Sebenta · Executar ensaios de metalografia (UC01522)
- Introdução
- 1. O que é a metalografia
- 2. Segurança no laboratório de metalografia
- 3. Amostragem representativa
- 4. Corte de provetes
- 5. Retificação, desbaste e polimento
- 6. Ataque químico e revelação da microestrutura
- 7. Estruturas de metais e ligas metálicas
- 8. Diagramas de fases binários
- 9. Microscopia ótica e fotomicrografia
- 10. Determinação do tamanho de grão
- 11. Inclusões não metálicas e exame de fibras
- 12. Interpretação de resultados e boletim de ensaio
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a executar um ensaio de metalografia completo, desde a escolha da amostra até à emissão do boletim de ensaio. Trabalhamos no contexto de um laboratório de ensaios de empresa metalúrgica e siderúrgica, onde a metalografia serve para validar materiais, diagnosticar falhas e certificar processos de fundição, tratamento térmico e conformação.
A metalografia é o estudo da microestrutura dos metais e ligas, através de observação macroscópica e microscópica de uma amostra preparada. É um ensaio destrutivo: a amostra sacrifica-se para revelar o que está por dentro do material, algo que a inspeção visual à peça nunca conseguiria mostrar.
Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar equipamentos, amostras de ensaio e soluções de ataque químico; efetuar ataque químico e a análise de microestruturas por microscopia ótica; executar fotomicrografias e determinar as estruturas metalográficas; e validar resultados e emitir boletins de ensaio, sempre selecionando amostras representativas, garantindo as condições de realização, adequando as técnicas às propriedades a testar e respeitando os métodos e procedimentos definidos.
1. O que é a metalografia
A metalografia estuda a estrutura interna dos metais e ligas metálicas, a diferentes escalas de observação. É a disciplina que liga três coisas:
- A composição química do material.
- O processamento que sofreu (fundição, forjamento, laminagem, tratamento térmico, soldadura).
- As propriedades mecânicas finais da peça.
Dois materiais com a mesma composição química podem comportar-se de forma muito diferente consoante a microestrutura resultante do processamento. É por isso que uma análise química, sozinha, não basta: é preciso ver a estrutura.
Macrografia vs micrografia
| Exame | Ampliação | O que revela |
|---|---|---|
| Macrografia | olho nu até cerca de 50x | fibramento, soldaduras, zonas de solidificação, defeitos de fundição |
| Micrografia | microscópio ótico, 50x a 1000x | grãos, fases, inclusões, resultado de tratamentos térmicos |
Os dois são complementares: a macrografia dá a visão de conjunto, a micrografia dá o detalhe. Numa investigação de falha real, é comum fazer-se primeiro a macrografia (localizar a zona de interesse) e só depois a micrografia dessa zona.
O contexto profissional
O técnico de laboratório de metalografia trabalha tipicamente num laboratório de ensaios, ligado a uma empresa metalúrgica ou siderúrgica. Os resultados que produz condicionam decisões concretas: aceitar ou rejeitar um lote, aprovar um tratamento térmico, investigar uma rotura em serviço. É por isso que o rigor e a rastreabilidade percorrem toda esta sebenta.
2. Segurança no laboratório de metalografia
O laboratório de metalografia reúne vários tipos de risco, e a segurança é uma condição prévia a qualquer ensaio, não um detalhe final.
Riscos principais
- Químicos: os reagentes de ataque contêm ácidos, álcoois e, por vezes, componentes tóxicos. Alguns são inflamáveis.
- Mecânicos: a máquina de corte e as politrizes têm partes em rotação.
- Térmicos: o corte mal refrigerado gera calor que altera a estrutura da amostra.
- Respiratórios: os vapores libertados durante a preparação e a aplicação dos reagentes de ataque.
Equipamentos de proteção individual e hotte de extração
Os equipamentos de proteção individual (EPI) do laboratório de metalografia incluem, no mínimo: bata ou avental resistente a químicos, luvas adequadas ao reagente em uso e óculos ou viseira de proteção. A hotte de extração deve ser usada sempre que se preparam ou aplicam reagentes de ataque, para remover os vapores do ambiente.
Exemplo resolvido · Preparar um reagente de ataque em segurança
Situação: é preciso preparar 100 ml de Nital a 2% para atacar uma amostra de aço.
- Consultar a ficha de dados de segurança (FDS) do ácido nítrico antes de começar.
- Colocar os EPI: bata, luvas resistentes a ácido, óculos de proteção.
- Trabalhar dentro da hotte de extração, com a ventilação ligada.
- Medir os volumes com material próprio (proveta), nunca "a olho".
- Rotular de imediato o recipiente com o nome do reagente, a concentração e a data de preparação.
- Guardar em local próprio, identificado, longe de fontes de calor.
O procedimento não é burocracia: cada passo elimina um risco concreto (contacto, inalação, confusão de reagentes).
⚠️ Nunca se guarda um reagente preparado sem rótulo. Um frasco sem identificação é um risco para quem o usa a seguir.
3. Amostragem representativa
O primeiro critério de desempenho da UC é claro: selecionar amostras representativas do metal a analisar. Uma amostra mal escolhida invalida tudo o que se faz depois, por mais rigoroso que seja o resto do processo.
O que torna uma amostra representativa
- Corresponde ao material e à zona que interessa investigar, não à zona mais fácil de cortar.
- Tem dimensão adequada para se manusear em segurança em todas as etapas seguintes.
- Segue, sempre que existe, a norma aplicável ao material ou ao tipo de ensaio.
Onde cortar, consoante o objetivo
| Objetivo do ensaio | Zona a amostrar |
|---|---|
| Controlo de rotina | zona representativa do lote, longe de extremidades |
| Investigação de falha | zona da rotura/defeito e uma zona sã de comparação |
| Soldaduras | metal base, zona afetada pelo calor (ZAC) e metal de solda |
| Peças fundidas | zonas de espessura diferente (arrefecem a velocidades diferentes) |
Exemplo resolvido · Escolher a amostra numa investigação de falha
Situação: um veio partiu em serviço e chegou ao laboratório para investigação.
- Identificar visualmente a zona da rotura (superfície de fratura).
- Cortar uma amostra que inclua a zona da rotura e material imediatamente adjacente.
- Cortar uma segunda amostra, de uma zona afastada e aparentemente sã, para servir de referência de comparação.
- Registar, com fotografia, a posição exata de cada amostra na peça original, antes do corte.
Sem a amostra de comparação, não é possível dizer se a microestrutura da zona de rotura é normal ou anómala: falta o termo de comparação.
4. Corte de provetes
O corte transforma um pedaço da peça de origem no provete metalográfico, a peça de trabalho de todas as etapas seguintes.
A máquina de corte refrigerado
O laboratório usa uma máquina de bancada para corte refrigerado: um disco abrasivo rotativo corta a amostra, sempre com líquido de refrigeração. A refrigeração é essencial porque o atrito do corte gera calor, e o calor pode alterar a microestrutura da amostra antes de o ensaio sequer começar (por exemplo, um revenido localizado indesejado).
Discos de corte
O disco de corte escolhe-se em função do material: aços, ferros fundidos e ligas não ferrosas têm durezas e abrasividades diferentes, e exigem discos diferentes. Um disco desgastado ou desadequado aumenta o calor gerado e a rugosidade final do corte.
Boas práticas no corte
- Fixar bem a amostra antes de ligar a máquina.
- Avançar com velocidade controlada, nunca forçar o corte.
- Confirmar que o sistema de refrigeração está a funcionar antes de iniciar.
- Usar sempre os EPI adequados.
Erro típico: corte sem refrigeração suficiente
Se o líquido de corte não chegar bem à zona de contacto, a amostra aquece. O sintoma é uma zona escurecida junto à superfície de corte, sinal de alteração térmica. Solução: parar, verificar o sistema de refrigeração e, se necessário, cortar novamente mais afastado da zona afetada.
5. Retificação, desbaste e polimento
Depois do corte, a superfície está irregular. Três etapas sucessivas preparam-na para observação: retificação, desbaste fino e polimento.
Retificação e desbaste
A retificação remove a camada superficial afetada pelo corte, com lixa ou disco abrasivo de granulometria grossa. Segue-se uma sequência de granulometrias decrescentes:
Grosso (ex.: P80/P120) → médio (P240/P400) → fino (P600/P800) → muito fino (P1200)
Regra prática: entre cada mudança de lixa, roda-se a amostra 90°. Os riscos novos, perpendiculares aos anteriores, mostram claramente quando os riscos da etapa anterior desapareceram por completo. Só então se avança para a lixa seguinte.
Polimento
O polimento remove os últimos riscos finos, usando panos de polimento com pastas ou suspensões abrasivas (diamante ou alumina) de granulometria micrométrica, até se obter uma superfície especular, sem riscos visíveis ao microscópio.
Exemplo resolvido · Diagnosticar riscos residuais
Situação: depois do polimento, a amostra ainda mostra riscos finos e paralelos ao microscópio.
- Verificar se todos os riscos da etapa de lixa anterior tinham mesmo desaparecido antes de mudar de granulometria (regra da rotação de 90°).
- Se não tinham, voltar à etapa de lixa correspondente e repetir corretamente a sequência.
- Repetir o polimento só depois de a preparação anterior estar confirmada.
Avançar "na esperança" de que o polimento disfarce um erro anterior é o erro mais comum e mais caro em tempo de laboratório: obriga a repetir várias etapas.
Verificação intermédia ao microscópio
Antes de atacar quimicamente, observa-se a amostra polida, sem ataque. É já possível ver inclusões não metálicas e alguma porosidade, por contraste natural. Se houver riscos, corrige-se agora; corrigir depois do ataque implica repetir tudo desde a preparação de superfície.
6. Ataque químico e revelação da microestrutura
Uma amostra polida sem ataque mostra pouco ao microscópio. O ataque químico corrói seletivamente a superfície e revela grãos, fases e limites de grão, por diferença de reflexão da luz.
Reagentes comuns
| Reagente | Material típico | Composição típica |
|---|---|---|
| Nital | aços e ferros fundidos | ácido nítrico em álcool etílico |
| Picral | aços carbono e baixa liga | ácido pícrico em álcool etílico |
| Reagente de Marble | aços inoxidáveis | ácido clorídrico, sulfato de cobre, água |
| Reagente de Keller | ligas de alumínio | ácidos clorídrico, fluorídrico e nítrico em água |
A escolha do reagente depende do material a analisar e da estrutura que se pretende revelar. Usar o reagente errado, para o material errado, não revela a estrutura correta ou não reage de todo.
Exemplo resolvido · Procedimento completo de ataque com Nital
Situação: revelar a microestrutura de uma amostra de aço carbono, já polida.
- Preparar a solução de Nital 2% na hotte de extração, com EPI.
- Aplicar o reagente na superfície polida com algodão, ou por imersão breve, cronometrando (tipicamente 5 a 15 segundos, a confirmar pela reação observada).
- Lavar de imediato com água corrente, para interromper a reação.
- Lavar depois com álcool, para remover a água residual e evitar manchas.
- Secar com ar comprimido ou papel absorvente próprio, sem esfregar a superfície.
- Observar ao microscópio. Se a estrutura estiver pouco visível, repetir um ataque curto adicional; se estiver escura e sem detalhe, é sinal de sobre-ataque (repetir a preparação desde o polimento).
Sobre-ataque e sub-ataque
Um ataque insuficiente não revela contraste suficiente para interpretar a estrutura. Um ataque excessivo (sobre-ataque) escurece a superfície e apaga o detalhe fino, obrigando a repetir a preparação. O tempo certo aprende-se com a prática e confirma-se por observação intermédia ao microscópio.
7. Estruturas de metais e ligas metálicas
A interpretação da microestrutura observada assenta em conhecer as estruturas típicas dos materiais mais comuns em laboratório.
O sistema ferro-carbono
Aços e ferros fundidos são ligas ferro-carbono. O teor de carbono é a primeira variável a considerar:
- Aços: até cerca de 2% de carbono, deformáveis a quente e a frio.
- Ferros fundidos: acima de cerca de 2% de carbono, mais frágeis, mais fáceis de fundir.
Fases e constituintes microestruturais
| Constituinte | Características | Origem |
|---|---|---|
| Ferrite | macio, dúctil, pouco carbono dissolvido | fase estável de baixa temperatura |
| Perlite | lamelas alternadas de ferrite e cementite | transformação eutectóide |
| Cementite | carboneto de ferro, duro e frágil | fases ricas em carbono |
| Austenite | fase a alta temperatura, dúctil | estável acima de certa temperatura (ou em inoxidáveis austeníticos) |
| Martensite | estrutura em agulhas, muito dura e frágil | arrefecimento rápido (têmpera) |
A regra geral: mais martensite significa mais dureza e mais fragilidade; mais ferrite significa mais ductilidade e menor resistência.
Ligas não ferrosas
Alumínio e suas ligas, cobre e suas ligas (latão, com zinco; bronze, com estanho) são frequentes em laboratórios ligados à fundição. Cada família tem os seus próprios reagentes de ataque e padrões de referência, distintos dos das ligas ferrosas.
Composição química normalizada
Cada material tem uma composição química normalizada por norma técnica (por exemplo, designações europeias EN ou americanas AISI/SAE para aços). A norma diz o que é esperado encontrar; a microestrutura observada confirma, ou não, se a amostra está conforme.
8. Diagramas de fases binários
Um diagrama de fases binário mostra, para uma liga de dois elementos, que fases existem em equilíbrio a cada temperatura e composição.
Como se lê
- Eixo horizontal: composição (percentagem do segundo elemento).
- Eixo vertical: temperatura.
- As linhas do diagrama delimitam regiões de fase única e regiões de duas fases em equilíbrio.
O diagrama Fe-Fe3C
É a referência para interpretar aços e ferros fundidos:
- Ponto eutectóide (cerca de 0,76% de carbono): a austenite transforma-se diretamente em perlite ao arrefecer lentamente.
- Ponto eutético (cerca de 4,3% de carbono): mais relevante para ferros fundidos.
- Abaixo do eutectóide, a estrutura tem mais ferrite; acima, tem mais cementite.
Exemplo resolvido · Prever a estrutura a partir da composição
Situação: uma amostra de aço tem 0,4% de carbono e foi arrefecida lentamente.
- Localizar 0,4% de carbono no diagrama Fe-Fe3C, abaixo do ponto eutectóide (0,76%).
- Prever uma estrutura com mais ferrite do que perlite (aço hipoeutectóide).
- Confirmar ao microscópio: espera-se ver grãos de ferrite (claros) com regiões de perlite (lamelar) entre eles.
- Se a observação real mostrar outra estrutura (por exemplo, martensite), há indicação de que o material sofreu um tratamento térmico de arrefecimento rápido, não um simples arrefecimento lento.
O diagrama é uma previsão de equilíbrio; a microscopia confirma o que aconteceu de facto àquela amostra.
9. Microscopia ótica e fotomicrografia
Porque luz refletida
Ao contrário de amostras biológicas transparentes, uma amostra metálica é opaca. O microscópio ótico de reflexão ilumina a amostra por cima e capta a luz refletida. A superfície polida e atacada reflete a luz de forma diferente consoante a fase, o grão ou o limite de grão, e é essa diferença que forma a imagem.
Componentes principais
- Objetivas de várias ampliações (5x a 100x, tipicamente), trocáveis.
- Oculares, que ampliam adicionalmente.
- Platina, com movimento em x e y, onde a amostra assenta.
- Sistema de iluminação e foco.
- Câmara fotográfica digital acoplada, ligada a um programa de captura e tratamento de imagens.
A ampliação total é o produto da ampliação da objetiva pela ampliação da ocular.
Fotomicrografia
A fotomicrografia regista permanentemente a observação, para análise e para o boletim de ensaio. Boas práticas:
- Escolher a ampliação e a zona representativas da estrutura, não só a mais nítida.
- Ajustar foco e iluminação antes de capturar.
- Incluir sempre uma escala na imagem: sem escala, não é possível medir tamanho de grão nem comparar com padrões.
Exemplo resolvido · Calcular a ampliação total
Situação: usa-se uma objetiva de 20x e uma ocular de 10x.
Ampliação total = ampliação da objetiva × ampliação da ocular = 20 × 10 = 200x.
Este valor deve constar do registo da fotomicrografia, junto com a escala, o reagente de ataque e a identificação da amostra.
10. Determinação do tamanho de grão
O tamanho de grão influencia diretamente as propriedades mecânicas: em geral, grão mais fino significa maior resistência e maior tenacidade.
Método comparativo
O método mais usado em laboratório:
- Observar a amostra atacada a uma ampliação normalizada (tipicamente 100x).
- Comparar a imagem com uma série de padrões de referência (cartas de tamanho de grão, como as da norma ASTM E112).
- Atribuir o índice de tamanho de grão G correspondente ao padrão mais parecido.
Método do intercepto linear
Traça-se uma linha de comprimento conhecido sobre a imagem e conta-se o número de limites de grão que ela atravessa. Quanto mais limites de grão por unidade de comprimento, mais fino é o grão. É um método mais quantitativo, usado quando o resultado do método comparativo é contestado ou pouco claro.
Exemplo resolvido · Aplicar o método comparativo
Situação: uma fotomicrografia a 100x é comparada com a carta de referência, e a estrutura observada corresponde ao padrão de índice G = 8.
Conclusão: a amostra tem grão relativamente fino (índices mais altos correspondem a grãos mais finos). Se a especificação do material exigir, por exemplo, G ≥ 6, a amostra está conforme.
11. Inclusões não metálicas e exame de fibras
Inclusões não metálicas
As inclusões não metálicas são partículas estranhas à matriz metálica (óxidos, sulfuretos, silicatos), incorporadas durante a fusão ou o vazamento. Afetam negativamente a tenacidade e a resistência à fadiga. Classificam-se por tipo, forma e distribuição, geralmente por comparação com cartas de referência normalizadas.
Uma inclusão é diferente de um poro: a inclusão é uma partícula estranha; o poro é um vazio, sem material nenhum.
Orientação das fibras (macrografia)
O fibramento surge em peças conformadas por deformação plástica (forjamento, laminagem): as inclusões e a estrutura alinham-se na direção do fluxo do material durante a conformação. Observa-se por macrografia, com um reagente macrográfico apropriado, depois de corte, desbaste e ataque.
- Fibramento contínuo, alinhado com a forma da peça, é geralmente favorável à resistência mecânica.
- Fibramento cortado (por exemplo, por maquinagem excessiva a partir de barra bruta) pode criar pontos fracos.
Exemplo resolvido · Comparar duas peças pelo fibramento
Situação: comparam-se duas cambotas, uma forjada e outra maquinada a partir de barra, ambas com a mesma composição química.
- Preparar amostras macrográficas de ambas, na mesma zona crítica.
- Atacar com o reagente macrográfico apropriado.
- Observar: a peça forjada mostra fibras contínuas a seguir o contorno da peça; a maquinada mostra fibras cortadas pela geometria da peça.
- Concluir: apesar da mesma composição, a peça forjada tende a ser mais resistente naquela zona, devido ao fibramento contínuo.
12. Interpretação de resultados e boletim de ensaio
Comparar com a especificação
Uma imagem de microestrutura, por si só, não diz se a peça está aprovada. É preciso interpretar os resultados face a especificações ou normas de material: a norma define o que é esperado (gama de tamanho de grão, nível máximo de inclusões, presença ou ausência de determinada fase), e compara-se a observação com esses limites.
O boletim de ensaio
O boletim de ensaio é o documento final, que valida e comunica o resultado. Deve conter:
- Identificação: amostra, peça de origem, material, data, responsável pelo ensaio.
- Procedimento: corte, preparação, reagente de ataque e tempo, equipamento e ampliação.
- Resultados: fotomicrografias com escala, tamanho de grão, inclusões e outras observações relevantes.
- Conclusão: conformidade, ou não, face à norma ou especificação aplicável.
Exemplo resolvido · Do resultado à decisão no boletim
Situação: uma amostra de aço, especificação com índice de grão exigido G ≥ 7, deu um resultado de G = 5.
- Registar o resultado medido (G = 5) com a fotomicrografia correspondente.
- Comparar com a especificação (G ≥ 7): G = 5 não cumpre.
- Concluir no boletim: material não conforme quanto ao tamanho de grão, sujeito a decisão do responsável técnico (rejeição do lote ou investigação adicional).
- Nunca arredondar nem "dar o benefício da dúvida" sem justificação técnica registada.
Um resultado bem interpretado, mas mal registado, perde valor: um boletim sem procedimento descrito não é rastreável, e ninguém consegue repetir ou verificar o ensaio mais tarde.
Erros comuns
- Amostra não representativa: escolher a zona mais fácil de cortar em vez da zona que interessa investigar.
- Corte sem refrigeração suficiente: altera a microestrutura antes do ensaio começar.
- Saltar granulometrias na retificação: deixa riscos profundos que o polimento não remove.
- Sobre-ataque químico: apaga o detalhe fino da microestrutura.
- Fotomicrografia sem escala: torna a imagem inútil para medir tamanho de grão ou inclusões.
- Interpretar sem comparar com a norma: opinião subjetiva em vez de decisão baseada em especificação.
- Boletim sem procedimento descrito: resultado não rastreável, não repetível por outra pessoa.
Glossário
- Metalografia: estudo da microestrutura dos metais e ligas, por observação macroscópica e microscópica.
- Macrografia: exame a olho nu ou baixa ampliação, revela fibramento e defeitos de fundição.
- Micrografia: exame ao microscópio ótico, revela grãos, fases e inclusões.
- Provete: amostra preparada, resultante do corte, sobre a qual se faz o ensaio.
- Retificação/desbaste: remoção progressiva de material com lixas de granulometria decrescente.
- Polimento: acabamento final da superfície, com pastas abrasivas, até ficar sem riscos visíveis.
- Ataque químico: aplicação de um reagente que revela a microestrutura por corrosão seletiva.
- Ferrite, perlite, cementite, austenite, martensite: constituintes microestruturais típicos das ligas ferro-carbono.
- Diagrama de fases binário: representação gráfica das fases em equilíbrio de uma liga, em função da composição e da temperatura.
- Tamanho de grão: dimensão média dos grãos de uma estrutura metálica, expressa por um índice normalizado (G).
- Inclusão não metálica: partícula estranha à matriz metálica, incorporada durante a fusão ou o vazamento.
- Fibramento: orientação das fibras/inclusões alinhadas pela deformação plástica (forjamento, laminagem).
- Boletim de ensaio: documento que regista o procedimento, os resultados e a conclusão de um ensaio.
Síntese
Um ensaio de metalografia segue sempre a mesma ordem: amostragem representativa (norma aplicável, zona crítica) → corte refrigerado (evitar alteração térmica) → retificação e polimento (superfície sem riscos) → ataque químico (revelar a microestrutura, no reagente certo para o material) → microscopia ótica de reflexão e fotomicrografia (com escala) → análise (tamanho de grão, inclusões, orientação de fibras) → interpretação face a normas → boletim de ensaio. Domina este fluxo e sabes conduzir, com autonomia e rigor, um ensaio de metalografia real num laboratório de empresa metalúrgica ou siderúrgica.
Exercícios resolvidos
1. Ordena as etapas de preparação de uma amostra até ao ataque químico: (a) polimento, (b) corte, (c) retificação/desbaste, (d) ataque químico.
Resolução: a ordem correta é b (corte) → c (retificação/desbaste) → a (polimento) → d (ataque químico). O corte gera o provete; a retificação e o polimento preparam a superfície; só depois se ataca quimicamente para revelar a estrutura.
2. Uma amostra apresenta uma zona escurecida junto à superfície de corte. Qual a causa mais provável e como evitar?
Resolução: a causa mais provável é refrigeração insuficiente durante o corte, que gera calor e altera a microestrutura local. Evita-se garantindo o funcionamento correto do sistema de refrigeração e controlando a velocidade de avanço do corte.
3. Precisas de atacar quimicamente uma amostra de aço inoxidável. Qual dos reagentes da tabela usas e porquê?
Resolução: o reagente de Marble, porque é o reagente indicado para aços inoxidáveis na tabela; o Nital e o Picral são indicados para aços comuns e ferros fundidos, não para inoxidáveis.
4. Um colega diz "quanto mais tempo no reagente, melhor se vê a estrutura". Corrige-o.
Resolução: está errado. Existe um tempo de ataque adequado a cada material e reagente; um sobre-ataque escurece a superfície e apaga o detalhe fino da microestrutura. O tempo certo confirma-se por observação intermédia ao microscópio.
5. Uma amostra tem 0,4% de carbono e arrefeceu lentamente. Que estrutura se espera encontrar, com base no diagrama Fe-Fe3C?
Resolução: como 0,4% está abaixo do ponto eutectóide (cerca de 0,76%), espera-se uma estrutura hipoeutectóide, com mais ferrite do que perlite.
6. A fotomicrografia entregue não tem escala. Porque é um problema para o boletim de ensaio?
Resolução: sem escala não é possível medir nada de forma fiável a partir da imagem, nem determinar o tamanho de grão, nem comparar inclusões com cartas de referência. A imagem deixa de ter valor técnico para o boletim.
7. A especificação de um material exige índice de tamanho de grão G ≥ 7 e o resultado medido foi G = 5. O que deve constar do boletim?
Resolução: o resultado medido (G = 5), a comparação com a especificação (G ≥ 7) e a conclusão de não conformidade, com a evidência (fotomicrografia e procedimento) que sustenta a decisão, sujeita a validação do responsável técnico.