Sebenta · Estabelecer tratamentos térmicos (UC01523)
- Introdução
- 1. Diagramas de equilíbrio Fe-Fe3C
- 2. Composição química das ligas metálicas
- 3. Elementos de liga e a sua influência na microestrutura
- 4. Determinar as especificações de partida do material
- 5. Curvas TTT
- 6. Curvas CCT e temperabilidade na prática
- 7. Panorama dos tratamentos térmicos
- 8. Têmpera
- 9. Revenido
- 10. Recozimento
- 11. Equipamentos para tratamentos térmicos
- 12. Condições operatórias e ciclos térmicos
- 13. Validar resultados e avaliar conformidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a estabelecer um tratamento térmico, do princípio ao fim: ler a especificação de um material, analisar o seu diagrama TTT, definir os parâmetros do ciclo de aquecimento e arrefecimento, executá-lo nos equipamentos certos e validar o resultado final. Trabalhamos no contexto da indústria metalúrgica e siderúrgica, onde o tratamento térmico é a etapa que transforma um material bruto de fundição ou de laminagem numa peça com as propriedades mecânicas exigidas pelo cliente.
Um tratamento térmico é um ciclo controlado de aquecimento, permanência a uma temperatura e arrefecimento, sem alterar a composição química da liga, com o objetivo de mudar a sua microestrutura e, com ela, as suas propriedades mecânicas: dureza, tenacidade, ductilidade e resistência ao desgaste. A mesma peça, com a mesma composição química, pode sair de um forno mole e dúctil ou dura e frágil, dependendo apenas da forma como foi aquecida e arrefecida.
Objetivos de aprendizagem (referencial): determinar as especificações de partida do material; analisar o diagrama TTT do material a tratar; definir os parâmetros do tratamento térmico; e validar os resultados obtidos, considerando sempre as propriedades pretendidas, as fichas técnicas, os equipamentos disponíveis e os métodos e procedimentos definidos.
1. Diagramas de equilíbrio Fe-Fe3C
Todo o raciocínio sobre aços e ferros fundidos parte de um único diagrama: o diagrama de equilíbrio ferro-carbono (Fe-Fe3C). Mostra, para cada composição e cada temperatura, que fases existem em condições de arrefecimento muito lento, ou seja, em equilíbrio.
Como se lê
- Eixo horizontal: teor de carbono (%C).
- Eixo vertical: temperatura.
- As linhas do diagrama delimitam regiões de fase única e regiões de duas fases em equilíbrio.
- Aços: até cerca de 2% de carbono, deformáveis a quente e a frio.
- Ferros fundidos: acima de cerca de 2% de carbono, mais frágeis, mais fáceis de fundir.
Fases e constituintes
| Fase / constituinte | Características | Contexto |
|---|---|---|
| Ferrite | macia, dúctil, pouco carbono dissolvido | fase estável a baixa temperatura |
| Austenite | dúctil, estável a alta temperatura | ponto de partida de quase todo o tratamento térmico |
| Cementite (Fe3C) | carboneto de ferro, muito duro e frágil | fase rica em carbono |
| Perlite | lamelas alternadas de ferrite e cementite | resulta da transformação eutectóide |
| Martensite | estrutura em agulhas, muito dura | forma-se por arrefecimento rápido (têmpera) |
O ponto eutectóide situa-se a cerca de 0,76% de carbono e 727 °C: nesse ponto, a austenite transforma-se diretamente em perlite ao arrefecer lentamente. Abaixo do eutectóide, o aço é hipoeutectóide (predomínio de ferrite); acima, hipereutectóide (perlite com cementite proeutectóide nas fronteiras de grão; mesmo a 1,2% de carbono a cementite fica bem abaixo de um quinto do total, nunca predomina).
Exemplo do sector: um aço C15 (cerca de 0,15% de carbono), usado em peças de cementação, é claramente hipoeutectóide, com estrutura de partida rica em ferrite. Um aço C80 (cerca de 0,80% de carbono), usado em molas e ferramentas, está muito perto do ponto eutectóide, com estrutura quase totalmente perlítica em condição recozida.
O diagrama de equilíbrio é uma fotografia do que acontece devagar. Para prever o que acontece depressa, precisamos das curvas TTT, tratadas no capítulo 6.
2. Composição química das ligas metálicas
Uma liga metálica é uma mistura de um metal-base com um ou mais elementos, escolhida para obter propriedades que o metal puro não tem. A composição química é o dado de entrada de qualquer decisão sobre tratamento térmico: dois materiais com teores de carbono diferentes reagem de forma diferente ao mesmo ciclo térmico, e nenhum tratamento compensa uma composição inadequada à aplicação.
Famílias de ligas
- Aços: liga de ferro e carbono até cerca de 2%C, com outros elementos residuais ou adicionados de propósito.
- Ferros fundidos: liga de ferro e carbono acima de 2%C, mais frágeis e mais fáceis de fundir, típicos da indústria da fundição.
- Ligas não ferrosas: alumínio e as suas ligas, cobre e as suas ligas (latão, com zinco; bronze, com estanho), frequentes em peças que não exigem os tratamentos térmicos típicos do aço.
A ficha técnica e a designação normalizada
A ficha técnica acompanha o lote de matéria-prima e indica a composição química (análise de colada), a norma aplicável e as propriedades garantidas. É um documento de rastreabilidade: liga o lote ao certificado de qualidade e é a base do critério de desempenho que exige considerar as fichas técnicas de material.
As designações normalizadas dizem muito sem ser preciso reanalisar o material:
- EN (europeia): por exemplo, C45 (aço de médio carbono, cerca de 0,45%C) ou 42CrMo4 (aço-liga ao crómio-molibdénio).
- AISI/SAE (americana): por exemplo, 1045 ou 4140, equivalentes aproximados dos anteriores.
Exemplo resolvido · Ler a designação 42CrMo4
- 42 indica um teor médio de carbono de cerca de 0,42%.
- CrMo identifica os principais elementos de liga: crómio e molibdénio.
- 4 é o algarismo normalizado que representa o teor desses elementos.
- Conclusão: um aço de médio carbono, ligado ao crómio e molibdénio, apto para têmpera e revenido, típico de veios e engrenagens que exigem boa temperabilidade.
3. Elementos de liga e a sua influência na microestrutura
Os elementos de liga são adicionados propositadamente ao aço para alterar a sua microestrutura, o seu comportamento no tratamento térmico e as suas propriedades finais.
| Elemento | Efeito principal |
|---|---|
| Carbono (C) | aumenta a dureza máxima possível e a temperabilidade |
| Manganês (Mn) | melhora a temperabilidade, fixa o enxofre |
| Crómio (Cr) | aumenta dureza, resistência ao desgaste e à corrosão |
| Níquel (Ni) | aumenta tenacidade e temperabilidade |
| Molibdénio (Mo) | aumenta temperabilidade, reduz a fragilidade de revenido |
| Silício (Si) | desoxidante, aumenta a resistência elástica |
| Vanádio (V) | afina o grão, forma carbonetos duros e estáveis |
Elementos como Cr, Mo e V formam carbonetos que travam o crescimento do grão e aumentam a resistência ao desgaste. Elementos como Ni e Mn deslocam as curvas de transformação para tempos mais longos, o que facilita a têmpera com meios de arrefecimento menos severos, reduzindo o risco de fissuração.
Temperabilidade: até onde o material pode ir
A temperabilidade é a aptidão de um aço para formar martensite em profundidade, não apenas à superfície, quando temperado. É uma propriedade do material (definida pela sua composição química), não do processo: o processo só explora essa aptidão, não a cria. Mede-se laboratorialmente pelo ensaio Jominy (ensaio de têmpera na extremidade): um provete é aquecido, temperado numa só face por um jato de água, e regista-se a dureza a distâncias crescentes dessa face, dando origem à curva de temperabilidade.
Reconhecer a aptidão do material quanto à sua temperabilidade evita duas armadilhas frequentes: escolher um meio de arrefecimento demasiado severo, arriscando fissuras, ou escolher um material sem temperabilidade suficiente para a secção da peça, arriscando dureza insuficiente no núcleo.
4. Determinar as especificações de partida do material
Antes de qualquer tratamento térmico, o técnico reúne toda a informação disponível sobre a peça e o material. Esta é a primeira realização do referencial e o ponto de partida de todo o processo:
- Composição química e norma do material, a partir da ficha técnica.
- Propriedades mecânicas pretendidas no produto final: dureza, resistência, tenacidade, resistência ao desgaste.
- Geometria da peça: secção, espessura, presença de furos, entalhes ou mudanças bruscas de secção (pontos de concentração de tensões).
- Resultados de ensaios metalográficos anteriores, quando existem, sobre a microestrutura de partida.
- Norma ou especificação do cliente que define a dureza ou a microestrutura final aceitável.
Interpretar ensaios metalográficos
A interpretação de ensaios metalográficos cruza-se diretamente com o trabalho de laboratório de metalografia: uma amostra com microestrutura grosseira pode indicar a necessidade de um tratamento de afinação de grão antes da têmpera; a presença de inclusões não metálicas ou de uma estrutura muito heterogénea condiciona a escolha do ciclo térmico; a dureza inicial medida por Brinell, Rockwell ou Vickers é o ponto de partida para calcular o ganho de dureza esperado no fim do processo.
Nunca se define um parâmetro de tratamento térmico "de memória" para um dado tipo de aço sem confirmar a composição química real do lote em causa. A composição nominal de uma norma pode diferir, dentro de uma tolerância, da composição efetiva do lote entregue.
5. Curvas TTT
A curva TTT (temperatura, tempo, transformação) mostra, para um aço de composição específica, quanto tempo demora cada transformação de fase a uma dada temperatura constante, depois de um arrefecimento brusco a partir da austenite.
Como se lê
- Eixo horizontal: tempo, em escala logarítmica.
- Eixo vertical: temperatura.
- Tem forma característica de "C" ou de "S", com um nariz onde a transformação ocorre mais depressa.
- Zona superior (temperaturas mais altas): transformação em perlite, mais lenta.
- Zona intermédia: transformação em bainite, com dureza e tenacidade intermédias.
- Linhas Ms e Mf: início e fim da transformação em martensite, que depende só da temperatura atingida, não do tempo.
Para obter martensite pura, o arrefecimento tem de ser suficientemente rápido para ultrapassar o nariz da curva sem tocar as zonas de perlite ou bainite.
Exemplo resolvido · Prever a estrutura pela curva TTT
Um aço-liga é levado à zona austenítica e arrefecido de duas formas distintas:
- Arrefecimento rápido (imersão em água): a curva de arrefecimento passa à esquerda do nariz, sem tocar as zonas de perlite ou bainite, e atinge a linha Ms → forma-se martensite.
- Arrefecimento lento (dentro do forno, ao ar): a curva de arrefecimento atravessa a zona de perlite → forma-se perlite, uma estrutura muito mais macia.
- Conclusão: o mesmo material, com a mesma composição, dá resultados opostos consoante apenas a velocidade de arrefecimento escolhida.
Analisar o diagrama TTT do material a tratar é, precisamente, prever este resultado antes de o executar no forno.
6. Curvas CCT e temperabilidade na prática
A curva TTT descreve um arrefecimento isotérmico (salto rápido para uma temperatura fixa, mantida ao longo do tempo). Na indústria, o arrefecimento é quase sempre contínuo, do início ao fim, sem paragens intermédias. Por isso as curvas CCT (transformação em arrefecimento contínuo) são as mais usadas para prever o resultado real de uma têmpera, de uma normalização ou de um recozimento.
| TTT (isotérmica) | CCT (arrefecimento contínuo) | |
|---|---|---|
| Tipo de arrefecimento | salto para temperatura fixa, mantida no tempo | contínuo, sem paragens |
| Uso típico | estudo laboratorial das transformações | previsão de processos industriais reais |
| Posição da curva de transformação | mais à esquerda | ligeiramente deslocada para tempos maiores |
Na prática de laboratório, quando se fala em "diagrama TTT do material" para efeitos de decisão de processo, está muitas vezes implícita a leitura conjunta com o comportamento em arrefecimento contínuo (CCT), disponível nos manuais técnicos do fabricante do aço.
7. Panorama dos tratamentos térmicos
Os tratamentos térmicos agrupam-se em famílias, cada uma com um objetivo distinto:
| Tratamento | Objetivo principal |
|---|---|
| Recozimento | amolecer, homogeneizar, aliviar tensões |
| Normalização | afinar e uniformizar o grão |
| Têmpera | maximizar a dureza, formando martensite |
| Revenido | reduzir a fragilidade após a têmpera |
| Tratamentos superficiais (cementação, nitruração) | endurecer só a superfície, mantendo o núcleo tenaz |
Quase todos partem de uma temperatura de austenitização semelhante; a diferença essencial está na velocidade e no meio de arrefecimento que se segue.
Identificar a necessidade do tratamento
Antes de escolher, o técnico avalia os sintomas da peça:
- Peça demasiado dura para ser maquinada → recozimento de amaciamento.
- Peça que precisa de dureza superficial elevada para resistir ao desgaste → têmpera, seguida de revenido.
- Peça saída da fundição ou da forja com grão grosseiro e heterogéneo → normalização.
- Peça soldada ou maquinada com tensões residuais elevadas → recozimento de alívio de tensões.
Distinguir os tratamentos térmicos e a sua aplicabilidade é, precisamente, escolher o caminho certo a partir do diagnóstico da peça, não aplicar sempre a mesma receita.
8. Têmpera
Temperar é aquecer o aço até à zona austenítica, manter até homogeneizar, e arrefecer muito rapidamente, transformando a austenite em martensite.
O ciclo em três passos
- Austenitizar: aquecer acima da temperatura crítica, tipicamente 30 a 50 °C acima da linha de transformação, consoante a composição do aço.
- Encharcar: manter a peça o tempo suficiente para atingir a temperatura de forma homogénea em toda a secção.
- Arrefecer rapidamente, mergulhando a peça no meio de arrefecimento escolhido, ultrapassando o nariz da curva TTT/CCT.
Meios de arrefecimento
| Meio | Severidade | Uso típico |
|---|---|---|
| Água / salmoura | muito alta | aços ao carbono simples, peças robustas |
| Óleo | média | aços-liga, peças de secção variável |
| Polímero (solução aquosa) | ajustável | substituto controlável da água ou do óleo |
| Ar (aços de alta liga) | baixa | aços de alta temperabilidade, peças complexas |
Selecionar o meio em função da microestrutura final pretendida é equilibrar dureza suficiente contra o risco de defeitos. Mais severidade não é sempre melhor: é preciso o mínimo suficiente para atingir a martensite pretendida.
Riscos e defeitos
O arrefecimento rápido cria tensões térmicas internas, porque a superfície arrefece muito mais depressa do que o núcleo:
- Empeno: deformação da peça por arrefecimento desigual.
- Fissuração de têmpera: fendas por tensões que ultrapassam a resistência do material, mais frequentes em cantos vivos e mudanças bruscas de secção.
- Tensões residuais elevadas: mesmo sem fissura visível, fragilizam a peça, e são corrigidas pelo revenido subsequente.
Uma peça temperada nunca deve ficar sem revenido. A martensite bruta de têmpera é muito dura, mas também muito frágil, e frequentemente fissura ou parte em serviço mesmo sem carga excecional.
9. Revenido
O revenido consiste em reaquecer o aço já temperado a uma temperatura abaixo da linha crítica, manter durante um tempo definido e arrefecer de forma controlada. A martensite temperada troca uma pequena parte da sua dureza por tenacidade, e as tensões residuais da têmpera são reduzidas.
Faixas de revenido
| Faixa | Temperatura aproximada | Efeito | Aplicação típica |
|---|---|---|---|
| Baixo | 150 a 250 °C | mantém dureza elevada, alivia tensões | ferramentas de corte |
| Médio | 250 a 450 °C | equilíbrio dureza/tenacidade | molas |
| Alto | 450 a 650 °C | prioriza a tenacidade | peças estruturais (veios, engrenagens) |
Quanto mais alta a temperatura de revenido, menor a dureza e maior a tenacidade final. A escolha depende sempre da função da peça: uma broca de corte precisa de dureza superior à de um veio de transmissão, que precisa sobretudo de resistir a choques.
Exemplo resolvido · Escolher a temperatura de revenido
Situação: duas peças de aço 42CrMo4, temperadas na mesma carga, destinam-se a funções diferentes: uma é um punção de corte, a outra é um veio de engrenagens sujeito a impactos.
- Punção de corte: precisa de dureza elevada e tolera menos tenacidade → revenido baixo (cerca de 200 °C).
- Veio de engrenagens: precisa de resistir a impactos sem fissurar → revenido alto (cerca de 550 °C).
- Ambas as peças partiram da mesma têmpera; a diferença de função justifica temperaturas de revenido completamente distintas.
Selecionar o tratamento térmico e tratamentos subsequentes é sempre uma decisão ligada à função final da peça, não uma tabela fixa aplicada às cegas.
10. Recozimento
O recozimento aquece o aço e arrefece-o muito lentamente, normalmente dentro do forno desligado, para amolecer, homogeneizar ou aliviar tensões, consoante o tipo escolhido.
Tipos de recozimento
- Recozimento total: austenitiza e arrefece lentamente; amolece ao máximo e refina o grão.
- Recozimento de regularização (homogeneização): uniformiza a composição química de peças de fundição com segregações, a temperatura elevada e tempo longo.
- Recozimento de amaciamento (esferoidização): transforma a cementite lamelar em glóbulos, facilitando a maquinagem.
- Recozimento de alívio de tensões: a temperatura mais baixa, sem transformação de fase, remove tensões de soldadura ou de maquinagem.
Nem todo o recozimento passa pela austenitização: o de alívio de tensões é feito a temperatura mais baixa, precisamente para não alterar a microestrutura de base.
Exemplo resolvido · Escolher o recozimento certo
Situação: uma peça fundida apresenta segregação química visível ao ensaio metalográfico; outra peça, já maquinada e soldada, apresenta empeno progressivo ao longo do tempo.
- Peça fundida com segregação: precisa de recozimento de regularização, a temperatura elevada e tempo longo, para difundir e homogeneizar a composição química.
- Peça soldada com empeno progressivo: precisa de recozimento de alívio de tensões, a temperatura mais baixa, sem alterar a microestrutura de base.
- Aplicar o recozimento total a qualquer uma destas peças seria desperdiçar tempo e energia sem resolver o problema real.
11. Equipamentos para tratamentos térmicos
Os equipamentos definem a forma como o calor chega à peça e como se controla a temperatura ao longo do ciclo.
Fornos
| Forno | Características |
|---|---|
| Forno de mufla | câmara fechada, aquecimento por resistências, uso geral |
| Forno de poço | vertical, para peças longas (veios, tubos) |
| Forno de banho de sais | aquecimento rápido e muito uniforme, por imersão em sal fundido |
| Forno de atmosfera controlada | evita oxidação e descarbonetação da superfície |
| Forno de vácuo | atmosfera sem oxigénio, para aços de alta liga e ferramentas |
Meios e instrumentação de controlo
- Tanques de arrefecimento (água, óleo, polímero), com agitação, para renovar o meio junto à peça e manter uma velocidade de arrefecimento constante.
- Pirómetros e termopares: medem a temperatura real do forno e da peça, essenciais para respeitar os parâmetros definidos.
- Controladores automáticos: programam a curva de aquecimento, o patamar e o arrefecimento, reduzindo o erro humano.
- Durómetros (Brinell, Rockwell, Vickers): validam a dureza obtida no final do ciclo.
A escolha do forno influencia diretamente a uniformidade e a qualidade superficial do resultado. Num forno sem atmosfera controlada, a superfície de uma peça pode oxidar ou descarbonetar, perdendo dureza exatamente na camada mais exigida.
12. Condições operatórias e ciclos térmicos
Definir os parâmetros do tratamento térmico significa fixar, por escrito, cada variável do ciclo, para que o processo seja repetível:
- Temperatura de austenitização (ou de recozimento), com base na composição química e no diagrama Fe-Fe3C.
- Velocidade de aquecimento, mais lenta em peças de secção grande ou geometria complexa, para evitar choques térmicos.
- Tempo de encharque, proporcional à espessura da peça.
- Meio e velocidade de arrefecimento, escolhidos a partir da curva TTT/CCT e da temperabilidade do material.
- Tratamento subsequente (revenido) e os seus próprios parâmetros.
Ajustar as condições ao equipamento real
Na prática, os parâmetros teóricos têm de ser ajustados ao equipamento disponível:
- Um forno mais antigo pode ter maior inércia térmica: o patamar demora mais a estabilizar.
- A carga do forno (número de peças colocadas de uma vez) altera o tempo de encharque necessário para toda a carga atingir a temperatura.
- O tanque de arrefecimento perde severidade se aquecer ao longo de sucessivas têmperas; a agitação e a renovação do meio compensam esse efeito.
- Regista-se sempre o ciclo real executado, não só o planeado, para permitir rastrear qualquer desvio posterior.
Exemplo resolvido · Definir os parâmetros completos
Peça: punção de corte em 42CrMo4, com 40 mm de diâmetro, especificação de dureza superficial 52 a 56 HRC após têmpera e revenido.
- Austenitizar a 850 °C (composição ligada ao crómio-molibdénio), com encharque na ordem de 1 hora por cada 25 mm de secção, cerca de 1 hora e 30 minutos para 40 mm de diâmetro.
- Arrefecer em óleo (severidade média, adequada à boa temperabilidade deste aço-liga, evitando fissuração).
- Revenir a cerca de 200 °C durante 2 horas: revenido baixo, que desce a dureza de bruto de têmpera, na ordem de 55 a 57 HRC neste aço, para dentro da faixa pedida sem a fazer cair. Repara na diferença face ao veio de engrenagens do capítulo 9: lá o requisito era encaixar impactos e o revenido alto, a 550 °C, deixaria esta peça em cerca de 32 HRC, fora da especificação de dureza.
- Validar por ensaio de dureza Rockwell C na superfície e, se necessário, por corte metalográfico numa peça de amostra do lote.
13. Validar resultados e avaliar conformidade
Nenhum tratamento térmico está concluído sem uma etapa final de verificação, que fecha o ciclo aberto na determinação das especificações de partida (capítulo 4):
- Ensaio de dureza (Brinell, Rockwell ou Vickers, conforme a norma aplicável), comparado com a especificação.
- Corte e análise metalográfica de amostras representativas, para confirmar a microestrutura obtida (martensite, bainite, perlite, conforme o objetivo do tratamento).
- Inspeção visual e dimensional: deteção de empeno, fissuras ou deformação.
- Comparação de todos os resultados com a ficha técnica e a especificação do cliente definidas no início do processo.
Diagnosticar a não conformidade
Quando o resultado não cumpre a especificação, o técnico segue um raciocínio de diagnóstico:
- Dureza a menos: pode indicar arrefecimento demasiado lento, temperabilidade insuficiente do material, ou temperatura de austenitização baixa.
- Dureza a mais / fragilidade excessiva: revenido insuficiente ou em falta.
- Fissuração: meio de arrefecimento demasiado severo para a geometria da peça.
A decisão final é sempre uma de três: retratamento (se a peça o permitir), reclassificação para outra aplicação, ou rejeição com relatório de não conformidade que regista a causa, não só o desvio.
Erros comuns
- Definir a temperatura de tratamento sem confirmar a composição química real do lote entregue.
- Confundir o diagrama de equilíbrio (arrefecimento infinitamente lento) com a curva TTT (fora do equilíbrio, a temperatura constante).
- Achar que temperabilidade e dureza são a mesma coisa: são conceitos ligados, mas distintos.
- Escolher o meio de arrefecimento mais severo por rotina, ignorando o risco de fissuração em geometrias complexas.
- Temperar sem revenir, deixando tensões residuais que fragilizam a peça.
- Aplicar sempre o recozimento total a qualquer situação, quando um recozimento de alívio de tensões ou de amaciamento resolveria de forma mais eficiente.
- Repetir os mesmos tempos de forno independentemente da carga colocada dentro dele.
- Validar apenas a dureza superficial numa peça cuja especificação exige dureza também no núcleo.
Glossário
- Tratamento térmico: ciclo controlado de aquecimento, permanência e arrefecimento de uma liga, que muda a sua microestrutura sem alterar a composição química.
- Austenite: fase estável a alta temperatura, ponto de partida de quase todo o tratamento térmico.
- Martensite: estrutura em agulhas, muito dura, formada por arrefecimento rápido a partir da austenite.
- Perlite: lamelas alternadas de ferrite e cementite, resultantes da transformação eutectóide em arrefecimento lento.
- Ponto eutectóide: composição e temperatura (cerca de 0,76%C, 727 °C) em que a austenite se transforma diretamente em perlite.
- Curva TTT: diagrama temperatura, tempo, transformação, que mostra a evolução de fases a temperatura constante.
- Curva CCT: diagrama de transformação em arrefecimento contínuo, mais próximo da prática industrial.
- Nariz da curva: ponto de tempo mínimo antes de a transformação começar; deve ser ultrapassado rapidamente para se obter martensite.
- Temperabilidade: aptidão de um aço para formar martensite em profundidade, não apenas à superfície.
- Ensaio Jominy: ensaio de têmpera na extremidade, usado para medir a temperabilidade de um aço.
- Têmpera: tratamento que forma martensite por arrefecimento rápido a partir da austenite.
- Revenido: reaquecimento controlado de um aço temperado, para reduzir a fragilidade e ajustar a tenacidade.
- Recozimento: tratamento com arrefecimento muito lento, para amolecer, homogeneizar ou aliviar tensões.
- Normalização: tratamento de afinação e uniformização do grão, com arrefecimento ao ar.
- Elemento de liga: elemento adicionado propositadamente a um aço para alterar a sua microestrutura e comportamento.
- Ficha técnica: documento que acompanha o lote de material, com a composição química, a norma aplicável e as propriedades garantidas.
Síntese
Estabelecer um tratamento térmico segue sempre a mesma sequência: especificações de partida (composição química, ficha técnica, ensaios anteriores) → diagrama de equilíbrio Fe-Fe3C e curvas TTT/CCT (o que a microestrutura pode fazer) → escolha do tratamento (têmpera, revenido, recozimento, normalização, tratamentos superficiais) → definição e ajuste das condições operatórias (temperaturas, tempos, meios de arrefecimento, equipamentos) → execução → validação dos resultados (dureza, metalografia, conformidade). Domina este fluxo e serás capaz de estabelecer, com rigor e autonomia, o tratamento térmico certo para qualquer liga metálica com que trabalhes.
Exercícios resolvidos
1. Um aço de baixo carbono e um de alto carbono são arrefecidos lentamente a partir da austenite. Qual fica mais perto do ponto eutectóide e porquê?
Resolução: o de alto carbono, por estar mais próximo dos cerca de 0,76%C do ponto eutectóide, terá uma estrutura final com mais perlite. O de baixo carbono, hipoeutectóide, terá uma estrutura com mais ferrite. Ambos seguem o mesmo diagrama de equilíbrio, só a composição muda o resultado.
2. Explica porque é que o mesmo aço pode sair de um forno mole ou duro, sem mudar de composição química.
Resolução: porque o tratamento térmico não altera a composição, altera apenas a microestrutura, através da velocidade de arrefecimento a partir da austenite. Um arrefecimento lento (recozimento) dá origem a ferrite e perlite, macias; um arrefecimento rápido (têmpera) dá origem a martensite, dura. É a curva TTT/CCT que prevê qual destes caminhos a peça vai seguir.
3. Uma peça de secção espessa em aço ao carbono simples não consegue endurecer no núcleo, mesmo temperada em água. Qual é a causa mais provável e como se resolveria?
Resolução: a causa mais provável é temperabilidade insuficiente do aço ao carbono simples para aquela secção. A solução não está em usar um meio ainda mais severo (o risco de fissuração aumentaria sem resolver o problema), mas em escolher um aço-liga (por exemplo, com crómio e molibdénio) com temperabilidade suficiente para endurecer também no núcleo.
4. Depois de temperar uma peça, o técnico entrega-a diretamente ao cliente sem mais nenhum tratamento. O que está errado?
Resolução: falta o revenido. Uma peça temperada fica com martensite bruta, muito dura mas também muito frágil, com tensões residuais elevadas. Sem revenido, a peça tem um risco elevado de fissurar ou partir em serviço, mesmo sem carga excecional.
5. Duas peças em 42CrMo4 saem da mesma têmpera: uma vai ser um punção de corte, a outra um veio sujeito a impactos. Justifica temperaturas de revenido diferentes para cada uma.
Resolução: o punção de corte precisa de dureza elevada e tolera menos tenacidade, pelo que leva um revenido baixo (cerca de 150 a 250 °C). O veio sujeito a impactos precisa sobretudo de resistir a choques sem fissurar, pelo que leva um revenido alto (cerca de 450 a 650 °C), trocando alguma dureza por tenacidade. A escolha depende sempre da função da peça, não de uma regra fixa aplicada a todos os casos.
6. Uma peça fundida apresenta segregação química ao ensaio metalográfico. Qual recozimento se aplica e porquê não se usa o recozimento total?
Resolução: aplica-se o recozimento de regularização (homogeneização), a temperatura elevada e tempo longo, para difundir e uniformizar a composição química por toda a peça. O recozimento total amoleceria a peça, mas não resolveria o problema de fundo, que é a segregação química, pelo que seria um tratamento mal escolhido para este sintoma.
7. Uma peça temperada em água surge com uma fenda junto a um canto vivo. Qual é a causa mais provável?
Resolução: a causa mais provável é uma fissuração de têmpera, provocada por tensões térmicas concentradas no canto vivo (ponto de mudança brusca de secção), agravadas pela elevada severidade do meio de arrefecimento (água). A solução passa por arredondar a geometria sempre que possível, ou por escolher um meio de arrefecimento menos severo (óleo ou polímero), desde que a temperabilidade do material o permita.