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UC · Unidade de Competência · UC01248

Sebenta · Preparar e organizar madeiras e derivados (UC01248)

Espécies, propriedades, teor de água, classificação e defeitos, derivados e outros materiais, adesivos e acabamentos, medição, cálculo de matérias-primas e desperdícios, qualidade e segurança
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili, T. Desenho de Produto em M, T. Marcenaria e Carpintari ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta prepara-te para o primeiro posto da cadeia de produção em mobiliário e carpintaria: receber, identificar, medir, calcular e organizar a matéria-prima antes de qualquer corte ou maquinação. É trabalho de bastidores, mas decide o resultado de tudo o que vem a seguir: um lote mal preparado gera desperdício, atrasos e peças fora de especificação.

A mesma unidade é comum a vários cursos da área da madeira e do mobiliário, e o que aprendes aqui serve-te em qualquer um deles:

O percurso segue a lógica do posto de trabalho real: primeiro conheces as espécies de madeira e as suas propriedades (com o teor de água em destaque), depois aprendes a classificar e a reconhecer defeitos, estudas os derivados e os outros materiais que os acompanham, os adesivos e os produtos de acabamento, e por fim tratas da medição e marcação, do cálculo de matérias-primas e desperdícios, da organização da receção, da qualidade e da segurança no trabalho.

Objetivos de aprendizagem (referencial): preparar os materiais do setor das madeiras; analisar as propriedades da madeira e derivados; distinguir espécies; interpretar especificações técnicas; analisar e classificar defeitos; selecionar outros materiais; analisar as dimensões do produto; aplicar técnicas de marcação linear; calcular matérias-primas por peso, volume e amostragem; calcular produtos em bruto e desperdícios; aplicar normas de segurança, saúde no trabalho e qualidade.

1. A indústria da madeira e do mobiliário

A preparação da matéria-prima é a função que antecede o corte, a colagem, a maquinação e a montagem. É aqui que se decide, com rigor, o que entra em produção e o que fica de fora.

O contexto de trabalho desta UC cobre dois setores próximos:

Em Portugal, o mobiliário concentra-se sobretudo no Norte, com o polo de Paços de Ferreira e Paredes como o caso mais conhecido, e a indústria de painéis derivados tem fábricas no país que abastecem as marcenarias e as fábricas de móveis. A floresta portuguesa é dominada pelo eucalipto, pelo pinheiro-bravo e pelo sobreiro; o pinho bravo continua a ser a resinosa nacional mais usada em carpintaria, embalagem e mobiliário corrente.

Em qualquer destes contextos, quem prepara a matéria-prima segue os mesmos critérios de desempenho:

Da matéria-prima ao produto final

O percurso da matéria-prima numa marcenaria, numa fábrica com CNC ou numa obra de carpintaria segue, em geral, esta sequência:

Etapa O que se faz Documento ou instrumento
1. Encomenda pedir ao fornecedor o material certo, na quantidade calculada lista de materiais, catálogo
2. Receção conferir a guia de remessa com a encomenda, contar, medir, pesar guia, fita métrica, balança
3. Inspeção verificar teor de água, defeitos, classe, espessura dos painéis medidor de humidade, paquímetro, norma de classificação
4. Registo identificar o lote e registar os dados ficha de produção, etiqueta
5. Armazenamento guardar de forma a não empenar nem absorver humidade regras de armazém
6. Entrega à produção separar o que cada ordem de fabrico precisa lista de corte, plano de corte

Quem falha num destes passos obriga a corrigir mais tarde, quando já é mais caro e mais lento. Uma chapa de MDF de 16 mm entregue numa máquina programada para 19 mm não é um problema de CNC: é um problema de receção.

É também um trabalho de atitude, não só de técnica: o referencial da UC valoriza explicitamente a responsabilidade, a autonomia, a iniciativa, o sentido crítico, o sentido de organização, a cooperação com a equipa, o empenho, o rigor e o respeito pelas regras. Todas estas atitudes aparecem, de forma prática, ao longo dos capítulos seguintes.

2. Espécies de madeira

A árvore e o tronco

Para distinguir espécies e perceber o comportamento da madeira, convém conhecer as partes do tronco, vistas num corte transversal, de fora para dentro:

Estas partes explicam três coisas que vais usar sempre: porque é que o borne se rejeita em peças de exterior, porque é que a medula é um defeito e porque é que a madeira se comporta de forma diferente conforme a direção em que é cortada.

Resinosas e folhosas

Do ponto de vista botânico, as madeiras agrupam-se em dois grandes grupos:

Atenção: "macia" e "dura" (em inglês softwood e hardwood) são termos comerciais aproximados, não uma medida de dureza. Há folhosas muito leves e macias, como a balsa e o choupo, e resinosas duras, como o teixo. A classificação botânica não garante, sozinha, a dureza real da madeira: confirma sempre a densidade e a dureza na ficha técnica.

Espécies usadas em Portugal

A tabela reúne as espécies que mais vais encontrar em marcenarias, carpintarias e fábricas portuguesas. As massas volúmicas são valores indicativos a 12 % de teor de água; variam com a origem, a idade da árvore e a zona do tronco, por isso confirma sempre na ficha técnica do fornecedor.

Espécie (nome comum) Nome científico Grupo Massa volúmica indicativa Características e usos
Pinho bravo Pinus pinaster resinosa cerca de 550 a 600 kg/m³ muita resina, nós frequentes; carpintaria, estrutura, paletes, mobiliário corrente
Pinho manso Pinus pinea resinosa semelhante ao pinho bravo menos usado em serração; o valor da árvore está sobretudo no pinhão
Pinho silvestre (no comércio, muitas vezes "casquinha") Pinus sylvestris resinosa cerca de 500 kg/m³ importado do Norte da Europa; fio direito, poucos nós; carpintaria de interior
Abeto / espruce Abies alba / Picea abies resinosa cerca de 450 kg/m³ claro, leve, estável; lamelado colado, carpintaria, instrumentos
Cedro Cedrus spp. (há madeiras comerciais chamadas "cedro" de outros géneros) resinosa variável aromático, durável; revestimentos, arcas
Carvalho Quercus robur, Q. petraea (e o carvalho-negral, Q. pyrenaica) folhosa cerca de 650 a 750 kg/m³ denso, raios bem visíveis no corte radial; mobiliário, pavimentos, pipas
Castanho Castanea sativa folhosa cerca de 550 a 600 kg/m³ cerne durável, rico em taninos; mobiliário, carpintaria, exterior
Eucalipto Eucalyptus globulus folhosa cerca de 750 a 850 kg/m³ muito denso, difícil de secar sem fendas; pasta de papel, pavimentos, estrutura
Faia Fagus sylvatica folhosa cerca de 700 kg/m³ homogénea, poros finos, verga a vapor; cadeiras, brinquedos, contraplacado
Freixo Fraxinus excelsior (e F. angustifolia) folhosa cerca de 650 a 700 kg/m³ elástico e tenaz; cabos de ferramentas, cadeiras, curvados
Nogueira Juglans regia folhosa cerca de 650 kg/m³ castanho escuro, nobre; mobiliário de qualidade, folheado
Cerejeira Prunus avium folhosa cerca de 600 kg/m³ tom rosado que escurece com a luz; mobiliário, folheado

Dica prática: o castanho e o carvalho são ricos em taninos. Em contacto com ferro e humidade, formam manchas negras. Em peças de exterior destas espécies usa parafusos e ferragens de aço inoxidável, nunca de aço comum.

Espécies exóticas

As madeiras tropicais continuam a ter lugar em mobiliário e carpintaria de qualidade, sobretudo em folheado e em peças de exterior:

Nome comercial Nome científico Notas
Sapele Entandrophragma cylindricum castanho avermelhado com fio entrecruzado ("fitado"); mobiliário, portas, folheado
Iroko (em Portugal também câmbala) Milicia excelsa durável, usado em exterior e em bancadas; alternativa comum à teca
Mogno Swietenia spp. (e outras espécies vendidas como "mogno") nobre, estável; hoje de comércio controlado pela convenção CITES
Tola Gossweilerodendron balsamiferum tradicional em Portugal, vinda de Angola; carpintaria de interior

Duas regras de profissional para as exóticas:

  1. Nome comercial não é espécie. "Mogno" ou "cedro" podem designar madeiras diferentes, com propriedades diferentes. A referência segura é o nome científico na fatura e na ficha técnica.
  2. Origem legal e rastreável. A União Europeia exige que a madeira colocada no mercado tenha origem legal, e o Regulamento (UE) 2023/1115, sobre produtos associados à desflorestação, veio substituir o antigo Regulamento da Madeira. As certificações florestais FSC e PEFC ajudam a demonstrar a gestão responsável da floresta de origem, e muitos clientes exigem-nas.

Distinguir espécies na prática

Na receção, raramente há laboratório. Distinguir espécies faz-se por um conjunto de sinais, nunca por um só:

Exemplo resolvido · distinguir castanho de carvalho

Chegam duas tábuas castanho-claro muito parecidas. Uma deve ser castanho e a outra carvalho.

  1. Observa-se o corte radial das duas: o carvalho mostra raios largos e brilhantes, os chamados espelhos; o castanho tem raios muito finos, quase invisíveis.
  2. Pesa-se um provete de cada, com as mesmas dimensões: o carvalho sai normalmente mais pesado.
  3. Confirma-se na guia de remessa e na etiqueta do lote.

Conclusão: com os raios como sinal principal e a massa volúmica como confirmação, identifica-se cada tábua e regista-se na ficha de produção.

Exemplo resolvido · escolher a espécie certa

Um cliente pede um banco de exterior para um jardim, exposto à chuva, com um orçamento moderado.

  1. O uso é exterior, logo a madeira tem de ter boa durabilidade natural (cerne de espécies como o castanho ou o carvalho, ou exóticas como o iroko) ou ser tratada em autoclave para essa exposição.
  2. O orçamento é moderado, o que afasta as espécies mais caras.
  3. Escolha adequada: castanho (cerne durável, custo intermédio, espécie nacional), rejeitando as peças com borne; ou pinho bravo tratado em autoclave para exterior, se o orçamento for mais apertado.
  4. Consequência para a lista de materiais: ferragens em aço inoxidável (o castanho mancha com o ferro) e acabamento próprio para exterior.

A escolha da espécie nunca é só estética: cruza sempre aplicação, exposição ambiental, disponibilidade e orçamento. A durabilidade natural de cada espécie está classificada na norma EN 350, que é a referência a consultar antes de decidir.

3. Propriedades da madeira e derivados

A madeira é anisotrópica

A madeira não se comporta da mesma forma em todas as direções: é um material anisotrópico. Há três direções a distinguir, e vais encontrá-las em todas as fichas técnicas:

Na direção do fio, a madeira é muito mais resistente e quase não se deforma com a humidade. Por isso, no desenho de produto e na lista de corte, o comprimento das peças maciças segue o sentido do fio, e o fio deve vir indicado no desenho e na lista de corte (normalmente com uma seta). Uma travessa de cadeira com o fio atravessado parte ao primeiro esforço.

Propriedades físicas

As propriedades físicas descrevem o material sem o sujeitar a esforços:

Propriedades mecânicas

As propriedades mecânicas descrevem como a madeira reage a esforços:

As normas de classificação estrutural (capítulo 4) traduzem estas propriedades em classes de resistência, para que o projetista não tenha de ensaiar cada lote.

Propriedades químicas

A madeira é composta sobretudo por celulose, hemiceluloses e lenhina, com uma pequena parte de extrativos (resinas, taninos, óleos, corantes). Os extrativos explicam várias situações de oficina:

A química também decide a compatibilidade com colas, tintas, vernizes e produtos preservadores.

Higroscopia e teor de água

A madeira é higroscópica: absorve e liberta água até ficar em equilíbrio com o ar que a rodeia. A água está na madeira de duas formas:

O ponto de saturação das fibras (PSF) é o teor de água em que já não há água livre mas as paredes das células ainda estão saturadas; anda, na maioria das espécies, entre 25 e 30 %. Abaixo do PSF, a madeira retrai ao perder água e incha ao ganhar água; acima do PSF, as dimensões praticamente não mudam.

O teor de água de equilíbrio é o valor para que a madeira tende num ambiente com uma dada temperatura e humidade relativa. Nas condições de referência de 20 °C e 65 % de humidade relativa, anda pelos 12 %, e é por isso que as fichas técnicas indicam as propriedades a 12 %.

Valores de referência para escolher o teor de água à receção:

Aplicação Teor de água de referência
Mobiliário de interior na ordem de 8 a 12 %, conforme o aquecimento do espaço
Carpintaria de interior em espaços aquecidos entre 12 e 21 °C (EN 942) 9 a 13 %
Espaços aquecidos acima de 21 °C (EN 942) 6 a 10 %
Carpintaria de exterior (EN 942) 13 a 19 %
Madeira "verde", acabada de abater pode ultrapassar largamente os 30 %

Calcular o teor de água

O teor de água calcula-se sempre em base seca, isto é, dividindo a massa de água pela massa da madeira seca em estufa (anidra):

H (%) = (massa húmida - massa seca) ÷ massa seca × 100

O método de referência é o método da estufa (norma EN 13183-1): pesa-se o provete, seca-se a 103 °C (± 2 °C) até a massa deixar de variar e pesa-se de novo.

Exemplo resolvido · teor de água pelo método da estufa

Um provete de pinho bravo pesa 520 g à chegada. Depois de seco em estufa até massa constante, pesa 460 g.

  1. Massa de água = 520 - 460 = 60 g.
  2. Teor de água = 60 ÷ 460 × 100 = 13,0 % (arredondado a uma casa decimal).
  3. Para mobiliário de interior (8 a 12 %), o lote está um pouco húmido: deve estabilizar no armazém antes de ser maquinado.

Erro frequente: dividir pela massa húmida, 60 ÷ 520 × 100 = 11,5 %. O resultado parece aceitável e o lote entra em produção húmido demais.

Exemplo resolvido · massa seca a partir do teor de água

Uma tábua pesa 9,0 kg com 20 % de teor de água. Quanto pesará a 12 %?

  1. Massa seca = massa húmida ÷ (1 + H) = 9,0 ÷ 1,20 = 7,5 kg de madeira anidra.
  2. Massa a 12 % = 7,5 × 1,12 = 8,4 kg.
  3. A tábua vai perder cerca de 0,6 kg de água até estabilizar.

Repara que a conta passa sempre pela massa seca: não se pode simplesmente tirar 8 % a 9,0 kg (daria 8,28 kg, um valor errado).

Medidores de humidade

No dia a dia usa-se um medidor de humidade para madeira (na oficina chama-se-lhe muitas vezes higrómetro):

Regras de uso: medir várias peças do lote e em vários pontos de cada peça, longe dos topos (os topos secam mais depressa e enganam); registar o valor na ficha de produção. Quando há dúvida, o método da estufa decide.

Retração, inchamento e o sentido do corte

Como a madeira é anisotrópica, a retração também é diferente em cada direção:

Direção Retração relativa Consequência prática
Longitudinal (fio) desprezável em madeira normal (maior no lenho de reação) o comprimento das peças quase não muda
Radial intermédia tábuas de corte radial são mais estáveis
Tangencial cerca do dobro da radial tábuas de corte tangencial mexem mais e abaulam

Exemplo resolvido · quanto vai retrair um tampo?

Um tampo maciço tem 600 mm de largura, em tábuas de corte tangencial, e chega com 16 %. Vai viver numa sala aquecida onde estabiliza a 10 %. A ficha técnica da espécie indica um coeficiente de retração tangencial de 0,30 % por cada 1 % de variação do teor de água (valor deste exemplo; cada espécie tem o seu).

  1. Variação do teor de água = 16 - 10 = 6 pontos percentuais.
  2. Retração em largura = 6 × 0,30 = 1,8 %.
  3. Em milímetros: 600 × 0,018 = 10,8 mm.
  4. Se as tábuas fossem de corte radial, com metade do coeficiente (0,15 %), a retração seria cerca de 5,4 mm.

Conclusões para o projeto: um tampo maciço não se pode prender rigidamente à estrutura (usam-se fixações que o deixam trabalhar) e a madeira deve chegar à produção já no teor de água de serviço.

Nas peças de corte tangencial, os anéis tendem a "endireitar" ao secar: a tábua abaula em meia-cana, ficando côncava a face que estava mais perto da casca. É um dos motivos por que se alternam as faces das tábuas ao colar painéis maciços.

Dica prática: antes de trabalhar madeira acabada de chegar, deixa-a aclimatizar no espaço de produção (ou no local onde vai ficar instalada) durante alguns dias, com separadores entre camadas. Mede o teor de água antes e depois: só entra em produção quando estiver no valor pedido.

Propriedades dos derivados

Os derivados foram criados para contornar as "fraquezas" da madeira maciça: são mais homogéneos, mais estáveis no plano do painel e existem em grandes formatos. Em contrapartida, têm pior resistência aos parafusos nos cantos, absorvem água pelos topos e alguns libertam formaldeído da cola.

Propriedade Madeira maciça Contraplacado Aglomerado MDF
Estabilidade no plano baixa a média muito boa boa boa
Homogeneidade baixa (defeitos, fio) média alta muito alta
Aparafusamento no topo bom razoável fraco razoável
Comportamento à água incha e seca depende da cola (EN 636) incha muito se não for hidrófugo incha nos topos se não for hidrófugo
Maquinação CNC depende do fio boa, lascas nas faces desgaste da ferramenta, lascas excelente, perfis limpos
Massa volúmica típica conforme espécie variável na ordem de 600 a 700 kg/m³ na ordem de 700 a 800 kg/m³

Os valores concretos (massa volúmica, resistência à flexão, inchamento em 24 h, emissão de formaldeído) vêm sempre na ficha técnica do painel. Interpretar essa ficha é uma das aptidões desta UC: aprende a procurar a norma a que o painel obedece, a classe ou tipo, a espessura nominal e a tolerância, a massa volúmica e a classe de emissão.

4. Classificação e defeitos da madeira

Defeitos da madeira

Um defeito é qualquer característica que reduz a resistência, a durabilidade, a estabilidade ou o aspeto da peça para o uso pretendido. Agrupam-se em defeitos de crescimento, de secagem e laboração, e biológicos.

Defeitos de crescimento

Defeito O que é Impacto
Nó são (aderente) ramo vivo incorporado, bem ligado à madeira à volta aceitável em muitas classes; desvia o fio
Nó morto ramo morto envolvido pelo tronco, escuro, mal ligado fragiliza e mancha
Nó solto (saltão) nó morto que se desprende e deixa um buraco rejeita-se em peças à vista e estruturais
Fio inclinado ou torcido fibras não paralelas à aresta da peça reduz muito a resistência e provoca empeno
Medula incluída a peça contém o centro do tronco fendas e instabilidade
Bolsa de resina cavidade com resina entre anéis (resinosas) mancha o acabamento, a resina "sua"
Casca inclusa casca envolvida pelo crescimento da madeira ponto fraco, mau aspeto
Lenho de reação madeira anormal de árvores inclinadas (em resinosas, lenho de compressão) retração longitudinal anormal, empenos
Descaio falta de madeira numa aresta, com ou sem casca, por a peça ter sido serrada junto da periferia do tronco reduz a secção útil e o aspeto

Defeitos de secagem e laboração

Defeito O que é Impacto
Fenda separação das fibras no sentido do fio, sem atravessar a peça fragiliza, mau aspeto
Racha de topo fenda que parte do topo, por secagem mais rápida nas extremidades obriga a destopar (cortar e perder comprimento)
Racha passante fenda que atravessa a espessura normalmente rejeição
Empeno em arco curvatura ao longo do comprimento, na face dificulta o desempeno e o encaixe
Empeno de canto curvatura ao longo do comprimento, no canto (no plano da face) perde-se largura para endireitar
Empeno em meia-cana (canoa) curvatura na largura típico do corte tangencial
Empeno torcido os cantos não ficam no mesmo plano o mais difícil de corrigir
Colapso deformação das células por secagem demasiado rápida superfícies onduladas

Defeitos biológicos

Agente Sinais Impacto
Fungos cromogéneos (por exemplo, o azulado do pinho) manchas azuladas ou acinzentadas no borne só estético, mas indicam humidade elevada
Fungos de podridão madeira mole, fibrosa ou a partir-se em cubos, cheiro a mofo perda de resistência; rejeição
Caruncho (Anobium punctatum) pequenos orifícios circulares e pó fino enfraquece; pode alastrar a móveis vizinhos
Capricórnio (Hylotrupes bajulus) galerias grandes em resinosas, orifícios ovais grave em estruturas de cobertura
Térmitas galerias internas, madeira oca por dentro com a superfície intacta muito grave; exige tratamento do edifício

Atenção: um lote com sinais de insetos ativos (pó fino e fresco junto dos orifícios) não entra no armazém junto do resto do material. Isola-se, regista-se como não conformidade e informa-se o responsável: a infestação pode passar para outros lotes e para os móveis já produzidos.

Classificar a madeira

Classificar é agrupar as peças em classes, segundo critérios escritos em normas de classificação, para que o comprador, o projetista e a produção falem a mesma língua. Há dois grandes tipos de classificação:

1. Classificação de aspeto (mobiliário e carpintaria)

Olha para o que se vê: número, dimensão e tipo de nós, fendas, bolsas de resina, cor, descaio. Serve para decidir se a peça vai para uma face à vista, para uma parte escondida ou para refugo. Há normas europeias de classificação de aspeto para madeira serrada, por exemplo a EN 975-1 (carvalho e faia) e a EN 1611-1 (resinosas), e muitas empresas têm a sua própria norma interna, mais simples, com classes do tipo "primeira", "segunda" e "refugo".

2. Classificação estrutural (carpintaria e construção)

Olha para a resistência. A norma EN 338 define classes de resistência com valores característicos (resistência à flexão, módulo de elasticidade, massa volúmica):

A madeira chega a uma classe de resistência por classificação visual (segundo uma norma nacional) ou por classificação mecânica (com máquina). Em Portugal, a norma de classificação visual do pinho bravo para estruturas é a NP 4305, que define duas classes, EE (a mais exigente) e E; pela EN 1912, que faz a correspondência entre classes visuais nacionais e classes de resistência, a classe E do pinho bravo português corresponde a C18. A madeira estrutural colocada no mercado tem marcação CE segundo a EN 14081-1.

Para cada aplicação, a classificação define também critérios de aceitação: o que se admite numa face à vista de um móvel não é o que se admite numa viga, e vice-versa.

Como inspecionar um lote na receção

  1. Conferir a documentação: espécie (nome científico), classe, dimensões, quantidade, certificação, teor de água declarado.
  2. Medir o teor de água em várias peças (ver capítulo 3).
  3. Medir as dimensões de uma amostra: espessura, largura, comprimento.
  4. Observar as quatro faces e os topos de cada peça, com boa luz: nós, fendas, rachas, bolsas, sinais de insetos e fungos.
  5. Verificar os empenos: pousar a peça numa superfície plana, olhar ao longo do canto, usar uma régua ou fio esticado.
  6. Decidir e marcar cada peça: aceite, aceite com reserva (com indicação de onde se pode usar), rejeitada.
  7. Registar o resultado na ficha de produção e, se houver rejeições, abrir a não conformidade ao fornecedor.

Exemplo resolvido · aceitar ou rejeitar uma peça

Uma tábua de castanho para o tampo de uma mesa, à vista, chega com um nó são pequeno, bem fechado, a 5 cm de uma das extremidades, e com uma racha de topo de 3 cm na outra extremidade. O tampo precisa de 1 800 mm e a tábua tem 2 000 mm.

  1. A peça é para acabamento à vista: o critério estético pesa mais do que numa peça escondida.
  2. O nó são, pequeno e bem aderente, é normalmente admissível numa classe de aspeto intermédia; se o cliente quer um tampo "sem nós", sai no corte de acerto.
  3. A racha de topo é de secagem e não atravessa a peça: resolve-se destopando (cortando) a extremidade, com uma margem de segurança para lá do fim visível da racha.
  4. Conta de comprimento: 2 000 - 50 (zona do nó, se o cliente não o quiser) - 30 (racha) - margem de destope de cerca de 20 mm = cerca de 1 900 mm úteis, que chegam para os 1 800 mm do tampo.
  5. Decisão: aceitar, com a marcação das zonas a cortar e o registo na ficha de produção.

A mesma tábua, com uma racha passante a meio do comprimento ou com caruncho ativo, seria rejeitada. O defeito, e o uso a que a peça se destina, decidem sempre em conjunto.

5. Derivados da madeira

Os derivados aproveitam a madeira em folhas, lamelas, partículas ou fibras, coladas e prensadas, para criar produtos mais estáveis, uniformes e em maiores dimensões do que a madeira maciça. Distinguem-se, antes de tudo, pelo elemento de base:

Derivado Elemento de base Característica principal
Folha de madeira lâmina fina (normalmente abaixo de 1 mm), obtida por faqueamento (corte plano) ou por desenrolamento (corte rotativo do toro) revestimento decorativo (folheado) de painéis e orlas
Contraplacado folhas coladas com o fio cruzado a 90° entre camadas, em número ímpar estável nas duas direções, resistente, leve
Lamelados lamelas de madeira maciça coladas: pelos cantos (painel lamelado, para tampos e prateleiras) ou face a face em várias camadas (lamelado colado, para vigas e pilares) aspeto de maciço com mais estabilidade e dimensões maiores
LVL folhas coladas todas com o fio na mesma direção vigas e elementos estruturais retilíneos
Aglomerado de partículas partículas de madeira coladas e prensadas, mais finas nas faces económico, liso, para revestir
OSB partículas longas e finas orientadas (strands), com as camadas exteriores alinhadas no comprimento resistência estrutural a baixo custo
MDF fibras de madeira coladas e prensadas (processo seco), de média densidade homogéneo, maquina e pinta muito bem
HDF fibras, com densidade mais alta e espessuras finas fundos de móveis, gavetas, base de pavimentos laminados

Porque é que o contraplacado tem número ímpar de folhas

Cada folha quer retrair mais na largura do que no comprimento. Cruzando o fio a 90°, as folhas impedem-se umas às outras de mexer. Com número ímpar, o painel fica simétrico em relação à folha central: as duas faces têm o fio na mesma direção e as tensões equilibram-se. Com número par, um lado "puxa" mais do que o outro e o painel empena.

Normas e tipos: saber ler a especificação

Cada derivado tem uma norma europeia que define tipos consoante o ambiente de uso (seco, húmido, exterior) e a função (com ou sem carga). É isto que tens de pedir e de conferir na etiqueta e na guia de remessa:

Painel Norma Tipos principais
Aglomerado EN 312 P1 uso geral em ambiente seco; P2 mobiliário e interiores em ambiente seco; P3 sem carga, ambiente húmido; P4 com carga, seco; P5 com carga, húmido; P6 carga elevada, seco; P7 carga elevada, húmido
OSB EN 300 OSB/1 uso geral e interiores, seco; OSB/2 com carga, seco; OSB/3 com carga, húmido; OSB/4 carga elevada, húmido
MDF EN 622-5 MDF uso geral, seco; MDF.H uso geral, húmido (conhecido no comércio como "hidrófugo"); MDF.LA com carga, seco; há ainda versões leves
Contraplacado EN 636 EN 636-1 ambiente seco; EN 636-2 ambiente húmido; EN 636-3 exterior. A qualidade da colagem é ensaiada segundo a EN 314

Os painéis para a construção têm ainda marcação CE segundo a norma harmonizada EN 13986, que agrupa as características declaradas.

Atenção: "hidrófugo" não quer dizer "à prova de água". Um MDF.H ou um aglomerado P3 aguentam melhor a humidade de uma cozinha ou de uma casa de banho, mas incham se ficarem molhados, sobretudo pelos topos. As orlas bem coladas e o acabamento completam a proteção.

Emissões de formaldeído

Muitos derivados usam colas de ureia-formaldeído ou de melamina-ureia-formaldeído, que libertam pequenas quantidades de formaldeído, substância classificada como cancerígena. Dois marcos a conhecer:

Na prática, pede sempre ao fornecedor a declaração de conformidade com estes limites e confirma-a na ficha técnica. Existem também painéis com colas sem formaldeído adicionado (por exemplo à base de isocianato), usados quando o cliente o exige.

Formatos, espessuras e revestimentos

Escolher o derivado certo

Situação Derivado recomendado Porquê
Frente de cozinha lacada numa cor lisa MDF (MDF.H em zonas húmidas) superfície e topos lisos e homogéneos, maquina perfis e pinta sem deixar ver fio
Corpo de roupeiro ou de móvel de cozinha, revestido aglomerado melamínico (P2; P3 em zonas húmidas) económico, já acabado, estável
Fundo de gaveta e costas de móvel HDF ou contraplacado fino fino, rígido, barato
Assento curvado ou peça que tem de ser leve e resistente contraplacado (faia, bétula) resistente nas duas direções, aceita curvatura
Móvel de exterior ou barco contraplacado EN 636-3 colagem para exterior
Pavimento técnico, cobertura, cofragem, mobiliário de estilo industrial OSB/3 resistência estrutural a baixo custo
Tampo com aspeto de maciço, mais estável painel lamelado ou folheado sobre aglomerado/MDF aspeto de madeira com menor movimento

A escolha é sempre um compromisso entre custo, resistência, estabilidade dimensional, comportamento à humidade, maquinação e acabamento final.

6. Outros materiais do setor

Um produto de mobiliário raramente é só madeira. A lista de materiais de um roupeiro inclui dobradiças, corrediças, puxadores, parafusos, cavilhas, pés reguláveis, vidro, borrachas de amortecimento. Preparar a matéria-prima inclui selecionar, conferir e organizar estes materiais com o mesmo rigor da madeira.

Ligas metálicas

Material Onde aparece O que verificar
Aço (com zincagem ou outro revestimento) parafusos, dobradiças, corrediças, estruturas de mesas e cadeiras proteção contra corrosão adequada ao ambiente
Aço inoxidável ferragens de exterior e cozinha; parafusos em madeiras com taninos a classe (nos parafusos, A2 para uso corrente e A4 para ambientes mais agressivos, como a orla costeira)
Alumínio perfis de portas de correr, puxadores, calhas, pés acabamento (anodizado, lacado), compatibilidade com os perfis
Latão puxadores e ferragens decorativas acabamento, oxidação
Zamak (liga de zinco) puxadores e ferragens fundidas resistência mecânica limitada, acabamento

Materiais compósitos

Um compósito junta dois ou mais materiais para obter propriedades que nenhum tem sozinho:

Cerâmicas e vidros

O vidro não se corta nem se fura depois de temperado: todas as medidas e furações têm de estar definidas no desenho antes da encomenda. É um erro caro e frequente no desenho de produto.

Pedra

Mármore (Portugal tem o conhecido mármore de Estremoz), granito, ardósia e calcários usam-se em tampos, bancadas e bases. São pesados, frágeis à flexão e cortam-se com equipamento próprio, fora da carpintaria. Na preparação, interessa o peso (para a estrutura que os suporta e para o transporte), as medidas e os recortes (lava-loiça, placa), que têm de sair do desenho com rigor.

Resinas, polímeros e borrachas

Grupo Exemplos Usos em mobiliário
Resinas epóxi, poliéster enchimento de fendas e nós, mesas com resina, compósitos
Polímeros termoplásticos ABS, PVC, PP, PMMA (acrílico), policarbonato, poliamida orlas, puxadores, gavetas, frentes acrílicas, buchas e peças técnicas
Espumas espuma de poliuretano estofos de assentos e encostos
Borrachas (elastómeros) borracha natural, EPDM, silicone batentes, amortecedores, vedantes, pés antiderrapantes

Selecionar outros materiais

Selecionar é responder, por esta ordem, a cinco perguntas:

  1. Função: o que tem de fazer (suportar carga, deslizar, vedar, decorar)?
  2. Ambiente: interior seco, cozinha, casa de banho, exterior, orla marítima?
  3. Compatibilidade: com a madeira (taninos e ferro), com as colas, com o acabamento, com os outros materiais?
  4. Processo: pode ser maquinado na nossa CNC com as ferramentas que temos, ou vem já cortado de fora?
  5. Custo e fornecimento: prazo de entrega, quantidade mínima, alternativas.

Exemplo resolvido · ferragens para um móvel de casa de banho

Um móvel suspenso de casa de banho, em MDF.H lacado, precisa de dobradiças, puxadores e pés de proteção.

  1. Função: portas com fecho suave, puxadores discretos, proteção contra água do chão.
  2. Ambiente húmido: dobradiças com acabamento resistente à corrosão; puxadores em alumínio anodizado ou aço inoxidável.
  3. Compatibilidade: o MDF.H aceita bem a furação de dobradiça de copo feita na CNC; os parafusos das dobradiças devem ser os indicados pelo fabricante.
  4. Pés ou batentes em borracha EPDM ou silicone, que resistem à água e aos produtos de limpeza.
  5. Registar na lista de materiais a referência do fabricante de cada ferragem, não só a descrição.

7. Adesivos e adjuvantes para madeira

Tipos de adesivo

Adesivo Como cura Usos Notas
Acetato de polivinilo (PVA, "cola branca") evaporação da água colagem de maciço, samblagens, folheado em prensa classes de durabilidade D1 a D4 (EN 204)
Ureia-formaldeído (UF) reação química, com endurecedor e muitas vezes calor fabrico de painéis, folheado em prensa quente rígida, barata; emite formaldeído
Melamina-ureia-formaldeído (MUF) reação química com calor painéis para ambientes húmidos mais resistente à água do que a UF
Poliuretano (PU) reage com a humidade colagens de exterior, madeiras difíceis, materiais diferentes expande ao curar; mancha a pele
Epóxi dois componentes misturados colagens estruturais, enchimentos, madeira com metal mistura exata; bom para preencher folgas
Cola de contacto (policloropreno) evaporação do solvente, aplicação nas duas faces laminados HPL, orlas à mão, borrachas não permite reposicionar
Termofusível (hot-melt, EVA ou PUR) arrefecimento (a PUR também reage com a humidade) orladoras industriais colagem rápida, em linha
Cola animal (de osso ou de pele) arrefecimento e secagem restauro, instrumentos musicais reversível com calor e humidade

Classes de durabilidade das colas PVA (EN 204)

Classe Condições de utilização (resumo)
D1 interior, com humidade da madeira baixa e sem contacto com água
D2 interior, com exposição ocasional e curta à água ou a humidade elevada
D3 interior com exposição frequente e curta à água ou a humidade elevada; exterior não exposto às intempéries
D4 interior com exposição frequente e prolongada à água; exterior exposto às intempéries, com acabamento de proteção adequado

Para um móvel de sala basta uma D2; para um móvel de cozinha ou de casa de banho pede-se pelo menos D3; para uma peça de exterior, D4 ou uma cola de poliuretano adequada.

Parâmetros de uma boa colagem

Os dados que interessam estão na ficha técnica da cola, e são estes que confirmas antes de a entregar à produção:

Adjuvantes

Os adjuvantes são produtos que se juntam à cola, ou à madeira, para ajustar o seu comportamento:

Os adjuvantes ajustam o tempo de cura e a resistência final, mas não substituem a escolha correta do adesivo base. E a proporção de mistura segue a ficha técnica ao grama: um epóxi com endurecedor a mais ou a menos não cura bem.

Exemplo resolvido · escolher a cola

  1. Samblagens de uma cadeira de faia para interior: PVA D2, fácil de aplicar e limpar.
  2. Frentes de gaveta de um móvel de cozinha, em maciço: PVA D3, por causa do vapor e dos salpicos.
  3. Banco de exterior em castanho: PVA D4 ou cola de poliuretano própria para exterior, com parafusos inox.
  4. Colar HPL sobre um tampo de aglomerado, à mão, numa obra: cola de contacto, aplicada nas duas faces.
  5. Orlar painéis de melamina em série: cola termofusível na orladora.

8. Produtos para acabamento

Lixas e abrasivos

Uma lixa é um suporte (papel, tecido, esponja, rede) com grãos abrasivos colados. O que conta:

Gama de grão Numeração P (indicativa) Uso
Grosso P40 a P60 desbaste, remover marcas de serra ou colas
Médio P80 a P120 nivelar e preparar a superfície
Fino P150 a P180 preparar para o acabamento
Muito fino P220 a P400 e acima lixar entre demãos, acabamento final

A sequência habitual é lixar do grão mais grosso ao mais fino sem saltar mais do que um grau de cada vez (por exemplo P80, P120, P180), limpar o pó e só depois aplicar o acabamento. Saltar graus deixa riscos que só aparecem depois de envernizar. Lixa-se no sentido do fio, sempre que possível.

Tintas, vernizes e outros acabamentos

Produto O que faz Aspeto
Primário / isolante prepara a superfície, bloqueia taninos e resinas, melhora a aderência não é camada final
Tinta ou laca pigmentada forma película opaca, cobre a cor e o fio cor uniforme, mate a brilhante
Verniz (poliuretano, acrílico, nitrocelulósico) forma película transparente que protege e realça o fio mate, acetinado ou brilhante
Velatura / lasur proteção semitransparente, muito usada em exterior deixa ver o fio, dá cor
Tapa-poros e selante (subcapa) enchem os poros e selam a superfície antes do verniz base lisa
Óleo penetra na madeira, não forma película espessa aspeto natural, manutenção periódica
Cera proteção ligeira e brilho suave aspeto natural, pouca resistência
Tingido (corante para madeira) muda a cor sem tapar o fio cor com fio visível

Os acabamentos podem ser de base aquosa ou de base solvente. Os de base aquosa emitem menos compostos orgânicos voláteis (COV); a União Europeia limita o teor de COV das tintas e vernizes pela Diretiva 2004/42/CE.

Antes de aplicar qualquer produto, lê duas fichas:

Exemplo resolvido · quanto verniz para um lote de tampos?

São 12 tampos de 1,20 m × 0,80 m, a envernizar só na face de cima, com 2 demãos. A ficha técnica indica um rendimento de 10 m² por litro e por demão.

  1. Área de um tampo = 1,20 × 0,80 = 0,96 m².
  2. Área total por demão = 0,96 × 12 = 11,52 m².
  3. Área total com 2 demãos = 11,52 × 2 = 23,04 m².
  4. Litros necessários = 23,04 ÷ 10 = 2,3 L.
  5. Com uma margem de cerca de 10 % para perdas na aplicação: 2,3 × 1,10 = 2,53 L. Uma lata de 2,5 L fica à justa; o sensato é juntar uma embalagem pequena de reserva, do mesmo lote de fabrico para não haver diferenças de cor.

9. Instrumentos, medição linear e marcação

Instrumentos de medição e pesagem

Instrumento Para que serve Resolução típica
Fita métrica comprimentos e larguras, medidas gerais 1 mm
Metro articulado medidas gerais em bancada e obra 1 mm
Régua metálica medir e traçar linhas retas 0,5 a 1 mm
Paquímetro (craveira) com nónio ou digital espessuras, larguras pequenas, diâmetros de furos e cavilhas, profundidades 0,1, 0,05 ou 0,02 mm
Micrómetro espessuras muito finas (folhas de madeira, orlas) 0,01 mm
Esquadro (de carpinteiro, de encosto) verificar e traçar ângulos retos ·
Esquadro de meia-esquadria e suta traçar 45° e transportar ângulos quaisquer ·
Graminho traçar linhas paralelas a um canto de referência ·
Riscador, lápis de carpinteiro, compasso marcar ·
Nível verificar horizontalidade e verticalidade ·
Balança pesar peças, amostras e lotes depende da gama
Medidor de humidade teor de água da madeira 0,1 a 1 %
Calculadora cálculos de matéria-prima ·

Os dispositivos tecnológicos com acesso à internet completam o conjunto: permitem consultar catálogos e fichas técnicas dos fornecedores, confirmar normas e, em muitas empresas, registar a receção diretamente no sistema de gestão da produção.

Para que as medições sejam fiáveis, os instrumentos precisam de cuidado: a fita com o gancho em bom estado (o gancho é móvel de propósito, para compensar a sua espessura ao medir por dentro e por fora), o paquímetro limpo e a zerar bem, a balança verificada ou calibrada periodicamente com massas conhecidas. As fitas métricas vendidas na UE indicam uma classe de exatidão (I, II ou III, sendo a I a mais exata).

Ler o paquímetro

No paquímetro com nónio, lê-se primeiro a escala principal (milímetros inteiros, antes do zero do nónio) e depois procura-se o traço do nónio que coincide com um traço da escala principal.

Exemplo resolvido · leitura com nónio de 0,05 mm

O zero do nónio está entre os 18 e os 19 mm da escala principal, e o traço 7 do nónio (contado a partir do zero) é o que coincide com um traço da escala principal.

  1. Leitura da escala principal: 18 mm.
  2. Cada traço do nónio vale 0,05 mm, logo 7 × 0,05 = 0,35 mm.
  3. Medida: 18 + 0,35 = 18,35 mm.

Um painel vendido como 19 mm que mede 18,35 mm pode estar dentro ou fora da tolerância da norma: confirma na ficha técnica e mede em vários pontos antes de decidir.

Analisar as dimensões do produto

Antes de preparar qualquer material, é preciso ler o desenho e a lista de corte e perceber o que se vai produzir. Regras que valem para o desenho técnico de mobiliário:

Exemplo resolvido · da cota à lista de corte

Uma estante tem 1800 mm de altura, 800 mm de largura e 300 mm de profundidade, em aglomerado melamínico de 19 mm. As laterais vão de cima a baixo; o tampo, a base e três prateleiras ficam entre as laterais; as prateleiras são recuadas 20 mm na frente.

  1. Laterais: 1800 × 300 × 19, quantidade 2.
  2. Tampo e base: largura interior = 800 - 2 × 19 = 762 mm; peça 762 × 300 × 19, quantidade 2.
  3. Prateleiras: 762 × (300 - 20) = 762 × 280 × 19, quantidade 3.
  4. Fio da melamina com textura de madeira: no comprimento das laterais e na largura da estante (762) para as horizontais, para o desenho "correr" à volta do móvel.

O erro clássico é cortar o tampo com 800 mm, esquecendo que fica entre as laterais: a peça sai 38 mm maior e não entra.

Técnicas de medição e marcação linear

Exemplo resolvido · verificar a esquadria de um caixilho

Um caixilho tem 600 mm × 400 mm de medidas exteriores.

  1. Diagonal teórica = √(600² + 400²) = √(360 000 + 160 000) = √520 000 = 721,1 mm.
  2. Mede-se: uma diagonal dá 721 mm, a outra 725 mm.
  3. As diagonais diferem 4 mm: o caixilho não está em esquadria. Aperta-se no sentido da diagonal maior até as duas ficarem iguais, antes de a cola secar.

10. Cálculo de matérias-primas: peso, volume e quantidade por amostragem

Unidades e conversões

Os desenhos estão em milímetros, a madeira maciça compra-se ao metro cúbico (m³), os painéis ao metro quadrado (m²) ou à chapa, as ferragens à unidade ou ao quilo. Converter bem é metade do trabalho:

De Para Como
mm m dividir por 1000 (27 mm = 0,027 m)
mm² dividir por 1 000 000
mm³ dividir por 1 000 000 000
dm³ (litros) multiplicar por 1000
g kg dividir por 1000

Dica prática: converte todas as medidas para metros antes de multiplicar. Assim o resultado sai logo em m² ou m³ e não há zeros a mais ou a menos.

Volume de madeira maciça (cubicagem)

Para uma peça de forma regular:

Volume (m³) = comprimento (m) × largura (m) × espessura (m)

Exemplo resolvido · cubicar um lote de tábuas

Chega um lote de 25 tábuas de castanho de 2500 × 150 × 27 mm. O preço de exemplo é 800 € por m³.

  1. Converter: 2,5 m × 0,15 m × 0,027 m.
  2. Volume de uma tábua = 2,5 × 0,15 × 0,027 = 0,010125 m³.
  3. Volume do lote = 0,010125 × 25 = 0,253 m³ (0,253125, arredondado).
  4. Valor do lote = 0,253125 × 800 = 202,50 €.

Confirma sempre na fatura se o volume é faturado pelas medidas nominais ou pelas reais, e se as tábuas têm todas o mesmo comprimento.

Massa a partir do volume

Massa (kg) = Volume (m³) × Massa volúmica (kg/m³)

Exemplo resolvido · calcular a massa de um lote

Uma tábua mede 2 m de comprimento, 0,3 m de largura e 0,02 m de espessura. A ficha técnica do fornecedor indica massa volúmica de 600 kg/m³ (a 12 %).

  1. Volume da tábua = 2 × 0,3 × 0,02 = 0,012 m³.
  2. Massa da tábua = 0,012 × 600 = 7,2 kg.
  3. Lote de 50 tábuas iguais: 7,2 × 50 = 360 kg.

Se o lote estiver mais húmido do que os 12 % da ficha técnica, vai pesar mais: a massa volúmica usada tem de corresponder ao teor de água real.

Exemplo resolvido · quanto pesa uma chapa de MDF?

Chapa de MDF de 2440 × 1220 × 19 mm, com massa volúmica de 750 kg/m³ (valor da ficha técnica deste exemplo).

  1. Volume = 2,44 × 1,22 × 0,019 = 0,0566 m³.
  2. Massa = 0,0566 × 750 = cerca de 42 kg.

Uma chapa inteira destas não é carga para uma pessoa sozinha: movimenta-se a dois ou com meios mecânicos (ver capítulo 14). Uma palete de 30 chapas pesa cerca de 1,27 toneladas (30 × 42,4 kg), o que conta para o empilhador e para o piso do armazém.

Massa volúmica a partir de uma amostra

Quando a ficha técnica não indica a massa volúmica (ou há dúvidas sobre a espécie), mede-se e pesa-se um provete:

Exemplo resolvido

Um provete de 300 × 50 × 20 mm pesa 180 g.

  1. Volume = 0,3 × 0,05 × 0,02 = 0,0003 m³.
  2. Massa = 180 g = 0,18 kg.
  3. Massa volúmica = 0,18 ÷ 0,0003 = 600 kg/m³, ao teor de água a que o provete estava (mede-o também).

Quantidade por amostragem

Quando o lote é grande ou irregular, não se pesa nem se mede cada peça: usa-se uma amostra.

  1. Escolher a amostra ao acaso, de várias zonas da pilha (em cima, no meio, em baixo, dos dois lados), e não apenas as peças mais acessíveis ou de melhor aspeto.
  2. Pesar ou medir cada peça da amostra.
  3. Calcular a média da amostra.
  4. Extrapolar: multiplicar a média pelo número de peças do lote.
  5. Registar o método, a dimensão da amostra e o resultado na ficha de produção.

Exemplo resolvido · massa de um lote de 60 peças

Da pilha de 60 peças retiram-se 8 ao acaso, de zonas diferentes. Massas: 6,8 · 7,4 · 7,1 · 6,5 · 7,9 · 7,2 · 6,9 · 7,6 kg.

  1. Soma = 57,4 kg.
  2. Média = 57,4 ÷ 8 = 7,175 kg por peça.
  3. Estimativa do lote = 7,175 × 60 = 430,5 kg, ou seja, cerca de 430 kg.

Se as massas da amostra variassem muito (por exemplo de 4 a 11 kg), a amostra teria de ser maior, ou o lote separado por tipos de peça antes de amostrar.

Exemplo resolvido · contar parafusos pelo peso

Para conferir um saco de parafusos sem os contar um a um:

  1. Contam-se 100 parafusos e pesam-se: 250 g, ou seja, 2,5 g cada um.
  2. Pesa-se o conteúdo do saco (descontando o peso da embalagem, a tara): 3,75 kg = 3750 g.
  3. Quantidade = 3750 ÷ 2,5 = 1500 parafusos.

O mesmo método serve para cavilhas, pregos, excêntricos e outras pequenas ferragens.

11. Produtos em bruto e desperdícios

Da medida acabada à medida em bruto

A peça acabada é sempre menor do que a peça em bruto de onde sai. Entre uma e outra perde-se material no destope (acertar os topos, eliminar rachas), no desempeno e desengrosso (acertar faces e dar a espessura), no corte (a espessura da serra) e na eliminação de defeitos. Por isso, à medida acabada juntam-se sobremedidas, cujos valores cada empresa define na sua norma interna, conforme a máquina, a espécie e o estado da madeira.

Na madeira maciça, a espessura em bruto é também condicionada pelas espessuras comerciais disponíveis no fornecedor: escolhe-se a primeira espessura comercial que deixa margem para desengrossar.

Exemplo resolvido · calcular a peça em bruto

Uma perna de mesa acabada mede 700 × 60 × 22 mm. A norma interna da oficina deste exemplo manda juntar 30 mm no comprimento, 5 mm na largura e pelo menos 3 mm na espessura; o fornecedor tem tábuas de 27 e 32 mm.

  1. Comprimento em bruto = 700 + 30 = 730 mm.
  2. Largura em bruto = 60 + 5 = 65 mm.
  3. Espessura: 22 + 3 = 25 mm; a primeira espessura comercial que chega é 27 mm.
  4. Peça em bruto: 730 × 65 × 27 mm.
  5. Volume acabado = 0,70 × 0,06 × 0,022 = 0,000924 m³; volume em bruto = 0,73 × 0,065 × 0,027 = 0,001281 m³.
  6. Rendimento desta peça = 0,000924 ÷ 0,001281 = 0,72, cerca de 72 %. Antes de pôr a primeira máquina a trabalhar, já se sabe que mais de um quarto da madeira comprada vai ser apara e serradura.

Rendimento e desperdício

Nem todas as sobras são desperdício: um retalho com dimensões úteis identifica-se, arruma-se e volta a ser usado. O desperdício é o que já não serve para nenhuma peça.

Exemplo resolvido · rendimento de um lote de madeira maciça

De um lote de tábuas com 1,5 m³ de volume bruto, aproveitam-se 1,2 m³ em peças acabadas; o resto vai para aparas, serradura e peças com defeitos.

  1. Rendimento = 1,2 ÷ 1,5 = 0,80, ou seja, 80 %.
  2. Desperdício = 1,5 - 1,2 = 0,3 m³, ou seja, 20 %.
  3. Com a madeira a 800 € por m³ (preço de exemplo), o desperdício custa 0,3 × 800 = 240 €.

Plano de corte e nesting de painéis

Nos painéis, o cálculo faz-se em área (m²) e em número de chapas. O plano de corte (numa seccionadora) ou o nesting (encaixe automático das peças na chapa, feito pelo software da CNC) arruma as peças no formato do painel para gastar o mínimo. Há três "consumos" que o plano tem de prever:

Exemplo resolvido · quantas estantes por chapa?

Retoma a estante do capítulo 9: 2 laterais de 1800 × 300, 2 horizontais de 762 × 300 e 3 prateleiras de 762 × 280, todas em aglomerado melamínico de 19 mm. As chapas deste fornecedor medem 2800 × 2070 mm, com o veio no comprimento.

  1. Área de peças por estante: 2 × (1,8 × 0,3) + 2 × (0,762 × 0,3) + 3 × (0,762 × 0,28) = 1,08 + 0,4572 + 0,64008 = 2,177 m².
  2. Área da chapa = 2,8 × 2,07 = 5,796 m².
  3. Arranjo em faixas ao longo dos 2800 mm: numa faixa de 300 mm cabem uma lateral e uma horizontal (1800 + 762 = 2562 mm, mais os cortes); numa faixa de 280 mm cabem três prateleiras (3 × 762 = 2286 mm). Cada estante gasta duas faixas de 300 mm e uma de 280 mm, isto é, 880 mm da largura da chapa.
  4. Na largura de 2070 mm cabem as faixas de duas estantes (2 × 880 = 1760 mm, mais os cortes e a refilagem).
  5. Rendimento = (2 × 2,177) ÷ 5,796 = 4,355 ÷ 5,796 = 0,75, cerca de 75 %.
  6. Desperdício = 5,796 - 4,355 = 1,44 m² por chapa, cerca de 25 %; a faixa que sobra (2070 - 1760 = 310 mm, menos os cortes e a refilagem, fica com cerca de 260 mm) pode ser guardada como retalho para prateleiras de outros móveis.

Para uma encomenda de 10 estantes são precisas 5 chapas, mais a reserva que a empresa definir para peças que saiam com defeito.

Para o desenho de produto: pequenas alterações de medida podem mudar o rendimento. Se a estante tivesse 350 mm de profundidade, as faixas de duas estantes somariam 2 × (350 + 350 + 330) = 2060 mm, e com os cortes e a refilagem já não caberiam na chapa de 2070 mm: passava a ser uma estante e meia por chapa. Conhecer os formatos dos painéis antes de fixar as medidas do produto é uma forma direta de baixar o custo.

12. Receção, documentação e organização do armazém

Documentos que se consultam e se produzem

Uma ficha de produção de receção de matéria-prima inclui, no mínimo:

Campo Exemplo
Identificação do lote L-2026-0412
Fornecedor e n.º da guia Serração X, guia n.º 1534
Material e especificação castanho (Castanea sativa), serrado, classe de aspeto "primeira"
Dimensões nominais e medidas 2500 × 150 × 27 mm; espessura medida 26,8 a 27,3 mm
Quantidade 25 tábuas, 0,253 m³
Teor de água 10 medições, entre 11 e 13 %
Defeitos e decisão 23 aceites, 1 aceite com reserva, 1 rejeitada (racha passante)
Localização no armazém zona B, pilha 3
Data e responsável data da receção, nome e assinatura

Sem registo não há rastreabilidade: se aparecer um problema num móvel já entregue, é a ficha de produção que permite saber de que lote veio a madeira e que outros móveis podem ter o mesmo problema.

Armazenar corretamente

Madeira maciça

Painéis derivados

Regras gerais

13. Normas da qualidade

O que é qualidade na preparação de matéria-prima

Qualidade é cumprir a especificação, sempre, com o menor desperdício possível. Na prática da receção e preparação, traduz-se em quatro hábitos:

  1. Conferir o que chega contra o que foi pedido (espécie, norma, tipo, espessura, quantidade).
  2. Medir e registar, em vez de "achar".
  3. Separar o que não está conforme, antes que chegue às máquinas.
  4. Tratar as não conformidades e evitar que se repitam.

Muitas empresas do setor têm um sistema de gestão da qualidade segundo a norma NP EN ISO 9001, que exige, entre outras coisas, controlo dos produtos comprados, rastreabilidade, tratamento das não conformidades e ações corretivas.

Não conformidades

Uma não conformidade é qualquer falha em cumprir um requisito: espessura fora da tolerância, espécie trocada, teor de água acima do pedido, defeitos acima do admitido, quantidade em falta, painel sem a classe de emissão exigida.

O tratamento segue sempre os mesmos passos:

  1. Identificar e separar o material (etiqueta "não conforme", zona própria).
  2. Registar: o que é, quanto é, como foi detetado, fotografias.
  3. Decidir, com o responsável: devolver ao fornecedor, reclassificar para outro uso, aproveitar com correção (por exemplo destopar) ou aceitar com autorização do cliente.
  4. Analisar a causa e definir uma ação corretiva para que não se repita (mudar a especificação da encomenda, mudar de fornecedor, melhorar o armazenamento).

Exemplo resolvido · painéis mais finos do que o pedido

Chegam 40 chapas de MDF encomendadas com 19 mm. Medidas com paquímetro em vários pontos de 5 chapas, dão entre 17,9 e 18,1 mm.

  1. A diferença (cerca de 1 mm) é muito maior do que as tolerâncias habituais de um MDF de 19 mm: a ficha técnica confirma que o lote está fora de tolerância.
  2. Separa-se e etiqueta-se o lote como não conforme; regista-se com fotografias das medições.
  3. Consequências se entrasse em produção: as ranhuras e os rebaixos programados na CNC para 19 mm ficariam com folga, as dobradiças e as ferragens de ligação não assentariam como previsto.
  4. Decisão com o responsável: devolução ao fornecedor; a ordem de fabrico é reprogramada.
  5. Ação corretiva: incluir na nota de encomenda a norma (EN 622-5), o tipo e a espessura, e passar a medir sempre uma amostra à receção.

Normas que vais encontrar nesta UC

Norma Assunto
EN 338 classes de resistência da madeira estrutural (C e D)
NP 4305 classificação visual do pinho bravo para estruturas
EN 1912 correspondência entre classes visuais e classes de resistência
EN 14081-1 madeira estrutural, marcação CE
EN 975-1, EN 1611-1 classificação de aspeto de folhosas (carvalho e faia) e de resinosas
EN 350 durabilidade natural da madeira
EN 942 madeira em carpintaria, requisitos gerais (inclui teores de água de referência)
EN 13183-1 e 13183-2 teor de água: método da estufa e método da resistência elétrica
EN 312, EN 300, EN 622-5, EN 636 aglomerado, OSB, MDF, contraplacado
EN 13986 painéis derivados para a construção, marcação CE (inclui a classe E1)
EN 204 classes de durabilidade das colas PVA
NP EN ISO 9001 sistemas de gestão da qualidade

14. Segurança e saúde no trabalho

Enquadramento

Em Portugal, o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho é a Lei n.º 102/2009: o empregador avalia os riscos e organiza a prevenção, e o trabalhador cumpre as instruções, usa corretamente os equipamentos de trabalho e o EPI e comunica as situações de perigo. Cada empresa concretiza isto nos seus procedimentos internos de segurança, e cumpri-los é um dos critérios de desempenho desta UC.

Riscos na preparação de madeiras e derivados

Risco Onde aparece Prevenção
Pó de madeira corte, lixagem, maquinação CNC, limpeza aspiração na origem, limpeza por aspiração, proteção respiratória quando não chega
Ruído serras, desengrossadeira, tupia, CNC, aspiração máquinas com proteção, redução do tempo de exposição, protetores auditivos
Cortes e perfurações arestas de chapas, lascas, ferramentas, pregos em paletes luvas no manuseamento de material, arrumação
Movimentação manual de cargas chapas, tábuas, paletes, sacos de ferragens meios mecânicos, trabalho a dois, técnica correta
Queda de materiais pilhas mal feitas, painéis encostados pilhas estáveis, estantes próprias, calçado de proteção
Produtos químicos colas, vernizes, solventes, formaldeído ventilação, FDS, luvas e proteção respiratória adequadas
Incêndio e explosão pó acumulado, solventes, aparas limpeza, armazenamento de inflamáveis, extintores

O pó de madeira

O pó de madeira não é "só sujidade". O pó de madeiras duras (folhosas) é reconhecido como agente cancerígeno (associado ao cancro das fossas nasais e seios perinasais), e todo o pó de madeira pode causar irritação, alergias e asma.

A Diretiva (UE) 2017/2398, transposta para o direito português pelo Decreto-Lei n.º 35/2020, fixou para as poeiras de madeira de folhosas um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³ (média ponderada de 8 horas), aplicável desde 17 de janeiro de 2023, depois de um período transitório com 3 mg/m³. Quando o pó de folhosas está misturado com pó de outras madeiras, o valor-limite aplica-se a todo o pó da mistura.

A prevenção segue uma ordem que não se inverte:

  1. Captação na origem: aspiração ligada a cada máquina (serras, lixadoras, CNC) e a funcionar sempre que a máquina trabalha.
  2. Limpeza por aspiração, nunca com ar comprimido nem com vassoura a seco, que levantam o pó fino.
  3. Proteção respiratória quando a captação não chega: máscaras de filtragem FFP2 ou FFP3 (norma EN 149), bem ajustadas à cara (a barba impede a vedação).

Ruído

O Decreto-Lei n.º 182/2006 define, para a exposição diária ao ruído, um valor de ação inferior de 80 dB(A) (o empregador disponibiliza protetores auditivos), um valor de ação superior de 85 dB(A) (o uso de protetores passa a ser obrigatório) e um valor-limite de 87 dB(A), que não pode ser ultrapassado tendo em conta a proteção usada. Muitas máquinas de carpintaria ultrapassam os 85 dB(A) quando cortam.

Movimentação manual de cargas

Uma chapa de MDF de 19 mm com 2440 × 1220 mm pesa cerca de 42 kg (capítulo 10). Regras:

Equipamento de proteção individual (EPI)

O EPI é a última barreira, depois das medidas técnicas e de organização, mas é obrigatório sempre que o risco persiste. Deve ter marcação CE, ser adequado ao risco, estar em bom estado e ajustado a quem o usa.

EPI Protege de Referência normativa usual
Óculos ou viseira de proteção projeção de partículas, lascas, salpicos EN 166
Protetores auditivos (auriculares ou tampões) ruído EN 352
Máscara de filtragem FFP2/FFP3 pó de madeira EN 149
Luvas de proteção mecânica cortes e farpas no manuseamento de chapas e tábuas EN 388
Luvas de proteção química colas, vernizes, solventes conforme a FDS do produto
Calçado de segurança com biqueira queda de materiais, perfuração EN ISO 20345
Vestuário de trabalho justo enrolamento em partes móveis ·

Atenção: luvas, mangas largas, cabelo solto, fios e pulseiras não se usam junto de ferramentas rotativas (serras, tupias, brocas, torno), porque podem ser apanhados e arrastar a mão. As luvas usam-se para manusear material, e tiram-se para trabalhar na máquina.

Boas práticas de segurança no posto

Erros comuns

Glossário

Síntese

Preparar e organizar madeiras e derivados começa por conhecer as espécies (resinosas e folhosas, nacionais e exóticas, pelo nome científico) e as suas propriedades físicas, mecânicas e químicas, com destaque para a higroscopia: o teor de água calcula-se em base seca, deve estar perto do valor de serviço, e a madeira retrai sobretudo na direção tangencial. A partir daí, classifica-se a madeira (por aspeto ou por resistência, segundo normas como a EN 338 e a NP 4305) e reconhecem-se os defeitos que decidem o destino de cada peça. Os derivados (folhas, contraplacados, lamelados, aglomerados, OSB, MDF) escolhem-se pela norma, pelo tipo e pela classe de emissão, e os outros materiais (metais, compósitos, vidro, pedra, polímeros, borrachas), os adesivos e os produtos de acabamento completam a lista de materiais. Os instrumentos e as técnicas de medição e marcação ligam o desenho à peça, e os cálculos (volume, massa, amostragem, peças em bruto, rendimento e desperdício) transformam o projeto em quantidades concretas a encomendar e a preparar. Tudo isto assenta em documentação e organização (ficha de produção, armazenamento), em qualidade (tratamento de não conformidades) e em segurança (pó, ruído, cargas, químicos, EPI), os pilares que garantem rastreabilidade e integridade a quem prepara a matéria-prima.

Exercícios resolvidos

1. Distingue resinosa de folhosa e dá um exemplo português de cada, com o nome científico.

Resolução: as resinosas são coníferas, de folhas em agulha ou escama, como o pinho bravo (Pinus pinaster); as folhosas são árvores de folha larga, cuja madeira tem poros, como o castanho (Castanea sativa). A distinção é botânica e não garante sozinha a dureza real da madeira.

2. Um provete pesa 348 g húmido e 300 g depois de seco em estufa. Qual é o teor de água? Serve para um móvel de interior?

Resolução: massa de água = 348 - 300 = 48 g; teor de água = 48 ÷ 300 × 100 = 16 % (em base seca, sobre a massa anidra). Para mobiliário de interior pede-se na ordem de 8 a 12 %: o lote ainda não serve, tem de secar ou estabilizar. Quem dividisse pela massa húmida obteria 13,8 % e subestimaria o problema.

3. Porque é que uma tábua de corte tangencial abaula mais do que uma de corte radial?

Resolução: porque a retração tangencial é cerca do dobro da radial. Na tábua de corte tangencial, a largura acompanha os anéis, e a face mais próxima da casca retrai mais: a tábua fica em meia-cana, côncava desse lado. Na de corte radial, a largura segue a direção radial, que mexe menos.

4. Uma tábua tem 1,5 m × 0,2 m × 0,03 m e massa volúmica de 500 kg/m³. Calcula a massa.

Resolução: volume = 1,5 × 0,2 × 0,03 = 0,009 m³; massa = 0,009 × 500 = 4,5 kg. As medidas já estavam em metros, por isso o volume sai diretamente em m³.

5. Um lote de tábuas com 2 m³ de volume bruto rende 1,6 m³ de peças acabadas. Calcula o rendimento e o desperdício.

Resolução: rendimento = 1,6 ÷ 2 = 0,80 (80 %); desperdício = 2 - 1,6 = 0,4 m³ (20 %).

6. Que painel escolherias para as frentes lacadas de um móvel de casa de banho, e o que escreverias na encomenda?

Resolução: MDF para ambiente húmido, porque maquina e laca sem deixar ver fio e resiste melhor à humidade. Na encomenda: "MDF, EN 622-5, tipo MDF.H, espessura 19 mm (ou a do desenho), formato do catálogo, com declaração de conformidade com os limites de emissão de formaldeído em vigor". Sem norma, tipo e espessura, pode chegar um MDF comum.

7. Porque é que o contraplacado tem um número ímpar de folhas?

Resolução: as folhas são coladas com o fio cruzado a 90°, para que cada uma trave o movimento da vizinha. Com número ímpar, o painel é simétrico em relação à folha central e as tensões equilibram-se nas duas faces; com número par, o painel tenderia a empenar.

8. Um lote tem 40 peças irregulares. Pesaste 5, escolhidas ao acaso de zonas diferentes: 8,2 · 7,6 · 8,8 · 7,9 · 8,5 kg. Estima a massa do lote.

Resolução: soma = 41,0 kg; média = 41,0 ÷ 5 = 8,2 kg; massa estimada = 8,2 × 40 = 328 kg. A estimativa só é fiável se a amostra for representativa, com peças de toda a pilha e não só das mais acessíveis.

9. Uma prateleira acabada tem 762 × 280 × 19 mm em aglomerado melamínico. Quantas cabem numa faixa de chapa com 2800 mm de comprimento, se cada corte gasta 4 mm e se refilam 10 mm em cada topo?

Resolução: comprimento útil = 2800 - 2 × 10 = 2780 mm. Três prateleiras precisam de 3 × 762 + 2 × 4 = 2294 mm; quatro precisariam de 4 × 762 + 3 × 4 = 3060 mm, mais do que os 2780 disponíveis. Cabem 3 prateleiras por faixa, e sobra um retalho de cerca de 2780 - 2294 - 4 = 482 mm.

10. Estás a lixar tampos de carvalho numa lixadora com aspiração. Que riscos existem e como te proteges?

Resolução: o pó de carvalho é pó de madeira dura, cancerígeno reconhecido, com valor-limite de exposição de 2 mg/m³; há também ruído. Proteção por esta ordem: aspiração ligada e eficaz na origem, limpeza por aspiração (nunca ar comprimido), máscara FFP2 ou FFP3 se a captação não chegar, óculos e protetores auditivos. Sem luvas junto da parte rotativa da máquina.