Dimensionar condutores, proteções e circuitos de instalações de energia elétrica (UC01781)
- Introdução
- 1. Dimensionar uma instalação elétrica: o quadro legal e o fluxo de cálculo
- 2. Simbologia elétrica
- 3. Esquemas unifilares e multifilares
- 4. Grandezas elétricas e corrente de serviço
- 5. Cabos e condutores: tipos, designações e acessórios
- 6. Proteção mecânica dos condutores: tubos, calhas e acessórios
- 7. Modos de instalação e intensidades admissíveis
- 8. Dimensionar a secção do condutor
- 9. Queda de tensão
- Fórmulas (resistência dominante)
- Exemplo resolvido · tomadas, comprimento moderado
- Exemplo resolvido · o cabo longo que falha
- Exemplo resolvido · iluminação
- Exemplo resolvido · circuito trifásico
- Secção mínima pela queda de tensão
- Exemplo resolvido · secção mínima por queda de tensão
- Queda de tensão total
- Exemplo resolvido · cadeia de quedas
- 10. Dimensionar a secção dos tubos
- 11. Proteção contra sobrecargas
- 12. Proteção contra curtos-circuitos
- Poder de corte e Icc máxima
- Exemplo resolvido · a Icc a diminuir ao longo de um cabo
- Icc mínima e comprimento máximo protegido
- Exemplo resolvido · comprimento máximo protegido
- Exemplo resolvido · curva B contra curva C num cabo longo
- Solicitação térmica do cabo: I²t ≤ k² · S²
- Exemplo resolvido · energia que o cabo suporta
- Exemplo resolvido · corte rápido, energia pequena
- Proteção contra curto-circuito e proteção contra sobrecarga em conjunto
- 13. Disjuntores e fusíveis
- 14. Proteção das pessoas contra contactos diretos e indiretos
- 15. Regimes de neutro (esquemas de ligação à terra)
- 16. Ligações à terra
- 17. Interruptores diferenciais residuais e proteção contra correntes de fuga
- 18. Proteção das instalações: sobretensões, seletividade e outras proteções
- 19. Divisão de circuitos por tipo de utilização
- 20. Dimensionamento integrado de uma moradia
- Dados dos circuitos
- Corrente de serviço e corrente estipulada
- Secção, Iz e condição Ib ≤ In ≤ Iz
- Sobrecarga (I2 ≤ 1,45 · Iz)
- Queda de tensão (ΔU = 2 · ρ · L · Ib ÷ S)
- Disparo no fim da linha (Lmáx = 0,8 · U0 · S ÷ (2 · ρ · Im))
- Diferenciais e quadro
- Tubos
- Resultado final do quadro
- Esquema unifilar do quadro
- 21. Verificação, segurança e boas práticas na execução
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
- Exercício resolvido 1 · forno trifásico
- Exercício resolvido 2 · carregador de veículo elétrico
- Exercício resolvido 3 · verificar um circuito existente
- Exercício resolvido 4 · diferencial em TT
- Exercício resolvido 5 · o disjuntor chega ao fim da linha
- Exercício resolvido 6 · repartir cargas por circuitos
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Introdução
Uma instalação elétrica segura começa muito antes de se puxar o primeiro cabo: começa no cálculo. Esta sebenta ensina a dimensionar condutores, proteções e circuitos de instalações de energia elétrica em baixa tensão, ou seja, a decidir, com números e com as regras técnicas na mão, que secção de cabo, que tubo, que disjuntor e que diferencial cada circuito leva, e como se dividem os circuitos por tipo de utilização.
O percurso segue a ordem em que um técnico trabalha. Primeiro fixamos a linguagem: a simbologia e os esquemas unifilares e multifilares. Depois calculamos a corrente de serviço de cada circuito e escolhemos o cabo, a sua secção (por corrente admissível e por queda de tensão) e a proteção mecânica (tubos e acessórios). A seguir dimensionamos as proteções elétricas: contra sobrecargas, contra curtos-circuitos e contra correntes de fuga, com disjuntores, fusíveis e interruptores diferenciais residuais. Entre uns e outros estudamos a proteção das pessoas contra contactos diretos e indiretos, os regimes de neutro e as ligações à terra. Fechamos com a divisão de circuitos nos quadros e com um dimensionamento integrado de uma moradia.
Objetivos de aprendizagem (referencial): dimensionar secções de condutores; dimensionar proteções mecânicas de condutores; dimensionar proteções elétricas; efetuar a divisão de circuitos por tipo de utilização; executar o cálculo de secções de condutores e de tubos; calcular proteções contra sobrecargas, curtos-circuitos e correntes de fuga; calcular quedas de tensão; aplicar as regras técnicas de repartição dos circuitos de quadros elétricos. Em todas as tarefas: adequar os materiais aos circuitos, respeitar as boas práticas e cumprir as RTIEBT.
Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem explicação, tabelas de consulta e exemplos resolvidos passo a passo. Refaz sempre as contas com a calculadora ou com a folha de cálculo antes de ler a solução. Uma regra vale para toda a UC e para a vida profissional: os valores tabelados (intensidades admissíveis dos cabos, fatores de correção, tempos de corte, limites de queda de tensão, secções mínimas) lêem-se sempre na tabela das RTIEBT na redação em vigor ou no catálogo do fabricante. Nos exemplos, esses valores aparecem como dados do problema, para que o raciocínio fique à vista; no trabalho real, vão buscar-se à fonte oficial.
1. Dimensionar uma instalação elétrica: o quadro legal e o fluxo de cálculo
Dimensionar é escolher, para cada circuito, os componentes (cabo, tubo, aparelho de proteção) de modo que a instalação funcione nas condições normais e proteja as pessoas e os bens nas condições anormais. Um circuito mal dimensionado pode funcionar durante anos e falhar de uma vez: um cabo ligeiramente curto de secção aquece, degrada o isolamento e, um dia, provoca um incêndio.
Quadro legal e normativo
- As Regras Técnicas das Instalações Elétricas de Baixa Tensão (RTIEBT) foram aprovadas pela Portaria n.º 949-A/2006, de 11 de setembro, e entretanto alteradas; consulta-se sempre a versão consolidada no Diário da República. As RTIEBT seguem a estrutura das normas internacionais da série CEI/IEC 60364, adaptadas a Portugal, e são o documento de referência desta UC.
- A Lei n.º 14/2015, de 16 de fevereiro, estabelece os requisitos de acesso e exercício da atividade das entidades e profissionais responsáveis pelas instalações elétricas: quem projeta, executa e explora instalações tem de estar habilitado para o fazer.
- Os aparelhos e cabos obedecem a normas de produto europeias (série EN, equivalentes às CEI/IEC): por exemplo, os disjuntores de uso doméstico à EN 60898-1, os interruptores diferenciais à EN 61008-1 e os cabos à família de normas HD/EN dos cabos de baixa tensão.
- Baixa tensão (BT), no âmbito das RTIEBT, significa tensões nominais em corrente alternada até 1000 V. Nas instalações correntes em Portugal, a tensão é 230 V entre fase e neutro (monofásico) e 400 V entre fases (trifásico).
O fluxo de cálculo
O dimensionamento de um circuito faz-se numa ordem lógica. Cada passo depende do anterior:
| Passo | O que se determina | Símbolo | Capítulo |
|---|---|---|---|
| 1 | Potência e corrente de serviço do circuito | P, Ib | 4 |
| 2 | Modo de instalação e fatores de correção | k | 7 |
| 3 | Corrente estipulada da proteção | In | 11 |
| 4 | Secção por corrente admissível | S, Iz | 8 |
| 5 | Verificação da queda de tensão | ΔU | 9 |
| 6 | Verificação da proteção contra curtos-circuitos | Icc, I²t | 12 |
| 7 | Verificação da proteção de pessoas (contactos indiretos) | RA, Zs | 14 a 16 |
| 8 | Diferencial e correntes de fuga | IΔn | 17 |
| 9 | Tubo ou outra proteção mecânica | Ø | 6 e 10 |
Se um passo posterior falha (por exemplo, a queda de tensão passa o limite), volta-se atrás e aumenta-se a secção: o dimensionamento é iterativo. A secção final é a maior de todas as que cada critério exigir.
Exemplo resolvido · o critério que decide
Um circuito de tomadas precisa, por corrente admissível, de 2,5 mm². Por queda de tensão (cabo longo), precisaria de 4 mm². Por curto-circuito, 1,5 mm² já chegava.
- Os três critérios dão: 2,5 mm², 4 mm² e 1,5 mm².
- A secção a instalar é a maior: 4 mm².
- Em consequência, a proteção é escolhida para essa secção: o disjuntor continua a ser limitado pela corrente admissível do cabo escolhido, mas o cabo maior dá folga.
2. Simbologia elétrica
Os projetos de instalações elétricas comunicam por símbolos normalizados, para que qualquer técnico leia o mesmo desenho do mesmo modo. A simbologia usada em Portugal para esquemas e plantas de instalações segue as normas internacionais de símbolos gráficos para esquemas elétricos (família CEI/IEC 60617). A tabela reúne os símbolos de uso corrente, descritos pela forma, porque o desenho depende do programa de desenho do projeto.
Símbolos de aparelhagem e de equipamento
| Elemento | Descrição do símbolo | Notas de utilização |
|---|---|---|
| Disjuntor | contacto de abertura com marca de proteção (cruz) e indicação de disparador térmico e magnético | indicar curva e In, por exemplo C16 |
| Interruptor-seccionador | contacto de abertura com barra de seccionamento | corte em carga; não protege contra sobreintensidades |
| Fusível | retângulo atravessado por um traço | indicar classe e calibre, por exemplo gG 25 A |
| Interruptor diferencial | símbolo de interruptor com bobina de soma (transformador toroidal) e indicação de IΔn | indicar IΔn e tipo (AC, A, F, B) |
| Contactor | contacto de fecho com bobina | comando de cargas, por exemplo aquecimento |
| Tomada de uso geral | semicírculo com linha de terra | indicar a corrente, por exemplo 16 A |
| Ponto de luz | círculo com cruz ou ponto | simples ou comutado, conforme o interruptor associado |
| Interruptor simples | pequeno círculo com traço oblíquo | pode levar índices para comutador e inversor |
| Terra de proteção | três traços decrescentes | condutor PE |
| Transformador | duas bobinas acopladas | transformador de isolamento ou de segurança |
Símbolos de condutores e ligações
- Condutor: linha contínua; o número de condutores representa-se com traços oblíquos sobre a linha (esquema unifilar) ou com uma linha por condutor (esquema multifilar).
- Condutor neutro, condutor de proteção (PE) e condutor PEN distinguem-se por marcas próprias sobre a linha, normalmente com a letra correspondente.
- Ligação em T e cruzamento: o ponto cheio indica ligação elétrica; sem ponto, as linhas cruzam-se sem ligar.
Identificação alfanumérica
Além do símbolo, cada aparelho tem uma designação (referência do aparelho) e as suas características escritas junto ao símbolo. Por exemplo: "QE1, Q2: disjuntor C16 A, 1P+N, 6 kA" diz que, no quadro QE1, o aparelho Q2 é um disjuntor curva C de 16 A, com polo de fase e polo de neutro, e poder de corte de 6 kA.
Exemplo resolvido · ler uma legenda de quadro
Num quadro lê-se: "Q5: DDR 40 A / 30 mA, tipo A, 2P" e "Q6: disjuntor B10 A, 1P+N" ligado a jusante de Q5.
- Q5 é um interruptor diferencial residual de 40 A (corrente estipulada máxima que suporta) e sensibilidade de 30 mA.
- O tipo A significa que deteta correntes de fuga alternadas e pulsantes com componente contínua.
- Q6 é um disjuntor de curva B com In = 10 A, que protege contra sobrecarga e curto-circuito um circuito monofásico com polo de neutro.
- A ordem de leitura é da origem para a carga: a energia passa primeiro em Q5 e depois em Q6.
3. Esquemas unifilares e multifilares
Um esquema multifilar desenha cada condutor do circuito (fase, neutro, proteção). Um esquema unifilar representa o circuito com uma só linha, e o número de condutores indica-se por traços oblíquos. O unifilar é o desenho de eleição para o quadro elétrico e para a distribuição, porque cabe numa folha e mostra a arquitetura da instalação. O multifilar usa-se quando é preciso ver a ligação real, por exemplo em comandos e em ligações de motores.
| Característica | Unifilar | Multifilar |
|---|---|---|
| Representação | uma linha para o circuito, traços oblíquos para o número de condutores | uma linha por condutor |
| Vantagem | simples, rápido, mostra a hierarquia das proteções | mostra a ligação exata, terminal a terminal |
| Quando usar | quadros, distribuição, esquema geral do projeto | comando, motores, ligações com várias fases e comutações |
| Informação típica | aparelho, calibre, curva, secção e tipo do cabo, comprimento, circuito alimentado | bornes, cores dos condutores, referências de ligação |
Informação mínima de um esquema unifilar de quadro
Para cada circuito, o esquema unifilar deve indicar: designação do circuito (por exemplo C3 "Tomadas piso 0"), aparelho de proteção (tipo, curva, In), diferencial a montante (IΔn e tipo), cabo (designação, número de condutores, secção) e, sempre que relevante, o comprimento e o modo de instalação. Na origem, indica-se o aparelho geral de corte e proteção, a potência e o regime de neutro.
Exemplo resolvido · de um circuito para o esquema
O circuito "iluminação do piso 0" tem 600 W de lâmpadas LED (cosφ = 1), alimentado por um cabo de 2 condutores de 1,5 mm² com condutor de proteção, protegido por um disjuntor C10 a jusante de um diferencial.
- Corrente de serviço: Ib = 600 ÷ 230 = 2,61 A.
- Proteção: disjuntor de 10 A, 1P+N, curva C (no esquema: "C10").
- Cabo: 3G1,5 (fase, neutro e proteção, com 1,5 mm² cada).
- No esquema unifilar, a linha do circuito leva três traços oblíquos (fase, neutro, PE) e a legenda "3G1,5, C10, diferencial de 30 mA a montante".
- No multifilar, o mesmo circuito desenha três linhas: a fase passa pelo disjuntor e vai ao interruptor e ao ponto de luz; o neutro vai direto ao ponto de luz; o condutor de proteção liga às massas metálicas, se existirem.
Regras de boa prática no desenho
- Orientar o esquema da origem (cima) para as cargas (baixo).
- Manter a mesma designação de circuito na planta, no esquema e na etiqueta do quadro.
- Usar sempre os mesmos símbolos normalizados e legendar tudo o que não for evidente.
- Atualizar o esquema sempre que a instalação mudar: um esquema desatualizado é pior do que nenhum.
4. Grandezas elétricas e corrente de serviço
O ponto de partida de qualquer dimensionamento é a corrente de serviço Ib: a corrente que o circuito transporta em funcionamento normal, calculada a partir da potência das cargas.
Potência e fator de potência
- Potência ativa P (W ou kW): a que realiza trabalho (luz, calor, movimento).
- Potência aparente S (VA ou kVA): produto da tensão pela corrente; é a que a rede e os cabos transportam. Os contratos de eletricidade em Portugal exprimem-se em kVA.
- Fator de potência cosφ: razão entre a potência ativa e a aparente, P = S · cosφ. Cargas resistivas (aquecimento, lâmpadas de incandescência) têm cosφ = 1; motores e fontes de alimentação têm cosφ inferior a 1.
Fórmulas de Ib
| Circuito | Fórmula | Notas |
|---|---|---|
| Monofásico (fase + neutro) | Ib = P ÷ (U · cosφ), U = 230 V | P em W; corrente em A |
| Trifásico equilibrado | Ib = P ÷ (√3 · U · cosφ), U = 400 V | √3 ≈ 1,732 |
| Motor (potência útil Pu) | Pabsorvida = Pu ÷ η | η é o rendimento; depois aplica-se a fórmula acima |
| A partir de potência aparente | Ib = S ÷ U (mono) ou S ÷ (√3 · U) (tri) | S em VA |
Exemplo resolvido · aquecedor monofásico
Um aquecedor de 2300 W a 230 V, cosφ = 1.
- Ib = 2300 ÷ (230 × 1) = 10 A.
- A corrente é praticamente constante, sem picos de arranque: o cálculo de Ib dá o valor de projeto.
Exemplo resolvido · motor trifásico
Um motor trifásico de 4 kW de potência útil, rendimento 0,85, cosφ = 0,8, alimentado a 400 V.
- Potência absorvida: 4000 ÷ 0,85 = 4705,9 W.
- Ib = 4705,9 ÷ (1,732 × 400 × 0,8) = 4705,9 ÷ 554,2 = 8,49 A.
- No arranque a corrente é várias vezes superior; essa corrente temporária não é Ib, mas condiciona a escolha da curva do disjuntor (capítulo 13).
Exemplo resolvido · potência contratada
Uma habitação tem 6,9 kVA de potência contratada, em monofásico a 230 V.
- Ib máxima = 6900 ÷ 230 = 30 A.
- O aparelho geral de corte e proteção à entrada da instalação será dimensionado para uma corrente que corresponda a esta potência (30 A neste caso), e todos os cabos a jusante são dimensionados para as suas próprias cargas, não para os 30 A.
- Com 3,45 kVA, a mesma conta dá 3450 ÷ 230 = 15 A.
Fatores de utilização e de simultaneidade
Raramente todas as cargas funcionam ao mesmo tempo e à potência máxima. Na distribuição, a potência a considerar para um quadro ou coluna é a soma das potências instaladas multiplicada por fatores de utilização (as cargas não trabalham à potência nominal) e de simultaneidade (nem todas trabalham ao mesmo tempo). Esses fatores são indicados em tabelas das regras técnicas e da prática de projeto, e são menores que 1. Num circuito final (um só equipamento ou um conjunto pequeno de tomadas) considera-se, por segurança, a corrente máxima possível, sem redução.
Exemplo resolvido · potência de um quadro com simultaneidade
Um quadro alimenta três circuitos com 3,6 kW, 2,2 kW e 1,0 kW (cosφ = 1) e o projeto indica um fator de simultaneidade global de 0,8.
- Potência instalada: 3,6 + 2,2 + 1,0 = 6,8 kW.
- Potência de cálculo: 6,8 × 0,8 = 5,44 kW.
- Ib do quadro = 5440 ÷ 230 = 23,65 A.
- Os circuitos finais continuam a ser dimensionados com a corrente máxima de cada um: 15,65 A, 9,57 A e 4,35 A.
5. Cabos e condutores: tipos, designações e acessórios
O condutor é o elemento metálico que transporta a corrente (cobre ou alumínio); o cabo é o conjunto de condutores com isolamento e, se existir, bainha. Nas instalações interiores correntes usa-se cobre; o alumínio aparece em secções maiores, na distribuição, e exige terminais próprios.
Designações harmonizadas dos cabos
Muitos cabos de instalação têm uma designação codificada, em que cada letra ou grupo de letras diz uma característica. Lê-se da esquerda para a direita:
| Código | Significado |
|---|---|
| H | cabo conforme norma harmonizada europeia |
| 07 | tensão nominal 450/750 V (05 corresponde a 300/500 V) |
| V | isolamento em PVC |
| R (depois do traço) | alma de cobre rígida multifilar (conjunto de fios) |
| R (logo a seguir à tensão) | isolamento em borracha, como em H07RN-F |
| U | alma de cobre rígida de fio único (maciça) |
| K | alma de cobre flexível, muitos fios finos |
| V (segundo V) | bainha exterior em PVC |
| F | flexível para aplicação móvel (como nos cabos de extensão) |
| N | bainha de policloropreno (neoprene) |
Exemplos: H07V-U é um condutor de cobre maciço isolado a PVC, 450/750 V, para instalação fixa em tubo; H07V-R é o equivalente multifilar; H07V-K é flexível, usado em quadros e armários; H05VV-F é um cabo flexível com bainha de PVC para ligação de aparelhos; H07RN-F é um cabo flexível com bainha de borracha, apto para ambientes exigentes, como exteriores e estaleiros.
Cabos de energia com bainha, para canalizações fixas
Para canalizações em esteira, enterradas ou à vista, usam-se cabos com bainha e tensão nominal de 0,6/1 kV, de isolamento em PVC (designação nacional tipo VV) ou em polietileno reticulado (designação tipo XV, o XLPE). O isolamento em polietileno reticulado suporta uma temperatura de serviço mais elevada do que o PVC, e por isso admite correntes maiores para a mesma secção. Em edifícios com afluência de público e vias de evacuação, a escolha deve privilegiar cabos de baixa emissão de fumo e sem halogéneos (LSZH, ou LSOH), cuja exigência é fixada pelas regras técnicas e pelos regulamentos de segurança contra incêndio aplicáveis ao edifício.
Código de cores e identificação
- Condutor de proteção (PE): bicolor verde e amarelo. Não se usa para mais nada.
- Neutro: azul-claro.
- Fases: castanho, preto e cinzento (nos trifásicos), podendo a fase única ser de uma qualquer destas cores, exceto as reservadas.
- Em cabos multicondutores, a designação pode indicar a presença do condutor de proteção pela letra G (com condutor verde e amarelo) ou X (sem ele), seguida do número de condutores e da secção. Exemplo: 3G2,5 é um cabo de três condutores de 2,5 mm² com condutor de proteção verde e amarelo.
Secções normalizadas
As secções nominais de condutores em instalações têm uma série normalizada (mm²):
| 1,5 | 2,5 | 4 | 6 | 10 | 16 | 25 | 35 | 50 | 70 | 95 | 120 | 150 | 185 | 240 | 300 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
Não existe cabo de 3 mm² nem de 8 mm²: quando o cálculo dá um valor intermédio, sobe-se para a secção normalizada seguinte. A secção mínima de cada circuito consta do Quadro 52J das RTIEBT (cobre, potência e iluminação, instalações fixas: 1,5 mm²) e, em habitação, da secção 801.5.8: iluminação 1,5 mm²; tomadas 2,5 mm²; termoacumuladores 2,5 mm²; máquinas de lavar e de secar roupa ou de lavar loiça 2,5 mm²; fogões 4 mm²; climatização ambiente 2,5 mm².
Acessórios de cabos
| Acessório | Função |
|---|---|
| Terminais (de olhal, de pino, de forquilha) | ligar o condutor ao aparelho sem fios soltos |
| Ponteiras (ferrules) | evitar que os fios de um condutor flexível se desfiem no borne |
| Conectores e bornes de mola | derivar e emendar condutores em caixa |
| Passa-cabos e bucins | fixar o cabo à entrada de um quadro ou caixa, mantendo o grau de proteção |
| Abraçadeiras e braçadeiras | fixar cabos às paredes e estruturas, a espaços regulares |
| Identificadores | marcar os cabos com a designação do circuito |
| Manga termorretrátil | reforçar o isolamento de uma junção |
Exemplo resolvido · ler a designação de um cabo
Num orçamento lê-se "H07V-K 1x2,5 azul" e "H07RN-F 3G1,5".
- H07V-K 1x2,5 azul: cabo harmonizado (H), 450/750 V (07), isolamento PVC (V), alma flexível (K), um condutor de 2,5 mm², cor azul: é um neutro flexível para ligar num quadro.
- H07RN-F 3G1,5: cabo harmonizado, 450/750 V, isolamento de borracha (R), bainha de neoprene (N), flexível (F), três condutores com condutor verde e amarelo (G), 1,5 mm² cada: serve, por exemplo, para uma extensão ou um aparelho móvel exterior.
- Nenhum dos dois é o cabo adequado para embeber diretamente na parede: sem tubo, essa função pede um cabo com bainha própria para canalização fixa.
6. Proteção mecânica dos condutores: tubos, calhas e acessórios
Os condutores isolados não podem andar soltos: precisam de proteção mecânica contra choques, esmagamento, humidade, roedores e abrasão, e de um percurso ordenado que permita enfiar e substituir cabos sem partir paredes. É para isso que existem os tubos e outros sistemas de caminhos de cabos.
Tipos de tubos
| Tipo | Características | Utilização típica |
|---|---|---|
| Tubo rígido de PVC (família VD) | liso, rígido, em varas, com curvas e ligações coladas ou de encaixe | instalações à vista (aparentes), em locais secos e húmidos |
| Tubo flexível corrugado (ondulado) de PVC ou polietileno | ondulado, dobra-se à mão, fornecido em rolos | instalações embebidas em paredes e lajes; as designações comerciais variam consoante a gama |
| Tubo metálico rígido ou flexível | resistência mecânica elevada, pode funcionar como proteção contra choques mecânicos | locais industriais, ambientes sujeitos a pancadas ou a calor; com ligação equipotencial quando a regra o exige |
| Tubo para enterrar (dupla parede) | corrugado exterior, liso interior, resistente ao esmagamento | canalizações enterradas e atravessamentos exteriores |
Os diâmetros nominais exteriores mais usados são 16, 20, 25, 32, 40, 50 e 63 mm. O diâmetro interior real depende do material e da espessura de parede, e é dado no catálogo do fabricante.
Acessórios de tubos
| Acessório | Função |
|---|---|
| Curvas e uniões (coladas ou de encaixe) | mudar de direção e ligar varas de tubo sem estrangular a passagem |
| Caixas de derivação e de passagem | derivar circuitos e permitir a enfiagem e a inspeção |
| Caixas de aparelhagem | alojar tomadas e interruptores |
| Bucins e entradas estanques | manter o grau de proteção IP à entrada das caixas |
| Abraçadeiras e braçadeiras de fixação | prender o tubo à estrutura a intervalos regulares |
| Tampões | fechar tubos de reserva ou sem uso |
| Fita-guia (enfiador) | puxar os cabos através do tubo |
Os acessórios escolhem-se pelo diâmetro do tubo, pelo material e pelo grau de proteção IP exigido no local.
Outros caminhos de cabos
- Calhas (molduras) de PVC ou metal, para instalações à vista em escritórios e comércio; podem ter divisórias para separar energia de comunicações.
- Rodapés técnicos com condutas integradas.
- Esteiras e bandejas (perfuradas ou de varão) para grandes quantidades de cabos de energia, com tampa quando há risco de queda de objetos.
- Caminhos de cabos enterrados em vala, com tubo de dupla parede, fita sinalizadora acima e distância ao pavimento definida em projeto.
Graus de proteção: IP e IK
A proteção que um invólucro oferece (caixa, quadro, tubo, aparelho) exprime-se por dois códigos.
Código IP (EN 60529): duas cifras. A primeira indica a proteção contra corpos sólidos e o acesso a partes perigosas; a segunda, contra a água.
| 1.ª cifra | Proteção | 2.ª cifra | Proteção |
|---|---|---|---|
| 2 | dedo de ensaio (objetos de mais de 12,5 mm) | 4 | projeções de água em todas as direções |
| 4 | objetos de mais de 1 mm | 5 | jatos de água |
| 5 | poeiras (protegido) | 7 | imersão temporária |
| 6 | estanque às poeiras | 8 | imersão contínua em condições definidas |
Código IK (EN 62262): dois dígitos, de IK00 a IK10, para a resistência a choques mecânicos. Quanto maior o número, maior a energia de impacto suportada: por exemplo, IK07 corresponde a 2 joules, IK08 a 5 joules, IK09 a 10 joules e IK10 a 20 joules.
Regras de instalação de tubos
- Traçado simples: horizontal ou vertical, evitando oblíquos; assim sabe-se por onde passam os cabos.
- Curvas largas, nunca vincos; muitas curvas dificultam a enfiagem.
- Caixas de derivação e de passagem acessíveis nos pontos de derivação e a distâncias adequadas, para enfiar e inspecionar.
- Estanquicidade em locais húmidos: uniões e entradas em caixa com grau de proteção adequado.
- Não misturar circuitos de potência com comunicações no mesmo tubo, a menos que o sistema o permita e preveja separação.
- Fixação a intervalos regulares e dilatação prevista em tubos longos à vista.
- Reserva: o tubo deve permitir enfiar cabos adicionais no futuro. Por isso não se enche até ao limite (capítulo 10).
Exemplo resolvido · escolher a proteção mecânica de um percurso
Um cabo de iluminação passa por uma parede de alvenaria (embutido), depois por uma garagem húmida (à vista, risco de choque de veículos).
- Na parede embutida: tubo flexível corrugado embebido, simples e económico, com a secção calculada (capítulo 10).
- Na garagem à vista: tubo rígido (de PVC ou metálico) com IK elevado e caixas estanques (IP de pelo menos IP55), fixo com abraçadeiras.
- A transição faz-se numa caixa de derivação estanque, com entradas que mantêm o IP.
- O cabo mantém-se o mesmo nos dois troços: só muda o sistema de proteção mecânica.
7. Modos de instalação e intensidades admissíveis
A corrente que um cabo pode transportar sem aquecer demais chama-se intensidade de corrente admissível, Iz. Depende do material do condutor, do isolamento (que define a temperatura máxima), da secção e de como o cabo é instalado: um cabo ao ar livre arrefece melhor do que o mesmo cabo dentro de uma parede.
Temperatura máxima e isolamento
- Isolamento em PVC: temperatura máxima do condutor em serviço de 70 °C.
- Isolamento em polietileno reticulado (XLPE) ou borracha de etileno-propileno: 90 °C. Por isso, para a mesma secção, um cabo XLPE transporta mais corrente.
- Quanto mais quente o ambiente e quanto mais cabos juntos, menos calor o cabo consegue dissipar, e menor é a corrente que pode transportar.
Métodos de referência
As tabelas de intensidades admissíveis estão organizadas por método de referência, designados por letras. Resumo dos mais usados:
| Método | Descrição |
|---|---|
| A | condutores isolados em tubo, em parede termicamente isolante |
| A2 | cabo multicondutor em tubo, em parede termicamente isolante |
| B | condutores isolados em tubo, à vista ou embebido em alvenaria |
| B2 | cabo multicondutor em tubo, à vista ou embebido em alvenaria |
| C | cabo fixado diretamente sobre uma parede ou teto |
| D | cabo enterrado, em tubo ou diretamente |
| E | cabo multicondutor ao ar livre, afastado de paredes, ou em esteira perfurada |
| F e G | cabos unipolares ao ar livre, em contacto ou espaçados |
Quando o modo real de instalação não coincide exatamente com um método de referência, escolhe-se o mais próximo e, na dúvida, o mais desfavorável.
Nas RTIEBT (Quadro 52H) os métodos designam-se A, A2, B, B2, C, D, E/F e G. O que as normas CEI mais recentes chamam A1 e B1 corresponde aos métodos A e B das RTIEBT. Os valores de Iz0 do material de trabalho são os dos Quadros 52-C1 (PVC, dois condutores carregados) e 52-C3 (PVC, três condutores carregados), coluna do método B; os fatores de temperatura estão no Quadro 52-D1 e os de agrupamento no Quadro 52-E1.
Número de condutores carregados
Os valores de Iz diferem consoante o circuito tenha 2 condutores carregados (monofásico: fase e neutro) ou 3 condutores carregados (trifásico equilibrado, em que o neutro quase não conduz). Com 3 condutores a trabalhar juntos, aquecem mais, e a corrente admissível por condutor desce.
Fatores de correção
A tabela de Iz refere-se a condições-padrão (ambiente de 30 °C no ar, um só circuito). Quando a realidade difere, aplica-se:
Iz = Iz0 × kT × kG
- Iz0: valor tabelado para a secção e o método de referência.
- kT: fator de correção para a temperatura ambiente (menor que 1 se o ambiente é mais quente do que o de referência).
- kG: fator de agrupamento de circuitos (menor que 1 quando há vários circuitos juntos, porque se aquecem uns aos outros).
- Outros fatores: resistividade térmica do solo e profundidade, em canalizações enterradas.
Estes fatores constam de tabelas das RTIEBT. Aqui usam-se como dados do problema.
Dados de trabalho para os exemplos
Para os exemplos e exercícios que se seguem, usa-se esta tabela de Iz0 de cabos de cobre com isolamento em PVC, método B (condutores isolados em tubo), como dados do enunciado:
| Secção (mm²) | 1,5 | 2,5 | 4 | 6 | 10 | 16 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Iz0, 2 condutores carregados (A) | 17,5 | 24 | 32 | 41 | 57 | 76 |
| Iz0, 3 condutores carregados (A) | 15,5 | 21 | 28 | 36 | 50 | 68 |
Na prática, consulta-se sempre a tabela em vigor para o método e o isolamento reais.
Exemplo resolvido · aplicar fatores de correção
Cabo de 4 mm², 2 condutores carregados, método B, num ambiente a 35 °C com mais um circuito no mesmo tubo. O enunciado fornece kT = 0,94 e kG = 0,80.
- Iz0 = 32 A (da tabela de trabalho).
- Fator conjunto: 0,94 × 0,80 = 0,752.
- Iz = 32 × 0,752 = 24,06 A.
- O cabo, que na tabela transportava 32 A, só pode transportar 24,06 A nestas condições. Ignorar os fatores levaria a escolher uma proteção de 32 A, que deixaria o cabo a 33% acima do limite.
8. Dimensionar a secção do condutor
O critério fundamental para escolher a secção é a corrente admissível. O raciocínio liga a corrente de serviço, a proteção e o cabo, nesta ordem:
Ib ≤ In ≤ Iz
- Ib: corrente de serviço (capítulo 4).
- In: corrente estipulada do aparelho de proteção, escolhida da série normalizada (6, 8, 10, 13, 16, 20, 25, 32, 40, 50, 63 A, e ainda 80, 100 e 125 A, para disjuntores de uso doméstico).
- Iz: corrente admissível do cabo, já com fatores de correção.
A proteção é escolhida primeiro (In ≥ Ib) e o cabo depois (Iz ≥ In). Se fosse o contrário, o cabo seria "esticado" até ao limite sem proteção que o defendesse.
Método em seis passos
- Calcular Ib.
- Escolher In, o primeiro valor da série igual ou superior a Ib (e adequado à carga).
- Identificar o método de referência, o número de condutores carregados e os fatores kT e kG.
- Calcular a corrente tabelada mínima: Iz0 ≥ In ÷ (kT · kG).
- Escolher a primeira secção normalizada cujo Iz0 satisfaça o passo 4.
- Verificar a queda de tensão (capítulo 9) e os restantes critérios; se falhar, subir a secção.
Exemplo resolvido · circuito de uma placa de cozinha
Placa vitrocerâmica de 3,6 kW, 230 V, cosφ = 1, cabo H07V-R em tubo (método B, 2 condutores carregados), ambiente a 35 °C (kT = 0,94), partilhando o tubo com um outro circuito (kG = 0,80).
- Ib = 3600 ÷ 230 = 15,65 A.
- In: o primeiro valor da série ≥ 15,65 A é 16 A; mas uma placa tem utilização forte e o projeto adotou 20 A, também normalizado. Tomamos In = 20 A.
- Fator conjunto: 0,94 × 0,80 = 0,752.
- Iz0 mínimo: 20 ÷ 0,752 = 26,6 A.
- Candidatos (tabela de trabalho, 2 condutores): 2,5 mm² dá 24 A < 26,6 A (não serve); 4 mm² dá 32 A ≥ 26,6 A (serve). Secção escolhida: 4 mm².
- Iz = 32 × 0,752 = 24,06 A ≥ In = 20 A: Ib (15,65) ≤ In (20) ≤ Iz (24,06) verifica-se.
Se tivéssemos escolhido a secção só por Ib = 15,65 A e sem fatores, 2,5 mm² (Iz0 = 24 A) pareceria suficiente. Com os fatores, Iz desce para 24 × 0,752 = 18,05 A, inferior ao In = 20 A: o cabo ficaria desprotegido. Este é o erro mais frequente em dimensionamento.
Exemplo resolvido · circuito trifásico de um motor
Motor trifásico com Ib = 8,49 A (capítulo 4), disjuntor-motor/disjuntor de In = 10 A, cabo H07V-R em tubo (método B, 3 condutores carregados), ambiente a 30 °C e circuito sozinho (kT = kG = 1).
- Iz0 mínimo = 10 ÷ 1 = 10 A.
- Tabela de trabalho com 3 condutores carregados: 1,5 mm² dá 15,5 A ≥ 10 A. Secção: 1,5 mm².
- Verificação: 8,49 ≤ 10 ≤ 15,5 A. Verifica-se.
- O Quadro 52J das RTIEBT fixa 1,5 mm² como secção mínima em cobre para circuitos de potência em instalações fixas: 1,5 mm² cumpre.
- Falta a queda de tensão (capítulo 9) e a verificação do arranque.
Secção do condutor neutro e de proteção
- Em circuitos monofásicos, o neutro tem a mesma secção que a fase.
- Em circuitos trifásicos equilibrados de secção grande, as RTIEBT admitem, em certas condições, neutro de secção reduzida; com cargas não lineares (muita eletrónica, harmónicas) o neutro pode ficar mais carregado do que as fases e a redução não é admissível.
- A secção do condutor de proteção relaciona-se com a da fase (capítulo 16).
9. Queda de tensão
Ao longo de um cabo há uma queda de tensão ΔU: a tensão no fim do circuito é menor do que à entrada, porque o cabo tem resistência. Com quedas excessivas, as lâmpadas perdem luz, os motores aquecem e arrancam mal, e os aparelhos eletrónicos funcionam fora da gama. As RTIEBT fixam o limite máximo de queda de tensão entre a origem da instalação e qualquer ponto de utilização, em percentagem da tensão nominal, em função do tipo de utilização (iluminação ou outras) e da alimentação. Pelo Quadro 52O, numa instalação alimentada diretamente pela rede pública de baixa tensão o limite é de 3% na iluminação e de 5% nos outros usos; numa instalação alimentada por um posto de transformação MT/BT, de 6% e de 8%.
Fórmulas (resistência dominante)
| Circuito | ΔU (V) | ΔU (%) |
|---|---|---|
| Monofásico | 2 · ρ · L · Ib · cosφ ÷ S | ΔU ÷ 230 × 100 |
| Trifásico | √3 · ρ · L · Ib · cosφ ÷ S | ΔU ÷ 400 × 100 |
- ρ: resistividade do condutor. Nos exemplos usa-se 0,0225 Ω·mm²/m para o cobre em serviço (a 20 °C é cerca de 0,0172, mas o condutor aquecido tem resistividade maior).
- L: comprimento do cabo (m) até à carga. No monofásico o fator 2 conta a ida (fase) e o retorno (neutro).
- S: secção (mm²). Ib: corrente de serviço (A).
- Para secções até cerca de 50 mm², a reatância do cabo é pequena e pode desprezar-se; em secções grandes, entra-se com a reatância dada pelo fabricante.
Exemplo resolvido · tomadas, comprimento moderado
Circuito de tomadas com cabo de 2,5 mm², L = 25 m, Ib = 16 A, cosφ = 1, monofásico.
- ΔU = 2 × 0,0225 × 25 × 16 × 1 ÷ 2,5 = 18 ÷ 2,5 = 7,2 V.
- ΔU% = 7,2 ÷ 230 × 100 = 3,13%.
- Com um limite de 5% (valor dado no enunciado), o circuito cumpre.
Exemplo resolvido · o cabo longo que falha
Mesmo circuito, mas com L = 45 m.
- ΔU = 2 × 0,0225 × 45 × 16 ÷ 2,5 = 32,4 ÷ 2,5 = 12,96 V, ou seja, 5,63%.
- Com o limite de 5%, não cumpre.
- Passa-se à secção normalizada seguinte, 4 mm²: ΔU = 32,4 ÷ 4 = 8,1 V = 3,52%. Cumpre.
- O disjuntor mantém-se; o que mudou foi o cabo. A queda de tensão foi, aqui, o critério que decidiu a secção.
Exemplo resolvido · iluminação
Circuito de iluminação com cabo de 1,5 mm², L = 30 m, Ib = 5 A, cosφ = 1.
- ΔU = 2 × 0,0225 × 30 × 5 ÷ 1,5 = 6,75 ÷ 1,5 = 4,5 V.
- ΔU% = 4,5 ÷ 230 × 100 = 1,96%.
- Com o limite de 3% para iluminação dado no enunciado, cumpre.
Exemplo resolvido · circuito trifásico
Motor trifásico, Ib = 8,49 A, cosφ = 0,8, cabo de 2,5 mm², L = 60 m.
- ΔU = √3 × 0,0225 × 60 × 8,49 × 0,8 ÷ 2,5 = 15,88 ÷ 2,5 = 6,35 V.
- ΔU% = 6,35 ÷ 400 × 100 = 1,59%.
- Com 1,5 mm² seria 10,59 V, ou 2,65%; ambas as hipóteses cumprem um limite de 5%, mas o arranque do motor (corrente várias vezes superior) agrava a queda, pelo que se prefere a folga.
Secção mínima pela queda de tensão
Isolando S na fórmula obtém-se a secção mínima:
S ≥ 2 · ρ · L · Ib · cosφ ÷ ΔUmáx (monofásico)
Exemplo resolvido · secção mínima por queda de tensão
Circuito monofásico da placa (Ib = 15,65 A, cosφ = 1) com L = 22 m e limite de 5% (11,5 V).
- S ≥ 2 × 0,0225 × 22 × 15,65 ÷ 11,5 = 15,50 ÷ 11,5 = 1,35 mm².
- Pelo critério da queda de tensão bastaria 1,5 mm²; mas a corrente admissível pediu 4 mm² (capítulo 8). A secção final é a maior: 4 mm².
Queda de tensão total
A queda de tensão soma-se ao longo da cadeia de circuitos entre a origem da instalação e o ponto de utilização: circuito de distribuição, quadro parcial, circuito final. O limite do Quadro 52O das RTIEBT conta a partir da origem da instalação. A entrada, que vai da portinhola à origem da instalação, tem o seu limite próprio de 1,5% nas instalações individuais (secção 803.2.4.4.2) e não entra nesta soma.
Exemplo resolvido · cadeia de quedas
Numa moradia, o circuito que liga o quadro geral a um quadro parcial tem 1,2% de queda, e o circuito de tomadas mais longo, ligado a esse quadro parcial, 3,13%.
- Total: 1,2 + 3,13 = 4,33%.
- Compara-se com o limite do Quadro 52O para outros usos, em alimentação pela rede pública: 5%. Como 4,33% ≤ 5%, cumpre, com 0,67% de folga.
- Se o projeto impusesse um limite mais apertado, de 4%, o circuito teria de ser revisto.
10. Dimensionar a secção dos tubos
Escolhido o cabo, falta saber que tubo o leva. O tubo tem de acolher todos os condutores do troço com folga para os enfiar e para os dissipar calor, e com margem para futuras ampliações. A regra é limitar a ocupação: a soma das áreas das secções transversais dos condutores (com isolamento) não pode exceder uma fração da área interior do tubo.
Método
- Obter do catálogo o diâmetro exterior de cada condutor e calcular a área: A = π · d² ÷ 4.
- Somar as áreas de todos os condutores que passam no tubo (incluindo neutro e proteção).
- Obter o diâmetro interior do tubo e calcular a área interior.
- Verificar: soma das áreas ≤ taxa de ocupação × área interior.
- Escolher o menor diâmetro normalizado (16, 20, 25, 32, 40, 50, 63 mm) que verifique.
As RTIEBT só fixam uma taxa de ocupação para as colunas (secção 803.4.5: 20% da secção interior da conduta, ou 40% quando se prevê o aumento de potência). Para os restantes circuitos, a ocupação e o diâmetro dos tubos seguem as indicações do fabricante do tubo e do projeto. Nos exemplos usa-se 40% como valor de trabalho, dado no enunciado, e noutros contextos usa-se a tabela do fabricante do número máximo de condutores por tubo.
Exemplo resolvido · cinco condutores de 2,5 mm²
Condutores H07V-R de 2,5 mm² com diâmetro exterior de 3,6 mm (dado do catálogo). Dois circuitos monofásicos partilham o tubo e o condutor de proteção: 2 fases, 2 neutros e 1 PE, ou seja, 5 condutores no total. Tubo de 16 mm com diâmetro interior 12,6 mm, ou de 20 mm com 16,9 mm (dados do fabricante).
- Área de cada condutor: π × 3,6² ÷ 4 = 10,18 mm².
- Soma: 5 × 10,18 = 50,89 mm².
- Tubo de 16 mm: área interior = π × 12,6² ÷ 4 = 124,69 mm²; 40% = 49,88 mm². Como 50,89 > 49,88, não cumpre.
- Tubo de 20 mm: área interior = π × 16,9² ÷ 4 = 224,32 mm²; 40% = 89,73 mm². Como 50,89 ≤ 89,73, cumpre.
- Tubo escolhido: 20 mm. O de 16 mm falha por apenas 1 mm²; é o tipo de caso em que se sobe sem hesitar, porque uma enfiagem difícil danifica o isolamento.
Exemplo resolvido · condutores de secções diferentes
Nove condutores num troço: 6 condutores de 1,5 mm² (diâmetro exterior 3,0 mm) e 3 de 2,5 mm² (3,6 mm).
- Área de cada condutor de 1,5 mm²: π × 3,0² ÷ 4 = 7,07 mm²; seis dão 42,41 mm².
- Cada condutor de 2,5 mm² tem 10,18 mm²; três dão 30,54 mm².
- Soma: 42,41 + 30,54 = 72,95 mm².
- Tubo de 20 mm (interior 16,9 mm): 40% da área = 89,73 mm² ≥ 72,95. Cumpre; o tubo de 16 mm (49,88 mm²) não.
- Escolha: tubo de 20 mm.
Condições do percurso
- Quanto mais longo e com mais curvas o percurso, mais difícil é enfiar: nestes casos escolhe-se um tubo maior ou colocam-se caixas intermédias.
- Em troços longos à vista, prevê-se a dilatação térmica.
- Num tubo enterrado, a proteção contra esmagamento é determinante e usa-se tubo de dupla parede.
- O agrupamento de vários circuitos no mesmo tubo reduz a corrente admissível (fator kG, capítulo 7). Por vezes é mais barato separar circuitos em tubos distintos do que subir a secção de todos os cabos.
11. Proteção contra sobrecargas
Uma sobrecarga é uma sobreintensidade num circuito são, ou seja, uma corrente acima da corrente de serviço, mas ainda de valor moderado: demasiados aparelhos ligados ao mesmo circuito, um motor bloqueado, uma extensão com carga a mais. A sobrecarga é lenta: o cabo aquece progressivamente. O perigo é o cabo ultrapassar a temperatura máxima do isolamento, que degrada e acaba por falhar. A proteção contra sobrecargas deve cortar o circuito antes de isso acontecer.
As duas condições
A proteção contra sobrecargas dimensiona-se verificando duas condições simultâneas:
- Ib ≤ In ≤ Iz, a condição fundamental que já usámos no capítulo 8.
- I2 ≤ 1,45 · Iz, onde I2 é a corrente que assegura efetivamente o funcionamento do aparelho de proteção dentro do tempo convencional.
A primeira diz que o aparelho não dispara em serviço normal (In ≥ Ib) e que, se a corrente se aproximar do limite do cabo, o aparelho já está a atuar (In ≤ Iz). A segunda diz que, mesmo no pior caso de sobrecarga lenta, o aparelho atua antes de o cabo ultrapassar em mais de 45% a sua capacidade.
I2 conforme o aparelho
| Aparelho | I2 (corrente de funcionamento convencional) | Consequência |
|---|---|---|
| Disjuntor de uso doméstico (EN 60898-1) | 1,45 · In | a condição 2 fica automaticamente cumprida se In ≤ Iz |
| Fusível gG de calibres correntes (16 A a 63 A, norma de produto CEI 60269) | 1,6 · In | exige In ≤ 1,45 · Iz ÷ 1,6 ≈ 0,906 · Iz |
| Disjuntores industriais (EN 60947-2) | valor de regulação do disparador térmico | verificar o valor regulado, não o calibre máximo |
Isto explica por que razão um fusível exige mais folga no cabo do que um disjuntor com o mesmo calibre. A secção 433.2 das RTIEBT define I2 como a corrente convencional de funcionamento e fixa o limite I2 ≤ 1,45 · Iz; os fatores 1,45 · In (disjuntores) e 1,6 · In (fusíveis gG) vêm das normas de produto.
Em habitação, as RTIEBT (secção 801.5.5.1) exigem disjuntores na proteção contra sobreintensidades; só se admitem fusíveis nas canalizações que alimentam outros quadros ou um único aparelho de potência elevada, e na sinalização e medição.
Exemplo resolvido · disjuntor ou fusível, o mesmo cabo
Um cabo com Iz = 27 A e uma carga com Ib = 21 A. Compara-se disjuntor de 25 A e fusível gG de 25 A.
- Condição 1: Ib = 21 ≤ In = 25 ≤ Iz = 27. Verifica-se para ambos.
- Disjuntor: I2 = 1,45 × 25 = 36,25 A. Limite: 1,45 × 27 = 39,15 A. 36,25 ≤ 39,15: cumpre.
- Fusível gG: I2 = 1,6 × 25 = 40 A. Limite: 39,15 A. 40 > 39,15: não cumpre.
- Solução com fusível: passar a um gG de 20 A, que, no entanto, é inferior a Ib = 21 A e dispararia em serviço normal. Portanto, o fusível exige um cabo de maior secção (maior Iz). O disjuntor serve com o cabo atual.
Exemplo resolvido · o cabo da placa, com fatores
Cabo de 4 mm² com Iz = 24,06 A (capítulo 7), proteção por disjuntor de 20 A, Ib = 15,65 A.
- Condição 1: 15,65 ≤ 20 ≤ 24,06. Verifica-se.
- I2 = 1,45 × 20 = 29 A.
- Limite: 1,45 × 24,06 = 34,89 A. 29 ≤ 34,89: cumpre.
- A proteção contra sobrecarga está garantida.
Onde se coloca a proteção
A proteção contra sobrecargas coloca-se no início do circuito e sempre que a corrente admissível diminui (mudança de secção, de modo de instalação ou de ambiente), a menos que um aparelho a montante já proteja o troço. As RTIEBT admitem exceções, como as canalizações a jusante de um dispositivo que já as protege contra sobrecargas, ou as não suscetíveis de correntes de sobrecarga (secção 473.1.2), e recomendam a não colocação de proteção contra sobrecargas nos circuitos cuja abertura inesperada possa originar perigos, por exemplo a excitação de máquinas rotativas ou a alimentação de eletroímanes de elevação de cargas (secção 473.1.4). Nesses casos é prática usar sinalização ou alarme em vez de corte.
Um aparelho só para sobrecarga e curto-circuito
Os disjuntores magnetotérmicos fazem as duas funções: o disparador térmico (bilâmina) trata das sobrecargas; o disparador magnético (eletroíman) trata dos curtos-circuitos. Os fusíveis gG também protegem contra ambas, com a sua curva tempo-corrente. Já os fusíveis aM (acompanhamento de motores) só protegem contra curto-circuito e exigem proteção térmica separada contra a sobrecarga.
12. Proteção contra curtos-circuitos
O curto-circuito é a ligação direta, de impedância desprezável, entre dois condutores de potenciais diferentes (fase e neutro, fase e fase, fase e terra). A corrente de defeito (Icc) é muito elevada, pode atingir milhares de amperes, e a energia térmica e eletrodinâmica que liberta em milésimos de segundo pode vaporizar condutores e provocar incêndio.
A proteção contra curto-circuito tem de verificar três exigências:
- Poder de corte do aparelho ≥ Icc máxima no ponto da instalação onde está.
- Disparo rápido para a Icc mínima (a do defeito mais longínquo), para que o aparelho realmente atue.
- Energia limitada: a energia que passa até ao corte não pode aquecer o cabo além do admissível, ou seja, I²t ≤ k² · S².
Poder de corte e Icc máxima
A corrente de curto-circuito máxima ocorre no início do circuito, onde a impedância a montante é menor. O poder de corte do aparelho (capítulo 13) tem de ser igual ou superior a esse valor. O valor de Icc na origem da instalação é indicado pelo operador da rede ou calculado a partir da impedância da fonte.
A corrente de curto-circuito diminui ao longo do circuito, porque o cabo acrescenta resistência.
Exemplo resolvido · a Icc a diminuir ao longo de um cabo
Na origem de um circuito a corrente de curto-circuito fase-neutro é 4000 A (dado do operador). Cabo de 1,5 mm², L = 20 m, ρ = 0,0225 Ω·mm²/m.
- Impedância da fonte: 230 ÷ 4000 = 0,0575 Ω.
- Resistência do laço no cabo (ida e volta): 2 × 0,0225 × 20 ÷ 1,5 = 0,60 Ω.
- Impedância total: 0,0575 + 0,60 = 0,6575 Ω.
- Icc no fim do cabo: 230 ÷ 0,6575 = 350 A (arredondado).
- Conclusão: a corrente passou de 4000 A para cerca de 350 A. O aparelho tem de ter poder de corte para os 4000 A à sua entrada e disparar rapidamente com 350 A no pior ponto.
Icc mínima e comprimento máximo protegido
O defeito mais difícil de detetar é o curto-circuito (ou o defeito à terra) no fim do cabo mais longo, onde Icc é mínima. O disparador magnético do disjuntor precisa que a corrente chegue ao seu limiar de disparo instantâneo. A secção 434.3.2 das RTIEBT exige que o corte do curto-circuito mais afastado se faça antes de o cabo atingir o limite térmico. Para o verificar, usa-se aqui um método simplificado de trabalho, que as RTIEBT não impõem (é um método convencional): considera-se que, na origem, a tensão disponível é 80% da tensão simples, e a resistividade ρ é a dada no enunciado.
Icc mín = 0,8 · U0 · S ÷ (ρ · 2L) (fase-neutro, monofásico)
e o comprimento máximo de cabo protegido por um disjuntor de limiar magnético Im é
Lmáx = 0,8 · U0 · S ÷ (2 · ρ · Im)
Nas verificações reais, calcula-se a Icc mínima com a resistividade do condutor aquecido pelo defeito, ou usam-se as tabelas do fabricante, e o comprimento máximo obtido é inferior ao dos exemplos.
Exemplo resolvido · comprimento máximo protegido
Disjuntor C10 (disparo magnético entre 5 e 10 vezes In, ou seja, no máximo em 100 A) e cabo de 2,5 mm².
- Im (pior caso) = 10 × 10 = 100 A.
- Lmáx = 0,8 × 230 × 2,5 ÷ (2 × 0,0225 × 100) = 460 ÷ 4,5 = 102,2 m.
- Um cabo mais longo do que ~102 m já não garante o disparo magnético em curto-circuito no fim da linha: usa-se curva B (limiar de disparo mais baixo), aumenta-se a secção (que faz subir a Icc mínima) ou encurta-se o traçado. Atenção: um dispositivo diferencial não resolve este problema. No curto-circuito entre fase e neutro as correntes continuam a somar zero no toroide e o diferencial não atua; o diferencial só acrescenta proteção no defeito entre fase e terra, que é um caso diferente.
Exemplo resolvido · curva B contra curva C num cabo longo
Cabo de 1,5 mm² e disjuntor de 10 A.
- Curva B: Im máx = 5 × 10 = 50 A. Lmáx = 0,8 × 230 × 1,5 ÷ (2 × 0,0225 × 50) = 276 ÷ 2,25 = 122,7 m.
- Curva C: Im máx = 100 A. Lmáx = 276 ÷ 4,5 = 61,3 m.
- Para um cabo de 80 m, a curva B protege e a C não. É por isso que, em linhas longas, a curva B é a mais indicada.
Solicitação térmica do cabo: I²t ≤ k² · S²
Num curto-circuito de duração inferior a cerca de 5 segundos, o cabo aquece sem tempo para dissipar calor (processo praticamente adiabático). A energia que pode suportar é
I²t ≤ k² · S²
onde k é uma constante que depende do material do condutor e do isolamento. Valores usuais, tabelados para o cobre e o alumínio com isolamento em PVC e em XLPE:
| Condutor e isolamento | k |
|---|---|
| Cobre, isolamento PVC | 115 |
| Cobre, isolamento XLPE ou EPR | 143 |
| Alumínio, isolamento PVC | 76 |
| Alumínio, isolamento XLPE ou EPR | 94 |
Valores da secção 434.3.2 das RTIEBT.
O tempo máximo que o cabo aguenta para uma corrente de curto-circuito dada é t = k² · S² ÷ I².
Exemplo resolvido · energia que o cabo suporta
Cabo de cobre com isolamento PVC, S = 2,5 mm².
- k² · S² = 115² × 2,5² = 13 225 × 6,25 = 82 656 A²s.
- Para Icc = 3000 A: t = 82 656 ÷ 9 000 000 = 0,0092 s, isto é, cerca de 9 ms.
- O disjuntor tem de cortar em menos de 9 ms: os disjuntores limitadores atuam em poucos milissegundos, e o fabricante dá a energia específica passante I²t do aparelho.
- Se o fabricante indicar I²t = 30 000 A²s para o aparelho, então 30 000 ≤ 82 656: cumpre. O mesmo aparelho num cabo de 1,5 mm² (k² · S² = 13 225 × 2,25 = 29 756 A²s) não cumpriria (30 000 > 29 756).
Exemplo resolvido · corte rápido, energia pequena
Icc = 1500 A cortada em 5 ms, cabo de cobre PVC de 2,5 mm².
- I²t = 1500² × 0,005 = 2 250 000 × 0,005 = 11 250 A²s.
- Limite do cabo: 82 656 A²s. 11 250 ≤ 82 656: cumpre com larga folga.
Proteção contra curto-circuito e proteção contra sobrecarga em conjunto
Se um aparelho protege contra os dois defeitos e a sobrecarga está verificada, a proteção contra curto-circuito costuma estar verificada nos circuitos finais curtos. Mas nunca se assume: verificam-se as três exigências (poder de corte, disparo no fim da linha, I²t) em cada projeto.
13. Disjuntores e fusíveis
O disjuntor magnetotérmico
O disjuntor é um aparelho de seccionamento e de proteção que liga, suporta e corta correntes em condições normais e anormais, e que se rearma depois de disparar. Reúne dois disparadores:
- Térmico (bilâmina): dois metais de dilatação diferente que se curvam com o calor e destravam o mecanismo; atua em sobrecarga, com tempo inversamente proporcional à corrente (quanto maior a corrente, mais depressa).
- Magnético (eletroíman): atua quase instantaneamente quando a corrente atinge um múltiplo de In; protege contra curto-circuito.
Curvas de disparo (EN 60898-1)
A curva define o limiar do disparo magnético:
| Curva | Disparo magnético | Utilização típica |
|---|---|---|
| B | entre 3 e 5 × In | circuitos de iluminação e tomadas, cabos longos, cargas resistivas |
| C | entre 5 e 10 × In | uso geral: tomadas, motores pequenos, iluminação com muitos balastros ou fontes |
| D | entre 10 e 20 × In | cargas com grande corrente de arranque (transformadores, certos motores) |
Escolhe-se a curva para que o aparelho não dispare nos picos de arranque normais (disparos intempestivos) e dispare no curto-circuito mais fraco (fim do cabo mais longo).
Exemplo resolvido · escolher a curva para um motor
Motor com Ib = 8,49 A, disjuntor de In = 10 A. A corrente de arranque é cerca de 6 vezes Ib.
- Corrente de arranque: 6 × 8,49 = 50,9 A.
- Curva B (3 a 5 × 10 = 30 a 50 A): dispara no arranque. Não serve.
- Curva C (50 a 100 A): o limiar pode ser tão baixo como 50 A, e 50,9 A está no limite: risco de disparo intempestivo. Arriscado.
- Curva D (100 a 200 A): suporta o arranque. Serve, com cuidado com o fim da linha (capítulo 12).
- Alternativa: usar um disjuntor-motor com regulação térmica e magnética própria, que é a solução normal para motores.
Características principais de um disjuntor
| Característica | Significado |
|---|---|
| Corrente estipulada In | calibre: 6, 8, 10, 13, 16, 20, 25, 32, 40, 50, 63 A (e 80, 100, 125 A) |
| Curva (B, C, D) | limiar de disparo magnético |
| Poder de corte (Icn) | maior corrente de curto-circuito que o aparelho corta com segurança (valores usuais em habitação: 4,5, 6 e 10 kA) |
| Classe de limitação de energia | quanto menor a energia passante, melhor para o cabo (classes 1, 2 e 3) |
| Número de polos | 1P, 1P+N, 2P, 3P, 3P+N, 4P |
| Tensão estipulada | 230/400 V |
Exemplo resolvido · poder de corte
No ponto onde o disjuntor é instalado, a Icc máxima calculada é 4,2 kA.
- Poder de corte mínimo: ≥ 4,2 kA.
- Valores comerciais: 4,5 kA satisfaz, 6 kA dá folga.
- Se a Icc fosse 7,5 kA, um aparelho de 6 kA não serviria, e teria de se usar um de 10 kA ou colocar a montante um aparelho limitador (associação), conforme o fabricante.
Fusíveis
O fusível é o aparelho de proteção mais simples: um elemento condutor calibrado que funde quando a corrente é excessiva e interrompe o circuito. Depois de atuar, substitui-se.
| Classe | Função | Utilização |
|---|---|---|
| gG | proteção de uso geral (sobrecarga e curto-circuito) | cabos e distribuição |
| aM | proteção de acompanhamento de motores (só curto-circuito) | motores, com relé térmico à parte |
| aR, gR | proteção de semicondutores | variadores e retificadores |
Os fusíveis têm poder de corte muito elevado (dezenas de kA) e são muito limitadores de energia, o que os torna ideais a montante de aparelhos de poder de corte menor. Inconvenientes: têm de ser substituídos; em trifásico, a fusão de um só fusível deixa o motor a funcionar em duas fases, com risco de queima; a reposição por um calibre superior anula a proteção.
Disjuntor ou fusível
| Critério | Disjuntor | Fusível |
|---|---|---|
| Rearme | sim, manual | não, substitui-se |
| Poder de corte | 4,5 a 10 kA (uso doméstico) | tipicamente muito elevado |
| Limitação de energia | boa (classe 3) | excelente |
| Risco de substituição errada | nenhum | existe |
| Seccionamento | sim (com a marcação adequada) | só com porta-fusíveis seccionável |
| Utilização típica em Portugal | quadros de habitação e serviços | distribuição, quadros industriais, portinhola |
Em habitação, a escolha não é livre: as RTIEBT (secção 801.5.5.1) exigem disjuntores como dispositivos de proteção contra sobreintensidades; só se admitem fusíveis nas canalizações que alimentam outros quadros ou um único aparelho de potência elevada, e na sinalização e medição.
14. Proteção das pessoas contra contactos diretos e indiretos
A corrente que passa pelo corpo humano pode causar contrações musculares, queimaduras e, a partir de valores relativamente baixos, fibrilhação ventricular, a causa mais frequente de morte por eletrocussão. O efeito depende da intensidade, do tempo de passagem e do trajeto. É por isso que a proteção de pessoas é o capítulo mais importante de uma instalação: tudo o resto pode ser reparado.
Contacto direto e contacto indireto
- Contacto direto: a pessoa toca numa parte ativa da instalação (um condutor sob tensão, um borne).
- Contacto indireto: a pessoa toca numa massa (a carcaça metálica de um aparelho) que ficou acidentalmente sob tensão por falha de isolamento.
Proteção contra contactos diretos (proteção básica)
| Medida | Como funciona |
|---|---|
| Isolamento das partes ativas | os condutores só se descobrem destruindo o isolamento |
| Invólucros e barreiras | as partes ativas ficam dentro de caixas, com grau de proteção mínimo contra acesso (o equivalente a IP2X ou IPXXB, e IP4X nas superfícies horizontais acessíveis) |
| Obstáculos e afastamento | previstos para locais de acesso restrito a pessoal qualificado |
| Proteção complementar por diferencial de alta sensibilidade (IΔn ≤ 30 mA) | corta o circuito em milissegundos se uma corrente atravessar o corpo; é complemento, nunca a única medida |
| Muito baixa tensão de segurança (MBTS/MBTP) | tensão limitada a valores sem perigo (50 V em corrente alternada), com fonte de segurança |
Proteção contra contactos indiretos (proteção em caso de defeito)
| Medida | Como funciona |
|---|---|
| Ligação à terra das massas e corte automático da alimentação | as massas ligam ao condutor de proteção; em caso de defeito, a proteção corta a alimentação num tempo suficientemente curto |
| Aparelhos de classe II (duplo isolamento) | não têm massa acessível que possa ficar com tensão; não se ligam à terra |
| Separação elétrica | um transformador de isolamento alimenta um só aparelho, sem referência à terra |
| Ligações equipotenciais | massas e elementos condutores ficam ao mesmo potencial |
O corte automático da alimentação
É a medida mais comum. As condições dependem do regime de neutro (capítulo 15), mas o princípio é o mesmo: se ocorrer um defeito entre uma fase e uma massa, a tensão de contacto nessa massa não deve ultrapassar a tensão limite convencional UL, ou então a proteção deve cortar o circuito em tempo curto. Em corrente alternada, UL = 50 V como valor corrente, e é mais baixo em locais de risco acrescido (por exemplo, certas instalações agrícolas e locais molhados). No esquema TN, a 230 V, o tempo de corte máximo é de 0,4 s (Quadro 41A das RTIEBT) nos circuitos terminais que alimentam aparelhos móveis ou portáteis da classe I, diretamente ou por tomadas (secção 413.1.3.4). Nos circuitos de distribuição admite-se um tempo convencional não superior a 5 s, e o mesmo limite pode aplicar-se aos circuitos terminais que alimentem apenas aparelhos fixos, nas condições da secção 413.1.3.5. No esquema TT não se usa o quadro de tempos: verifica-se RA · Ia ≤ UL e usam-se, de preferência, dispositivos diferenciais (secções 413.1.4.2 e 413.1.4.4).
Exemplo resolvido · tensão de contacto
Um defeito faz passar 8 A pela resistência de terra das massas RA = 12 Ω.
- Tensão de contacto: U = RA × I = 12 × 8 = 96 V.
- 96 V > UL = 50 V: a situação é perigosa e a proteção deve cortar rapidamente.
- Se RA fosse 5 Ω: U = 5 × 8 = 40 V ≤ 50 V: a tensão fica abaixo do limite.
Locais com maior risco
Os locais com banheira ou duche, piscinas, instalações agrícolas e locais condutores estão sujeitos a regras especiais (parte 7 das RTIEBT): volumes de proteção, graus de IP mínimos, ligações equipotenciais suplementares, restrições de aparelhagem e diferencial de 30 mA, conforme previsto na secção respetiva. A resistência do corpo desce muito com o corpo molhado, e o contacto com a água facilita o trajeto da corrente.
Efeitos da corrente (qualitativo)
- Valores de décimas de miliampere a poucos miliamperes: perceção (formigueiro).
- Perto de uma dezena de miliamperes: contração muscular que pode impedir de largar o condutor (tetanização).
- Algumas dezenas de miliamperes, com duração suficiente: risco de fibrilhação. Daí o diferencial de 30 mA.
15. Regimes de neutro (esquemas de ligação à terra)
O regime de neutro descreve como o neutro da fonte e as massas da instalação estão ligados à terra. Define o percurso da corrente de defeito e, portanto, o modo de proteger as pessoas. É indicado por duas ou três letras.
Significado das letras
| Letra | Posição | Significado |
|---|---|---|
| T | 1.ª | o ponto neutro da fonte está ligado diretamente à terra |
| I | 1.ª | a fonte está isolada da terra (ou ligada por impedância elevada) |
| T | 2.ª | as massas da instalação estão ligadas à terra por uma terra local, independente da do neutro |
| N | 2.ª | as massas estão ligadas ao neutro da fonte (por condutor PE ou PEN) |
| S | 3.ª | o neutro (N) e o condutor de proteção (PE) são separados |
| C | 3.ª | neutro e proteção são comuns, no condutor PEN |
Os regimes
| Regime | Neutro da fonte | Massas | Característica |
|---|---|---|---|
| TT | à terra | terra local própria | o defeito fecha-se pela terra; corrente de defeito limitada; obriga a diferencial |
| TN-S | à terra | ao neutro da fonte por PE separado | corrente de defeito elevada, tipo curto-circuito; protege-se com disjuntores |
| TN-C | à terra | ao neutro por PEN comum | PEN no mesmo condutor; só se admite em condições restritas |
| TN-C-S | à terra | PEN na origem que depois se separa em N e PE | combinação; nunca se volta a juntar N e PE a jusante da separação |
| IT | isolado ou impedante | terra local | o primeiro defeito não corta; controlador de isolamento assinala; o segundo defeito dispara |
Em Portugal
A rede pública de baixa tensão de distribuição em Portugal alimenta as instalações de utilização em regime TT. Isto significa que, em cada instalação, a terra de proteção é uma terra local (elétrodo próprio) e a proteção contra contactos indiretos faz-se com dispositivos diferenciais residuais. Os regimes TN e IT aparecem em instalações alimentadas por posto de transformação próprio, em indústria, hospitais (IT em certos locais médicos) e sistemas de segurança.
Condição de proteção em cada regime
- TT: RA · Ia ≤ UL, onde RA é a resistência da terra das massas e Ia a corrente que faz atuar a proteção (no caso de um diferencial, Ia = IΔn).
- TN: Zs · Ia ≤ U0, onde Zs é a impedância do laço de defeito (fonte, fase e condutor de proteção), Ia a corrente que provoca a atuação da proteção no tempo exigido e U0 a tensão fase-neutro (230 V).
- IT: sinalização do primeiro defeito e, no segundo defeito, condições semelhantes às do TN ou do TT consoante as massas estejam ou não interligadas.
Exemplo resolvido · RA máxima em TT
Instalação em regime TT, UL = 50 V, diferencial de 300 mA.
- RA × IΔn ≤ UL, logo RA ≤ 50 ÷ 0,3 = 166,7 Ω.
- Com um diferencial de 30 mA: RA ≤ 50 ÷ 0,03 = 1666,7 Ω.
- Com 500 mA: RA ≤ 50 ÷ 0,5 = 100 Ω.
- Quanto mais sensível o diferencial, mais fácil é cumprir com uma terra "má" (resistência alta): é por isso que o diferencial de 30 mA é tão eficaz em TT.
- Em habitação, as RTIEBT (secção 801.5.6.1) pedem uma resistência global de terra inferior a 100 Ω quando a proteção diferencial está na origem da instalação (disjuntor de entrada com função diferencial). Se não for possível obter esse valor, a proteção faz-se com diferenciais de corrente estipulada adequada à resistência de terra efetiva, tendo em conta as variações sazonais. Os 1666,7 Ω do diferencial de 30 mA são o limite da condição RA · IΔn ≤ 50 V, mas não dispensam a regra da habitação.
Exemplo resolvido · impedância máxima em TN
Regime TN, U0 = 230 V, disjuntor C16 num circuito final, que dispara magneticamente com 10 × In no máximo.
- Ia = 10 × 16 = 160 A.
- Zs ≤ U0 ÷ Ia = 230 ÷ 160 = 1,4375 Ω.
- Se a medição do laço der Zs = 1,2 Ω, cumpre; se der 1,6 Ω, não cumpre, e é preciso reduzir a impedância (condutor maior) ou usar proteção mais sensível (curva B ou diferencial).
Exemplo resolvido · identificar o regime
Descrição A: "Neutro do transformador à terra, massas ligadas a uma terra própria, sem relação elétrica com a do neutro." Descrição B: "Neutro à terra, massas ligadas ao neutro por um condutor PE distinto do neutro." Descrição C: "Fonte isolada da terra, com controlador de isolamento."
- A: primeira letra T (neutro à terra), segunda T (terra local): TT.
- B: T (neutro à terra), N (massas ligadas ao neutro), S (PE separado): TN-S.
- C: I (isolada), massas à terra local: IT.
16. Ligações à terra
A ligação à terra estabelece uma ligação elétrica intencional entre as massas da instalação e a massa geral da terra. Serve para que, em caso de defeito de isolamento, a corrente tenha um caminho de baixa impedância e a proteção atue; e para manter as massas a potenciais próximos entre si e da terra, limitando a tensão de contacto.
Elementos da instalação de terra
| Elemento | Função |
|---|---|
| Elétrodo de terra | parte metálica enterrada em contacto com o solo: piquete (haste), fita ou cabo em anel, placa, ou armaduras das fundações |
| Condutor de terra | liga o elétrodo ao terminal principal de terra |
| Terminal (ou barra) principal de terra | ponto onde convergem o condutor de terra, os condutores de proteção e as ligações equipotenciais; permite desligar para medir |
| Condutor de proteção (PE) | liga as massas ao terminal principal; bicolor verde e amarelo |
| Ligação equipotencial principal | liga ao terminal principal as canalizações metálicas que entram no edifício (água, gás) e outros elementos condutores |
| Ligação equipotencial suplementar | liga massas e elementos condutores simultaneamente acessíveis, por exemplo em casas de banho |
Resistência de terra
A resistência de terra RA depende do tipo de elétrodo e da resistividade do solo ρ (Ω·m), que varia muito: de dezenas de Ω·m em solos húmidos e argilosos a centenas ou milhares em solos secos, arenosos ou rochosos, e varia com a estação do ano. Fórmulas aproximadas e de dimensionamento prévio:
| Elétrodo | Resistência aproximada |
|---|---|
| Piquete vertical de comprimento L (m) | RA ≈ ρ ÷ L |
| n piquetes em paralelo, afastados no mínimo o seu comprimento | RA ≈ (ρ ÷ L) ÷ n (na prática, um pouco superior) |
O valor final é sempre confirmado por medição com um telurómetro, depois de executado o elétrodo.
Exemplo resolvido · piquete e resistência de terra
Solo com ρ = 100 Ω·m e um piquete de 2 m.
- RA ≈ 100 ÷ 2 = 50 Ω.
- Com um diferencial de 300 mA, o máximo permitido é 166,7 Ω (capítulo 15): cumpre com grande folga.
- Com 30 mA, o máximo é 1666,7 Ω: cumpre largamente.
- Os 50 Ω ficam também abaixo dos 100 Ω que a secção 801.5.6.1 das RTIEBT pede em habitação com disjuntor de entrada com função diferencial.
Exemplo resolvido · quantos piquetes
Solo seco com ρ = 400 Ω·m, piquetes de 3 m, diferencial de 500 mA em TT (RA ≤ 100 Ω).
- Um piquete: RA ≈ 400 ÷ 3 = 133,3 Ω. Não cumpre (133,3 > 100).
- Dois piquetes em paralelo, afastados pelo menos 3 m: RA ≈ 133,3 ÷ 2 = 66,7 Ω. Cumpre (66,7 ≤ 100).
- Alternativas: usar um diferencial de 300 mA (RA ≤ 166,7 Ω), caso em que um só piquete serviria pela condição RA · IΔn ≤ UL, ou, melhor, de 30 mA. Numa habitação com disjuntor de entrada com função diferencial, porém, a secção 801.5.6.1 pede RA inferior a 100 Ω: o piquete único (133,3 Ω) não chega e os dois piquetes (66,7 Ω) cumprem.
- Depois de executado, mede-se RA no terreno.
Secção do condutor de proteção
O condutor de proteção tem de suportar a corrente de defeito durante o tempo de atuação da proteção. Pode dimensionar-se de duas maneiras:
- Pela tabela de relação com a fase (cobre, mesmo material que a fase): se a secção da fase S ≤ 16 mm², PE = S; se 16 < S ≤ 35 mm², PE = 16 mm²; se S > 35 mm², PE = S ÷ 2.
- Pelo cálculo: S_PE ≥ √(I²t) ÷ k, sendo I²t a energia que a proteção deixa passar no defeito e k a constante do material.
A secção de PE nunca é inferior ao mínimo que as RTIEBT fixam, e é sempre uma secção normalizada.
Exemplo resolvido · secção do PE
- Fase de 25 mm²: PE = 16 mm² (16 < 25 ≤ 35).
- Fase de 70 mm²: PE = 70 ÷ 2 = 35 mm², que é normalizada: 35 mm².
- Fase de 10 mm²: PE = 10 mm².
- Por cálculo, com I²t = 900 000 A²s e k = 115 (cobre PVC): S_PE ≥ √900 000 ÷ 115 = 948,7 ÷ 115 = 8,25 mm², logo 10 mm².
Regras de ouro da ligação à terra
- O condutor de proteção nunca se interrompe com fusíveis ou aparelhos de corte.
- As ligações são feitas com terminais adequados, bem apertadas, protegidas da corrosão; o terminal principal de terra permite abrir a ligação ao elétrodo para medição.
- Os elementos condutores estranhos à instalação (canalizações metálicas) ligam-se à equipotencial principal, mas não se usam como elétrodo de terra de proteção.
- Em cada quadro deve existir uma barra de terra acessível, identificada, com as ligações numeradas.
17. Interruptores diferenciais residuais e proteção contra correntes de fuga
Como funciona
O interruptor diferencial residual (DDR, em inglês RCD) tem no seu interior um transformador toroidal pelo qual passam todos os condutores ativos do circuito (fase e neutro). Em funcionamento normal, a corrente que vai é igual à que volta: a soma vetorial é zero e o toroide não gera fluxo. Se parte da corrente se escapa para a terra (por um defeito de isolamento ou através de uma pessoa), a soma deixa de ser zero: essa corrente diferencial residual induz um sinal que dispara o aparelho.
Características
| Característica | Valores e significado |
|---|---|
| Sensibilidade IΔn | 10, 30, 100, 300, 500 mA (a corrente residual de disparo nominal) |
| Corrente estipulada In | 25, 40, 63 A ou mais: a corrente máxima que pode atravessar o aparelho |
| Tempo de atuação | instantâneo ou seletivo (S), com atraso |
| Tipo | AC, A, F ou B, conforme as formas de onda que deteta |
Tipos de diferencial
| Tipo | Deteta | Uso |
|---|---|---|
| AC | correntes residuais alternadas sinusoidais | cargas sem eletrónica de potência |
| A | AC e correntes pulsantes com componente contínua | máquinas de lavar, fontes comutadas, uso corrente em habitação |
| F | tipo A com maior imunidade a perturbações e a frequências mistas | circuitos com variadores monofásicos |
| B | todas as anteriores e contínuas lisas | variadores trifásicos, carregadores de veículos elétricos, instalações fotovoltaicas, conforme indicação do fabricante do equipamento |
Funções do diferencial
- Proteção contra contactos indiretos, em TT, é a função principal.
- Proteção complementar contra contactos diretos, com IΔn ≤ 30 mA.
- Proteção contra incêndios por correntes de fuga, com IΔn mais elevada (por exemplo 300 ou 500 mA) em origem de instalação.
O diferencial não protege contra sobrecargas nem curtos-circuitos. Tem sempre de ser associado, a montante ou integrado, a um disjuntor ou fusível (o disjuntor diferencial, em inglês RCBO, junta as duas funções num só aparelho).
Associação com a proteção a montante
A corrente estipulada do diferencial (por exemplo 40 A) deve ser pelo menos igual à soma das correntes de serviço dos circuitos que protege, tendo em conta a simultaneidade, e o diferencial tem de estar protegido contra sobreintensidades por um aparelho a montante ou integrado. O fabricante indica o calibre máximo do disjuntor que pode proteger o diferencial.
Correntes de fuga em funcionamento normal
Muitos equipamentos têm uma corrente de fuga permanente pequena (filtros de interferências em fontes de alimentação, eletrónica). Estas correntes somam-se no mesmo diferencial e podem aproximar-se do seu limiar. Como o diferencial dispara tipicamente entre 50% e 100% de IΔn, a regra prática de projeto é manter a corrente de fuga normal total abaixo de um terço de IΔn:
I_fuga,total ≤ IΔn ÷ 3
Exemplo resolvido · fugas num circuito de escritório
Um circuito de tomadas de um escritório alimenta 6 postos de trabalho, cada um com uma fuga normal medida (ou indicada pelo fabricante) de 2 mA, num diferencial de 30 mA.
- Fuga total: 6 × 2 = 12 mA.
- Limite pela regra prática: 30 ÷ 3 = 10 mA.
- 12 > 10: há risco de disparos intempestivos.
- Solução: dividir em dois circuitos (3 postos = 6 mA por diferencial, que cumpre), cada um com o seu diferencial, ou usar diferenciais individuais por grupo de postos.
Seletividade entre diferenciais
Se um diferencial geral e outro a jusante disparam ao mesmo tempo num defeito, a instalação inteira fica às escuras. Para evitar isto cria-se seletividade: o diferencial a montante é do tipo S (seletivo), com atraso, e a sua sensibilidade é pelo menos três vezes a do diferencial a jusante, de disparo instantâneo.
Exemplo resolvido · seletividade diferencial
Diferencial geral de 300 mA tipo S e, a jusante, diferenciais de 30 mA instantâneos.
- Razão: 300 ÷ 30 = 10, superior a 3. Há seletividade na sensibilidade.
- O atraso do tipo S garante que, num defeito a jusante, o de 30 mA dispara antes e o geral permanece fechado.
- Se o geral fosse de 100 mA e o de jusante de 30 mA: razão de 3,33, que cumpre a regra, mas com menos folga. Com 30 mA e 30 mA não existe seletividade.
Teste
Os diferenciais têm um botão de teste que simula uma corrente de fuga. Deve ser acionado periodicamente pelo utilizador; se o aparelho não dispara, deve ser substituído.
18. Proteção das instalações: sobretensões, seletividade e outras proteções
Além das proteções contra sobrecarga, curto-circuito e fuga, uma instalação tem outras necessidades de proteção.
Sobretensões
Uma sobretensão é uma tensão acima da admissível. Pode ser de origem atmosférica (descargas de raio na rede ou próximas), de manobra (comutações na rede) ou temporária (defeito no neutro). Protege-se com descarregadores de sobretensões (SPD), instalados no quadro, que desviam a sobretensão para a terra. Os SPD classificam-se em tipos (1, 2 e 3), consoante a energia que suportam e a posição na instalação: o tipo 1 à entrada, onde pode chegar corrente de raio; o tipo 2 no quadro de distribuição; o tipo 3 junto dos equipamentos sensíveis. O seu dimensionamento depende do risco, da exposição da instalação e do comprimento das ligações (que devem ser curtas); as regras técnicas indicam em que casos são obrigatórios.
Subtensão e falta de fase
Os motores trifásicos precisam de proteção contra falta de fase e subtensão (relés de controlo de fases), porque o funcionamento em duas fases ou com tensão baixa provoca aquecimento e queima.
Seletividade entre aparelhos de proteção
A seletividade (ou discriminação) é a coordenação dos aparelhos em série de modo que, em caso de defeito, dispara apenas o aparelho mais próximo do defeito, deixando o resto da instalação em serviço. Faz-se por três vias:
| Tipo | Princípio |
|---|---|
| Amperimétrica | o aparelho a montante tem um limiar de disparo muito superior ao de jusante |
| Cronométrica | o aparelho a montante é retardado propositadamente |
| Energética / filiação (back-up) | o fabricante garante, em ensaio, a coordenação de dois aparelhos para um dado valor de Icc |
Na prática da habitação, assegura-se com aparelhos de calibres bem distintos e, nas instalações mais exigentes, com as tabelas de seletividade do fabricante. A coordenação entre fusíveis também tem regras (relação de calibres) indicadas pelo fabricante.
Exemplo resolvido · seletividade amperimétrica simples
Um disjuntor de 10 A a jusante de um disjuntor geral de 32 A.
- Ambos de curva C. O de 10 A dispara magneticamente entre 50 e 100 A; o de 32 A, entre 160 e 320 A.
- Num defeito de 120 A, o de 10 A está garantidamente acima do seu limiar máximo (100 A) e abre em poucos milissegundos. O de 32 A está abaixo do seu limiar mínimo (160 A), pelo que permanece fechado.
- Se a corrente de defeito atingisse 300 A, o de 32 A pode também disparar: a seletividade é parcial, só até um certo valor de Icc. O limite exato vem nas tabelas do fabricante.
Proteção contra incêndio e contra efeitos térmicos
- Afastar materiais combustíveis de aparelhos que aquecem; usar caixas e quadros de materiais não propagadores de chama.
- Selecionar a aparelhagem com o IP e a temperatura de funcionamento adequados.
- Usar cabos de baixa emissão de fumo e sem halogéneos em locais de grande afluência, quando o regulamento o exige.
- Dimensionar as proteções para que o cabo nunca ultrapasse a sua temperatura máxima: esta é, no fundo, a proteção contra incêndio de origem elétrica mais eficaz.
19. Divisão de circuitos por tipo de utilização
Dividir os circuitos significa repartir as cargas por vários circuitos independentes, cada um com a sua proteção, em vez de alimentar tudo por um só. As razões:
- Segurança: uma avaria num circuito não deixa a instalação inteira sem energia (por exemplo, sem luz).
- Corrente e secção: cada circuito tem cargas compatíveis com a secção do cabo.
- Queda de tensão: circuitos mais curtos têm menos queda.
- Manutenção: desligar uma zona para intervir sem afetar as outras.
- Cargas especiais: aparelhos de potência elevada (placa, forno, termoacumulador, máquina de lavar) têm circuito próprio.
Circuitos típicos de uma habitação
As secções mínimas em habitação constam da secção 801.5.8 das RTIEBT: iluminação 1,5 mm²; tomadas 2,5 mm²; termoacumuladores 2,5 mm²; máquinas de lavar e de secar roupa ou de lavar loiça 2,5 mm²; fogões 4 mm²; climatização ambiente 2,5 mm². Os calibres da tabela são os usuais para essas secções.
| Circuito | Proteção típica | Secção do cabo (Cu) | Observações |
|---|---|---|---|
| Iluminação | disjuntor 10 A (curva B ou C) | 1,5 mm² | um circuito por piso ou zona; no máximo oito pontos de utilização por circuito |
| Tomadas de uso geral | disjuntor 16 A | 2,5 mm² | por piso/zona; DDR 30 mA; no máximo oito pontos de utilização por circuito |
| Tomadas da cozinha (bancada) | disjuntor 16 A | 2,5 mm² | circuito separado das tomadas gerais |
| Placa de cozinha | disjuntor 20 a 32 A, conforme a potência | 4 mm² no mínimo (6 mm² se a potência o exigir) | circuito dedicado |
| Forno | disjuntor 16 A | 2,5 mm² se for aparelho independente; 4 mm² se alimentado como parte do fogão, conforme o projeto | dedicado |
| Máquina de lavar roupa/loiça | disjuntor 16 A | 2,5 mm² | dedicado, DDR 30 mA |
| Termoacumulador | disjuntor 10 a 16 A | 2,5 mm² | dedicado |
| Aquecimento, ar condicionado | consoante a potência | 2,5 mm² no mínimo | dedicado; indicação do fabricante; no máximo cinco aparelhos por circuito |
| Tomadas exteriores | disjuntor 16 A | 2,5 mm² | com DDR 30 mA, IP adequado |
| Carregamento de veículo elétrico | consoante o equipamento | consoante o equipamento | circuito exclusivo; seguir a secção 722 das RTIEBT e as indicações do fabricante, incluindo o tipo de diferencial |
Critérios para repartir tomadas e luz
- Não misturar iluminação e tomadas no mesmo circuito: uma sobrecarga de tomadas não deve apagar as luzes.
- Separar por pisos ou zonas (dia/noite).
- Respeitar o número máximo de pontos por circuito: em habitação, cada circuito final não deve, em regra, alimentar mais de oito pontos de utilização (duas ou mais tomadas de 16 A agrupadas num mesmo aparelho contam como um só ponto), e cada circuito de climatização alimenta, no máximo, cinco aparelhos (RTIEBT, secção 801.5.3).
- Em escritórios e serviços, reservar circuitos para o equipamento informático, com atenção à corrente de fuga acumulada.
Distribuição pelos diferenciais
Nunca se põe um só diferencial a proteger toda a habitação sem mais: uma fuga em qualquer ponto deixaria tudo às escuras. Repartem-se os circuitos por vários diferenciais de 30 mA, agrupando-os por zona ou função, de modo que um disparo não deixe a casa toda sem luz.
Quadros em trifásico: equilíbrio de fases
Numa instalação trifásica, as cargas monofásicas distribuem-se pelas três fases (L1, L2, L3) para que as correntes sejam o mais equilibradas possível. Um desequilíbrio sobrecarrega o neutro e uma das fases.
Exemplo resolvido · equilibrar fases
Seis circuitos monofásicos com correntes de 10, 8, 6, 12, 4 e 10 A.
- Total: 10 + 8 + 6 + 12 + 4 + 10 = 50 A; média por fase = 50 ÷ 3 ≈ 16,7 A.
- Uma distribuição possível: L1 = 12 + 4 = 16 A; L2 = 10 + 6 = 16 A; L3 = 10 + 8 = 18 A.
- A diferença máxima entre fases é 2 A, o que é bom.
- Uma má distribuição (L1 = 10 + 8 + 6 = 24 A; L2 = 12 + 4 = 16 A; L3 = 10 A) deixaria uma fase com 24 A e outra com 10 A.
Organização e identificação do quadro
- O quadro deve ter espaço de reserva para futuros circuitos.
- Cada aparelho tem etiqueta com o nome do circuito, igual ao do esquema.
- A parte de baixo recebe os cabos que descem, a de cima os que sobem, com calha de cablagem ordenada; a barra de terra e a de neutro são acessíveis.
- O quadro tem um grau de proteção adequado ao local e uma porta ou tampa que impede o acesso a partes ativas.
- Junto à origem, o aparelho geral de corte é facilmente acessível.
20. Dimensionamento integrado de uma moradia
Reunimos agora tudo o que estudámos. Uma moradia com piso 0 e piso 1 e seis compartimentos, monofásica, potência contratada 6,9 kVA, regime TT, cabos de cobre com isolamento PVC em tubo (método B, 2 condutores carregados). Usam-se os dados de trabalho do capítulo 7, ρ = 0,0225 Ω·mm²/m, e um limite de queda de tensão de 3% para iluminação e de 5% para os restantes circuitos (Quadro 52O, alimentação pela rede pública). A potência de 6,9 kVA é o mínimo para locais de dois a seis compartimentos (RTIEBT, secção 801.5.2.2; acima de seis compartimentos, 10,35 kVA). A temperatura é de 30 °C (kT = 1) na maior parte do percurso. Emparelham-se C1 e C2, C3 e C4, C5 e C6, C7 e C8, e cada par partilha o tubo (kG = 0,80). O troço da cozinha, onde passam C5 e C6, é mais quente: 35 °C, logo kT = 0,94 para os dois circuitos desse par. Cada circuito de tomadas alimenta, no máximo, oito pontos de utilização (secção 801.5.3).
Dados dos circuitos
| Circuito | Carga prevista | Comprimento (m) |
|---|---|---|
| C1 Iluminação piso 0 | 600 W | 18 |
| C2 Iluminação piso 1 | 500 W | 22 |
| C3 Tomadas piso 0 | 2300 W (Ib de projeto 10 A) | 28 |
| C4 Tomadas piso 1 | 2300 W (Ib de projeto 10 A) | 24 |
| C5 Placa | 3600 W | 15 |
| C6 Forno | 2200 W | 12 |
| C7 Máquina de lavar roupa | 2000 W | 14 |
| C8 Termoacumulador | 1500 W | 10 |
A soma das potências instaladas é 15 000 W, e a potência contratada é 6900 VA: o fator de simultaneidade global do projeto é 6900 ÷ 15 000 = 0,46. Os circuitos individuais dimensionam-se pela sua corrente máxima.
Corrente de serviço e corrente estipulada
| Circuito | Ib (A) | In escolhida (A) |
|---|---|---|
| C1 | 600 ÷ 230 = 2,61 | 10 (curva B) |
| C2 | 500 ÷ 230 = 2,17 | 10 (curva B) |
| C3 | 10,00 | 16 (curva C) |
| C4 | 10,00 | 16 (curva C) |
| C5 | 3600 ÷ 230 = 15,65 | 20 (curva C) |
| C6 | 2200 ÷ 230 = 9,57 | 16 (curva C) |
| C7 | 2000 ÷ 230 = 8,70 | 16 (curva C) |
| C8 | 1500 ÷ 230 = 6,52 | 10 (curva C) |
Secção, Iz e condição Ib ≤ In ≤ Iz
| Circuito | k = kT · kG | Iz0 mínimo = In ÷ k | Secção | Iz = Iz0 · k | Ib ≤ In ≤ Iz |
|---|---|---|---|---|---|
| C1 | 0,80 | 12,5 A | 1,5 mm² (17,5 A) | 14,00 A | 2,61 ≤ 10 ≤ 14,00 sim |
| C2 | 0,80 | 12,5 A | 1,5 mm² (17,5 A) | 14,00 A | 2,17 ≤ 10 ≤ 14,00 sim |
| C3 | 0,80 | 20,0 A | 2,5 mm² (24 A) | 19,20 A | 10 ≤ 16 ≤ 19,20 sim |
| C4 | 0,80 | 20,0 A | 2,5 mm² (24 A) | 19,20 A | 10 ≤ 16 ≤ 19,20 sim |
| C5 | 0,752 | 26,6 A | 4 mm² (32 A) | 24,06 A | 15,65 ≤ 20 ≤ 24,06 sim |
| C6 | 0,752 | 21,3 A | 2,5 mm² (24 A) | 18,05 A | 9,57 ≤ 16 ≤ 18,05 sim |
| C7 | 0,80 | 20,0 A | 2,5 mm² (24 A) | 19,20 A | 8,70 ≤ 16 ≤ 19,20 sim |
| C8 | 0,80 | 12,5 A | 2,5 mm² (24 A) | 19,20 A | 6,52 ≤ 10 ≤ 19,20 sim |
Nota sobre C8. Por corrente admissível bastariam 1,5 mm² (Iz0 = 17,5 A ≥ 12,5 A), como em C1 e C2. Mas C8 é o termoacumulador, e a secção 801.5.8 das RTIEBT fixa 2,5 mm² como secção mínima dos circuitos de termoacumuladores em habitação. A secção final é sempre a maior de todas as que os critérios exigirem, e aqui o critério que decide não é o cálculo: é a secção mínima regulamentar.
Sobrecarga (I2 ≤ 1,45 · Iz)
Todos os aparelhos são disjuntores, com I2 = 1,45 · In. Para C1: 14,5 A ≤ 1,45 × 14,00 = 20,3 A, sim. Para C3: 23,2 A ≤ 27,84 A, sim. Para C5: 29,0 A ≤ 34,89 A, sim. Como In ≤ Iz em todos os circuitos, a segunda condição verifica-se sempre com disjuntores.
Queda de tensão (ΔU = 2 · ρ · L · Ib ÷ S)
| Circuito | ΔU (V) | ΔU (%) | Limite | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| C1 | 2 × 0,0225 × 18 × 2,61 ÷ 1,5 = 1,41 | 0,61% | 3% | cumpre |
| C2 | 2 × 0,0225 × 22 × 2,17 ÷ 1,5 = 1,43 | 0,62% | 3% | cumpre |
| C3 | 2 × 0,0225 × 28 × 10 ÷ 2,5 = 5,04 | 2,19% | 5% | cumpre |
| C4 | 2 × 0,0225 × 24 × 10 ÷ 2,5 = 4,32 | 1,88% | 5% | cumpre |
| C5 | 2 × 0,0225 × 15 × 15,65 ÷ 4 = 2,64 | 1,15% | 5% | cumpre |
| C6 | 2 × 0,0225 × 12 × 9,57 ÷ 2,5 = 2,07 | 0,90% | 5% | cumpre |
| C7 | 2 × 0,0225 × 14 × 8,70 ÷ 2,5 = 2,19 | 0,95% | 5% | cumpre |
| C8 | 2 × 0,0225 × 10 × 6,52 ÷ 2,5 = 1,17 | 0,51% | 5% | cumpre |
Disparo no fim da linha (Lmáx = 0,8 · U0 · S ÷ (2 · ρ · Im))
| Circuito | Im máx (A) | Lmáx (m) | Comprimento real | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| C1 (B10) | 5 × 10 = 50 | 122,7 | 18 | protege |
| C2 (B10) | 50 | 122,7 | 22 | protege |
| C3 (C16, 2,5 mm²) | 160 | 63,9 | 28 | protege |
| C4 (C16) | 160 | 63,9 | 24 | protege |
| C5 (C20, 4 mm²) | 200 | 81,8 | 15 | protege |
| C6 (C16) | 160 | 63,9 | 12 | protege |
| C7 (C16) | 160 | 63,9 | 14 | protege |
| C8 (C10, 2,5 mm²) | 100 | 102,2 | 10 | protege |
Diferenciais e quadro
Em TT, a proteção contra contactos indiretos é feita por diferenciais, com 30 mA em todos os circuitos de uma habitação (proteção complementar). Admite-se uma terra de 50 Ω (piquete de 2 m em solo de 100 Ω·m): cumpre RA · IΔn ≤ 50 V (limite de 1666,7 Ω com 30 mA) e fica abaixo dos 100 Ω que a secção 801.5.6.1 das RTIEBT pede em habitação com disjuntor de entrada com função diferencial. Agrupam-se os circuitos em dois diferenciais de 40 A, tipo A, 30 mA:
- DR1 (iluminação, tomadas e água quente): C1, C2, C3, C4, C8. Soma das correntes de projeto: 2,61 + 2,17 + 10 + 10 + 6,52 = 31,3 A, que com simultaneidade fica abaixo dos 40 A do aparelho.
- DR2 (cozinha e lavagem): C5, C6, C7. Soma: 15,65 + 9,57 + 8,70 = 33,9 A; também com simultaneidade abaixo de 40 A.
- Ambos a jusante do disjuntor geral de 30 A (6,9 kVA ÷ 230 V), com poder de corte conforme a Icc na origem.
Assim, uma avaria nos circuitos da cozinha não deixa a casa às escuras, e vice-versa.
Tubos
Admite-se, como valor de trabalho, uma ocupação máxima de 40% (capítulo 10), condutores com diâmetro exterior de 3,0 mm (1,5 mm²) e 3,6 mm (2,5 mm²), e os tubos de 16 mm (interior 12,6 mm) e de 20 mm (interior 16,9 mm) do catálogo do capítulo 10.
- C1 e C2 partilham um tubo com 6 condutores de 1,5 mm² (fase, neutro e proteção de cada um): 6 × 7,07 = 42,41 mm², abaixo dos 49,88 mm² admitidos no tubo de 16 mm. Tubo de 16 mm.
- C3 e C4 partilham um tubo com 6 condutores de 2,5 mm²: 6 × 10,18 = 61,07 mm², acima dos 49,88 mm² do tubo de 16 mm e abaixo dos 89,73 mm² do tubo de 20 mm. Tubo de 20 mm.
- C7 e C8 partilham um tubo com 6 condutores de 2,5 mm², tal como C3 e C4: 61,07 mm², tubo de 20 mm.
- Os restantes troços verificam-se do mesmo modo; os valores exatos conferem-se sempre com o catálogo do tubo escolhido.
Resultado final do quadro
Disjuntor geral 30 A, 2P; DR1 40 A 30 mA tipo A com B10 (C1), B10 (C2), C16 (C3), C16 (C4), C10 (C8); DR2 40 A 30 mA tipo A com C20 (C5), C16 (C6), C16 (C7). Cabos H07V-R em tubo: 1,5 mm² (C1, C2), 2,5 mm² (C3, C4, C6, C7, C8), 4 mm² (C5); condutor de proteção da mesma secção que a fase.
Esquema unifilar do quadro
O esquema mostra a ordem da energia, da origem para a carga: disjuntor geral, diferencial, disjuntor do circuito, cabo. Cada caixa representa um aparelho e a legenda à direita dá a secção do cabo (3G2,5 = três condutores de 2,5 mm², incluindo o de proteção).
Rede 230 V, 6,9 kVA
│
[ Disjuntor geral 30 A, 2P ]
│
├── [ DR1 40 A · 30 mA · tipo A ]
│ ├── B10 ── C1 Luz piso 0 ········ 3G1,5
│ ├── B10 ── C2 Luz piso 1 ········ 3G1,5
│ ├── C16 ── C3 Tomadas piso 0 ···· 3G2,5
│ ├── C16 ── C4 Tomadas piso 1 ···· 3G2,5
│ └── C10 ── C8 Termoacumulador ··· 3G2,5
│
└── [ DR2 40 A · 30 mA · tipo A ]
├── C20 ── C5 Placa ············· 3G4
├── C16 ── C6 Forno ············· 3G2,5
└── C16 ── C7 Máquina de roupa ·· 3G2,5
Para treinar: redesenha este esquema com os símbolos normalizados do capítulo 2, com um traço oblíquo por condutor em cada linha de circuito.
21. Verificação, segurança e boas práticas na execução
Um projeto bem calculado só é seguro se for bem executado e verificado. Esta UC prepara o técnico para dimensionar, mas o dimensionamento só se cumpre na obra.
Enquadramento profissional
A Lei n.º 14/2015, de 16 de fevereiro, define os requisitos de acesso e exercício da atividade das entidades e profissionais responsáveis pelas instalações elétricas: o projeto, a execução e a exploração de instalações elétricas só podem ser assumidos por quem estiver habilitado para o efeito, e as instalações sujeitas a certificação têm de ser inspecionadas e certificadas nos termos da regulamentação. O técnico deve conhecer o limite das suas competências e nunca assinar nem executar o que excede a sua habilitação.
Verificações antes de colocar em serviço
- Inspeção visual: secções, cores, aparelhagem conforme o projeto, identificação dos circuitos, aperto de bornes.
- Continuidade dos condutores de proteção e das ligações equipotenciais.
- Resistência de isolamento: antes de mais, seccionar a instalação e confirmar a ausência de tensão (as cinco regras, abaixo); o ensaio injeta 500 V em corrente contínua e só se faz com a instalação fora de serviço. Depois, com os aparelhos de utilização desligados, mede-se entre cada condutor ativo e a terra com megaohmímetro: para circuitos de tensão nominal até 500 V, o ensaio faz-se a 500 V e o valor mínimo é de 0,5 MΩ (Quadro 61A das RTIEBT).
- Resistência da terra (telurómetro) e, em TN, impedância do laço de defeito.
- Ensaio dos diferenciais: disparo ao botão de teste e, com o aparelho de ensaio adequado, a corrente e o tempo de disparo.
- Polaridade e sequência de fases, quando aplicável.
- Registo dos resultados em relatório de ensaios.
Segurança durante os trabalhos: as cinco regras
Antes de intervir numa instalação, aplicam-se, pela ordem, as cinco regras de segurança dos trabalhos em instalações elétricas (EN 50110):
- Seccionar completamente (cortar a alimentação em todas as fontes).
- Impedir qualquer religação (cadeado, etiqueta de bloqueio).
- Verificar a ausência de tensão com um detetor adequado, testado antes e depois.
- Ligar à terra e em curto-circuito, nas instalações onde isso é exigido.
- Proteger contra elementos em tensão na vizinhança e sinalizar a zona de trabalho.
Usam-se sempre ferramentas isoladas, calçado e luvas adequados e equipamentos de proteção individual (EPI) conforme o risco.
Boas práticas de dimensionamento
- Documentar todos os pressupostos: cargas, comprimentos, modo de instalação, temperatura, agrupamento.
- Escolher sempre a secção normalizada seguinte quando o cálculo cai entre valores.
- Deixar reserva de capacidade no quadro e nos tubos para ampliações.
- Rever o dimensionamento quando qualquer dado mudar na obra (um circuito a mais no mesmo tubo, um troço aquecido).
- Utilizar a folha de cálculo para repetir as verificações em todos os circuitos, mas conferir à mão pelo menos um circuito por quadro.
- Consultar a versão em vigor das RTIEBT e as indicações dos fabricantes.
Erros comuns
- Escolher a secção por Ib e esquecer os fatores de temperatura e de agrupamento: o cabo fica abaixo da proteção.
- Usar In maior do que Iz, para "evitar disparos": o cabo deixa de estar protegido.
- Dimensionar apenas por corrente admissível e não verificar a queda de tensão em cabos longos.
- Esquecer o condutor neutro e o PE na contagem de condutores do tubo.
- Aplicar a regra I2 = 1,45 · In também aos fusíveis gG, quando o valor correto é 1,6 · In.
- Verificar a Icc na origem e esquecer a Icc mínima no fim da linha (disparo magnético que não chega).
- Poder de corte do disjuntor inferior à Icc do ponto de instalação.
- Confundir contacto direto e contacto indireto, ou julgar que o diferencial de 30 mA dispensa as restantes medidas.
- Em TT, esquecer a condição RA · IΔn ≤ UL e instalar sem medir a terra.
- Um diferencial único para toda a casa, com fugas somadas e sem seletividade.
- Misturar iluminação e tomadas no mesmo circuito, ou ligar a placa e o forno à tomada geral.
- Usar valores de tabelas desatualizados ou de outra norma, em vez da versão em vigor das RTIEBT.
Glossário
- Aparelho geral de corte e proteção: aparelho à entrada da instalação que a liga e desliga e a protege.
- Bilâmina: duas lâminas metálicas de dilatação diferente que curvam com o calor; núcleo do disparador térmico.
- Cabo: conjunto de condutores isolados, com ou sem bainha.
- Condutor de proteção (PE): condutor que liga as massas ao terminal principal de terra.
- Contacto direto: contacto de pessoas com partes ativas.
- Contacto indireto: contacto de pessoas com massas colocadas acidentalmente sob tensão.
- Corrente de serviço (Ib): corrente que o circuito transporta em funcionamento normal.
- Corrente admissível (Iz): corrente máxima que um condutor suporta em permanência sem exceder a temperatura limite.
- Corrente estipulada (In): calibre do aparelho de proteção.
- Curto-circuito: ligação de impedância desprezável entre condutores de potenciais diferentes.
- Curva de disparo: característica B, C ou D que define o limiar magnético do disjuntor.
- DDR (diferencial): dispositivo diferencial residual, que corta o circuito quando deteta corrente de fuga para a terra.
- Disjuntor: aparelho que liga, suporta e corta correntes, com disparo térmico e magnético.
- Elétrodo de terra: parte metálica enterrada em contacto com o solo.
- Esquema multifilar: desenho com uma linha para cada condutor.
- Esquema unifilar: desenho com uma só linha por circuito, com traços para o número de condutores.
- Fator de agrupamento (kG): coeficiente que reduz Iz quando vários circuitos partilham a mesma canalização.
- Fator de temperatura (kT): coeficiente que reduz Iz quando a temperatura ambiente excede a de referência.
- Fusível: aparelho de proteção que funde quando a corrente excede o seu calibre.
- Massa: parte condutora acessível de um equipamento, normalmente sem tensão, que pode ficar sob tensão num defeito.
- Poder de corte (Icn): maior corrente de curto-circuito que um aparelho corta em segurança.
- Queda de tensão (ΔU): diminuição de tensão entre a origem e o fim de um circuito.
- Regime de neutro: modo de ligação do neutro da fonte e das massas à terra (TT, TN, IT).
- RTIEBT: Regras Técnicas das Instalações Elétricas de Baixa Tensão.
- Seletividade: coordenação de proteções para que dispare apenas a mais próxima do defeito.
- Sobrecarga: sobreintensidade em circuito são, de valor moderado e atuação lenta.
- Sobretensão: tensão superior à admissível, de origem atmosférica, de manobra ou temporária.
- Tensão limite convencional (UL): tensão de contacto máxima admissível em permanência (50 V em corrente alternada, como valor corrente).
- Terminal principal de terra: ponto onde convergem os condutores de terra, de proteção e equipotenciais.
Síntese
- Dimensionar é escolher cabo, tubo e proteção de modo que a instalação funcione e proteja. O fluxo é: Ib, In, Iz, secção, queda de tensão, curto-circuito, proteção de pessoas, diferencial, tubo.
- A condição fundamental de sobrecarga é Ib ≤ In ≤ Iz, com I2 ≤ 1,45 · Iz; com fusíveis gG, I2 = 1,6 · In.
- Iz = Iz0 · kT · kG: os fatores de correção reduzem a capacidade do cabo.
- A queda de tensão é ΔU = 2 · ρ · L · Ib · cosφ ÷ S (monofásico) ou √3 · ρ · L · Ib · cosφ ÷ S (trifásico), e cumpre-se o limite aplicável das RTIEBT.
- No curto-circuito: poder de corte ≥ Icc máxima, disparo na Icc mínima (Lmáx) e I²t ≤ k² · S².
- Disjuntores (curvas B, C, D) e fusíveis (gG, aM) têm funções e limites próprios.
- Em TT (o regime da rede pública em Portugal), RA · IΔn ≤ UL; em TN, Zs · Ia ≤ U0.
- O diferencial de 30 mA é proteção complementar; as fugas normais somadas não excedem IΔn ÷ 3; usa-se tipo A ou superior conforme a carga.
- A terra exige elétrodo, condutor de terra, terminal principal, PE e equipotenciais, com resistência confirmada por medição.
- A divisão de circuitos separa iluminação, tomadas e cargas pesadas, e reparte os circuitos por vários diferenciais.
- A obra exige verificações, segurança (cinco regras) e habilitação nos termos da Lei n.º 14/2015.
Exercícios resolvidos
Exercício resolvido 1 · forno trifásico
Um forno trifásico de 9 kW (cosφ = 1) a 400 V, cabo de cobre PVC em tubo (método B, 3 condutores carregados), ambiente a 30 °C e sem agrupamento, L = 35 m. Limite de queda de tensão: 5%.
- Ib = 9000 ÷ (1,732 × 400) = 12,99 A.
- In = 16 A: o calibre de 13 A ficaria apenas 0,01 A acima de Ib, sem folga nenhuma, e adota-se o calibre seguinte.
- Iz0 mínimo = 16 ÷ 1 = 16 A. Com 3 condutores carregados: 1,5 mm² dá 15,5 A (< 16, não serve); 2,5 mm² dá 21 A (serve).
- Iz = 21 A: 12,99 ≤ 16 ≤ 21. Verifica-se.
- ΔU = 1,732 × 0,0225 × 35 × 12,99 ÷ 2,5 = 7,09 V, ou 7,09 ÷ 400 × 100 = 1,77%. Cumpre.
- Resultado: 2,5 mm², disjuntor de 16 A.
Exercício resolvido 2 · carregador de veículo elétrico
Circuito monofásico de 5,75 kW (Ib = 25 A, cosφ = 1), L = 60 m, cabo de cobre PVC em tubo (método B, 2 condutores carregados, kT = kG = 1). Limite de queda de tensão: 5%.
- Ib = 5750 ÷ 230 = 25 A. Como a carga é contínua durante horas, escolhe-se o calibre seguinte, In = 32 A, e não o de 25 A (que ficaria sem folga).
- Iz0 mínimo = 32 A. A tabela de trabalho dá 4 mm² com 32 A (serve, Iz = 32 ≥ In).
- Queda de tensão com 4 mm²: 2 × 0,0225 × 60 × 25 ÷ 4 = 16,88 V = 7,34%. Não cumpre (7,34% > 5%).
- Com 6 mm²: 67,5 ÷ 6 = 11,25 V = 4,89%. Cumpre.
- Resultado: 6 mm². O critério que decidiu foi a queda de tensão, e não a corrente admissível. Com 10 mm² teria 2,93%, e dava folga para o aquecimento do cabo ao longo de horas.
Exercício resolvido 3 · verificar um circuito existente
Circuito de tomadas em cabo de 2,5 mm², com kG = 0,80 e kT = 1 (Iz0 = 24 A), protegido por um disjuntor de 20 A, que alimenta uma carga com Ib = 14 A.
- Iz = 24 × 0,80 = 19,2 A.
- Condição: Ib = 14 ≤ In = 20 ≤ Iz = 19,2? Como 20 > 19,2, não se verifica.
- O cabo não está protegido em sobrecarga prolongada.
- Correção A: trocar o disjuntor por um de 16 A (14 ≤ 16 ≤ 19,2). Correção B: aumentar o cabo para 4 mm² (Iz = 25,6 A) e manter 20 A.
Exercício resolvido 4 · diferencial em TT
Medida a terra de uma instalação TT: RA = 85 Ω. UL = 50 V.
- IΔn máximo = 50 ÷ 85 = 0,588 A, isto é, 588 mA.
- Podem usar-se diferenciais de 500 mA, 300 mA, 100 mA ou 30 mA (todos ≤ 588 mA).
- Em habitação, usa-se o de 30 mA como proteção complementar, e a terra de 85 Ω cumpre com enorme folga (limite com 30 mA: 1666,7 Ω) e, numa habitação com disjuntor de entrada com função diferencial, também a exigência de resistência de terra inferior a 100 Ω (RTIEBT, secção 801.5.6.1).
Exercício resolvido 5 · o disjuntor chega ao fim da linha
Circuito de 2,5 mm² e 50 m, protegido por disjuntor C16.
- Im máx = 10 × 16 = 160 A.
- Icc mínima fase-neutro no fim: 0,8 × 230 × 2,5 ÷ (0,0225 × 2 × 50) = 460 ÷ 2,25 = 204,4 A.
- 204,4 A ≥ 160 A: o disparo magnético é garantido.
- Comprimento máximo: 0,8 × 230 × 2,5 ÷ (2 × 0,0225 × 160) = 460 ÷ 7,2 = 63,9 m. Os 50 m estão abaixo: protege.
Exercício resolvido 6 · repartir cargas por circuitos
Numa pequena habitação há: 14 pontos de luz em dois pisos, 20 tomadas de uso geral, forno, placa, máquina de lavar roupa e termoacumulador.
- Iluminação: 2 circuitos (por piso, 7 pontos de luz cada, dentro do limite de oito), 10 A, 1,5 mm².
- Tomadas gerais: 20 tomadas ÷ 8 pontos por circuito (RTIEBT, secção 801.5.3) = 2,5, logo 3 circuitos, 16 A, 2,5 mm².
- Placa, forno, máquina de lavar roupa e termoacumulador: um circuito cada, com disjuntor e cabo à medida da potência (termoacumulador no mínimo 2,5 mm², placa no mínimo 4 mm², secção 801.5.8).
- Total: 9 circuitos, repartidos por dois ou três diferenciais de 30 mA, de modo que a falha de um não apague toda a casa.