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UC · Unidade de Competência · UC01093

Sebenta · Atuar em situações de emergência médica e trauma em contexto militar (UC01093)

Do reconhecimento da emergência ao Suporte Básico de Vida com DAE, passando pelo trauma, em contexto militar
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Militar Terrestre, T. Militar Aeroespacial ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta prepara-te para atuar perante uma emergência médica ou uma situação de trauma, em contexto militar ou fora dele, cumprindo os requisitos definidos pelo INEM para o Suporte Básico de Vida (SBV) do adulto e pediátrico e para o SBV com Desfibrilhação Automática Externa (SBV-DAE). Um militar é, com frequência, o primeiro a chegar junto de um camarada ferido ou de um civil em emergência, muitas vezes antes de qualquer meio diferenciado. O que fazes nos primeiros minutos, com calma e a preceito, pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Objetivos de aprendizagem (referencial): assegurar as condições de segurança; efetuar os procedimentos da cadeia de sobrevivência do adulto e pediátrica; executar o algoritmo de SBV pediátrico; executar o algoritmo de SBV com DAE; efetuar técnicas de socorrismo em situações de emergência médica e trauma.

O percurso segue esta ordem: primeiro o papel do socorrista (limites, ética, comunicação, o sistema de emergência), depois os algoritmos de SBV (adulto, com DAE, pediátrico, desobstrução da via aérea), e por fim as técnicas de trauma e de emergência médica que completam o socorrismo no terreno.

1. O papel do socorrista: limites de atuação, competências e ética

Um socorrista é quem, sem ser profissional de saúde, presta os primeiros cuidados a uma vítima até chegar ajuda diferenciada. O papel tem limites que se respeitam sempre:

Estes princípios são critérios de desempenho da UC: cumprir os protocolos instituídos com respeito pelos limites de atuação, e respeitar o sigilo e a privacidade da vítima.

A comunicação em emergência

Comunicar bem, sob pressão, é uma competência técnica que se treina:

Manter o controlo emocional e promover a calma entre os presentes, e cumprir as regras de comunicação, são dois critérios de desempenho avaliados nesta UC.

2. O Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM)

O SIEM é a rede portuguesa, coordenada pelo INEM, que liga o pedido de ajuda ao tratamento e ao transporte da vítima.

Fases do SIEM

  1. Deteção do incidente e alerta ao 112.
  2. Triagem e orientação pelo CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes), que decide o meio a enviar.
  3. Tratamento pré-hospitalar, no local, pela equipa que chega.
  4. Transporte até à unidade de saúde adequada.
  5. Receção hospitalar, com a passagem de informação de quem prestou o socorro inicial.

Intervenientes e meios

Meio Para que serve
Ambulância de SBV Suporte Básico de Vida, socorro geral
Ambulância SIV Suporte Imediato de Vida, mais diferenciado
VMER Viatura Médica de Emergência e Reanimação, com médico
Helicóptero do INEM Transporte rápido em casos graves ou de difícil acesso
Bombeiros, PSP/GNR Apoio no local, segurança, resgate

Reconhecer o que dizer ao 112 e como o CODU vai orientar a resposta é o que faz o pedido de apoio diferenciado chegar a tempo.

3. A Cadeia de Sobrevivência do adulto e pediátrica

A Cadeia de Sobrevivência é a sequência de ações que, sem falhas, dá à vítima em paragem cardiorrespiratória a maior hipótese de sobreviver. Tem quatro elos, e a ordem muda entre adulto e criança:

Elo Adulto Pediátrica
1 Reconhecimento precoce e alerta ao SIEM Prevenção e reconhecimento precoce
2 SBV precoce SBV precoce
3 Desfibrilhação precoce Ativação do SIEM (após o primeiro minuto de SBV, se sozinho)
4 Suporte avançado de vida e cuidados pós-reanimação Suporte avançado de vida

Exemplo resolvido: qual elo falhou?

Um militar encontra um camarada caído durante um exercício, sem resposta e sem respiração normal. Chama por ajuda, mas ninguém liga ao 112 de imediato porque todos ficam a tentar reanimar. Passam quatro minutos até alguém telefonar.

Resolução: falhou o primeiro elo, o reconhecimento precoce e o alerta ao SIEM. Mesmo com o SBV a decorrer bem, sem o alerta feito de imediato o DAE e a ajuda diferenciada demoram a chegar. A ordem correta é apontar uma pessoa concreta para ligar ao 112 enquanto outra inicia o SBV, em paralelo, nunca em sequência.

4. Avaliação inicial: segurança e verificação VOS

Antes de qualquer manobra, o socorrista segue sempre a mesma sequência:

  1. Assegurar as condições de segurança do local, do reanimador, da vítima e de terceiros. Em contexto militar, isto inclui viaturas em movimento, munições, terreno instável.
  2. Verificar o estado de consciência: abanar os ombros e falar alto.
  3. Se não responde, gritar por ajuda.
  4. Permeabilizar a via aérea: extensão da cabeça e elevação do queixo.
  5. Verificação VOS durante no máximo 10 segundos: Ver o movimento do tórax, Ouvir sons respiratórios, Sentir o ar exalado na face.
  6. Decidir: respira normalmente (posição lateral de segurança), não respira ou só tem gasping (iniciar SBV de imediato).

O gasping (respiração agónica, irregular e ruidosa) não conta como respiração normal: é sinal de paragem cardiorrespiratória e exige início imediato do SBV.

5. Suporte Básico de Vida do adulto

Confirmada a paragem, segue-se o algoritmo:

  1. Pedir ajuda e o DAE (ou mandar alguém pedir, 112 e DAE).
  2. Compressões torácicas: no centro do tórax, com as duas mãos sobrepostas, os braços esticados.
  3. Profundidade entre 5 e 6 cm, frequência entre 100 e 120 por minuto.
  4. Permitir o retorno total do tórax entre compressões.
  5. 30 compressões : 2 insuflações, cada insuflação com cerca de 1 segundo, observando a elevação do tórax.
  6. Continuar os ciclos até chegada do DAE, de ajuda diferenciada, ou a vítima recuperar sinais de vida.

Posição lateral de segurança (PLS)

Se a vítima respira normalmente mas está inconsciente: ajoelhar ao lado, esticar o braço mais próximo, dobrar o braço mais afastado com a mão encostada à face, dobrar a perna mais afastada, rodar a vítima puxando pela perna, e ajustar a cabeça em extensão. Reavaliar a respiração com regularidade.

Exemplo resolvido: escolher entre SBV e PLS

Uma vítima está inconsciente, mas ao fazer a verificação VOS o socorrista sente o ar na face e vê o tórax a mover-se de forma regular, 14 vezes por minuto.

Resolução: a vítima respira normalmente, logo coloca-se em posição lateral de segurança, e não em SBV. O SBV só se inicia se a vítima não respirar ou apresentar apenas gasping. Colocar em SBV uma vítima que já respira normalmente não tem indicação.

6. Suporte Básico de Vida com DAE

O DAE (Desfibrilhador Automático Externo) analisa o ritmo cardíaco e, se identificar uma arritmia desfibrilhável, aconselha um choque elétrico.

Passo a passo

  1. Ligar o DAE assim que chega, e seguir as instruções de voz.
  2. Colocar os elétrodos: um abaixo da clavícula direita, outro no lado esquerdo do tórax, à altura das costelas inferiores.
  3. Durante a análise do ritmo, ninguém toca na vítima.
  4. Se aconselha choque: avisar em voz alta para todos se afastarem, premir o botão.
  5. Se não aconselha, ou logo após o choque, retomar de imediato as compressões torácicas por 2 minutos.
  6. Repetir o ciclo até chegada de ajuda diferenciada ou recuperação de sinais de vida.

A desfibrilhação precoce é o terceiro elo da Cadeia de Sobrevivência do adulto: cada minuto sem desfibrilhação reduz de forma acentuada as hipóteses de sobrevivência.

⚠️ Nunca se interrompem as compressões torácicas por mais tempo do que o estritamente necessário para a análise do DAE e a aplicação do choque.

7. Suporte Básico de Vida pediátrico

O algoritmo pediátrico segue a mesma lógica do adulto, com diferenças que decorrem de a paragem na criança ser, na maioria dos casos, de origem respiratória.

Aspeto Adulto Pediátrico
Insuflações iniciais Não 5, antes de qualquer compressão
Profundidade 5 a 6 cm Cerca de 1/3 do diâmetro do tórax (~4 cm lactente, ~5 cm criança)
Técnica (lactente) Não aplicável 2 dedos, ou 2 mãos a abraçar o tórax
Rácio (1 reanimador) 30:2 30:2
Rácio (2 reanimadores treinados) 30:2 15:2
Quando ligar ao 112, sozinho Antes de iniciar SBV Após 1 minuto de SBV

Exemplo resolvido: sozinho junto de uma criança em paragem

Um militar encontra uma criança sem resposta e sem respiração normal, num posto de socorro numa ação humanitária, e está sozinho, sem telemóvel à mão.

Resolução: inicia de imediato 5 insuflações, seguidas de ciclos de 30 compressões : 2 insuflações, durante 1 minuto completo, e só depois interrompe para ir pedir ajuda (ou grita por alguém, se houver quem ouça). Só regressa de imediato para continuar o SBV. Ligar ao 112 antes deste primeiro minuto atrasaria o início das compressões, que é o que mais importa nos primeiros segundos.

8. Obstrução da via aérea (OVA)

A obstrução distingue-se pela eficácia da tosse:

Tipo Sinais Atuação
Ligeira Tosse eficaz, consegue falar ou respirar Encorajar a tossir, vigiar
Grave Tosse ineficaz, sem ruído, não fala Atuar de imediato

Manobras de desobstrução, vítima consciente

  1. 5 pancadas interescapulares: inclinar a vítima para a frente, bater entre as omoplatas com a base da mão.
  2. Se não resolve, 5 compressões abdominais (manobra de Heimlich): por trás, punho fechado acima do umbigo, compressão para dentro e para cima.
  3. Alternar 5 e 5 até desobstruir, ou a vítima ficar inconsciente (nesse caso, deitar com cuidado e iniciar SBV).
  4. No lactente, nunca compressões abdominais: pancadas interescapulares e compressões torácicas apenas.

9. Traumatologia: feridas, hemorragias e objetos empalados

Feridas e hemorragias externas

A prioridade imediata numa ferida é controlar a hemorragia:

  1. Colocar luvas antes de qualquer contacto com sangue.
  2. Compressão direta sobre a ferida, com penso ou compressa, firme e mantida.
  3. Elevar o membro ferido, se não houver suspeita de fratura.
  4. Se a hemorragia grave num membro não para com compressão direta, usar torniquete como último recurso: acima da ferida, apertado até parar o sangramento, com a hora de colocação anotada de forma visível.
  5. Nunca remover um penso encharcado: coloca-se outro por cima.

Objetos empalados e hemorragia interna

Um objeto encravado no corpo nunca se remove no local: imobiliza-se em volta com pensos volumosos, sem pressionar sobre ele, para não se deslocar no transporte.

A hemorragia interna não se vê, mas manifesta-se por sinais de choque: pele pálida e fria, pulso rápido e fraco, agitação ou confusão. Perante suspeita, manter a vítima deitada e aquecida, e ativar o SIEM com urgência.

10. Traumatologia: queimaduras e traumatismos oculares

Queimaduras

Grau Profundidade Aspeto
Epiderme Pele vermelha, dolorosa, sem flictenas
Derme Flictenas (bolhas), muito dolorosa
Todas as camadas Pele esbranquiçada ou carbonizada, pode ser indolor

Primeiros socorros: arrefecer com água tépida corrente entre 10 e 20 minutos (nunca gelo direto), não rebentar as flictenas, retirar anéis e relógios antes de inchar, cobrir com penso não aderente, e ativar o SIEM se a queimadura for extensa, no rosto, nas mãos, ou de 3º grau.

Traumatismos oculares

Nunca pressionar o globo ocular ferido, nunca remover um corpo estranho encravado. Cobrir ambos os olhos, porque os dois se movem em conjunto, e proteger assim o olho lesado. Se houver produto químico, lavar abundantemente com água limpa, afastando-se do outro olho.

11. Traumatologia: craniano, vertebro-medular, torácico, abdominal e dos membros

Exemplo resolvido: ferida torácica aspirante

Um militar apresenta uma ferida no tórax que produz um som de sucção a cada respiração, e dificuldade crescente em respirar.

Resolução: aplica-se um penso de três pontas, selado em três dos quatro lados, deixando uma margem aberta. Isto permite que o ar acumulado no interior saia durante a expiração, mas não entre em excesso na inspiração seguinte, evitando o colapso progressivo do pulmão. Selar os quatro lados seria um erro grave: prenderia o ar e agravaria a lesão.

12. Lesões ambientais

13. Emergências médicas

Situação Sinais Primeiro socorro
Dor torácica Aperto, pode espalhar ao braço Repouso sentado, SIEM urgente, vigiar consciência
Convulsão Movimentos involuntários, perda de consciência Proteger de lesões, não conter, nada na boca, PLS após
Alteração da consciência Confusão, sonolência, resposta lenta Avaliar VOS, posição segura, SIEM
Intoxicação Sintomas variáveis conforme o agente Identificar o agente, não induzir vómito sem indicação, contactar o Centro de Informação Antivenenos
Alteração do comportamento Agitação, agressividade Abordagem calma, distância de segurança, pedir apoio
Choque Pele pálida e fria, pulso rápido e fraco, hipotensão Deitar, elevar pernas se sem trauma, aquecer, SIEM urgente

O choque partilha sinais com a hemorragia interna do capítulo 9: pele pálida e fria, pulso rápido e fraco. A causa pode variar (hemorrágica, cardíaca, alérgica, infeciosa), mas a resposta imediata do socorrista é sempre a mesma: deitar, aquecer e ativar o SIEM com urgência.

14. Equipamentos de proteção individual (EPI)

O EPI protege tanto o socorrista como a vítima seguinte, ao evitar a contaminação cruzada, e cumpre um dos requisitos da UC.

Erros comuns

Glossário

Síntese

O socorrista atua dentro de limites e ética claros, comunica bem e conhece o SIEM. A Cadeia de Sobrevivência organiza a resposta em quatro elos, adulto e pediátrica. Perante uma vítima, segue-se sempre a mesma ordem: segurança, consciência, via aérea, VOS. O SBV do adulto usa compressões a 5 a 6 cm e 100 a 120 por minuto, rácio 30:2; o SBV com DAE acrescenta a desfibrilhação precoce; o SBV pediátrico começa com 5 insuflações e adapta profundidade e rácio ao tamanho da vítima. A desobstrução da via aérea alterna pancadas interescapulares e compressões abdominais, exceto no lactente. O trauma (feridas, hemorragias, queimaduras, fraturas, lesões cranianas, torácicas e abdominais) e as emergências médicas (dor torácica, convulsão, choque, intoxicação) completam o quadro de atuação, sempre com EPI e as atitudes de responsabilidade, autocontrolo e cooperação em equipa.

Exercícios resolvidos

1. Uma vítima não responde e, na verificação VOS, o socorrista sente o ar na face mas de forma irregular e ruidosa, como um suspiro a cada 20 segundos. O que faz?

Resolução: isto é gasping, respiração agónica, que não conta como respiração normal. A vítima está em paragem cardiorrespiratória: inicia-se de imediato o algoritmo de SBV, e não a posição lateral de segurança.

2. Um reanimador sozinho encontra uma criança de 3 anos sem resposta e sem respiração normal. Descreve a sequência completa até à chegada de ajuda.

Resolução: 5 insuflações iniciais, seguidas de ciclos de 30 compressões para 2 insuflações, durante 1 minuto completo. Só depois desse minuto interrompe para pedir ajuda (112), e regressa de imediato para continuar o SBV até a criança recuperar sinais de vida ou chegar ajuda diferenciada.

3. O DAE analisa o ritmo e não aconselha choque. O que se faz a seguir?

Resolução: retomam-se de imediato as compressões torácicas, mantendo o ciclo de SBV durante 2 minutos, até o DAE pedir nova análise. Não se espera nem se questiona a decisão do aparelho.

4. Uma vítima consciente engasgada consegue tossir com força e falar frases curtas. Que manobra se aplica?

Resolução: nenhuma manobra ativa: a tosse é eficaz, o que indica obstrução ligeira. Encoraja-se a vítima a continuar a tossir e vigia-se, sem pancadas interescapulares nem compressões abdominais.

5. Um militar tem uma ferida no tórax que "assobia" a cada respiração. Que penso se aplica e porquê essa forma?

Resolução: um penso de três pontas, selado em três lados e com uma margem aberta. A margem aberta permite que o ar acumulado saia na expiração, evitando que o pulmão colapse progressivamente; selar os quatro lados prenderia o ar e agravaria a lesão.

6. Uma vítima apresenta pele pálida e fria, pulso rápido e fraco, e queda de tensão, sem ferida visível. Qual é a suspeita e a atuação imediata?

Resolução: suspeita de choque, possivelmente por hemorragia interna. Atuação: deitar a vítima, elevar as pernas se não houver trauma que o desaconselhe, aquecer, e ativar o SIEM com urgência, vigiando o estado de consciência.