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UC · Unidade de Competência · UC01267

Sebenta · Programar e operar manualmente os centros de trabalho CNC para mobiliário e carpintaria (UC01267)

Do sistema CNC ao componente maquinado, eixos, zeramento, códigos G e M, execução e segurança
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili, T. Marcenaria e Carpintari ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a operar e programar manualmente um centro de trabalho com CNC (Comando Numérico Computorizado) aplicado à indústria de mobiliário e carpintaria. É a competência que transforma o desenho técnico de um componente (uma prateleira, uma lateral de armário, uma perna torneada) numa peça real, maquinada com rigor e repetida sem variação de peça para peça.

O título da unidade tem dois verbos e ambos contam. Programar quer dizer escrever e, sobretudo, editar programas simples diretamente na máquina, em código ISO (códigos G e M) ou no editor gráfico do comando. Operar manualmente quer dizer preparar a máquina com as próprias mãos: ligar e referenciar, montar e medir ferramentas, posicionar e fixar peças, definir o ponto zero, mover os eixos em modo manual, executar instruções em MDI, arrancar o programa em modo automático, acompanhar o corte, ajustar avanço e rotação e responder aos alarmes. Não é uma unidade de CAD/CAM: o programa nasce ou é corrigido junto à máquina, para componentes simples.

O percurso segue a ordem em que um profissional aprende a máquina: primeiro conhecer o sistema CNC e as máquinas do setor, depois os equipamentos e redes de apoio e as unidades em que se leem os seus valores, a seguir o plano de trabalho, as mesas e a fixação, o sistema de eixos, coordenadas e ângulos, a simbologia e o HMI, os modos de operação, o setup com os pontos zero, o modo manual e o MDI, a programação em código ISO e em modo gráfico, a edição e gravação, as velocidades de corte e avanço, a execução em modo automático, os alarmes e, por fim, a segurança, a saúde e a qualidade.

Objetivos de aprendizagem (referencial): operar máquinas-ferramentas e centros de trabalho com CNC para mobiliário e carpintaria; operar os equipamentos e redes de apoio necessários ao seu funcionamento; e programar nessas máquinas a maquinagem de componentes simples, aplicando os procedimentos de operação e cumprindo as normas de segurança e saúde no trabalho.

Cada máquina tem o seu comando, o seu editor e os seus menus. Esta sebenta ensina os princípios comuns a todas; o manual da máquina e o manual de programação do fabricante são sempre a referência final para a máquina concreta da tua oficina.

1. O comando numérico computorizado (CNC)

O que é o CNC

Um sistema CNC é um computador dedicado que comanda os movimentos de uma máquina-ferramenta a partir de instruções numéricas: coordenadas de posição, velocidades de avanço, velocidade de rotação da ferramenta e funções auxiliares (ligar o fuso, trocar a ferramenta, ligar a aspiração). Em vez de um operador rodar manivelas e ler escalas, o comando calcula a trajetória e manda os motores de cada eixo deslocarem-se, em simultâneo e de forma coordenada, até às posições pedidas.

O comando numérico nasceu na indústria metalomecânica, a meio do século XX, com máquinas que liam os programas em fita perfurada (NC, comando numérico). Com a entrada do microprocessador, o comando passou a ser um computador com memória, ecrã e teclado: o CNC. Na madeira e no mobiliário, a CNC generalizou-se com as fresadoras de painel (routers), os centros de trabalho e as multifuradoras, e hoje está presente desde a pequena marcenaria até às linhas de produção de mobiliário em série.

As vantagens que justificam o investimento são sempre as mesmas:

Vantagem O que significa na oficina
Repetibilidade a peça 1 e a peça 500 saem iguais, porque seguem o mesmo programa
Precisão de posição furos e contornos no sítio certo, sem marcação à mão
Geometrias complexas arcos, curvas e contornos que à mão exigiriam moldes e muito tempo
Flexibilidade muda-se de peça trocando de programa, não de máquina
Menos erro humano as cotas não dependem de o operador ler bem uma escala
Registo o programa guarda o conhecimento do processo e pode ser reutilizado

CNC e outras máquinas com automatismos digitais

Hoje quase todas as máquinas de uma oficina têm eletrónica: uma orladora com autómato, uma seccionadora com batente programável, uma prensa com temporizador digital. Nem todas são máquinas com CNC. A distinção faz-se pelo que o comando controla:

Critério Máquina com automatismo digital Máquina-ferramenta com CNC
O que se programa uma sequência de passos, tempos ou uma cota de batente a trajetória da ferramenta, ponto a ponto, em coordenadas
Eixos um eixo posicionado de cada vez, ou nenhum vários eixos comandados em simultâneo e interpolados
Controlador típico autómato programável (PLC), temporizador, relés comando numérico com interpolador, mais o PLC da máquina
Exemplo orladora que cola e apara a orla em sequência fixa fresadora que corta um arco combinando X e Y ao mesmo tempo

O critério decisivo é a interpolação: a CNC calcula os pontos intermédios de uma reta ou de um arco e coordena os motores de dois ou mais eixos para que a ferramenta siga essa trajetória com a velocidade de avanço programada. Um batente que se posiciona sozinho numa cota é um automatismo útil, mas não é comando numérico de trajetória.

Uma seccionadora de painéis com empurrador programável recebe uma lista de corte e posiciona o painel em cada cota: é um equipamento automatizado com posicionamento numérico de um eixo, mas o corte é sempre uma linha reta feita pela serra. Uma fresadora CNC que recorta o tampo curvo de uma mesa move X e Y ao mesmo tempo, com o comando a calcular o arco: aqui há interpolação, é uma máquina-ferramenta com CNC no sentido pleno.

Elementos constituintes do sistema CNC

O "sistema CNC" não é só o ecrã. É uma cadeia de elementos que vai do programa até ao movimento real da ferramenta:

  1. Programa: a sequência de instruções (blocos) que descreve o trabalho. Chega à máquina por rede, por memória USB ou é escrito no próprio comando.
  2. Unidade de comando (o "CN" propriamente dito): o computador que lê o programa, interpreta cada bloco, calcula as trajetórias (interpolador) e envia ordens de posição a cada eixo. Guarda também as tabelas de ferramentas e de origens.
  3. Interface homem-máquina (HMI): ecrã, teclado, botões e volante por onde o operador vê o estado da máquina e dá ordens.
  4. Autómato da máquina (PLC): gere as funções lógicas: portas e proteções, trocador de ferramentas, vácuo, ar comprimido, aspiração, lubrificação, sinais de segurança. As funções M do programa passam em grande parte por ele.
  5. Acionamentos (drives) e motores dos eixos: normalmente servomotores, que convertem as ordens do comando em movimento, através de cremalheiras, fusos de esferas ou correias.
  6. Sistema de medição: codificadores (encoders) nos motores ou réguas nos eixos, que medem a posição real e a devolvem ao comando. O comando compara a posição pedida com a posição medida e corrige a diferença: é o funcionamento em malha fechada.
  7. Motor do fuso e respetivo variador: dão à ferramenta a velocidade de rotação programada (S).
PROGRAMA → UNIDADE DE COMANDO (interpola) → DRIVES → MOTORES → EIXOS → FERRAMENTA
                 ↑                                              │
                 └───────── medição da posição (encoders) ──────┘

Quando um eixo não consegue chegar à posição pedida (por colisão, por esforço excessivo ou por avaria), a diferença entre a posição pedida e a medida cresce e o comando dispara um alarme de erro de seguimento e para. É uma proteção, não um incómodo: nunca se tenta "forçar" o eixo a continuar.

2. Máquinas-ferramentas com CNC para mobiliário e carpintaria

A indústria de madeira, mobiliário e carpintaria usa várias famílias de máquinas-ferramentas com CNC. O referencial destaca cinco:

Máquina Como trabalha Operações típicas Exemplo de componente
Fresadora CNC (router) ferramenta rotativa num eletrofuso vertical, que se desloca em X, Y e Z sobre uma mesa corte de contornos, fresagem de rebaixos e ranhuras, furação vertical, gravação tampos, portas lacadas com frisos, peças recortadas em painel
Multifuradora cabeça com várias brocas em linha, que furam em simultâneo ou ponto a ponto furação de face e de topo para cavilhas, excêntricos e suportes de prateleira laterais e prateleiras de móveis de caixa
Torno CNC a peça roda entre pontos e a ferramenta desloca-se ao longo e na perpendicular do eixo de rotação torneamento de perfis de revolução pernas de mesa e de cadeira, colunas, balaústres, puxadores
Centro de trabalho multifunções router com vários grupos: eletrofuso com trocador de ferramentas, cabeça de furação vertical e horizontal, serra, agregados angulares e, em alguns, cabeça de 5 eixos todas as anteriores na mesma fixação, incluindo furação de topo laterais com furação de face e de topo, portas, peças de carpintaria
Corte e gravação a laser feixe de luz concentrado que vaporiza e queima o material, sem contacto nem esforço de corte corte fino de chapas finas, gravação de superfícies marcações, logótipos, embutidos, decoração em contraplacado fino

Na prática, as designações cruzam-se: muitas fresadoras CNC de oficina já têm cabeça de furação e trocador de ferramentas, e o fabricante chama-lhes "centro de trabalho". O que interessa é saber que grupos operadores a máquina tem, porque é isso que decide que operações consegue fazer.

Muitos centros de trabalho para mobiliário (Biesse, SCM, Homag, entre outros) não se programam em ISO puro no dia a dia: usam um software de programação próprio do fabricante, gráfico e paramétrico, que no fim gera o código que o comando executa. O código ISO continua a ser a base comum e o que se aprende aqui transfere-se, mas os nomes dos comandos, dos ciclos e dos menus são os do manual de cada fabricante.

O laser: um caso à parte

A máquina de corte e gravação a laser é CNC (tem eixos X e Y comandados e interpolados), mas a "ferramenta" é um feixe de luz. Não há rotação nem avanço por dente: os parâmetros são a potência do laser (em percentagem da potência nominal, que se exprime em watts) e a velocidade de deslocamento. Como o feixe queima o material, o corte deixa a aresta escurecida, produz fumos que têm de ser extraídos e há risco de incêndio: nunca se deixa uma máquina laser a trabalhar sem vigilância. Os lasers usados nestas máquinas são de classe perigosa para os olhos; a proteção vem da cabine fechada da máquina, que nunca se abre nem se anula durante o funcionamento.

Componentes, operações e máquinas

A escolha da máquina parte do componente e das operações que ele exige:

Componente Operações necessárias Máquina mais adequada
Prateleira de móvel de caixa esquadrejar, furação de topo para cavilhas multifuradora ou centro de trabalho com furação horizontal
Lateral de roupeiro furação de face para suportes e dobradiças, ranhura para costas centro de trabalho, ou multifuradora mais router
Tampo de mesa curvo contorno curvo, perfil na aresta fresadora CNC ou centro de trabalho
Painel dividido em várias peças (nesting) corte de todas as peças de uma chapa, furação vertical fresadora CNC com mesa plana (nesting)
Perna torneada perfil de revolução torno CNC
Porta com friso decorativo fresagem de friso, gravação fresadora CNC ou centro de trabalho
Placa gravada com logótipo gravação superficial laser ou fresadora com fresa de gravar

Exemplo resolvido: que máquinas para um móvel de cozinha

Uma marcenaria vai produzir 30 móveis baixos de cozinha em aglomerado revestido de 18 mm. Cada móvel tem duas laterais, uma base, uma prateleira e uma porta.

  1. Laterais: precisam de furos de face para as cavilhas, para os suportes de prateleira e para as bases das dobradiças, e de uma ranhura para as costas. Face e ranhura: centro de trabalho (ou router com cabeça de furação).
  2. Base e prateleira: precisam de furos de topo para cavilhas. Furação horizontal: multifuradora ou centro de trabalho com brocas horizontais.
  3. Porta: precisa de furos de copa das dobradiças na face interior. Furação de face de maior diâmetro: centro de trabalho ou multifuradora com mandril adequado.
  4. Conclusão: com um centro de trabalho que tenha furação vertical, horizontal e fresagem, todas as peças passam pela mesma máquina, peça a peça. Se a série crescer, faz sentido separar: nesting numa fresadora para cortar e furar as faces a partir da chapa, e multifuradora só para a furação de topo.

3. Elementos constituintes de uma máquina-ferramenta com CNC

Seja qual for a família, uma máquina-ferramenta com CNC para madeira reúne os mesmos elementos, com nomes que vais encontrar no manual:

Elemento Função O que o operador verifica
Estrutura (base, montantes, pórtico ou ponte) sustenta tudo e absorve as vibrações do corte nada solto, sem pancadas visíveis
Mesa de trabalho suporta e fixa as peças; define o plano de trabalho limpa, sem aparas, ventosas e batentes em bom estado
Guias lineares e patins guiam o movimento de cada eixo limpeza e lubrificação segundo o plano de manutenção
Transmissões (cremalheiras, fusos de esferas, correias) transformam a rotação dos motores em deslocamento ruídos anómalos, folgas
Servomotores e acionamentos movem cada eixo à posição pedida alarmes de eixo
Grupo operador conjunto que corta: eletrofuso, cabeça de furação, serra, agregados ferramentas bem apertadas, sentido de rotação correto
Eletrofuso motor que faz rodar a ferramenta de fresar à rotação S aquecimento, vibração, ruído
Porta-ferramentas (cones) ligam a ferramenta ao fuso; muitas máquinas de madeira usam cones normalizados de encaixe rápido, como os HSK cone limpo, pinça adequada ao diâmetro da haste
Armazém e trocador de ferramentas guardam as ferramentas e trocam-nas por programa cada ferramenta na posição registada na tabela
Proteções e dispositivos de segurança resguardos, cortinas, tapetes sensíveis, barreiras fotoelétricas, fins de curso nada anulado, nada tapado
Armário elétrico contém o comando, os acionamentos, o PLC e as proteções elétricas fechado, ventilação a funcionar
Painel de operação (HMI) e comando portátil por onde se opera: ecrã, teclado, botões, volante eletrónico botão de emergência acessível
Ligações às redes de apoio eletricidade, ar comprimido, vácuo, aspiração, dados manómetro, vacuómetro, registo da aspiração aberto

Antes de ligar uma máquina nova pela primeira vez, percorre-a fisicamente com o manual na mão e identifica cada elemento desta tabela. Não confundas o painel de operação (a interface) com o comando numérico (o computador que está no armário elétrico ou atrás do painel).

4. Equipamentos e redes de apoio

Uma máquina CNC não trabalha isolada. Precisa de equipamentos e redes que a alimentam e que, se falharem, a impedem de trabalhar em segurança. Operar estes equipamentos faz parte da competência do operador, tal como operar a própria máquina.

Rede ou equipamento Para que serve Elementos que o operador encontra
Rede elétrica alimenta motores, comando, bombas e periféricos interruptor geral da máquina, disjuntores no quadro, sinalização de tensão
Ar comprimido aciona grampos e ventosas pneumáticas, a subida e descida de batentes e grupos, a troca de ferramenta, os sopros de limpeza compressor, reservatório, secador, rede de tubagem, unidade de tratamento à entrada da máquina (filtro, regulador de pressão, manómetro)
Vácuo segura as peças à mesa por depressão bomba de vácuo, vacuómetro, válvulas que abrem cada zona ou ventosa, filtros
Aspiração de pó e aparas retira as aparas e o pó na origem, junto à ferramenta coifa de aspiração no grupo operador, registos (comportas) da rede, sistema central com filtro e silo
Rede de dados leva os programas do gabinete técnico até à máquina ligação de rede, memória USB, pasta partilhada de programas
Iluminação e envolvente ver bem a zona de trabalho e os comandos iluminação da área, caminhos livres, sinalização de segurança

Sequência de arranque das redes de apoio

A ordem que se segue antes de ligar a máquina é, na generalidade das oficinas, esta (a instrução de trabalho da tua empresa manda):

  1. Confirmar que a zona está livre e que ninguém está a intervir na máquina (manutenção, limpeza).
  2. Ligar o compressor (ou confirmar que a rede geral tem pressão) e ler o manómetro da unidade de tratamento à entrada da máquina: tem de estar dentro do valor indicado no manual.
  3. Purgar a água condensada do filtro, se a instrução de trabalho o pedir.
  4. Ligar o interruptor geral da máquina e esperar que o comando arranque.
  5. Ligar a aspiração e abrir o registo da conduta desta máquina.
  6. Ligar a bomba de vácuo quando for necessária para fixar as peças e confirmar o valor no vacuómetro.
  7. Só depois referenciar a máquina (ver capítulo 13) e começar a trabalhar.

No fim do turno, faz-se o inverso: parar o programa, retirar as peças, desligar vácuo, aspiração, máquina e, se for essa a regra da oficina, o compressor.

Muitas máquinas só deixam arrancar o fuso se receberem o sinal de que a aspiração está ligada, e só deixam arrancar o programa se a pressão de ar e o vácuo estiverem acima de um mínimo. Nunca se anulam estes sinais (por exemplo, fechando a comporta de um sensor): existem para impedir que uma peça se solte ou que o operador respire pó.

5. Unidades de medida e valores de referência

Ler os valores do HMI, do manómetro, do vacuómetro e da chapa de características da máquina exige dominar as unidades. O Sistema Internacional (SI) é a referência, mas na oficina aparecem também unidades práticas, como o bar e as rotações por minuto.

Grandeza Unidade habitual na oficina Relação com o SI e notas
Posição e deslocamento milímetro (mm) 1 m = 1000 mm; algumas máquinas podem trabalhar em polegadas (1 in = 25,4 mm)
Velocidade de avanço (F) milímetros por minuto (mm/min) ou metros por minuto (m/min) 1 m/min = 1000 mm/min; confirma sempre qual das duas o teu comando usa
Velocidade de rotação do fuso (S) rotações por minuto (rpm, ou min⁻¹) frequência de rotação
Velocidade de corte (vc) metros por minuto (m/min) velocidade do gume da ferramenta (capítulo 17)
Ângulos graus (°) uma volta completa tem 360°
Pressão do ar comprimido bar 1 bar = 100 kPa = 100 000 Pa; em manómetros estrangeiros aparece em psi (1 bar ≈ 14,5 psi)
Vácuo (depressão) bar, mbar ou kPa, em relação à pressão atmosférica lê-se como "menos X bar" ou como percentagem de vácuo; o manual diz qual
Tensão elétrica volt (V) a rede industrial em Portugal é trifásica 400 V, com 230 V entre fase e neutro, a 50 Hz
Corrente elétrica ampere (A) aparece nos disjuntores e na chapa de características
Potência quilowatt (kW) a potência do eletrofuso e da bomba de vácuo vem em kW
Frequência hertz (Hz) frequência da rede; nos eletrofusos, o variador altera a frequência para mudar a rotação

Valores de referência

Os valores de referência são os valores dentro dos quais a máquina foi projetada para trabalhar: pressão de ar mínima e máxima, vácuo mínimo para iniciar o ciclo, rotação máxima do fuso, rotação máxima de cada ferramenta, tensão de alimentação, cursos dos eixos. Vêm de três fontes, por esta ordem de autoridade:

  1. Manual e chapa de características da máquina (redes: eletricidade, ar, vácuo; cursos; rotação máxima do fuso).
  2. Dados do fabricante da ferramenta (rotação máxima da ferramenta, gravada muitas vezes na própria haste ou corpo; velocidades de corte recomendadas).
  3. Instruções de trabalho da empresa (valores já testados para cada peça e material).

Para o ar comprimido, as máquinas de oficina trabalham tipicamente com uma pressão da ordem dos 6 bar, mas o valor certo, e o mínimo abaixo do qual a máquina para, é o que o fabricante indica. Para o vácuo, cada fabricante indica o vácuo mínimo para a mesa segurar a peça; abaixo dele, o comando não deixa arrancar ou para o ciclo.

Confirma sempre a unidade ativa no comando (milímetros ou polegadas) antes de programar ou de mover eixos por MDI. Um valor de 10 lido como polegadas vale 254 mm: o suficiente para mandar a ferramenta para fora da peça, contra um batente ou contra a mesa.

Exemplo resolvido: a força com que uma ventosa segura a peça

Uma ventosa retangular tem 120 mm × 50 mm de área útil de sucção. O vacuómetro indica uma depressão de 0,8 bar (a pressão sob a ventosa está 0,8 bar abaixo da atmosférica). Com que força é que o ar exterior prende a peça contra a ventosa?

  1. Área em m²: 120 mm × 50 mm = 6000 mm² = 6000 / 1 000 000 m² = 0,006 m².
  2. Depressão em pascal: 0,8 bar × 100 000 Pa/bar = 80 000 Pa (80 kPa).
  3. Força: F = p × A = 80 000 Pa × 0,006 m² = 480 N, o equivalente ao peso de uma massa de cerca de 49 kg (480 / 9,81).
  4. Se o vácuo cair para 0,4 bar (por uma fuga), a força cai para metade: 240 N. E se a ventosa ficar meio descoberta, a fuga faz cair o vácuo de toda a zona.

Conclusão: a força de fixação depende do vácuo e da área de sucção. Peças pequenas têm pouca área, logo pouca força, e um esforço de corte lateral pode arrastá-las. Por isso o vacuómetro não é decoração: é um instrumento de segurança.

Exemplo resolvido: converter unidades de avanço e pressão

O manual de uma ferramenta recomenda um avanço de 6 m/min, mas o programa usa F em mm/min. O manómetro de uma máquina importada mostra 87 psi.

  1. Avanço: 6 m/min × 1000 = F6000 (mm/min).
  2. Pressão: 87 psi / 14,5 ≈ 6,0 bar.

6. O plano de trabalho principal: a mesa da máquina

O plano de trabalho principal é a superfície da mesa da máquina, onde as peças são posicionadas e maquinadas. Nos centros de trabalho de mobiliário é um plano horizontal, e corresponde ao plano XY do sistema de eixos (capítulo 8): é sobre ele que se desenham os contornos e os furos das peças planas.

Analisar o plano de trabalho é responder a quatro perguntas antes de preparar qualquer peça:

  1. Área útil: qual é o comprimento (X) e a largura (Y) máximos de peça que a máquina aceita? Vem no manual e depende também dos cursos dos eixos e do diâmetro das ferramentas.
  2. Altura de passagem: qual é a espessura máxima de peça (mais a altura da ventosa ou do painel de sacrifício) que passa por baixo do grupo operador?
  3. Referências físicas: onde estão os batentes (encostos) de referência, que definem a posição da peça em X e Y, e a que origem do programa correspondem?
  4. Zonas de trabalho: a mesa está dividida em zonas (por exemplo, esquerda e direita) para trabalhar em pêndulo, preparando uma peça numa zona enquanto a máquina maquina na outra?

O estado do plano de trabalho afeta diretamente a qualidade: uma apara debaixo de uma ventosa faz fugir o vácuo; um painel de sacrifício desgastado desnivela a peça e a profundidade das fresagens varia; um batente mal recolhido pode ser atingido pela ferramenta.

Uma máquina tem área útil de 3100 mm × 1300 mm e duas zonas de trabalho com batentes independentes. Uma lateral de roupeiro de 2400 mm × 580 mm cabe numa só zona? Não: 2400 mm é mais de metade de 3100 mm, por isso ocupa as duas zonas e não se pode trabalhar em pêndulo. Uma prateleira de 800 mm × 400 mm cabe folgadamente numa zona, e enquanto a máquina a maquina, o operador prepara a seguinte na outra.

7. Tipos de mesa e sistemas de fixação de peças

A peça tem de ficar imóvel durante todo o programa, contra o esforço de corte da ferramenta. Nos centros de trabalho para mobiliário há dois grandes tipos de mesa, e sistemas complementares:

Tipo de mesa Como fixa a peça Uso típico Cuidados
Mesa de barras (consolas) com ventosas barras móveis em X, com ventosas de vácuo posicionadas em Y; a peça assenta nas ventosas, afastada da mesa peças já esquadrejadas, que precisam de furação de topo e fresagem de contorno em todo o perímetro as ventosas não podem ficar no caminho da ferramenta; a ventosa tem de ficar totalmente coberta pela peça
Barras com grampos pneumáticos ou mecânicos grampos que apertam a peça, montados nas barras peças estreitas ou de madeira maciça, pouco adequadas ao vácuo (caixilharia, pernas, travessas) o grampo não pode interferir com o percurso; aperto confirmado antes do arranque
Mesa plana (alveolar ou multizona) de vácuo, para nesting chapa inteira assente sobre um painel de sacrifício (normalmente MDF) que deixa passar o vácuo; a mesa aspira através dele cortar todas as peças de uma chapa (nesting), com furação e fresagem de face a ferramenta corta ligeiramente o painel de sacrifício para atravessar a peça; este desgasta-se e tem de ser aplanado ou substituído
Gabaritos (moldes) com vácuo um molde próprio da peça, com juntas de vedação, montado sobre a mesa séries de peças com forma especial, peças curvas cada gabarito é identificado e montado sempre na mesma posição

Os batentes (encostos que sobem da mesa) não fixam: posicionam. A peça encosta aos batentes para ficar numa posição conhecida, e só depois o vácuo ou os grampos a prendem. Na maior parte das máquinas, os batentes descem automaticamente antes de a ferramenta passar por essa zona.

Uma peça pequena tem pouca área de sucção e é arrancada com facilidade. Numa mesa de nesting, as peças pequenas são as últimas a soltar-se da chapa e as mais sujeitas a sair projetadas. Os remédios são de processo: cortar as peças pequenas primeiro, deixar uma película fina de material no último passe, ou pequenas pontes que se cortam depois, e reduzir o avanço no passe final. Nunca se segura uma peça à mão.

Exemplo resolvido: escolher o sistema de fixação certo

Uma oficina tem de maquinar três trabalhos numa máquina que tem mesa de barras com ventosas e, noutra máquina, mesa plana de nesting.

Trabalho A. 20 prateleiras iguais, já esquadrejadas na seccionadora, 800 mm × 350 mm, em aglomerado revestido de 18 mm, com quatro furos de topo para cavilhas em cada extremo.

  1. Precisam de furação de topo: a broca horizontal tem de chegar à aresta da peça, por isso a peça não pode estar assente numa mesa plana encostada a tudo.
  2. A peça é plana e tem boa área: ventosas chegam para a segurar.
  3. Solução: mesa de barras com ventosas, com as ventosas posicionadas longe das arestas onde a broca entra, e peça encostada aos batentes.

Trabalho B. Cortar numa chapa de 2800 mm × 2070 mm todas as peças de um roupeiro, com furos de face.

  1. Todas as peças saem da mesma chapa: é nesting.
  2. Solução: mesa plana de vácuo com painel de sacrifício, corte das peças pequenas em primeiro lugar e passe final com película ou avanço reduzido.

Trabalho C. Travessas de pinho maciço de 45 mm × 70 mm × 900 mm, com respigas nos topos.

  1. Peça estreita: a área de ventosa disponível é pequena e o esforço de fresar a respiga é grande.
  2. Solução: grampos pneumáticos nas barras, com a peça encostada aos batentes.

8. Sistema de eixos de movimento: eixos lineares e angulares

O movimento da ferramenta em relação à peça descreve-se com um sistema de eixos normalizado. A norma internacional de referência (ISO 841) usa um sistema de coordenadas cartesianas de mão direita, com estas regras:

              Z+ (sobe, afasta-se da peça)
              │
              │     Y+ (para o fundo da mesa)
              │    ╱
              │   ╱
              │  ╱
              │ ╱
              └──────────────── X+ (ao longo da mesa)
           origem

A orientação física dos eixos numa máquina concreta (para que lado é X+, onde fica Y+) é definida pelo fabricante respeitando a regra da mão direita. Confirma-a sempre na tua máquina, movendo cada eixo em modo manual a baixa velocidade e observando para que lado vai.

Eixos de movimento linear e de movimento angular

Tipo Eixos O que fazem
Lineares X, Y, Z deslocamento em linha reta, medido em mm
Angulares (rotativos) A, B, C rotação em torno de X, de Y e de Z, respetivamente, medida em graus

O sentido positivo de cada eixo rotativo segue também a regra da mão direita: com o polegar a apontar o sentido positivo do eixo linear (por exemplo X+), os outros dedos, ao fecharem, indicam o sentido positivo da rotação em torno dele (A+).

O número de eixos de uma máquina diz o que ela consegue fazer:

Configuração Eixos comandados Aplicação no mobiliário
3 eixos X, Y, Z a grande maioria das peças planas: contornos, rebaixos, ranhuras, furação vertical
4 eixos X, Y, Z mais um rotativo (muitas vezes C, a rodar em torno do eixo vertical) orientar um agregado ou uma serra em qualquer direção do plano
5 eixos X, Y, Z mais dois rotativos inclinar a ferramenta em relação à peça: chanfros, furos inclinados, peças de cadeira e de escadas

Nos tornos CNC a lógica é a mesma, adaptada: o eixo Z é o eixo de rotação da peça, e o X é o que aproxima e afasta a ferramenta desse eixo.

Os centros de trabalho de mobiliário têm ainda eixos e movimentos auxiliares: subida e descida das brocas da cabeça de furação, batentes, trocador de ferramentas. Não são eixos de trajetória, são movimentos comandados pelo PLC por funções do programa.

9. Coordenadas cartesianas da posição da ferramenta

A posição da ferramenta no espaço de trabalho descreve-se pelas suas coordenadas cartesianas (X, Y, Z), medidas a partir de uma origem. Em programação, a posição programada é a do ponto de referência da ferramenta: normalmente a ponta, no eixo de rotação.

Um ponto P (100, 50, -10), com a origem no canto da peça e Z0 na face superior, significa: 100 mm em X a partir do canto, 50 mm em Y a partir do canto, e a ponta da ferramenta 10 mm abaixo da face superior (dentro do material).

As coordenadas escrevem-se de duas maneiras:

Exemplo resolvido: absolutas e incrementais

A ferramenta está na origem (0, 0) e tem de passar pelos pontos de centro de quatro furos: P1 (37, 64), P2 (37, 96), P3 (37, 128) e P4 (37, 160).

Ponto Absolutas (G90) Incrementais (G91), a partir do ponto anterior
P1 X37 Y64 X37 Y64 (a partir da origem)
P2 X37 Y96 X0 Y32
P3 X37 Y128 X0 Y32
P4 X37 Y160 X0 Y32
  1. Em absolutas, cada linha diz onde está o furo em relação à origem.
  2. Em incrementais, cada linha diz quanto andar: de P1 para P2, 96 - 64 = 32 mm em Y e 0 em X.
  3. Verificação: somando os incrementos em Y, 64 + 32 + 32 + 32 = 160, que é a coordenada absoluta de P4. Bate certo.
  4. Os furos estão alinhados (X igual em todos) e igualmente espaçados de 32 mm, que é o passo usado na furação de suportes de prateleira de muitos móveis de caixa (o chamado sistema 32).

Exemplo resolvido: ler as coordenadas de um contorno

Uma peça retangular de 600 mm × 300 mm tem a origem no canto inferior esquerdo, Z0 na face superior. Quais são as coordenadas dos quatro cantos, percorridos no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio a partir da origem?

  1. Canto 1: (0, 0).
  2. Canto 2: (600, 0), ao longo de X.
  3. Canto 3: (600, 300).
  4. Canto 4: (0, 300), e regressa ao canto 1.
  5. Estas são as coordenadas da aresta da peça, não do centro da ferramenta. Para a ferramenta cortar por fora da peça, o seu centro tem de andar afastado de um raio: isso resolve-se com a compensação do raio (capítulo 15).

10. Ângulos de rotação da ferramenta

Nas operações correntes, a ferramenta trabalha perpendicular ao plano de trabalho: o seu eixo coincide com a normal ao plano (a reta perpendicular à mesa). Diz-se que a ferramenta está a .

O ângulo de rotação da ferramenta mede quanto o eixo da ferramenta se afasta dessa normal:

Ângulo em relação à normal Situação Como se consegue
fresagem e furação vertical correntes eletrofuso ou brocas verticais
90° furação e fresagem de topo (ferramenta horizontal) brocas horizontais da cabeça de furação, agregado angular, ou cabeça de 5 eixos
entre 0° e 90° chanfros, furos inclinados, cortes em ângulo cabeça de 5 eixos, ou agregado de ângulo regulável

Além da inclinação em relação à normal, interessa a orientação no plano: um agregado horizontal pode furar para X+, X-, Y+ ou Y-, e numa máquina com eixo C pode orientar-se em qualquer direção. Estes ângulos programam-se em graus, como mais uma coordenada, com a letra que o fabricante atribui ao eixo rotativo.

Um chanfro de 45° na aresta de um tampo pode fazer-se de duas formas: com uma fresa de chanfrar em V, com a ferramenta a 0° (o ângulo está na geometria da fresa), ou com uma fresa cilíndrica inclinada a 45° numa cabeça de 5 eixos. A primeira serve em qualquer máquina de 3 eixos; a segunda exige eixos angulares, mas permite qualquer ângulo sem trocar de fresa.

Exemplo resolvido: um furo inclinado

Uma broca inclinada 15° em relação à normal tem de furar 20 mm de comprimento (medido ao longo do eixo da broca). Qual é a profundidade vertical do furo e quanto se desloca a ponta, na horizontal, desde a entrada?

  1. Profundidade vertical = 20 × cos 15° = 20 × 0,966 = 19,3 mm.
  2. Deslocamento horizontal = 20 × sen 15° = 20 × 0,259 = 5,2 mm.
  3. Verificação: 19,3² + 5,2² = 372,5 + 27,0 = 399,5 ≈ 400 = 20². Bate certo.
  4. Consequência prática: num painel de 25 mm, um furo destes não fura a face oposta (19,3 mm < 25 mm), mas a ponta fica 5,2 mm ao lado do ponto de entrada, o que tem de ser previsto no desenho.

11. Simbologia das interfaces e o HMI

Simbologia

Os painéis de operação das máquinas, das bombas de vácuo, dos compressores e dos quadros elétricos usam símbolos gráficos em vez de palavras, para serem entendidos em qualquer língua. Muitos seguem normas internacionais de símbolos para equipamentos (por exemplo, IEC 60417 e ISO 7000), mas o desenho exato varia de fabricante para fabricante: o manual da máquina tem sempre a legenda dos símbolos daquele painel.

Símbolo ou comando (descrição) Função habitual Nota
Botão vermelho tipo cogumelo, sobre fundo amarelo paragem de emergência para tudo; rearmar exige rodar ou puxar o botão e fazer reset
Botão verde, muitas vezes com "I" ou triângulo arranque de ciclo (cycle start) inicia ou retoma o programa em modo automático ou MDI
Botão de pausa, muitas vezes com duas barras verticais suspensão do avanço (feed hold) os eixos param; o fuso pode continuar a rodar
Botão "O" ou quadrado parar ou desligar função exata no manual
Tecla "reset" anular o programa em curso ou reconhecer um alarme não resolve a causa do alarme
Setas com + e - e letra do eixo deslocação manual (jog) de cada eixo no sentido indicado só em modo manual
Símbolo de casa ou de referência referenciação ou ida ao ponto de referência ao ligar a máquina
Seletor rotativo com % override (correção percentual) do avanço, do rápido ou da rotação 100% é o valor programado
Ícone de bloco único execução bloco a bloco (single block) cada linha precisa de novo arranque
Símbolo de fuso com seta circular rotação do fuso no sentido horário ou anti-horário
Triângulo amarelo de aviso perigo genérico (sinal de aviso) ler o texto que o acompanha
Símbolo de ventoinha ou de conduta aspiração
Símbolo de ventosa ou com "vácuo" ligar ou desligar vácuo, por zona

A cor também é normalizada: o vermelho está reservado a paragem e emergência, o amarelo a aviso e condição anormal, o verde a arranque e condição normal, o azul a ação obrigatória.

Reconhecer estes símbolos sem hesitar é uma condição de segurança, não só de operação: o tempo até acionar a paragem de emergência tem de ser mínimo.

A paragem de emergência não é o botão para parar um programa no fim de uma peça. É para risco imediato para pessoas ou máquina. Para parar em condições normais usa-se o feed hold ou o reset, conforme o caso.

A interface homem-máquina (HMI)

O HMI (do inglês Human-Machine Interface, interface homem-máquina) é o conjunto de ecrã, teclado, botões, seletores e volante eletrónico por onde o operador dialoga com o comando. Um HMI típico tem estas áreas:

O desenho do HMI muda de fabricante para fabricante, mas a lógica é comum: aprender a encontrar estas áreas numa máquina acelera muito a aprendizagem da seguinte.

12. Modos de operação e programação

Uma máquina-ferramenta com CNC está sempre num modo de operação, escolhido no HMI. Os nomes variam, mas os modos são estes:

Modo Para que serve Exemplo de tarefa
Referenciação levar os eixos ao ponto de referência e estabelecer o zero máquina ao ligar a máquina
Manual (jog) mover os eixos livremente, com teclas ou volante aproximar a ferramenta da peça, medir, zerar
MDI (introdução manual de dados) escrever e executar uma ou poucas instruções, sem as gravar ligar o fuso a 18000 rpm, ir a uma posição exata
Programação (edição) escrever, editar e gravar programas, em modo texto ou gráfico alterar uma cota de um programa existente
Automático executar um programa gravado, do início ao fim maquinar a série
Bloco a bloco (variante do automático) executar o programa uma linha de cada vez primeira peça de um programa novo
Simulação ou teste ver o percurso no ecrã, ou correr sem cortar verificar um programa antes da primeira peça

A mudança de modo faz-se sempre no HMI, e nunca com a máquina em movimento. Cada modo tem o seu propósito: não se editam cotas enquanto o programa corre em automático, nem se maquinam séries inteiras em modo manual.

Antes de trabalhar numa máquina desconhecida, percorre os modos no HMI sem executar nada, só para reconhecer onde está cada um e como o ecrã muda. Esse minuto poupa hesitações mais tarde, já com a peça fixada.

13. Setup: referenciação, pontos zero e compensação da ferramenta

Antes de qualquer trabalho, a máquina tem de saber onde está cada eixo, onde está a peça e onde está a ponta de cada ferramenta. O conjunto destas operações é o setup, a que também se chama taratura ou zeramento. São três passos diferentes, que se confundem com facilidade.

Passo 1 · Reconhecimento dos eixos (referenciação)

Quando a máquina é ligada, o comando não sabe a posição real dos eixos (salvo em máquinas com medição absoluta). Por isso, a primeira operação do dia é a referenciação: em modo de referenciação, cada eixo desloca-se até um interruptor ou sensor de referência, numa posição fixa definida pelo fabricante. A partir desse momento, o comando conhece a posição de cada eixo em relação ao ponto zero da máquina e ativa os limites de curso por software.

Passo 2 · Pontos zero

Ponto Símbolo usual Quem o define Muda?
Ponto zero da máquina M fabricante, fixo na estrutura nunca
Ponto de referência R fabricante, posição dos sensores de referência nunca
Ponto zero da peça (origem do programa) W programador e operador, num canto ou referência da peça a cada peça, fixação ou programa
Ponto zero da ferramenta (ponto de referência do fuso) fabricante: ponto na face de encosto do fuso, onde assenta o porta-ferramentas nunca; é a partir dele que se mede o comprimento de cada ferramenta

O ponto zero da peça é a origem a partir da qual o programa está escrito. O comando guarda, numa tabela de origens, a posição do zero peça em coordenadas de máquina; o programa ativa essa origem (em ISO, por exemplo com G54). Nos centros de trabalho de mobiliário, o zero peça coincide muitas vezes com o canto definido pelos batentes de cada zona da mesa: ao encostar a peça aos batentes, o seu canto fica exatamente na origem guardada.

O ponto zero da ferramenta é o ponto do fuso em relação ao qual se medem as ferramentas. Cada ferramenta tem na tabela de ferramentas o seu comprimento (distância do ponto zero da ferramenta até à ponta) e o seu diâmetro ou raio. O comando usa estes valores para colocar a ponta da ferramenta na cota Z programada (compensação de comprimento) e para afastar o centro da ferramenta de um raio em relação ao contorno (compensação do raio). Estes valores medem-se com um sensor de medição de ferramentas na máquina, num aparelho de pré-ajuste fora da máquina, ou segundo o procedimento do manual.

Passo 3 · Definir o zero peça (zeramento de uma peça nova)

Quando a peça não é posicionada por batentes com origem já guardada, define-se o zero peça em modo manual:

  1. Com a máquina referenciada, passar a modo manual e selecionar uma ferramenta ou um apalpador com dimensões conhecidas.
  2. Aproximar em X da aresta de referência da peça com incrementos pequenos (volante ou passo a passo), até tocar.
  3. Registar na tabela de origens a posição do centro da ferramenta corrigida de um raio (se a ferramenta tem 10 mm de diâmetro e tocou pela esquerda, o canto está 5 mm à direita do centro).
  4. Repetir para Y, noutra aresta de referência.
  5. Para Z, seguir o método do manual: toque com apalpador ou sensor, ou cálculo a partir da superfície de apoio mais a espessura medida da peça. Não se desce uma ferramenta a rodar contra a peça para "sentir" o toque.
  6. Ativar a origem e confirmar no ecrã, em coordenadas de peça, que o canto de referência mostra X0 Y0 e que a face superior corresponde a Z0 (ou à convenção da oficina, que em nesting é muitas vezes Z0 na superfície do painel de sacrifício).

Exemplo resolvido: onde vai parar a ferramenta

A tabela de origens tem G54 com X = 412,5 mm e Y = 86,2 mm (posição do canto da peça em coordenadas de máquina). O programa manda a ferramenta para X100 Y50 em coordenadas de peça. Em que posição de máquina fica o centro da ferramenta?

  1. X máquina = 412,5 + 100 = 512,5 mm.
  2. Y máquina = 86,2 + 50 = 136,2 mm.
  3. Se o operador se esquecer de ativar G54 e o comando usar o zero máquina, a ferramenta vai para X100 Y50 de máquina: 412,5 mm ao lado em X e 86,2 mm em Y, possivelmente em cima de uma ventosa ou de um batente.

Exemplo resolvido: erro de comprimento de ferramenta

Na tabela de ferramentas, T3 tem comprimento registado de 95,4 mm. Um colega trocou a fresa por outra com 120,1 mm de comprimento e não atualizou a tabela. O programa manda fresar a Z-5.

  1. Diferença de comprimento: 120,1 - 95,4 = 24,7 mm.
  2. A ponta real está 24,7 mm mais abaixo do que o comando julga.
  3. Em vez de fresar 5 mm, a ferramenta entra 5 + 24,7 = 29,7 mm: atravessa um painel de 18 mm e fresa a ventosa ou a mesa.
  4. Regra: cada troca de ferramenta obriga a medir e a atualizar a tabela, e a primeira peça depois disso faz-se com override reduzido e bloco a bloco.

14. Modo manual e modo MDI

Modo manual: movimento e posicionamento

Em modo manual, o operador move os eixos diretamente. Há três maneiras:

Operações típicas em modo manual: afastar os eixos de uma zona de colisão depois de um alarme, aproximar a ferramenta para medir ou zerar, levar o grupo a uma posição de troca manual de ferramenta, ligar e desligar vácuo, aspiração e fuso pelas teclas próprias.

Regras de ouro: começar com velocidade baixa e incremento grande só longe da peça, passar a incremento pequeno perto da peça; confirmar o eixo selecionado e o sentido antes de rodar o volante; nunca pôr a mão na zona de trabalho com o eixo a mover.

Modo MDI: introdução manual de dados

O MDI (do inglês Manual Data Input) permite escrever e executar uma ou poucas instruções sem as gravar num programa. Funciona como um modo semiautomático: escreve-se o bloco, confirma-se, e a máquina executa-o ao carregar em arranque de ciclo.

Exemplos de uso:

T3 M06              ; chamar a ferramenta 3 para o fuso
M03 S18000          ; ligar o fuso a 18000 rpm, sentido horário
G90 G54 G00 Z50     ; primeiro subir: ferramenta a 50 mm acima do zero peça
G00 X0 Y0           ; depois ir, em rápido, por cima da origem da peça
M05                 ; parar o fuso

O MDI é a ponte entre o movimento livre do modo manual e a sequência completa do modo automático. Serve para confirmar uma posição, testar uma função, chamar uma ferramenta ou posicionar o grupo de forma exata.

Um bloco em MDI executa-se com a mesma força e velocidade de um programa: um G00 escrito com a origem errada vai, em rápido, para o sítio errado. Antes de carregar em arranque, lê o bloco em voz alta, confirma a origem ativa e mantém a mão perto do feed hold.

15. Programação CNC em modo texto: o sistema ISO de códigos G e M

Estrutura de um programa

No modo texto, o programa escreve-se com o sistema ISO de códigos G e M (norma ISO 6983), uma linguagem de base comum à generalidade dos comandos. Um programa é uma sequência de blocos (linhas); cada bloco é formado por palavras, cada palavra é uma letra seguida de um número:

Letra Significado Exemplo
N número do bloco (opcional em muitos comandos) N50
G função preparatória: tipo de movimento, plano, modo de coordenadas, compensação G01
X, Y, Z coordenadas lineares, em mm X250 Y120 Z-6
A, B, C coordenadas angulares, em graus C90
I, J, K coordenadas do centro de um arco, em relação ao ponto de partida (X, Y, Z) I50 J0
R raio de um arco (em alternativa a I, J) R50
F velocidade de avanço (feed), normalmente em mm/min F6000
S velocidade de rotação do fuso (speed), em rpm S18000
T número da ferramenta T3
M função auxiliar (miscelânea): fuso, troca de ferramenta, fim de programa M03

Os comentários escrevem-se entre parênteses ou depois de ponto e vírgula, conforme o comando. Muitas funções são modais: ficam ativas até outra da mesma família as substituir. Depois de G01 e F6000, todos os blocos seguintes são interpolação linear a 6000 mm/min até aparecer outro G de movimento ou outro F.

Códigos G e M essenciais

Código Função
G00 posicionamento rápido, à velocidade máxima da máquina, sem cortar
G01 interpolação linear: movimento em linha reta à velocidade de avanço F, a cortar
G02 interpolação circular no sentido horário (visto do lado positivo do eixo perpendicular ao plano, em G17 visto de cima)
G03 interpolação circular no sentido anti-horário
G17 seleção do plano XY (o plano de trabalho principal)
G40 anula a compensação do raio da ferramenta
G41 compensação do raio à esquerda do percurso (olhando no sentido do movimento)
G42 compensação do raio à direita do percurso
G54 (e seguintes) ativa a origem de peça guardada na tabela de origens
G90 coordenadas absolutas
G91 coordenadas incrementais
M03 fuso a rodar no sentido horário
M04 fuso a rodar no sentido anti-horário
M05 paragem do fuso
M06 troca de ferramenta (com a ferramenta indicada por T)
M30 fim de programa, com regresso ao início

A escolha de milímetros ou polegadas também se faz com um código G, que muda de comando para comando (G21/G20 em muitos, G71/G70 noutros): confirma no manual. Muitos comandos têm ainda ciclos fixos de furação (em vários comandos ISO, G81 e seguintes) e códigos M próprios para vácuo, aspiração, batentes e grupos de furação.

Os códigos da tabela são os mais universais, mas cada fabricante tem variações, códigos próprios e, nos centros de trabalho de mobiliário, muitas vezes um editor próprio que esconde o ISO. O manual de programação da máquina é sempre a referência final: nunca se copia um programa de outra máquina sem confirmar a correspondência dos códigos.

Exemplo resolvido: ler e corrigir um programa de ranhura

Um colega escreveu este programa para fresar uma ranhura reta de 200 mm, com 10 mm de profundidade, numa peça com Z0 na face superior:

G90            ; coordenadas absolutas
M03 S12000     ; liga o fuso a 12000 rpm
G00 X0 Y0 Z5   ; posiciona rápido, ponta 5 mm acima da peça
G01 Z-10 F500  ; desce a cortar até 10 mm de profundidade, a 500 mm/min
G01 X200       ; corta em linha reta até X200
M05            ; desliga o fuso
M30            ; fim do programa
  1. Lido linha a linha: absolutas; fuso a 12000 rpm; rápido até 5 mm acima da origem; mergulho a 500 mm/min até Z-10; corte em linha reta até X200, mantendo Y0 e Z-10 (G01 e F500 são modais); fuso parado; fim.
  2. Problema 1: o programa acaba com a ferramenta dentro da ranhura (Z-10). O fuso para com a fresa enterrada, e o próximo movimento rápido da máquina pode arrastá-la pela peça. Falta subir antes de parar o fuso: G00 Z20.
  3. Problema 2: não se diz que origem nem que ferramenta usar. Falta G54 e a chamada da ferramenta (T... M06) com a respetiva compensação de comprimento.
  4. Problema 3: o rápido G00 X0 Y0 Z5 move os três eixos ao mesmo tempo. Se a ferramenta estiver baixa, pode atravessar grampos ou batentes. É mais seguro subir primeiro e só depois deslocar em XY.

Versão corrigida:

G17 G40 G90        ; plano XY, sem compensação de raio, absolutas
T2 M06             ; fresa de ranhurar da posição 2
G54                ; origem da peça
M03 S12000         ; fuso horário a 12000 rpm
G00 Z20            ; altura de segurança
G00 X0 Y0          ; por cima do início da ranhura
G00 Z5             ; aproximação rápida até 5 mm da face
G01 Z-10 F500      ; mergulho a avanço lento
G01 X200 F3000     ; ranhura de 200 mm, com avanço de corte
G00 Z20            ; sai da peça antes de parar o fuso
M05                ; para o fuso
M30                ; fim de programa

Compensação do raio da ferramenta

O desenho dá a aresta da peça, mas o comando comanda o centro da ferramenta. Uma fresa de 12 mm de diâmetro que siga a aresta com o centro deixa a peça 6 mm mais pequena de cada lado. Há duas soluções: calcular à mão o percurso do centro (somando ou subtraindo o raio) ou programar a aresta da peça e deixar o comando fazer a conta com G41 / G42, lendo o raio na tabela de ferramentas.

Para saber se é G41 ou G42, olha-se no sentido do movimento: se a ferramenta tem de ficar à esquerda do contorno, é G41; se à direita, G42. Num contorno exterior percorrido no sentido horário, o lado de fora fica à esquerda: G41. A compensação ativa-se num movimento de entrada fora da peça e anula-se (G40) num movimento de saída, também fora da peça.

Exemplo resolvido: contorno exterior de uma prateleira

Peça de 600 mm × 300 mm em aglomerado revestido de 18 mm, assente em ventosas, origem G54 no canto inferior esquerdo, Z0 na face superior. Fresa T1 de 12 mm de diâmetro, 2 gumes. Contorno exterior em dois passes, sentido horário.

G17 G40 G90              ; plano XY, sem compensação, absolutas
T1 M06                   ; fresa de haste de 12 mm
G54                      ; origem da peça
M03 S18000               ; fuso horário a 18000 rpm
G00 Z20                  ; altura de segurança
G00 X-20 Y-20            ; ponto de partida fora da peça
G01 Z-9 F2000            ; 1.º passe: desce fora da peça até 9 mm
G41 G01 X0 Y-10 F6000    ; entrada com compensação à esquerda
G01 Y300                 ; lado esquerdo, para cima
G01 X600                 ; lado de cima, para a direita
G01 Y0                   ; lado direito, para baixo
G01 X-10                 ; lado de baixo, para a esquerda, até sair da peça
G40 G01 X-20 Y-20        ; saída e anulação da compensação
G01 Z-18.5 F2000         ; 2.º passe: 0,5 mm abaixo da face inferior
G41 G01 X0 Y-10 F6000
G01 Y300
G01 X600
G01 Y0
G01 X-10
G40 G01 X-20 Y-20
G00 Z20                  ; sai da peça
M05                      ; para o fuso
M30                      ; fim de programa

Verificação passo a passo:

  1. Coordenadas: os cantos programados são (0, 0), (0, 300), (600, 300) e (600, 0): batem com a peça de 600 × 300.
  2. Sentido: sobe pela esquerda, vai para a direita por cima, desce pela direita, volta pela base: horário. Com o exterior à esquerda do percurso, G41 está certo.
  3. Centro da ferramenta: com a compensação, o centro anda a 6 mm da aresta (raio de 12 / 2), por fora. Por exemplo, no lado de cima o centro anda em Y306.
  4. Profundidade: 9 + 9,5 = 18,5 mm em dois passes; 18,5 - 18 = 0,5 mm abaixo da face inferior, o suficiente para cortar a peça por inteiro sem chegar às ventosas, que estão por baixo e para dentro do contorno.
  5. Saída: G00 Z20 antes de M05: a ferramenta sai da peça antes de parar.
  6. Comprimento do contorno: 2 × (600 + 300) = 1800 mm por passe. A 6000 mm/min, cada passe demora cerca de 1800 / 6000 = 0,3 min = 18 s (sem contar entradas e saídas).

O ponto decimal em Z-18.5 é o separador que o comando aceita; na escrita em português usamos a vírgula (18,5 mm), no programa usa-se o ponto.

Exemplo resolvido: um arco

A ferramenta está em (0, 0). Tem de descrever um meio círculo de raio 50 mm até (100, 0), passando por cima (por (50, 50)).

  1. Centro do arco: (50, 0). Distância do início ao centro: 50 mm; do fim ao centro: 50 mm. É um arco válido.
  2. Sentido: de (0, 0) para (50, 50) e depois para (100, 0), visto de cima, é o sentido dos ponteiros do relógio: G02.
  3. I e J são a posição do centro em relação ao ponto de partida: I = 50 - 0 = 50, J = 0 - 0 = 0.
  4. Bloco: G02 X100 Y0 I50 J0 (ou, nos comandos que aceitam raio, G02 X100 Y0 R50).
  5. Se se escrevesse G03, o arco passaria por baixo, por (50, -50): a peça sairia ao contrário.

Modo gráfico de programação

Muitos comandos e, sobretudo, os softwares dos centros de trabalho de mobiliário oferecem um modo gráfico: o operador escolhe a peça (dimensões), coloca operações sobre um desenho (furo, ranhura, contorno, rebaixo) e preenche parâmetros (diâmetro, profundidade, ferramenta), e o software gera o programa. Muitas vezes é paramétrico: as cotas dependem de variáveis como o comprimento e a largura da peça, e o mesmo programa serve para peças de várias medidas.

Vantagens: menos erros de escrita, mais rapidez em peças simples, visualização imediata do resultado. Limites: esconde o código, por isso quando algo corre mal é ao código gerado (ou à lista de operações) que se volta para perceber o que o comando está a fazer. A combinação ideal é dominar os dois: o gráfico para rapidez, o texto para compreender e diagnosticar.

16. Edição e gravação de um programa CNC

Editar um programa existente é tão frequente como escrevê-lo de raiz. O referencial pede alterações simples de dimensões e de geometria: mudar uma cota, uma profundidade, a posição de um furo, um avanço.

  1. Copiar antes de mexer: gravar uma cópia com novo nome ou nova revisão, para não perder a versão que funcionava.
  2. Abrir a cópia no modo de programação (edição).
  3. Localizar as linhas a alterar (a pesquisa do editor encontra um valor como "X600").
  4. Editar só o necessário, sem mexer na estrutura (entradas, saídas, compensação, fim de programa).
  5. Verificar a coerência: se uma cota muda, todas as que dela dependem mudam também.
  6. Gravar com um nome identificável: peça, revisão e data (por exemplo PRAT600-R2-2026-09-21, respeitando os caracteres que o comando aceita).
  7. Simular antes de executar (capítulo 18).

Exemplo resolvido: a prateleira passa de 600 para 560 mm

O cliente pediu a mesma prateleira com 560 mm de comprimento. No programa de contorno do capítulo 15:

  1. O comprimento aparece nas linhas com X600. Procurando no editor, há uma por passe (G01 X600, o lado de cima); o bloco seguinte, G01 Y0, continua em X600 porque as coordenadas são modais, por isso não tem de ser editado.
  2. Muda-se G01 X600 para G01 X560 nos dois passes: duas edições no total.
  3. Entradas e saídas (X-20, X-10) ficam iguais, porque são fora da peça do lado da origem.
  4. Verificação: novo contorno 2 × (560 + 300) = 1720 mm por passe; cantos (0, 0), (0, 300), (560, 300), (560, 0).
  5. Se o programa tivesse furos posicionados a partir da aresta direita (por exemplo a 50 mm dela, em X550), esses também teriam de mudar para X510. É o passo 5 da lista: coerência.

17. Velocidades de corte, rotação e avanço

O referencial pede que o operador saiba ajustar as velocidades de avanço e de rotação programadas. Para ajustar com critério é preciso perceber de onde vêm os números.

Velocidade de corte

A velocidade de corte (vc) é a velocidade a que o gume da ferramenta passa pelo material. Depende do diâmetro da ferramenta e da rotação:

vc = π × D × n / 1000, com vc em m/min, D (diâmetro da ferramenta) em mm e n (rotação) em rpm. Dividir por 1000 converte mm em m.

Avanço por dente

O avanço por dente (fz) é a espessura de material que cada gume retira em cada volta. Liga o avanço programado (F), a rotação (n) e o número de gumes (z):

fz = F / (n × z), com fz em mm, F em mm/min e n em rpm. Ao contrário: F = fz × n × z.

Os valores recomendados de vc e de fz vêm do fabricante da ferramenta, para cada material. A rotação nunca pode passar a rotação máxima marcada na ferramenta nem a do fuso.

Exemplo resolvido: verificar os valores do contorno

Fresa de 12 mm, 2 gumes, S18000, F6000 (o programa do capítulo 15).

  1. vc = π × 12 × 18000 / 1000 = 3,1416 × 216 = 678,6 m/min.
  2. fz = 6000 / (18000 × 2) = 6000 / 36000 = 0,167 mm por dente.
  3. Se o fabricante da ferramenta recomendar para este material fz = 0,25 mm, o avanço devia ser F = 0,25 × 18000 × 2 = 9000 mm/min (9 m/min).

Exemplo resolvido: o override muda o avanço por dente

Durante a primeira peça, o operador baixa o override de avanço para 50%. A rotação fica a 100%.

  1. Avanço real: 6000 × 0,50 = 3000 mm/min.
  2. fz real: 3000 / (18000 × 2) = 0,083 mm, metade do previsto.
  3. Com um avanço por dente tão baixo, os gumes raspam em vez de cortar: a ferramenta aquece, a aresta da madeira pode queimar (ficar escurecida) e a ferramenta desgasta-se mais depressa. É aceitável numa primeira peça, a vigiar, mas não como regra.

Sinais que pedem ajuste

Sinal durante o corte Causa provável Ajuste possível (dentro dos limites do fabricante)
Aresta queimada, cheiro a queimado, pó muito fino fz demasiado baixo: pouco avanço ou rotação a mais; ferramenta gasta subir o avanço ou baixar a rotação; verificar o gume
Lascas no revestimento, aresta rasgada fz demasiado alto, ferramenta gasta, sentido de corte desfavorável baixar o avanço; trocar a ferramenta; rever o sentido de corte
Vibração, ruído forte, alarme de sobrecarga do fuso esforço excessivo: passe demasiado fundo, avanço alto, peça mal fixa baixar o avanço; dividir a profundidade em mais passes; rever a fixação
Peça a mexer-se fixação insuficiente para o esforço parar (feed hold), rever vácuo e ventosas; não se compensa com override

O override ajusta em percentagem o valor programado sem alterar o programa gravado. Se um ajuste se revela bom de forma repetida, corrige-se o programa (editando F ou S), para que a peça seguinte não dependa de alguém se lembrar de mexer no seletor.

18. Operação de maquinagem em modo automático

Selecionar os materiais e as peças

Antes de fixar, confirma-se que a peça é a certa, comparando com o desenho técnico e as instruções de trabalho:

Operações de maquinagem

Operação Ferramenta típica Nota de processo
Contorno (esquadrejar ou recortar) fresa de haste com gumes helicoidais ou retos compensação do raio; passes em profundidade
Ranhura fresa de diâmetro igual à largura da ranhura, ou serra profundidade a partir da face certa
Rebaixo fresa de haste, em vários passes deixar a aresta limpa
Furação vertical e horizontal brocas de ponta (furos cegos), brocas de furar passante, brocas de copa para dobradiças profundidade e diâmetro conforme ferragem
Corte com serra disco de serra montado em grupo próprio só cortes retos
Perfil de aresta fresa de perfil ferramenta com a forma do perfil
Gravação fresa em V ou laser profundidade pequena, rotação alta

O sentido de corte também conta. Com o fuso a rodar no sentido horário (M03), um contorno com a ferramenta à esquerda do percurso (G41) trabalha em corte concordante (o gume entra no material pelo lado mais grosso da apara); com G42, em corte discordante. Cada um tem vantagens consoante o material e a máquina; o que a oficina usar para cada peça fica na instrução de trabalho.

Procedimento de execução

  1. Selecionar o programa certo na memória do comando (nome, revisão, data).
  2. Selecionar a peça e confirmar material, medidas e face.
  3. Preparar a mesa: posicionar barras e ventosas ou grampos fora do percurso das ferramentas, conforme o esquema da mesa que o programa ou o software indicam.
  4. Posicionar a peça contra os batentes e fixar (vácuo ou grampos), confirmando o valor no vacuómetro.
  5. Verificar a segurança do programa (ver lista abaixo).
  6. Acionar o programa em modo automático com o arranque de ciclo, na primeira peça com override de rápido e de avanço reduzidos e, num programa novo, bloco a bloco.
  7. Acompanhar o corte de fora da zona perigosa, com a mão perto do feed hold, e ajustar o override se for preciso.
  8. No fim, esperar que o fuso pare e que a máquina chegue à posição de descarga, libertar a peça, limpar a mesa e controlar a peça (capítulo 21).

Procedimentos de verificação de segurança do programa

Verificação Como se faz
Programa certo nome, revisão e data coincidem com a instrução de trabalho
Origem certa a origem ativa (G54 ou zona dos batentes) corresponde à posição da peça
Ferramentas certas cada T do programa existe no armazém, com comprimento e diâmetro medidos na tabela
Rotações nenhum S passa a rotação máxima da ferramenta respetiva
Percurso simulação gráfica no HMI: o percurso fica dentro da peça e não atravessa ventosas, grampos nem batentes
Profundidades nenhum Z negativo passa além do previsto (ventosas, mesa ou painel de sacrifício)
Primeira execução em vazio (sem peça, ou com a ferramenta acima da peça, pelo método do manual) ou bloco a bloco com override reduzido
Fim de programa a ferramenta sai da peça antes de parar o fuso; o programa termina com M30

19. Alarmes de operação e de execução de programas

Os alarmes são mensagens do comando ou do PLC que avisam, e em regra interrompem a execução, quando algo sai do previsto. Cada alarme tem um número e um texto; o manual da máquina tem a lista com a causa provável e a forma de resolver.

Família de alarme Exemplos Resposta típica
Segurança emergência premida, porta aberta, tapete sensível pisado, barreira interrompida eliminar a causa, rearmar, reset; nunca anular o dispositivo
Eixos fim de curso por software ou por interruptor, erro de seguimento, eixo não referenciado ler a posição, afastar o eixo em manual no sentido contrário, referenciar se pedido
Fuso e ferramenta sobrecarga do fuso, temperatura alta, ferramenta não encontrada, rotação acima do máximo rever parâmetros de corte, ferramenta e tabela
Redes de apoio pressão de ar baixa, vácuo insuficiente, aspiração desligada verificar compressor, fugas, ventosas, registo da aspiração
Programa erro de sintaxe, código desconhecido, cota fora dos limites de curso, arco impossível abrir o programa em edição, corrigir o bloco indicado

Procedimento perante um alarme

  1. Parar e ler o número e o texto do alarme, sem carregar em nada ao acaso.
  2. Perceber a causa com o manual ou a lista de alarmes da oficina.
  3. Pôr a máquina em segurança: fuso parado, eixos parados; se for preciso entrar na zona de trabalho, fazê-lo segundo o procedimento da máquina.
  4. Resolver a causa (não o sintoma).
  5. Reconhecer o alarme (reset) e decidir de onde retomar: do início, do bloco interrompido ou com uma peça nova, conforme o manual e o estado da peça.
  6. Registar o alarme e a solução, se se repetir ou se a instrução de trabalho o pedir.

A meio de uma fresagem aparece "vácuo insuficiente". O operador experiente não faz reset e arranque de imediato: a peça pode ter deslizado sobre as ventosas. Verifica o vacuómetro, procura a fuga (uma ventosa descoberta, uma apara, uma válvula), confirma que a peça continua encostada aos batentes e só então decide. Se a peça se mexeu, as cotas já cortadas deixaram de bater com as seguintes: é peça para refazer, não para "acabar".

20. Segurança e saúde no trabalho, EPI

Riscos numa máquina CNC para madeira

Risco De onde vem Medida de prevenção
Corte e amputação ferramentas a rodar a alta velocidade proteções e dispositivos de segurança ativos; nunca entrar na zona com o fuso a rodar; esperar a paragem total
Esmagamento e entalamento movimento dos eixos, do pórtico, dos batentes e dos grampos respeitar a zona perigosa delimitada; tapetes e barreiras; modo manual com velocidade reduzida
Projeção peças mal fixas, ferramentas partidas, aparas fixação verificada, ferramentas em bom estado e bem apertadas, proteções fechadas, proteção ocular
Ruído fuso, corte, aspiração, bomba de vácuo proteção auditiva, máquinas fechadas, manutenção
Pó de madeira corte e fresagem aspiração na origem a funcionar, limpeza por aspiração (não com ar comprimido), proteção respiratória quando a captação não chega
Incêndio pó acumulado, laser, aparas quentes limpeza, vigilância do laser, extintor acessível
Elétrico armário e ligações só pessoal habilitado abre o armário elétrico

Luvas, anéis, pulseiras, relógios, cabelo comprido solto e roupa larga não se usam junto de ferramentas em rotação: podem ser agarrados e arrastar a mão ou o braço. As luvas usam-se para manusear painéis e ferramentas com a máquina parada, nunca junto do fuso a rodar.

O pó de madeira

O pó de madeira de folhosas (madeiras duras, como o carvalho ou a faia) é reconhecido como agente cancerígeno. A Diretiva (UE) 2017/2398, transposta em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 35/2020, fixou para as poeiras de madeira de folhosas um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³ (fração inalável, média ponderada de 8 horas), aplicável desde 18 de janeiro de 2023, depois de um período transitório com 3 mg/m³. Quando o pó de folhosas está misturado com outros pós de madeira, o valor-limite aplica-se a todo o pó presente. As medidas, por ordem: aspiração na origem a funcionar bem, máquina fechada, limpeza por aspiração e, quando a captação não chega, máscara FFP2 ou FFP3.

EPI para operar um centro CNC

EPI Quando
Proteção auditiva (tampões ou auriculares) sempre junto da máquina a trabalhar
Óculos de proteção sempre na zona da máquina; ao limpar, ao trocar ferramentas
Calçado de segurança com biqueira sempre na oficina: painéis e ferramentas caem
Proteção respiratória (FFP2 ou FFP3) quando a aspiração não chega, na limpeza, em madeiras de folhosas
Luvas de proteção mecânica manusear painéis e ferramentas com a máquina parada; nunca junto do fuso a rodar
Vestuário ajustado sempre: sem partes soltas

Os EPI são a última barreira: vêm depois das proteções da máquina e da aspiração, nunca em vez delas.

Regras de conduta

21. Normas da qualidade

A qualidade não é só medir no fim: é fazer bem à primeira e manter esse resultado ao longo da série.

Exemplo resolvido: a primeira peça está fora

Desenho: furo a 37 ± 0,5 mm da aresta. Medida na primeira peça: 39,0 mm. Todos os furos estão 2 mm desviados no mesmo sentido.

  1. O desvio é igual em todos os furos: não é um erro de uma linha do programa, é um erro de referência.
  2. Causas prováveis: a peça não estava encostada aos batentes (apara, batente não subiu) ou a origem ativa não é a correta.
  3. Verificação: a peça seguinte, bem encostada, é medida antes de continuar. Se o desvio desaparece, a causa era o posicionamento; se se mantém, é a origem ou o programa.
  4. A primeira peça fica identificada como não conforme.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Programar e operar manualmente um centro de trabalho CNC segue sempre a mesma ordem lógica:

  1. Conhecer o sistema CNC (programa, comando, PLC, acionamentos, medição) e a máquina (elementos constituintes, grupos operadores), e distinguir a CNC de outros automatismos digitais.
  2. Pôr a funcionar os equipamentos e redes de apoio (eletricidade, ar comprimido, vácuo, aspiração, dados) e ler os seus valores nas unidades certas, contra os valores de referência do fabricante.
  3. Analisar o plano de trabalho e escolher a mesa e o sistema de fixação.
  4. Dominar os eixos (lineares X, Y, Z; angulares A, B, C), as coordenadas (absolutas e incrementais) e os ângulos da ferramenta em relação à normal.
  5. Ler a simbologia e o HMI, e escolher o modo certo para cada tarefa.
  6. Fazer o setup: referenciação, ponto zero da peça, medidas das ferramentas.
  7. Mover em modo manual, testar em MDI, programar e editar em modo texto ou gráfico, e gravar com nome e revisão.
  8. Calcular e ajustar avanço e rotação com critério (vc e fz).
  9. Verificar o programa, executar em modo automático, acompanhar e responder aos alarmes.
  10. Cumprir sempre as normas de segurança e saúde e as normas da qualidade, da primeira à última peça.

Este fluxo transfere-se entre fresadoras, multifuradoras, tornos, centros multifunções e máquinas laser: mudam os menus e os nomes, ficam os princípios.

Exercícios resolvidos

1. Uma lateral precisa de quatro furos alinhados, espaçados 32 mm. Confirma isso a partir das coordenadas P1(37, 64), P2(37, 96), P3(37, 128) e P4(37, 160), e escreve os deslocamentos em incrementais.

Resolução: X é igual nos quatro pontos (37 mm): os furos estão alinhados numa reta paralela ao eixo Y. As diferenças em Y são 96 - 64 = 32, 128 - 96 = 32 e 160 - 128 = 32 mm: espaçamento constante de 32 mm. Em incrementais (G91), a partir de P1: X0 Y32, X0 Y32, X0 Y32.

2. Que modo de operação usarias para confirmar que o fuso liga a 18000 rpm, sem gravar um programa novo? Escreve o bloco.

Resolução: o modo MDI. Bloco: M03 S18000 (fuso horário a 18000 rpm), confirmado com arranque de ciclo. Depois, M05 para o parar.

3. Uma fresa de 10 mm, com 2 gumes, roda a 16000 rpm com avanço de 4800 mm/min. Calcula vc e fz.

Resolução: vc = π × 10 × 16000 / 1000 = 502,7 m/min. fz = 4800 / (16000 × 2) = 4800 / 32000 = 0,15 mm por dente.

4. A origem G54 está em X = 250 mm e Y = 40 mm de máquina. O programa manda para X120 Y80. Onde fica o centro da ferramenta, em coordenadas de máquina?

Resolução: X = 250 + 120 = 370 mm; Y = 40 + 80 = 120 mm.

5. Num contorno exterior percorrido no sentido anti-horário, que compensação usas, G41 ou G42? Porquê?

Resolução: G42. Percorrendo o contorno no sentido anti-horário, a peça fica à esquerda do percurso e o lado de fora à direita; a ferramenta tem de ficar do lado de fora, portanto à direita: G42.

6. A máquina apresenta o alarme de pressão de ar baixa a meio de uma operação com grampos pneumáticos. Qual é o procedimento correto?

Resolução: não reiniciar de imediato. Ler o alarme, pôr a máquina em segurança, verificar o compressor, o manómetro e as ligações de ar, porque a perda de pressão pode ter aliviado os grampos e deixado a peça mexer. Só depois de resolver a causa e de confirmar que a peça não se deslocou se faz reset e se decide de onde retomar; se a peça se mexeu, é peça não conforme.

7. Explica porque é que o programa se escreve em relação ao ponto zero da peça e não ao da máquina.

Resolução: o ponto zero da máquina é fixo e não tem relação com a posição de cada peça na mesa. O ponto zero da peça é definido a partir de uma referência física da própria peça (batentes, canto), e guarda-se na tabela de origens. Assim, as coordenadas do desenho passam diretamente para o programa, e o mesmo programa serve para peças colocadas noutra zona da mesa: basta mudar a origem, não o programa.

8. Para que serve a simulação gráfica ou a execução em vazio antes do modo automático?

Resolução: para aplicar os procedimentos de verificação de segurança do programa: detetar cotas erradas, colisões com ventosas, grampos ou batentes, profundidades excessivas e ferramentas trocadas antes de a máquina trabalhar com material real, protegendo o operador, a máquina, a ferramenta e a peça.