Sebenta · Implementar o código de contas e normas contabilísticas (UC00883)
- Introdução
- 1. O que é a Contabilidade e para que serve
- 2. O Sistema de Normalização Contabilística (SNC)
- 3. Normas contabilísticas e relato financeiro
- 4. O património e a equação fundamental
- 5. O código de contas — as 8 classes
- 6. Débito e crédito — a lógica das contas
- 7. O método das partidas dobradas
- 8. Executar lançamentos — o método dos 4 passos
- 9. Livros e mapas contabilísticos
- 10. Demonstrações financeiras: Balanço e DR
- 11. Normas e regulamentos aplicáveis
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a fazer contabilidade do ponto de partida: perceber o que a contabilidade regista, conhecer as regras que todas as empresas portuguesas seguem — o Sistema de Normalização Contabilística (SNC) —, dominar o código de contas e aprender a transformar factos do dia-a-dia de uma empresa (uma venda, uma compra, um pagamento) em lançamentos corretos. No fim, deves conseguir movimentar as contas das oito classes, executar lançamentos com o método das partidas dobradas e elaborar os principais mapas contabilísticos (balancete, balanço e demonstração de resultados).
Não é preciso saber contabilidade para começar. Precisas apenas de raciocínio lógico e de gostar de ordem — porque é disso que a contabilidade vive: cada facto tem um documento, cada documento gera um lançamento, e cada lançamento equilibra-se a si mesmo. Vamos construir a lógica peça a peça, com muitos exemplos resolvidos passo-a-passo.
Objetivos de aprendizagem (referencial UC00883): movimentar as contas das classes do SNC; executar lançamentos contabilísticos; elaborar mapas contabilísticos. Para isso, vamos interpretar as normas contabilísticas e o código de contas, aplicar as regras de débito/crédito e ler as demonstrações financeiras.
1. O que é a Contabilidade e para que serve
A Contabilidade é o sistema que regista, classifica e resume, em dinheiro, todos os factos económicos de uma organização. Sempre que uma empresa compra, vende, paga, recebe, contrata ou investe, acontece um facto que altera o seu património — e a contabilidade regista-o.
Serve vários destinatários ao mesmo tempo:
- Os gestores, para decidir com base em números reais (a empresa dá lucro? tem dinheiro para pagar salários?).
- Os sócios/proprietários, para saber quanto vale a empresa e quanto rende.
- O Estado, porque os impostos (IRC, IVA) calculam-se a partir da contabilidade.
- Bancos e fornecedores, para avaliar se a empresa é de confiança.
Por isso a contabilidade é, para quase todas as empresas, obrigatória por lei. E tem uma regra inviolável logo à cabeça: nada se regista sem um documento de suporte — fatura, recibo, nota de crédito, extrato bancário. O documento prova que o facto existiu.
Contabilidade financeira vs. de gestão
- A contabilidade financeira (a desta UC) produz informação normalizada para o exterior: demonstrações financeiras segundo o SNC.
- A contabilidade de gestão produz informação interna para decidir (custos por produto, orçamentos). Não é normalizada.
Nesta UC tratamos da financeira — a que segue regras iguais para todos.
2. O Sistema de Normalização Contabilística (SNC)
Se cada empresa fizesse contabilidade à sua maneira, seria impossível comparar contas ou fiscalizá-las. Para o evitar, existe uma norma comum: em Portugal é o SNC — Sistema de Normalização Contabilística, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 158/2009 (com atualizações posteriores) e alinhado com as normas internacionais IAS/IFRS da União Europeia.
O SNC é composto, entre outros, por:
| Componente | O que faz |
|---|---|
| Estrutura Conceptual (EC) | define os conceitos-base: ativo, passivo, capital próprio, gasto, rendimento |
| NCRF | Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro — dizem como reconhecer e medir cada facto |
| Código de Contas | a lista numerada e organizada de todas as contas |
| Modelos de demonstrações financeiras | o formato oficial do Balanço, da DR, etc. |
Há também regimes simplificados para entidades mais pequenas (por exemplo, o das micro-entidades), com menos exigências, mas a lógica é sempre a mesma.
Conceitos-base da Estrutura Conceptual (fixa-os bem, usamo-los o tempo todo):
- Ativo — recurso controlado pela empresa, do qual espera benefícios futuros (dinheiro, equipamento, mercadoria, direitos a receber).
- Passivo — obrigação presente que resultará numa saída de recursos (dívidas a fornecedores, empréstimos, impostos a pagar).
- Capital Próprio — o que resta do ativo depois de deduzir o passivo; pertence aos donos.
- Rendimento — aumento de benefícios económicos no período (vendas, serviços prestados, juros ganhos).
- Gasto — diminuição de benefícios económicos no período (compras, salários, rendas, juros pagos).
3. Normas contabilísticas e relato financeiro
O relato financeiro é a forma como a empresa comunica a sua situação ao exterior, através das demonstrações financeiras (Balanço, Demonstração de Resultados e outras). As NCRF estabelecem como preparar essa informação.
Delas nascem princípios que orientam todo o registo:
- Regime do acréscimo (especialização dos exercícios) — os factos registam-se quando ocorrem, e não quando o dinheiro entra ou sai. Se vendes hoje e recebes daqui a 30 dias, a venda regista-se hoje.
- Continuidade — assume-se que a empresa vai continuar a operar no futuro previsível.
- Prudência — na dúvida, não sobreavaliar ativos e rendimentos nem subavaliar passivos e gastos.
- Consistência — usar os mesmos critérios de período para período, para permitir comparação.
- Materialidade — o que é irrelevante pode ser simplificado; o relevante nunca se omite.
- Fiabilidade e comparabilidade — a informação tem de ser verdadeira e comparável no tempo e entre empresas.
Estes princípios explicam porquê se lança de certa forma. Guarda-os: voltaremos a eles quando decidirmos quando registar um facto.
4. O património e a equação fundamental
O património de uma empresa é o conjunto do que ela tem e do que deve, num dado momento. Organiza-se em três grandes blocos, e entre eles há uma igualdade que nunca se quebra:
$$\textbf{ATIVO} = \textbf{PASSIVO} + \textbf{CAPITAL PRÓPRIO}$$
- O Ativo representa onde estão os recursos (aplicações): caixa, banco, clientes, mercadorias, equipamento.
- O Passivo representa de onde vieram os recursos que são dívidas (origens externas): fornecedores, empréstimos, impostos a pagar.
- O Capital Próprio representa a parte dos recursos que pertence aos donos (origens internas): capital investido, reservas, resultados acumulados.
Porque é que a igualdade nunca se quebra
Porque todo o facto tem duas faces. Se a empresa compra um computador de 800 € pagando em dinheiro: o ativo "Equipamento" sobe 800 e o ativo "Caixa" desce 800 — o total do ativo não muda, e a igualdade mantém-se. Se comprasse a crédito, o "Equipamento" subia 800 (ativo) e "Fornecedores" subia 800 (passivo) — os dois lados crescem em conjunto. É esta dupla face que dá origem às partidas dobradas (secção 7).
Exemplo rápido: uma empresa tem Caixa 1 000, Equipamento 4 000, deve 2 000 a fornecedores.
Ativo = 1 000 + 4 000 = 5 000
Passivo = 2 000
Capital Próprio = Ativo − Passivo = 5 000 − 2 000 = 3 000
Verificação: 5 000 = 2 000 + 3 000 ✔
5. O código de contas — as 8 classes
Para registar factos de forma normalizada, o SNC dá a cada tipo de elemento patrimonial uma conta, e a cada conta um código numérico. O primeiro dígito identifica a classe:
| Classe | Designação | Natureza | Exemplos de contas |
|---|---|---|---|
| 1 | Meios financeiros líquidos | Ativo | 11 Caixa · 12 Depósitos à ordem |
| 2 | Contas a receber e a pagar | Ativo e Passivo | 21 Clientes · 22 Fornecedores · 24 Estado · 23 Pessoal |
| 3 | Inventários e ativos biológicos | Ativo | 31 Compras · 32 Mercadorias · 33 Matérias-primas |
| 4 | Investimentos | Ativo | 43 Ativos fixos tangíveis · 44 Intangíveis |
| 5 | Capital, reservas e resultados transitados | Capital Próprio | 51 Capital · 55 Reservas · 56 Resultados transitados |
| 6 | Gastos | Gasto | 61 CMVMC · 62 Fornecimentos e serviços · 63 Gastos com pessoal |
| 7 | Rendimentos | Rendimento | 71 Vendas · 72 Prestações de serviços · 78 Outros rendimentos |
| 8 | Resultados | — | 81 Resultado líquido do período |
Nota importante: a classe 2 é mista — tem contas de ativo (Clientes, o que nos devem) e contas de passivo (Fornecedores, Estado, o que devemos).
Contas desdobradas por níveis
As contas desdobram-se, do geral para o particular, acrescentando dígitos:
2 Contas a receber e a pagar (classe)
21 Clientes (conta)
211 Clientes conta-corrente (subconta)
2111 Cliente "Padaria Sol, Lda." (conta de 3.º grau)
Quantos mais dígitos, mais detalhe. Assim conseguimos saber não só "quanto nos devem os clientes" (21) mas "quanto nos deve a Padaria Sol" (2111).
Códigos que vale a pena decorar (usa-os todos os dias):
| Código | Conta | Classe |
|---|---|---|
| 11 | Caixa | 1 (ativo) |
| 12 | Depósitos à ordem | 1 (ativo) |
| 21 | Clientes | 2 (ativo) |
| 22 | Fornecedores | 2 (passivo) |
| 24 | Estado e outros entes públicos | 2 (ativo/passivo) |
| 31 | Compras | 3 (gasto/inventário) |
| 43 | Ativos fixos tangíveis | 4 (ativo) |
| 51 | Capital | 5 (cap. próprio) |
| 62 | Fornecimentos e serviços externos | 6 (gasto) |
| 63 | Gastos com o pessoal | 6 (gasto) |
| 71 | Vendas | 7 (rendimento) |
| 72 | Prestações de serviços | 7 (rendimento) |
6. Débito e crédito — a lógica das contas
Cada conta tem dois lados. Representamo-la por um "T" (a conta em T ou razão-T):
21 · Clientes
Débito | Crédito
(esquerda) | (direita)
-------------- | --------------
1 000 |
Atenção ao maior mal-entendido: débito não significa "negativo" nem crédito "positivo". Débito e crédito são apenas os dois lados da conta. O que importa é saber qual lado faz cada conta aumentar — e isso depende da natureza da conta.
A regra de ouro
| Natureza da conta | Aumenta a… | Diminui a… | Saldo normal |
|---|---|---|---|
| Ativo | Débito | Crédito | Devedor (débito) |
| Passivo | Crédito | Débito | Credor (crédito) |
| Capital Próprio | Crédito | Débito | Credor (crédito) |
| Gasto | Débito | Crédito | Devedor (débito) |
| Rendimento | Crédito | Débito | Credor (crédito) |
Duas formas de memorizar:
- "A GA D" → Ativos e GAstos aumentam a Débito. Tudo o resto (passivo, capital, rendimentos) aumenta a crédito.
- Ou pela equação: os elementos do lado esquerdo da equação (Ativo) aumentam à esquerda (débito); os do lado direito (Passivo + Capital Próprio) aumentam à direita (crédito). Gastos "consomem" capital → comportam-se como o lado esquerdo; rendimentos "geram" capital → comportam-se como o lado direito.
Saldo de uma conta
O saldo é a diferença entre os dois lados:
- Se débito > crédito → saldo devedor (típico de ativos e gastos).
- Se crédito > débito → saldo credor (típico de passivos, capital, rendimentos).
7. O método das partidas dobradas
Aqui está o coração da contabilidade:
Em cada lançamento, o total lançado a débito é sempre igual ao total lançado a crédito.
Isto acontece porque, como vimos, todo o facto tem duas faces: uma origem de recursos e uma aplicação de recursos. Quando pagas a renda em dinheiro, há uma origem (sai dinheiro da Caixa) e uma aplicação (nasce o gasto "Rendas"). As duas faces valem o mesmo, logo débito = crédito.
Consequência prática poderosíssima: se algum dia os débitos não igualarem os créditos, há erro de certeza. As partidas dobradas são, ao mesmo tempo, o método de registo e um mecanismo de autoverificação.
Um lançamento pode ter mais de duas contas (chama-se lançamento composto), mas a soma dos débitos continua a ter de igualar a soma dos créditos.
8. Executar lançamentos — o método dos 4 passos
Para lançar qualquer documento, faz sempre quatro perguntas pela ordem certa:
- Que contas são afetadas? (identifica-as no código de contas)
- Qual a natureza de cada uma? (ativo, passivo, capital próprio, gasto ou rendimento)
- Cada uma aumenta ou diminui?
- Logo, cada uma vai a débito ou a crédito? (aplica a regra de ouro)
No fim, confirma: débitos = créditos.
Exemplo resolvido 1 · Constituição da empresa
Facto: os sócios criam a empresa depositando 10 000 € no banco.
- Contas: Depósitos à ordem (12) e Capital (51).
- Natureza: 12 = ativo · 51 = capital próprio.
- Movimento: entra dinheiro → 12 aumenta; nasce o capital → 51 aumenta.
- Lado: ativo↑ = débito; capital↑ = crédito.
Débito: 12 Depósitos à ordem ...... 10 000
Crédito: 51 Capital .................. 10 000
Exemplo resolvido 2 · Compra de equipamento a crédito
Facto: compra de um servidor por 1 200 €, a pagar a 30 dias.
- 43 Ativos fixos tangíveis — ativo → aumenta → débito.
- 22 Fornecedores (de investimentos) — passivo → aumenta (passámos a dever) → crédito.
Débito: 43 Ativos fixos tangíveis .. 1 200
Crédito: 22 Fornecedores ............. 1 200
Repara: não saiu dinheiro. Pelo regime do acréscimo, registamos já a compra e a dívida.
Exemplo resolvido 3 · Pagamento ao fornecedor
Facto: dias depois, pagamos os 1 200 € por transferência bancária.
- 22 Fornecedores — passivo → diminui (deixámos de dever) → débito.
- 12 Depósitos à ordem — ativo → diminui (saiu dinheiro) → crédito.
Débito: 22 Fornecedores ............. 1 200
Crédito: 12 Depósitos à ordem ........ 1 200
Exemplo resolvido 4 · Venda com IVA
Facto: venda de mercadoria por 1 000 € + IVA 23%, recebida por transferência. O IVA (230 €) não é nosso — é do Estado; guardamo-lo para entregar.
- 12 Depósitos à ordem — ativo → aumenta → débito 1 230 (o total recebido).
- 71 Vendas — rendimento → aumenta → crédito 1 000.
- 24 Estado (IVA liquidado) — passivo → aumenta (devemos ao Estado) → crédito 230.
Débito: 12 Depósitos à ordem ...... 1 230
Crédito: 71 Vendas ................... 1 000
Crédito: 24 Estado — IVA liquidado ..... 230
-------
Verificação: 1 230 (D) = 1 000 + 230 (C) ✔
Este é um lançamento composto: três contas, mas débito = crédito.
Exemplo resolvido 5 · Pagamento de salários
Facto: processamento de 2 000 € de salários, pagos por banco (versão simplificada, sem descontos).
- 63 Gastos com o pessoal — gasto → aumenta → débito 2 000.
- 12 Depósitos à ordem — ativo → diminui → crédito 2 000.
Débito: 63 Gastos com o pessoal .... 2 000
Crédito: 12 Depósitos à ordem ........ 2 000
9. Livros e mapas contabilísticos
Os lançamentos organizam-se em livros e resumem-se em mapas.
Livro Diário
Regista todos os factos por ordem cronológica, um lançamento de cada vez, com data, documento, contas e valores. É o "diário de bordo" da empresa.
Data Doc. Conta Débito Crédito
2026-01-05 FT 1 12 Depósitos à ordem 1 230
71 Vendas 1 000
24 Estado — IVA liquidado 230
Livro Razão
Reorganiza os mesmos movimentos por conta: reúne, em cada razão-T, tudo o que entrou e saiu dessa conta, para calcular o seu saldo.
12 · Depósitos à ordem 21 · Clientes
Déb. | Créd. Déb. | Créd.
10 000 | 1 000 | 1 000
1 230 | 1 200
------------|---------- ------------|----------
Saldo dev. 11 230 Saldo 0
Fluxo: documento → Diário → Razão → saldos.
Balancete de verificação
O balancete lista todas as contas com o total de débitos, o total de créditos e o saldo (devedor ou credor). É a grande prova real:
| Conta | Total Déb. | Total Créd. | Saldo Dev. | Saldo Cred. |
|---|---|---|---|---|
| 12 Depósitos à ordem | 11 230 | 1 200 | 10 030 | — |
| 22 Fornecedores | 1 200 | 1 200 | — | — |
| 43 Ativos fixos tangíveis | 1 200 | — | 1 200 | — |
| 51 Capital | — | 10 000 | — | 10 000 |
| 71 Vendas | — | 1 000 | — | 1 000 |
| 24 Estado — IVA | — | 230 | — | 230 |
| TOTAIS | X | X | 11 230 | 11 230 |
Se as colunas de totais batem certo e os saldos devedores igualam os credores, as partidas dobradas foram respeitadas. Se não batem, há erro — e vamos procurá-lo.
10. Demonstrações financeiras: Balanço e DR
Dos saldos do balancete nascem os dois mapas principais.
Balanço
É a fotografia do património numa data: mostra o Ativo de um lado e o Passivo + Capital Próprio do outro. Tem de verificar sempre:
$$\text{Ativo} = \text{Passivo} + \text{Capital Próprio}$$
Usa os saldos das contas das classes 1, 2 (parte ativo), 3, 4 (ativo), 2 (parte passivo) (passivo) e 5 (capital próprio).
Demonstração de Resultados (DR)
É o filme de um período (um mês, um ano): confronta rendimentos (classe 7) com gastos (classe 6) para apurar o resultado.
$$\text{Resultado Líquido} = \text{Rendimentos} - \text{Gastos}$$
- Resultado positivo → lucro.
- Resultado negativo → prejuízo.
Exemplo: no período tivemos Vendas 1 000 (classe 7) e Gastos com pessoal 2 000 (classe 6).
Rendimentos (71 Vendas) ............ 1 000
Gastos (63 Pessoal) ................ 2 000
Resultado Líquido = 1 000 − 2 000 = −1 000 (prejuízo)
O resultado apurado transita depois para o capital próprio (classe 5/8), fechando o ciclo — e a equação fundamental continua a bater certo.
11. Normas e regulamentos aplicáveis
Ao lançar e reportar, cumpre-se um conjunto de regras:
- Decreto-Lei n.º 158/2009 — aprova o SNC (e diplomas que o atualizam).
- Código de Contas e NCRF — obrigatórios na classificação e mensuração.
- Código do IVA e Código do IRC — para o tratamento fiscal de vendas, compras e resultados.
- Conservação de documentos e livros — pelo prazo legal (regra geral, 10 anos).
- Registo sempre com documento e por ordem cronológica; sem apagar nem rasurar (as correções fazem-se com novos lançamentos, ex.: estornos).
O software de contabilidade (um ERP, por exemplo) automatiza muito disto — mas só faz bem quem lança se perceber a lógica por trás. É essa lógica que esta UC te dá.
Erros comuns
- Trocar débito com crédito — esquecer a regra de ouro. Volta sempre aos 4 passos.
- Lançamento desequilibrado — débitos ≠ créditos. Nunca fica assim; falta uma conta ou um valor está trocado.
- Confundir gasto (classe 6) com dívida (classe 2) — comprar a crédito gera gasto/inventário e um passivo (fornecedor); são contas diferentes.
- Registar pela data do pagamento em vez da data do facto — viola o regime do acréscimo.
- Somar o IVA às Vendas — o IVA liquidado não é rendimento; é uma dívida ao Estado (classe 2).
- Inventar códigos fora do plano de contas.
- Confundir saldo devedor com "conta negativa" — saldo devedor é normal nos ativos.
Glossário
- SNC — Sistema de Normalização Contabilística; conjunto de regras contabilísticas em vigor em Portugal.
- NCRF — Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro.
- Ativo — bens e direitos da empresa (o que tem e o que lhe devem).
- Passivo — obrigações da empresa (o que deve).
- Capital Próprio — Ativo − Passivo; a parte dos donos.
- Débito / Crédito — os dois lados de uma conta (esquerda / direita).
- Partidas dobradas — método em que débitos = créditos em cada lançamento.
- Lançamento — registo contabilístico de um facto, com contas a débito e a crédito.
- Diário — livro que regista os factos por ordem cronológica.
- Razão — livro que organiza os movimentos por conta.
- Balancete — mapa que lista todas as contas com débitos, créditos e saldos.
- Balanço — demonstração do património numa data.
- Demonstração de Resultados (DR) — mapa que apura Rendimentos − Gastos.
- Regime do acréscimo — registar os factos quando ocorrem, não quando se paga/recebe.
- CMVMC — Custo das Mercadorias Vendidas e das Matérias Consumidas (conta 61).
- Estorno — lançamento que corrige/anula um lançamento anterior.
Síntese
- A contabilidade regista, com documento, todos os factos económicos da empresa.
- O SNC normaliza esse registo em Portugal; o código de contas tem 8 classes e o 1.º dígito dá a classe.
- Ativo = Passivo + Capital Próprio — igualdade que nunca se quebra.
- Regra de ouro: Ativos e Gastos aumentam a débito; Passivos, Capital e Rendimentos aumentam a crédito.
- Partidas dobradas: em cada lançamento, débitos = créditos.
- Fluxo: documento → Diário → Razão → Balancete → Balanço + DR.
- Resultado = Rendimentos − Gastos (lucro se positivo, prejuízo se negativo).
Exercícios resolvidos
1) Classificar contas. Indica a classe e a natureza de: (a) Caixa, (b) Fornecedores, (c) Vendas, (d) Ativos fixos tangíveis, (e) Gastos com o pessoal.
(a) Caixa — classe 1, ativo. (b) Fornecedores — classe 2, passivo. (c) Vendas — classe 7, rendimento. (d) Ativos fixos tangíveis — classe 4, ativo. (e) Gastos com o pessoal — classe 6, gasto.
2) Débito ou crédito? A empresa recebe 500 € de um cliente por transferência. Que contas mexem e para que lado?
Mexem 12 Depósitos à ordem (ativo, aumenta → débito 500) e 21 Clientes (ativo, diminui porque já nos pagou → crédito 500).
Débito: 12 Depósitos à ordem .... 500 Crédito: 21 Clientes ............... 500
3) Lançamento composto. Compra de mercadoria por 800 € + IVA 23% (184 €), a crédito. Faz o lançamento.
31 Compras (gasto/inventário) aumenta → débito 800. 24 Estado — IVA dedutível (ativo, direito a deduzir) aumenta → débito 184. 22 Fornecedores (passivo) aumenta → crédito 984.
Débito: 31 Compras ............... 800 Débito: 24 Estado — IVA dedutível . 184 Crédito: 22 Fornecedores ......... 984 Verificação: 984 (D) = 984 (C) ✔
4) Apurar o resultado. No mês, uma empresa teve: Vendas 12 000, Prestações de serviços 3 000, CMVMC 6 000, Fornecimentos e serviços 2 500, Gastos com pessoal 4 000. Calcula o resultado líquido e diz se há lucro ou prejuízo.
Rendimentos = 12 000 + 3 000 = 15 000. Gastos = 6 000 + 2 500 + 4 000 = 12 500. Resultado = 15 000 − 12 500 = +2 500 → lucro de 2 500 €.
5) Verificar a equação. Uma empresa tem Ativo 45 000 e Capital Próprio 28 000. Quanto vale o Passivo? A empresa está mais financiada pelos donos ou por dívida?
Passivo = Ativo − Capital Próprio = 45 000 − 28 000 = 17 000. Como o Capital Próprio (28 000) é maior do que o Passivo (17 000), está mais financiada pelos donos — situação financeira mais sólida.