Sebenta · Orientar-se e navegar no terreno (UC01099)
- Introdução
- 1. Cartografia militar: cartas, mapas e fotografia aérea
- 2. Escalas, cores e simbologia topográfica
- 3. Formas e relevo do terreno
- 4. A carta de situação militar
- 5. Sistemas de coordenadas: Gauss e UTM
- 6. Coordenadas geográficas
- 7. Determinar coordenadas militares de um ponto
- 8. Determinar a elevação de um ponto
- 9. Bússola, régua e transferidor
- 10. Orientar a carta e determinar azimutes
- 11. Métodos expeditos de orientação
- 12. Determinar distâncias
- 13. Localização por interseção de rumos
- 14. Selecionar itinerários e planear o deslocamento
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta acompanha uma unidade de competência (UC) do Catálogo Nacional de Qualificações, integrada nos cursos de Técnico/a Militar Terrestre e Técnico/a Militar Aeroespacial. Ensina a competência que sustenta qualquer missão com deslocamento no terreno: saber onde se está, saber para onde ir e saber como lá chegar, com os recursos disponíveis e ao nível de precisão exigido pela missão.
O percurso segue a lógica do próprio referencial: primeiro interpretar cartas topográficas militares, mapas e fotografias aéreas; depois determinar coordenadas, direções, azimutes e distâncias; por fim planear e efetuar deslocamentos reais de um ponto a outro. Os instrumentos de trabalho são simples e sempre disponíveis, sem depender de eletricidade nem de rede: bússola, régua e transferidor, sobre cartas topográficas militares, cartas de situação, mapas e fotografia aérea.
Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar cartas topográficas militares, mapas e fotografias aéreas; determinar coordenadas, direções, azimutes e distâncias; planear e efetuar deslocamentos de um ponto a outro, considerando os recursos disponíveis, adequando a direção e distância ao nível de precisão definido, adequando os itinerários à tipologia do terreno, às condições climatéricas e à situação militar, e cumprindo sempre os requisitos da missão.
1. Cartografia militar: cartas, mapas e fotografia aérea
Antes de medir seja o que for, é preciso saber que documento se está a ler. O referencial distingue quatro tipos de documento cartográfico, cada um com uma função própria.
| Documento | Natureza | Uso principal |
|---|---|---|
| Carta topográfica militar | representação normalizada e rigorosa do relevo e da cultura do terreno, escala típica 1:25 000 | planeamento e navegação detalhada, base de todo o trabalho de coordenadas |
| Mapa | representação de uso geral, menos detalhe e menos rigor métrico | orientação geral e enquadramento |
| Fotografia aérea | imagem real do terreno, captada do ar, sem simbolização | confirmar detalhes que a carta, por ser mais antiga ou menos detalhada, não mostra |
| Carta de situação militar | sobreposição tática desenhada sobre a carta base | representar o dispositivo e a manobra das forças |
Estes quatro documentos não competem entre si, complementam-se. Uma patrulha que planeia um itinerário lê a carta topográfica para o relevo e a distância, confirma acessos duvidosos na fotografia aérea, e verifica o dispositivo amigo e inimigo na carta de situação.
Exemplo resolvido · Escolher o documento certo
Uma secção precisa de confirmar se uma ponte assinalada há vários anos numa carta ainda existe, antes de planear um itinerário que depende dela.
Resolução: a carta topográfica dá a localização e a cota da ponte, mas pode estar desatualizada. A fotografia aérea recente é o documento certo para confirmar a existência física e o estado atual da ponte antes de comprometer o itinerário a essa passagem.
2. Escalas, cores e simbologia topográfica
Escalas
A escala é a relação matemática entre uma distância medida na carta e a distância real correspondente no terreno. Escreve-se como uma fração, por exemplo 1:25 000, o que significa que 1 unidade na carta representa 25 000 unidades no terreno.
Fórmula de conversão: distância real (cm) = distância medida na carta (cm) × denominador da escala. Convertendo para metros, divide-se depois por 100.
| Escala | Uso militar típico | 1 cm na carta equivale a |
|---|---|---|
| 1:25 000 | planeamento e navegação de patrulhas, leitura detalhada | 250 m |
| 1:50 000 | visão regional, coordenação entre unidades | 500 m |
| 1:100 000 | grandes deslocamentos, planeamento operacional amplo | 1000 m |
Quanto menor o denominador, maior o detalhe representado e menor a área coberta pela mesma folha. Cuidado com o vocabulário, que é a origem do erro de intuição mais comum: 1:100 000 é uma escala pequena (a fração 1/100 000 é menor que 1/25 000) e cobre mais área com menos detalhe, enquanto 1:25 000 é uma escala grande, com mais detalhe e menos área. Dizer "escala maior" a pensar em folha maior leva a trocar as duas.
Cores convencionais
As cartas topográficas militares seguem um código de cores fixo e normalizado:
- Preto: elementos construídos pelo homem, texto, toponímia.
- Azul: hidrografia, rios, lagos, linhas de água.
- Verde: vegetação, matas, bosques.
- Castanho ou sépia: relevo, curvas de nível, cotas.
- Vermelho: estradas principais e, nas cartas de situação militar, o dispositivo inimigo (o dispositivo amigo é representado a azul).
Ler a cor antes do símbolo acelera muito a leitura de uma carta sob pressão de tempo: a cor já dá a categoria, o símbolo dá o detalhe.
Simbologia topográfica
A simbologia agrupa-se em três tipos: símbolos pontuais (uma casa isolada, um marco), símbolos lineares (uma estrada, uma linha de caminho de ferro) e símbolos de área (uma mata, um pântano). Inclui ainda a representação de inclinações e de formas de terreno, através da própria disposição das curvas de nível.
Cada série de cartas tem uma legenda própria impressa na moldura, que deve ser sempre consultada, mesmo por quem já domina a simbologia geral: séries diferentes, ou países diferentes, podem usar convenções ligeiramente diferentes.
3. Formas e relevo do terreno
Curvas de nível
As curvas de nível unem pontos de igual altitude e são o método principal de representar o relevo numa carta plana.
- Equidistância: a diferença de altitude fixa entre duas curvas consecutivas na mesma carta, normalmente 10 m em cartas 1:25 000.
- Curvas mestras: traçadas mais grossas e numeradas, a cada quatro ou cinco curvas normais, para facilitar a contagem.
- Curvas muito próximas entre si indicam declive acentuado; curvas afastadas indicam terreno suave ou plano.
- Uma sequência de curvas fechadas, a subir de valor para o centro, indica um cume; se tiver pequenos traços perpendiculares voltados para dentro, indica uma depressão.
Formas de terreno
O referencial identifica as formas de terreno a reconhecer, tanto na carta como no terreno real:
| Forma | Descrição | Assinatura nas curvas de nível |
|---|---|---|
| Colina | elevação isolada, base bem definida | curvas fechadas concêntricas |
| Cume | ponto mais alto de uma elevação | curva fechada de maior valor |
| Vale | depressão alongada, geralmente com linha de água | curvas em "V" a apontar para montante |
| Sela ou garganta | ponto baixo entre dois cumes | curvas em forma de ampulheta |
| Espigão ou contraforte | prolongamento descendente a partir de um cume | curvas em "V" a apontar para jusante, opostas ao vale |
| Ravina | corte estreito e profundo, geralmente com água | curvas muito próximas e fechadas num corredor estreito |
Exemplo resolvido · Reconhecer uma forma de terreno
Numa carta, um conjunto de curvas de nível forma sucessivos "V" apontados sempre para o mesmo lado, com uma linha de água a azul no fundo de cada "V".
Resolução: o padrão em "V" a apontar para montante, associado a uma linha de água, é a assinatura de um vale. Se não houvesse linha de água e o "V" apontasse para jusante (a partir de um cume), seria antes um espigão.
4. A carta de situação militar
A carta de situação militar sobrepõe à carta topográfica base o dispositivo e a manobra das forças, através de simbologia própria.
Símbolos de unidades e de especialidades
- Forma: retângulo identifica unidade amiga, losango identifica unidade inimiga.
- Dimensão: marcada por pontos ou traços colocados acima do símbolo (de grupo a batalhão e além, consoante a convenção em uso).
- Especialidade: um sinal interno ao símbolo indica infantaria, cavalaria, artilharia, engenharia, transmissões, entre outras.
- Cor: azul identifica forças amigas, vermelho identifica forças inimigas, seguindo a mesma convenção de cor usada na carta topográfica.
Símbolos de controlo tático e de armas
Além das unidades, a carta de situação regista o controlo da manobra no tempo e no espaço:
- Limites (boundaries): linhas que delimitam a área de responsabilidade de cada unidade.
- Objetivos: áreas ou pontos a alcançar, normalmente representados por uma forma oval.
- Linhas de fase: referências para coordenar o ritmo do avanço entre unidades.
- Símbolos de armas: posições de tiro, direção de ataque representada por uma seta, posições de apoio de fogo.
A leitura combinada destes símbolos transforma a carta num verdadeiro plano de manobra, e não apenas num registo estático de posições.
5. Sistemas de coordenadas: Gauss e UTM
A projeção de Gauss
Como a Terra é uma esfera e a carta é um plano, qualquer representação exige uma projeção, com alguma deformação inevitável. A projeção de Gauss (Gauss-Krüger) projeta a superfície terrestre em faixas estreitas, minimizando a deformação dentro de cada faixa, e é a base histórica das quadrículas cartográficas usadas em Portugal e na Europa.
O sistema UTM
O Sistema Universal Transverse Mercator (UTM) divide a Terra em 60 fusos de 6 graus de longitude cada um, com uma quadrícula retangular própria em cada fuso, medida em metros.
- Cada ponto tem uma coordenada Este (Easting) e uma coordenada Norte (Northing).
- A regra de leitura é sempre a mesma: primeiro o Este, depois o Norte.
- A quadrícula UTM está impressa diretamente sobre a carta topográfica militar, pronta a usar com régua e transferidor.
- É o sistema preferido em contexto militar por ser expresso em metros, mais direto de aplicar em cálculos de distância do que graus, minutos e segundos.
6. Coordenadas geográficas
O sistema de coordenadas geográficas (latitude e longitude) localiza qualquer ponto da superfície terrestre por dois ângulos:
- Latitude: distância angular ao equador, de 0° a 90° Norte ou Sul.
- Longitude: distância angular ao meridiano de referência (Greenwich), de 0° a 180° Este ou Oeste.
- Paralelos: linhas imaginárias paralelas ao equador, de igual latitude.
- Meridianos: linhas imaginárias que passam pelos polos, de igual longitude.
Nas cartas topográficas militares, a quadrícula UTM (em metros) é usada no trabalho corrente, enquanto a latitude e a longitude aparecem na moldura e são úteis sobretudo na coordenação com outros meios, como o apoio aéreo ou naval, que frequentemente trabalham em graus.
7. Determinar coordenadas militares de um ponto
Determinar a coordenada militar de um ponto segue sempre a mesma regra fixa: leitura à direita e depois para cima.
Passo a passo
- Identificar o quadrado da quadrícula onde o ponto se encontra, usando a numeração das linhas na moldura da carta.
- Ler o valor da linha vertical à esquerda (ou imediatamente a Oeste) do ponto: é a base da coordenada Este.
- Com a régua, medir a fração da distância dentro do quadrado até ao ponto, no sentido horizontal, e somar essa fração à base.
- Repetir o processo na vertical, a partir da linha horizontal abaixo (a Sul) do ponto, para obter a coordenada Norte.
- Escrever a coordenada final combinando primeiro o valor Este, depois o valor Norte.
A precisão depende do número de dígitos: uma referência de 4 dígitos localiza dentro de um quadrado de 1000 m; 6 dígitos, dentro de 100 m; 8 dígitos, dentro de 10 m.
Exemplo resolvido · Coordenada de 6 dígitos
Um ponto está dentro do quadrado cujas linhas de referência são Este 42 e Norte 68. Medindo com a régua, o ponto está a 6 décimas para a direita e a 3 décimas para cima dentro desse quadrado.
- Coordenada Este: 42 + 6 (décima) = 426.
- Coordenada Norte: 68 + 3 (décima) = 683.
- Coordenada militar de 6 dígitos: 426683.
Este par de valores localiza o ponto dentro de um quadrado de 100 × 100 m no terreno real, precisão suficiente para a maioria dos deslocamentos a pé.
8. Determinar a elevação de um ponto
A cota é a altitude de um ponto acima do nível médio do mar, expressa em metros.
- Se o ponto estiver sobre uma curva de nível, a cota é o valor exato dessa curva.
- Se o ponto estiver entre duas curvas, calcula-se por interpolação: estima-se a posição relativa do ponto entre as duas curvas vizinhas e aplica-se essa fração à equidistância.
- Pontos cotados, assinalados com um número ao lado (geralmente em vértices geodésicos ou cumes notáveis), dão a altitude exata sem necessidade de interpolar.
Exemplo resolvido · Interpolar a cota
Um ponto está entre a curva dos 340 m e a curva dos 350 m (equidistância de 10 m). Medindo na carta, o ponto está a 70% da distância entre as duas curvas, mais perto da curva superior.
- Diferença entre as curvas: 350 − 340 = 10 m.
- Fração a somar à curva inferior: 10 m × 0,70 = 7 m.
- Cota estimada: 340 + 7 = 347 m.
A elevação de um ponto condiciona diretamente o esforço de progressão previsto, a exposição a observação e a existência (ou não) de linha de vista entre dois pontos.
9. Bússola, régua e transferidor
A bússola
A bússola determina direções através do magnetismo terrestre. As suas partes principais:
- Agulha magnética: aponta sempre para o norte magnético.
- Anel graduado: mede o ângulo (azimute) entre o norte e a direção pretendida, de 0° a 360°.
- Espelho e mira: permitem visar um ponto no terreno com precisão enquanto se lê o anel graduado.
- Placa base transparente: permite usar a bússola diretamente sobre a carta.
⚠️ A bússola deve manter-se afastada de metal e de campos elétricos (viaturas, armamento, linhas de alta tensão), que desviam a agulha e introduzem erro sem aviso visível.
Régua e transferidor
- Régua: mede distâncias sobre a carta, muitas vezes já graduada para as escalas militares mais comuns.
- Transferidor: mede e traça ângulos (rumos e azimutes) diretamente sobre a carta, alinhado com o norte da quadrícula UTM.
Procedimento típico com o transferidor: colocar o seu centro sobre o ponto de partida, alinhar a linha 0°-180° com as linhas verticais da quadrícula, e ler o ângulo até ao ponto de destino.
10. Orientar a carta e determinar azimutes
Orientar a carta com a bússola
Orientar a carta é colocá-la fisicamente alinhada com o terreno real, de modo que o norte da carta aponte para o norte real:
- Colocar a carta numa superfície plana.
- Alinhar a bússola com as linhas de norte da quadrícula, ou aplicar a correção de declinação, se necessário.
- Rodar a carta, mantendo a bússola alinhada, até a agulha coincidir com o norte da quadrícula.
Orientar por associação carta-terreno
Quando a bússola não está disponível, orienta-se a carta comparando dois ou três acidentes de terreno bem identificáveis (colinas, cruzamentos, cursos de água) com a sua representação na carta, rodando a carta até a disposição relativa coincidir. Confirmar sempre com um terceiro acidente, para reduzir o risco de coincidência.
Azimute magnético e azimute cartográfico
O azimute é o ângulo horizontal, medido no sentido dos ponteiros do relógio, entre uma direção de referência (o norte) e a direção ao objetivo.
- Azimute magnético: medido a partir do norte magnético, com a bússola, no terreno.
- Azimute cartográfico (ou de quadrícula): medido a partir do norte da quadrícula UTM, com o transferidor, na carta.
Declinação magnética-cartográfica e conversão
A declinação magnética-cartográfica é a diferença angular entre o norte magnético e o norte da quadrícula, indicada com o seu valor e sentido (Este ou Oeste) na moldura de cada carta, e muda ligeiramente ao longo dos anos.
Regra prática de conversão (confirmar sempre o diagrama de declinação da carta em uso):
- Azimute cartográfico = azimute magnético + declinação, se a declinação for Este.
- Azimute cartográfico = azimute magnético − declinação, se a declinação for Oeste.
Exemplo resolvido · Converter um azimute
Um militar mede, com a bússola, um azimute magnético de 120° a um ponto de referência. A carta em uso indica uma declinação de 3° Este.
Azimute cartográfico = 120° + 3° = 123°. É este valor, e não os 120° medidos com a bússola, que se transporta para o transferidor ao marcar a direção na carta.
11. Métodos expeditos de orientação
Sem bússola, ou como confirmação adicional, existem métodos expeditos, com fiabilidade decrescente:
- Método da sombra: fixar uma vara vertical, marcar a ponta da sombra, esperar 15 a 20 minutos, marcar a nova ponta. A linha entre as duas marcas aponta aproximadamente Este-Oeste, com a primeira marca a Oeste.
- Método do relógio (hemisfério Norte, relógio analógico): apontar o ponteiro das horas ao Sol; a bissetriz entre esse ponteiro e as 12h indica aproximadamente o Sul.
- Bússola improvisada: magnetizar uma agulha de aço, esfregando-a sempre no mesmo sentido num íman ou tecido, e deixá-la flutuar num recipiente com água; alinha-se aproximadamente com o norte magnético.
- Posição dos astros: de noite, a Estrela Polar, localizável a partir da Ursa Maior, indica aproximadamente o norte verdadeiro no hemisfério Norte.
- Inclinação das árvores e outros indícios naturais: vegetação, musgo e erosão podem sugerir uma orientação em certas regiões, mas são indícios pouco fiáveis e nunca devem ser a única referência usada.
A regra geral destes métodos é combinar vários indícios e nunca confiar cegamente num único sinal: um método expedito dá uma direção aproximada, não um azimute de precisão.
12. Determinar distâncias
Métodos convencionais
- Régua graduada à escala: leitura direta da distância real, se a régua já vier graduada para a escala da carta em uso.
- Régua comum e fator de escala: medir em centímetros e multiplicar pelo denominador da escala (por exemplo, 3 cm numa carta 1:25 000 correspondem a 750 m reais).
- Curvímetro: instrumento com uma rodinha que percorre um itinerário sinuoso na carta, acumulando a distância total percorrida, útil para estradas e caminhos com muitas curvas.
Métodos expeditos
- Contagem de passos: calibração prévia do número de passos duplos que cada militar dá em 100 m, aplicado depois no terreno para estimar distância percorrida.
- Tempo de marcha: estimativa a partir da velocidade média de progressão e do tempo decorrido, ajustada ao tipo de terreno e à carga transportada.
- Estimativa visual: comparação com referências conhecidas (o comprimento de um campo de futebol, a altura de um poste).
- Relação angular (milésimas): distância = (altura real do objeto em metros × 1000) ÷ ângulo medido em milésimas, útil com binóculos graduados.
Exemplo resolvido · Contagem de passos
Um militar tem, por calibração prévia, um fator de 65 passos duplos por 100 m em terreno plano. Num deslocamento, conta 260 passos duplos.
Distância percorrida = (260 ÷ 65) × 100 = 400 m.
Este cálculo assume que o fator de calibração corresponde ao tipo de terreno atual: em terreno acidentado ou com carga adicional, o fator deve ser recalibrado, pois o comprimento do passo diminui.
13. Localização por interseção de rumos
O método da interseção
A interseção localiza um ponto desconhecido a partir de duas posições conhecidas, visando o mesmo ponto de cada uma delas:
- Da posição conhecida A, tirar o azimute ao ponto desconhecido e traçar a linha correspondente na carta.
- Deslocar-se para uma segunda posição conhecida B, tirar o azimute ao mesmo ponto e traçar a segunda linha.
- O cruzamento das duas linhas é a localização do ponto desconhecido.
A precisão é maior quanto mais próximo dos 90° for o ângulo entre as duas linhas; posições muito próximas entre si produzem linhas quase paralelas e um cruzamento impreciso.
O método da ressecção
A ressecção é o inverso da interseção: localiza a posição própria, desconhecida, a partir de dois ou três acidentes de terreno conhecidos.
- Orientar a carta, por bússola ou por associação carta-terreno.
- Identificar dois ou três acidentes bem visíveis no terreno e representados na carta.
- Tirar o azimute magnético a cada acidente, com a bússola.
- Converter cada azimute para cartográfico e traçar, a partir de cada acidente, a linha do azimute inverso (azimute + 180°, ou −180° se o resultado ultrapassar 360°).
- O cruzamento das linhas indica a posição atual.
Exemplo resolvido · Azimute inverso
Um militar toma, a partir da sua posição, um azimute magnético de 50° a um ponto de referência conhecido. Depois de converter para cartográfico (declinação de 2° Este), obtém 52°.
Para traçar a linha a partir do ponto de referência de volta à posição do militar, calcula-se o azimute inverso: 52° + 180° = 232°. É este valor, traçado a partir do ponto de referência conhecido, que ajuda a fixar a posição do militar na carta.
14. Selecionar itinerários e planear o deslocamento
Escolher um itinerário não é escolher o caminho mais curto: o referencial define cinco critérios concretos a ponderar em conjunto.
| Critério | O que avaliar |
|---|---|
| Itinerários protegidos | troços com cobertura e ocultação, fora da vista e do fogo direto do inimigo |
| Zonas de morte | áreas abertas e expostas, sob observação e fogo inimigo, a evitar ou a atravessar rapidamente |
| Tipologia e características das viaturas | mobilidade em lagarta ou roda, vãos livres, capacidade de transposição de obstáculos |
| Tipo de solo | firmeza, drenagem, risco de atolamento |
| Condições climatéricas | chuva, neblina, gelo, visibilidade, todos alteram o itinerário viável |
Planear e efetuar o deslocamento, passo a passo
- Interpretar a carta, o mapa e, se disponível, a fotografia aérea da área.
- Determinar as coordenadas do ponto de partida e do ponto de chegada.
- Calcular o azimute cartográfico e converter para magnético, ou vice-versa.
- Medir a distância total, por método convencional ou expedito.
- Selecionar o itinerário, aplicando os cinco critérios.
- Executar: orientar a carta, seguir o azimute, confirmar a posição por ressecção sempre que necessário.
O sucesso final mede-se sempre pelos mesmos critérios de desempenho do referencial: usar os recursos disponíveis, adequar a direção e a distância ao nível de precisão definido, adequar os itinerários ao terreno, ao clima e à situação militar, e cumprir os requisitos da missão.
Erros comuns
- Trocar a ordem de leitura das coordenadas: ler primeiro o Norte e depois o Este, quando a regra é sempre Este antes de Norte.
- Confundir azimute magnético com cartográfico e usar um pelo outro sem converter, ignorando a declinação da carta.
- Usar a bússola perto de metal ou de campos elétricos, o que desvia a agulha sem aviso.
- Escolher o itinerário mais curto sem avaliar zonas de morte, expondo a unidade a observação e fogo inimigo evitáveis.
- Confiar cegamente em métodos expeditos (sombra, inclinação de árvores) sem os cruzar com outros indícios.
- Não recalibrar a contagem de passos quando o terreno ou a carga mudam significativamente.
- Interpolar a cota ao contrário, somando a partir da curva errada.
Glossário
- Azimute: ângulo horizontal, medido no sentido horário a partir do norte, até à direção pretendida.
- Bússola: instrumento que indica o norte magnético através de uma agulha imantada.
- Cota: altitude de um ponto acima do nível médio do mar.
- Curva de nível: linha que une pontos de igual altitude numa carta.
- Declinação magnética-cartográfica: diferença angular entre o norte magnético e o norte da quadrícula.
- Equidistância: diferença de altitude entre duas curvas de nível consecutivas.
- Interseção: método de localizar um ponto desconhecido a partir de duas posições conhecidas.
- Itinerário protegido: troço de deslocamento fora da vista e do fogo direto do inimigo.
- Quadrícula UTM: rede de linhas em metros, sobreposta à carta, usada para leitura de coordenadas.
- Ressecção: método de localizar a posição própria a partir de acidentes de terreno conhecidos.
- Transferidor: instrumento para medir e traçar ângulos sobre a carta.
- Zona de morte: área aberta e exposta a observação e fogo inimigo.
Síntese
Orientar-se e navegar no terreno é uma competência que se constrói em camadas: primeiro ler o documento certo (carta, mapa, fotografia aérea ou carta de situação); depois medir sobre ele, com escala, cores, coordenadas UTM e curvas de nível; depois ligar a carta ao terreno real, com bússola, azimutes e declinação; depois confirmar a posição, por interseção ou ressecção; e por fim planear o deslocamento, escolhendo o itinerário certo para a missão, o terreno, as viaturas e o clima. Sem qualquer uma destas camadas, as restantes perdem rigor.
Exercícios resolvidos
1. Um ponto está entre a linha Este 55 e a linha Este 56 da quadrícula, a 4 décimas da linha 55. Qual é a coordenada Este de 3 dígitos?
Resolução: a coordenada lê-se sempre a partir da linha imediatamente à esquerda (a menor), somando a fração medida. Coordenada Este = 55 + 4 (décima) = 554.
2. Um militar mede um azimute magnético de 210° e a carta indica declinação de 4° Oeste. Qual é o azimute cartográfico?
Resolução: com declinação Oeste, subtrai-se: azimute cartográfico = 210° − 4° = 206°.
3. Um ponto está entre a curva dos 120 m e a curva dos 130 m, a 30% da distância a partir da curva inferior. Qual é a cota estimada?
Resolução: fração a somar = 10 m × 0,30 = 3 m. Cota estimada = 120 + 3 = 123 m.
4. Numa carta 1:50 000, um itinerário sinuoso mede, com o curvímetro, 8,4 cm de percurso real acumulado. Qual é a distância real?
Resolução: 8,4 cm × 50 000 = 420 000 cm = 4200 m (4,2 km).
5. Uma unidade tem duas opções de itinerário para o mesmo destino: uma mais curta, atravessando uma clareira ampla e exposta; outra mais longa, seguindo uma linha de água com vegetação densa. Qual escolher, e porquê?
Resolução: a opção mais longa, ao longo da linha de água com vegetação, porque oferece cobertura e ocultação (itinerário protegido), enquanto a clareira ampla e exposta configura uma zona de morte. O critério de seleção de itinerários não é a distância mínima, é a adequação à situação militar e ao risco de exposição ao inimigo.