos associados que consegue medir (como Rb, Sn ou Nb), e o Li tem de ser analisado em laboratório.

9. Prospeção geofísica regional

9.1 Métodos e o que cada um mede

A prospeção geofísica mede propriedades físicas do subsolo, a partir da superfície ou do ar, à procura de corpos ou estruturas com contraste físico em relação à rocha envolvente.

Método O que o instrumento mede Propriedade física que gera o contraste Unidade típica da medida Bom para
Magnetometria intensidade do campo magnético suscetibilidade magnética (e magnetização remanescente) das rochas nT (nanotesla) minerais magnéticos (magnetite, pirrotite), rochas básicas, estruturas e contactos
Gravimetria aceleração da gravidade densidade mGal (miligal) corpos densos em profundidade, bacias, grandes estruturas
Radiometria / espectrometria gama radiação gama natural teor em K, U e Th dos primeiros decímetros do terreno contagens por segundo; % K, ppm eU, ppm eTh mapeamento litológico à superfície, alteração potássica
Resistividade diferença de potencial com corrente injetada resistividade elétrica ohm.m contrastes litológicos, zonas fraturadas, argilização
Polarização induzida (IP) decaimento da tensão após cortar a corrente cargabilidade mV/V ou ms sulfuretos disseminados
Eletromagnéticos campo secundário induzido condutividade elétrica várias (ppm, nT/s, etc.) corpos condutores (sulfuretos maciços, mas também grafite e água salgada)
Sísmica tempos de chegada de ondas velocidade de propagação e impedância m/s estruturas profundas (uso limitado à escala estratégica)

Repara na distinção entre as duas colunas do meio: o magnetómetro não mede a suscetibilidade, mede o campo; a suscetibilidade é a propriedade da rocha que faz o campo variar. Da mesma forma, o gravímetro mede a gravidade, e é a densidade dos corpos que a faz variar.

A escolha do método depende sempre da propriedade física que distingue o alvo procurado da rocha envolvente: um método sensível a magnetismo não ajuda a detetar um alvo sem contraste magnético relevante.

9.2 Campanhas regionais: aéreas e terrestres

À escala estratégica, a geofísica é frequentemente aérea (avião ou drone), porque cobre grandes áreas de forma rápida e sistemática. Complementa-se, quando justificado, com geofísica terrestre pontual sobre as zonas de maior interesse.

Cuidados de aquisição:

Os dados brutos são tratados em gabinete e transformados em mapas de anomalias, depois cruzados com a geologia e a geoquímica da mesma área.

9.3 Como se faz e se lê um levantamento aéreo

Aquisição. O avião, helicóptero ou drone voa em linhas paralelas (linhas de voo), orientadas de preferência perpendicularmente à direção geral das estruturas, para as cortar e não as seguir. Voa-se também um conjunto de linhas de controlo (tie lines), perpendiculares às primeiras e mais espaçadas, que servem para nivelar os dados entre linhas. Tenta-se manter uma altura ao solo constante, porque o sinal enfraquece com a distância à fonte; o espaçamento entre linhas escolhe-se em função da dimensão dos alvos (alvos estreitos exigem linhas mais próximas). Os drones voam mais baixo e com linhas mais apertadas, mas cobrem áreas menores.

Produtos da magnetometria. Depois de retirar o campo regional e a variação diurna, obtém-se o mapa do campo magnético anómalo. Usam-se depois transformações que facilitam a leitura:

Produtos da espectrometria gama. Mapas de K, eU e eTh, e o mapa ternário (K a vermelho, Th a verde, U a azul), que separa litologias num só mapa. Lembrar que o sinal vem apenas dos primeiros decímetros do terreno: um solo transportado ou uma cobertura espessa escondem a rocha de baixo. Anomalias de K acompanhadas de Th baixo podem indicar alteração potássica (enriquecimento em K sem enriquecimento equivalente em Th), um sinal útil em vários modelos hidrotermais.

Eletromagnéticos aéreos. Detetam condutores. Um condutor pode ser um corpo de sulfuretos maciços, mas também xistos grafitosos, falhas com água ou argilas saturadas: cada condutor tem de ser cruzado com a geologia antes de ser considerado alvo.

9.3.1 Exemplo resolvido: dimensionar um levantamento aeromagnético

Situação (hipotética): a área tem 20 km no sentido E-W e 16 km no sentido N-S; as estruturas regionais têm direção aproximadamente E-W. A equipa escolhe linhas de voo com 200 m de espaçamento e linhas de controlo com 2 km de espaçamento.

Resolução passo a passo:

  1. Orientação: estruturas E-W, logo linhas de voo N-S (perpendiculares), cada uma com 16 km; linhas de controlo E-W, cada uma com 20 km.
  2. Número de linhas de voo: 20 km ÷ 0,2 km = 100 intervalos, portanto 100 + 1 = 101 linhas (conta-se a linha do bordo inicial).
  3. Quilómetros de linhas de voo: 101 × 16 km = 1616 km.
  4. Linhas de controlo: 16 km ÷ 2 km = 8 intervalos, portanto 9 linhas, com 9 × 20 km = 180 km.
  5. Total a voar: 1616 + 180 = 1796 km-linha (sem contar as viragens e os trânsitos até à área).

O custo dos levantamentos aéreos é, em regra, orçamentado por quilómetro-linha: este cálculo mostra logo que reduzir o espaçamento para metade quase duplica o custo, e é por isso que o espaçamento se escolhe a partir da dimensão do alvo e não "o mais apertado possível".

9.4 Integrar geologia, geoquímica e geofísica

A geofísica regional não substitui o mapa geológico nem a geoquímica: complementa-os com informação sobre o que está abaixo da superfície, que nenhum dos outros dois métodos observa diretamente.

Um alvo é tanto mais robusto quanto mais estes três tipos de indício convergirem no mesmo local: geologia favorável, anomalia geoquímica e resposta geofísica compatível com o modelo. Interpretar uma única anomalia geofísica isolada como depósito confirmado, sem cruzar com os outros dados, é um erro comum e um dos principais motivos de insucesso em campanhas mal conduzidas.

10. Equipamento de trabalho de campo

10.1 Equipamento por função

Cada tipo de trabalho de prospeção estratégica pede o seu próprio equipamento, escolhido em função do método e do objetivo, nunca ao contrário.

Função Equipamento
Navegação e posicionamento recetor GNSS, carta topográfica e geológica, bússola de geólogo
Amostragem geoquímica martelo de geólogo, sacos numerados, peneiros, bateia, lupa de campo
Geofísica terrestre magnetómetro, equipamento de resistividade/polarização induzida (conforme o método)
Registo máquina fotográfica com escala, ficha de campo ou dispositivo digital, etiquetas
Gabinete simuladores, software de sistemas de informação geográfica, para planear percursos e tratar dados

Adaptar o equipamento ao tipo de trabalho é, como já visto no capítulo 3, uma realização explícita do referencial: levar o equipamento errado, ou levar tudo "por precaução" sem planeamento, sobrecarrega e atrasa o trabalho sem melhorar a qualidade dos dados.

10.2 O recetor GNSS no trabalho de campo

O GNSS (sistema global de navegação por satélite: GPS, GLONASS, Galileo, BeiDou) é o instrumento de posicionamento mais usado no campo.

10.3 Preparação do trabalho de campo por priorização de alvos

Preparar o trabalho de campo por priorização de alvos é a primeira realização listada no referencial desta UC, e resume-se a esta sequência:

  1. Rever os alvos priorizados (capítulo 4) e os objetivos específicos de cada um.
  2. Confirmar o equipamento necessário para cada alvo, de acordo com o método planeado.
  3. Planear percursos e logística: acessos, distâncias, tempo disponível, autorização dos proprietários dos terrenos.
  4. Verificar as condições de segurança: previsão meteorológica, meios de comunicação disponíveis, plano de emergência.
  5. Deixar o plano de campo registado com uma terceira pessoa: rota prevista e hora de regresso.

Sair para o campo sem confirmar acessos e autorizações é um erro comum que custa dias inteiros de trabalho perdido por um portão fechado ou um proprietário não contactado.

11. Segurança, saúde no trabalho e equipamentos de proteção individual

11.1 Riscos próprios do trabalho de campo

O trabalho de campo em prospeção mineira tem riscos específicos: terrenos irregulares e taludes, o ato de partir rocha com martelo, exposição solar prolongada, isolamento em áreas remotas, e a eventual proximidade de escavações mineiras antigas.

11.2 Equipamentos de proteção individual (EPI)

Utilizar os equipamentos de proteção individual é uma aptidão explícita do referencial desta UC:

O EPI não é opcional "porque incomoda": faz parte do procedimento de trabalho, tal como o registo de dados ou a aplicação dos critérios de campo.

11.3 Normas de segurança e saúde no trabalho

Aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho é outra aptidão explícita do referencial. Na prática, envolve:

11.4 Em caso de desorientação

Se um técnico se desorientar no campo, o procedimento correto é:

  1. Parar de imediato, sem continuar a andar ao acaso.
  2. Reorientar-se com carta, bússola e GNSS.
  3. Se não for possível reorientar-se, ficar num local visível e pedir ajuda pelos meios de comunicação disponíveis.

É importante nunca ensinar ou seguir a regra de "seguir a linha de água a jusante" para se reorientar: esta prática é uma causa reconhecida de acidentes, porque as linhas de água levam frequentemente a ravinas, taludes íngremes e quedas de água, agravando a situação em vez de a resolver.

Os depósitos minerais pertencem ao domínio público do Estado, e a sua revelação e aproveitamento seguem um regime jurídico próprio:

O regime prevê direitos sucessivos, que acompanham as fases de um projeto: avaliação prévia, prospeção e pesquisa, exploração experimental e exploração (concessão). A prospeção e pesquisa só pode ser feita ao abrigo de direitos atribuídos por contrato com o Estado, para uma área e um período definidos. A atribuição destes direitos é precedida de publicitação e de participação pública, incluindo sessões de esclarecimento nos municípios abrangidos.

Para o técnico de campo, as consequências práticas são:

Os prazos, artigos e procedimentos administrativos concretos consultam-se sempre na versão em vigor dos diplomas e junto da DGEG; não se memorizam de um manual.

12. Caso integrado resolvido: da compilação de dados à seleção de alvos

Este capítulo junta todas as peças num único caso, do princípio ao fim. A área, os dados e os nomes são hipotéticos; o método é o que se aplica num programa real.

12.1 O encargo

O gabinete recebe uma área de 150 km² no interior centro, para prospeção estratégica de volfrâmio (volframite e scheelite). O programa tem direitos de prospeção e pesquisa em vigor e um orçamento que permite passar dois alvos à fase tática.

12.2 Passo 1 · Objetivo e modelo

12.3 Passo 2 · Compilação de dados existentes

A equipa reúne, em sistema de informação geográfica:

Conclusão do passo 2: a faixa de metassedimentos junto ao contacto granítico é a zona geologicamente favorável; o interior do granito e os metassedimentos longe do contacto são menos favoráveis para este modelo.

12.4 Passo 3 · Deteção remota

12.5 Passo 4 · Geoquímica de sedimentos de corrente

Com o procedimento do capítulo 8, colheram-se 20 amostras de rotina (S01 a S20), uma por sub-bacia, mais as amostras de controlo. Resultados de W (ppm), depois de validados os controlos de qualidade:

Amostra W (ppm) Amostra W (ppm) Amostra W (ppm) Amostra W (ppm)
S01 4 S06 5 S11 18 S16 5
S02 6 S07 4 S12 4 S17 4
S03 5 S08 22 S13 5 S18 6
S04 3 S09 6 S14 6 S19 7
S05 7 S10 5 S15 3 S20 5

Resolução:

  1. Média = soma ÷ número de amostras = 130 ÷ 20 = 6,5 ppm.
  2. Desvio-padrão (amostral, calculado em folha de cálculo) ≈ 4,8 ppm.
  3. Limiar = 6,5 + 2 × 4,8 = 6,5 + 9,6 = 16,1 ppm.
  4. Anomalias: S08 (22 ppm) e S11 (18 ppm) estão acima do limiar. Todas as outras estão abaixo.
  5. Verificação crítica: os dois valores altos "inflacionam" a média e o desvio-padrão. Recalculando sem eles, as 18 amostras restantes dão média 5,0 ppm e desvio-padrão ≈ 1,2 ppm, e um limiar de cerca de 5,0 + 2 × 1,2 = 7,4 ppm. Com este limiar mais realista do fundo, o valor mais alto das restantes (7 ppm, em S05 e S19) continua abaixo, e S08 e S11 destacam-se ainda mais. A conclusão mantém-se, mas a equipa regista que o fundo real ronda os 5 ppm.
  6. Concentrados de bateia: o de S08 tem grãos de volframite; o de S11 não tem minerais pesados de W visíveis à lupa.
  7. Localização: a bacia de S08 drena a zona 1 (contacto, lineamentos NE-SW e manchas SWIR); a bacia de S11 drena a zona 2 (contacto e lineamentos, sem manchas SWIR).

12.6 Passo 5 · Geofísica regional existente

A equipa dispõe de um levantamento aéreo de espectrometria gama e magnetometria que cobre a área.

12.7 Passo 6 · Integração e priorização

Pontuação de 1 a 3 por indício e pesos decididos à partida a partir do modelo (0,40 geológico, 0,35 geoquímico, 0,25 geofísico; num modelo filoniano de W, a geologia e a geoquímica são mais diagnósticas do que a geofísica):

Zona Geológico Geoquímico Geofísico Soma simples Pontuação ponderada
1 3 (contacto, antigas explorações, fraturas NE-SW, manchas SWIR) 3 (S08 = 22 ppm, volframite na bateia) 2 (K sem Th) 8 3 × 0,40 + 3 × 0,35 + 2 × 0,25 = 2,75
2 2 (contacto e fraturas, sem ocorrências conhecidas) 3 (S11 = 18 ppm) 1 6 0,80 + 1,05 + 0,25 = 2,10
3 1 (interior do granito, pouco favorável ao modelo) 1 (sem anomalia na bacia) 3 5 0,40 + 0,35 + 0,75 = 1,50

Decisão:

  1. Zona 1, prioridade 1: convergência de três indícios independentes; passa à fase tática.
  2. Zona 2, prioridade 2: anomalia geoquímica clara, mas sem minerais de W visíveis na bateia e sem resposta geofísica. Antes de gastar dinheiro tático, justifica uma verificação barata: repetir a amostra S11 e colher sedimentos nos afluentes a montante, para localizar a fonte.
  3. Zona 3, em carteira: a anomalia geofísica, sozinha, não justifica investimento para este modelo. Fica registada, e será reavaliada se outro modelo (outro metal) vier a interessar ao promotor.

12.8 Passo 7 · Preparar o trabalho de campo seguinte

A partir da lista priorizada prepara-se a saída de campo, como se viu no capítulo 10:

Alvo Objetivo da saída Métodos Equipamento Segurança específica
Zona 1 confirmar as manchas SWIR e os filões; medir a atitude das fraturas cartografia de campo, amostras de rocha e de minério das antigas escombreiras, pXRF para W e Sn GNSS, bússola de geólogo, martelo, lupa, sacos numerados, pXRF, lâmpada UV de onda curta (scheelite) capacete e óculos; nunca entrar nas galerias das antigas explorações; bordos de escombreiras instáveis
Zona 2 localizar a fonte da anomalia de S11 sedimentos de corrente nos afluentes a montante, bateia, duplicado de S11 GNSS, peneiros, bateia, sacos, fichas leitos com pedras soltas e escorregadias; trabalho em pares

Resultado final do programa estratégico: uma lista de alvos com área delimitada, modelo, indícios, pontuação justificada e plano da ação seguinte. É este documento que o gabinete entrega ao promotor.

12.9 O que este caso ensina

Erros comuns

Glossário

Síntese

Um programa de prospeção estratégica segue sempre a mesma lógica de funil: definir objetivos e modelo geológicocompilar dados existentes e cartografiadeteção remotareconhecimento de campo, com critérios e equipamento adequadosgeoquímica regional (sedimentos de corrente, solos) → geofísica regional (magnetometria, radiometria, métodos elétricos, entre outros) → integrar geologia, geoquímica e geofísica em esquemas de planta e cortepriorizar alvos por probabilidade de sucesso, cruzando indícios independentes. Todo o trabalho de campo é conduzido com rigor no registo, equipamentos de proteção individual e normas de segurança, sempre em conformidade com os direitos de prospeção atribuídos. O resultado final é uma lista de alvos justificados e priorizados, pronta para a prospeção tática.

Exercícios resolvidos

1. Distingue prospeção estratégica de prospeção tática, com um exemplo de cada.

Resolução: a prospeção estratégica trabalha à escala regional, com dados existentes, deteção remota e amostragem de malha alargada (por exemplo, geoquímica de sedimentos de corrente numa bacia de 40 km²); reduz uma área grande a uma lista de alvos. A prospeção tática trabalha à escala local, num alvo já selecionado, com geofísica terrestre densa, trincheiras e sondagens, para confirmar ou descartar esse alvo específico.

2. Uma equipa identificou dois alvos com os seguintes indícios: Alvo X, geológico forte, geoquímico fraco, geofísico moderado; Alvo Y, geológico moderado, geoquímico forte, geofísico forte. Qual avança primeiro para a fase tática, e porquê?

Resolução: convertendo fraco/moderado/forte em 1/2/3, o Alvo X soma 3+1+2 = 6 e o Alvo Y soma 2+3+3 = 8. O Alvo Y avança primeiro: além da pontuação mais alta, tem convergência de dois indícios fortes (geoquímico e geofísico), o que reduz mais a incerteza do que um único indício geológico forte isolado.

3. Uma campanha de sedimentos de corrente deu média 30 ppm e desvio-padrão 8 ppm para um elemento. Um ponto apresentou 50 ppm. É uma anomalia?

Resolução: limiar = média + 2 × desvio-padrão = 30 + 2 × 8 = 30 + 16 = 46 ppm. Como 50 ppm > 46 ppm, o ponto está acima do limiar e classifica-se como anomalia geoquímica, candidata a investigação adicional na sub-bacia correspondente.

4. Porque é que a linha de corte de um esquema geológico deve ser, idealmente, perpendicular à direção das estruturas?

Resolução: porque um corte oblíquo à direção real das estruturas mostra uma inclinação aparente, mais suave do que a inclinação verdadeira medida no campo. Um corte perpendicular à direção mostra a inclinação real, o que é indispensável para avaliar corretamente a geometria em profundidade de um alvo.

5. Que EPI é indispensável ao partir rocha com martelo de geólogo, e porquê?

Resolução: os óculos de proteção, porque as lascas de rocha projetadas pelo impacto do martelo são uma causa comum de lesão ocular em trabalho de campo geológico.

6. Um técnico perde-se no campo. Que procedimento deve seguir, e que erro deve evitar?

Resolução: deve parar, reorientar-se com carta, bússola e GNSS, e, se não conseguir, ficar num local visível e pedir ajuda pelos meios de comunicação disponíveis. Deve evitar seguir a linha de água a jusante, uma prática perigosa que pode levar a ravinas, taludes e quedas de água.

7. Porque é que a geofísica regional, por si só, não deve ser interpretada como confirmação de um depósito?

Resolução: porque a geofísica mede propriedades físicas do subsolo (magnetismo, densidade, condutividade), que podem ter várias origens geológicas, nem todas associadas a mineralização. Só a convergência com indícios geológicos e geoquímicos independentes dá confiança suficiente para priorizar um alvo.

8. Numa imagem Sentinel-2, um píxel tem B11 = 0,30 e B12 = 0,20, e NDVI = 0,10. Outro píxel tem B11 = 0,24 e B12 = 0,14, e NDVI = 0,75. Qual deles merece verificação de campo como possível zona de alteração?

Resolução: razão B11/B12 do primeiro = 0,30 / 0,20 = 1,5; do segundo = 0,24 / 0,14 ≈ 1,71. O segundo tem a razão mais alta, mas NDVI = 0,75 indica vegetação densa, que também faz subir esta razão: é um falso alvo. O primeiro píxel, sobre terreno quase descoberto (NDVI = 0,10), é o candidato a verificar no campo, onde se confirma se há de facto minerais de alteração (argilas, micas brancas).

9. Uma área de 90 km² vai ser reconhecida com sedimentos de corrente, à densidade de 1 amostra por 1,5 km², com um duplicado de campo, um branco e um padrão certificado por cada 20 amostras de rotina. Quantas amostras seguem para o laboratório?

Resolução: amostras de rotina = 90 ÷ 1,5 = 60. Controlos: 60 ÷ 20 = 3 de cada tipo, 3 × 3 = 9. Total = 60 + 9 = 69 amostras.

10. Com pesos 0,40 (geológico), 0,35 (geoquímico) e 0,25 (geofísico), calcula a pontuação ponderada de um alvo com indícios 2, 2 e 3, e compara-a com a de um alvo com indícios 3, 1 e 2.

Resolução: primeiro alvo = 2 × 0,40 + 2 × 0,35 + 3 × 0,25 = 0,80 + 0,70 + 0,75 = 2,25. Segundo alvo = 3 × 0,40 + 1 × 0,35 + 2 × 0,25 = 1,20 + 0,35 + 0,50 = 2,05. Ambos têm soma simples 7, mas com estes pesos o primeiro fica à frente, porque tem indícios mais equilibrados e a geoquímica do segundo é fraca.

11. Que diplomas e que entidade enquadram a prospeção e pesquisa de depósitos minerais em Portugal, e o que tem o técnico de confirmar antes de sair para o campo?

Resolução: a Lei n.º 54/2015 (bases do regime dos recursos geológicos) e o Decreto-Lei n.º 30/2021 (que a regulamenta para os depósitos minerais), com a DGEG como entidade competente. O técnico confirma que existem direitos de prospeção e pesquisa em vigor, atribuídos por contrato, para aquela área e período, e que tem a autorização dos proprietários dos terrenos onde vai entrar.