Sebenta · Programar manipuladores industriais robóticos (UC01187)
- Introdução
- 1. Robótica industrial: evolução e relevância
- 2. Classificação e características dos robots industriais
- 3. Componentes de um manipulador robótico
- 4. Linguagens de programação: RAPID, KRL e outras
- 5. Princípios de programação: dados, decisão e repetição
- 6. Controlo PID e sistemas com feedback
- 7. Software de simulação
- 8. Cinemática, dinâmica e planeamento de trajetórias
- 9. Operações industriais e visão artificial
- 10. Protocolos de comunicação industrial e integração
- 11. Normas e práticas de operação de sistemas robóticos
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a programar manipuladores industriais robóticos, do primeiro ponto ensinado na consola até à célula integrada numa linha de produção. Um manipulador robótico é uma máquina reprogramável, com vários eixos, capaz de repetir trajetórias com precisão que nenhum operador humano sustenta durante um turno inteiro. Programá-lo bem é o que transforma essa máquina em valor real para a fábrica.
O percurso segue a lógica de um técnico de automação: primeiro conhecer o robot e as suas variantes, depois programar trajetórias e dados numa linguagem própria (RAPID, KRL), controlar o movimento com PID e realimentação (feedback), aplicar tudo a operações industriais concretas (soldadura, montagem, pintura, embalagem, visão artificial) e, por fim, integrar o robot com autómatos e protocolos de comunicação, respeitando as normas de segurança.
Objetivos de aprendizagem (referencial): desenvolver algoritmos para planeamento de trajetórias de um manipulador robótico; implementar sistemas de controlo com feedback num manipulador robótico; integrar o manipulador robótico com sistemas de produção automatizados.
1. Robótica industrial: evolução e relevância
A robótica industrial nasceu em 1961, quando o Unimate entrou na linha da General Motors para soldar carroçarias, uma tarefa até então feita por operadores em condições perigosas. Desde aí, a robótica evoluiu de máquinas rígidas, programadas ponto a ponto e sem qualquer perceção do ambiente, até aos robots colaborativos (cobots) atuais, que trabalham lado a lado com pessoas e reagem a sensores de força e visão em tempo real.
Porque a indústria investe em robótica
- Produtividade: um manipulador robótico opera 24 horas por dia, sem fadiga, sem pausas e sem variação de desempenho ao longo do turno.
- Qualidade constante: repete a mesma trajetória com precisão sub-milimétrica, sempre da mesma forma, o que elimina a variabilidade humana.
- Segurança: assume tarefas perigosas, insalubres ou fisicamente exigentes, como soldadura, pintura com solventes ou manuseamento de cargas pesadas.
- Retorno do investimento: o custo de aquisição é elevado, mas amortiza-se rapidamente em produtividade, menos desperdício e menos acidentes de trabalho.
Em Portugal, setores como a indústria automóvel (por exemplo, componentes para a Autoeuropa em Palmela) e a eletrónica (linhas da Bosch em Braga) empregam centenas de robots industriais em soldadura, montagem e paletização. A robótica industrial não substitui apenas mãos: substitui variabilidade por repetibilidade, e é exatamente essa repetibilidade que um programa bem escrito garante.
2. Classificação e características dos robots industriais
Os manipuladores industriais classificam-se pela sua arquitetura cinemática, ou seja, pela forma como os eixos e as juntas estão dispostos.
| Tipo | Estrutura | Eixos típicos | Aplicação típica |
|---|---|---|---|
| Articulado (6 eixos) | braço tipo humano, todas as juntas rotativas | 6 | soldadura, pintura, manuseamento geral |
| SCARA | dois eixos rotativos horizontais + um vertical | 4 | montagem eletrónica, inserção de componentes |
| Delta (paralelo) | três a quatro braços paralelos suspensos sobre uma base | 3-4 | embalagem alimentar e farmacêutica, triagem a alta velocidade |
| Cartesiano | três eixos lineares (X, Y, Z), perpendiculares entre si | 3 | maquinação, dispensação de cola, paletização |
| Cilíndrico | um eixo rotativo mais dois lineares | 3 | carga e descarga de máquinas |
O robot articulado de 6 eixos é o mais versátil: consegue orientar a ferramenta em praticamente qualquer ângulo, mas é mais lento e mais caro do que arquiteturas especializadas. O SCARA é rígido na vertical e muito rápido no plano horizontal, ideal para inserir componentes eletrónicos em placas. O delta, com os seus braços paralelos leves, atinge acelerações extremas, sendo a escolha natural para embalar produtos a alta cadência. Já o cartesiano move-se em linhas retas simples, o que o torna fácil de programar e muito preciso, mas limitado a um volume de trabalho em forma de caixa.
Escolher a arquitetura correta é a primeira decisão de qualquer projeto de automação: um SCARA rápido não serve para soldar uma carroçaria, tal como um articulado de 6 eixos é um exagero caro para embalar chocolates.
3. Componentes de um manipulador robótico
Um manipulador robótico industrial é composto por três grandes grupos: a mecânica, os sensores e o controlador, e a interface de utilizador.
Componentes mecânicos e atuadores
- Base: fixa o robot ao pavimento ou a uma estrutura; é o ponto de referência absoluto, o world frame.
- Braço e antebraço: elos rígidos ligados entre si por juntas, que definem o alcance do robot.
- Punho (wrist): os últimos dois ou três eixos, responsáveis pela orientação final da ferramenta.
- Efetuador final (end-effector): a ferramenta montada na ponta, seja uma garra de dois dedos, uma pinça de vácuo, uma tocha de soldadura ou uma pistola de pintura.
- Atuadores: na esmagadora maioria dos manipuladores modernos são servomotores elétricos, escolhidos pela precisão de posição e controlo de velocidade. Sistemas pneumáticos são usados sobretudo em garras simples (rápidas, mas pouco precisas); os hidráulicos reservam-se a robots de cargas muito elevadas.
Sensores, controlador e interfaces de utilizador
- Encoders: medem a posição angular de cada junta e realimentam o controlador dezenas ou centenas de vezes por segundo. Sem eles, o robot não sabe onde está.
- Sensores de força/torque: detetam o contacto com uma peça ou superfície, essenciais em montagem de precisão.
- Controlador: o computador industrial que corre o sistema operativo do fabricante e o programa do técnico, normalmente instalado num armário próprio junto ao robot.
- Consola de controlo (teach pendant): dispositivo portátil (o FlexPendant da ABB, o smartPAD da KUKA) usado para programar, mover o robot manualmente (jog) e testar trajetórias em segurança.
- Interfaces de utilizador: o ecrã táctil da consola e o software de programação offline no computador, que é onde o técnico passa a maior parte do tempo a projetar o comportamento do robot.
4. Linguagens de programação: RAPID, KRL e outras
Cada fabricante de robots tem a sua linguagem própria, orientada a movimento no espaço, algo bastante diferente de uma linguagem de programação de propósito geral.
RAPID (ABB)
MODULE Main
PROC main()
MoveJ p_home, v1000, z50, tool0;
MoveL p_pick, v200, fine, tool0;
Set do_pinca;
MoveL p_place, v200, fine, tool0;
Reset do_pinca;
ENDPROC
ENDMODULE
KRL (KUKA)
DEF main()
PTP HOME
LIN p_pick C_DIS
$OUT[1] = TRUE
LIN p_place C_DIS
$OUT[1] = FALSE
END
Ambos os exemplos fazem exatamente a mesma coisa: movem o robot até um ponto de recolha, atuam a ferramenta (ligam uma garra ou pinça de vácuo) e movem-se até um ponto de largada. A sintaxe muda (MoveJ/PTP, MoveL/LIN), mas a lógica é idêntica, e é essa lógica que se transfere de fabricante para fabricante.
Outras linguagens e modos de programação
Outros fabricantes têm as suas próprias linguagens: TP (Fanuc), PDL2 (Adept), URScript (Universal Robots). Cada vez mais surgem também camadas de programação por blocos gráficos e integrações via API com linguagens comuns como Python, mas o núcleo de comandos de movimento e dados mantém-se específico do fabricante.
Existem dois modos de programação:
- Online: com o robot real, usando a consola para "ensinar" pontos (teach) fisicamente, movendo o robot com o jog até à posição desejada e gravando-a.
- Offline: num computador, dentro de um software de simulação, sem parar a linha de produção real (ver capítulo 7).
5. Princípios de programação: dados, decisão e repetição
Manipulação de dados
O programador de um robot manipula tipos de dados específicos da robótica, além dos tipos comuns (números, booleanos, texto):
| Tipo | Exemplo (RAPID) | Guarda |
|---|---|---|
num |
n_pecas := 12; |
um número |
bool |
ok := TRUE; |
verdadeiro ou falso |
string |
msg := "Erro"; |
uma cadeia de texto |
robtarget |
p_pick |
posição e orientação completas no espaço |
speeddata |
v200 |
velocidade de deslocação |
zonedata |
z50 ou fine |
tolerância de aproximação ao ponto |
O robtarget (ou o equivalente FRAME/POS noutras linguagens) é a estrutura de dados central da robótica: não guarda só três coordenadas, guarda também a orientação da ferramenta nesse ponto.
Estruturas de decisão e repetição
IF sensor_peca = TRUE THEN
MoveL p_pick, v200, fine, tool0;
ELSE
TPWrite "Sem peca detetada";
ENDIF
FOR i FROM 1 TO 6 DO
MoveJ pontos{i}, v500, z20, tool0;
ENDFOR
WHILE contador < 100 DO
contador := contador + 1;
ENDWHILE
- IF/ELSE: toma decisões consoante um sensor, uma variável ou um cálculo prévio.
- FOR: repete um número conhecido de vezes; ideal para percorrer uma grelha de pontos, como numa paletização.
- WHILE: repete enquanto uma condição se mantiver verdadeira, útil em ciclos de produção contínuos que só param por comando externo.
6. Controlo PID e sistemas com feedback
O controlador PID
O PID é o algoritmo de controlo que garante que cada junta do robot segue a trajetória e a velocidade pretendidas, corrigindo continuamente o erro entre o que foi pedido e o que está a acontecer:
u(t) = Kp·e(t) + Ki·∫e(t)dt + Kd·de(t)/dt
- Proporcional (Kp): corrige de forma proporcional ao erro atual; um erro grande gera uma correção grande.
- Integral (Ki): acumula o erro ao longo do tempo, eliminando o erro residual que fica em regime permanente.
- Diferencial (Kd): reage à tendência de variação do erro, reduzindo oscilações e sobreelevação (overshoot).
Aumentar Kp torna a resposta mais rápida, mas mais oscilante; aumentar Ki elimina o erro residual, mas pode instabilizar o sistema (fenómeno de windup); aumentar Kd amortece oscilações, mas amplifica o ruído dos sensores. Sintonizar (tuning) um PID é encontrar o equilíbrio entre rapidez, estabilidade e suavidade.
A malha fechada de feedback
Referência (trajetória) → [+ erro] → PID → Atuador → Junta do robot
↑ |
└──────────────── Sensor (encoder/força) ←─────────┘
O feedback (realimentação) compara continuamente o que o robot está a fazer com o que devia estar a fazer, e corrige. Sem feedback, o robot seria cego, executaria o comando sem confirmar se atingiu o resultado. As fontes de feedback mais comuns num manipulador industrial são os encoders (posição de cada junta), os sensores de força/torque (contacto físico) e as câmaras de visão artificial (posição de peças no ambiente).
Caso real: inserção de um veio numa bucha com tolerância apertada.
- O robot aproxima a peça em posição pura (
MoveL) até perto do ponto de contacto. - Ativa o controlo de força: em vez de forçar a posição exata, avança até o sensor detetar uma resistência definida, por exemplo 5 N.
- Se a força ultrapassar um limiar de segurança, por exemplo 20 N, o programa interrompe a operação e assinala erro, evitando danificar a peça ou a ferramenta.
- Este ajuste em tempo real substitui a precisão posicional pura, que falharia sempre que houvesse uma pequena variação entre peças reais.
7. Software de simulação
O software de simulação (RobotStudio da ABB, KUKA.Sim, Process Simulate) cria um gémeo digital da célula robótica, permitindo testar trajetórias e colisões sem tocar no robot real nem parar a produção.
Fluxo de trabalho em simulação
- Importar a célula: os modelos CAD do robot, da mesa de trabalho e das peças.
- Definir pontos e trajetórias (targets) sobre o modelo tridimensional.
- Simular o ciclo: correr o programa virtualmente e medir o tempo de ciclo estimado.
- Validar colisões: o software assinala qualquer interferência entre o robot, a ferramenta e o ambiente.
- Exportar o programa já validado para o controlador do robot real.
- Calibrar no robot físico, porque o mundo real nunca é perfeitamente igual ao modelo virtual (tolerâncias de montagem, folgas mecânicas, desgaste).
A programação offline, feita inteiramente em simulação, é uma das competências mais valorizadas em automação: permite preparar um programa completo enquanto a linha real continua a produzir, poupando horas (ou dias) de máquina parada.
8. Cinemática, dinâmica e planeamento de trajetórias
Cinemática direta e inversa
- Cinemática direta: dados os ângulos de cada junta, calcula-se a posição e orientação da ferramenta no espaço. É um cálculo direto e relativamente simples.
- Cinemática inversa: dada a posição desejada da ferramenta, calculam-se os ângulos necessários em cada junta. É mais complexo, podendo ter várias soluções possíveis (por exemplo, "cotovelo para cima" ou "cotovelo para baixo" chegam ao mesmo ponto) ou nenhuma solução válida, se o ponto estiver fora do alcance do robot.
O controlador resolve a cinemática inversa automaticamente sempre que o programador especifica um ponto cartesiano; é um trabalho invisível, mas constante, em cada instrução de movimento.
Planeamento de trajetórias
| Tipo de movimento | Percurso da ferramenta | Uso típico |
|---|---|---|
| PTP / MoveJ | não é uma linha reta; cada junta move-se ao seu ritmo ótimo | transições rápidas sem obstáculos |
| LIN / MoveL | linha reta no espaço cartesiano | movimentos previsíveis, perto de obstáculos |
| CIRC | arco definido por três pontos | soldadura de cordões curvos |
O perfil de velocidade de cada movimento (aceleração, velocidade de cruzeiro, desaceleração, normalmente em forma trapezoidal ou em S) evita vibrações e reduz o desgaste mecânico. A zona de aproximação (blend) decide se o robot para exatamente no ponto (fine) ou faz uma curva suave que poupa tempo de ciclo (z10, z50).
Do referencial: desenvolver algoritmos para planeamento de trajetórias de um manipulador robótico significa escolher, para cada troço do percurso, o tipo de movimento (PTP, LIN, CIRC), a velocidade e a zona de aproximação que melhor equilibram precisão e otimização temporal, respeitando sempre as tolerâncias definidas para a tarefa.
Álgebra linear e geometria aplicada
Cada ponto do robot vive num sistema de referência (frame): o world frame (origem fixa da célula), o base frame (a base do robot) e o tool frame (a ponta da ferramenta). A posição e orientação de um ponto exprimem-se numa matriz de transformação homogénea 4x4, que combina uma matriz de rotação com um vetor de translação. Mudar de referencial, por exemplo do world para o tool, é multiplicar transformações em cadeia.
Exemplo resolvido. Um robot tem uma ferramenta montada com um deslocamento de +50 mm em Z relativo ao punho. O ponto de trabalho pretendido, medido na peça, é (300, 150, 200) mm no world frame.
Para a ponta da ferramenta chegar a (300, 150, 200), o punho do robot (sem a ferramenta) tem de estar em (300, 150, 200 − 50) = (300, 150, 150) mm. Este cálculo, uma vez o tooldata corretamente definido no software, é automático; mas se o deslocamento da ferramenta estiver mal configurado, todos os pontos ensinados ficam deslocados no mesmo erro. Por isso a ferramenta calibra-se antes de se ensinar qualquer ponto.
9. Operações industriais e visão artificial
Soldadura e montagem
Na soldadura por arco (MIG/MAG, TIG), a trajetória (normalmente CIRC/LIN) percorre o cordão a velocidade constante, essencial para um cordão uniforme, podendo incluir um padrão de tecelagem (weave) para cordões mais largos. O robot sincroniza o arranque e a paragem do arco com sinais digitais trocados com a fonte de soldadura.
Na montagem de precisão, os movimentos finais são lentos e usam controlo de força (ver capítulo 6), evitando danificar peças frágeis, e podem recorrer a uma função de pesquisa (search): o robot avança até um sensor detetar contacto, compensando pequenas variações de posição da peça real face ao modelo ensinado.
Pintura e embalagem
Na pintura por pulverização, as trajetórias são paralelas e sobrepostas, a distância e velocidade constantes da superfície, com a pistola a ligar e desligar de forma sincronizada com o início e o fim de cada passagem. É frequentemente uma tarefa exclusivamente robótica, pelo risco de explosão associado aos solventes.
Na embalagem e paletização, o ciclo (pega, move, larga) é otimizado ao máximo para velocidade, muitas vezes com robots delta ou SCARA. A paletização em grelha calcula posições sucessivas por incremento, tipicamente dentro de um ciclo FOR (capítulo 5), e pode incluir conveyor tracking, em que o robot ajusta a trajetória em tempo real para acompanhar uma peça em movimento no transportador.
Interação com linhas de montagem e sistemas de visão artificial
O robot raramente trabalha isolado: está sincronizado com transportadores e outras estações através de interlocks, sinais de segurança que impedem o avanço enquanto a estação seguinte não estiver pronta. Os sistemas de visão artificial (câmaras 2D ou 3D) identificam a posição e orientação de uma peça antes de o robot lhe tocar, sendo a calibração câmara-robot (que relaciona píxeis da imagem com coordenadas reais no world frame) um passo crítico. Uma das aplicações mais avançadas é o bin picking, em que o robot retira peças desordenadas de um cesto, guiado unicamente pela visão.
10. Protocolos de comunicação industrial e integração
O controlador do robot comunica constantemente com autómatos (PLC), sensores remotos e sistemas de supervisão, através de protocolos de comunicação industrial.
| Protocolo | Características | Uso típico |
|---|---|---|
| Ethernet/IP | sobre Ethernet padrão, rápido, com extensões em tempo real | automação de origem americana, cada vez mais global |
| Modbus (TCP/RTU) | simples, leve, modelo mestre/escravo | ainda muito usado, mesmo em instalações antigas |
| PROFIBUS | fieldbus difundido na indústria europeia | linhas de origem alemã, réplicas em várias fábricas nacionais |
| PROFINET | evolução do PROFIBUS sobre Ethernet industrial | maior largura de banda, substituto natural do PROFIBUS |
A escolha do protocolo raramente é feita de raiz; integra-se quase sempre com o que já existe instalado na fábrica. Dominar mais do que um protocolo torna o técnico versátil em qualquer ambiente industrial.
Sincronização com o autómato e integração final
O PLC (autómato) é normalmente o "maestro" da célula, decidindo quando o robot pode avançar, com base no estado da linha. A troca de sinais entre os dois chama-se handshaking: por exemplo, o PLC envia "peça pronta", o robot responde "a processar" e depois "concluído". A sincronização de ciclo, ou seja, encaixar o tempo de ciclo do robot no tempo de ciclo global da linha (takt time), é essencial, e é a causa mais comum de paragens em células robóticas reais quando falha.
Do lado dos recursos, uma célula robótica integrada precisa de autómatos, módulos compatíveis (entradas/saídas digitais e analógicas, módulos de comunicação), consolas gráficas para monitorização (HMI) e cablagem de suporte bem identificada e organizada, sem a qual qualquer diagnóstico futuro se torna impossível.
11. Normas e práticas de operação de sistemas robóticos
Cumprir as normas em vigor é um critério de desempenho explícito desta UC, não uma opção.
- ISO 10218-1/2: a norma de referência internacional para a segurança de robots industriais e das suas células.
- ISO/TS 15066: específica para robots colaborativos (cobots), define limites de força e velocidade em contacto com pessoas.
- Perímetro de segurança: vedações físicas, barreiras óticas (light curtains) e tapetes de segurança que impedem a entrada de pessoas na área de trabalho em modo automático.
- Paragem de emergência: um botão físico, sempre acessível, que corta o movimento de imediato.
- Modo manual reduzido: velocidade limitada quando um técnico está dentro da área de trabalho, usado para diagnóstico ou para ensinar pontos novos.
Entrar na área de trabalho de um robot em modo automático, mesmo "só um segundo", é uma das causas mais frequentes de acidentes graves em automação industrial. As normas existem precisamente para evitar isto, e cumpri-las é obrigação profissional, não sugestão.
Erros comuns
- Confundir trajetória PTP com LIN: usar sempre
MoveL"para ter a certeza" perde velocidade desnecessariamente em transições sem risco de colisão; usar sempreMoveJarrisca colisões em espaços apertados. - Ignorar o alcance real do robot: planear pontos fora do espaço de trabalho (workspace), o que causa erros de cinemática inversa sem solução.
- Configurar mal a ferramenta (
tooldata): um deslocamento errado no tool frame propaga-se a todos os pontos ensinados, deslocando toda a trajetória. - Confiar só na posição pura em tarefas de montagem de precisão: sem controlo de força, pequenas variações entre peças reais fazem a operação falhar repetidamente.
- Saltar a validação de colisões em simulação por pressa: é precisamente essa fase que evita danificar o robot, a ferramenta ou a célula.
- Programar a célula do robot isoladamente: pensar a integração com o PLC e a linha só no fim, em vez de desde o início do projeto.
- Entrar na área de trabalho em automático: violação de segurança grave, mesmo que "só por um segundo".
Glossário
- Manipulador robótico · braço mecânico reprogramável, com vários eixos, controlado por um programa.
- End-effector (efetuador final) · a ferramenta montada na ponta do robot (garra, pinça, tocha).
- Teach pendant (consola de controlo) · dispositivo portátil para programar e mover o robot manualmente.
- RAPID / KRL · linguagens de programação de robots da ABB e da KUKA, respetivamente.
- Robtarget · estrutura de dados que guarda a posição e orientação de um ponto no espaço.
- PID · algoritmo de controlo proporcional, integral e diferencial.
- Feedback (realimentação) · informação de sensores usada para corrigir o comportamento do robot em tempo real.
- Cinemática direta / inversa · cálculo da posição a partir dos ângulos das juntas, e vice-versa.
- PTP, LIN, CIRC · tipos de movimento: ponto a ponto, linear e circular.
- World frame, tool frame · sistemas de referência absolutos e relativos à ferramenta.
- Bin picking · recolha de peças desordenadas guiada por visão artificial.
- Handshaking · troca de sinais de confirmação entre o robot e o autómato.
- Ethernet/IP, Modbus, PROFIBUS · protocolos de comunicação industrial.
- ISO 10218 / ISO 15066 · normas de segurança para robots industriais e colaborativos.
Síntese
Programar um manipulador industrial robótico junta cinco competências que se sustentam mutuamente: conhecer a arquitetura e os componentes do robot; escrever trajetórias e lógica numa linguagem própria (RAPID, KRL); aplicar controlo PID e feedback para corrigir o comportamento em tempo real; adaptar tudo a operações industriais concretas (soldadura, montagem, pintura, embalagem, visão); e integrar o resultado num sistema de produção automatizado, através de protocolos de comunicação e sincronização com o autómato, sempre dentro das normas de segurança em vigor. Nenhuma destas cinco frentes funciona isolada: um robot bem programado mas mal integrado é tão inútil como um mal programado mas perfeitamente ligado à linha.
Exercícios resolvidos
1. Uma fábrica precisa de embalar caixas de bombons a alta velocidade, com peças leves. Que arquitetura de robot escolherias e porquê?
Resolução: um robot delta (paralelo). É a arquitetura mais rápida para cargas leves, graças à leveza dos seus braços paralelos suspensos sobre a base, exatamente o perfil de uma tarefa de embalagem a alta cadência.
2. Explica a diferença entre MoveJ e MoveL em RAPID, e indica quando usarias cada um.
Resolução:
MoveJ(PTP) move cada junta ao seu ritmo ótimo, sem percorrer uma linha reta com a ferramenta, sendo mais rápido; usa-se em transições sem risco de colisão.MoveL(linear) obriga a ferramenta a seguir uma linha reta no espaço cartesiano, sendo mais previsível; usa-se perto de obstáculos ou onde o percurso exato importa, como ao aproximar uma peça.
3. Um robot está a oscilar visivelmente ao aproximar-se do ponto final de uma trajetória. Que parâmetro do PID suspeitarias primeiro, e que ajuste farias?
Resolução: suspeitar-se-ia de um ganho Kp demasiado alto ou de um Kd demasiado baixo. Reduzir ligeiramente o Kp ou aumentar o Kd amortece a oscilação, ao custo de uma resposta ligeiramente mais lenta.
4. Numa tarefa de inserção de precisão, porque não basta programar a posição exata do ponto de destino?
Resolução: porque as peças reais têm folgas e tolerâncias de fabrico; uma posição pura falharia sempre que a peça estivesse ligeiramente deslocada face ao modelo ensinado. É preciso ativar controlo de força, avançando até um sensor detetar a resistência esperada, com um limiar de segurança que interrompe a operação se a força ultrapassar um valor definido.
5. Um robot está corretamente programado, mas a célula pára repetidamente numa fábrica com um PLC a controlar a linha. Qual a causa mais provável e como se diagnostica?
Resolução: a causa mais provável é uma falha de sincronização (handshaking) entre o robot e o autómato, por exemplo o robot avançar sem confirmar que a peça está mesmo presente, ou o tempo de ciclo do robot não encaixar no takt time da linha. Diagnostica-se verificando a sequência de sinais digitais trocados entre o robot e o PLC, comparando-a com a lógica esperada.
6. Que normas regulam especificamente a segurança de robots colaborativos (cobots), e o que definem?
Resolução: a ISO/TS 15066, que complementa a ISO 10218 e define limites de força e velocidade permitidos no contacto direto entre o robot e uma pessoa, essenciais para que um cobot possa operar sem vedações físicas completas.