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UC · Unidade de Competência · UC01781

Dimensionar condutores, proteções e circuitos de instalações de energia elétrica (UC01781)

Da corrente de serviço à escolha do cabo, do disjuntor e do diferencial, com as Regras Técnicas das Instalações Elétricas de Baixa Tensão
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Instalações Elétricas ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Uma instalação elétrica segura começa muito antes de se puxar o primeiro cabo: começa no cálculo. Esta sebenta ensina a dimensionar condutores, proteções e circuitos de instalações de energia elétrica em baixa tensão, ou seja, a decidir, com números e com as regras técnicas na mão, que secção de cabo, que tubo, que disjuntor e que diferencial cada circuito leva, e como se dividem os circuitos por tipo de utilização.

O percurso segue a ordem em que um técnico trabalha. Primeiro fixamos a linguagem: a simbologia e os esquemas unifilares e multifilares. Depois calculamos a corrente de serviço de cada circuito e escolhemos o cabo, a sua secção (por corrente admissível e por queda de tensão) e a proteção mecânica (tubos e acessórios). A seguir dimensionamos as proteções elétricas: contra sobrecargas, contra curtos-circuitos e contra correntes de fuga, com disjuntores, fusíveis e interruptores diferenciais residuais. Entre uns e outros estudamos a proteção das pessoas contra contactos diretos e indiretos, os regimes de neutro e as ligações à terra. Fechamos com a divisão de circuitos nos quadros e com um dimensionamento integrado de uma moradia.

Objetivos de aprendizagem (referencial): dimensionar secções de condutores; dimensionar proteções mecânicas de condutores; dimensionar proteções elétricas; efetuar a divisão de circuitos por tipo de utilização; executar o cálculo de secções de condutores e de tubos; calcular proteções contra sobrecargas, curtos-circuitos e correntes de fuga; calcular quedas de tensão; aplicar as regras técnicas de repartição dos circuitos de quadros elétricos. Em todas as tarefas: adequar os materiais aos circuitos, respeitar as boas práticas e cumprir as RTIEBT.

Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem explicação, tabelas de consulta e exemplos resolvidos passo a passo. Refaz sempre as contas com a calculadora ou com a folha de cálculo antes de ler a solução. Uma regra vale para toda a UC e para a vida profissional: os valores tabelados (intensidades admissíveis dos cabos, fatores de correção, tempos de corte, limites de queda de tensão, secções mínimas) lêem-se sempre na tabela das RTIEBT na redação em vigor ou no catálogo do fabricante. Nos exemplos, esses valores aparecem como dados do problema, para que o raciocínio fique à vista; no trabalho real, vão buscar-se à fonte oficial.

Dimensionar é escolher, para cada circuito, os componentes (cabo, tubo, aparelho de proteção) de modo que a instalação funcione nas condições normais e proteja as pessoas e os bens nas condições anormais. Um circuito mal dimensionado pode funcionar durante anos e falhar de uma vez: um cabo ligeiramente curto de secção aquece, degrada o isolamento e, um dia, provoca um incêndio.

O fluxo de cálculo

O dimensionamento de um circuito faz-se numa ordem lógica. Cada passo depende do anterior:

Passo O que se determina Símbolo Capítulo
1 Potência e corrente de serviço do circuito P, Ib 4
2 Modo de instalação e fatores de correção k 7
3 Corrente estipulada da proteção In 11
4 Secção por corrente admissível S, Iz 8
5 Verificação da queda de tensão ΔU 9
6 Verificação da proteção contra curtos-circuitos Icc, I²t 12
7 Verificação da proteção de pessoas (contactos indiretos) RA, Zs 14 a 16
8 Diferencial e correntes de fuga IΔn 17
9 Tubo ou outra proteção mecânica Ø 6 e 10

Se um passo posterior falha (por exemplo, a queda de tensão passa o limite), volta-se atrás e aumenta-se a secção: o dimensionamento é iterativo. A secção final é a maior de todas as que cada critério exigir.

Exemplo resolvido · o critério que decide

Um circuito de tomadas precisa, por corrente admissível, de 2,5 mm². Por queda de tensão (cabo longo), precisaria de 4 mm². Por curto-circuito, 1,5 mm² já chegava.

  1. Os três critérios dão: 2,5 mm², 4 mm² e 1,5 mm².
  2. A secção a instalar é a maior: 4 mm².
  3. Em consequência, a proteção é escolhida para essa secção: o disjuntor continua a ser limitado pela corrente admissível do cabo escolhido, mas o cabo maior dá folga.

2. Simbologia elétrica

Os projetos de instalações elétricas comunicam por símbolos normalizados, para que qualquer técnico leia o mesmo desenho do mesmo modo. A simbologia usada em Portugal para esquemas e plantas de instalações segue as normas internacionais de símbolos gráficos para esquemas elétricos (família CEI/IEC 60617). A tabela reúne os símbolos de uso corrente, descritos pela forma, porque o desenho depende do programa de desenho do projeto.

Símbolos de aparelhagem e de equipamento

Elemento Descrição do símbolo Notas de utilização
Disjuntor contacto de abertura com marca de proteção (cruz) e indicação de disparador térmico e magnético indicar curva e In, por exemplo C16
Interruptor-seccionador contacto de abertura com barra de seccionamento corte em carga; não protege contra sobreintensidades
Fusível retângulo atravessado por um traço indicar classe e calibre, por exemplo gG 25 A
Interruptor diferencial símbolo de interruptor com bobina de soma (transformador toroidal) e indicação de IΔn indicar IΔn e tipo (AC, A, F, B)
Contactor contacto de fecho com bobina comando de cargas, por exemplo aquecimento
Tomada de uso geral semicírculo com linha de terra indicar a corrente, por exemplo 16 A
Ponto de luz círculo com cruz ou ponto simples ou comutado, conforme o interruptor associado
Interruptor simples pequeno círculo com traço oblíquo pode levar índices para comutador e inversor
Terra de proteção três traços decrescentes condutor PE
Transformador duas bobinas acopladas transformador de isolamento ou de segurança

Símbolos de condutores e ligações

Identificação alfanumérica

Além do símbolo, cada aparelho tem uma designação (referência do aparelho) e as suas características escritas junto ao símbolo. Por exemplo: "QE1, Q2: disjuntor C16 A, 1P+N, 6 kA" diz que, no quadro QE1, o aparelho Q2 é um disjuntor curva C de 16 A, com polo de fase e polo de neutro, e poder de corte de 6 kA.

Exemplo resolvido · ler uma legenda de quadro

Num quadro lê-se: "Q5: DDR 40 A / 30 mA, tipo A, 2P" e "Q6: disjuntor B10 A, 1P+N" ligado a jusante de Q5.

  1. Q5 é um interruptor diferencial residual de 40 A (corrente estipulada máxima que suporta) e sensibilidade de 30 mA.
  2. O tipo A significa que deteta correntes de fuga alternadas e pulsantes com componente contínua.
  3. Q6 é um disjuntor de curva B com In = 10 A, que protege contra sobrecarga e curto-circuito um circuito monofásico com polo de neutro.
  4. A ordem de leitura é da origem para a carga: a energia passa primeiro em Q5 e depois em Q6.

3. Esquemas unifilares e multifilares

Um esquema multifilar desenha cada condutor do circuito (fase, neutro, proteção). Um esquema unifilar representa o circuito com uma só linha, e o número de condutores indica-se por traços oblíquos. O unifilar é o desenho de eleição para o quadro elétrico e para a distribuição, porque cabe numa folha e mostra a arquitetura da instalação. O multifilar usa-se quando é preciso ver a ligação real, por exemplo em comandos e em ligações de motores.

Característica Unifilar Multifilar
Representação uma linha para o circuito, traços oblíquos para o número de condutores uma linha por condutor
Vantagem simples, rápido, mostra a hierarquia das proteções mostra a ligação exata, terminal a terminal
Quando usar quadros, distribuição, esquema geral do projeto comando, motores, ligações com várias fases e comutações
Informação típica aparelho, calibre, curva, secção e tipo do cabo, comprimento, circuito alimentado bornes, cores dos condutores, referências de ligação

Informação mínima de um esquema unifilar de quadro

Para cada circuito, o esquema unifilar deve indicar: designação do circuito (por exemplo C3 "Tomadas piso 0"), aparelho de proteção (tipo, curva, In), diferencial a montante (IΔn e tipo), cabo (designação, número de condutores, secção) e, sempre que relevante, o comprimento e o modo de instalação. Na origem, indica-se o aparelho geral de corte e proteção, a potência e o regime de neutro.

Exemplo resolvido · de um circuito para o esquema

O circuito "iluminação do piso 0" tem 600 W de lâmpadas LED (cosφ = 1), alimentado por um cabo de 2 condutores de 1,5 mm² com condutor de proteção, protegido por um disjuntor C10 a jusante de um diferencial.

  1. Corrente de serviço: Ib = 600 ÷ 230 = 2,61 A.
  2. Proteção: disjuntor de 10 A, 1P+N, curva C (no esquema: "C10").
  3. Cabo: 3G1,5 (fase, neutro e proteção, com 1,5 mm² cada).
  4. No esquema unifilar, a linha do circuito leva três traços oblíquos (fase, neutro, PE) e a legenda "3G1,5, C10, diferencial de 30 mA a montante".
  5. No multifilar, o mesmo circuito desenha três linhas: a fase passa pelo disjuntor e vai ao interruptor e ao ponto de luz; o neutro vai direto ao ponto de luz; o condutor de proteção liga às massas metálicas, se existirem.

Regras de boa prática no desenho

4. Grandezas elétricas e corrente de serviço

O ponto de partida de qualquer dimensionamento é a corrente de serviço Ib: a corrente que o circuito transporta em funcionamento normal, calculada a partir da potência das cargas.

Potência e fator de potência

Fórmulas de Ib

Circuito Fórmula Notas
Monofásico (fase + neutro) Ib = P ÷ (U · cosφ), U = 230 V P em W; corrente em A
Trifásico equilibrado Ib = P ÷ (√3 · U · cosφ), U = 400 V √3 ≈ 1,732
Motor (potência útil Pu) Pabsorvida = Pu ÷ η η é o rendimento; depois aplica-se a fórmula acima
A partir de potência aparente Ib = S ÷ U (mono) ou S ÷ (√3 · U) (tri) S em VA

Exemplo resolvido · aquecedor monofásico

Um aquecedor de 2300 W a 230 V, cosφ = 1.

  1. Ib = 2300 ÷ (230 × 1) = 10 A.
  2. A corrente é praticamente constante, sem picos de arranque: o cálculo de Ib dá o valor de projeto.

Exemplo resolvido · motor trifásico

Um motor trifásico de 4 kW de potência útil, rendimento 0,85, cosφ = 0,8, alimentado a 400 V.

  1. Potência absorvida: 4000 ÷ 0,85 = 4705,9 W.
  2. Ib = 4705,9 ÷ (1,732 × 400 × 0,8) = 4705,9 ÷ 554,2 = 8,49 A.
  3. No arranque a corrente é várias vezes superior; essa corrente temporária não é Ib, mas condiciona a escolha da curva do disjuntor (capítulo 13).

Exemplo resolvido · potência contratada

Uma habitação tem 6,9 kVA de potência contratada, em monofásico a 230 V.

  1. Ib máxima = 6900 ÷ 230 = 30 A.
  2. O aparelho geral de corte e proteção à entrada da instalação será dimensionado para uma corrente que corresponda a esta potência (30 A neste caso), e todos os cabos a jusante são dimensionados para as suas próprias cargas, não para os 30 A.
  3. Com 3,45 kVA, a mesma conta dá 3450 ÷ 230 = 15 A.

Fatores de utilização e de simultaneidade

Raramente todas as cargas funcionam ao mesmo tempo e à potência máxima. Na distribuição, a potência a considerar para um quadro ou coluna é a soma das potências instaladas multiplicada por fatores de utilização (as cargas não trabalham à potência nominal) e de simultaneidade (nem todas trabalham ao mesmo tempo). Esses fatores são indicados em tabelas das regras técnicas e da prática de projeto, e são menores que 1. Num circuito final (um só equipamento ou um conjunto pequeno de tomadas) considera-se, por segurança, a corrente máxima possível, sem redução.

Exemplo resolvido · potência de um quadro com simultaneidade

Um quadro alimenta três circuitos com 3,6 kW, 2,2 kW e 1,0 kW (cosφ = 1) e o projeto indica um fator de simultaneidade global de 0,8.

  1. Potência instalada: 3,6 + 2,2 + 1,0 = 6,8 kW.
  2. Potência de cálculo: 6,8 × 0,8 = 5,44 kW.
  3. Ib do quadro = 5440 ÷ 230 = 23,65 A.
  4. Os circuitos finais continuam a ser dimensionados com a corrente máxima de cada um: 15,65 A, 9,57 A e 4,35 A.

5. Cabos e condutores: tipos, designações e acessórios

O condutor é o elemento metálico que transporta a corrente (cobre ou alumínio); o cabo é o conjunto de condutores com isolamento e, se existir, bainha. Nas instalações interiores correntes usa-se cobre; o alumínio aparece em secções maiores, na distribuição, e exige terminais próprios.

Designações harmonizadas dos cabos

Muitos cabos de instalação têm uma designação codificada, em que cada letra ou grupo de letras diz uma característica. Lê-se da esquerda para a direita:

Código Significado
H cabo conforme norma harmonizada europeia
07 tensão nominal 450/750 V (05 corresponde a 300/500 V)
V isolamento em PVC
R (depois do traço) alma de cobre rígida multifilar (conjunto de fios)
R (logo a seguir à tensão) isolamento em borracha, como em H07RN-F
U alma de cobre rígida de fio único (maciça)
K alma de cobre flexível, muitos fios finos
V (segundo V) bainha exterior em PVC
F flexível para aplicação móvel (como nos cabos de extensão)
N bainha de policloropreno (neoprene)

Exemplos: H07V-U é um condutor de cobre maciço isolado a PVC, 450/750 V, para instalação fixa em tubo; H07V-R é o equivalente multifilar; H07V-K é flexível, usado em quadros e armários; H05VV-F é um cabo flexível com bainha de PVC para ligação de aparelhos; H07RN-F é um cabo flexível com bainha de borracha, apto para ambientes exigentes, como exteriores e estaleiros.

Cabos de energia com bainha, para canalizações fixas

Para canalizações em esteira, enterradas ou à vista, usam-se cabos com bainha e tensão nominal de 0,6/1 kV, de isolamento em PVC (designação nacional tipo VV) ou em polietileno reticulado (designação tipo XV, o XLPE). O isolamento em polietileno reticulado suporta uma temperatura de serviço mais elevada do que o PVC, e por isso admite correntes maiores para a mesma secção. Em edifícios com afluência de público e vias de evacuação, a escolha deve privilegiar cabos de baixa emissão de fumo e sem halogéneos (LSZH, ou LSOH), cuja exigência é fixada pelas regras técnicas e pelos regulamentos de segurança contra incêndio aplicáveis ao edifício.

Código de cores e identificação

Secções normalizadas

As secções nominais de condutores em instalações têm uma série normalizada (mm²):

1,5 2,5 4 6 10 16 25 35 50 70 95 120 150 185 240 300

Não existe cabo de 3 mm² nem de 8 mm²: quando o cálculo dá um valor intermédio, sobe-se para a secção normalizada seguinte. A secção mínima de cada circuito consta do Quadro 52J das RTIEBT (cobre, potência e iluminação, instalações fixas: 1,5 mm²) e, em habitação, da secção 801.5.8: iluminação 1,5 mm²; tomadas 2,5 mm²; termoacumuladores 2,5 mm²; máquinas de lavar e de secar roupa ou de lavar loiça 2,5 mm²; fogões 4 mm²; climatização ambiente 2,5 mm².

Acessórios de cabos

Acessório Função
Terminais (de olhal, de pino, de forquilha) ligar o condutor ao aparelho sem fios soltos
Ponteiras (ferrules) evitar que os fios de um condutor flexível se desfiem no borne
Conectores e bornes de mola derivar e emendar condutores em caixa
Passa-cabos e bucins fixar o cabo à entrada de um quadro ou caixa, mantendo o grau de proteção
Abraçadeiras e braçadeiras fixar cabos às paredes e estruturas, a espaços regulares
Identificadores marcar os cabos com a designação do circuito
Manga termorretrátil reforçar o isolamento de uma junção

Exemplo resolvido · ler a designação de um cabo

Num orçamento lê-se "H07V-K 1x2,5 azul" e "H07RN-F 3G1,5".

  1. H07V-K 1x2,5 azul: cabo harmonizado (H), 450/750 V (07), isolamento PVC (V), alma flexível (K), um condutor de 2,5 mm², cor azul: é um neutro flexível para ligar num quadro.
  2. H07RN-F 3G1,5: cabo harmonizado, 450/750 V, isolamento de borracha (R), bainha de neoprene (N), flexível (F), três condutores com condutor verde e amarelo (G), 1,5 mm² cada: serve, por exemplo, para uma extensão ou um aparelho móvel exterior.
  3. Nenhum dos dois é o cabo adequado para embeber diretamente na parede: sem tubo, essa função pede um cabo com bainha própria para canalização fixa.

6. Proteção mecânica dos condutores: tubos, calhas e acessórios

Os condutores isolados não podem andar soltos: precisam de proteção mecânica contra choques, esmagamento, humidade, roedores e abrasão, e de um percurso ordenado que permita enfiar e substituir cabos sem partir paredes. É para isso que existem os tubos e outros sistemas de caminhos de cabos.

Tipos de tubos

Tipo Características Utilização típica
Tubo rígido de PVC (família VD) liso, rígido, em varas, com curvas e ligações coladas ou de encaixe instalações à vista (aparentes), em locais secos e húmidos
Tubo flexível corrugado (ondulado) de PVC ou polietileno ondulado, dobra-se à mão, fornecido em rolos instalações embebidas em paredes e lajes; as designações comerciais variam consoante a gama
Tubo metálico rígido ou flexível resistência mecânica elevada, pode funcionar como proteção contra choques mecânicos locais industriais, ambientes sujeitos a pancadas ou a calor; com ligação equipotencial quando a regra o exige
Tubo para enterrar (dupla parede) corrugado exterior, liso interior, resistente ao esmagamento canalizações enterradas e atravessamentos exteriores

Os diâmetros nominais exteriores mais usados são 16, 20, 25, 32, 40, 50 e 63 mm. O diâmetro interior real depende do material e da espessura de parede, e é dado no catálogo do fabricante.

Acessórios de tubos

Acessório Função
Curvas e uniões (coladas ou de encaixe) mudar de direção e ligar varas de tubo sem estrangular a passagem
Caixas de derivação e de passagem derivar circuitos e permitir a enfiagem e a inspeção
Caixas de aparelhagem alojar tomadas e interruptores
Bucins e entradas estanques manter o grau de proteção IP à entrada das caixas
Abraçadeiras e braçadeiras de fixação prender o tubo à estrutura a intervalos regulares
Tampões fechar tubos de reserva ou sem uso
Fita-guia (enfiador) puxar os cabos através do tubo

Os acessórios escolhem-se pelo diâmetro do tubo, pelo material e pelo grau de proteção IP exigido no local.

Outros caminhos de cabos

Graus de proteção: IP e IK

A proteção que um invólucro oferece (caixa, quadro, tubo, aparelho) exprime-se por dois códigos.

Código IP (EN 60529): duas cifras. A primeira indica a proteção contra corpos sólidos e o acesso a partes perigosas; a segunda, contra a água.

1.ª cifra Proteção 2.ª cifra Proteção
2 dedo de ensaio (objetos de mais de 12,5 mm) 4 projeções de água em todas as direções
4 objetos de mais de 1 mm 5 jatos de água
5 poeiras (protegido) 7 imersão temporária
6 estanque às poeiras 8 imersão contínua em condições definidas

Código IK (EN 62262): dois dígitos, de IK00 a IK10, para a resistência a choques mecânicos. Quanto maior o número, maior a energia de impacto suportada: por exemplo, IK07 corresponde a 2 joules, IK08 a 5 joules, IK09 a 10 joules e IK10 a 20 joules.

Regras de instalação de tubos

  1. Traçado simples: horizontal ou vertical, evitando oblíquos; assim sabe-se por onde passam os cabos.
  2. Curvas largas, nunca vincos; muitas curvas dificultam a enfiagem.
  3. Caixas de derivação e de passagem acessíveis nos pontos de derivação e a distâncias adequadas, para enfiar e inspecionar.
  4. Estanquicidade em locais húmidos: uniões e entradas em caixa com grau de proteção adequado.
  5. Não misturar circuitos de potência com comunicações no mesmo tubo, a menos que o sistema o permita e preveja separação.
  6. Fixação a intervalos regulares e dilatação prevista em tubos longos à vista.
  7. Reserva: o tubo deve permitir enfiar cabos adicionais no futuro. Por isso não se enche até ao limite (capítulo 10).

Exemplo resolvido · escolher a proteção mecânica de um percurso

Um cabo de iluminação passa por uma parede de alvenaria (embutido), depois por uma garagem húmida (à vista, risco de choque de veículos).

  1. Na parede embutida: tubo flexível corrugado embebido, simples e económico, com a secção calculada (capítulo 10).
  2. Na garagem à vista: tubo rígido (de PVC ou metálico) com IK elevado e caixas estanques (IP de pelo menos IP55), fixo com abraçadeiras.
  3. A transição faz-se numa caixa de derivação estanque, com entradas que mantêm o IP.
  4. O cabo mantém-se o mesmo nos dois troços: só muda o sistema de proteção mecânica.

7. Modos de instalação e intensidades admissíveis

A corrente que um cabo pode transportar sem aquecer demais chama-se intensidade de corrente admissível, Iz. Depende do material do condutor, do isolamento (que define a temperatura máxima), da secção e de como o cabo é instalado: um cabo ao ar livre arrefece melhor do que o mesmo cabo dentro de uma parede.

Temperatura máxima e isolamento

Métodos de referência

As tabelas de intensidades admissíveis estão organizadas por método de referência, designados por letras. Resumo dos mais usados:

Método Descrição
A condutores isolados em tubo, em parede termicamente isolante
A2 cabo multicondutor em tubo, em parede termicamente isolante
B condutores isolados em tubo, à vista ou embebido em alvenaria
B2 cabo multicondutor em tubo, à vista ou embebido em alvenaria
C cabo fixado diretamente sobre uma parede ou teto
D cabo enterrado, em tubo ou diretamente
E cabo multicondutor ao ar livre, afastado de paredes, ou em esteira perfurada
F e G cabos unipolares ao ar livre, em contacto ou espaçados

Quando o modo real de instalação não coincide exatamente com um método de referência, escolhe-se o mais próximo e, na dúvida, o mais desfavorável.

Nas RTIEBT (Quadro 52H) os métodos designam-se A, A2, B, B2, C, D, E/F e G. O que as normas CEI mais recentes chamam A1 e B1 corresponde aos métodos A e B das RTIEBT. Os valores de Iz0 do material de trabalho são os dos Quadros 52-C1 (PVC, dois condutores carregados) e 52-C3 (PVC, três condutores carregados), coluna do método B; os fatores de temperatura estão no Quadro 52-D1 e os de agrupamento no Quadro 52-E1.

Número de condutores carregados

Os valores de Iz diferem consoante o circuito tenha 2 condutores carregados (monofásico: fase e neutro) ou 3 condutores carregados (trifásico equilibrado, em que o neutro quase não conduz). Com 3 condutores a trabalhar juntos, aquecem mais, e a corrente admissível por condutor desce.

Fatores de correção

A tabela de Iz refere-se a condições-padrão (ambiente de 30 °C no ar, um só circuito). Quando a realidade difere, aplica-se:

Iz = Iz0 × kT × kG

Estes fatores constam de tabelas das RTIEBT. Aqui usam-se como dados do problema.

Dados de trabalho para os exemplos

Para os exemplos e exercícios que se seguem, usa-se esta tabela de Iz0 de cabos de cobre com isolamento em PVC, método B (condutores isolados em tubo), como dados do enunciado:

Secção (mm²) 1,5 2,5 4 6 10 16
Iz0, 2 condutores carregados (A) 17,5 24 32 41 57 76
Iz0, 3 condutores carregados (A) 15,5 21 28 36 50 68

Na prática, consulta-se sempre a tabela em vigor para o método e o isolamento reais.

Exemplo resolvido · aplicar fatores de correção

Cabo de 4 mm², 2 condutores carregados, método B, num ambiente a 35 °C com mais um circuito no mesmo tubo. O enunciado fornece kT = 0,94 e kG = 0,80.

  1. Iz0 = 32 A (da tabela de trabalho).
  2. Fator conjunto: 0,94 × 0,80 = 0,752.
  3. Iz = 32 × 0,752 = 24,06 A.
  4. O cabo, que na tabela transportava 32 A, só pode transportar 24,06 A nestas condições. Ignorar os fatores levaria a escolher uma proteção de 32 A, que deixaria o cabo a 33% acima do limite.

8. Dimensionar a secção do condutor

O critério fundamental para escolher a secção é a corrente admissível. O raciocínio liga a corrente de serviço, a proteção e o cabo, nesta ordem:

Ib ≤ In ≤ Iz

A proteção é escolhida primeiro (In ≥ Ib) e o cabo depois (Iz ≥ In). Se fosse o contrário, o cabo seria "esticado" até ao limite sem proteção que o defendesse.

Método em seis passos

  1. Calcular Ib.
  2. Escolher In, o primeiro valor da série igual ou superior a Ib (e adequado à carga).
  3. Identificar o método de referência, o número de condutores carregados e os fatores kT e kG.
  4. Calcular a corrente tabelada mínima: Iz0 ≥ In ÷ (kT · kG).
  5. Escolher a primeira secção normalizada cujo Iz0 satisfaça o passo 4.
  6. Verificar a queda de tensão (capítulo 9) e os restantes critérios; se falhar, subir a secção.

Exemplo resolvido · circuito de uma placa de cozinha

Placa vitrocerâmica de 3,6 kW, 230 V, cosφ = 1, cabo H07V-R em tubo (método B, 2 condutores carregados), ambiente a 35 °C (kT = 0,94), partilhando o tubo com um outro circuito (kG = 0,80).

  1. Ib = 3600 ÷ 230 = 15,65 A.
  2. In: o primeiro valor da série ≥ 15,65 A é 16 A; mas uma placa tem utilização forte e o projeto adotou 20 A, também normalizado. Tomamos In = 20 A.
  3. Fator conjunto: 0,94 × 0,80 = 0,752.
  4. Iz0 mínimo: 20 ÷ 0,752 = 26,6 A.
  5. Candidatos (tabela de trabalho, 2 condutores): 2,5 mm² dá 24 A < 26,6 A (não serve); 4 mm² dá 32 A ≥ 26,6 A (serve). Secção escolhida: 4 mm².
  6. Iz = 32 × 0,752 = 24,06 A ≥ In = 20 A: Ib (15,65) ≤ In (20) ≤ Iz (24,06) verifica-se.

Se tivéssemos escolhido a secção só por Ib = 15,65 A e sem fatores, 2,5 mm² (Iz0 = 24 A) pareceria suficiente. Com os fatores, Iz desce para 24 × 0,752 = 18,05 A, inferior ao In = 20 A: o cabo ficaria desprotegido. Este é o erro mais frequente em dimensionamento.

Exemplo resolvido · circuito trifásico de um motor

Motor trifásico com Ib = 8,49 A (capítulo 4), disjuntor-motor/disjuntor de In = 10 A, cabo H07V-R em tubo (método B, 3 condutores carregados), ambiente a 30 °C e circuito sozinho (kT = kG = 1).

  1. Iz0 mínimo = 10 ÷ 1 = 10 A.
  2. Tabela de trabalho com 3 condutores carregados: 1,5 mm² dá 15,5 A ≥ 10 A. Secção: 1,5 mm².
  3. Verificação: 8,49 ≤ 10 ≤ 15,5 A. Verifica-se.
  4. O Quadro 52J das RTIEBT fixa 1,5 mm² como secção mínima em cobre para circuitos de potência em instalações fixas: 1,5 mm² cumpre.
  5. Falta a queda de tensão (capítulo 9) e a verificação do arranque.

Secção do condutor neutro e de proteção

9. Queda de tensão

Ao longo de um cabo há uma queda de tensão ΔU: a tensão no fim do circuito é menor do que à entrada, porque o cabo tem resistência. Com quedas excessivas, as lâmpadas perdem luz, os motores aquecem e arrancam mal, e os aparelhos eletrónicos funcionam fora da gama. As RTIEBT fixam o limite máximo de queda de tensão entre a origem da instalação e qualquer ponto de utilização, em percentagem da tensão nominal, em função do tipo de utilização (iluminação ou outras) e da alimentação. Pelo Quadro 52O, numa instalação alimentada diretamente pela rede pública de baixa tensão o limite é de 3% na iluminação e de 5% nos outros usos; numa instalação alimentada por um posto de transformação MT/BT, de 6% e de 8%.

Fórmulas (resistência dominante)

Circuito ΔU (V) ΔU (%)
Monofásico 2 · ρ · L · Ib · cosφ ÷ S ΔU ÷ 230 × 100
Trifásico √3 · ρ · L · Ib · cosφ ÷ S ΔU ÷ 400 × 100

Exemplo resolvido · tomadas, comprimento moderado

Circuito de tomadas com cabo de 2,5 mm², L = 25 m, Ib = 16 A, cosφ = 1, monofásico.

  1. ΔU = 2 × 0,0225 × 25 × 16 × 1 ÷ 2,5 = 18 ÷ 2,5 = 7,2 V.
  2. ΔU% = 7,2 ÷ 230 × 100 = 3,13%.
  3. Com um limite de 5% (valor dado no enunciado), o circuito cumpre.

Exemplo resolvido · o cabo longo que falha

Mesmo circuito, mas com L = 45 m.

  1. ΔU = 2 × 0,0225 × 45 × 16 ÷ 2,5 = 32,4 ÷ 2,5 = 12,96 V, ou seja, 5,63%.
  2. Com o limite de 5%, não cumpre.
  3. Passa-se à secção normalizada seguinte, 4 mm²: ΔU = 32,4 ÷ 4 = 8,1 V = 3,52%. Cumpre.
  4. O disjuntor mantém-se; o que mudou foi o cabo. A queda de tensão foi, aqui, o critério que decidiu a secção.

Exemplo resolvido · iluminação

Circuito de iluminação com cabo de 1,5 mm², L = 30 m, Ib = 5 A, cosφ = 1.

  1. ΔU = 2 × 0,0225 × 30 × 5 ÷ 1,5 = 6,75 ÷ 1,5 = 4,5 V.
  2. ΔU% = 4,5 ÷ 230 × 100 = 1,96%.
  3. Com o limite de 3% para iluminação dado no enunciado, cumpre.

Exemplo resolvido · circuito trifásico

Motor trifásico, Ib = 8,49 A, cosφ = 0,8, cabo de 2,5 mm², L = 60 m.

  1. ΔU = √3 × 0,0225 × 60 × 8,49 × 0,8 ÷ 2,5 = 15,88 ÷ 2,5 = 6,35 V.
  2. ΔU% = 6,35 ÷ 400 × 100 = 1,59%.
  3. Com 1,5 mm² seria 10,59 V, ou 2,65%; ambas as hipóteses cumprem um limite de 5%, mas o arranque do motor (corrente várias vezes superior) agrava a queda, pelo que se prefere a folga.

Secção mínima pela queda de tensão

Isolando S na fórmula obtém-se a secção mínima:

S ≥ 2 · ρ · L · Ib · cosφ ÷ ΔUmáx (monofásico)

Exemplo resolvido · secção mínima por queda de tensão

Circuito monofásico da placa (Ib = 15,65 A, cosφ = 1) com L = 22 m e limite de 5% (11,5 V).

  1. S ≥ 2 × 0,0225 × 22 × 15,65 ÷ 11,5 = 15,50 ÷ 11,5 = 1,35 mm².
  2. Pelo critério da queda de tensão bastaria 1,5 mm²; mas a corrente admissível pediu 4 mm² (capítulo 8). A secção final é a maior: 4 mm².

Queda de tensão total

A queda de tensão soma-se ao longo da cadeia de circuitos entre a origem da instalação e o ponto de utilização: circuito de distribuição, quadro parcial, circuito final. O limite do Quadro 52O das RTIEBT conta a partir da origem da instalação. A entrada, que vai da portinhola à origem da instalação, tem o seu limite próprio de 1,5% nas instalações individuais (secção 803.2.4.4.2) e não entra nesta soma.

Exemplo resolvido · cadeia de quedas

Numa moradia, o circuito que liga o quadro geral a um quadro parcial tem 1,2% de queda, e o circuito de tomadas mais longo, ligado a esse quadro parcial, 3,13%.

  1. Total: 1,2 + 3,13 = 4,33%.
  2. Compara-se com o limite do Quadro 52O para outros usos, em alimentação pela rede pública: 5%. Como 4,33% ≤ 5%, cumpre, com 0,67% de folga.
  3. Se o projeto impusesse um limite mais apertado, de 4%, o circuito teria de ser revisto.

10. Dimensionar a secção dos tubos

Escolhido o cabo, falta saber que tubo o leva. O tubo tem de acolher todos os condutores do troço com folga para os enfiar e para os dissipar calor, e com margem para futuras ampliações. A regra é limitar a ocupação: a soma das áreas das secções transversais dos condutores (com isolamento) não pode exceder uma fração da área interior do tubo.

Método

  1. Obter do catálogo o diâmetro exterior de cada condutor e calcular a área: A = π · d² ÷ 4.
  2. Somar as áreas de todos os condutores que passam no tubo (incluindo neutro e proteção).
  3. Obter o diâmetro interior do tubo e calcular a área interior.
  4. Verificar: soma das áreas ≤ taxa de ocupação × área interior.
  5. Escolher o menor diâmetro normalizado (16, 20, 25, 32, 40, 50, 63 mm) que verifique.

As RTIEBT só fixam uma taxa de ocupação para as colunas (secção 803.4.5: 20% da secção interior da conduta, ou 40% quando se prevê o aumento de potência). Para os restantes circuitos, a ocupação e o diâmetro dos tubos seguem as indicações do fabricante do tubo e do projeto. Nos exemplos usa-se 40% como valor de trabalho, dado no enunciado, e noutros contextos usa-se a tabela do fabricante do número máximo de condutores por tubo.

Exemplo resolvido · cinco condutores de 2,5 mm²

Condutores H07V-R de 2,5 mm² com diâmetro exterior de 3,6 mm (dado do catálogo). Dois circuitos monofásicos partilham o tubo e o condutor de proteção: 2 fases, 2 neutros e 1 PE, ou seja, 5 condutores no total. Tubo de 16 mm com diâmetro interior 12,6 mm, ou de 20 mm com 16,9 mm (dados do fabricante).

  1. Área de cada condutor: π × 3,6² ÷ 4 = 10,18 mm².
  2. Soma: 5 × 10,18 = 50,89 mm².
  3. Tubo de 16 mm: área interior = π × 12,6² ÷ 4 = 124,69 mm²; 40% = 49,88 mm². Como 50,89 > 49,88, não cumpre.
  4. Tubo de 20 mm: área interior = π × 16,9² ÷ 4 = 224,32 mm²; 40% = 89,73 mm². Como 50,89 ≤ 89,73, cumpre.
  5. Tubo escolhido: 20 mm. O de 16 mm falha por apenas 1 mm²; é o tipo de caso em que se sobe sem hesitar, porque uma enfiagem difícil danifica o isolamento.

Exemplo resolvido · condutores de secções diferentes

Nove condutores num troço: 6 condutores de 1,5 mm² (diâmetro exterior 3,0 mm) e 3 de 2,5 mm² (3,6 mm).

  1. Área de cada condutor de 1,5 mm²: π × 3,0² ÷ 4 = 7,07 mm²; seis dão 42,41 mm².
  2. Cada condutor de 2,5 mm² tem 10,18 mm²; três dão 30,54 mm².
  3. Soma: 42,41 + 30,54 = 72,95 mm².
  4. Tubo de 20 mm (interior 16,9 mm): 40% da área = 89,73 mm² ≥ 72,95. Cumpre; o tubo de 16 mm (49,88 mm²) não.
  5. Escolha: tubo de 20 mm.

Condições do percurso

11. Proteção contra sobrecargas

Uma sobrecarga é uma sobreintensidade num circuito são, ou seja, uma corrente acima da corrente de serviço, mas ainda de valor moderado: demasiados aparelhos ligados ao mesmo circuito, um motor bloqueado, uma extensão com carga a mais. A sobrecarga é lenta: o cabo aquece progressivamente. O perigo é o cabo ultrapassar a temperatura máxima do isolamento, que degrada e acaba por falhar. A proteção contra sobrecargas deve cortar o circuito antes de isso acontecer.

As duas condições

A proteção contra sobrecargas dimensiona-se verificando duas condições simultâneas:

  1. Ib ≤ In ≤ Iz, a condição fundamental que já usámos no capítulo 8.
  2. I2 ≤ 1,45 · Iz, onde I2 é a corrente que assegura efetivamente o funcionamento do aparelho de proteção dentro do tempo convencional.

A primeira diz que o aparelho não dispara em serviço normal (In ≥ Ib) e que, se a corrente se aproximar do limite do cabo, o aparelho já está a atuar (In ≤ Iz). A segunda diz que, mesmo no pior caso de sobrecarga lenta, o aparelho atua antes de o cabo ultrapassar em mais de 45% a sua capacidade.

I2 conforme o aparelho

Aparelho I2 (corrente de funcionamento convencional) Consequência
Disjuntor de uso doméstico (EN 60898-1) 1,45 · In a condição 2 fica automaticamente cumprida se In ≤ Iz
Fusível gG de calibres correntes (16 A a 63 A, norma de produto CEI 60269) 1,6 · In exige In ≤ 1,45 · Iz ÷ 1,6 ≈ 0,906 · Iz
Disjuntores industriais (EN 60947-2) valor de regulação do disparador térmico verificar o valor regulado, não o calibre máximo

Isto explica por que razão um fusível exige mais folga no cabo do que um disjuntor com o mesmo calibre. A secção 433.2 das RTIEBT define I2 como a corrente convencional de funcionamento e fixa o limite I2 ≤ 1,45 · Iz; os fatores 1,45 · In (disjuntores) e 1,6 · In (fusíveis gG) vêm das normas de produto.

Em habitação, as RTIEBT (secção 801.5.5.1) exigem disjuntores na proteção contra sobreintensidades; só se admitem fusíveis nas canalizações que alimentam outros quadros ou um único aparelho de potência elevada, e na sinalização e medição.

Exemplo resolvido · disjuntor ou fusível, o mesmo cabo

Um cabo com Iz = 27 A e uma carga com Ib = 21 A. Compara-se disjuntor de 25 A e fusível gG de 25 A.

  1. Condição 1: Ib = 21 ≤ In = 25 ≤ Iz = 27. Verifica-se para ambos.
  2. Disjuntor: I2 = 1,45 × 25 = 36,25 A. Limite: 1,45 × 27 = 39,15 A. 36,25 ≤ 39,15: cumpre.
  3. Fusível gG: I2 = 1,6 × 25 = 40 A. Limite: 39,15 A. 40 > 39,15: não cumpre.
  4. Solução com fusível: passar a um gG de 20 A, que, no entanto, é inferior a Ib = 21 A e dispararia em serviço normal. Portanto, o fusível exige um cabo de maior secção (maior Iz). O disjuntor serve com o cabo atual.

Exemplo resolvido · o cabo da placa, com fatores

Cabo de 4 mm² com Iz = 24,06 A (capítulo 7), proteção por disjuntor de 20 A, Ib = 15,65 A.

  1. Condição 1: 15,65 ≤ 20 ≤ 24,06. Verifica-se.
  2. I2 = 1,45 × 20 = 29 A.
  3. Limite: 1,45 × 24,06 = 34,89 A. 29 ≤ 34,89: cumpre.
  4. A proteção contra sobrecarga está garantida.

Onde se coloca a proteção

A proteção contra sobrecargas coloca-se no início do circuito e sempre que a corrente admissível diminui (mudança de secção, de modo de instalação ou de ambiente), a menos que um aparelho a montante já proteja o troço. As RTIEBT admitem exceções, como as canalizações a jusante de um dispositivo que já as protege contra sobrecargas, ou as não suscetíveis de correntes de sobrecarga (secção 473.1.2), e recomendam a não colocação de proteção contra sobrecargas nos circuitos cuja abertura inesperada possa originar perigos, por exemplo a excitação de máquinas rotativas ou a alimentação de eletroímanes de elevação de cargas (secção 473.1.4). Nesses casos é prática usar sinalização ou alarme em vez de corte.

Um aparelho só para sobrecarga e curto-circuito

Os disjuntores magnetotérmicos fazem as duas funções: o disparador térmico (bilâmina) trata das sobrecargas; o disparador magnético (eletroíman) trata dos curtos-circuitos. Os fusíveis gG também protegem contra ambas, com a sua curva tempo-corrente. Já os fusíveis aM (acompanhamento de motores) só protegem contra curto-circuito e exigem proteção térmica separada contra a sobrecarga.

12. Proteção contra curtos-circuitos

O curto-circuito é a ligação direta, de impedância desprezável, entre dois condutores de potenciais diferentes (fase e neutro, fase e fase, fase e terra). A corrente de defeito (Icc) é muito elevada, pode atingir milhares de amperes, e a energia térmica e eletrodinâmica que liberta em milésimos de segundo pode vaporizar condutores e provocar incêndio.

A proteção contra curto-circuito tem de verificar três exigências:

  1. Poder de corte do aparelho ≥ Icc máxima no ponto da instalação onde está.
  2. Disparo rápido para a Icc mínima (a do defeito mais longínquo), para que o aparelho realmente atue.
  3. Energia limitada: a energia que passa até ao corte não pode aquecer o cabo além do admissível, ou seja, I²t ≤ k² · S².

Poder de corte e Icc máxima

A corrente de curto-circuito máxima ocorre no início do circuito, onde a impedância a montante é menor. O poder de corte do aparelho (capítulo 13) tem de ser igual ou superior a esse valor. O valor de Icc na origem da instalação é indicado pelo operador da rede ou calculado a partir da impedância da fonte.

A corrente de curto-circuito diminui ao longo do circuito, porque o cabo acrescenta resistência.

Exemplo resolvido · a Icc a diminuir ao longo de um cabo

Na origem de um circuito a corrente de curto-circuito fase-neutro é 4000 A (dado do operador). Cabo de 1,5 mm², L = 20 m, ρ = 0,0225 Ω·mm²/m.

  1. Impedância da fonte: 230 ÷ 4000 = 0,0575 Ω.
  2. Resistência do laço no cabo (ida e volta): 2 × 0,0225 × 20 ÷ 1,5 = 0,60 Ω.
  3. Impedância total: 0,0575 + 0,60 = 0,6575 Ω.
  4. Icc no fim do cabo: 230 ÷ 0,6575 = 350 A (arredondado).
  5. Conclusão: a corrente passou de 4000 A para cerca de 350 A. O aparelho tem de ter poder de corte para os 4000 A à sua entrada e disparar rapidamente com 350 A no pior ponto.

Icc mínima e comprimento máximo protegido

O defeito mais difícil de detetar é o curto-circuito (ou o defeito à terra) no fim do cabo mais longo, onde Icc é mínima. O disparador magnético do disjuntor precisa que a corrente chegue ao seu limiar de disparo instantâneo. A secção 434.3.2 das RTIEBT exige que o corte do curto-circuito mais afastado se faça antes de o cabo atingir o limite térmico. Para o verificar, usa-se aqui um método simplificado de trabalho, que as RTIEBT não impõem (é um método convencional): considera-se que, na origem, a tensão disponível é 80% da tensão simples, e a resistividade ρ é a dada no enunciado.

Icc mín = 0,8 · U0 · S ÷ (ρ · 2L) (fase-neutro, monofásico)

e o comprimento máximo de cabo protegido por um disjuntor de limiar magnético Im é

Lmáx = 0,8 · U0 · S ÷ (2 · ρ · Im)

Nas verificações reais, calcula-se a Icc mínima com a resistividade do condutor aquecido pelo defeito, ou usam-se as tabelas do fabricante, e o comprimento máximo obtido é inferior ao dos exemplos.

Exemplo resolvido · comprimento máximo protegido

Disjuntor C10 (disparo magnético entre 5 e 10 vezes In, ou seja, no máximo em 100 A) e cabo de 2,5 mm².

  1. Im (pior caso) = 10 × 10 = 100 A.
  2. Lmáx = 0,8 × 230 × 2,5 ÷ (2 × 0,0225 × 100) = 460 ÷ 4,5 = 102,2 m.
  3. Um cabo mais longo do que ~102 m já não garante o disparo magnético em curto-circuito no fim da linha: usa-se curva B (limiar de disparo mais baixo), aumenta-se a secção (que faz subir a Icc mínima) ou encurta-se o traçado. Atenção: um dispositivo diferencial não resolve este problema. No curto-circuito entre fase e neutro as correntes continuam a somar zero no toroide e o diferencial não atua; o diferencial só acrescenta proteção no defeito entre fase e terra, que é um caso diferente.

Exemplo resolvido · curva B contra curva C num cabo longo

Cabo de 1,5 mm² e disjuntor de 10 A.

  1. Curva B: Im máx = 5 × 10 = 50 A. Lmáx = 0,8 × 230 × 1,5 ÷ (2 × 0,0225 × 50) = 276 ÷ 2,25 = 122,7 m.
  2. Curva C: Im máx = 100 A. Lmáx = 276 ÷ 4,5 = 61,3 m.
  3. Para um cabo de 80 m, a curva B protege e a C não. É por isso que, em linhas longas, a curva B é a mais indicada.

Solicitação térmica do cabo: I²t ≤ k² · S²

Num curto-circuito de duração inferior a cerca de 5 segundos, o cabo aquece sem tempo para dissipar calor (processo praticamente adiabático). A energia que pode suportar é

I²t ≤ k² · S²

onde k é uma constante que depende do material do condutor e do isolamento. Valores usuais, tabelados para o cobre e o alumínio com isolamento em PVC e em XLPE:

Condutor e isolamento k
Cobre, isolamento PVC 115
Cobre, isolamento XLPE ou EPR 143
Alumínio, isolamento PVC 76
Alumínio, isolamento XLPE ou EPR 94

Valores da secção 434.3.2 das RTIEBT.

O tempo máximo que o cabo aguenta para uma corrente de curto-circuito dada é t = k² · S² ÷ I².

Exemplo resolvido · energia que o cabo suporta

Cabo de cobre com isolamento PVC, S = 2,5 mm².

  1. k² · S² = 115² × 2,5² = 13 225 × 6,25 = 82 656 A²s.
  2. Para Icc = 3000 A: t = 82 656 ÷ 9 000 000 = 0,0092 s, isto é, cerca de 9 ms.
  3. O disjuntor tem de cortar em menos de 9 ms: os disjuntores limitadores atuam em poucos milissegundos, e o fabricante dá a energia específica passante I²t do aparelho.
  4. Se o fabricante indicar I²t = 30 000 A²s para o aparelho, então 30 000 ≤ 82 656: cumpre. O mesmo aparelho num cabo de 1,5 mm² (k² · S² = 13 225 × 2,25 = 29 756 A²s) não cumpriria (30 000 > 29 756).

Exemplo resolvido · corte rápido, energia pequena

Icc = 1500 A cortada em 5 ms, cabo de cobre PVC de 2,5 mm².

  1. I²t = 1500² × 0,005 = 2 250 000 × 0,005 = 11 250 A²s.
  2. Limite do cabo: 82 656 A²s. 11 250 ≤ 82 656: cumpre com larga folga.

Proteção contra curto-circuito e proteção contra sobrecarga em conjunto

Se um aparelho protege contra os dois defeitos e a sobrecarga está verificada, a proteção contra curto-circuito costuma estar verificada nos circuitos finais curtos. Mas nunca se assume: verificam-se as três exigências (poder de corte, disparo no fim da linha, I²t) em cada projeto.

13. Disjuntores e fusíveis

O disjuntor magnetotérmico

O disjuntor é um aparelho de seccionamento e de proteção que liga, suporta e corta correntes em condições normais e anormais, e que se rearma depois de disparar. Reúne dois disparadores:

Curvas de disparo (EN 60898-1)

A curva define o limiar do disparo magnético:

Curva Disparo magnético Utilização típica
B entre 3 e 5 × In circuitos de iluminação e tomadas, cabos longos, cargas resistivas
C entre 5 e 10 × In uso geral: tomadas, motores pequenos, iluminação com muitos balastros ou fontes
D entre 10 e 20 × In cargas com grande corrente de arranque (transformadores, certos motores)

Escolhe-se a curva para que o aparelho não dispare nos picos de arranque normais (disparos intempestivos) e dispare no curto-circuito mais fraco (fim do cabo mais longo).

Exemplo resolvido · escolher a curva para um motor

Motor com Ib = 8,49 A, disjuntor de In = 10 A. A corrente de arranque é cerca de 6 vezes Ib.

  1. Corrente de arranque: 6 × 8,49 = 50,9 A.
  2. Curva B (3 a 5 × 10 = 30 a 50 A): dispara no arranque. Não serve.
  3. Curva C (50 a 100 A): o limiar pode ser tão baixo como 50 A, e 50,9 A está no limite: risco de disparo intempestivo. Arriscado.
  4. Curva D (100 a 200 A): suporta o arranque. Serve, com cuidado com o fim da linha (capítulo 12).
  5. Alternativa: usar um disjuntor-motor com regulação térmica e magnética própria, que é a solução normal para motores.

Características principais de um disjuntor

Característica Significado
Corrente estipulada In calibre: 6, 8, 10, 13, 16, 20, 25, 32, 40, 50, 63 A (e 80, 100, 125 A)
Curva (B, C, D) limiar de disparo magnético
Poder de corte (Icn) maior corrente de curto-circuito que o aparelho corta com segurança (valores usuais em habitação: 4,5, 6 e 10 kA)
Classe de limitação de energia quanto menor a energia passante, melhor para o cabo (classes 1, 2 e 3)
Número de polos 1P, 1P+N, 2P, 3P, 3P+N, 4P
Tensão estipulada 230/400 V

Exemplo resolvido · poder de corte

No ponto onde o disjuntor é instalado, a Icc máxima calculada é 4,2 kA.

  1. Poder de corte mínimo: ≥ 4,2 kA.
  2. Valores comerciais: 4,5 kA satisfaz, 6 kA dá folga.
  3. Se a Icc fosse 7,5 kA, um aparelho de 6 kA não serviria, e teria de se usar um de 10 kA ou colocar a montante um aparelho limitador (associação), conforme o fabricante.

Fusíveis

O fusível é o aparelho de proteção mais simples: um elemento condutor calibrado que funde quando a corrente é excessiva e interrompe o circuito. Depois de atuar, substitui-se.

Classe Função Utilização
gG proteção de uso geral (sobrecarga e curto-circuito) cabos e distribuição
aM proteção de acompanhamento de motores (só curto-circuito) motores, com relé térmico à parte
aR, gR proteção de semicondutores variadores e retificadores

Os fusíveis têm poder de corte muito elevado (dezenas de kA) e são muito limitadores de energia, o que os torna ideais a montante de aparelhos de poder de corte menor. Inconvenientes: têm de ser substituídos; em trifásico, a fusão de um só fusível deixa o motor a funcionar em duas fases, com risco de queima; a reposição por um calibre superior anula a proteção.

Disjuntor ou fusível

Critério Disjuntor Fusível
Rearme sim, manual não, substitui-se
Poder de corte 4,5 a 10 kA (uso doméstico) tipicamente muito elevado
Limitação de energia boa (classe 3) excelente
Risco de substituição errada nenhum existe
Seccionamento sim (com a marcação adequada) só com porta-fusíveis seccionável
Utilização típica em Portugal quadros de habitação e serviços distribuição, quadros industriais, portinhola

Em habitação, a escolha não é livre: as RTIEBT (secção 801.5.5.1) exigem disjuntores como dispositivos de proteção contra sobreintensidades; só se admitem fusíveis nas canalizações que alimentam outros quadros ou um único aparelho de potência elevada, e na sinalização e medição.

14. Proteção das pessoas contra contactos diretos e indiretos

A corrente que passa pelo corpo humano pode causar contrações musculares, queimaduras e, a partir de valores relativamente baixos, fibrilhação ventricular, a causa mais frequente de morte por eletrocussão. O efeito depende da intensidade, do tempo de passagem e do trajeto. É por isso que a proteção de pessoas é o capítulo mais importante de uma instalação: tudo o resto pode ser reparado.

Contacto direto e contacto indireto

Proteção contra contactos diretos (proteção básica)

Medida Como funciona
Isolamento das partes ativas os condutores só se descobrem destruindo o isolamento
Invólucros e barreiras as partes ativas ficam dentro de caixas, com grau de proteção mínimo contra acesso (o equivalente a IP2X ou IPXXB, e IP4X nas superfícies horizontais acessíveis)
Obstáculos e afastamento previstos para locais de acesso restrito a pessoal qualificado
Proteção complementar por diferencial de alta sensibilidade (IΔn ≤ 30 mA) corta o circuito em milissegundos se uma corrente atravessar o corpo; é complemento, nunca a única medida
Muito baixa tensão de segurança (MBTS/MBTP) tensão limitada a valores sem perigo (50 V em corrente alternada), com fonte de segurança

Proteção contra contactos indiretos (proteção em caso de defeito)

Medida Como funciona
Ligação à terra das massas e corte automático da alimentação as massas ligam ao condutor de proteção; em caso de defeito, a proteção corta a alimentação num tempo suficientemente curto
Aparelhos de classe II (duplo isolamento) não têm massa acessível que possa ficar com tensão; não se ligam à terra
Separação elétrica um transformador de isolamento alimenta um só aparelho, sem referência à terra
Ligações equipotenciais massas e elementos condutores ficam ao mesmo potencial

O corte automático da alimentação

É a medida mais comum. As condições dependem do regime de neutro (capítulo 15), mas o princípio é o mesmo: se ocorrer um defeito entre uma fase e uma massa, a tensão de contacto nessa massa não deve ultrapassar a tensão limite convencional UL, ou então a proteção deve cortar o circuito em tempo curto. Em corrente alternada, UL = 50 V como valor corrente, e é mais baixo em locais de risco acrescido (por exemplo, certas instalações agrícolas e locais molhados). No esquema TN, a 230 V, o tempo de corte máximo é de 0,4 s (Quadro 41A das RTIEBT) nos circuitos terminais que alimentam aparelhos móveis ou portáteis da classe I, diretamente ou por tomadas (secção 413.1.3.4). Nos circuitos de distribuição admite-se um tempo convencional não superior a 5 s, e o mesmo limite pode aplicar-se aos circuitos terminais que alimentem apenas aparelhos fixos, nas condições da secção 413.1.3.5. No esquema TT não se usa o quadro de tempos: verifica-se RA · Ia ≤ UL e usam-se, de preferência, dispositivos diferenciais (secções 413.1.4.2 e 413.1.4.4).

Exemplo resolvido · tensão de contacto

Um defeito faz passar 8 A pela resistência de terra das massas RA = 12 Ω.

  1. Tensão de contacto: U = RA × I = 12 × 8 = 96 V.
  2. 96 V > UL = 50 V: a situação é perigosa e a proteção deve cortar rapidamente.
  3. Se RA fosse 5 Ω: U = 5 × 8 = 40 V ≤ 50 V: a tensão fica abaixo do limite.

Locais com maior risco

Os locais com banheira ou duche, piscinas, instalações agrícolas e locais condutores estão sujeitos a regras especiais (parte 7 das RTIEBT): volumes de proteção, graus de IP mínimos, ligações equipotenciais suplementares, restrições de aparelhagem e diferencial de 30 mA, conforme previsto na secção respetiva. A resistência do corpo desce muito com o corpo molhado, e o contacto com a água facilita o trajeto da corrente.

Efeitos da corrente (qualitativo)

15. Regimes de neutro (esquemas de ligação à terra)

O regime de neutro descreve como o neutro da fonte e as massas da instalação estão ligados à terra. Define o percurso da corrente de defeito e, portanto, o modo de proteger as pessoas. É indicado por duas ou três letras.

Significado das letras

Letra Posição Significado
T 1.ª o ponto neutro da fonte está ligado diretamente à terra
I 1.ª a fonte está isolada da terra (ou ligada por impedância elevada)
T 2.ª as massas da instalação estão ligadas à terra por uma terra local, independente da do neutro
N 2.ª as massas estão ligadas ao neutro da fonte (por condutor PE ou PEN)
S 3.ª o neutro (N) e o condutor de proteção (PE) são separados
C 3.ª neutro e proteção são comuns, no condutor PEN

Os regimes

Regime Neutro da fonte Massas Característica
TT à terra terra local própria o defeito fecha-se pela terra; corrente de defeito limitada; obriga a diferencial
TN-S à terra ao neutro da fonte por PE separado corrente de defeito elevada, tipo curto-circuito; protege-se com disjuntores
TN-C à terra ao neutro por PEN comum PEN no mesmo condutor; só se admite em condições restritas
TN-C-S à terra PEN na origem que depois se separa em N e PE combinação; nunca se volta a juntar N e PE a jusante da separação
IT isolado ou impedante terra local o primeiro defeito não corta; controlador de isolamento assinala; o segundo defeito dispara

Em Portugal

A rede pública de baixa tensão de distribuição em Portugal alimenta as instalações de utilização em regime TT. Isto significa que, em cada instalação, a terra de proteção é uma terra local (elétrodo próprio) e a proteção contra contactos indiretos faz-se com dispositivos diferenciais residuais. Os regimes TN e IT aparecem em instalações alimentadas por posto de transformação próprio, em indústria, hospitais (IT em certos locais médicos) e sistemas de segurança.

Condição de proteção em cada regime

Exemplo resolvido · RA máxima em TT

Instalação em regime TT, UL = 50 V, diferencial de 300 mA.

  1. RA × IΔn ≤ UL, logo RA ≤ 50 ÷ 0,3 = 166,7 Ω.
  2. Com um diferencial de 30 mA: RA ≤ 50 ÷ 0,03 = 1666,7 Ω.
  3. Com 500 mA: RA ≤ 50 ÷ 0,5 = 100 Ω.
  4. Quanto mais sensível o diferencial, mais fácil é cumprir com uma terra "má" (resistência alta): é por isso que o diferencial de 30 mA é tão eficaz em TT.
  5. Em habitação, as RTIEBT (secção 801.5.6.1) pedem uma resistência global de terra inferior a 100 Ω quando a proteção diferencial está na origem da instalação (disjuntor de entrada com função diferencial). Se não for possível obter esse valor, a proteção faz-se com diferenciais de corrente estipulada adequada à resistência de terra efetiva, tendo em conta as variações sazonais. Os 1666,7 Ω do diferencial de 30 mA são o limite da condição RA · IΔn ≤ 50 V, mas não dispensam a regra da habitação.

Exemplo resolvido · impedância máxima em TN

Regime TN, U0 = 230 V, disjuntor C16 num circuito final, que dispara magneticamente com 10 × In no máximo.

  1. Ia = 10 × 16 = 160 A.
  2. Zs ≤ U0 ÷ Ia = 230 ÷ 160 = 1,4375 Ω.
  3. Se a medição do laço der Zs = 1,2 Ω, cumpre; se der 1,6 Ω, não cumpre, e é preciso reduzir a impedância (condutor maior) ou usar proteção mais sensível (curva B ou diferencial).

Exemplo resolvido · identificar o regime

Descrição A: "Neutro do transformador à terra, massas ligadas a uma terra própria, sem relação elétrica com a do neutro." Descrição B: "Neutro à terra, massas ligadas ao neutro por um condutor PE distinto do neutro." Descrição C: "Fonte isolada da terra, com controlador de isolamento."

  1. A: primeira letra T (neutro à terra), segunda T (terra local): TT.
  2. B: T (neutro à terra), N (massas ligadas ao neutro), S (PE separado): TN-S.
  3. C: I (isolada), massas à terra local: IT.

16. Ligações à terra

A ligação à terra estabelece uma ligação elétrica intencional entre as massas da instalação e a massa geral da terra. Serve para que, em caso de defeito de isolamento, a corrente tenha um caminho de baixa impedância e a proteção atue; e para manter as massas a potenciais próximos entre si e da terra, limitando a tensão de contacto.

Elementos da instalação de terra

Elemento Função
Elétrodo de terra parte metálica enterrada em contacto com o solo: piquete (haste), fita ou cabo em anel, placa, ou armaduras das fundações
Condutor de terra liga o elétrodo ao terminal principal de terra
Terminal (ou barra) principal de terra ponto onde convergem o condutor de terra, os condutores de proteção e as ligações equipotenciais; permite desligar para medir
Condutor de proteção (PE) liga as massas ao terminal principal; bicolor verde e amarelo
Ligação equipotencial principal liga ao terminal principal as canalizações metálicas que entram no edifício (água, gás) e outros elementos condutores
Ligação equipotencial suplementar liga massas e elementos condutores simultaneamente acessíveis, por exemplo em casas de banho

Resistência de terra

A resistência de terra RA depende do tipo de elétrodo e da resistividade do solo ρ (Ω·m), que varia muito: de dezenas de Ω·m em solos húmidos e argilosos a centenas ou milhares em solos secos, arenosos ou rochosos, e varia com a estação do ano. Fórmulas aproximadas e de dimensionamento prévio:

Elétrodo Resistência aproximada
Piquete vertical de comprimento L (m) RA ≈ ρ ÷ L
n piquetes em paralelo, afastados no mínimo o seu comprimento RA ≈ (ρ ÷ L) ÷ n (na prática, um pouco superior)

O valor final é sempre confirmado por medição com um telurómetro, depois de executado o elétrodo.

Exemplo resolvido · piquete e resistência de terra

Solo com ρ = 100 Ω·m e um piquete de 2 m.

  1. RA ≈ 100 ÷ 2 = 50 Ω.
  2. Com um diferencial de 300 mA, o máximo permitido é 166,7 Ω (capítulo 15): cumpre com grande folga.
  3. Com 30 mA, o máximo é 1666,7 Ω: cumpre largamente.
  4. Os 50 Ω ficam também abaixo dos 100 Ω que a secção 801.5.6.1 das RTIEBT pede em habitação com disjuntor de entrada com função diferencial.

Exemplo resolvido · quantos piquetes

Solo seco com ρ = 400 Ω·m, piquetes de 3 m, diferencial de 500 mA em TT (RA ≤ 100 Ω).

  1. Um piquete: RA ≈ 400 ÷ 3 = 133,3 Ω. Não cumpre (133,3 > 100).
  2. Dois piquetes em paralelo, afastados pelo menos 3 m: RA ≈ 133,3 ÷ 2 = 66,7 Ω. Cumpre (66,7 ≤ 100).
  3. Alternativas: usar um diferencial de 300 mA (RA ≤ 166,7 Ω), caso em que um só piquete serviria pela condição RA · IΔn ≤ UL, ou, melhor, de 30 mA. Numa habitação com disjuntor de entrada com função diferencial, porém, a secção 801.5.6.1 pede RA inferior a 100 Ω: o piquete único (133,3 Ω) não chega e os dois piquetes (66,7 Ω) cumprem.
  4. Depois de executado, mede-se RA no terreno.

Secção do condutor de proteção

O condutor de proteção tem de suportar a corrente de defeito durante o tempo de atuação da proteção. Pode dimensionar-se de duas maneiras:

A secção de PE nunca é inferior ao mínimo que as RTIEBT fixam, e é sempre uma secção normalizada.

Exemplo resolvido · secção do PE

  1. Fase de 25 mm²: PE = 16 mm² (16 < 25 ≤ 35).
  2. Fase de 70 mm²: PE = 70 ÷ 2 = 35 mm², que é normalizada: 35 mm².
  3. Fase de 10 mm²: PE = 10 mm².
  4. Por cálculo, com I²t = 900 000 A²s e k = 115 (cobre PVC): S_PE ≥ √900 000 ÷ 115 = 948,7 ÷ 115 = 8,25 mm², logo 10 mm².

Regras de ouro da ligação à terra

17. Interruptores diferenciais residuais e proteção contra correntes de fuga

Como funciona

O interruptor diferencial residual (DDR, em inglês RCD) tem no seu interior um transformador toroidal pelo qual passam todos os condutores ativos do circuito (fase e neutro). Em funcionamento normal, a corrente que vai é igual à que volta: a soma vetorial é zero e o toroide não gera fluxo. Se parte da corrente se escapa para a terra (por um defeito de isolamento ou através de uma pessoa), a soma deixa de ser zero: essa corrente diferencial residual induz um sinal que dispara o aparelho.

Características

Característica Valores e significado
Sensibilidade IΔn 10, 30, 100, 300, 500 mA (a corrente residual de disparo nominal)
Corrente estipulada In 25, 40, 63 A ou mais: a corrente máxima que pode atravessar o aparelho
Tempo de atuação instantâneo ou seletivo (S), com atraso
Tipo AC, A, F ou B, conforme as formas de onda que deteta

Tipos de diferencial

Tipo Deteta Uso
AC correntes residuais alternadas sinusoidais cargas sem eletrónica de potência
A AC e correntes pulsantes com componente contínua máquinas de lavar, fontes comutadas, uso corrente em habitação
F tipo A com maior imunidade a perturbações e a frequências mistas circuitos com variadores monofásicos
B todas as anteriores e contínuas lisas variadores trifásicos, carregadores de veículos elétricos, instalações fotovoltaicas, conforme indicação do fabricante do equipamento

Funções do diferencial

  1. Proteção contra contactos indiretos, em TT, é a função principal.
  2. Proteção complementar contra contactos diretos, com IΔn ≤ 30 mA.
  3. Proteção contra incêndios por correntes de fuga, com IΔn mais elevada (por exemplo 300 ou 500 mA) em origem de instalação.

O diferencial não protege contra sobrecargas nem curtos-circuitos. Tem sempre de ser associado, a montante ou integrado, a um disjuntor ou fusível (o disjuntor diferencial, em inglês RCBO, junta as duas funções num só aparelho).

Associação com a proteção a montante

A corrente estipulada do diferencial (por exemplo 40 A) deve ser pelo menos igual à soma das correntes de serviço dos circuitos que protege, tendo em conta a simultaneidade, e o diferencial tem de estar protegido contra sobreintensidades por um aparelho a montante ou integrado. O fabricante indica o calibre máximo do disjuntor que pode proteger o diferencial.

Correntes de fuga em funcionamento normal

Muitos equipamentos têm uma corrente de fuga permanente pequena (filtros de interferências em fontes de alimentação, eletrónica). Estas correntes somam-se no mesmo diferencial e podem aproximar-se do seu limiar. Como o diferencial dispara tipicamente entre 50% e 100% de IΔn, a regra prática de projeto é manter a corrente de fuga normal total abaixo de um terço de IΔn:

I_fuga,total ≤ IΔn ÷ 3

Exemplo resolvido · fugas num circuito de escritório

Um circuito de tomadas de um escritório alimenta 6 postos de trabalho, cada um com uma fuga normal medida (ou indicada pelo fabricante) de 2 mA, num diferencial de 30 mA.

  1. Fuga total: 6 × 2 = 12 mA.
  2. Limite pela regra prática: 30 ÷ 3 = 10 mA.
  3. 12 > 10: há risco de disparos intempestivos.
  4. Solução: dividir em dois circuitos (3 postos = 6 mA por diferencial, que cumpre), cada um com o seu diferencial, ou usar diferenciais individuais por grupo de postos.

Seletividade entre diferenciais

Se um diferencial geral e outro a jusante disparam ao mesmo tempo num defeito, a instalação inteira fica às escuras. Para evitar isto cria-se seletividade: o diferencial a montante é do tipo S (seletivo), com atraso, e a sua sensibilidade é pelo menos três vezes a do diferencial a jusante, de disparo instantâneo.

Exemplo resolvido · seletividade diferencial

Diferencial geral de 300 mA tipo S e, a jusante, diferenciais de 30 mA instantâneos.

  1. Razão: 300 ÷ 30 = 10, superior a 3. Há seletividade na sensibilidade.
  2. O atraso do tipo S garante que, num defeito a jusante, o de 30 mA dispara antes e o geral permanece fechado.
  3. Se o geral fosse de 100 mA e o de jusante de 30 mA: razão de 3,33, que cumpre a regra, mas com menos folga. Com 30 mA e 30 mA não existe seletividade.

Teste

Os diferenciais têm um botão de teste que simula uma corrente de fuga. Deve ser acionado periodicamente pelo utilizador; se o aparelho não dispara, deve ser substituído.

18. Proteção das instalações: sobretensões, seletividade e outras proteções

Além das proteções contra sobrecarga, curto-circuito e fuga, uma instalação tem outras necessidades de proteção.

Sobretensões

Uma sobretensão é uma tensão acima da admissível. Pode ser de origem atmosférica (descargas de raio na rede ou próximas), de manobra (comutações na rede) ou temporária (defeito no neutro). Protege-se com descarregadores de sobretensões (SPD), instalados no quadro, que desviam a sobretensão para a terra. Os SPD classificam-se em tipos (1, 2 e 3), consoante a energia que suportam e a posição na instalação: o tipo 1 à entrada, onde pode chegar corrente de raio; o tipo 2 no quadro de distribuição; o tipo 3 junto dos equipamentos sensíveis. O seu dimensionamento depende do risco, da exposição da instalação e do comprimento das ligações (que devem ser curtas); as regras técnicas indicam em que casos são obrigatórios.

Subtensão e falta de fase

Os motores trifásicos precisam de proteção contra falta de fase e subtensão (relés de controlo de fases), porque o funcionamento em duas fases ou com tensão baixa provoca aquecimento e queima.

Seletividade entre aparelhos de proteção

A seletividade (ou discriminação) é a coordenação dos aparelhos em série de modo que, em caso de defeito, dispara apenas o aparelho mais próximo do defeito, deixando o resto da instalação em serviço. Faz-se por três vias:

Tipo Princípio
Amperimétrica o aparelho a montante tem um limiar de disparo muito superior ao de jusante
Cronométrica o aparelho a montante é retardado propositadamente
Energética / filiação (back-up) o fabricante garante, em ensaio, a coordenação de dois aparelhos para um dado valor de Icc

Na prática da habitação, assegura-se com aparelhos de calibres bem distintos e, nas instalações mais exigentes, com as tabelas de seletividade do fabricante. A coordenação entre fusíveis também tem regras (relação de calibres) indicadas pelo fabricante.

Exemplo resolvido · seletividade amperimétrica simples

Um disjuntor de 10 A a jusante de um disjuntor geral de 32 A.

  1. Ambos de curva C. O de 10 A dispara magneticamente entre 50 e 100 A; o de 32 A, entre 160 e 320 A.
  2. Num defeito de 120 A, o de 10 A está garantidamente acima do seu limiar máximo (100 A) e abre em poucos milissegundos. O de 32 A está abaixo do seu limiar mínimo (160 A), pelo que permanece fechado.
  3. Se a corrente de defeito atingisse 300 A, o de 32 A pode também disparar: a seletividade é parcial, só até um certo valor de Icc. O limite exato vem nas tabelas do fabricante.

Proteção contra incêndio e contra efeitos térmicos

19. Divisão de circuitos por tipo de utilização

Dividir os circuitos significa repartir as cargas por vários circuitos independentes, cada um com a sua proteção, em vez de alimentar tudo por um só. As razões:

  1. Segurança: uma avaria num circuito não deixa a instalação inteira sem energia (por exemplo, sem luz).
  2. Corrente e secção: cada circuito tem cargas compatíveis com a secção do cabo.
  3. Queda de tensão: circuitos mais curtos têm menos queda.
  4. Manutenção: desligar uma zona para intervir sem afetar as outras.
  5. Cargas especiais: aparelhos de potência elevada (placa, forno, termoacumulador, máquina de lavar) têm circuito próprio.

Circuitos típicos de uma habitação

As secções mínimas em habitação constam da secção 801.5.8 das RTIEBT: iluminação 1,5 mm²; tomadas 2,5 mm²; termoacumuladores 2,5 mm²; máquinas de lavar e de secar roupa ou de lavar loiça 2,5 mm²; fogões 4 mm²; climatização ambiente 2,5 mm². Os calibres da tabela são os usuais para essas secções.

Circuito Proteção típica Secção do cabo (Cu) Observações
Iluminação disjuntor 10 A (curva B ou C) 1,5 mm² um circuito por piso ou zona; no máximo oito pontos de utilização por circuito
Tomadas de uso geral disjuntor 16 A 2,5 mm² por piso/zona; DDR 30 mA; no máximo oito pontos de utilização por circuito
Tomadas da cozinha (bancada) disjuntor 16 A 2,5 mm² circuito separado das tomadas gerais
Placa de cozinha disjuntor 20 a 32 A, conforme a potência 4 mm² no mínimo (6 mm² se a potência o exigir) circuito dedicado
Forno disjuntor 16 A 2,5 mm² se for aparelho independente; 4 mm² se alimentado como parte do fogão, conforme o projeto dedicado
Máquina de lavar roupa/loiça disjuntor 16 A 2,5 mm² dedicado, DDR 30 mA
Termoacumulador disjuntor 10 a 16 A 2,5 mm² dedicado
Aquecimento, ar condicionado consoante a potência 2,5 mm² no mínimo dedicado; indicação do fabricante; no máximo cinco aparelhos por circuito
Tomadas exteriores disjuntor 16 A 2,5 mm² com DDR 30 mA, IP adequado
Carregamento de veículo elétrico consoante o equipamento consoante o equipamento circuito exclusivo; seguir a secção 722 das RTIEBT e as indicações do fabricante, incluindo o tipo de diferencial

Critérios para repartir tomadas e luz

Distribuição pelos diferenciais

Nunca se põe um só diferencial a proteger toda a habitação sem mais: uma fuga em qualquer ponto deixaria tudo às escuras. Repartem-se os circuitos por vários diferenciais de 30 mA, agrupando-os por zona ou função, de modo que um disparo não deixe a casa toda sem luz.

Quadros em trifásico: equilíbrio de fases

Numa instalação trifásica, as cargas monofásicas distribuem-se pelas três fases (L1, L2, L3) para que as correntes sejam o mais equilibradas possível. Um desequilíbrio sobrecarrega o neutro e uma das fases.

Exemplo resolvido · equilibrar fases

Seis circuitos monofásicos com correntes de 10, 8, 6, 12, 4 e 10 A.

  1. Total: 10 + 8 + 6 + 12 + 4 + 10 = 50 A; média por fase = 50 ÷ 3 ≈ 16,7 A.
  2. Uma distribuição possível: L1 = 12 + 4 = 16 A; L2 = 10 + 6 = 16 A; L3 = 10 + 8 = 18 A.
  3. A diferença máxima entre fases é 2 A, o que é bom.
  4. Uma má distribuição (L1 = 10 + 8 + 6 = 24 A; L2 = 12 + 4 = 16 A; L3 = 10 A) deixaria uma fase com 24 A e outra com 10 A.

Organização e identificação do quadro

20. Dimensionamento integrado de uma moradia

Reunimos agora tudo o que estudámos. Uma moradia com piso 0 e piso 1 e seis compartimentos, monofásica, potência contratada 6,9 kVA, regime TT, cabos de cobre com isolamento PVC em tubo (método B, 2 condutores carregados). Usam-se os dados de trabalho do capítulo 7, ρ = 0,0225 Ω·mm²/m, e um limite de queda de tensão de 3% para iluminação e de 5% para os restantes circuitos (Quadro 52O, alimentação pela rede pública). A potência de 6,9 kVA é o mínimo para locais de dois a seis compartimentos (RTIEBT, secção 801.5.2.2; acima de seis compartimentos, 10,35 kVA). A temperatura é de 30 °C (kT = 1) na maior parte do percurso. Emparelham-se C1 e C2, C3 e C4, C5 e C6, C7 e C8, e cada par partilha o tubo (kG = 0,80). O troço da cozinha, onde passam C5 e C6, é mais quente: 35 °C, logo kT = 0,94 para os dois circuitos desse par. Cada circuito de tomadas alimenta, no máximo, oito pontos de utilização (secção 801.5.3).

Dados dos circuitos

Circuito Carga prevista Comprimento (m)
C1 Iluminação piso 0 600 W 18
C2 Iluminação piso 1 500 W 22
C3 Tomadas piso 0 2300 W (Ib de projeto 10 A) 28
C4 Tomadas piso 1 2300 W (Ib de projeto 10 A) 24
C5 Placa 3600 W 15
C6 Forno 2200 W 12
C7 Máquina de lavar roupa 2000 W 14
C8 Termoacumulador 1500 W 10

A soma das potências instaladas é 15 000 W, e a potência contratada é 6900 VA: o fator de simultaneidade global do projeto é 6900 ÷ 15 000 = 0,46. Os circuitos individuais dimensionam-se pela sua corrente máxima.

Corrente de serviço e corrente estipulada

Circuito Ib (A) In escolhida (A)
C1 600 ÷ 230 = 2,61 10 (curva B)
C2 500 ÷ 230 = 2,17 10 (curva B)
C3 10,00 16 (curva C)
C4 10,00 16 (curva C)
C5 3600 ÷ 230 = 15,65 20 (curva C)
C6 2200 ÷ 230 = 9,57 16 (curva C)
C7 2000 ÷ 230 = 8,70 16 (curva C)
C8 1500 ÷ 230 = 6,52 10 (curva C)

Secção, Iz e condição Ib ≤ In ≤ Iz

Circuito k = kT · kG Iz0 mínimo = In ÷ k Secção Iz = Iz0 · k Ib ≤ In ≤ Iz
C1 0,80 12,5 A 1,5 mm² (17,5 A) 14,00 A 2,61 ≤ 10 ≤ 14,00 sim
C2 0,80 12,5 A 1,5 mm² (17,5 A) 14,00 A 2,17 ≤ 10 ≤ 14,00 sim
C3 0,80 20,0 A 2,5 mm² (24 A) 19,20 A 10 ≤ 16 ≤ 19,20 sim
C4 0,80 20,0 A 2,5 mm² (24 A) 19,20 A 10 ≤ 16 ≤ 19,20 sim
C5 0,752 26,6 A 4 mm² (32 A) 24,06 A 15,65 ≤ 20 ≤ 24,06 sim
C6 0,752 21,3 A 2,5 mm² (24 A) 18,05 A 9,57 ≤ 16 ≤ 18,05 sim
C7 0,80 20,0 A 2,5 mm² (24 A) 19,20 A 8,70 ≤ 16 ≤ 19,20 sim
C8 0,80 12,5 A 2,5 mm² (24 A) 19,20 A 6,52 ≤ 10 ≤ 19,20 sim

Nota sobre C8. Por corrente admissível bastariam 1,5 mm² (Iz0 = 17,5 A ≥ 12,5 A), como em C1 e C2. Mas C8 é o termoacumulador, e a secção 801.5.8 das RTIEBT fixa 2,5 mm² como secção mínima dos circuitos de termoacumuladores em habitação. A secção final é sempre a maior de todas as que os critérios exigirem, e aqui o critério que decide não é o cálculo: é a secção mínima regulamentar.

Sobrecarga (I2 ≤ 1,45 · Iz)

Todos os aparelhos são disjuntores, com I2 = 1,45 · In. Para C1: 14,5 A ≤ 1,45 × 14,00 = 20,3 A, sim. Para C3: 23,2 A ≤ 27,84 A, sim. Para C5: 29,0 A ≤ 34,89 A, sim. Como In ≤ Iz em todos os circuitos, a segunda condição verifica-se sempre com disjuntores.

Queda de tensão (ΔU = 2 · ρ · L · Ib ÷ S)

Circuito ΔU (V) ΔU (%) Limite Resultado
C1 2 × 0,0225 × 18 × 2,61 ÷ 1,5 = 1,41 0,61% 3% cumpre
C2 2 × 0,0225 × 22 × 2,17 ÷ 1,5 = 1,43 0,62% 3% cumpre
C3 2 × 0,0225 × 28 × 10 ÷ 2,5 = 5,04 2,19% 5% cumpre
C4 2 × 0,0225 × 24 × 10 ÷ 2,5 = 4,32 1,88% 5% cumpre
C5 2 × 0,0225 × 15 × 15,65 ÷ 4 = 2,64 1,15% 5% cumpre
C6 2 × 0,0225 × 12 × 9,57 ÷ 2,5 = 2,07 0,90% 5% cumpre
C7 2 × 0,0225 × 14 × 8,70 ÷ 2,5 = 2,19 0,95% 5% cumpre
C8 2 × 0,0225 × 10 × 6,52 ÷ 2,5 = 1,17 0,51% 5% cumpre

Disparo no fim da linha (Lmáx = 0,8 · U0 · S ÷ (2 · ρ · Im))

Circuito Im máx (A) Lmáx (m) Comprimento real Resultado
C1 (B10) 5 × 10 = 50 122,7 18 protege
C2 (B10) 50 122,7 22 protege
C3 (C16, 2,5 mm²) 160 63,9 28 protege
C4 (C16) 160 63,9 24 protege
C5 (C20, 4 mm²) 200 81,8 15 protege
C6 (C16) 160 63,9 12 protege
C7 (C16) 160 63,9 14 protege
C8 (C10, 2,5 mm²) 100 102,2 10 protege

Diferenciais e quadro

Em TT, a proteção contra contactos indiretos é feita por diferenciais, com 30 mA em todos os circuitos de uma habitação (proteção complementar). Admite-se uma terra de 50 Ω (piquete de 2 m em solo de 100 Ω·m): cumpre RA · IΔn ≤ 50 V (limite de 1666,7 Ω com 30 mA) e fica abaixo dos 100 Ω que a secção 801.5.6.1 das RTIEBT pede em habitação com disjuntor de entrada com função diferencial. Agrupam-se os circuitos em dois diferenciais de 40 A, tipo A, 30 mA:

Assim, uma avaria nos circuitos da cozinha não deixa a casa às escuras, e vice-versa.

Tubos

Admite-se, como valor de trabalho, uma ocupação máxima de 40% (capítulo 10), condutores com diâmetro exterior de 3,0 mm (1,5 mm²) e 3,6 mm (2,5 mm²), e os tubos de 16 mm (interior 12,6 mm) e de 20 mm (interior 16,9 mm) do catálogo do capítulo 10.

  1. C1 e C2 partilham um tubo com 6 condutores de 1,5 mm² (fase, neutro e proteção de cada um): 6 × 7,07 = 42,41 mm², abaixo dos 49,88 mm² admitidos no tubo de 16 mm. Tubo de 16 mm.
  2. C3 e C4 partilham um tubo com 6 condutores de 2,5 mm²: 6 × 10,18 = 61,07 mm², acima dos 49,88 mm² do tubo de 16 mm e abaixo dos 89,73 mm² do tubo de 20 mm. Tubo de 20 mm.
  3. C7 e C8 partilham um tubo com 6 condutores de 2,5 mm², tal como C3 e C4: 61,07 mm², tubo de 20 mm.
  4. Os restantes troços verificam-se do mesmo modo; os valores exatos conferem-se sempre com o catálogo do tubo escolhido.

Resultado final do quadro

Disjuntor geral 30 A, 2P; DR1 40 A 30 mA tipo A com B10 (C1), B10 (C2), C16 (C3), C16 (C4), C10 (C8); DR2 40 A 30 mA tipo A com C20 (C5), C16 (C6), C16 (C7). Cabos H07V-R em tubo: 1,5 mm² (C1, C2), 2,5 mm² (C3, C4, C6, C7, C8), 4 mm² (C5); condutor de proteção da mesma secção que a fase.

Esquema unifilar do quadro

O esquema mostra a ordem da energia, da origem para a carga: disjuntor geral, diferencial, disjuntor do circuito, cabo. Cada caixa representa um aparelho e a legenda à direita dá a secção do cabo (3G2,5 = três condutores de 2,5 mm², incluindo o de proteção).

Rede 230 V, 6,9 kVA
  │
  [ Disjuntor geral 30 A, 2P ]
  │
  ├── [ DR1  40 A · 30 mA · tipo A ]
  │     ├── B10 ── C1  Luz piso 0 ········ 3G1,5
  │     ├── B10 ── C2  Luz piso 1 ········ 3G1,5
  │     ├── C16 ── C3  Tomadas piso 0 ···· 3G2,5
  │     ├── C16 ── C4  Tomadas piso 1 ···· 3G2,5
  │     └── C10 ── C8  Termoacumulador ··· 3G2,5
  │
  └── [ DR2  40 A · 30 mA · tipo A ]
        ├── C20 ── C5  Placa ············· 3G4
        ├── C16 ── C6  Forno ············· 3G2,5
        └── C16 ── C7  Máquina de roupa ·· 3G2,5

Para treinar: redesenha este esquema com os símbolos normalizados do capítulo 2, com um traço oblíquo por condutor em cada linha de circuito.

21. Verificação, segurança e boas práticas na execução

Um projeto bem calculado só é seguro se for bem executado e verificado. Esta UC prepara o técnico para dimensionar, mas o dimensionamento só se cumpre na obra.

Enquadramento profissional

A Lei n.º 14/2015, de 16 de fevereiro, define os requisitos de acesso e exercício da atividade das entidades e profissionais responsáveis pelas instalações elétricas: o projeto, a execução e a exploração de instalações elétricas só podem ser assumidos por quem estiver habilitado para o efeito, e as instalações sujeitas a certificação têm de ser inspecionadas e certificadas nos termos da regulamentação. O técnico deve conhecer o limite das suas competências e nunca assinar nem executar o que excede a sua habilitação.

Verificações antes de colocar em serviço

Segurança durante os trabalhos: as cinco regras

Antes de intervir numa instalação, aplicam-se, pela ordem, as cinco regras de segurança dos trabalhos em instalações elétricas (EN 50110):

  1. Seccionar completamente (cortar a alimentação em todas as fontes).
  2. Impedir qualquer religação (cadeado, etiqueta de bloqueio).
  3. Verificar a ausência de tensão com um detetor adequado, testado antes e depois.
  4. Ligar à terra e em curto-circuito, nas instalações onde isso é exigido.
  5. Proteger contra elementos em tensão na vizinhança e sinalizar a zona de trabalho.

Usam-se sempre ferramentas isoladas, calçado e luvas adequados e equipamentos de proteção individual (EPI) conforme o risco.

Boas práticas de dimensionamento

  1. Documentar todos os pressupostos: cargas, comprimentos, modo de instalação, temperatura, agrupamento.
  2. Escolher sempre a secção normalizada seguinte quando o cálculo cai entre valores.
  3. Deixar reserva de capacidade no quadro e nos tubos para ampliações.
  4. Rever o dimensionamento quando qualquer dado mudar na obra (um circuito a mais no mesmo tubo, um troço aquecido).
  5. Utilizar a folha de cálculo para repetir as verificações em todos os circuitos, mas conferir à mão pelo menos um circuito por quadro.
  6. Consultar a versão em vigor das RTIEBT e as indicações dos fabricantes.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Exercícios resolvidos

Exercício resolvido 1 · forno trifásico

Um forno trifásico de 9 kW (cosφ = 1) a 400 V, cabo de cobre PVC em tubo (método B, 3 condutores carregados), ambiente a 30 °C e sem agrupamento, L = 35 m. Limite de queda de tensão: 5%.

  1. Ib = 9000 ÷ (1,732 × 400) = 12,99 A.
  2. In = 16 A: o calibre de 13 A ficaria apenas 0,01 A acima de Ib, sem folga nenhuma, e adota-se o calibre seguinte.
  3. Iz0 mínimo = 16 ÷ 1 = 16 A. Com 3 condutores carregados: 1,5 mm² dá 15,5 A (< 16, não serve); 2,5 mm² dá 21 A (serve).
  4. Iz = 21 A: 12,99 ≤ 16 ≤ 21. Verifica-se.
  5. ΔU = 1,732 × 0,0225 × 35 × 12,99 ÷ 2,5 = 7,09 V, ou 7,09 ÷ 400 × 100 = 1,77%. Cumpre.
  6. Resultado: 2,5 mm², disjuntor de 16 A.

Exercício resolvido 2 · carregador de veículo elétrico

Circuito monofásico de 5,75 kW (Ib = 25 A, cosφ = 1), L = 60 m, cabo de cobre PVC em tubo (método B, 2 condutores carregados, kT = kG = 1). Limite de queda de tensão: 5%.

  1. Ib = 5750 ÷ 230 = 25 A. Como a carga é contínua durante horas, escolhe-se o calibre seguinte, In = 32 A, e não o de 25 A (que ficaria sem folga).
  2. Iz0 mínimo = 32 A. A tabela de trabalho dá 4 mm² com 32 A (serve, Iz = 32 ≥ In).
  3. Queda de tensão com 4 mm²: 2 × 0,0225 × 60 × 25 ÷ 4 = 16,88 V = 7,34%. Não cumpre (7,34% > 5%).
  4. Com 6 mm²: 67,5 ÷ 6 = 11,25 V = 4,89%. Cumpre.
  5. Resultado: 6 mm². O critério que decidiu foi a queda de tensão, e não a corrente admissível. Com 10 mm² teria 2,93%, e dava folga para o aquecimento do cabo ao longo de horas.

Exercício resolvido 3 · verificar um circuito existente

Circuito de tomadas em cabo de 2,5 mm², com kG = 0,80 e kT = 1 (Iz0 = 24 A), protegido por um disjuntor de 20 A, que alimenta uma carga com Ib = 14 A.

  1. Iz = 24 × 0,80 = 19,2 A.
  2. Condição: Ib = 14 ≤ In = 20 ≤ Iz = 19,2? Como 20 > 19,2, não se verifica.
  3. O cabo não está protegido em sobrecarga prolongada.
  4. Correção A: trocar o disjuntor por um de 16 A (14 ≤ 16 ≤ 19,2). Correção B: aumentar o cabo para 4 mm² (Iz = 25,6 A) e manter 20 A.

Exercício resolvido 4 · diferencial em TT

Medida a terra de uma instalação TT: RA = 85 Ω. UL = 50 V.

  1. IΔn máximo = 50 ÷ 85 = 0,588 A, isto é, 588 mA.
  2. Podem usar-se diferenciais de 500 mA, 300 mA, 100 mA ou 30 mA (todos ≤ 588 mA).
  3. Em habitação, usa-se o de 30 mA como proteção complementar, e a terra de 85 Ω cumpre com enorme folga (limite com 30 mA: 1666,7 Ω) e, numa habitação com disjuntor de entrada com função diferencial, também a exigência de resistência de terra inferior a 100 Ω (RTIEBT, secção 801.5.6.1).

Exercício resolvido 5 · o disjuntor chega ao fim da linha

Circuito de 2,5 mm² e 50 m, protegido por disjuntor C16.

  1. Im máx = 10 × 16 = 160 A.
  2. Icc mínima fase-neutro no fim: 0,8 × 230 × 2,5 ÷ (0,0225 × 2 × 50) = 460 ÷ 2,25 = 204,4 A.
  3. 204,4 A ≥ 160 A: o disparo magnético é garantido.
  4. Comprimento máximo: 0,8 × 230 × 2,5 ÷ (2 × 0,0225 × 160) = 460 ÷ 7,2 = 63,9 m. Os 50 m estão abaixo: protege.

Exercício resolvido 6 · repartir cargas por circuitos

Numa pequena habitação há: 14 pontos de luz em dois pisos, 20 tomadas de uso geral, forno, placa, máquina de lavar roupa e termoacumulador.

  1. Iluminação: 2 circuitos (por piso, 7 pontos de luz cada, dentro do limite de oito), 10 A, 1,5 mm².
  2. Tomadas gerais: 20 tomadas ÷ 8 pontos por circuito (RTIEBT, secção 801.5.3) = 2,5, logo 3 circuitos, 16 A, 2,5 mm².
  3. Placa, forno, máquina de lavar roupa e termoacumulador: um circuito cada, com disjuntor e cabo à medida da potência (termoacumulador no mínimo 2,5 mm², placa no mínimo 4 mm², secção 801.5.8).
  4. Total: 9 circuitos, repartidos por dois ou três diferenciais de 30 mA, de modo que a falha de um não apague toda a casa.