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UC · Unidade de Competência · UC01407

Sebenta · Gerir custos e orçamentos (UC01407)

Custeio industrial, métodos de orçamentação, orçamentos de encomendas e da produção, execução e controlo de desvios
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Planeamento Industrial ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um técnico de planeamento industrial que domina desenho, materiais e processos, mas não sabe quanto custa o que fabrica, arrisca-se a que a empresa perca dinheiro em cada encomenda sem perceber porquê. Esta sebenta ensina a gerir custos e orçamentos na indústria metalomecânica: do desenho técnico ao preço de venda, e do orçamento aprovado ao controlo do que realmente se gastou.

O percurso segue a lógica do trabalho real: primeiro aprende-se a decompor um processo de fabrico e a estimar tempos e custos de cada atividade; depois a categorizar custos (diretos, indiretos, fixos, variáveis) e a escolher métodos de orçamentação; segue-se o cálculo de margens e indicadores financeiros; depois a elaboração de orçamentos de encomendas e de produção, ligados ao planeamento financeiro da empresa; e por fim a execução orçamental, a análise de desvios e a comunicação através de relatórios.

Objetivos de aprendizagem (referencial): aplicar metodologias para estimar custos de fabrico; elaborar orçamentos de encomendas; desenvolver orçamentos da produção; executar a monitorização e análise de orçamentos, decompondo processos, categorizando custos, garantindo competitividade e lucro, elaborando orçamentos anuais alinhados com os objetivos estratégicos, e propondo ajustes a partir da análise das execuções orçamentais.

Ao longo da sebenta, usa-se um exemplo constante · o fabrico de um suporte metálico em chapa de aço S275JR · para que cada conceito novo se veja aplicado ao mesmo caso, do desenho ao relatório final.

1. Do desenho técnico ao custo do produto

Porque é que custar bem decide o negócio

Custear é estimar quanto vai custar produzir uma peça ou um lote, antes de produzir. Orçamentar é transformar essa estimativa num compromisso: um valor proposto a um cliente, ou um plano financeiro para um período. Uma peça bem desenhada e bem fabricada, mas mal orçamentada, faz a empresa perder dinheiro à mesma · um erro de custeio de 5% numa encomenda de 40 000 € pode representar todo o lucro do projeto.

O caminho de uma peça, do desenho ao preço final, segue sempre a mesma sequência lógica:

Desenho técnico → Processo de fabrico → Tempos e materiais
      → Custos diretos e indiretos → Preço de custo → Margem → Preço de venda

O desenho técnico define geometria, tolerâncias, material e acabamento: é o ponto de partida de qualquer estimativa. Cada alteração ao desenho · mais um furo, uma tolerância mais apertada, um tratamento superficial extra · muda o custo. Ler um desenho como planeador é ler cada linha como um custo potencial.

Interpretar requisitos de produção

Além do desenho, o planeador precisa de conhecer os requisitos de produção da encomenda: a quantidade pedida, o prazo de entrega, e as exigências de qualidade específicas do cliente (certificados, ensaios, embalagem). Estes requisitos condicionam o processo escolhido e, por consequência, o custo · a mesma peça, com prazo apertado, pode obrigar a horas extra ou subcontratação, o que muda o cálculo.

2. Materiais, processos de fabrico e normas

Selecionar materiais em função da função da peça

Antes de estimar qualquer custo, é preciso saber o que se vai fabricar e com quê. A seleção de material depende da função da peça, do ambiente onde vai trabalhar e das exigências do cliente:

Material Preço aproximado Uso típico
Aço ao carbono S235/S275 0,90 a 1,20 €/kg estruturas, suportes, não expostas à corrosão severa
Aço inoxidável AISI 304 3,50 a 4,50 €/kg ambientes húmidos, alimentar, estético
Aço inoxidável AISI 316 4,50 a 6,00 €/kg ambientes agressivos, marítimos, químicos
Alumínio (ligas 5000/6000) 3,00 a 4,00 €/kg peças leves, boa condutividade térmica

Escolher aço inoxidável "por garantia", quando o aço ao carbono pintado cumpre perfeitamente a função, pode encarecer a peça em três a quatro vezes sem benefício real para o cliente. O bom técnico escolhe o material suficiente, não o mais "seguro" à partida.

Identificar processos de fabrico

Cada material e geometria sugerem processos diferentes: corte (laser, plasma, guilhotina), conformação (quinagem, calandragem), maquinagem (torno, fresadora, CNC), soldadura (MIG/MAG, TIG, elétrodo revestido) e tratamento superficial (pintura, galvanização, anodização). A escolha do processo certo, para a quantidade e a exigência de qualidade em causa, é tão determinante para o custo como a escolha do material.

O peso das normas técnicas no custo

As normas técnicas, dimensionais e de segurança não são burocracia: mudam o processo e o preço.

Norma / exigência Efeito no custo
Tolerâncias apertadas (ISO 2768-f) mais tempo de maquinagem e mais retrabalho
Certificação de material (2.2 / 3.1) ensaios e documentação adicionais
Soldadura certificada (EN ISO 3834) soldadores qualificados e controlo não destrutivo
Segurança de máquinas (EN ISO 12100) proteções e acessórios extra

Duas peças geometricamente idênticas podem ter custos bem diferentes só porque uma exige certificação de material e a outra não. Ler o caderno de encargos do cliente com atenção às normas exigidas é parte do trabalho de custeio, tanto quanto ler as cotas do desenho.

3. Decompor processos e estimar tempos e custos

Decompor o processo em atividades elementares

Estimar o custo de um processo de fabrico completo "de uma vez" é impreciso. A técnica correta é decompor o processo em atividades elementares: operações simples, cada uma com um tempo e um custo próprios. É o critério de desempenho central desta UC.

Exemplo de referência, usado ao longo de toda a sebenta: um suporte metálico em chapa de aço S275JR.

1. Corte a laser da chapa
2. Quinagem (dobra)
3. Furação
4. Soldadura de reforço
5. Rebarbagem e limpeza
6. Pintura
7. Controlo dimensional

Estimar o tempo de cada atividade

Estimar tempos não é adivinhar · há métodos reconhecidos:

Na prática, os métodos combinam-se: o histórico dá uma estimativa rápida, a cronometragem confirma-a nas peças de maior valor.

Exemplo resolvido · decompor e cronometrar o suporte metálico

Atividade Tempo (min/peça) Recurso
Corte a laser 3,5 máquina de corte laser
Quinagem 2,0 quinadora CNC
Furação 1,5 furadora de coluna
Soldadura de reforço 6,0 soldador MIG/MAG
Rebarbagem e limpeza 2,5 operador
Pintura 4,0 cabine de pintura
Controlo dimensional 1,5 controlador de qualidade
Total 21,0 min/peça

Este quadro é a base de todo o custeio seguinte. Um erro comum é esquecer o tempo de setup (preparação e afinação da máquina), que em séries pequenas pode pesar mais do que o próprio tempo de execução.

Do tempo ao custo operacional

Com o tempo de cada atividade, calcula-se o custo operacional: tempo (em horas) multiplicado pelo custo horário do recurso.

Recurso Custo horário
Corte laser (máquina) 45,00 €/h
Quinadora CNC 38,00 €/h
Furadora 18,00 €/h
Soldador MIG/MAG 14,50 €/h
Operador (rebarbagem) 11,80 €/h
Cabine de pintura 22,00 €/h
Controlador de qualidade 13,20 €/h

Exemplo resolvido · custo da soldadura:

Tempo: 6,0 min = 0,10 h
Custo horário: 14,50 €/h
Custo = 0,10 × 14,50 = 1,45 €

Repetindo o cálculo para as sete atividades e somando, obtém-se o custo operacional total por peça do suporte metálico: 8,08 €. O custo horário de uma máquina inclui amortização, energia e manutenção · não é apenas o "salário" de quem a opera, e não se deve confundir custo horário de mão de obra com custo horário de equipamento.

O suporte consome 1,3 kg de chapa S275JR a 1,10 €/kg: 1,43 € de material. Juntando ao custo operacional, o custo variável do suporte (operação + material) é 8,08 + 1,43 ≈ 9,50 €/peça, o valor de base usado no resto deste capítulo · falta ainda somar o indireto rateado, calculado a seguir, para chegar ao custo de fabrico total.

4. Custeio industrial: categorias de custos

Custos diretos e custos indiretos

O custeio industrial organiza os custos consoante conseguem, ou não, ser atribuídos diretamente a uma peça ou encomenda específica.

Os custos indiretos rateiam-se: distribuem-se pelas peças segundo um critério, tipicamente horas-máquina, horas-homem, ou uma percentagem sobre o custo direto.

Exemplo resolvido · ratear custos indiretos

A fábrica tem 8 000 €/mês de custos indiretos e produz 2 000 horas-máquina/mês.

Taxa de rateio = Custos indiretos / Horas-máquina = 8 000 / 2 000 = 4,00 €/h-máquina

O suporte metálico consome 7,0 minutos de máquinas (laser + quinadora + furadora) = 0,117 h.

Indireto por peça = 0,117 × 4,00 = 0,47 €

Este valor soma-se ao custo variável (9,50 €) para chegar ao custo de fabrico total da peça: 9,50 + 0,47 ≈ 9,97 €. Se a fábrica produzir menos horas-máquina num mês fraco, a taxa de rateio sobe, porque os mesmos custos fixos se dividem por menos horas · um efeito que explica muitas vezes um custo "estranhamente alto" em meses de menor atividade.

Custos fixos, variáveis e semi-variáveis

Outra classificação de custos, ortogonal a direto/indireto, olha para a sua relação com o volume de produção:

Um erro frequente é confundir "custo indireto" com "custo fixo": a energia da fábrica é indireta (não se atribui a uma peça específica) mas parcialmente variável (mais horas-máquina, mais consumo). Direto/indireto é sobre a quem se atribui; fixo/variável é sobre o que faz o custo mudar.

Exemplo resolvido · o ponto crítico de uma encomenda

O ponto crítico (break-even) é a quantidade de peças a partir da qual a encomenda deixa de dar prejuízo.

Dados do suporte metálico: custo fixo da encomenda (preparação de máquinas, programação CNC) 120 €; custo variável por peça 9,50 €; preço de mercado 13,00 €/peça.

Q crítico = Custo fixo / (Preço  Custo variável) = 120 / (13,00  9,50) = 120 / 3,50  35 peças

Abaixo de 35 peças, a encomenda dá prejuízo; a partir daí, cada peça extra gera 3,50 € de margem. Aceitar uma encomenda pequena ao preço "normal" sem verificar o ponto crítico é um dos erros mais comuns na orçamentação de encomendas curtas.

5. Métodos de orçamentação e fatores de custo

Métodos de orçamentar um trabalho

Método Como funciona Quando usar
Ascendente (bottom-up) soma o custo de cada atividade decomposta peça nova, sem histórico
Analógico compara com uma peça semelhante já orçamentada peça parecida a outra conhecida
Paramétrico usa uma fórmula com parâmetros (€/kg, €/hora, €/m²) famílias de peças com padrão claro
Por três pontos (PERT) pondera cenário otimista, pessimista e provável encomendas com incerteza no processo

O método ascendente é o mais rigoroso, mas mais lento; os restantes ganham velocidade ao custo de alguma precisão. A escolha certa depende de haver, ou não, histórico fiável e de quanto vale o rigor extra para aquela encomenda.

Exemplo resolvido · orçamentação paramétrica

Uma serralharia calibrou, com o histórico, um custo paramétrico de 3,20 €/kg para estruturas soldadas simples em aço ao carbono (inclui material, mão de obra e indiretos).

Estrutura de 86 kg: Custo estimado = 86 × 3,20 = 275,20 €

Este método serve para uma primeira proposta rápida; se a encomenda avançar, confirma-se com o método ascendente. O parâmetro só é fiável se calibrado com peças realmente semelhantes · usá-lo numa peça com soldadura muito mais complexa subestima o custo real.

Fatores de custo na produção industrial

Vários fatores, além do óbvio "material e horas", fazem o custo subir ou descer:

Exemplo resolvido · o efeito da série no custo

Duas encomendas do mesmo suporte metálico, com séries diferentes:

Série de 20 peças Série de 200 peças
Custo fixo de preparação 120 € 120 €
Custo fixo por peça 6,00 € 0,60 €
Custo variável por peça 9,50 € 9,50 €
Custo total por peça 15,50 € 10,10 €

O mesmo produto, o mesmo processo · a diluição do custo fixo de preparação faz o custo por peça baixar quase 35% entre as duas séries. Propor o mesmo preço unitário independentemente da quantidade encomendada faz a empresa perder competitividade em séries grandes ou dinheiro em séries pequenas.

6. Aplicações informáticas e margens de rentabilidade

Ferramentas informáticas para custear e orçamentar

Na prática, este trabalho raramente se faz totalmente à mão:

A ferramenta não substitui o raciocínio dos capítulos anteriores · automatiza-o. Um mau critério de rateio numa folha de Excel dá um mau resultado à mesma; confiar cegamente num software sem validar os parâmetros de entrada é um erro comum.

Um template mínimo e reutilizável tem as colunas: atividade, recurso, tempo (min), custo horário, custo da atividade, material, indiretos (rateio), custo total, margem e preço de venda.

Margem e markup: dois conceitos que se confundem

Exemplo resolvido: peça com custo de 8,00 €, vendida a 10,00 €.

Margem = (10 − 8) / 10 = 20%
Markup = (10 − 8) / 8 = 25%

Este é um dos erros mais comuns em orçamentação: pedir "20% de margem" e calcular 20% sobre o custo (o que é markup), entregando um preço final abaixo do pretendido. Para chegar do custo ao preço com uma margem-alvo sobre o preço de venda, a fórmula correta é:

Preço = Custo / (1 − margem)

Indicadores financeiros e de rentabilidade

Indicador Fórmula Lê-se como
Margem bruta (Vendas − Custo de produção) / Vendas % que sobra depois do custo direto
Margem líquida Resultado líquido / Vendas % que sobra depois de todos os custos
ROI (retorno do investimento) Lucro / Investimento rentabilidade de um equipamento
Produtividade Unidades produzidas / horas trabalhadas eficiência da linha
Custo por hora-máquina Custos totais / horas-máquina base para orçamentar e ratear

Estes indicadores só são úteis se calculados com regularidade e comparados ao longo do tempo · olhar só para a margem de uma encomenda isolada esconde a saúde financeira global da empresa.

7. Elaborar o orçamento de uma encomenda

Do pedido do cliente ao orçamento

Uma encomenda de 300 suportes metálicos chega à empresa. O processo de orçamentação encadeia tudo o que já foi estudado:

  1. Ler o desenho e o caderno de encargos (material, tolerâncias, normas exigidas).
  2. Decompor o processo em atividades elementares.
  3. Estimar tempos de cada atividade.
  4. Calcular os custos diretos: material + mão de obra.
  5. Ratear os custos indiretos pelas horas-máquina/homem consumidas.
  6. Aplicar a margem-alvo para chegar ao preço de venda.
  7. Verificar o ponto crítico e a competitividade face ao mercado.

Exemplo resolvido · orçamento completo da encomenda

Dados: 300 suportes metálicos; custo variável 9,50 €/peça; custo fixo de preparação 120 €; margem-alvo 20% sobre o preço de venda.

Valor
Custo variável total (300 × 9,50 €) 2 850,00 €
Custo fixo de preparação 120,00 €
Custo total da encomenda 2 970,00 €
Custo por peça (2 970 / 300) 9,90 €
Preço por peça (9,90 ÷ 0,80, arredondado) 12,40 €
Valor total do orçamento (300 × 12,40 €) 3 720,00 €

O orçamento entregue ao cliente é 3 720,00 €, garantindo a margem definida pela gestão. Este preço de 12,40 €/peça é o preço mínimo que assegura a margem-alvo de 20%, e não coincide com o preço de mercado de 13,00 €/peça usado no ponto crítico: um é calculado a partir do custo, o outro observa-se no mercado. Um erro comum é aplicar a margem só ao custo variável, esquecendo de incluir o custo fixo rateado antes de calcular o preço final.

8. Planeamento financeiro e orçamentos anuais

Definir objetivos orçamentais

O planeamento financeiro parte da estratégia da empresa para definir objetivos concretos que o orçamento tem de cumprir: objetivos de faturação, de margem mínima aceitável, de capacidade ocupada e de investimento. Estes objetivos vêm da gestão de topo, mas cabe ao técnico de planeamento traduzi-los em números por encomenda e por período · o orçamento não nasce do nada, nasce dos objetivos estratégicos.

Estruturar o orçamento anual

O orçamento anual organiza, mês a mês ou trimestre a trimestre, as previsões de produção, custos e proveitos:

Orçamento anual
 ├── Orçamento de vendas (unidades e valor, por período)
 ├── Orçamento de produção (unidades a fabricar, por período)
 ├── Orçamento de custos diretos (material e mão de obra)
 ├── Orçamento de custos indiretos (fixos e variáveis)
 └── Orçamento de investimento (equipamento, tecnologia)

Cada componente depende do anterior: sem orçamento de vendas não há orçamento de produção fundamentado. É revisto periodicamente, mas serve de referência ao longo de todo o ano.

Exemplo resolvido · orçamento anual de produção

Empresa que fabrica suportes metálicos para um cliente de mobiliário urbano, com sazonalidade marcada:

Trimestre Unidades previstas Custo unitário Custo trimestral
Q1 1 800 10,10 € 18 180 €
Q2 3 200 9,80 € 31 360 €
Q3 2 400 9,95 € 23 880 €
Q4 1 400 10,30 € 14 420 €
Total ano 8 800 87 840 €

Os custos unitários variam com o volume trimestral: no Q2, com mais volume, o custo fixo dilui-se melhor (efeito de série, ver capítulo 5). Usar sempre o mesmo custo unitário nos quatro trimestres, ignorando estas variações, é um erro comum que distorce o orçamento anual.

9. Procura, receitas e investimentos

Estimar a procura e projetar receitas

Antes de orçamentar a produção, é preciso estimar quanto o mercado vai comprar: pelo histórico de vendas, pela sazonalidade conhecida, por indicadores de mercado (encomendas em carteira, indicadores do setor) e por cenários · otimista, provável e pessimista, em vez de um único número fixo. A procura mal estimada é a causa mais comum de desvios orçamentais mais tarde.

Exemplo resolvido · custos e receitas projetados

Cenário provável para o próximo trimestre: 2 500 unidades, preço médio 6,80 €, custo unitário 5,15 €.

Valor
Receita projetada (2 500 × 6,80 €) 17 000,00 €
Custo projetado (2 500 × 5,15 €) 12 875,00 €
Resultado projetado 4 125,00 €
Margem projetada (4 125 / 17 000) 24,3%

Repetindo o cálculo para os cenários otimista e pessimista, a gestão conhece a amplitude de risco do trimestre, não apenas um número isolado · apresentar só o cenário provável esconde esse risco.

Avaliar investimentos em equipamento

Quando um equipamento se torna um gargalo ou está obsoleto, avalia-se o investimento com rigor: payback (tempo até o investimento se pagar), impacto na capacidade (horas-máquina extra libertadas), impacto no custo por peça e custos evitados (manutenção antiga, subcontratação).

Payback = Investimento / Poupança anual

Exemplo resolvido: uma quinadora CNC nova custa 32 000 € e reduz o tempo de quinagem de 2,0 para 1,2 min/peça, numa produção de 60 000 peças/ano.

Poupança de tempo = (2,0 − 1,2) × 60 000 = 48 000 min = 800 h/ano
Poupança anual = 800 × 38,00 €/h = 30 400 €/ano
Payback = 32 000 / 30 400 ≈ 1,05 ano

Um payback de pouco mais de um ano justifica, à partida, o investimento · desde que a vida útil esperada do equipamento seja bem superior a esse prazo. Um erro comum é decidir investir só porque o equipamento é "mais moderno", sem calcular o payback nem os custos de instalação e formação.

10. Desenvolver o orçamento da produção, executar e controlar

Do orçamento de encomenda ao orçamento da produção

O orçamento de encomenda responde a um cliente específico; o orçamento da produção olha para todas as encomendas e capacidades da fábrica num período: soma as necessidades de todas as encomendas confirmadas e previstas, verifica se a capacidade instalada (horas-máquina e horas-homem disponíveis) chega, identifica gargalos e decide se é preciso subcontratar, fazer horas extra ou investir.

Exemplo resolvido · verificar a capacidade

Mês com três encomendas confirmadas; capacidade da soldadura: 480 horas/mês.

Encomenda Horas de soldadura necessárias
Encomenda A (suportes) 180 h
Encomenda B (estruturas) 220 h
Encomenda C (grades) 140 h
Total necessário 540 h

Faltam 60 horas de soldadura. Opções: subcontratar 60 h, fazer horas extra, ou renegociar prazo com o cliente C. Aceitar as três encomendas por receio de perder clientes, sem verificar antes a capacidade instalada, atrasa entregas e prejudica a reputação da empresa.

Executar e monitorizar o orçamento

Aprovar um orçamento é só o início. A execução orçamental regista os custos reais, compara previsto vs realizado item a item, e identifica cedo os pontos onde o real se afasta do orçamentado. Sem esta monitorização contínua, o orçamento fica reduzido a um documento inicial sem efeito prático.

Exemplo resolvido · calcular e interpretar desvios

Desvio (%) = (Real − Previsto) / Previsto × 100
Categoria Previsto Real Desvio Desvio (%)
Matéria-prima 12 000 € 13 400 € +1 400 € +11,7%
Mão de obra direta 6 500 € 6 200 € −300 € −4,6%
Custos indiretos 4 000 € 4 050 € +50 € +1,3%

Um desvio positivo em custos é desfavorável; o desvio de mão de obra, negativo, é favorável (custou menos do que previsto). O maior cuidado deve ir para o desvio de matéria-prima, pelo peso e pela percentagem.

Propor ajustes

Identificado o desvio, o técnico propõe ajustes concretos: negociar preço com o fornecedor perante uma subida de matéria-prima, investigar se houve mais refugo do que previsto, rever o plano de corte (nesting) para reduzir desperdício, e incorporar o custo real nas próximas estimativas paramétricas. Analisar sem propor ajuste é meio trabalho · o referencial exige a proposta de ajuste, não apenas o diagnóstico.

Comunicar através de relatórios

O trabalho de custeio, orçamentação e controlo só tem impacto se for comunicado: relatórios de desvios, relatórios de margens por encomenda ou cliente, e um painel de indicadores acompanhado mês a mês.

Indicador Previsto Real Situação
Faturação 45 000 € 47 200 € favorável
Margem bruta 22% 20,1% atenção
Custo por hora-máquina 24,00 € 25,40 € atenção
Horas de soldadura ocupadas 90% 96% perto do limite

Este painel simples mostra à gestão, num relance, onde intervir: aqui, a subida do custo por hora-máquina explica a margem abaixo do previsto. Um relatório cheio de tabelas sem conclusão nem recomendação clara não ajuda ninguém a decidir a tempo.

Segurança e saúde no trabalho no custeio

A segurança e saúde no trabalho não é um custo à parte da produção: os equipamentos de proteção individual, a formação e a adaptação de máquinas entram no custeio como qualquer outra atividade, e os custos que evitam · paragem de produção, indemnizações, coimas · são normalmente muito maiores do que o investimento em prevenção. O planeamento de uma nova atividade deve incluir sempre o custo de conformidade com normas como a EN ISO 12100 (segurança de máquinas).

Erros comuns

Glossário

Síntese

Gerir custos e orçamentos, na indústria metalomecânica, é um ciclo que começa no desenho técnico e termina no relatório de desvios. Primeiro, decompõe-se o processo em atividades elementares e estimam-se tempos e custos de cada uma. Depois, categorizam-se os custos (diretos/indiretos, fixos/variáveis) e escolhe-se o método de orçamentação mais adequado. Segue-se o cálculo de margens e indicadores financeiros, distinguindo sempre margem de markup. Com esta base, elaboram-se orçamentos de encomendas e, alinhados com o planeamento financeiro da empresa, orçamentos anuais de produção, verificando sempre a capacidade instalada. Por fim, o orçamento executa-se e monitoriza-se, os desvios analisam-se e os ajustes propõem-se, comunicando tudo em relatórios claros que permitem à gestão decidir a tempo. Um técnico que domina este ciclo garante que cada encomenda, e a empresa no seu conjunto, mantêm a competitividade e o lucro.

Exercícios resolvidos

1. Uma peça tem custo operacional de 6,20 € e o cliente aceita pagar 8,50 €. Qual é a margem e qual é o markup?

Resolução: Margem = (8,50 − 6,20) / 8,50 = 2,30 / 8,50 ≈ 27,1%. Markup = (8,50 − 6,20) / 6,20 = 2,30 / 6,20 ≈ 37,1%. São valores diferentes porque têm bases de cálculo diferentes (preço vs custo).

2. Uma fábrica tem 6 000 €/mês de custos indiretos e produz 1 500 horas-máquina/mês. Uma peça consome 0,20 horas-máquina. Qual é o custo indireto dessa peça?

Resolução: Taxa de rateio = 6 000 / 1 500 = 4,00 €/h-máquina. Custo indireto da peça = 0,20 × 4,00 = 0,80 €.

3. Uma encomenda tem custo fixo de preparação de 200 € e custo variável de 3,50 €/peça, vendida a 6,00 €/peça. A que quantidade de peças a encomenda atinge o ponto crítico?

Resolução: Q crítico = 200 / (6,00 − 3,50) = 200 / 2,50 = 80 peças. Abaixo de 80 peças, a encomenda dá prejuízo.

4. Um investimento de 18 000 € numa nova máquina poupa 6 000 €/ano em custos operacionais. Qual é o payback?

Resolução: Payback = 18 000 / 6 000 = 3 anos. Se a vida útil do equipamento for bem superior a 3 anos, o investimento é justificável.

5. Uma categoria de custo estava orçamentada em 10 000 € e o valor real foi de 11 200 €. Calcula o desvio em valor e em percentagem, e diz se é favorável ou desfavorável.

Resolução: Desvio = 11 200 − 10 000 = +1 200 €. Desvio (%) = 1 200 / 10 000 × 100 = +12%. É um desvio desfavorável, porque o custo real ficou acima do previsto.

6. Uma empresa quer aplicar uma margem de 25% sobre o preço de venda a uma peça com custo total de 9,00 €. Qual deve ser o preço de venda?

Resolução: Preço = Custo / (1 − margem) = 9,00 / (1 − 0,25) = 9,00 / 0,75 = 12,00 €.