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UC · Unidade de Competência · UC00882

Sebenta · Efetuar a gestão comercial e de aprovisionamento (UC00882)

Compras, vendas, clientes, armazém e stocks — conceitos, documentos e cálculos aplicados
—h · — pontos crédito Curso: T. Inform. Gestão ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a gerir o que entra e o que sai de uma empresa: as compras aos fornecedores, as vendas aos clientes, a arrumação e codificação dos artigos no armazém, e a gestão dos stocks que liga as duas pontas. É a espinha dorsal de qualquer negócio que compre para vender — uma loja de informática, uma mercearia, uma distribuidora — e é também aquilo que os sistemas de gestão (ERP) informatizam. Como técnico de informática de gestão, vais operar, configurar e manter esses sistemas; para isso tens de perceber o negócio que eles suportam.

O percurso segue o ciclo real de uma empresa: primeiro compra-se (deteção da necessidade, escolha do fornecedor, encomenda, receção), depois arruma-se e controla-se o stock, depois vende-se e cobra-se. Ao longo do caminho aparecem documentos (encomenda, guia, fatura), cálculos (IVA, descontos, margens, lote económico, ponto de encomenda) e normas (contabilísticas, fiscais e de proteção de dados) que não são opcionais.

Objetivos de aprendizagem (referencial): executar procedimentos de gestão de compras e de vendas; executar a gestão de stocks; interpretar os conceitos de compras, vendas e stocks; identificar sistemas de codificação de compras, armazém e vendas; utilizar um sistema de gestão de clientes; aplicar técnicas de comunicação com clientes e fornecedores; efetuar cálculos de operações de compra e venda; aplicar normas contabilísticas; usar métodos de organização material dos stocks; e aplicar o RGPD e demais regulamentos.

1. O ciclo comercial e de aprovisionamento

Toda a empresa que compra para vender vive um ciclo:

Necessidade → Compra → Receção → Armazém/Stock → Venda → Cobrança

Cada elo tem responsáveis, documentos e registos informáticos. Vale a pena distinguir quatro conceitos que são frequentemente confundidos:

O grande objetivo do aprovisionamento é o custo total mais baixo, não o preço de compra mais baixo. Um fornecedor barato mas que atrasa entregas pode custar mais (paragens, compras urgentes, clientes perdidos) do que um ligeiramente mais caro e fiável.

2. Gestão de compras — conceitos e mercado

Comprar bem começa por conhecer o mercado fornecedor: quem vende o que precisamos, a que preços, com que condições. O processo de compra tem etapas bem definidas:

  1. Deteção da necessidade — normalmente um alerta automático de stock mínimo ou uma requisição interna.
  2. Requisição de compra — documento interno que autoriza avançar.
  3. Consulta ao mercado — pedir orçamentos a vários fornecedores (nunca a um só, por princípio de concorrência).
  4. Análise e seleção — comparar não só o preço, mas prazo, qualidade e condições.
  5. Nota de encomenda — documento que formaliza a compra ao fornecedor escolhido.
  6. Receção — conferir a mercadoria contra a guia de remessa e contra a encomenda (quantidade, referência, estado).
  7. Conferência da fatura — validar preços, quantidades, descontos e IVA face ao acordado.
  8. Registo — dar entrada em stock e lançar na contabilidade.

Um erro clássico é comprar pelo preço mais baixo. A decisão certa olha para o custo total de posse: preço + transporte + prazo + fiabilidade + assistência.

3. Fornecedores, negociação e comunicação

O cadastro de fornecedores é um registo com NIF, contactos, condições de pagamento (pronto, 30/60/90 dias), prazos médios de entrega, histórico de compras e ocorrências (atrasos, devoluções). É a memória da empresa.

Seleção de fornecedores — usa-se uma matriz de decisão ponderada: definir critérios com pesos, pontuar cada fornecedor e somar. Ver o exemplo resolvido no fim desta sebenta.

Técnicas de comunicação (valem para fornecedores e clientes):

Numa negociação, prepara: o objetivo, o limite máximo que aceitas, o teu plano B (alternativas) e as concessões que podes dar em troca de algo.

4. Gestão de vendas — conceitos e mercado

A venda é o espelho da compra, mas do lado de fora:

  1. Contacto/pedido do cliente (loja física, telefone, site).
  2. Orçamento / proposta — preço, prazo e condições.
  3. Encomenda do cliente — confirmação do pedido.
  4. Conferência de stock — há produto? Se não, aciona-se a compra.
  5. Expedição — preparação + guia de transporte.
  6. Faturação — emissão da fatura com IVA.
  7. Cobrança — recebimento e respetivo registo.

Conhecer o mercado e os clientes significa segmentar (particulares vs empresas, por zona, por volume) e medir o valor de cada cliente. Angariar um cliente novo custa várias vezes mais do que manter um atual, por isso a fidelização compensa: cartões de cliente, descontos por volume, bom pós-venda e campanhas dirigidas. Indicadores úteis: frequência de compra, ticket médio e taxa de retenção.

5. Sistema de gestão de clientes (CRM)

Um CRM (Customer Relationship Management) centraliza tudo sobre cada cliente: dados de identificação (nome, NIF, contactos, morada), histórico (compras, orçamentos, contactos, reclamações), segmentação (categoria, potencial, canal preferido) e tarefas/follow-up.

Vantagens: visão única do cliente, menos erros, campanhas dirigidas e continuidade quando muda o comercial responsável. Em Portugal, os módulos de CRM aparecem em ERPs como PHC, Primavera e Sage, além de plataformas dedicadas.

Operações que o técnico executa no dia a dia:

A regra de ouro: 1 cliente = 1 ficha. Duplicados destroem relatórios e segmentação.

6. Documentos comerciais e cálculos

Os principais documentos do ciclo:

Documento Quem emite Função
Requisição Interno Pedir uma compra
Nota de encomenda Comprador Formalizar a compra ao fornecedor
Guia de remessa/transporte Fornecedor Acompanhar a mercadoria
Fatura Vendedor Título de dívida (com IVA)
Nota de crédito Vendedor Corrigir/anular a favor do cliente
Recibo Vendedor Prova de pagamento

Em Portugal a faturação é certificada e comunicada à AT (e-Fatura).

Cálculos essenciais (ver exercícios resolvidos):

7. Normas contabilísticas

O técnico não substitui o contabilista; prepara e organiza os registos (faturas conferidas, entradas/saídas de stock) que alimentam a contabilidade.

8. Armazenagem e organização material

Armazenar é arrumar para encontrar depressa e conservar bem. Um armazém tem zonas de receção, armazenagem e preparação/expedição. Critérios de arrumação:

A localização por endereço identifica cada posição: Corredor–Estante–Prateleira–Posição (ex.: A-03-2-B). Um bom layout minimiza deslocações — o custo escondido do armazém é o tempo a andar.

9. Sistemas de codificação

Cada artigo precisa de um código único que o identifica sem ambiguidade — na compra, no armazém e na venda.

Sistema Descrição Exemplo
Sequencial Números por ordem de criação 000145
Significativo Dígitos com significado (família/tipo) INF-TEC-014
Alfanumérico Letras + números RAM8-DDR4
Código de barras (EAN-13) 13 dígitos, leitura ótica 5601234567890
QR / RFID Etiqueta com muita informação

Regras de um bom código: único, estável (não muda ao longo do tempo), sem ambiguidade e, de preferência, legível por máquina. A codificação é a base do inventário, do ponto de venda (POS) e da rastreabilidade.

10. Gestão de stocks — conceitos e classificação

Stock são os bens armazenados para venda ou produção. Existe para absorver a diferença entre o ritmo a que se compra e aquele a que se vende. Ter stock a mais imobiliza dinheiro, ocupa espaço e arrisca obsolescência; ter a menos provoca ruturas (vendas perdidas, clientes insatisfeitos, compras urgentes mais caras). O objetivo é o nível ótimo entre os dois.

Tipos de stock: normal (de ciclo), de segurança, em trânsito e morto/obsoleto.

Classificação ABC (princípio de Pareto): ordenar os artigos pelo valor anual (consumo × preço unitário) e agrupar:

Classe % artigos % valor Gestão
A ~20% ~80% Apertada, revisão frequente
B ~30% ~15% Intermédia
C ~50% ~5% Simples, encomendas grandes

Concentra-se o esforço nos artigos A — poucos, mas valem quase tudo.

11. Cálculos de stock

Ponto de encomenda (PE) — o nível que dispara uma nova encomenda a tempo de a mercadoria chegar antes de esgotar:

PE = (Consumo médio diário × Prazo de entrega) + Stock de segurança

Stock de segurança — colchão para variações da procura e do prazo.

Lote económico de encomenda (QEE, fórmula de Wilson) — a quantidade que minimiza o custo total (custo de encomendar + custo de posse):

QEE = raiz_quadrada( (2 × D × Ce) / (Cp × Pu) )
  D  = procura anual
  Ce = custo de lançar 1 encomenda
  Cp = taxa de posse (% do valor por ano)
  Pu = preço unitário

Rotação de stock — quantas vezes por ano o stock "gira": Rotação = Custo das vendas / Stock médio. Cobertura — quantos dias dura o stock: Cobertura = Stock médio / Consumo diário. Rotação alta = pouco dinheiro parado (bom, mas atenção a ruturas); rotação baixa = excesso e risco.

12. RGPD e normas aplicáveis

Gerir clientes e fornecedores é tratar dados pessoais → aplica-se o RGPD:

Atenção: faturas e registos contabilísticos têm conservação obrigatória (regra: 10 anos) que se sobrepõe ao "apagar a pedido". Outras normas relevantes: Código do IVA e faturação certificada, defesa do consumidor (garantias, direito de livre resolução nas vendas à distância) e as políticas internas de compras e crédito.

Erros comuns

Glossário

Síntese

A gestão comercial e de aprovisionamento fecha o ciclo comprar → armazenar → vender → cobrar. Compra-se olhando ao custo total e a vários fornecedores; arruma-se e codifica-se para encontrar depressa; controla-se o stock com ABC, ponto de encomenda e lote económico para não faltar nem sobrar; vende-se e fideliza-se apoiado num CRM; e faz-se tudo cumprindo as normas contabilísticas, fiscais e o RGPD. Os cálculos (IVA, descontos, margens, stock) são a linguagem comum de todo o processo.

Exercícios resolvidos

1. IVA e preço final. Um artigo custa 250 € sem IVA (taxa 23%). Qual o preço final e o IVA contido?

Resolução: Total = 250 × 1,23 = 307,50 €. IVA = 307,50 − 250 = 57,50 €.

2. Descontos encadeados. Preço de tabela 400 €, com 10% e depois 5%. Qual o preço final e o desconto efetivo?

Resolução: 400 × 0,90 = 360 → 360 × 0,95 = 342 €. Desconto efetivo = (400−342)/400 = 14,5% (não 15%).

3. Margem vs markup. Custo 60 €, venda 90 €.

Resolução: Markup = (90−60)/60 = 50%. Margem = (90−60)/90 = 33,3%.

4. PVP a partir da margem. Custo 60 €, margem alvo 40%.

Resolução: PVP = 60 / (1 − 0,40) = 60 / 0,60 = 100 €.

5. Custo médio ponderado. Entrada 1: 20 un a 4 €. Entrada 2: 30 un a 6 €. Qual o CMP?

Resolução: CMP = (20×4 + 30×6) / (20+30) = (80+180)/50 = 260/50 = 5,20 €/un.

6. Ponto de encomenda. Consumo 40 un/dia, prazo 6 dias, stock de segurança 50 un.

Resolução: PE = (40 × 6) + 50 = 240 + 50 = 290 unidades.

7. Lote económico (Wilson). D = 4000 un/ano, Ce = 25 €, Pu = 10 €, Cp = 20%.

Resolução: QEE = √(2×4000×25 / (0,20×10)) = √(200000 / 2) = √100000 ≈ 316 unidades. Nº de encomendas ≈ 4000/316 ≈ 12,7/ano.

8. Análise ABC (mini). Três artigos com valor anual: X = 8000 €, Y = 1500 €, Z = 500 € (total 10 000 €).

Resolução: X = 80% do valor → classe A; Y = 15% → classe B; Z = 5% → classe C. O esforço de gestão vai para X.

9. Matriz de seleção de fornecedores. Critérios/pesos: Preço 50%, Prazo 30%, Qualidade 20%. Fornecedor A: 4/3/5; Fornecedor B: 3/5/4.

Resolução: A = 4×0,5 + 3×0,3 + 5×0,2 = 2,0+0,9+1,0 = 3,9. B = 3×0,5 + 5×0,3 + 4×0,2 = 1,5+1,5+0,8 = 3,8. Escolhe-se A (por pouco).

10. Rotação e cobertura. Custo das vendas anual = 120 000 €; stock médio = 15 000 €; consumo médio = 40 un/dia; stock médio em unidades = 800.

Resolução: Rotação = 120000/15000 = 8 vezes/ano. Cobertura = 800/40 = 20 dias.