Sebenta · Propor materiais e tratamentos (UC01415)
- Introdução
- 1. Ciência e tecnologia dos materiais: definições, nomenclatura e normalização
- 2. Estruturas cristalinas: geometria, solidificação, defeitos e difusão
- 3. Diagramas de fase
- 4. Comportamento mecânico dos materiais: esforços e ensaios
- 5. Diagrama tensão-deformação, lei de Hooke e coeficiente de Poisson
- 6. Tensão admissível, coeficiente de segurança e encurvadura
- 7. Resistência à flexão e à torção
- 8. Fadiga, concentração de tensões e rutura frágil vs dúctil
- 9. Ligas ferrocarbónicas: aços e ferros fundidos
- 10. Ligas não ferrosas
- 11. Tratamentos térmicos e termoquímicos
- 12. Tratamentos mecânicos e superficiais, e corrosão
- 13. Materiais poliméricos, cerâmicos e compósitos
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a avaliar a aptidão de um material para uma peça e a propor o tratamento certo para lhe dar as propriedades que o serviço exige. É uma competência central de um técnico de fabrico de componentes de construção metálica: uma peça mal escolhida ou mal tratada falha em serviço, mesmo que tenha sido bem fabricada.
O percurso segue a lógica da própria engenharia de materiais: primeiro a estrutura interna dos materiais (cristais, defeitos, diagramas de fase), depois o comportamento mecânico (esforços, ensaios, resistência, fadiga), depois os materiais metálicos propriamente ditos (ligas ferrocarbónicas e não ferrosas), os tratamentos que lhes mudam as propriedades e, por fim, os materiais não metálicos (poliméricos, cerâmicos, compósitos) que muitas vezes competem com o metal na mesma peça.
Objetivos de aprendizagem (referencial): avaliar a aptidão de materiais metálicos e não metálicos para uma peça; determinar tratamentos térmicos e superficiais a aplicar; e identificar as vantagens e desvantagens de cada material e tratamento, adequando sempre o desempenho da peça à sua função e respeitando os métodos e procedimentos definidos.
1. Ciência e tecnologia dos materiais: definições, nomenclatura e normalização
A ciência dos materiais estuda a relação entre quatro elementos: estrutura (como os átomos estão organizados), propriedades (o que o material faz), processamento (como se fabrica e trata) e desempenho (como se comporta em serviço). Esta relação de quatro vértices é o fio condutor de toda a UC: uma estrutura explica uma propriedade, e uma propriedade justifica uma escolha.
Os materiais dividem-se em duas grandes famílias:
- Materiais metálicos: elementos metálicos ou ligas, unidos por ligação metálica (eletrões deslocalizados que se movem livremente pela rede de iões positivos). Esta ligação explica a boa condutividade elétrica e térmica e a ductilidade típica dos metais.
- Materiais não metálicos: polímeros, cerâmicos e compósitos, com ligações covalentes, iónicas ou combinações destas.
Nomenclatura e normalização
Cada material tem uma designação normalizada que transporta informação concreta sobre a sua composição ou propriedades, não é um nome arbitrário. Exemplos:
| Designação | Família | O que diz |
|---|---|---|
| S235 | aço estrutural | tensão de cedência mínima de 235 MPa |
| C45 | aço de médio carbono | cerca de 0,45% de carbono |
| EN AW-6060 | liga de alumínio | série 6000, alumínio-magnésio-silício |
| AISI 304 | aço inoxidável | austenítico, 18% crómio, 8% níquel |
As normas mais relevantes em Portugal são as europeias (EN), internacionais (ISO) e portuguesas (NP), muitas vezes transpostas umas das outras. A normalização garante que uma designação significa a mesma coisa em qualquer oficina, catálogo de fornecedor ou país, o que é indispensável para encomendar material, interpretar uma ficha técnica ou substituir uma peça com segurança.
2. Estruturas cristalinas: geometria, solidificação, defeitos e difusão
Geometria dos cristais
Nos metais sólidos, os átomos organizam-se em redes cristalinas repetitivas. As três estruturas mais comuns em metais de engenharia são:
| Estrutura | Sigla | Exemplos | Comportamento típico |
|---|---|---|---|
| Cúbica de corpo centrado | CCC | ferro α (à temperatura ambiente), crómio, tungsténio | mais duro, menos dúctil |
| Cúbica de faces centradas | CFC | ferro γ (a alta temperatura), alumínio, cobre, níquel | empacotamento mais denso, mais dúctil |
| Hexagonal compacta | HC | zinco, magnésio, titânio | ductilidade limitada, mais direcional |
A estrutura cristalina explica, isoladamente, boa parte da diferença de comportamento entre metais: um cobre CFC estira-se em fio fino sem partir, um zinco HC racha se se tentar dobrar a frio em excesso.
Solidificação e fronteiras de grão
Quando um metal líquido arrefece, formam-se núcleos de cristalização que crescem em grãos. Cada grão tem a mesma estrutura cristalina, mas orientada de forma diferente do vizinho. O encontro entre grãos cria uma fronteira de grão, uma zona desordenada que trava o movimento das deslocações e, regra geral, torna o material mais resistente quanto mais fino o grão.
Defeitos na rede cristalina
Nenhum cristal real é perfeito, e é precisamente a existência de defeitos que permite muitas propriedades úteis:
- Defeitos pontuais: lacunas (posição de átomo vazia) e átomos intersticiais ou substitucionais (átomos estranhos na rede). São a base da liga metálica e da difusão.
- Defeitos lineares (deslocações): linhas de desalinhamento na rede, cujo movimento é o mecanismo físico da deformação plástica dos metais.
- Defeitos planares (fronteiras de grão): superfícies onde a orientação cristalina muda; travam deslocações e aumentam a resistência (grão fino = material mais resistente).
Difusão em sólidos
A difusão é o movimento de átomos através da rede cristalina, tanto mais rápido quanto maior a temperatura. É o mecanismo físico por trás da cementação e da nitruração (capítulo 9), e também da homogeneização de ligas durante o fabrico.
Uma peça de aço cementada a 900°C ganha uma camada superficial rica em carbono porque, a essa temperatura, os átomos de carbono se difundem através da rede cristalina do ferro γ (austenite). À temperatura ambiente, essa mesma difusão seria praticamente nula, na prática de horas ou dias esta transformação demoraria séculos.
3. Diagramas de fase
Um diagrama de fase mostra que fases (estados estruturais) existem em equilíbrio, para cada combinação de composição química e temperatura. É o mapa que permite prever a microestrutura resultante de um determinado arrefecimento.
Dois pontos importantes de qualquer diagrama:
- Ponto eutéctico: composição com a temperatura de fusão mínima; o líquido transforma-se diretamente em duas fases sólidas ao arrefecer.
- Ponto eutectóide: transformação equivalente, mas entre duas fases já sólidas.
O diagrama ferro-carbono
O diagrama Fe-Fe₃C é a base de toda a metalurgia dos aços e ferros fundidos. As fases e constituintes principais são:
| Constituinte | Estrutura | Característica |
|---|---|---|
| Ferrite (α) | ferro CCC | pouco carbono dissolvido (até ~0,02%), macia e dúctil |
| Austenite (γ) | ferro CFC | dissolve até 2,1% de carbono, só existe a alta temperatura |
| Cementite (Fe₃C) | composto intermetálico | 6,67% de carbono, muito duro e frágil |
| Perlite | mistura lamelar | ferrite + cementite, forma-se na transformação eutectóide a 723°C |
A fronteira dos 2,1% de carbono separa os aços (até 2,1%) dos ferros fundidos (acima de 2,1%), e é o eixo de todo o capítulo 8. Mais carbono aumenta a dureza e a resistência mecânica, mas reduz a ductilidade e a soldabilidade, uma troca (trade-off) que se repete em toda a seleção de materiais.
Exemplo resolvido: ler o diagrama ferro-carbono
Um aço com 0,45% de carbono (C45) é arrefecido lentamente a partir de 900°C. Que constituintes se esperam à temperatura ambiente?
Resolução: a 900°C, o aço está totalmente em austenite (fase γ). Ao arrefecer lentamente e cruzar a linha eutectóide (723°C), a austenite transforma-se numa mistura de ferrite proeutectóide (a fase pobre em carbono, que se forma primeiro) e perlite (a mistura lamelar ferrite + cementite, que se forma na transformação eutectóide). Um aço com 0,45% C tem, portanto, uma microestrutura final de ferrite e perlite, mais rico em perlite do que um aço de baixo carbono (ex.: 0,1% C) e mais pobre em perlite do que um aço eutectóide (0,8% C).
4. Comportamento mecânico dos materiais: esforços e ensaios
Os cinco esforços fundamentais
Qualquer peça em serviço está sujeita a combinações destes esforços mecânicos básicos:
| Esforço | Efeito na peça |
|---|---|
| Tração | alonga a peça no sentido da força |
| Compressão | encurta a peça no sentido da força |
| Corte | desliza planos paralelos entre si |
| Flexão | curva a peça, criando zonas tracionadas e comprimidas |
| Torção | roda uma secção em relação à outra em torno de um eixo |
Identificar o esforço dominante numa peça real é o primeiro passo de qualquer dimensionamento: uma viga de um pórtico metálico trabalha sobretudo à flexão; um parafuso de fixação, sobretudo à tração e ao corte; um veio de transmissão, sobretudo à torção e à fadiga.
Ensaios mecânicos
Os ensaios mecânicos dividem-se em duas famílias:
Ensaios destrutivos (inutilizam o provete):
- Ensaio de tração: produz o diagrama tensão-deformação (capítulo 5), determina módulo de elasticidade, tensão de cedência e de rutura.
- Ensaios de dureza: Brinell (esfera), Rockwell (cone ou esfera, leitura direta) e Vickers (pirâmide, indicado para materiais duros e camadas finas).
- Ensaios de impacto: Charpy e Izod, medem a energia absorvida na fratura, indicam a fragilidade a baixa temperatura.
- Ensaio de fadiga: sujeita o provete a ciclos de carga repetidos até à rotura.
Ensaios não destrutivos (END) (não danificam a peça, usam-se em controlo de qualidade e inspeção em serviço):
- Líquidos penetrantes: revelam fendas superficiais abertas ao contacto.
- Partículas magnéticas: só em materiais ferromagnéticos, revelam descontinuidades próximas da superfície.
- Ultrassons: deteta defeitos internos por reflexão de ondas sonoras de alta frequência.
- Radiografia: imagem por raios X ou gama, revela porosidades e fendas internas.
A escolha entre ensaio destrutivo e não destrutivo depende de a peça poder ser sacrificada (um provete de um lote) ou ter de continuar em serviço (uma soldadura de uma estrutura já montada).
5. Diagrama tensão-deformação, lei de Hooke e coeficiente de Poisson
O diagrama tensão-deformação
O ensaio de tração produz o diagrama tensão (σ) versus deformação (ε), a "impressão digital" mecânica de um material. As suas zonas principais:
- Zona elástica: reta inicial; a peça recupera integralmente a forma ao remover a carga.
- Tensão de cedência (σc): fim da zona elástica, início da deformação permanente (plástica).
- Zona plástica: deformação permanente, com endurecimento por deformação (o material fica progressivamente mais resistente à medida que se deforma).
- Tensão de rutura (σr): tensão máxima suportada, seguida de estricção (redução localizada da secção) e fratura.
Um material dúctil (ex.: aço macio) mostra uma grande zona plástica antes de romper; um material frágil (ex.: ferro fundido cinzento, cerâmicos) rompe pouco depois, ou mesmo antes, da cedência.
Lei de Hooke
Na zona elástica, a tensão é proporcional à deformação:
σ = E · ε
onde σ é a tensão (Pa ou MPa), ε é a deformação (adimensional, ou %) e E é o módulo de elasticidade (ou módulo de Young), que mede a rigidez do material: quanto maior o E, mais rígido, isto é, menos deforma para a mesma tensão.
| Material | E aproximado |
|---|---|
| Aço | 210 GPa |
| Alumínio | 70 GPa |
| Cobre | 120 GPa |
| Madeira (ao longo do fio) | 10 a 15 GPa |
Rigidez (E) e resistência (σ de rutura) são propriedades diferentes do mesmo diagrama. Um material pode ser muito rígido e, ao mesmo tempo, frágil (o vidro é um bom exemplo): parte cedo, mas até partir deforma-se muito pouco.
Exemplo resolvido: aplicar a lei de Hooke
Uma barra de aço (E = 210 GPa) está sujeita a uma tensão de 100 MPa, dentro da zona elástica. Qual a deformação (ε)?
Resolução: ε = σ / E = 100 / 210 000 ≈ 0,000476, ou seja 0,048%. Se a barra tiver 2 m de comprimento, o alongamento absoluto é ΔL = ε · L = 0,000476 × 2000 mm ≈ 0,95 mm.
Coeficiente de Poisson
Ao esticar uma peça, ela alonga no sentido da força mas afina na direção perpendicular. O coeficiente de Poisson (ν) relaciona as duas deformações:
ν = − ε_transversal / ε_longitudinal
Para a maioria dos metais, ν ronda 0,3.
6. Tensão admissível, coeficiente de segurança e encurvadura
Tensão admissível e coeficiente de segurança
Nunca se dimensiona uma peça para a tensão de rutura, nem sequer para a tensão de cedência: usa-se a tensão admissível, que introduz uma margem de segurança:
σ_adm = σ_cedência / n
n é o coeficiente de segurança, que cobre incertezas de carga real, variabilidade do material, imperfeições de fabrico e a gravidade das consequências de uma eventual falha. Valores típicos de n vão de 1,5 a 2 em estruturas correntes, e são mais elevados em equipamentos de elevação de cargas ou onde a falha põe pessoas em risco direto.
A verificação de segurança de uma peça é simples de enunciar: está bem dimensionada se a tensão de serviço ≤ σ_adm.
Exemplo resolvido: calcular a tensão admissível
Um perfil de aço S235 (σ_cedência = 235 MPa) vai ser usado numa estrutura corrente, com coeficiente de segurança n = 1,5. Qual a tensão admissível?
Resolução: σ_adm = 235 / 1,5 ≈ 157 MPa. É este valor, e não os 235 MPa da cedência, que se usa para escolher o perfil comercial (secção) que suporta a carga da estrutura.
Encurvadura e a fórmula de Euler
Peças esbeltas (longas e de secção fina) sujeitas a compressão podem falhar por encurvadura: fletem lateralmente muito antes de atingirem a tensão de cedência por compressão simples. A carga crítica de encurvadura é dada pela fórmula de Euler:
P_crítico = π² · E · I / (K · L)²
onde E é o módulo de elasticidade, I o momento de inércia da secção, L o comprimento da peça e K um fator que depende das condições de apoio nas extremidades. Quanto mais comprida e mais esbelta a peça (menor I em relação a L), menor a carga crítica de encurvadura, mesmo que a área da secção seja grande.
Uma régua fina de metal dobra e desliza lateralmente muito antes de "esmagar" quando comprimida ao longo do seu comprimento: é um caso didático de encurvadura, e explica porque escoras e pilares esbeltos precisam de secções com I elevado (perfis em I, em U ou tubulares), não apenas de área suficiente.
7. Resistência à flexão e à torção
Resistência à flexão
Numa viga fletida, a tensão varia ao longo da secção: é máxima nas fibras extremas e nula no eixo neutro.
σ = M / W W = I / c
- M: momento fletor na secção em análise.
- I: momento de inércia da secção em relação ao eixo neutro.
- c: distância da fibra mais afastada ao eixo neutro.
- W: módulo de flexão (ou de resistência), W = I / c.
O diagrama de momentos fletores mostra como M varia ao longo do comprimento da viga; o diagrama de esforços transversais mostra o correspondente esforço de corte. Perfis em I ou em U concentram o material longe do eixo neutro, o que dá um W elevado com relativamente pouco material, e é por isso a escolha típica em construção metálica para peças fletidas.
Resistência ao corte e à torção
A resistência ao corte relaciona a tensão tangencial com a força que atua paralela ao plano da secção:
τ = F / A
A resistência à torção aplica-se a veios sujeitos a um momento torsor T, que desenvolve uma tensão tangencial variável com o raio:
τ = T · r / J
T é o momento torsor, r a distância ao eixo do veio e J o momento polar de inércia da secção. A tensão de torção é máxima na superfície e nula no centro do veio, razão pela qual veios ocos, com o mesmo peso que um veio maciço equivalente, resistem melhor à torção: o material perto do centro contribuía pouco para a resistência.
8. Fadiga, concentração de tensões e rutura frágil vs dúctil
Fadiga
A fadiga é a falha de uma peça sujeita a cargas cíclicas (repetidas), a uma tensão frequentemente muito abaixo da tensão de rutura estática do material. Descreve-se pela curva S-N (tensão S versus número de ciclos N até à rotura). Muitos aços apresentam um limite de fadiga: uma tensão abaixo da qual a peça resiste, na prática, a um número quase ilimitado de ciclos.
A concentração de tensões agrava a fadiga: entalhes, furos, rasgos de chaveta e mudanças bruscas de secção multiplicam a tensão local por um fator de concentração de tensões (Kt), e são o ponto de partida típico de uma fissura de fadiga.
A maioria das falhas em serviço de peças metálicas ocorre por fadiga, não por sobrecarga estática única. Um cuidado de projeto tão simples como arredondar um canto vivo com um raio de concordância pode ser a diferença entre uma peça durar anos ou fraturar em poucas semanas de uso.
Rutura frágil vs dúctil, e o efeito da temperatura
- Rutura dúctil: precedida de deformação plástica visível e estricção, absorve muita energia antes de fraturar.
- Rutura frágil: ocorre sem aviso prévio, superfície de fratura plana, pouca energia absorvida.
Muitos aços têm uma temperatura de transição dúctil-frágil: acima dela comportam-se de forma dúctil, abaixo tornam-se frágeis mesmo sem alteração da carga aplicada. O ensaio de impacto Charpy, repetido a várias temperaturas, é o que determina essa temperatura de transição, um critério de seleção de material tão real quanto a resistência à tração, sobretudo em estruturas ao ar livre ou em climas frios.
9. Ligas ferrocarbónicas: aços e ferros fundidos
Aços
Os aços são ligas ferro-carbono com até 2,1% de carbono, muitas vezes com outros elementos de liga (crómio, níquel, molibdénio, manganês).
| Classe | Teor de carbono | Uso típico |
|---|---|---|
| Aço de baixo carbono | até 0,25% | chapas, perfis estruturais, peças soldadas |
| Aço de médio carbono | 0,25 a 0,6% | veios, engrenagens, peças forjadas |
| Aço de alto carbono | 0,6 a 2,1% | ferramentas de corte, molas |
Os aços-liga, com adição de crómio, níquel ou molibdénio, ganham maior resistência, dureza ou resistência à corrosão. Os aços inoxidáveis têm no mínimo 10,5% de crómio, que forma uma camada de óxido passiva e autorregenerável, protegendo o metal por baixo.
De um modo geral, quanto mais carbono, maior a dureza e a resistência, mas menor a ductilidade e a soldabilidade, uma troca que se repete em toda a seleção de aços.
Ferros fundidos
Os ferros fundidos têm mais de 2,1% de carbono, o que leva à formação de grafite ou cementite na microestrutura, em vez da perlite predominante nos aços.
| Tipo | Microestrutura | Característica principal |
|---|---|---|
| Cinzento | grafite em lamelas | boa maquinabilidade, absorve vibrações, frágil à tração |
| Nodular (dúctil) | grafite esferoidal | muito mais dúctil do que o cinzento, quase tão resistente quanto um aço |
| Branco | cementite | extremamente duro e frágil, resistente ao desgaste |
| Maleável | tratamento térmico do ferro branco | ductilidade intermédia entre o cinzento e o nodular |
Os ferros fundidos são mais baratos de fundir e maquinar do que o aço, mas menos dúcteis e praticamente não soldáveis pelos processos correntes. São a escolha típica de blocos de motor e bancadas de máquinas, onde a boa absorção de vibrações do ferro fundido cinzento é uma vantagem, não um defeito.
10. Ligas não ferrosas
Nem toda a peça metálica é de aço ou ferro fundido. As ligas não ferrosas resolvem problemas que o aço, sozinho, não resolve bem:
| Liga | Vantagem principal | Aplicação típica |
|---|---|---|
| Alumínio | leve (⅓ da densidade do aço), boa resistência à corrosão (óxido natural protetor) | estruturas leves, caixilharia, componentes de transporte |
| Cobre e latão (cobre + zinco) | excelente condutividade elétrica e térmica, boa maquinabilidade | fios elétricos, quadros elétricos, conectores |
| Bronze (cobre + estanho) | boa resistência ao desgaste e à corrosão | casquilhos, engrenagens, componentes navais |
| Titânio | excelente relação resistência/peso, muito resistente à corrosão | aeronáutica, implantes, componentes de alta exigência |
| Zinco | baixo ponto de fusão, boa proteção galvânica | galvanização, peças fundidas por injeção |
A escolha entre uma liga não ferrosa e o aço cruza sempre peso, condutividade, resistência à corrosão e custo: não existe "a melhor" liga em absoluto, existe a mais adequada a cada peça e função.
11. Tratamentos térmicos e termoquímicos
Tratamentos térmicos do aço
Um tratamento térmico aquece e arrefece o aço em ciclos controlados de temperatura para mudar a sua microestrutura, sem alterar a composição química. A variável decisiva não é só a temperatura atingida, é sobretudo a velocidade de arrefecimento.
| Tratamento | Processo | Efeito |
|---|---|---|
| Têmpera | aquecer até à fase austenite + arrefecimento rápido (água, óleo) | dureza muito elevada, mas fragilidade acentuada |
| Revenido | reaquecer a peça já temperada a temperatura moderada | reduz a fragilidade da têmpera, mantendo boa dureza |
| Recozido | aquecer + arrefecimento lento (dentro do forno) | amolece o material, remove tensões internas |
| Normalização | aquecer + arrefecimento ao ar | afina o grão, uniformiza a microestrutura |
Regra de ouro: têmpera é sempre seguida de revenido. Uma peça só temperada, sem revenido, fica dura mas perigosamente frágil, e pode fraturar de forma súbita em serviço.
Tratamentos termoquímicos
Os tratamentos termoquímicos mudam a composição química apenas da superfície da peça, mantendo o núcleo inalterado, e exploram o mecanismo de difusão em sólidos do capítulo 2, a temperatura elevada.
- Cementação: difusão de carbono na superfície de um aço de baixo carbono, seguida de têmpera. Resultado: superfície dura, núcleo dúctil e tenaz.
- Nitruração: difusão de azoto, forma nitretos muito duros na superfície, sem necessidade de têmpera posterior.
- Carbonitruração: difusão simultânea de carbono e azoto, combina características das duas anteriores.
- Boretação: difusão de boro, produz superfícies extremamente duras, muito resistentes ao desgaste abrasivo.
Exemplo resolvido: escolher um tratamento termoquímico
Uma engrenagem de uma caixa de velocidades precisa de dentes muito resistentes ao desgaste, mas o núcleo tem de continuar tenaz para não fraturar sob impacto. Que tratamento se propõe?
Resolução: propõe-se a cementação, seguida de têmpera e revenido. O carbono difunde-se na superfície dos dentes, que ficam com dureza elevada após a têmpera; o núcleo, com o teor de carbono original (baixo), permanece dúctil e absorve os choques sem fraturar. É exatamente o compromisso "superfície dura, núcleo tenaz" que a aplicação exige.
12. Tratamentos mecânicos e superficiais, e corrosão
Tratamentos mecânicos
Os tratamentos mecânicos (laminação, forjamento, trefilagem, extrusão) deformam o metal a frio ou a quente e alteram a sua microestrutura. A deformação a frio produz encruamento: o material fica mais duro e resistente, mas menos dúctil, um efeito que se pode reverter com um recozido.
Tratamentos superficiais
- Galvanização: revestimento de zinco, proteção contra corrosão por barreira e por sacrifício galvânico.
- Cromagem: revestimento de crómio, resistência ao desgaste e acabamento decorativo.
- Anodização: própria do alumínio, engrossa a camada de óxido protetor por via eletroquímica.
- Pintura: proteção por barreira, sobretudo estética e contra corrosão atmosférica ligeira.
- Jateamento (shot peening): bombardeamento com esferas metálicas que introduz tensões residuais de compressão na superfície, atrasando o início de fissuras de fadiga.
Corrosão e proteção de materiais metálicos
A corrosão é a deterioração do metal por reação com o ambiente, na maioria dos casos um processo eletroquímico, que requer três elementos: ânodo (metal que se oxida e perde material), cátodo (elétrodo onde ocorre a reação de redução) e eletrólito (meio condutor, tipicamente água com sais dissolvidos ou humidade).
| Tipo de corrosão | Característica |
|---|---|
| Uniforme | perda de material distribuída por toda a superfície |
| Galvânica | entre dois metais diferentes em contacto elétrico e no mesmo eletrólito |
| Por picadas (pitting) | ataque localizado em pontos, difícil de detetar antes de perfurar |
| Sob tensão (SCC) | combina tensão mecânica aplicada e ambiente corrosivo específico |
| Intergranular | ataca preferencialmente as fronteiras de grão |
Medidas de proteção: revestimentos por barreira (pintura, galvanização), proteção catódica (ânodos de sacrifício de zinco ou magnésio, ou corrente impressa), inibidores químicos e, sobretudo, a seleção correta do material para o ambiente de serviço.
Juntar aço e cobre em contacto elétrico direto num ambiente húmido cria uma pilha galvânica: o aço, menos nobre, corrói-se de forma acelerada, protegendo o cobre. É por isso que cascos de navios e estruturas offshore instalam ânodos de sacrifício de zinco: o zinco, ainda menos nobre que o aço, corrói-se preferencialmente e poupa a estrutura.
13. Materiais poliméricos, cerâmicos e compósitos
Materiais poliméricos
- Termoplásticos (polietileno PE, polipropileno PP, PVC, poliamida PA, policarbonato PC): amolecem ao aquecer e podem ser reprocessados; boa relação custo/facilidade de fabrico.
- Termoendurecíveis (epóxi, poliéster, fenólicos): curam através de uma reação química irreversível; não voltam a amolecer com o calor, são mais rígidos e mais resistentes a temperaturas elevadas.
- Elastómeros (borracha natural, NBR, EPDM): capazes de grande deformação elástica reversível, usam-se em vedantes, mangueiras e amortecedores.
Processam-se por injeção (peças complexas em série), extrusão (perfis, tubos, chapas contínuas), moldagem por compressão (comum em termoendurecíveis) e vulcanização (reação que dá aos elastómeros a sua elasticidade estável e durável).
Materiais cerâmicos
- Tradicionais: louça, tijolo, telha, à base de argilas; baratos, frágeis, bons isolantes térmicos.
- Técnicos: alumina, carboneto de silício, zircónia; muito duros e resistentes a temperatura e desgaste, usados em ferramentas de corte e componentes de alta exigência.
- Vidros: sólidos amorfos, sem estrutura cristalina ordenada, transparentes, frágeis, com boa resistência química.
Processam-se por conformação (prensagem, extrusão, colagem por barbotina) seguida de sinterização, um aquecimento abaixo do ponto de fusão que une as partículas por difusão e densifica a peça, dando-lhe a resistência final.
Todos os cerâmicos partilham um traço comum: elevada dureza e boa resistência à compressão, mas fragilidade acentuada à tração e ao impacto, sem zona plástica que avise antes da fratura.
Materiais compósitos
Um compósito combina dois ou mais materiais distintos para obter propriedades que nenhum tem sozinho:
| Tipo | Exemplo | Vantagem |
|---|---|---|
| Plástico reforçado com fibra | fibra de vidro (GFRP), fibra de carbono (CFRP) | rigidez e resistência elevadas, muito leve |
| Metal reforçado com cerâmico | metal-matrix composite (MMC) | dureza e resistência ao desgaste superiores ao metal puro |
| Madeiras estruturais | contraplacado, laminados | boa relação resistência/peso, baixo custo |
| Estrutura sanduíche | peles rígidas + núcleo leve (espuma, colmeia) | rigidez à flexão elevada com muito pouco peso |
Um compósito bem projetado supera, na aplicação certa, qualquer material homogéneo equivalente em peso, mas as suas propriedades dependem fortemente da direção das fibras: ao contrário de um metal, não se comporta da mesma forma em todas as direções.
Erros comuns
- Escolher o material só pela resistência ou pela dureza isolada, ignorando o conjunto de exigências reais da peça (corrosão, custo, fabrico, temperatura de serviço).
- Confundir rigidez (módulo de elasticidade) com resistência (tensão de rutura): um material pode ser rígido e frágil ao mesmo tempo.
- Dimensionar para a tensão de rutura ou de cedência, em vez da tensão admissível com o coeficiente de segurança aplicado.
- Ignorar a encurvadura ao dimensionar peças esbeltas em compressão, olhando só para a área da secção.
- Aplicar têmpera sem revenido, deixando a peça perigosamente frágil.
- Confundir cementação (adiciona carbono) com nitruração (adiciona azoto).
- Juntar metais muito diferentes em ambiente húmido, provocando corrosão galvânica acelerada no metal menos nobre.
- Tratar um compósito como um material isotrópico, ignorando o efeito da direção das fibras.
- Esquecer a temperatura de transição dúctil-frágil em estruturas ao ar livre ou em climas frios.
Glossário
- Liga: material metálico composto por um metal base e um ou mais elementos adicionados.
- Estrutura cristalina: organização repetitiva dos átomos num sólido (CCC, CFC, HC).
- Deslocação: defeito linear na rede cristalina, mecanismo da deformação plástica.
- Difusão: movimento de átomos através de uma rede sólida, acelerado pela temperatura.
- Diagrama de fase: representação das fases estáveis em função de composição e temperatura.
- Austenite, ferrite, cementite, perlite: constituintes do diagrama ferro-carbono.
- Tensão (σ): força por unidade de área.
- Deformação (ε): variação relativa de comprimento.
- Módulo de elasticidade (E): rigidez de um material na zona elástica.
- Coeficiente de Poisson (ν): relação entre deformação transversal e longitudinal.
- Tensão admissível: tensão de cedência dividida pelo coeficiente de segurança.
- Encurvadura: instabilidade lateral de peças esbeltas em compressão.
- Fadiga: falha por cargas cíclicas, a tensões abaixo da rutura estática.
- Concentração de tensões: aumento local da tensão junto a entalhes ou mudanças de secção.
- Têmpera, revenido, recozido, normalização: tratamentos térmicos do aço.
- Cementação, nitruração: tratamentos termoquímicos que endurecem a superfície.
- Corrosão eletroquímica: deterioração do metal por reação com o ambiente, com ânodo, cátodo e eletrólito.
- Termoplástico, termoendurecível, elastómero: famílias de materiais poliméricos.
- Sinterização: densificação de um cerâmico por aquecimento abaixo do ponto de fusão.
- Compósito: combinação de dois ou mais materiais para propriedades superiores às de cada um isolado.
Síntese
A seleção de materiais parte sempre da estrutura interna: cristais, defeitos e diagramas de fase explicam porque um metal se comporta como se comporta. O comportamento mecânico (esforços, ensaios, lei de Hooke, tensão admissível, encurvadura, flexão, torção, fadiga) dá as ferramentas de cálculo para verificar se uma peça aguenta o serviço. As ligas ferrocarbónicas e não ferrosas oferecem um leque de materiais metálicos, cada um com o seu nicho. Os tratamentos térmicos, termoquímicos, mecânicos e superficiais mudam as propriedades finais sem mudar a peça de material. E os materiais não metálicos (poliméricos, cerâmicos, compósitos) completam o leque de escolhas disponíveis ao técnico. Propor um material e um tratamento é sempre um exercício de comparar vantagens e desvantagens face à função real da peça.
Exercícios resolvidos
1. Um veio de transmissão parte-se após meses em serviço, apesar de nunca ter sido sujeito a uma carga próxima da tensão de rutura do aço. Qual a causa mais provável?
Resolução: fadiga, provavelmente agravada por concentração de tensões num rasgo de chaveta ou mudança de secção sem raio de concordância. A fadiga falha a tensões muito abaixo da rutura estática, por isso "nunca ter chegado perto da rutura" não é garantia nenhuma de segurança contra cargas cíclicas repetidas.
2. Um perfil de aço S235 (σ_cedência = 235 MPa) vai suportar uma carga que gera uma tensão de serviço de 140 MPa. Com um coeficiente de segurança de 1,5, o perfil está bem dimensionado?
Resolução: σ_adm = 235 / 1,5 ≈ 157 MPa. Como a tensão de serviço (140 MPa) é inferior à tensão admissível (157 MPa), o perfil está bem dimensionado, com uma margem de cerca de 17 MPa.
3. Porque é que uma engrenagem se cementa em vez de se temperar por igual em toda a peça?
Resolução: a cementação difunde carbono só na superfície, dando dentes com dureza elevada (resistência ao desgaste) depois de temperados, mantendo o núcleo com o carbono original, dúctil e capaz de absorver os choques em serviço sem fraturar. Temperar a peça inteira daria dureza uniforme, mas tornaria o núcleo frágil e mais suscetível a fraturar sob impacto.
4. Dois metais diferentes (aço e cobre) estão em contacto elétrico numa estrutura exposta à chuva. Que tipo de corrosão se deve prevenir e como?
Resolução: corrosão galvânica. Previne-se isolando eletricamente os dois metais (juntas isolantes, revestimentos), ou instalando ânodos de sacrifício (ex.: zinco) que se corroem preferencialmente e protegem o metal menos nobre da estrutura, neste caso o aço.
5. Um pilar metálico esbelto colapsa sob uma carga de compressão bem abaixo da tensão de cedência do material. Que fenómeno explica esta falha, e que propriedade da secção o técnico devia ter reforçado?
Resolução: encurvadura, prevista pela fórmula de Euler (P_crítico = π²EI/(KL)²). O técnico devia ter aumentado o momento de inércia (I) da secção, por exemplo escolhendo um perfil em I, em U ou tubular, em vez de confiar apenas na área da secção para resistir à compressão.
6. Uma peça precisa de boa resistência à corrosão, ser leve e ter boa condutividade térmica. Entre aço-carbono, alumínio e ferro fundido cinzento, qual se propõe, e porquê?
Resolução: alumínio, porque forma uma camada de óxido protetora que lhe dá boa resistência à corrosão sem tratamento adicional, tem cerca de ⅓ da densidade do aço (é leve) e boa condutividade térmica. O aço-carbono corroeria sem proteção e o ferro fundido cinzento é frágil e mais pesado, além de não ter vantagem térmica sobre o alumínio.