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UC · Unidade de Competência · UC01094

Sebenta · Estabilizar e evacuar vítimas em situação de combate (UC01094)

TCCC, controlo de hemorragias, vias aéreas, tórax e evacuação tática em ambiente hostil
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Militar Terrestre ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta forma o militar para estabilizar e evacuar vítimas em situação de combate, seguindo a doutrina do Tactical Combat Casualty Care (TCCC). É o corpo de conhecimento que separa uma baixa evitável de um camarada que volta para casa: a maioria das mortes em combate acontece nos primeiros minutos, por hemorragia não controlada, obstrução das vias aéreas ou lesão torácica, e é precisamente aí que este socorrismo tático intervém.

A unidade de competência cumpre os padrões da STANAG 2122 da NATO, aplicáveis ao TCCC-ASM (Advanced Skills Medic), e as regulamentações nacionais em vigor. Aplica se em quatro contextos concretos: na execução do serviço orgânico em Organismos das Forças Armadas, em área de instrução, em campo de treino e exercícios militares, e em teatro de operações militares.

Objetivos de aprendizagem (referencial): avaliar a situação e garantir as condições de segurança; intervir para o controlo de hemorragias massivas; permeabilizar as vias aéreas em situações de emergência; abordar lesões de tórax potencialmente fatais; e prestar cuidados básicos durante a evacuação tática em cenários hostis.

1. Fundamentos do TCCC e as três fases do atendimento

O TCCC organiza a resposta médica em combate em três fases sucessivas, cada uma com prioridades próprias e critérios claros para passar à seguinte.

Fase Nome completo O que se faz
CUF Care Under Fire tratamento mínimo, sob fogo direto
TFC Tactical Field Care avaliação e tratamento completos, MARCH
TACEVAC Tactical Evacuation Care manter e reavaliar durante a evacuação

No CUF, o socorrista está exposto ao fogo inimigo. O único tratamento aceitável é o controlo da hemorragia massiva de extremidade com torniquete, aplicado tão depressa quanto possível. Tudo o resto espera.

No TFC, já numa posição relativamente protegida, faz se a avaliação sistemática completa, seguindo a sequência MARCH:

  1. Massive haemorrhage: hemorragia massiva.
  2. Airway: vias aéreas.
  3. Respiration: respiração e tórax.
  4. Circulation: circulação e sinais de choque.
  5. Head injury / Hypothermia: lesão craniana e hipotermia.

No TACEVAC, já em movimento para a evacuação, o socorrista mantém o tratamento já feito e reavalia continuamente, porque o quadro clínico pode mudar durante o transporte.

Exemplo resolvido · identificar a fase correta

Um militar é atingido por estilhaços a 20 metros do inimigo, ainda sob fogo. Que fase se aplica e o que se faz?

Resolução: aplica se o CUF. O único gesto aceitável é remover o ferido para cobertura e, se houver hemorragia massiva visível, aplicar um torniquete de imediato. Não se inicia avaliação completa nem se trata o tórax enquanto o fogo direto continuar.

O MARCH não é uma checklist a decorar isoladamente: é a ordem pela qual as coisas matam. Trata se pela ordem em que se morre, não pela ordem em que se vê a lesão.

2. Avaliar a situação e garantir as condições de segurança

A primeira realização do referencial é avaliar a situação e garantir as condições de segurança. Antes de qualquer gesto técnico, o socorrista de combate confirma que pode agir sem se tornar ele próprio uma vítima.

Quando a cena não é segura, aplica se uma técnica de remoção rápida de feridos para áreas seguras: arrasto pelo colete ou equipamento (curta distância, sob fogo), transporte em ombro (terreno livre, socorrista sozinho) ou transporte a dois (distância maior, dois socorristas disponíveis).

Exemplo resolvido · abordagem a uma vítima em zona de risco

Um camarada cai a descoberto, numa zona ainda visível ao inimigo. Que sequência se segue?

Resolução:

  1. Confirmar que a ameaça direta está sob controlo (fogo próprio, cobertura).
  2. Avaliar a rota de aproximação mais segura, nunca em linha reta e exposta.
  3. Arrastar o ferido pela alça do colete tático até à cobertura mais próxima.
  4. Só em cobertura se avalia e trata em detalhe.

Correr a descoberto na direção de um ferido, por instinto, é o erro mais comum e mais grave nesta fase. Cria uma segunda vítima e reduz a capacidade de socorro da equipa.

3. Cuidados sob fogo direto (Care Under Fire)

Sob fogo direto, os cuidados médicos são deliberadamente reduzidos ao mínimo indispensável. A prioridade é tática, não clínica.

A transição para o Tactical Field Care só acontece quando a ameaça direta está controlada ou significativamente reduzida, uma decisão tática de comando, não um automatismo.

Situação Gesto no CUF
Hemorragia massiva de extremidade visível torniquete imediato
Vítima consciente, capaz de se mover instruir a deslocar se para cobertura
Sem hemorragia visível remover para cobertura, sem mais gestos
Fogo direto ainda ativo não avaliar vias aéreas nem tórax

Numa emboscada, a equipa devolve fogo durante alguns segundos antes de qualquer militar se aproximar do ferido. Só depois de reduzida a intensidade do fogo inimigo é que se inicia a remoção e, se necessário, o torniquete de urgência.

4. Controlo de hemorragias massivas

A segunda realização do referencial: intervir para o controlo de hemorragias massivas, a causa de morte evitável mais comum em combate.

Reconhecer rapidamente qual hemorragia mata é a primeira competência:

Sinal observado Gravidade
Sangue em jato pulsátil massiva, arterial
Poça de sangue a crescer no chão massiva
Roupa encharcada, sangue contínuo massiva
Sangue capilar, pequeno corte não prioritário sob fogo

A resposta divide se por localização:

O critério de desempenho exige aplicar torniquetes e agentes hemostáticos de forma eficaz, não apenas ter o equipamento disponível.

Exemplo resolvido · decidir a técnica certa

Uma vítima tem uma ferida na coxa com sangue em jato, e outra na virilha, sem torniquete possível. Como se atua?

Resolução: na coxa, aplica se torniquete de imediato, 5 a 7 cm acima da ferida. Na virilha, aplica se agente hemostático empacotado diretamente na ferida, seguido de compressão direta firme durante três minutos, sem interromper para verificar.

5. Torniquetes (CAT) e agentes hemostáticos

O torniquete CAT (Combat Application Tourniquet) é o dispositivo de referência para hemorragia massiva de extremidade. A sequência de aplicação:

  1. Colocar 5 a 7 cm acima da ferida, nunca sobre uma articulação.
  2. Passar a fita pela fivela e apertar bem.
  3. Rodar a haste (windlass) até o sangramento parar por completo.
  4. Bloquear a haste no suporte e fixar com o velcro.
  5. Anotar a hora de aplicação, de forma visível (marcador, testa, cartão).

O torniquete não se retira no terreno. É sempre um responsável clínico, mais tarde, que decide se pode ser afrouxado ou substituído.

Para zonas onde o torniquete não se aplica, usam se agentes hemostáticos e curativos de compressão:

Exemplo resolvido · aplicar o segundo torniquete

Um militar aplica um torniquete na perna de um camarada, mas o sangramento continua. O que fazer?

Resolução: aplica se um segundo torniquete, imediatamente acima do primeiro, e roda se a haste até parar totalmente o sangramento. Não se retira o primeiro para "verificar", perde se tempo e reabre se a hemorragia.

Aplicar o torniquete demasiado perto da ferida, ou não apertar o suficiente a haste, é o erro técnico mais comum. Um torniquete mal colocado dá falsa sensação de segurança sem parar o sangramento.

6. Permeabilização das vias aéreas

A terceira realização do referencial: permeabilizar as vias aéreas em situações de emergência. Sem via aérea aberta, nenhum outro gesto tem efeito.

Uma vítima consciente e a falar já demonstra, por definição, ter a via aérea aberta: não se intervém sem necessidade real.

Exemplo resolvido · via aérea numa vítima inconsciente

Vítima inconsciente, respiração ruidosa, suspeita de lesão cervical. Qual a sequência de atuação?

Resolução:

  1. Verificar resposta e respiração, sem perder tempo.
  2. Executar a tração da mandíbula (não a extensão do pescoço, pela suspeita cervical).
  3. Inspecionar a boca e remover corpos estranhos visíveis.
  4. Inserir uma cânula nasofaríngea se a via se mantiver instável.
  5. Colocar em posição lateral de segurança, se não houver contraindicação, para manter a via livre durante o transporte.

7. Lesões de tórax e pneumotórax

A quarta realização do referencial: abordar lesões de tórax potencialmente fatais. Corresponde ao "R" (Respiration) do MARCH, logo a seguir à via aérea aberta.

Sinais de alerta:

A resposta em dois tempos:

  1. Vedar a ferida com um selo torácico oclusivo com válvula, que deixa o ar sair sem entrar de novo.
  2. Descomprimir, com o dispositivo de descompressão torácica, quando surgem sinais de pneumotórax de tensão.

Exemplo resolvido · gestão completa de uma ferida torácica

Militar com ferida penetrante no tórax e dificuldade respiratória em agravamento. Qual a sequência?

Resolução:

  1. Expor o tórax e localizar todas as feridas, de entrada e de saída.
  2. Aplicar um selo torácico oclusivo com válvula sobre cada ferida encontrada.
  3. Monitorizar a respiração; o agravamento súbito com distensão das veias do pescoço indica pneumotórax de tensão.
  4. Usar o dispositivo de descompressão torácica no ponto indicado pelo protocolo (linha média clavicular, segundo espaço intercostal).
  5. Reavaliar continuamente durante o transporte, porque o quadro pode agravar minutos depois.

Vedar sem válvula uma ferida penetrante pode transformar um pneumotórax simples num pneumotórax de tensão. A válvula é o que distingue um selo torácico correto de um erro grave.

8. Transporte e evacuação tática

A quinta realização do referencial: prestar cuidados básicos durante a evacuação tática em cenários hostis. Acontece depois de estabilizada a vítima, mas o cuidado não termina aí.

Métodos de transporte, do mais simples ao mais elaborado:

Método Quando usar
Arrasto curta distância, ainda sob ameaça
Transporte em ombro terreno livre, socorrista sozinho
Transporte a dois distância maior, dois socorristas
Maca improvisada tábuas de 15x40 ou 15x100 cm e cartão canelado, transporte prolongado

Princípios de triagem e prioridades de evacuação: com várias vítimas, a ordem de saída depende da gravidade e da probabilidade de sobrevivência com tratamento imediato, nunca da ordem de chegada.

Exemplo resolvido · triagem com três feridos

Três militares feridos, um único meio de evacuação disponível de imediato. Como se decide a ordem?

Resolução: avalia se cada um pelo estado clínico atual e pela probabilidade de sobreviver com tratamento imediato. Quem tem uma lesão grave mas tratável e instável evacua primeiro; quem está estável espera; quem tem lesões incompatíveis com sobrevivência, mesmo com tratamento, é reavaliado por último, sem abandonar o cuidado básico.

Montar uma maca improvisada com duas tábuas de 15x100 cm e folhas de cartão canelado é uma competência prática avaliada nesta UC: a vítima deve sair imobilizada, com o torniquete e o selo torácico visíveis e intactos.

9. Comunicação e relato da situação médica

Um critério de desempenho central: relatar as condições do ferido com precisão e clareza durante a comunicação operacional. Um relato confuso atrasa a evacuação e pode custar uma vida.

O relato estruturado inclui sempre:

  1. Identificação da vítima e localização.
  2. Mecanismo de lesão (disparo, fragmentação, explosão).
  3. Tratamentos já aplicados, com hora exata (torniquete, selo torácico).
  4. Estado atual (consciência, respiração).
  5. Pedido de evacuação, com a prioridade correta.

Exemplo resolvido · relato por rádio

Um socorrista precisa de comunicar a situação de uma vítima com torniquete aplicado. Como estrutura o relato?

Resolução: "Vítima na posição X, ferimento por fragmentação na coxa direita, torniquete aplicado às 14h32, consciente e a responder, respiração estável, solicito evacuação prioritária." Segue a ordem fixa: identificação, mecanismo, tratamento com hora, estado atual, pedido de evacuação.

10. Equipamento, normas e STANAG

O socorrista de combate trabalha com equipamento específico, todo ele previsto no referencial desta UC:

Categoria Equipamento
Proteção individual EPI
Individual IFAK (Individual First Aid Kit)
Hemorragia torniquetes, agentes hemostáticos, curativos de compressão
Vias aéreas cânulas nasofaríngeas, máscaras de ventilação
Tórax kits de descompressão torácica
Transporte tábuas de 15x40 e 15x100 cm, folhas de cartão canelado
Emergência desfibrilhador automático externo, estojo de primeiros socorros

Normas e regulamentos aplicáveis: a STANAG 2122 da NATO, aplicável ao TCCC-ASM, os manuais e diretrizes AMedP-8.15, e as regulamentações e publicações de treino militar nacionais. O respeito por estas normas é uma atitude avaliada, não um detalhe administrativo.

Seguir uma STANAG não é burocracia: é o que garante que qualquer militar de qualquer país da NATO reconhece o mesmo protocolo, em qualquer missão conjunta.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O socorrismo de combate segue sempre a mesma lógica: avaliar a segurança da cena antes de agir, controlar a hemorragia massiva com torniquete ou agente hemostático, abrir e manter a via aérea, tratar o tórax com selo e, se necessário, descompressão, transportar e evacuar com o tratamento mantido, e relatar a situação com precisão. Tudo isto sustentado por equipamento correto, normas STANAG e AMedP-8.15, e atitudes como autocontrolo, liderança e resiliência. As três fases, CUF, TFC e TACEVAC, e o mnemónico MARCH, são o fio condutor que organiza toda esta unidade de competência.

Exercícios resolvidos

1. Um militar é atingido enquanto ainda há fogo direto sobre a posição. Qual é o primeiro gesto?

Resolução: devolver fogo ou procurar cobertura, se ainda não foi feito. Só depois se remove o ferido para cobertura e, se houver hemorragia massiva visível, se aplica um torniquete de urgência. Não se inicia avaliação completa sob fogo direto.

2. Uma vítima tem hemorragia na virilha. Porque não se aplica um torniquete?

Resolução: o torniquete precisa de um osso único contra o qual comprimir, o que não existe na virilha, axila ou pescoço (hemorragia junctional). Nestas zonas usa se agente hemostático, empacotado diretamente na ferida, com compressão direta durante três minutos.

3. Uma vítima consciente e a falar precisa de uma cânula nasofaríngea?

Resolução: não. Se a vítima está consciente e a falar, a via aérea já está, por definição, aberta e permeável. Intervir sem necessidade real (por exemplo, com uma cânula orofaríngea) pode provocar vómito e agravar a situação.

4. Como se distingue vedar uma ferida torácica de descomprimir o tórax?

Resolução: vedar (com selo oclusivo com válvula) faz se sempre que há ferida penetrante no tórax. Descomprimir (com o kit de descompressão) só se faz perante sinais claros de pneumotórax de tensão, como agravamento súbito da dificuldade respiratória e distensão das veias do pescoço. Descomprimir sem esses sinais é um erro, é um procedimento invasivo, não profilático.

5. Com três feridos e um único meio de evacuação, como se decide quem sai primeiro?

Resolução: pela triagem, avaliando gravidade e probabilidade de sobrevivência com tratamento imediato, nunca pela ordem de chegada. Quem tem lesão grave mas tratável evacua primeiro; quem está estável espera; o cuidado básico continua para todos enquanto se aguarda.

6. Que informação é indispensável incluir no relato de uma vítima com torniquete aplicado?

Resolução: a localização exata do ferimento, o tratamento já aplicado (torniquete) e a hora exata de aplicação, além do estado atual da vítima e do pedido de evacuação com a prioridade correta. A hora do torniquete decide, mais tarde, se pode ser afrouxado ou substituído em segurança.