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UC · Unidade de Competência · UC01527

Sebenta · Efetuar o controlo de peças em máquinas de medição por coordenadas CMM (UC01527)

Desenho técnico e tolerâncias, constituição da CMM, apalpadores, fixação, calibração, alinhamento, programação e relatório dimensional
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Programação e Maquinaçã, T. Produção e Gestão de Mo, T. Produção de Cunhos e Co, T. Laboratório - Fundição, T. Projeto de Moldes e Mod ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a controlar dimensionalmente uma peça numa máquina de medição por coordenadas (CMM), desde a leitura do desenho técnico até à emissão do relatório dimensional. A CMM é o equipamento de referência da metrologia industrial: mede uma peça em três eixos (X, Y, Z) com um apalpador, ponto a ponto ou por varrimento, e compara o resultado com as tolerâncias definidas no desenho.

O percurso é o de um metrologista numa empresa de metalomecânica ou de produção industrial: primeiro analisam-se as especificações e a documentação técnica da peça, depois prepara-se o equipamento (fixação, apalpadores, calibração, alinhamento), elabora-se e testa-se o programa de medição, e por fim executa-se a medição e emite-se o relatório dimensional. É exatamente a sequência das duas realizações desta UC: analisar a documentação técnica e executar o programa de medição e relatório dimensional.

Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar desenho técnico, simbologia e normas; dominar o toleranciamento dimensional e geométrico; conhecer os equipamentos de controlo dimensional, a sua constituição e modo de funcionamento; selecionar e montar dispositivos de fixação; selecionar apalpadores e ponteiras; calibrar o equipamento; alinhar a peça; elaborar, simular e testar o programa de medição; operar em modo manual e/ou automático; verificar conformidades dimensionais e geométricas; e criar o relatório dimensional.

1. Metrologia dimensional e o papel da CMM

A metrologia dimensional é o ramo da metrologia que estuda a medição de comprimentos, ângulos e formas geométricas. O seu objetivo é dizer, com rigor e rastreabilidade, se uma peça fabricada respeita as cotas e tolerâncias do desenho técnico.

Os instrumentos clássicos (paquímetro, micrómetro, comparador) medem uma cota de cada vez, ponto a ponto, e dependem muito da destreza de quem mede. A máquina de medição por coordenadas (CMM, Coordinate Measuring Machine) resolve isto de outra forma:

Método Mede Depende do operador Repetibilidade
Instrumentos manuais (paquímetro, micrómetro) uma cota de cada vez muito baixa a média
CMM manual várias cotas, guiada à mão média média
CMM DCC (automática) programa completo, sem intervenção pouca alta

A CMM não substitui o bom senso do metrologista: substitui a repetição manual e propensa ao erro por um programa validado, que qualquer operador pode correr da mesma forma.

2. Desenho técnico, simbologia e normas

Tudo começa na análise das especificações e da documentação técnica: sem interpretar corretamente o desenho, o controlo dimensional não tem para onde apontar.

O desenho técnico de uma peça a controlar traz:

Exemplo resolvido · Ler uma cota tolerada

Uma cota no desenho aparece como Ø25 H7. O que significa?

  1. Ø25 é o diâmetro nominal, 25 mm.
  2. H7 é a classe de tolerância ISO para um furo (letra maiúscula = furo; minúscula = veio).
  3. Consultando a tabela ISO 286 para Ø25 H7, o intervalo de tolerância é aproximadamente +0,000 / +0,021 mm.
  4. A peça é conforme se a medição da CMM devolver um diâmetro entre 25,000 mm e 25,021 mm.

A leitura correta da simbologia é o primeiro critério de desempenho da UC: adequar o equipamento e a calibração à peça começa por saber o que se vai medir.

3. Toleranciamento dimensional e geométrico

O toleranciamento dimensional define o intervalo aceitável para uma cota linear ou angular (comprimento, diâmetro, ângulo). O toleranciamento geométrico (GD&T, Geometric Dimensioning and Tolerancing, norma ISO 1101) vai mais além: controla a forma, a orientação, a posição e o batimento de um elemento, independentemente do seu tamanho.

Categoria Exemplos de tolerâncias geométricas Controla
Forma planicidade, retitude, circularidade, cilindricidade a forma isolada do elemento
Orientação perpendicularidade, paralelismo, angularidade o ângulo entre elementos
Posição posição, concentricidade, simetria a localização face a um datum
Batimento batimento circular, batimento total a variação numa rotação completa

Uma tolerância geométrica é lida por um símbolo, um valor e, quase sempre, uma referência a um ou mais datums (A, B, C), indicados no desenho por letras dentro de um quadrado ligado a uma bandeirola de referência.

Exemplo resolvido · Interpretar um quadro de tolerância geométrica

Um quadro no desenho mostra: símbolo de perpendicularidade, valor 0,05, datum A.

  1. O símbolo indica que se controla a perpendicularidade de uma face ou eixo.
  2. O valor 0,05 mm é o afastamento máximo admissível.
  3. A é o datum de referência: a face ou eixo em relação ao qual a perpendicularidade é medida.
  4. Na CMM, isto significa: alinhar a peça pelo datum A, medir o elemento controlado e verificar que o desvio face à perpendicular ideal não ultrapassa 0,05 mm.

Sem interpretar corretamente o datum, a CMM mede um valor tecnicamente correto mas irrelevante: o alinhamento errado invalida o resultado.

4. Constituição e modo de funcionamento da CMM

Conhecer a constituição do equipamento de controlo dimensional é indispensável para o operar e para diagnosticar um resultado estranho.

Elementos principais de uma CMM:

Modo de funcionamento

  1. A peça está fixada e alinhada sobre a mesa de granito.
  2. O apalpador toca (ou varre) a superfície da peça.
  3. As escalas dos três eixos registam a posição X, Y, Z desse ponto no instante do toque.
  4. O software agrupa vários pontos num elemento geométrico (plano, cilindro, furo, reta).
  5. Os elementos são comparados com o desenho: o software devolve valor medido, tolerância e conformidade.

A CMM não "vê" a peça como um todo: constrói-a ponto a ponto e reconstrói a geometria por cálculo.

5. Apalpadores e ponteiras

O apalpador (probe) é o sensor que regista o contacto com a peça. A escolha certa de apalpador e ponteira é uma aptidão específica da UC.

Tipo de apalpador Funcionamento Uso típico
Touch-trigger (ponto a ponto) dispara um sinal no instante do toque peças de tolerância corrente, formas simples
De varrimento (scanning) mantém contacto contínuo e regista muitos pontos por segundo perfis complexos, superfícies de forma livre
Ótico / sem contacto mede por laser ou visão, sem tocar peças frágeis ou muito pequenas

A ponteira (stylus) é a extensão que efetivamente toca a peça, terminada normalmente numa esfera de rubi (dura, estável dimensionalmente e de baixo atrito):

Exemplo resolvido · Escolher apalpador e ponteira

Peça: um bloco com um furo Ø8 mm a 30 mm de profundidade e uma face plana exterior grande.

  1. Para o furo profundo e estreito: ponteira reta e longa, esfera pequena (por exemplo, Ø2 mm) para entrar e tocar as paredes sem colidir.
  2. Para a face plana exterior: ponteira curta, esfera maior (por exemplo, Ø4 mm), mais estável e menos sensível à rugosidade superficial.
  3. Se a máquina tiver cabeça indexável, configura-se uma troca automática entre as duas ponteiras dentro do mesmo programa.

Escolher mal o apalpador não impede a medição, mas compromete a exatidão do resultado.

6. Dispositivos de fixação e montagem da peça

Antes de medir, a peça tem de estar fixa e estável. É uma das aptidões da UC: selecionar dispositivos de fixação e proceder à sua montagem.

Princípios de fixação em metrologia:

Dispositivos comuns: mesa magnética, grampos e sargentos de precisão, calços e prismas em V (para peças cilíndricas), placas de fixação modulares com furação normalizada, e dispositivos dedicados (fixture) projetados para uma peça específica em produção de série.

Erro a evitar: apertar demasiado uma peça fina ou de plástico contra uma mesa magnética. A peça deforma-se durante a medição e volta à forma original depois, e a CMM mede uma geometria que não existe em condições normais.

7. Calibração e aferição do equipamento

Calibrar é comparar a indicação do instrumento com um padrão de valor conhecido e corrigir (ou documentar) o desvio. É outro critério de desempenho da UC: adequar o equipamento e a calibração à peça.

Na CMM, a calibração acontece a dois níveis:

  1. Calibração periódica da máquina (por um laboratório acreditado), com padrões certificados (blocos-padrão, esferas de referência), verifica a exatidão dos três eixos e emite um certificado de rastreabilidade.
  2. Qualificação do apalpador (probe qualification), feita pelo operador no início de cada sessão de trabalho: mede-se uma esfera de referência (reference ball) de diâmetro certificado, em várias direções, e o software calcula o diâmetro efetivo da ponteira e compensa o seu raio em todas as medições seguintes.

Exemplo resolvido · Qualificar um apalpador

  1. Montar a esfera de referência de diâmetro certificado (por exemplo, 20,0000 mm) na mesa.
  2. No software, escolher "qualificar apalpador" e tocar a esfera em pelo menos 5 pontos distribuídos.
  3. O software calcula o centro e o diâmetro medido da esfera e compara com o valor certificado.
  4. Se o desvio estiver dentro do admissível, a qualificação é aceite e o software passa a compensar automaticamente o raio da ponteira em cada toque seguinte.
  5. Se o desvio for excessivo, verificar se a ponteira está bem apertada ou danificada antes de repetir.

Sem qualificação válida, todas as medições feitas nessa sessão ficam com um erro sistemático igual ao raio da ponteira mal compensado.

8. Alinhamento da peça

Alinhar é fazer coincidir o sistema de eixos da peça (o referencial do desenho, os seus datums) com o sistema de eixos da máquina. É a aptidão que traduz os datums do desenho técnico num referencial que a CMM entende.

Etapas típicas de um alinhamento (também chamado de sistema de coordenadas da peça):

  1. Plano (nível): tocar 3 ou mais pontos numa face de referência (datum primário) para definir o plano XY.
  2. Reta (rotação): tocar 2 ou mais pontos numa aresta ou face de referência (datum secundário) para orientar um eixo.
  3. Origem (ponto zero): tocar um ponto ou o centro de um furo de referência (datum terciário) para fixar o zero de X, Y e Z.
Passo Datum usado Resultado
1. Plano primário fixa o eixo Z e o plano XY
2. Reta secundário fixa a rotação em torno de Z
3. Origem terciário fixa a posição X0, Y0, Z0

Exemplo resolvido · Alinhar um bloco retangular

  1. Tocar 4 pontos na face de baixo (datum A) → o software define o plano de referência e o eixo Z.
  2. Tocar 2 pontos numa face lateral (datum B) → o software roda o sistema de eixos para essa face ficar paralela a Y.
  3. Tocar o centro de um furo de referência (datum C) → o software desloca a origem para esse centro.
  4. A partir daqui, todas as coordenadas medidas são relativas a este novo sistema de eixos, coincidente com os datums do desenho.

Um alinhamento mal feito faz com que a peça esteja fisicamente correta mas as medições apareçam fora de tolerância, ou o inverso: o erro está no alinhamento, não na peça.

9. Medição por pontos e por varrimento

A UC exige dominar os dois métodos e escolher o adequado a cada elemento.

Critério Pontos Varrimento
Velocidade de programação rápida mais lenta a configurar
Densidade de dados baixa alta
Elementos simples (furo, plano) suficiente desnecessário
Perfis complexos / forma livre insuficiente indispensável

Regra prática: usar pontos para elementos geométricos simples e bem definidos, e reservar o varrimento para onde a forma real da superfície importa, não apenas alguns pontos dela.

10. Programação do equipamento de medição

Elaborar o programa de medição é a aptidão central da UC: transformar a análise do desenho numa sequência de instruções que a CMM executa.

Um programa de medição típico contém, por esta ordem:

  1. Cabeçalho: identificação da peça, do desenho e da revisão.
  2. Definição do apalpador e ponteiras a usar (com qualificação associada).
  3. Sequência de alinhamento (plano, reta, origem).
  4. Rotina de medição de cada elemento: pontos ou varrimento, com o número e a distribuição de toques.
  5. Definição das tolerâncias de cada elemento, tal como no desenho.
  6. Saída: que resultados aparecem no relatório e em que formato.

Exemplo resolvido · Esboçar um programa simples

Peça: uma placa retangular com um furo central Ø10 H7 e espessura 10 ±0,1 mm.

1. Qualificar apalpador (esfera Ø20 mm certificada)
2. Alinhar:
   - Plano: 4 pontos na face superior (datum A)
   - Reta: 2 pontos na face lateral (datum B)
   - Origem: centro do furo (datum C)
3. Medir plano superior (4 pontos) -> planicidade
4. Medir furo central (6 pontos em círculo) -> Ø10 H7
5. Medir espessura (2 pontos, face superior e inferior) -> 10 ±0,1 mm
6. Comparar com tolerâncias e gerar relatório

Cada linha do programa corresponde a uma decisão tomada nos capítulos anteriores: apalpador, alinhamento, método de medição e tolerância.

11. Modos de operação, simulação e teste do programa

A UC pede para selecionar modos de operação e para operar os equipamentos em modo manual e/ou automático.

Antes de correr um programa novo numa peça real, simular e testar é obrigatório:

  1. Simulação em software, sem a máquina se mover: verifica colisões entre apalpador, fixação e peça, e confirma a lógica da sequência.
  2. Teste em modo lento (dry run), com a máquina a mover-se devagar e com folga extra de segurança, para confirmar na prática que não há colisão.
  3. Só depois de validado se corre o programa à velocidade de produção.

Erro a evitar: saltar a simulação e correr logo o programa à velocidade normal. Uma colisão a alta velocidade pode danificar o apalpador, a peça ou a própria máquina.

12. Verificação de conformidades e relatório dimensional

A última etapa fecha o ciclo: comparar o medido com o especificado e criar o relatório dimensional, a segunda realização da UC.

O software de metrologia, após correr o programa, apresenta para cada elemento medido:

Elemento Nominal Tolerância Medido Desvio Estado
Ø furo 10,000 +0,000 / +0,021 10,012 +0,012 Conforme
Espessura 10,000 ±0,100 10,145 +0,145 Não conforme
Planicidade (nenhuma) 0,050 0,032 (nenhuma) Conforme

Interpretação:

O relatório dimensional final inclui: identificação da peça e do desenho, condições de medição (temperatura, apalpador, data), tabela de resultados por elemento, e a conclusão de conformidade global da peça. É este documento que decide se a peça segue para o cliente ou é colocada em não conformidade.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O controlo de peças numa CMM segue sempre a mesma sequência: analisar o desenho técnico, a simbologia e as tolerâncias (dimensionais e geométricas) → preparar o equipamento, escolhendo dispositivos de fixação, apalpadores e ponteiras → calibrar (qualificar o apalpador) → alinhar a peça pelos datums → elaborar o programa de medição, decidindo entre pontos e varrimento → simular e testar antes de correr a sério → operar em modo manual ou automático → verificar as conformidades e criar o relatório dimensional. Domina este fluxo e sabes controlar dimensionalmente qualquer peça técnica.

Exercícios resolvidos

1. Uma cota no desenho indica Ø30 g6. É um furo ou um veio, e como sabes?

Resolução: é um veio. A convenção ISO usa letra minúscula para veios (elementos exteriores) e letra maiúscula para furos (elementos interiores). g6 é a classe de tolerância aplicada a este veio de Ø30.

2. Um quadro de tolerância geométrica indica planicidade 0,04 sem referência a datum. Isto é normal?

Resolução: sim. As tolerâncias de forma (planicidade, retitude, circularidade, cilindricidade) controlam o elemento isoladamente e não precisam de datum. Só as tolerâncias de orientação, posição e batimento exigem uma referência a um ou mais datums.

3. Antes de medir uma peça pequena e delicada, que cuidado de fixação é essencial?

Resolução: garantir que a peça fica estável mas não deformada: usar um aperto suave, calços ou um dispositivo dedicado, e nunca forçar a peça a "encaixar" numa fixação que não é a dela. Uma peça deformada durante a medição dá resultados que não correspondem à peça em condições normais de uso.

4. Porque é preciso qualificar o apalpador antes de medir, mesmo que a máquina já esteja calibrada?

Resolução: a calibração periódica da máquina verifica os eixos; a qualificação do apalpador determina o diâmetro efetivo da ponteira usada nessa sessão, para o software compensar corretamente o raio em cada toque. Sem qualificação, todas as medições ficam deslocadas pelo valor do raio não compensado.

5. Explica, por palavras tuas, a ordem plano, reta, origem de um alinhamento.

Resolução: primeiro fixa-se o plano (datum primário, define Z e o plano XY); depois fixa-se a reta (datum secundário, define a rotação em torno de Z); por fim fixa-se a origem (datum terciário, define o ponto zero X0,Y0,Z0). É a sequência que traduz os três datums do desenho num único referencial coerente para a máquina.

6. Uma peça tem um perfil de forma livre (uma superfície curva não circular). Pontos ou varrimento?

Resolução: varrimento. Um perfil de forma livre não se descreve bem com poucos pontos discretos; é preciso registar muitos pontos ao longo da superfície para reconstruir a sua forma real e comparar com o modelo do desenho.

7. O relatório mostra: nominal 20,000, tolerância ±0,050, medido 20,065. A peça está conforme?

Resolução: não conforme. O desvio é +0,065, que ultrapassa o limite superior admissível de +0,050. O valor medido está fora do intervalo [19,950; 20,050].

8. Porque é obrigatório simular e testar um programa novo antes de correr à velocidade de produção?

Resolução: para detetar colisões entre o apalpador, a fixação e a peça antes de estas acontecerem a alta velocidade. A simulação em software confirma a lógica da sequência sem mover a máquina; o teste em modo lento confirma na prática, com folga de segurança, que o percurso real também não colide.