Organizar os cosméticos no serviço de estética e bem-estar (UC00842)
- Introdução
- 1. O produto cosmético: tipos, características, funções e ações
- O que é um produto cosmético
- Cosmético, medicamento, dispositivo médico e suplemento
- Características de um bom cosmético
- Tipos de produtos e formas de apresentação
- Funções e ações: a diferença que o referencial exige
- Exemplo resolvido · Classificar três produtos pela função e pela ação
- Quadro de preparações por zona do corpo
- 2. Classificação dos cosméticos por função e ação: organizar o gabinete
- 3. Componentes, matérias-primas, testes e produtos ecológicos, orgânicos, veganos e inovadores
- 4. Rotulagem e documentação técnica dos produtos cosméticos
- Porque o rótulo é uma ferramenta de trabalho
- Informação obrigatória
- A lista de ingredientes e a nomenclatura INCI
- Símbolos mais frequentes
- Documentação técnica
- A entidade competente
- Exemplo resolvido · Verificar se uma embalagem está em condições de ser usada
- Exemplo resolvido · Calcular o custo por tratamento a partir do conteúdo nominal
- 5. Vias de penetração, promotores químicos e vesículas coloidais
- 6. Facilitar a penetração por meios físicos: eletroterapia e microagulhamento
- 7. Preparações cosméticas de gabinete: termogénicos, ativos específicos e famílias por tratamento
- 8. Peelings químicos
- Contexto histórico
- Definição e mecanismo de ação
- Classificação por profundidade
- Ações fisiológicas
- Ácidos usados em estética: características
- pH e concentração: duas variáveis, não uma
- Exemplo resolvido · Efeito do pH numa solução de ácido glicólico
- Valores de referência de concentração e pH
- Apresentação e modo de aplicação
- Indicações
- Contraindicações e precauções
- Exemplo resolvido · Escolher o peeling para duas clientes
- 9. Seleção, planeamento e protocolo; aconselhamento cosmético e avaliação de riscos
- 10. Cosméticos de maquilhagem: estabilidade, validade, maquilhagem semipermanente e riscos
- 11. Estabilidade, conservação, armazenamento, validade e stock
- Estabilidade
- Conservação: o que acelera a degradação
- Condições de armazenamento
- Manipulação
- Prazo de validade: data de durabilidade mínima e PAO
- Exemplo resolvido · Calcular a data limite de utilização
- Gestão do stock
- Exemplo resolvido · Calcular o ponto de encomenda
- Exemplo resolvido · Aplicar FEFO a um lote
- Produtos fora de prazo, danificados ou retirados
- 12. Normas de qualidade, legislação em vigor, ética e segurança
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.
Introdução
Esta sebenta ensina a organizar os cosméticos no serviço de estética e bem-estar: saber o que cada produto é, para que serve, de que é feito, como se lê o seu rótulo, como atravessa (ou não) a pele, quando se usa em gabinete e quando se aconselha para casa, como se arruma, como se conserva e que regras legais e de qualidade o enquadram. Quem trabalha num gabinete de estética, num spa, num hotel ou num serviço ao domicílio passa o dia a escolher, abrir, aplicar, guardar e repor cosméticos. Escolher mal custa dinheiro; guardar mal estraga o produto; aplicar mal pode magoar a cliente.
O percurso segue o raciocínio do profissional. Primeiro, conhecer o produto: tipos, funções, ações, componentes, matérias-primas, testes e as famílias ecológica, orgânica, vegana e inovadora. Depois, interpretar a informação que o acompanha: rotulagem, lista de ingredientes, ficha técnica, documentação. A seguir, perceber como o produto chega ao destino: vias de penetração, promotores químicos, vesículas coloidais e os métodos físicos que facilitam a entrada de ativos (eletroterapia e microagulhamento). Seguem-se as famílias de produtos de gabinete (termogénicos, peelings químicos, ativos específicos, maquilhagem), o planeamento do protocolo e o aconselhamento cosmético, e, por fim, a conservação, o stock, as normas de qualidade e a legislação.
Realizações do referencial que esta sebenta cobre: classificar os cosméticos segundo a sua função e ação; selecionar e planear intervenções cosméticas para equilíbrio da pele e anexos; organizar os cosméticos de acordo com o protocolo a aplicar; realizar o aconselhamento cosmético; e determinar as boas condições de armazenamento e conservação dos produtos cosméticos.
Como estudar. Cada capítulo tem tabelas para consulta rápida, pelo menos um exemplo resolvido passo a passo e, no fim do manual, uma lista de erros comuns, um glossário, uma síntese e exercícios resolvidos. Faz primeiro o exemplo sozinho, tapando a resolução, e só depois confere. As fichas de trabalho e o mini-projeto aplicam a matéria a situações novas.
Uma nota sobre limites profissionais. A seleção e a organização dos cosméticos nos serviços de tratamentos de beleza e bem-estar fazem-se de acordo com as normas e a legislação em vigor e com o parecer da Ordem dos Médicos. Isto significa que há técnicas, substâncias e profundidades de ação que pertencem ao ato médico e que o técnico de estética não deve executar. Sempre que um valor, um limite ou uma concentração aparece nesta sebenta como referência, o profissional confirma-o no rótulo, na ficha técnica do fabricante e no diploma aplicável, na redação em vigor.
1. O produto cosmético: tipos, características, funções e ações
O que é um produto cosmético
No quadro europeu, um produto cosmético é qualquer substância ou mistura destinada a ser posta em contacto com as partes externas do corpo humano (epiderme, sistema piloso e capilar, unhas, lábios e órgãos genitais externos) ou com os dentes e as mucosas bucais, com a finalidade exclusiva ou principal de os limpar, perfumar, modificar o seu aspeto, protegê-los, mantê-los em bom estado ou corrigir odores corporais. A definição está no Regulamento (CE) n.º 1223/2009 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 30 de novembro de 2009, relativo aos produtos cosméticos, aplicável em todos os Estados-Membros, incluindo Portugal.
Três palavras da definição merecem atenção. Partes externas significa que o cosmético não é injetado, ingerido nem introduzido no organismo para atuar lá dentro. Finalidade exclusiva ou principal significa que a intenção do produto conta: um creme que se anuncia como tratamento de uma doença deixa de ser cosmético. E proteger, manter em bom estado, corrigir são verbos de manutenção e melhoria do aspeto, não de cura.
Cosmético, medicamento, dispositivo médico e suplemento
A confusão entre estas categorias é a origem de muitos erros em gabinete. A tabela resume as fronteiras.
| Categoria | Para que serve | Onde atua | Exemplo | Quem regula (em Portugal) |
|---|---|---|---|---|
| Cosmético | limpar, proteger, perfumar, modificar o aspeto, manter em bom estado | superfície do corpo (epiderme, pelos, unhas, lábios) | creme hidratante, sérum, máscara, batom | INFARMED, no quadro do regulamento europeu |
| Medicamento | tratar ou prevenir doenças, restaurar funções | pode atuar no organismo todo | pomada com corticoide, antifúngico | INFARMED, com regime próprio |
| Dispositivo médico | finalidade médica, sem ação principal farmacológica | depende do dispositivo | alguns pensos, certos géis médicos | INFARMED, com regime próprio |
| Suplemento alimentar | complementar a alimentação | ingerido | cápsulas de colagénio | autoridades de segurança alimentar |
Regra prática: se a embalagem ou o discurso prometem tratar acne grave, curar dermatite, eliminar celulite por ação metabólica ou outra promessa de doença, o produto está a sair da sua categoria. O técnico de estética trabalha com cosméticos e não promete o que um cosmético não pode cumprir.
Características de um bom cosmético
Um cosmético que se usa em gabinete e se aconselha para casa deve ser:
- Seguro nas condições normais de utilização, com avaliação de segurança feita por pessoa qualificada antes de ser comercializado.
- Eficaz naquilo que anuncia, sustentado por alegações que se possam provar.
- Estável: mantém aspeto, cheiro, textura, pH e atividade durante o prazo de validade, quando bem armazenado.
- Aceitável do ponto de vista sensorial: textura, cheiro, cor e espalhabilidade que a cliente aceita.
- Compatível com a pele a que se destina: tipo cutâneo, idade, sensibilidade, zona do corpo.
- Rastreável: com lote, responsável identificado e informação completa na embalagem.
Tipos de produtos e formas de apresentação
Os cosméticos distinguem-se pela forma galénica (a "construção" física do produto) e pelo modo de uso. Conhecer a forma ajuda a prever a ação: uma emulsão leve hidrata sem pesar, um óleo isola, um gel refresca, uma máscara de argila absorve.
| Forma | Constituição resumida | Sensação e uso típico |
|---|---|---|
| Emulsão óleo-em-água (O/A) | gotículas de óleo dispersas em fase aquosa | leve, não gordurosa; hidratantes diários, loções, leites de limpeza |
| Emulsão água-em-óleo (A/O) | gotículas de água dispersas em fase oleosa | rica, oclusiva; cremes nutritivos, cold creams, proteção contra o frio |
| Gel | fase aquosa gelificada, por vezes sem óleos | fresco, transparente; peles oleosas, pós-sol, géis de contacto para aparelhos |
| Sérum | solução ou gel fluido com concentração alta de ativos | aplica-se antes do creme; ação específica |
| Ampola | dose única de concentrado, em geral para gabinete ou cura | ação intensiva, durante um número de dias ou sessões |
| Loção / tónico | solução aquosa ou hidroalcoólica | prepara a pele, repõe o pH, retira resíduos |
| Óleo | mistura de lípidos (óleos vegetais, ésteres) | nutrição, massagem, desmaquilhagem |
| Máscara | creme, argila, gel, folha ou pó para diluir | ação de gabinete, de poucos minutos a meia hora |
| Pó | partículas secas (talco, mica, amidos) | fixação, cobertura, maquilhagem mineral |
| Esfoliante | grânulos, enzimas ou ácidos em veículo | renovação da superfície |
| Stick / bálsamo | ceras e óleos sólidos | lábios, zonas localizadas |
Funções e ações: a diferença que o referencial exige
O referencial pede para classificar os cosméticos segundo a função e segundo a ação. São duas perguntas diferentes:
- Função responde a "para que serve este produto no cuidado da pele?". É o papel que desempenha na rotina ou no protocolo: limpar, tonificar, hidratar, nutrir, proteger, esfoliar, tratar (ação específica), maquilhar, perfumar, depilar.
- Ação responde a "o que faz na pele, em termos fisiológicos ou físicos?". Por exemplo: hidratante (aumenta o teor de água do estrato córneo), emoliente (suaviza e alisa), oclusiva (reduz a perda de água), queratolítica (solta células mortas), adstringente (contrai poros e tecidos), antioxidante (neutraliza radicais livres), despigmentante (reduz a síntese ou a dispersão de melanina), rubefaciente (provoca vermelhidão por aumento do fluxo sanguíneo), calmante, cicatrizante, sebo-reguladora, refirmante, drenante, lipolítica (no discurso comercial; ver cuidado nas alegações).
Um mesmo produto pode ter uma função e várias ações. Um creme hidratante tem a função de "hidratar", e as suas ações são humectante (atrai água), emoliente (alisa) e oclusiva (retém).
Exemplo resolvido · Classificar três produtos pela função e pela ação
Uma cliente deixa em cima da marquesa três produtos que usa em casa. Classifica cada um.
- Leite de limpeza em emulsão O/A, com extrato de camomila. Função: limpar. Ações: emulsionar e dissolver a sujidade e a maquilhagem (tensioativa suave), calmar (camomila).
- Sérum com ácido hialurónico e niacinamida. Função: tratar (hidratação profunda e uniformização). Ações: humectante (ácido hialurónico), reguladora da barreira e da pigmentação (niacinamida).
- Creme de rosto fator de proteção solar 50. Função: proteger. Ação: absorver e/ou refletir a radiação UV, diminuindo o dano solar.
Passos para classificar sempre: (1) ler a designação do produto e a lista de ingredientes; (2) dizer a função numa palavra; (3) identificar os ingredientes que justificam a ação; (4) conferir se a promessa do rótulo é compatível com a categoria cosmética.
Quadro de preparações por zona do corpo
O referencial refere preparações para o rosto, o corpo, as unhas e os pelos. A tabela resume o que se encontra em cada zona e o que se procura.
| Zona | Funções mais frequentes | Exemplos de produtos | Cuidados específicos |
|---|---|---|---|
| Rosto | limpar, tonificar, esfoliar, hidratar, proteger, tratar | leite, gel de limpeza, tónico, sérum, máscara, creme de dia e de noite, contorno de olhos | pele mais fina e reativa; atenção a zona dos olhos e mucosas |
| Corpo | hidratar, nutrir, esfoliar, modelar, relaxar | creme corporal, óleo de massagem, esfoliante, creme refirmante | áreas extensas, maior quantidade de produto por sessão |
| Unhas | proteger, fortalecer, hidratar, embelezar | óleo de cutículas, endurecedores, verniz, gel de unhas | alergias de contacto a resinas; ventilação |
| Pelos | depilar, acalmar, retardar o crescimento, prevenir pelos encravados | cera quente ou fria, creme depilatório, loção pós-depilação | pele irritada após a depilação, sem exposição solar imediata |
2. Classificação dos cosméticos por função e ação: organizar o gabinete
Porque se classifica
Classificar não é um exercício escolar. É a base para organizar o espaço, os protocolos e o stock. Um gabinete com trinta produtos misturados numa gaveta perde tempo, corre o risco de usar produtos fora de prazo e aplica fora de sequência. Um gabinete organizado por função e por fase do protocolo encontra o que precisa em segundos.
Os critérios de classificação mais úteis
| Critério | Categorias | Utilidade no gabinete |
|---|---|---|
| Função | limpeza, tonificação, esfoliação, tratamento, hidratação/nutrição, proteção, maquilhagem | ordena o protocolo |
| Ação | hidratante, queratolítica, despigmentante, drenante, refirmante, calmante, sebo-reguladora, rubefaciente | liga o produto ao objetivo do tratamento |
| Zona | rosto, corpo, mãos e pés, unhas, pelos | arruma prateleiras e carrinhos |
| Tipo de pele ou disfunção | seca, oleosa, mista, sensível, desidratada, acneica, com manchas, fotoenvelhecida, celulite, flacidez | seleciona produtos para a cliente |
| Local de uso | gabinete (profissional) ou casa (retalho) | separa stock de consumo e de venda |
| Momento do dia | dia, noite | aconselhamento para casa |
| Forma galénica | emulsão, gel, óleo, pó, ampola | armazenamento e manuseamento |
Pele e anexos: o alvo dos cosméticos
O referencial fala de equilíbrio da pele e dos anexos. Os anexos cutâneos são as estruturas associadas à pele: folículos pilossebáceos (pelo mais glândula sebácea), glândulas sudoríparas e unhas. Um cosmético pode atuar:
- Na superfície (filme hidrolipídico, estrato córneo): limpeza, hidratação, proteção.
- No estrato córneo e epiderme viável: esfoliação, renovação, ação sobre os melanócitos.
- Nos anexos: regulação do sebo, limpeza de poros, cuidado de unhas e pelos.
Os cosméticos não são feitos para atuar na derme profunda nem para modificar a estrutura da pele de forma permanente. Quando uma técnica o pretende, está a sair do campo cosmético.
Tipos de pele e o que escolher
| Tipo de pele | Como se reconhece | Função prioritária | Ações e ativos habituais | O que evitar |
|---|---|---|---|---|
| Normal | equilibrada, sem brilho nem repuxar | manter | hidratação leve, proteção solar | excesso de produtos |
| Seca | repuxa, descama, falta de lípidos | nutrir | emolientes, ceramidas, manteigas, óleos | detergentes agressivos, água muito quente |
| Desidratada | falta de água, qualquer pele pode estar | hidratar | humectantes (glicerina, ácido hialurónico) | álcool em excesso, esfoliação forte |
| Oleosa | brilho, poros dilatados, sebo em excesso | regular o sebo | niacinamida, zinco, argila, ácido salicílico | óleos pesados, oclusivos |
| Mista | zona T oleosa, bochechas normais ou secas | equilibrar por zonas | duas texturas | tratar o rosto todo da mesma forma |
| Sensível | ardor, vermelhidão, reatividade | acalmar e proteger | pantenol, alantoína, bisabolol, poucos ingredientes | perfume, álcool, ácidos fortes |
| Acneica | comedões, pápulas, sebo | purificar | salicílico, azelaico, niacinamida | produtos comedogénicos |
| Madura | rugas, perda de firmeza | rejuvenescer, hidratar | retinoides permitidos, peptídeos, antioxidantes | exposição solar sem filtro |
Como organizar o produto no gabinete
A organização de um gabinete de estética pode seguir três princípios simultâneos.
- Por função e sequência de protocolo. Os produtos de limpeza juntos, depois os de tonificação, esfoliação, ativos e máscaras, e por fim os de hidratação e proteção. O carrinho de apoio reproduz a ordem em que se usam.
- Por zona e por tipo de serviço. Um carrinho de rosto, outro de corpo, outro de depilação, outro de unhas. Cada um com as suas ferramentas, descartáveis e produtos de uso corrente.
- Por estado e validade. À frente, os produtos fechados que caducam primeiro, qualquer que tenha sido a data de entrada (regra FEFO, ver o capítulo 11), e à parte os produtos em uso, marcados com a data de abertura.
Exemplo resolvido · Arrumar uma prateleira de ativos de gabinete
O gabinete tem estes produtos: ampola de vitamina C, máscara de argila, gel de limpeza, tónico calmante, creme de proteção solar, ampola de ácido hialurónico, esfoliante enzimático, creme de noite. Organiza-os para um protocolo facial de hidratação.
- Fase de limpeza: gel de limpeza e tónico calmante.
- Fase de preparação: esfoliante enzimático (só se a pele aguentar; numa pele sensível, dispensa-se).
- Fase de tratamento: ampola de ácido hialurónico (hidratação) e ampola de vitamina C. Escolhe-se uma por sessão ou conforme o fabricante.
- Fase de máscara: a máscara de argila não é adequada a um protocolo de hidratação numa pele seca; fica de fora, porque absorve e seca.
- Fase de fecho: creme de noite, ou creme de proteção solar se o tratamento for de dia.
Resultado: para este protocolo, a prateleira fica dividida em quatro zonas (limpeza e preparação, tratamento, fecho e, à parte, a zona dos tratamentos de pele oleosa, onde fica a máscara de argila). A arrumação passa a refletir a lógica clínica.
3. Componentes, matérias-primas, testes e produtos ecológicos, orgânicos, veganos e inovadores
A estrutura de uma fórmula cosmética
Quase todos os cosméticos têm a mesma arquitetura: um veículo (ou excipiente), que transporta, mais ativos, que cumprem a promessa do produto, mais aditivos, que tornam a fórmula estável, agradável e segura. Abrir um frasco é, na prática, abrir uma pequena construção química equilibrada.
| Grupo | Função na fórmula | Exemplos (nome comum) |
|---|---|---|
| Veículo / solvente | dissolver e transportar | água, glicerina, propilenoglicol, álcool |
| Fase oleosa | emoliência, oclusão, textura | óleos vegetais, manteigas, ésteres, silicones |
| Emulsionantes | juntar óleo e água de forma estável | álcool cetearílico com emulsionante, lecitina |
| Tensioativos | limpar, espumar | lauril sulfato (e alternativas mais suaves), betaínas |
| Humectantes | atrair e reter água | glicerina, ácido hialurónico, ureia, pantenol |
| Texturizantes / espessantes | dar corpo | gomas (xantano), carbómeros, ceras |
| Conservantes | impedir micro-organismos | os da lista positiva europeia (anexo V do regulamento) |
| Antioxidantes | impedir ranço e oxidação | vitamina E, ascorbato |
| Reguladores de pH | ajustar a acidez | ácido cítrico, hidróxido de sódio, tampões |
| Corantes | cor | os da lista positiva (anexo IV) e pigmentos |
| Perfume / aromas | cheiro | misturas aromáticas, óleos essenciais |
| Filtros UV | proteger do sol | os da lista positiva (anexo VI) |
| Ativos | ação específica | retinoides, vitamina C, ácidos, peptídeos, extratos |
Matérias-primas: de onde vêm
As matérias-primas são as substâncias que entram na fabricação. Segundo a origem, dividem-se em:
- Vegetais: óleos (amêndoas doces, argão, jojoba, rosa mosqueta), manteigas (karité, cacau), extratos, hidrolatos, ceras.
- Minerais: argilas, óxidos de ferro e de zinco, dióxido de titânio, mica, sais.
- Animais ou derivados: cera de abelha, mel, lanolina, colagénio de origem animal (menos usado).
- Sintéticas ou de síntese: tensioativos, conservantes, silicones, retinoides sintéticos.
- Biotecnológicas: ácido hialurónico por fermentação, peptídeos, ativos obtidos por cultura celular.
"Natural" e "sintético" não equivalem a "bom" e "mau". Há extratos vegetais fortemente alergénicos e há moléculas sintéticas muito bem toleradas. O que conta é a segurança demonstrada para a concentração e o uso previstos.
Aptidão: identificar componentes e a sua função
O rótulo traz a lista de ingredientes; a aptidão é transformar cada nome numa função. Um truque útil é saber reconhecer terminações frequentes: -ol (álcoois, como cetearyl alcohol), -ate (ésteres, como isopropyl myristate), -cone ou -siloxane (silicones), -paraben (parabenos), -glycol (glicóis), Sodium... (sais e tensioativos), Parfum (perfume), CI + número (corantes).
Exemplo resolvido · Ler uma fórmula pela ordem
Considera a lista de ingredientes de um creme hipotético, tal como aparece no rótulo:
Aqua, Glycerin, Caprylic/Capric Triglyceride, Cetearyl Alcohol, Butyrospermum Parkii Butter, Niacinamide, Panthenol, Tocopherol, Phenoxyethanol, Xanthan Gum, Parfum, Limonene.
Passos:
- A lista segue a ordem decrescente de concentração (acima de 1%). Aqua é o primeiro: a fórmula é uma emulsão com muita água (provavelmente O/A).
- Humectante: Glycerin em segundo lugar, logo com concentração significativa.
- Fase oleosa e emoliente: Caprylic/Capric Triglyceride e Butyrospermum Parkii Butter (manteiga de karité).
- Emulsionante/consistência: Cetearyl Alcohol (álcool gordo, dá corpo), com ajuda de Xanthan Gum (espessante).
- Ativos: Niacinamide (regula sebo e barreira) e Panthenol (calmante, hidratante).
- Antioxidante: Tocopherol (vitamina E).
- Conservante: Phenoxyethanol.
- Perfume e alergénio declarado: Parfum e Limonene (um dos alergénios de fragrância que o regulamento manda declarar quando ultrapassa certos limiares).
Conclusão: creme hidratante e calmante, rico, adequado a peles secas a normais. Para uma cliente com alergia conhecida a perfumes, não se aconselha, mesmo que o resto seja benigno.
Testes que um cosmético sofre
Antes de chegar ao mercado, um cosmético passa por vários tipos de ensaios, cada um a responder a uma pergunta diferente.
| Teste | Pergunta que responde | Nota |
|---|---|---|
| Estabilidade | o produto mantém-se igual durante o prazo de validade? | testes de temperatura, luz, tempo |
| Compatibilidade com a embalagem | a embalagem altera o produto? | interação, migração |
| Eficácia antimicrobiana (challenge test) | o sistema conservante protege? | referência em normas ISO |
| Teste de segurança / irritação | é seguro e tolerado? | incluem ensaios em voluntários humanos, em condições controladas |
| Teste dermatológico | tolerância cutânea sob controlo dermatológico | não garante ausência de alergia individual |
| Teste oftalmológico | tolerância ocular | produtos para zona dos olhos |
| Teste de eficácia | o efeito anunciado verifica-se? | medições instrumentais, avaliação por utilizadores |
| Teste de fator de proteção solar | quanto protege do UV? | método normalizado |
A expressão "dermatologicamente testado" quer dizer que houve testes, não que o produto serve a todas as peles. A União Europeia proíbe ensaios em animais de produtos acabados e de ingredientes cosméticos, e proíbe a comercialização de cosméticos com ingredientes testados em animais para fins cosméticos.
Produtos ecológicos, orgânicos, veganos e inovadores
| Família | O que significa | O que não significa |
|---|---|---|
| Natural | usa ingredientes de origem natural; definição variável | não é uma garantia legal por si só |
| Orgânico / biológico | ingredientes agrícolas de agricultura biológica, certificados por entidades privadas (por exemplo COSMOS, Ecocert, NATRUE) | a palavra "bio" sozinha no rótulo não certifica |
| Ecológico | pouco impacto ambiental na origem, no fabrico e na embalagem | nem sempre é orgânico |
| Vegano | sem ingredientes de origem animal; certificações como as das associações veganas | não implica "natural" nem "sem testes em animais" por si só |
| Cruelty free | não testado em animais | selo de organização, pode variar de critério |
| Inovador | tecnologias recentes: ativos biotecnológicos, encapsulação, microbioma, ativos de cultura celular | novidade não significa melhor eficácia |
Perante um selo, o profissional pergunta: quem certifica?, para quê? (ingredientes, processo, embalagem?) e o que garante?. O mesmo vale para as alegações "sem parabenos", "sem sulfatos" ou "livre de": são alegações sobre ausência de substâncias e têm de ser verdadeiras e comprovadas, mas dizem pouco sobre a qualidade global.
A norma ISO 16128 define critérios para calcular índices de ingredientes naturais e de origem natural nos cosméticos, o que ajuda a comparar produtos que se dizem naturais.
Exemplo resolvido · Avaliar uma alegação
Um fornecedor oferece um creme "100% natural, orgânico e vegano". O que perguntas antes de o integrares no gabinete?
- Natural: qual é o critério? Consultar a lista de ingredientes e verificar se há conservantes, silicones ou emulsionantes de síntese.
- Orgânico: há certificação? De que entidade, e abrange o produto final ou só um ingrediente?
- Vegano: há certificação, ou apenas uma declaração? Procurar derivados animais na lista (Beeswax, Lanolin, Carmine, Collagen, Keratin).
- "100%": uma emulsão tem sempre de ter conservante; se não há, o produto ou tem uma validade muito curta ou é suspeito.
- Segurança: o produto tem pessoa responsável identificada e está notificado? Nome e morada no rótulo.
Se as respostas não fecham, o produto pode ser bom, mas a alegação não está provada.
4. Rotulagem e documentação técnica dos produtos cosméticos
Porque o rótulo é uma ferramenta de trabalho
Quem organiza cosméticos tem de saber ler a embalagem. O rótulo diz quem é o responsável pelo produto, o que contém, como se usa, que cuidados exigir e até quando é válido. É também a primeira defesa em caso de reação adversa: o lote e o responsável permitem rastrear o produto e comunicar o problema.
Informação obrigatória
O regulamento europeu dos produtos cosméticos (Regulamento (CE) n.º 1223/2009, no capítulo da rotulagem, artigo 19.º) determina a informação que tem de constar na embalagem. Em Portugal, a informação obrigatória deve estar em português. Os itens essenciais, que o profissional deve saber localizar, são:
| Item | O que é | Onde se procura | Para que serve ao profissional |
|---|---|---|---|
| Nome e morada da pessoa responsável | quem responde legalmente pelo produto | embalagem exterior e interior | contactar em caso de problema |
| País de origem | para produtos importados | embalagem | rastreabilidade |
| Conteúdo nominal | peso ou volume | embalagem | calcular custo por tratamento |
| Data de durabilidade mínima | "utilizar de preferência antes de" (símbolo de ampulheta) | embalagem | produtos com validade até 30 meses |
| PAO (período após abertura) | símbolo de frasco aberto com número de meses | embalagem | produtos de validade longa, depois de abertos |
| Precauções de utilização | avisos, modo de uso | embalagem ou folheto | segurança |
| Número de lote | identifica a produção | embalagem | rastreio e retirada |
| Função do produto | para que serve, se não for evidente | embalagem | confirmar categoria |
| Lista de ingredientes (INCI) | todos os componentes | embalagem exterior | alergias, composição |
A lista de ingredientes e a nomenclatura INCI
A lista de ingredientes usa a nomenclatura INCI (International Nomenclature of Cosmetic Ingredients), uma linguagem comum a todos os países, por isso um creme português e um coreano têm os ingredientes com o mesmo nome. Regras de leitura:
- A ordem é decrescente de concentração, para os ingredientes presentes a mais de 1%. Abaixo de 1% podem aparecer por qualquer ordem.
- Os corantes aparecem no fim e podem vir com a referência CI seguida de número (CI 77891 é dióxido de titânio).
- O perfume surge como Parfum, e os alergénios de fragrância são declarados individualmente quando ultrapassam limiares fixados. A lista de alergénios a declarar foi alargada pelo Regulamento (UE) 2023/1545, com datas de aplicação em 2026 para produtos novos e em 2028 para os que já estão no mercado.
- Os ingredientes sob a forma de nanomaterial aparecem com a indicação [nano] entre parênteses retos.
- Os ingredientes botânicos usam o nome latino (Lavandula Angustifolia Oil).
Símbolos mais frequentes
| Símbolo | Significado |
|---|---|
| Frasco aberto com número e "M" (por exemplo 12M) | PAO: meses de uso depois de aberto |
| Ampulheta | data de durabilidade mínima |
| Livro aberto com mão | consultar folheto ou instruções |
| Ponto verde, símbolo de reciclagem | informação ambiental, não de segurança |
| Círculo com sol ou número de SPF | proteção solar, segundo método normalizado |
| Letra "e" | indicação da quantidade média (para pré-embalados), conforme regras de metrologia |
Documentação técnica
Para além do rótulo, existe a documentação técnica que acompanha cada produto ao longo da cadeia. O profissional precisa de saber o nome e a utilidade de cada documento, mesmo que não os produza.
| Documento | Quem o tem ou fornece | Para que serve |
|---|---|---|
| Ficha técnica do produto | fornecedor / marca | descreve composição, modo de uso, cuidados, validade, armazenamento |
| Ficha de dados de segurança (FDS) | para produtos de uso profissional com substâncias perigosas, quando aplicável | riscos e primeiros socorros |
| Dossiê de informação do produto (PIF) | pessoa responsável | reúne a descrição do produto, a avaliação de segurança, as boas práticas de fabrico e as provas dos efeitos alegados, e fica disponível para as autoridades |
| Relatório de segurança | pessoa responsável, assinado por pessoa qualificada | conclusão sobre a segurança do produto |
| Notificação no portal europeu CPNP | pessoa responsável, antes de colocar o produto no mercado | permite às autoridades e aos centros antivenenos conhecer o produto (artigo 13.º do regulamento) |
| Fatura e guia de remessa | fornecedor | prova de origem e de lote |
| Bula | em produtos de uso profissional, quando o fabricante a fornece | modo de uso e contraindicações |
O gabinete deve arquivar as fichas técnicas e a documentação dos produtos que usa, ordenadas por marca ou por categoria, em suporte físico ou digital, e ter a informação à mão quando uma cliente perguntar ou quando houver uma inspeção.
A entidade competente
Em Portugal, a autoridade nacional competente para os produtos cosméticos é o INFARMED. O regime nacional de execução do regulamento europeu consta de decreto-lei publicado em 2025 (Decreto-Lei n.º 23/2025, de 19 de março), que atribui ao INFARMED a fiscalização do mercado e define o regime sancionatório. As reações adversas graves a produtos cosméticos são comunicadas através dos canais de cosmetovigilância indicados pela autoridade. Em caso de dúvida sobre procedimentos, o profissional consulta o sítio do INFARMED e o diploma na redação em vigor.
Exemplo resolvido · Verificar se uma embalagem está em condições de ser usada
Chega ao gabinete um frasco de sérum de uma marca desconhecida, sem folheto. Verifica o rótulo.
- Responsável: aparece "Fabricado na China", sem nome nem morada de pessoa responsável na União Europeia. Falha.
- Lote: não existe número de lote. Falha.
- Lista INCI: está em inglês e português, mas incompleta, sem Aqua nem conservante. Suspeito.
- Validade: sem ampulheta nem PAO. Falha.
- Precauções: sem texto.
Decisão: não usar nem vender. Não é possível rastrear o produto nem saber a sua segurança. Regista-se a ocorrência, guarda-se o frasco à parte (identificado como não conforme) e informa-se o fornecedor. Se houver suspeita de que o produto está em circulação, comunica-se à autoridade competente.
Exemplo resolvido · Calcular o custo por tratamento a partir do conteúdo nominal
Um creme de massagem vem em frasco de 500 mL a 42,00 €. Cada massagem corporal gasta, em média, 12 mL.
- Número de massagens por frasco: 500 ÷ 12 = 41,67; contam-se 41 massagens completas.
- Custo por massagem: 42,00 ÷ 41 ≈ 1,02 €.
- Se o frasco tiver PAO de 12 meses, para gastar as 41 massagens o gabinete precisa de fazer cerca de 3,4 por mês (41 ÷ 12 ≈ 3,42), ou seja, 4 por mês na prática: com 3 por mês gasta apenas 36 em 12 meses. Se fizer 2 por mês, gasta apenas 24 em 12 meses: o frasco é maior do que convém. Convém então comprar a embalagem de 250 mL.
Este raciocínio liga rótulo (conteúdo nominal e PAO), economia do gabinete e organização do stock.
5. Vias de penetração, promotores químicos e vesículas coloidais
A pele como barreira
Para um ativo cumprir a sua promessa tem de chegar ao local onde atua. A pele, porém, é uma barreira desenhada para impedir a entrada de substâncias. A camada mais externa, o estrato córneo, tem 10 a 20 µm de espessura e funciona como "tijolos e cimento": os corneócitos (células achatadas e mortas, os tijolos) rodeados por lípidos organizados (ceramidas, colesterol e ácidos gordos livres, o cimento). Por baixo está a epiderme viável, com os queratinócitos e os melanócitos, e depois a derme, onde estão os vasos, as fibras de colagénio e elastina, e as terminações nervosas.
Um cosmético atua tipicamente no estrato córneo e na epiderme. Se uma substância chegasse à circulação em quantidades relevantes, deixava de ser um cosmético (passaria a ser medicamento ou dispositivo, com regras próprias).
As vias de penetração
O referencial pede dois grandes caminhos: a via transepidérmica (que se subdivide em intercelular e intracelular) e a via dos apêndices (folículo pilossebáceo e poros).
| Via | Por onde passa | Que moléculas favorece | Peso na penetração total |
|---|---|---|---|
| Transepidérmica intercelular | pelos lípidos entre os corneócitos | moléculas lipofílicas, de tamanho moderado; é a via principal | maior |
| Transepidérmica intracelular (transcelular) | atravessa corneócitos e lípidos alternadamente | moléculas pequenas e com equilíbrio entre afinidade pela água e pelos lípidos | menor, caminho mais longo e mais "difícil" |
| Apêndices: folículo pilossebáceo | pelos canais do pelo e da glândula sebácea | partículas e vesículas, compostos que se dissolvem no sebo | pequena em área (cerca de 0,1% da superfície), mas relevante para partículas |
| Apêndices: poros sudoríparos | pelos canais das glândulas sudoríparas | moléculas muito pequenas ou iónicas | muito reduzida |
Pontos a reter: a via intercelular é a principal para moléculas comuns; a via folicular ganha importância para nanopartículas, vesículas e produtos aplicados com métodos físicos.
O que influencia a penetração
Três grupos de fatores determinam se um ativo atravessa a barreira.
- Propriedades da molécula: tamanho (a regra prática diz que moléculas acima de cerca de 500 dalton penetram mal o estrato córneo), afinidade para lípidos e água (o equilíbrio é melhor que os extremos), carga elétrica e forma neutra ou ionizada (as formas não ionizadas penetram melhor).
- Propriedades do veículo: o veículo pode favorecer ou dificultar a libertação do ativo. O mesmo ativo numa emulsão, num gel ou num óleo penetra de forma diferente.
- Propriedades da pele: zona do corpo (a pálpebra é fina, a planta do pé é espessa), hidratação, idade, integridade da barreira, temperatura.
Uma ideia útil vem da lei de Fick: o fluxo de um ativo através da pele é maior quando há gradiente de concentração elevado, boa afinidade com o estrato córneo e barreira fina. Daqui se retira o princípio prático: não se compensa um ativo mal formulado com mais produto, melhora-se o veículo, a preparação da pele ou o método de entrega.
Promotores químicos de penetração
Os promotores químicos (também chamados facilitadores ou enhancers) são substâncias que, adicionadas ao veículo, aumentam temporária e reversivelmente a permeabilidade do estrato córneo. Atuam por um ou mais mecanismos: fluidificar os lípidos intercelulares, extrair lípidos, hidratar o estrato córneo, aumentar a solubilidade do ativo no veículo ou dissolver parcialmente a queratina.
| Promotor | Mecanismo principal | Observação |
|---|---|---|
| Água (hidratação, oclusão) | incha o estrato córneo | o mais simples e seguro: pele hidratada deixa passar mais |
| Propilenoglicol, glicóis | solvente, altera a organização lipídica | pode irritar peles sensíveis |
| Etanol | extrai lípidos, aumenta solubilidade | seca a pele em concentrações altas |
| Ácidos gordos (oleico) | fluidificam os lípidos | podem irritar |
| Terpenos (mentol, limoneno) | desorganizam os lípidos | alergénio potencial |
| Ureia | hidrata e queratolítica suave | boa tolerância |
| Tensioativos | solubilizam lípidos | usar com cuidado, risco de irritação |
| Ácidos de esfoliação | removem corneócitos | ver capítulo dos peelings |
Todo o promotor é um compromisso: quanto mais facilita a entrada, maior o risco de irritação e de absorção de substâncias indesejadas. Por isso, a concentração permitida e a segurança do conjunto são avaliadas pelo responsável do produto.
Vesículas coloidais transportadoras de ativos
Um ativo pode ser "embalado" em estruturas microscópicas que o protegem e o libertam de forma controlada. São as vesículas coloidais: pequenas esferas formadas por uma ou mais camadas de lípidos, com um núcleo aquoso ou oleoso.
| Sistema | Constituição | Característica | Para que serve |
|---|---|---|---|
| Lipossomas | bicamada de fosfolípidos, com núcleo aquoso | biocompatíveis, transportam ativos hidrossolúveis e lipossolúveis | hidratação, antioxidantes, vitaminas |
| Niossomas | bicamada de tensioativos não iónicos | mais estáveis e de custo menor | ativos de hidratação e anti-envelhecimento |
| Transferossomas / etossomas | vesículas flexíveis, com etanol (etossomas) ou ativadores de borda | passam melhor por canais estreitos | ativos que precisam de ir mais fundo |
| Nanopartículas lipídicas sólidas | núcleo lipídico sólido | libertação prolongada | ativos sensíveis (retinol) |
| Microesferas | esferas maiores com ativo no interior | libertação lenta, proteção | vitaminas, ativos sensíveis à luz |
As vantagens das vesículas são proteger o ativo da oxidação, aumentar a retenção na pele, libertar de forma gradual e, por vezes, reduzir a irritação. Os limites: custo, estabilidade da própria vesícula, e a necessidade de avaliação de segurança, sobretudo se forem nanomateriais, que têm regras e rotulagem especiais.
Exemplo resolvido · Escolher o veículo para um ativo hidrossolúvel
Pretende-se aplicar vitamina C (ácido ascórbico) numa cliente com pele fotoenvelhecida. O ativo é hidrossolúvel, muito sensível à oxidação.
- Problema: o ácido ascórbico oxida facilmente com a luz e o ar, perde ação e escurece.
- Veículo: sérum aquoso, de pH ácido, em embalagem opaca e com bomba doseadora (sem ar nem luz).
- Promotor/facilitador: a pele, previamente hidratada e esfoliada com suavidade, absorve melhor.
- Vesícula: um sérum com vitamina C encapsulada em lipossomas ou microesferas ganha em estabilidade e em tolerância.
- Armazenamento: frasco bem fechado, ao abrigo da luz e, se o fabricante o recomendar, no frio.
Resultado: o frasco escolhido é o opaco, com bomba, encapsulado, e os procedimentos do gabinete incluem fechar logo o frasco e anotar a data de abertura.
6. Facilitar a penetração por meios físicos: eletroterapia e microagulhamento
Selecionar métodos facilitadores
A aptidão do referencial é selecionar métodos facilitadores da penetração de substâncias ativas. Selecionar é decidir, em função do ativo, da zona, da pele e do equipamento disponível, se se usa um método físico e qual. Muitas vezes a resposta é "nenhum": o cosmético, bem formulado e aplicado com massagem sobre uma pele bem preparada, basta.
Os métodos físicos que o referencial considera são a eletroterapia facilitadora (fonoforese, iontoforese e eletroporação) e o microagulhamento superficial.
Fonoforese
A fonoforese usa ultrassons para facilitar a entrada de ativos. As ondas de pressão do ultrassom fluidificam os lípidos do estrato córneo (por vibração e por efeito de cavitação) e promovem o movimento do ativo. Usa-se um gel de contacto que também veicula o ativo.
| Aspeto | Informação |
|---|---|
| Frequências | 1 MHz (ação mais profunda) e 3 MHz (mais superficial); para cosmética facial utiliza-se a frequência superficial, segundo o aparelho |
| Modo | contínuo ou pulsado; o pulsado reduz o aquecimento |
| Técnica | cabeça sempre em movimento, com gel, sem pressão excessiva |
| Ativos | hidrossolúveis, em gel de contacto compatível |
| Precauções | não parar sobre a mesma zona; não usar sobre zonas com implantes que o fabricante contraindique, nem sobre os olhos |
Iontoforese
A iontoforese usa corrente galvânica (contínua, de baixa intensidade) para empurrar ativos ionizados para dentro da pele. Funciona pelo princípio de que cargas iguais se repelem: um ativo de carga negativa (aniónico) aplica-se sob o polo negativo (cátodo); um ativo de carga positiva (catiónico), sob o polo positivo (ânodo).
| Aspeto | Informação |
|---|---|
| Corrente | contínua, de baixa intensidade; a densidade de corrente respeita o limite do fabricante do aparelho (referência habitual na ordem de décimos de miliampere por centímetro quadrado) |
| Elétrodos | ativo (com o produto) e neutro (retorno), em contacto com a pele húmida |
| Ativos | ionizados, em solução aquosa (ampolas próprias) |
| Sensação | formigueiro ligeiro; ardor intenso indica problema |
| Efeitos a vigiar | irritação sob o elétrodo, queimadura química (efeito dos polos sobre a pele), eritema |
| Contraindicações habituais | pacemaker e dispositivos eletrónicos implantados, material metálico na zona, gravidez, lesões, sensibilidade alterada, epilepsia |
Uma ideia importante: a iontoforese não é tão "universal" como parece. Só serve para substâncias que se ionizam e que estejam no pH adequado; não funciona com óleos nem com cremes sem carga.
Eletroporação
A eletroporação usa pulsos elétricos de curta duração que criam, temporariamente, poros transitórios nas membranas das células e nas bicamadas lipídicas, facilitando a passagem de moléculas maiores, inclusive hidrossolúveis, que de outra maneira dificilmente entrariam. Em estética, existem equipamentos denominados "eletroporação" ou "mesoterapia sem agulhas" com pulsos de alta voltagem e de muito curta duração, dirigidos ao estrato córneo.
| Aspeto | Informação |
|---|---|
| Ativos | moléculas hidrossolúveis, incluindo de maior peso molecular (hialurónico, peptídeos) |
| Vantagem | independe da carga do ativo |
| Precauções | as mesmas da corrente elétrica: pacemaker, gravidez, implantes metálicos, lesões, zonas com alterações de sensibilidade |
Comparar os três métodos
| Método | Energia | Mecanismo | Ativos adequados | Cuidados |
|---|---|---|---|---|
| Fonoforese | ultrassom | fluidifica lípidos, cavitação | em gel, hidrossolúveis ou lipossolúveis | movimento contínuo, aquecimento |
| Iontoforese | corrente galvânica | repulsão de iões, "empurra" | ionizados, aquosos | polos, intensidade, queimadura química |
| Eletroporação | pulsos elétricos curtos | poros transitórios | hidrossolúveis, maiores | contraindicações elétricas |
Microagulhamento
O microagulhamento (em inglês microneedling) consiste em criar microcanais muito pequenos na pele, com agulhas finas, para estimular a renovação e facilitar a entrada de ativos. O referencial trata-o com limites bem definidos para os tratamentos de beleza.
Contexto histórico e evolução. A ideia de estimular a pele por micro-perfurações é antiga. Instrumentos com agulhas aplicados por rolo ou caneta foram evoluindo, desde a técnica manual até aos dispositivos modernos de rolo (dermaroller) e de caneta com motor (dermapen), com agulhas descartáveis e comprimento regulável.
Especificações para os tratamentos de beleza. No contexto da estética, o referencial limita o microagulhamento a uma profundidade superficial, na epiderme não vascularizada. Isto significa que:
- As agulhas atuam apenas na epiderme, sem atingir a derme vascularizada, portanto sem sangramento.
- Os comprimentos de agulha compatíveis com uma ação apenas epidérmica são da ordem de poucos décimos de milímetro, e a margem é muito pequena: no rosto, a epiderme tem apenas cerca de 0,05 a 0,1 mm de espessura. Por isso a profundidade não se escolhe por hábito nem por comparação com outro aparelho, escolhe-se pelo valor que o fabricante indica para uso epidérmico naquele equipamento, e a pressão e o ângulo contam tanto como o número no mostrador. Logo abaixo da epiderme (cerca de 0,1 mm no rosto) começa a derme papilar, já vascularizada, e qualquer ação que chegue à derme corresponde a técnicas de âmbito médico. O sangue não é o critério de decisão, é o sinal de que o limite já foi excedido: a profundidade decide-se antes, no manual do equipamento.
- O objetivo é facilitar a penetração de cosméticos (hidratantes, antioxidantes, despigmentantes suaves) e estimular a renovação superficial.
Instrumentos.
| Instrumento | Descrição | Vantagens | Limitações |
|---|---|---|---|
| Dermaroller | cilindro com agulhas, rolado sobre a pele | simples, económico | pressão e ângulo variáveis, maior risco de microlesões irregulares |
| Dermapen | caneta com motor e cartucho de agulhas descartável | profundidade regulável e constante, mais precisão | custo, cartuchos |
Biossegurança. É a parte que não admite atalhos. As agulhas são materiais de uso único (cartuchos descartáveis ou rolos de uso individual para a cliente), o profissional usa luvas, higieniza a pele com antissético adequado, usa barreiras descartáveis nos equipamentos, descarta as agulhas num contentor para cortantes e trata as superfícies. Um rolo reutilizável nunca é partilhado entre clientes.
Cosméticos aplicados ao microagulhamento. Como os microcanais aumentam a absorção, o produto aplicado tem de ser seguro para esse uso: formulações estéreis ou de baixa carga microbiana, sem perfume, sem corantes, sem partículas, sem conservantes irritantes, em embalagens de dose única, com indicação do fabricante para uso após microagulhamento. Produtos comuns do dia a dia, ricos em perfume ou em óleos essenciais, não devem ser aplicados.
Princípios ativos habituais, em formulações próprias para este uso: ácido hialurónico, vitamina C estabilizada, peptídeos, fatores de crescimento cosméticos (de origem não humana, no âmbito de cosmético), niacinamida, ceramidas. A escolha liga-se à disfunção estética: hidratação, tom desigual, aspeto envelhecido, cicatrizes superficiais, estrias (no corpo).
Precauções e contraindicações. Infeções ativas na zona (herpes, verrugas, acne inflamatória intensa), lesões, queimadura solar recente, tendência a queloides, doenças cutâneas ativas, tratamento recente com fármacos que fragilizam a pele (segundo indicação médica), gravidez (por prudência), doenças da coagulação. Em caso de dúvida, remete-se a cliente para o médico.
Exemplo resolvido · Escolher o método para três clientes
Cliente A: pele desidratada, quer um tratamento de hidratação com ácido hialurónico, sem desconforto. Usa pacemaker. - Iontoforese e eletroporação: contraindicadas (pacemaker). Fonoforese: só se o fabricante do aparelho e o médico o permitirem; na dúvida, evita-se. Escolha: massagem facial com ampola de ácido hialurónico em pele bem preparada, sem método elétrico.
Cliente B: pele madura, quer luminosidade. Sem contraindicações. Usa-se uma ampola de vitamina C ionizável (ascorbato, aniónico). - Na forma de ascorbato (por exemplo, ascorbil fosfato de sódio, em solução de pH próximo do neutro) a vitamina C é aniónica; iontoforese com o polo negativo é uma opção legítima, com ampola própria e seguindo o manual do aparelho.
Cliente C: pele com poros dilatados e marcas leves de acne, sem inflamação ativa. - Microagulhamento superficial com dermapen, dentro do limite do referencial, associado a um sérum de dose única compatível. Verificar que não há acne inflamatória ativa; se houver, adia-se.
Em todos os casos, regista-se a decisão e as contraindicações verificadas na ficha da cliente.
7. Preparações cosméticas de gabinete: termogénicos, ativos específicos e famílias por tratamento
Preparações aplicadas ao rosto, corpo, unhas e pelos
O referencial pede o conhecimento das preparações segundo a ação e segundo a função. Para organizar o conhecimento, usa-se uma tabela por serviço.
| Serviço | Funções (por ordem de uso) | Ações predominantes | Exemplos de produtos |
|---|---|---|---|
| Higiene facial | limpar, esfoliar, tonificar, tratar, hidratar, proteger | tensioativa, queratolítica, hidratante, calmante | leite, gel, esfoliante, tónico, máscara |
| Tratamento anti-idade | tratar, hidratar, proteger | antioxidante, estimulante, refirmante | sérum de vitamina C, retinoide permitido, peptídeos |
| Tratamento de acne | limpar, purificar, tratar | queratolítica suave, sebo-reguladora, calmante | gel com salicílico, argila, niacinamida |
| Tratamento despigmentante | esfoliar, tratar, proteger | despigmentante, antioxidante | vitamina C, niacinamida, ácido tranexâmico, arbutina (quando permitida), filtro solar |
| Massagem corporal | aquecer, deslizar, hidratar | emoliente, relaxante | óleos, cremes de massagem |
| Tratamento corporal modelador | esfoliar, tratar, drenar, refirmar | termogénica, drenante, refirmante | géis e cremes com cafeína, extratos vegetais |
| Manicura / pedicura | limpar, amaciar, proteger | queratolítica suave, hidratante, endurecedora | óleo de cutículas, amaciadores, base e verniz |
| Depilação | preparar, depilar, acalmar | depilatória, antissética, calmante | ceras, pré e pós-depilação |
Cosméticos corporais termogénicos
Os cosméticos termogénicos são produtos que provocam sensação de calor e aumento local da circulação, usados em tratamentos corporais (modelação, relaxamento muscular, preparação para massagem). O seu efeito principal é rubefaciente: vasodilatação superficial, com vermelhidão e calor.
| Tipo | Ativos frequentes | Como atuam | Cuidados |
|---|---|---|---|
| Rubefacientes | nicotinato de metilo e outros derivados do ácido nicotínico, extratos de pimenta (capsicum), gengibre, canela, pimenta preta | dilatam vasos, sensação de calor | teste prévio, pele íntegra |
| Estimulantes | cafeína, algas, extratos de plantas | ação sobre a circulação superficial (promessas de modelação) | efeito sobretudo sensorial |
| Ocluídos com calor | bandas, ligaduras, mantas térmicas com produto | aumentam a temperatura e a penetração | risco de queimadura, controlar tempo |
| Frio (contraponto) | mentol, cânfora, géis refrescantes | vasoconstrição e sensação de frescura | pernas cansadas, edema |
Precauções: não aplicar sobre pele lesionada, irritada ou com varizes marcadas; não aplicar perto de mucosas e olhos; lavar as mãos depois; o produto aquece e pode dar ardor. Contraindicações habituais: gravidez, hipersensibilidade ao ativo, problemas circulatórios, hipertensão não controlada, febre, doenças da pele. A alegação "queima gordura" é comercial: o efeito é local, sensorial e circulatório.
Substâncias ativas para tratamentos de beleza específicos
O referencial cita as famílias de ativos por tipo de tratamento. A tabela relaciona o ativo à ação e à nota de segurança.
| Família | Exemplos de ativos | Ação | Notas |
|---|---|---|---|
| Despigmentantes | vitamina C, niacinamida, ácido azelaico, ácido kójico, ácido tranexâmico, alfa-arbutina, extratos de alcaçuz | inibem a tirosinase ou a transferência de melanina | filtro solar é obrigatório; alguns ativos têm limites legais; a hidroquinona não é permitida em cosméticos de despigmentação no regime europeu |
| Rejuvenescentes | retinoides (retinol e derivados), peptídeos, antioxidantes, ácido hialurónico | estimulam a renovação e a síntese de matriz | o retinol e os seus ésteres têm limites regulados no anexo III do regulamento |
| Revitalizantes | vitaminas (C, E, grupo B), minerais, extratos, aminoácidos | repõem, protegem, estimulam | pele cansada ou desvitalizada |
| Celulíticos | cafeína, extratos de algas, de hera, de castanha-da-índia | ação superficial sobre microcirculação e aspeto | promessas moderadas |
| Refirmantes | peptídeos, extratos que estimulam colagénio, tensores (proteínas, polímeros) | aumentam a firmeza aparente | efeito tensor imediato e temporário |
| Drenantes | extratos de plantas diuréticas e venotónicas (cavalinha, hera), mentol | estimulam a circulação e a drenagem superficial | pernas pesadas |
| Controladores da oleosidade | niacinamida, zinco, ácido salicílico, argilas, extratos de hamamélis | regulam o sebo e absorvem | evitar secar em excesso |
| Vasoconstritores | extratos de castanha-da-índia, centelha asiática, hamamélis, cânfora, frio | contraem vasos superficiais, atenuam rubor | em pele com rosácea ou couperose, dentro dos limites cosméticos |
Exemplo resolvido · Montar um tratamento corporal modelador
Uma cliente pede um tratamento de modelação para a zona das coxas. Sem varizes, sem patologias, mas com pele sensível ao calor.
- Avaliação: ficha, antecedentes, sensibilidade, histórico de alergia (nenhum).
- Preparação: esfoliação suave do corpo para melhorar a absorção.
- Teste prévio: aplicar o produto termogénico numa pequena zona do antebraço, esperar o tempo indicado pelo fabricante e observar vermelhidão excessiva ou prurido.
- Produto: como a cliente é sensível ao calor, escolhe-se gel com cafeína e algas, de ação termogénica suave, em vez de um creme com pimenta de forte efeito.
- Aplicação: massagem modeladora com o produto, sem bandas oclusivas.
- Fecho: creme hidratante, indicações de hidratação, evitar sol e calor extremo nas horas seguintes.
- Registo: produto, lote, tempo, reação observada.
8. Peelings químicos
Contexto histórico
A ideia de renovar a pele com substâncias esfoliantes é muito antiga: registos históricos referem o uso de leite azedo (ácido láctico), de vinho (ácido tartárico) e de frutos ácidos para "refrescar" a pele em civilizações antigas. No século XIX, a dermatologia europeia começou a estudar o uso de agentes químicos como o fenol e o ácido salicílico em doenças da pele. Ao longo do século XX, as técnicas foram sendo sistematizadas e surgiram os alfa-hidroxiácidos (AHA), de uso cosmético, mais suaves. Desde então, a evolução vai no sentido de peelings mais superficiais e mais controlados, com menos risco.
Definição e mecanismo de ação
Um peeling químico é a aplicação controlada de uma ou mais substâncias químicas (em geral ácidos) sobre a pele, para provocar esfoliação e renovação das camadas superficiais. O mecanismo, em termos simples:
- O ácido quebra as ligações entre os corneócitos (desmossomas) ou provoca a coagulação de proteínas.
- As células soltam-se e a camada superficial descama.
- A pele, para se reparar, acelera a renovação celular e estimula a produção de matriz na camada logo abaixo.
- O resultado é uma pele mais lisa, uniforme e luminosa, com atenuação de manchas superficiais e de pequenas irregularidades.
Classificação por profundidade
A classificação clássica distingue os peelings pela profundidade que a ação atinge. Esta é a classificação que o aluno deve dominar, porque decide o que é de gabinete de estética e o que é ato médico.
| Nível | Camada atingida | Agentes típicos | Descamação | Enquadramento |
|---|---|---|---|---|
| Muito superficial | estrato córneo | AHA em baixa concentração, enzimas, ácido salicílico a baixa concentração | mínima, quase impercetível | estética |
| Superficial | epiderme até à camada basal | AHA a concentrações de gabinete, salicílico, mandélico, pirúvico em formulações apropriadas | visível, 1 a 4 dias | estética, dentro dos limites aplicáveis a cada substância, das indicações do fabricante e do parecer aplicável |
| Médio | derme papilar | ácido tricloroacético (TCA) a concentrações médias, associações | marcada, com crosta | médico |
| Profundo | derme reticular | fenol e fórmulas profundas | muito marcada, recuperação longa | médico, em ambiente de bloco |
O técnico de estética trabalha nos dois primeiros níveis. A fronteira nunca depende da vontade do profissional: depende da substância, da concentração, do pH, da formulação e do enquadramento legal.
Ações fisiológicas
- Queratolítica: solta células mortas, afina o estrato córneo.
- Renovadora da epiderme: acelera a renovação celular.
- Despigmentante (uniformizadora): ajuda a remover pigmento da camada superficial.
- Seborreguladora e comedolítica: o salicílico, lipossolúvel, limpa os folículos.
- Estimulante da matriz dérmica: em peelings mais ativos, estimula a síntese de colagénio.
- Hidratante (em alguns AHA): o ácido láctico e outros são humectantes.
Ácidos usados em estética: características
O referencial pede os ácidos, o pH, a concentração permitida nos tratamentos de beleza, a apresentação, o modo de aplicação e as recomendações. A tabela dá as características de cada ácido; a concentração e o pH tratam-se logo a seguir, porque, ao contrário do que se espera, entre os ácidos de peeling só o salicílico tem limite fixado por lei (o kójico, usado como despigmentante auxiliar, também está restringido: anexo III, entrada 375, até 1% em produtos de rosto e mãos, pelo Regulamento (UE) 2024/996).
| Ácido | Grupo | Origem típica | Pele indicada | Notas |
|---|---|---|---|---|
| Glicólico | AHA | cana-de-açúcar | oleosa, envelhecida, manchas | molécula muito pequena, penetra depressa, mais irritante |
| Láctico | AHA | leite, fermentação | seca, sensível, desidratada | mais suave, hidratante |
| Mandélico | AHA | amêndoas amargas | sensível, com manchas, pigmentada, fototipos altos | molécula maior, penetra devagar, bem tolerado |
| Cítrico, málico, tartárico | AHA | frutos | auxiliares em misturas | fracos, associados |
| Salicílico | BHA (beta-hidroxiácido) | casca de salgueiro, síntese | oleosa, acneica, poros | lipossolúvel, penetra nos folículos, relação com aspirina: cuidado em alergia a salicilatos |
| Pirúvico | alfa-cetoácido | síntese | acne, manchas | forte, em baixas concentrações |
| Azelaico | diácido | cereais, síntese | acne, rosácea, manchas | boa tolerância; ação despigmentante |
| Fítico, kójico | auxiliares | arroz, fungos | manchas | ação despigmentante suave |
| Tricloroacético (TCA) | ácido halogenado | síntese | uso médico nos peelings médios | não é cosmético de gabinete de estética |
Concentração e pH de uso em estética. Há duas situações diferentes e convém não as confundir. Os AHA (glicólico, láctico, mandélico, pirúvico) não estão restringidos nos anexos do Regulamento (CE) n.º 1223/2009: não existe para eles um limite europeu de concentração nem de pH. O que existe são os pareceres científicos citados a seguir, a informação do fabricante e o parecer da Ordem dos Médicos referido no referencial. O ácido salicílico, pelo contrário, está restringido: a entrada 98 do anexo III admite-o, para fins que não sejam a conservação do produto, até 3,0% em produtos capilares de enxaguar e até 2,0% nos restantes produtos (até 0,5% em loção corporal, sombra de olhos, máscara de pestanas, eyeliner, batom e desodorizante roll-on), e proíbe-o em preparações para crianças com menos de 3 anos. A entrada não fixa pH. Daqui decorre uma consequência prática: um produto de salicílico com concentração muito acima de 2,0% não é um cosmético ao abrigo deste anexo, e não é por vir em frasco de uso profissional que passa a ser. Os valores do anexo confirmam-se sempre na redação em vigor. Para cada peeling, o profissional regista no protocolo a concentração, o pH e o tempo indicados no rótulo e na ficha técnica, e recusa o produto cujo rótulo não os indique.
pH e concentração: duas variáveis, não uma
A força de um peeling com ácidos depende de duas coisas: da concentração total do ácido e do pH da formulação. O pH determina quanta parte do ácido está na forma livre (não dissociada), que é a forma ativa e capaz de penetrar. Esta relação segue a equação de Henderson-Hasselbalch:
Fração livre = 1 ÷ (1 + 10^(pH − pKa))
Exemplo resolvido · Efeito do pH numa solução de ácido glicólico
O ácido glicólico tem pKa de cerca de 3,83. Calcula a fração livre (ativa) a três valores de pH.
- pH 3,0: pH − pKa = 3,0 − 3,83 = −0,83; 10^(−0,83) ≈ 0,148; fração livre = 1 ÷ 1,148 ≈ 87%.
- pH 3,5: diferença −0,33; 10^(−0,33) ≈ 0,468; fração livre = 1 ÷ 1,468 ≈ 68%.
- pH 4,0: diferença +0,17; 10^(0,17) ≈ 1,479; fração livre = 1 ÷ 2,479 ≈ 40%.
Leitura: a mesma concentração de glicólico, ao subir o pH de 3,0 para 4,0, perde mais de metade da ação. Um peeling a 30% com pH 2,0 é muito mais agressivo do que um a 30% com pH 3,5. Por isso, a concentração dita no rótulo sem o pH não diz tudo.
Valores de referência de concentração e pH
Não havendo limite legal europeu para os AHA, o que existe são pareceres científicos. Convém saber de quem são, porque não têm o mesmo peso.
O parecer europeu é o do comité científico SCCNFP, SCCNFP/0370/00, adotado a 28 de junho de 2000 e expressamente mantido pelo parecer SCCNFP/0799/04, de 25 de maio de 2004. O comité considerou que faltavam dados para uma avaliação completa e, pelo princípio da precaução, sugeriu que o ácido glicólico pode ser usado com segurança até 4%, com pH igual ou superior a 3,8, e o ácido láctico até 2,5%, com pH igual ou superior a 5. Recomendou também avisos ao utilizador para evitar o contacto com os olhos e para evitar ou proteger da radiação UV durante o uso, porque os AHA aumentam o dano que o sol provoca na pele. O parecer não distingue uso profissional de uso doméstico: estes são os valores que o comité europeu considerou prudentes.
A referência norte-americana é a revisão do painel CIR (Cosmetic Ingredient Review, 1997) sobre o ácido glicólico, o ácido láctico e os seus sais e ésteres simples (e não sobre todos os AHA), que concluiu que são seguros em produtos de consumo até 10% com pH igual ou superior a 3,5, desde que formulados para não aumentar a sensibilidade solar ou com instruções de proteção solar diária, e em produtos de salão até 30% com pH igual ou superior a 3,0, desde que sejam de uso breve e descontínuo, seguido de enxaguamento completo, aplicados por pessoa treinada e com instruções de proteção solar diária. É um painel da indústria dos Estados Unidos, não uma posição europeia, e os 30% nunca foram aprovados por nenhum comité europeu.
Nenhum destes números é lei. O que cada técnico pode aplicar é determinado pela legislação em vigor, pela informação do fabricante e pelo parecer da Ordem dos Médicos referido no referencial. O rótulo e a ficha técnica indicam o uso profissional permitido, e as instruções do fabricante prevalecem sobre qualquer regra de bolso. Na dúvida entre dois valores, aplica-se o mais prudente.
Apresentação e modo de aplicação
Os peelings de estética apresentam-se como soluções, géis ou cremes, com ou sem neutralizante, em frascos de uso profissional, às vezes em kits com pré-peeling e pós-peeling.
Sequência típica de um peeling superficial:
- Anamnese e avaliação: fototipo, tipo de pele, medicação, tratamentos recentes, exposição solar, histórico de herpes, gravidez, alergias.
- Pré-preparação (às vezes em casa durante uma a duas semanas): pele hidratada, protegida e, se for o caso, com produtos de preparação indicados pelo profissional ou médico.
- Teste de sensibilidade numa pequena zona, quando o fabricante o recomenda.
- Limpeza e desengorduramento da pele, retirar maquilhagem e oleosidade.
- Proteger zonas sensíveis (cantos do nariz, boca, pálpebras) com vaselina ou produto indicado.
- Aplicar com pincel ou compressa, em camada uniforme, seguindo a ordem recomendada (testa, face, nariz, queixo, por exemplo), cronometrando.
- Vigiar: eritema (vermelhidão), ardor, sensação de picada. Uma vermelhidão uniforme ligeira é esperada; branqueamento ou ardor intenso, não.
- Neutralizar ou remover no tempo definido, seguindo a ficha do produto (alguns ácidos neutralizam-se, outros removem-se com água; o salicílico, por exemplo, tem comportamento próprio).
- Acalmar e proteger: máscara calmante, creme reparador, filtro solar.
- Registar produto, lote, concentração, pH, tempo, resposta.
Indicações
Pele com acne superficial, poros dilatados, textura irregular, manchas solares leves, melasma superficial (com acompanhamento médico quando persistente), fotoenvelhecimento ligeiro, cicatrizes superficiais de acne, pele baça.
Contraindicações e precauções
| Situação | Porquê | Conduta |
|---|---|---|
| Gravidez e amamentação | prudência e falta de dados; alguns ácidos (salicílico) com restrição | não aplicar; remeter |
| Pele lesionada, feridas, infeção ativa (herpes, impetigo, verrugas) | risco de agravamento e disseminação | adiar |
| Queimadura solar, pele bronzeada recente | risco de manchas e queimadura | adiar |
| Medicação com isotretinoína (por via oral) ou retinoides fortes | pele fragilizada | só com indicação do médico, em geral esperar meses |
| Tratamentos recentes (depilação, laser, microagulhamento) | pele já agredida | respeitar intervalo |
| Alergia ao ácido ou a salicilatos | reação | não aplicar |
| Fototipos altos (IV a VI) | risco de hiperpigmentação pós-inflamatória | usar ácidos suaves (mandélico, láctico), baixa concentração, ou remeter |
| Rosácea ativa, dermatite | irritação | adiar, remeter ao médico |
| Doenças autoimunes, imunossupressão | cicatrização alterada | consultar médico |
Precauções gerais: proteção solar diária durante e depois do tratamento; evitar sol direto, calor intenso e sauna nos dias seguintes; evitar esfoliantes e produtos irritantes; não arrancar pele solta; intervalos entre sessões segundo o protocolo do fabricante; e, perante qualquer reação anormal (empolamento, dor persistente, crosta), suspender e remeter a cliente para o médico.
Exemplo resolvido · Escolher o peeling para duas clientes
Cliente 1: 28 anos, pele oleosa, comedões e pápulas ligeiras, fototipo III, sem medicação, sem gravidez. - Escolha: peeling com ácido salicílico (lipossolúvel, entra nos folículos) dentro do limite da entrada 98 do anexo III do Regulamento (CE) n.º 1223/2009 (2,0% na generalidade dos produtos, na redação em vigor) e com concentração e pH indicados no rótulo, pós-peeling calmante e filtro solar. Indicação coerente: poros e comedões.
Cliente 2: 45 anos, pele sensível com manchas, fototipo V, usa um creme com retinoide forte prescrito pelo médico. - Escolha: não aplicar peeling de gabinete até o médico autorizar, porque o retinoide forte e o fototipo alto aumentam o risco de irritação e de pigmentação pós-inflamatória. Se o médico autorizar, ácido mandélico em baixa concentração é uma opção de menor risco.
A decisão registada na ficha inclui o motivo da escolha ou da recusa.
9. Seleção, planeamento e protocolo; aconselhamento cosmético e avaliação de riscos
Da ficha da cliente ao protocolo
Selecionar e planear intervenções cosméticas para o equilíbrio da pele e dos anexos é um processo com passos fixos. Cada passo produz informação que o seguinte usa.
| Passo | O que se faz | Resultado |
|---|---|---|
| 1. Anamnese | perguntar saúde, medicação, alergias, hábitos, expectativas, tratamentos anteriores | ficha preenchida |
| 2. Avaliação da pele | observar tipo, estado, disfunções, hidratação, sensibilidade | diagnóstico estético |
| 3. Objetivo | acordar com a cliente o que se pretende e o que é realista | objetivo definido |
| 4. Contraindicações | verificar riscos e limites do âmbito cosmético | autorizar, adaptar ou remeter |
| 5. Seleção de cosméticos | escolher por função, ação, tipo de pele e segurança | lista de produtos |
| 6. Protocolo | definir sequência, tempos, número de sessões | protocolo escrito |
| 7. Execução | aplicar, vigiar, ajustar | tratamento realizado |
| 8. Registo e conselho | anotar produtos, lote, reação; recomendar cuidados de casa | ficha atualizada |
Elaborar um protocolo de aplicação
O protocolo de tratamento é o documento que define a função, a ação e a sequência de aplicação de cada cosmético, de acordo com o critério de desempenho do referencial. Um bom protocolo tem:
- Objetivo do tratamento e perfil da cliente.
- Produtos por fase, com nome, quantidade e lote.
- Sequência: preparação, tratamento, finalização.
- Tempos de cada fase.
- Cuidados: contraindicações e sinais de alerta.
- Pós-tratamento: cuidados imediatos e de casa.
- Número de sessões e intervalo.
Estrutura-tipo da sequência de aplicação:
- Higienização da pele (leite ou gel).
- Tonificação (repor pH).
- Esfoliação ou preparação, quando indicada.
- Ativo de tratamento (ampola ou sérum), com ou sem método facilitador.
- Massagem ou aparelho.
- Máscara.
- Hidratação e proteção (creme, filtro solar de dia).
Esta ordem tem lógica: os produtos mais fluidos e ativos vão primeiro, os mais ricos e oclusivos depois, porque um creme oclusivo antes de um sérum impediria o sérum de entrar.
Exemplo resolvido · Protocolo de hidratação facial em 60 minutos
Cliente de 38 anos, pele desidratada e baça, sem contraindicações. Objetivo: hidratação e luminosidade.
| Minutos | Fase | Produto | Função e ação |
|---|---|---|---|
| 0 a 5 | Anamnese rápida e observação | ficha | verificação de contraindicações |
| 5 a 12 | Limpeza | leite de limpeza suave | limpar; tensioativa e emoliente |
| 12 a 15 | Tonificação | loção calmante | repor pH; calmante |
| 15 a 22 | Esfoliação suave | esfoliante enzimático | queratolítica suave |
| 22 a 27 | Ativo | ampola de ácido hialurónico | hidratar; humectante |
| 27 a 42 | Massagem facial | creme de massagem | relaxar; emoliente |
| 42 a 52 | Máscara | máscara de gel hidratante | hidratar; humectante e oclusiva leve |
| 52 a 58 | Finalização | creme hidratante com filtro (se for de dia) | proteger; hidratar |
| 58 a 60 | Conselhos e registo | ficha | aconselhamento |
Conferência: os tempos somam 60 minutos; a sequência vai do fluido ao oclusivo; nenhum produto contraria a pele desidratada.
Aconselhamento cosmético
Aconselhar é recomendar à cliente os produtos de cuidados diários e o uso correto, para manter e prolongar o resultado do gabinete. Boas práticas:
- Perguntar antes de recomendar: rotina atual, alergias, orçamento, disponibilidade de tempo, preferências (cheiro, textura).
- Recomendar pouco e certo: uma rotina simples de limpeza, hidratação e proteção solar vale mais do que dez produtos.
- Explicar o porquê: função e ação de cada produto, em linguagem simples.
- Dar instruções práticas: quantidade, momento do dia, ordem de aplicação, frequência e quanto tempo até notar efeito.
- Avisar sobre reações possíveis e o que fazer.
- Ser honesto: dizer o que o cosmético faz e o que não faz; não prometer resultados médicos.
- Registar o que foi recomendado e o que a cliente comprou.
Uso correto: o que dizer à cliente
| Produto | Quantidade aproximada (rosto) | Momento | Regra |
|---|---|---|---|
| Limpeza | uma noz | manhã e noite | massajar e enxaguar bem |
| Tónico | quantidade que molhe o disco | após limpeza | sem esfregar |
| Sérum | 2 a 4 gotas ou 1 a 2 bombadas | antes do creme | sobre pele limpa |
| Hidratante | uma ervilha a uma avelã | dia e noite | aplicar em movimentos ascendentes |
| Filtro solar | cerca de duas "falanges" de dedo | todas as manhãs, renovar | quantidade generosa; renovar a cada duas horas ao sol |
| Esfoliante | pequena quantidade | 1 a 2 vezes por semana | não em pele irritada |
| Ácidos e retinoides | segundo indicação | geralmente à noite | introdução gradual, filtro solar de dia |
Avaliar os riscos da aplicação
A aptidão "avaliar os riscos de aplicação dos cosméticos" divide-se em quatro tipos de risco.
- Reações da pele: irritação (dose e agressividade do produto), alergia de contacto (resposta imunológica, aparece em pessoas sensibilizadas, às vezes após semanas), fotossensibilidade (reação com o sol), hiperpigmentação pós-inflamatória.
- Risco de contaminação: produto contaminado por micro-organismos devido a espátulas sujas, dedos nos frascos, potes abertos há muito tempo.
- Risco do método: queimaduras (calor, corrente, ácidos), lesão por agulhas, infeções.
- Risco para o profissional: inalação de vapores, contacto repetido com ácidos, alergias profissionais (comuns em unhas e tintas); uso de EPI.
Redução de risco: anamnese, teste de sensibilidade, quantidade mínima eficaz, higiene (espátulas, pincéis descartáveis ou desinfetados, nunca mergulhar dedos), ficha técnica à mão, vigilância durante o tratamento, plano para reação adversa e registo.
Exemplo resolvido · Resposta a uma reação adversa
Uma cliente apresenta vermelhidão intensa e ardor, 5 minutos depois de uma ampola de vitamina C.
- Parar a aplicação e remover o produto com água fria ou soro, conforme o protocolo.
- Acalmar com compressas frias e produto calmante.
- Avaliar: extensão, inchaço, dificuldade em respirar. Se houver inchaço da face, dificuldade respiratória ou mal-estar geral, chamar o 112 de imediato.
- Registar: produto, lote, hora, sinais e o que foi feito.
- Aconselhar: não aplicar mais produtos, não se expor ao sol, procurar o médico se persistir.
- Comunicar ao fornecedor e, se a reação for grave, às entidades competentes pelos canais de cosmetovigilância.
- Rever a ficha da cliente: passa a constar a reação ao produto.
10. Cosméticos de maquilhagem: estabilidade, validade, maquilhagem semipermanente e riscos
Maquilhagem como produto cosmético
Os produtos de maquilhagem (bases, corretores, pós, sombras, máscaras de pestanas, lápis, batons, rouges) são cosméticos de aplicação de cor, em contacto com zonas sensíveis (olhos, lábios). Têm regras iguais às dos restantes cosméticos e exigências extra de higiene por causa das mucosas e da humidade.
| Produto | Base da fórmula | Validade típica depois de aberto (PAO) | Risco principal |
|---|---|---|---|
| Máscara de pestanas | emulsão com ceras e pigmentos | cerca de 3 a 6 meses, conforme o rótulo | infeção ocular, bactérias; bombear ar para dentro |
| Eyeliner líquido | solução ou emulsão | cerca de 3 a 6 meses | idem |
| Lápis (olhos, lábios) | ceras e pigmentos | mais longa, mas afiar de cada vez | contaminação da ponta |
| Base líquida | emulsão | 6 a 12 meses | bactérias, oxidação |
| Pó compacto | pós prensados | 12 a 24 meses | contaminação por esponjas e pincéis |
| Batom | ceras, óleos e pigmentos | 12 a 24 meses | herpes (transmissão), ranço |
Os prazos acima são indicativos; vale sempre o símbolo PAO e a data de durabilidade mínima do fabricante.
Estabilidade e validade na maquilhagem
Uma maquilhagem instável mostra-se por separação de fases (água e óleo separam), mudança de cor (oxidação dos pigmentos), mudança de cheiro (ranço), textura grumosa, bolor ou crescimento de fungos (sobretudo em produtos aquosos). A causa pode ser o calor (carro, janela), a luz, o ar ou a contaminação. Um produto que mostre qualquer um destes sinais é descartado, mesmo dentro da data.
Higiene no uso profissional
- Usar espátulas descartáveis ou desinfetadas, nunca os dedos, para retirar o produto do pote.
- Para cada cliente, aplicar com material limpo: pincéis e esponjas lavados e desinfetados, ou descartáveis; pontas de lápis aparadas.
- Transferir o produto para uma palete limpa e trabalhar a partir dela.
- Nunca partilhar máscara de pestanas ou batom entre clientes sem protocolo (descartáveis individuais).
- Fechar bem os frascos depois de usar.
Maquilhagem semipermanente: o que é e como se enquadra
A maquilhagem semipermanente (também conhecida por micropigmentação ou pigmentação) deposita pigmentos na pele com agulhas, para desenhar sobrancelhas, contorno de olhos ou lábios. O referencial pede a estabilidade e a validade das tintas, as tintas para maquilhagem semipermanente e os riscos na utilização.
Pontos a distinguir:
- Os pigmentos injetados na pele não são um cosmético "de superfície": ficam depositados num plano mais profundo e podem permanecer durante muito tempo. As misturas usadas para tatuagem e maquilhagem permanente estão sujeitas a regras próprias a nível europeu, nomeadamente uma restrição de substâncias no âmbito do regulamento REACH, em vigor desde 4 de janeiro de 2022 (Regulamento (UE) 2020/2081), e a regras de segurança dos produtos em geral.
- As tintas têm prazo de validade e número de lote, devem ser estéreis e embaladas em dose individual ou em recipientes de uso controlado, e o profissional deve guardar os dados de rastreabilidade (lote, validade) na ficha de cada cliente.
- A prática exige formação específica e, no quadro das normas aplicáveis em Portugal, as regras sobre tatuagem e pigmentação e o enquadramento do ato. O técnico confirma o que pode executar, o parecer aplicável e a legislação em vigor antes de oferecer o serviço.
Riscos na utilização das tintas
| Risco | Causa | Prevenção |
|---|---|---|
| Infeção | agulhas, tinta ou ambiente contaminados | material de uso único, higiene, tinta esterilizada |
| Reação alérgica | pigmentos (por vezes níquel e outros), preservantes | teste, histórico de alergias, lote registado |
| Granulomas e cicatrizes | resposta do organismo ao pigmento | técnica correta, evitar pigmentos de má qualidade |
| Alteração da cor | oxidação, mistura de pigmentos, tom da pele | escolha adequada, tom de teste |
| Interferência em exames | alguns pigmentos podem afetar imagens médicas | informar a cliente |
| Resultado irreversível ou difícil de remover | pigmento na derme | consentimento informado |
Exemplo resolvido · Decidir o que fazer com uma tinta de lote desconhecido
Um fornecedor oferece uma tinta de micropigmentação muito barata, "sem rótulo em português, lote em falta".
- Rotulagem: sem informação em português e sem lote, não se cumpre a rastreabilidade mínima.
- Risco: se uma cliente tiver reação, não há como identificar o produto, nem avisar outras clientes.
- Decisão: recusar. Procurar um fornecedor com documentação, lote, validade, composição e responsável identificado.
- Registo: arquivar a recusa e a razão.
11. Estabilidade, conservação, armazenamento, validade e stock
Estabilidade
A estabilidade de um cosmético é a sua capacidade de manter, durante o prazo de validade e em condições de armazenamento adequadas, as propriedades físicas, químicas, microbiológicas e sensoriais com que foi fabricado. Os sinais de instabilidade são:
| Tipo | Como se manifesta | Causa provável |
|---|---|---|
| Física | separação de fases, cristais, grumos, alteração de viscosidade | temperaturas extremas, agitação, congelação |
| Química | mudança de cor ou cheiro, perda de ação do ativo | luz, oxigénio, calor, pH |
| Microbiológica | bolor, turvação, cheiro azedo | contaminação, conservante insuficiente, mau manuseamento |
| Sensorial | textura diferente, cheiro alterado | oxidação, ranço |
| Da embalagem | deformação, fuga, corrosão | reação com o conteúdo |
Conservação: o que acelera a degradação
Cinco "inimigos" resumem o que faz estragar um cosmético:
- Calor: acelera as reações químicas e a separação de fases.
- Luz (sobretudo UV): degrada ativos fotossensíveis (vitamina C, retinoides).
- Ar (oxigénio): oxida lípidos e vitaminas.
- Água e humidade: favorecem o crescimento de micro-organismos.
- Contaminação (dedos, espátulas, produto devolvido ao frasco).
Condições de armazenamento
| Aspeto | Boa prática |
|---|---|
| Temperatura | local fresco e seco, sem variações bruscas; cumprir a indicação do fabricante; alguns produtos pedem frio |
| Luz | ao abrigo da luz solar direta, em armário fechado ou embalagem opaca |
| Humidade | longe de zonas húmidas (casa de banho, lavatório, vapor) |
| Posição | em pé, bem fechados, com a tampa limpa |
| Segregação | separar o que está em uso do que está fechado; separar o profissional do de venda |
| Produtos inflamáveis | afastados de fontes de calor (álcool, acetona, lacas) e conforme as regras de segurança |
| Material de uso único | em local limpo, em embalagem fechada |
| Zona de quarentena | prateleira para produtos duvidosos, devolvidos, fora de prazo ou em investigação |
Manipulação
- Lavar e desinfetar as mãos antes de manusear.
- Usar espátulas para retirar o produto dos potes; nunca o dedo.
- Nunca devolver produto ao recipiente original.
- Transferir para recipientes pequenos só se forem limpos e rotulados com nome, lote e data.
- Fechar logo depois de usar.
- Não diluir nem misturar produtos de marcas diferentes sem indicação do fabricante.
- Anotar a data de abertura no frasco.
Prazo de validade: data de durabilidade mínima e PAO
Há dois conceitos que se complementam.
- Data de durabilidade mínima (símbolo de ampulheta ou a expressão "utilizar de preferência antes de"): indica até quando o produto fechado mantém a qualidade. Aparece em produtos com durabilidade mínima até 30 meses.
- PAO (frasco aberto com número): indica durante quantos meses pode ser usado depois de aberto. Aparece em produtos cuja durabilidade ultrapassa os 30 meses.
Ao abrir um produto, o gabinete anota a data de abertura e calcula a data limite de utilização: a mais cedo entre a data de durabilidade mínima e a data de abertura mais o PAO.
Exemplo resolvido · Calcular a data limite de utilização
Três produtos do gabinete, todos abertos em uso:
- Creme com PAO de 12M, aberto a 3 de março de 2026. Somam-se 12 meses: data limite 3 de março de 2027.
- Sérum com PAO de 6M, aberto a 15 de janeiro de 2026. Somam-se 6 meses: data limite 15 de julho de 2026. A 14 de outubro de 2026 já passou o limite: o frasco é descartado, mesmo que pareça bom.
- Pó compacto com ampulheta e data de durabilidade mínima 08/2027, aberto em novembro de 2026. Como o produto tem data de durabilidade mínima (e não PAO), a data limite é agosto de 2027.
Regra de ouro: se houver sinais de instabilidade (cheiro, cor, textura, bolor), o produto é descartado antes da data limite. A data é um teto, não uma garantia.
Gestão do stock
Organizar e controlar o stock de produtos significa saber o que há, onde está, quanto dura e quando repor.
| Conceito | Definição | Para que serve |
|---|---|---|
| FIFO (first in, first out) | o primeiro a entrar é o primeiro a sair | produtos com validade semelhante |
| FEFO (first expired, first out) | o primeiro a caducar é o primeiro a sair | regra preferível em cosméticos |
| Stock mínimo / de segurança | quantidade abaixo da qual se encomenda | evitar rupturas |
| Ponto de encomenda | stock em que se faz a encomenda | consumo durante o prazo de entrega, mais segurança |
| Inventário | contagem periódica do que existe | acerto entre registo e realidade |
| Rotação | arrumar à frente o que caduca primeiro, qualquer que tenha sido a data de entrada | cumprir FEFO |
| Rastreabilidade | ligar o lote ao cliente | retirar rapidamente um lote problemático |
Ponto de encomenda = consumo diário × prazo de entrega (dias) + stock de segurança.
Exemplo resolvido · Calcular o ponto de encomenda
O gabinete gasta, em média, 6 ampolas de hidratação por semana (6 dias de trabalho). O fornecedor entrega em 5 dias úteis. O gabinete quer uma segurança de 4 ampolas.
- Consumo diário: 6 ÷ 6 = 1 ampola por dia.
- Consumo durante a entrega: 1 × 5 = 5 ampolas.
- Ponto de encomenda: 5 + 4 = 9 ampolas.
- Regra: quando restarem 9 ampolas, faz-se a encomenda.
Exemplo resolvido · Aplicar FEFO a um lote
Na prateleira existem: 4 cremes (lote A, validade 06/2027), 6 cremes (lote B, validade 03/2027), 3 cremes (lote C, validade 09/2027).
- Ordenar por validade: B (03/2027), A (06/2027), C (09/2027).
- Sair primeiro o lote B, depois A, depois C.
- Colocar o lote B à frente e os restantes atrás, por ordem.
- Quando entrar um lote novo, vai para o fundo ou para a posição que a sua validade indicar.
- Mensalmente, fazer uma lista dos produtos a menos de 3 meses da validade para se usarem em primeiro lugar, ou para se promoverem na venda.
Produtos fora de prazo, danificados ou retirados
Um produto fora de validade, com sinais de instabilidade, ou que tenha sido alvo de retirada por parte do fabricante ou da autoridade, não se usa nem se vende. Fica separado em quarentena, identificado, e eliminado segundo as regras de resíduos aplicáveis, com registo do que foi eliminado. O gabinete acompanha os avisos de retirada publicados pelas autoridades e pelos fornecedores.
12. Normas de qualidade, legislação em vigor, ética e segurança
Normas de qualidade
As normas de qualidade padronizam processos para garantir resultados consistentes e seguros. Para o profissional de estética, as mais relevantes são:
| Norma / conceito | Âmbito | Relevância |
|---|---|---|
| ISO 22716 | boas práticas de fabrico de cosméticos | referência para fabricantes; o profissional beneficia da qualidade dos fornecedores |
| ISO 9001 | sistemas de gestão da qualidade | base para organizar processos, registos, ações corretivas no gabinete |
| ISO 11930 | avaliação da proteção antimicrobiana de um cosmético | liga-se ao challenge test e à conservação |
| ISO 16128 | índices de ingredientes naturais e de origem natural | comparar produtos |
| Boas práticas do gabinete | higiene, desinfeção, registos | exigidas pela atividade |
Aplicar normas de qualidade no gabinete significa documentar, registar e melhorar: procedimentos escritos, fichas, registos de lote, controlo de validades, limpeza e desinfeção com registo, tratamento de reclamações e ações corretivas.
Legislação e entidades
O quadro legal é um ponto de partida que o profissional confirma sempre na redação em vigor.
| Âmbito | Diploma ou entidade | O que regula |
|---|---|---|
| Europeu | Regulamento (CE) n.º 1223/2009, relativo aos produtos cosméticos, com as suas alterações | definição de cosmético, pessoa responsável, avaliação de segurança, dossiê, notificação, rotulagem, substâncias proibidas e restritas, cosmetovigilância |
| Anexos do regulamento | II (substâncias proibidas), III (restritas), IV (corantes permitidos), V (conservantes permitidos), VI (filtros UV permitidos) | listas positivas e negativas |
| Nacional | Decreto-Lei n.º 23/2025, de 19 de março | execução do regulamento em Portugal, operadores, fiscalização, regime sancionatório |
| Autoridade competente | INFARMED | fiscalização, vigilância do mercado, informação sobre produtos |
| Parecer profissional | Ordem dos Médicos | enquadramento do que é ato médico e do que pode ser feito em estética |
| Legislação geral | segurança e saúde no trabalho, resíduos, proteção de dados pessoais | obrigações do estabelecimento |
Pontos práticos que decorrem destes diplomas:
- Substâncias: só se usam as autorizadas; as proibidas e as restritas têm de ser conhecidas. A lista muda, por isso o rótulo e o fornecedor são a primeira fonte para o gabinete; a atualização do regulamento obriga a reavaliar produtos. Dois exemplos recentes: o TPO (óxido de trimetilbenzoil difenilfosfina), usado em géis de unhas, passou a estar proibido pelo Regulamento (UE) 2025/877 desde 1 de setembro de 2025, sem prazo de escoamento, pelo que o profissional não pode usar nem manter para uso produtos que o contenham; e o retinol, o acetato de retinilo e o palmitato de retinilo passaram a ter condições de uso no anexo III (entrada 376) pelo Regulamento (UE) 2024/996: 0,05% de equivalente de retinol em loção corporal e 0,3% nos restantes produtos, com aviso obrigatório no rótulo sobre a vitamina A. Os produtos que não cumpram não podem ser colocados no mercado desde 1 de novembro de 2025 e não podem ser disponibilizados a partir de 1 de maio de 2027. Entre as duas datas, o stock que já estava no mercado antes de 1 de novembro de 2025 ainda pode ser disponibilizado (consultam-se o regulamento e o anexo na redação em vigor). Os retinoides de prescrição, como a tretinoína, são medicamentos e não cosméticos.
- Alegações: as alegações de um cosmético (hidrata, anti-idade, firmeza) têm de ser justificadas; o regulamento fixa critérios comuns para as alegações.
- Cosmetovigilância: os efeitos indesejáveis graves devem ser registados e comunicados pelos canais previstos.
- Dados pessoais: a ficha da cliente contém dados de saúde, com proteção reforçada no âmbito do regulamento de proteção de dados.
Atitudes profissionais
O referencial valoriza atitudes que, no dia a dia, se traduzem em atos concretos.
| Atitude | Exemplo no gabinete |
|---|---|
| Responsabilidade | assumir e corrigir um erro, registar a reação adversa |
| Autonomia | decidir dentro do âmbito, sem esperar por ordens para tarefas rotineiras |
| Prontidão em caso de emergência | conhecer o plano de resposta e o número 112 |
| Autocontrolo | manter a calma perante uma cliente exigente ou uma reação |
| Iniciativa | propor melhorias ao armazenamento |
| Apresentação pessoal | farda limpa, cabelo apanhado, unhas curtas, mãos desinfetadas |
| Resolução de problemas | adaptar o protocolo se a pele reage |
| Sentido de organização | prateleiras, fichas e registos ordenados |
| Conduta ética | não prometer curas, não usar produtos duvidosos, confidencialidade |
| Respeito pelas normas de segurança e saúde no trabalho | EPI, ventilação, ergonomia, rotulagem de químicos |
Segurança e saúde no trabalho aplicadas aos cosméticos
- Usar luvas ao manusear ácidos, tintas e produtos irritantes; óculos ao diluir ou aplicar produtos que possam salpicar.
- Ventilar o espaço, sobretudo em unhas e em produtos voláteis.
- Rotular qualquer frasco decantado.
- Ter à mão a ficha de dados de segurança, quando aplicável, e conhecer os primeiros socorros (lavar os olhos com água, por exemplo).
- Ergonomia: altura da marquesa, postura, pausas.
- Resíduos: separar cortantes, produtos químicos e embalagens, segundo as regras locais.
Exemplo resolvido · Preparar o gabinete para uma inspeção
Uma manhã, o responsável do estabelecimento sabe que haverá uma visita de verificação. Que organização pode apresentar?
- Produtos: todos com rótulo completo em português, lote e validade; nenhum fora do prazo na prateleira de uso.
- Documentação: pasta com fichas técnicas e faturas dos produtos, ordenadas por marca.
- Fichas das clientes: arquivadas com confidencialidade, com consentimento sobre dados.
- Registo de limpeza e desinfeção: datado e assinado.
- Armazenamento: produtos longe do calor e da humidade, quarentena identificada.
- Segurança: EPI disponível, extintor e kit de primeiros socorros no prazo.
- Resíduos: contentor para cortantes devidamente identificado.
O resultado é uma inspeção sem surpresas, porque o trabalho diário já estava organizado.
Erros comuns
- Confundir cosmético com medicamento. Prometer curar acne grave, eczema ou celulite "por dentro" com um creme é sair do âmbito cosmético e arriscar a cliente.
- Classificar só pela função e esquecer a ação, ou o contrário. A função diz para que serve na rotina; a ação diz o que faz na pele. O protocolo precisa de ambas.
- Ler o rótulo só pela frente. A informação obrigatória (responsável, lote, validade, ingredientes, precauções) está na parte de trás ou na embalagem exterior.
- Achar que "natural" ou "orgânico" é sinónimo de seguro, ou que a ordem dos ingredientes é arbitrária. A ordem é decrescente de concentração.
- Confiar numa alegação sem selo ou prova. "Dermatologicamente testado" não garante que o produto serve a todas as peles.
- Ignorar o lote. Sem lote, não há rastreio nem retirada possível.
- Usar iontoforese ou eletroporação numa cliente com pacemaker ou implantes metálicos sem confirmar as contraindicações.
- Aplicar produtos de uso comum (com perfume, óleos essenciais, corantes) após microagulhamento, quando só se devem usar formulações próprias para o efeito.
- Partilhar rolos ou agulhas entre clientes.
- Fazer um peeling sem anamnese, sem teste de sensibilidade e sem proteção solar no pós-tratamento.
- Julgar a força de um peeling só pela concentração, esquecendo o pH.
- Aplicar peelings de profundidade média ou profunda (TCA, fenol) em gabinete de estética: é ato médico.
- Aplicar peelings em peles de fototipo alto sem cautela, com risco de manchas pós-inflamatórias.
- Esquecer a sequência de aplicação: creme oclusivo antes do sérum, ou ácido depois de um produto que o bloqueia.
- Mergulhar os dedos nos potes em vez de usar espátulas, ou devolver produto ao frasco original.
- Guardar produtos junto de fontes de calor, ao sol ou em zonas húmidas.
- Não anotar a data de abertura e perder o controlo do PAO.
- Usar FIFO sem olhar à validade, quando o certo é FEFO: sai primeiro o que caduca primeiro.
- Manter em prateleira produtos fora de prazo "só para amostra".
- Aconselhar demasiados produtos a uma cliente, em vez de uma rotina simples.
- Esquecer o filtro solar no pós-tratamento e no aconselhamento diário.
- Descuidar o registo: produto, lote, reação, conselho dado.
- Não confirmar a legislação e o parecer aplicáveis antes de oferecer um serviço novo ou de usar uma substância nova.
Glossário
- Ação: efeito do cosmético na pele (hidratante, queratolítica, despigmentante, etc.).
- Alegação: afirmação sobre o efeito de um produto, que tem de ser verdadeira e comprovada.
- Alergénio de fragrância: substância de perfume que tem de ser declarada individualmente quando excede limiares definidos.
- Anamnese: recolha de informação sobre a saúde e os hábitos da cliente antes do tratamento.
- Anexos cutâneos: folículos pilossebáceos, glândulas sudoríparas e unhas.
- Antioxidante: substância que previne a oxidação, na fórmula ou na pele.
- Bicamada lipídica: dupla camada de lípidos que forma a membrana das vesículas e das células.
- BHA: beta-hidroxiácido, como o ácido salicílico.
- AHA: alfa-hidroxiácido, como os ácidos glicólico, láctico e mandélico.
- CPNP: portal europeu de notificação de produtos cosméticos.
- Cosmético: produto para contacto com as partes externas do corpo, destinado a limpar, perfumar, modificar o aspeto, proteger, manter em bom estado ou corrigir odores.
- Cosmetovigilância: sistema de recolha e avaliação dos efeitos indesejáveis dos cosméticos.
- Data de durabilidade mínima: data até à qual o produto fechado mantém as suas propriedades.
- Dermapen: caneta com agulhas descartáveis usada em microagulhamento.
- Dermaroller: rolo de agulhas usado em microagulhamento.
- Eletroporação: criação de poros transitórios por pulsos elétricos para facilitar a penetração.
- Emulsão: mistura estável de duas fases imiscíveis, óleo e água.
- Estabilidade: manutenção das propriedades do produto durante o prazo de validade.
- Estrato córneo: camada mais externa da epiderme, que funciona como barreira.
- FEFO: regra de stock em que sai primeiro o que caduca primeiro.
- FIFO: regra de stock em que sai primeiro o que entrou primeiro.
- Fonoforese: uso de ultrassons para facilitar a penetração de ativos.
- Fototipo: classificação da pele segundo a reação ao sol (I a VI).
- Função: papel do produto na rotina ou no protocolo (limpar, hidratar, proteger, etc.).
- Humectante: substância que atrai e retém água.
- INCI: nomenclatura internacional dos ingredientes cosméticos.
- Iontoforese: uso de corrente galvânica para "empurrar" ativos ionizados.
- Lipossomas: vesículas de fosfolípidos que transportam ativos.
- Lote: identificação de uma produção, que permite o rastreio.
- Microagulhamento: criação de microcanais superficiais com agulhas finas.
- Niossomas: vesículas de tensioativos não iónicos.
- PAO: período em meses durante o qual o produto pode ser usado depois de aberto.
- Peeling químico: aplicação de ácidos para esfoliar e renovar a pele.
- PIF: dossiê de informação do produto, mantido pela pessoa responsável.
- pH: medida da acidez de uma solução.
- Pessoa responsável: entidade que responde legalmente pelo produto no mercado europeu.
- Promotor de penetração: substância que aumenta, de forma reversível, a permeabilidade da pele.
- Protocolo: documento que define função, ação e sequência de aplicação dos cosméticos.
- Rubefaciente: que provoca vermelhidão por vasodilatação.
- Termogénico: cosmético que provoca sensação de calor e aumento da circulação local.
- Via intercelular: caminho através dos lípidos entre os corneócitos.
- Via folicular: caminho através dos folículos pilossebáceos.
- Vesículas coloidais: estruturas microscópicas que transportam ativos.
Síntese
Organizar os cosméticos num serviço de estética e bem-estar é um trabalho com cinco etapas ligadas. Primeiro, conhecer e classificar o produto: um cosmético atua só nas partes externas do corpo, tem uma função (para que serve na rotina) e uma ação (o que faz na pele), e distingue-se de medicamentos e dispositivos. Depois, ler a sua composição e a sua documentação: veículo, ativos e aditivos, lista INCI em ordem decrescente, testes, selos de natural, orgânico e vegano, e a informação obrigatória do rótulo (responsável, lote, validade ou PAO, precauções) com a ficha técnica e o dossiê do produto. Em terceiro lugar, perceber como o ativo chega à pele: vias intercelular, intracelular e dos apêndices, promotores químicos, vesículas coloidais e métodos físicos (fonoforese, iontoforese, eletroporação, microagulhamento superficial), sempre com as contraindicações. Em quarto, selecionar, planear e aconselhar: termogénicos, ativos específicos e peelings químicos (classificados por profundidade, com pH e concentração, e apenas os superficiais em estética), protocolo com função, ação e sequência, riscos avaliados e aconselhamento honesto para os cuidados diários. Por fim, armazenar, conservar e controlar: estabilidade, calor, luz, ar, humidade e contaminação como inimigos, PAO e data de durabilidade, FEFO, ponto de encomenda, quarentena, e tudo isto dentro das normas de qualidade e da legislação em vigor, com ética e segurança no trabalho. Quem domina esta cadeia escolhe melhor, aplica com segurança, poupa produto e protege a cliente.
Exercícios resolvidos
1. Uma cliente diz que um creme "cura a dermatite". Qual é o problema?
Resolução: o produto estaria a prometer tratar uma doença, o que sai da definição de cosmético (que limpa, protege, mantém em bom estado, modifica o aspeto). Uma alegação deste tipo só cabe a medicamentos. O profissional não repete a promessa e remete a cliente para o médico se existir dermatite.
2. Classifica um sérum com ácido hialurónico quanto à função e à ação.
Resolução: função: tratar/hidratar (ativo de hidratação). Ação: humectante, porque o ácido hialurónico atrai e retém água no estrato córneo.
3. Numa lista INCI a ordem é Aqua, Glycerin, Cetearyl Alcohol, Niacinamide, Phenoxyethanol, Parfum. Que tipo de produto é e o que se pode concluir sobre a perfumação?
Resolução: Aqua em primeiro lugar e um álcool gordo indicam uma emulsão aquosa (O/A), provavelmente um creme ou loção hidratante; a glicerina é humectante; a niacinamida é ativo de regulação da barreira e do sebo; o fenoxietanol é conservante. Tem Parfum, logo não é indicado para uma cliente alérgica a perfumes.
4. Um frasco tem o símbolo de frasco aberto com "6M", aberto a 10 de setembro de 2026. Qual é a data limite de utilização?
Resolução: 6 meses após 10 de setembro de 2026 é 10 de março de 2027.
5. Uma ampola de 2 mL é usada em cada sessão. Uma caixa tem 10 ampolas e custa 45 €. Qual o custo do produto por sessão e quantos mililitros se gastam em 10 sessões?
Resolução: custo por sessão = 45 ÷ 10 = 4,50 €; mililitros = 10 × 2 = 20 mL.
6. Um ativo aniónico (carga negativa) vai ser aplicado por iontoforese. Sob que polo se coloca?
Resolução: sob o polo negativo (cátodo), porque cargas iguais se repelem e o ativo é "empurrado" para dentro da pele.
7. Calcula a fração livre de um ácido com pKa 3,83 numa solução a pH 3,83.
Resolução: pH − pKa = 0; 10^0 = 1; fração livre = 1 ÷ (1 + 1) = 50%. Quando o pH é igual ao pKa, metade do ácido está na forma livre.
8. Um peeling superficial é recusado a uma cliente que toma isotretinoína por via oral. Está certa a decisão?
Resolução: sim. A medicação fragiliza a pele e aumenta o risco de irritação e de lesão. Só se aplicaria com indicação do médico, em geral muito depois de terminar o tratamento. Regista-se a decisão na ficha.
9. O gabinete gasta 2 frascos de gel de limpeza por semana. O fornecedor entrega em 7 dias e o gabinete quer 3 frascos de segurança. Qual o ponto de encomenda?
Resolução: consumo por dia (semana de 7 dias): 2 ÷ 7 ≈ 0,29 frascos/dia; durante 7 dias: 2 frascos; mais a segurança de 3: 5 frascos. Encomenda-se quando restarem 5.
10. Porque se aplica FEFO e não FIFO aos cosméticos?
Resolução: porque dois produtos entrados em datas diferentes podem ter validades diferentes; o que entrou depois pode caducar primeiro. O FEFO garante que sai primeiro o que caduca primeiro e reduz o desperdício.
11. Uma máscara de pestanas foi aberta há 8 meses e tem PAO de 6M. Podes usá-la numa cliente?
Resolução: não. O prazo depois de aberto terminou há 2 meses. Em produtos da zona dos olhos, o risco de infeção justifica descartar. Substitui-se por uma máscara de pestanas nova e usa-se um aplicador descartável individual.
12. Antes de microagulhamento superficial, a cliente pede para aplicares o seu creme perfumado de casa. Aceitas?
Resolução: não. Os microcanais aumentam a absorção; o creme perfumado pode irritar ou sensibilizar. Aplicam-se apenas formulações próprias para este uso (sem perfume, sem corantes, de baixa carga microbiana), em dose única, como o fabricante indica.