Partilhar: Classroom Teams WhatsApp
aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC00842

Organizar os cosméticos no serviço de estética e bem-estar (UC00842)

Classificação, composição, rotulagem, penetração, peelings, protocolos, aconselhamento, armazenamento e legislação dos produtos cosméticos
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Massagem de Estética e Bem-Estar ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Esta sebenta ensina a organizar os cosméticos no serviço de estética e bem-estar: saber o que cada produto é, para que serve, de que é feito, como se lê o seu rótulo, como atravessa (ou não) a pele, quando se usa em gabinete e quando se aconselha para casa, como se arruma, como se conserva e que regras legais e de qualidade o enquadram. Quem trabalha num gabinete de estética, num spa, num hotel ou num serviço ao domicílio passa o dia a escolher, abrir, aplicar, guardar e repor cosméticos. Escolher mal custa dinheiro; guardar mal estraga o produto; aplicar mal pode magoar a cliente.

O percurso segue o raciocínio do profissional. Primeiro, conhecer o produto: tipos, funções, ações, componentes, matérias-primas, testes e as famílias ecológica, orgânica, vegana e inovadora. Depois, interpretar a informação que o acompanha: rotulagem, lista de ingredientes, ficha técnica, documentação. A seguir, perceber como o produto chega ao destino: vias de penetração, promotores químicos, vesículas coloidais e os métodos físicos que facilitam a entrada de ativos (eletroterapia e microagulhamento). Seguem-se as famílias de produtos de gabinete (termogénicos, peelings químicos, ativos específicos, maquilhagem), o planeamento do protocolo e o aconselhamento cosmético, e, por fim, a conservação, o stock, as normas de qualidade e a legislação.

Realizações do referencial que esta sebenta cobre: classificar os cosméticos segundo a sua função e ação; selecionar e planear intervenções cosméticas para equilíbrio da pele e anexos; organizar os cosméticos de acordo com o protocolo a aplicar; realizar o aconselhamento cosmético; e determinar as boas condições de armazenamento e conservação dos produtos cosméticos.

Como estudar. Cada capítulo tem tabelas para consulta rápida, pelo menos um exemplo resolvido passo a passo e, no fim do manual, uma lista de erros comuns, um glossário, uma síntese e exercícios resolvidos. Faz primeiro o exemplo sozinho, tapando a resolução, e só depois confere. As fichas de trabalho e o mini-projeto aplicam a matéria a situações novas.

Uma nota sobre limites profissionais. A seleção e a organização dos cosméticos nos serviços de tratamentos de beleza e bem-estar fazem-se de acordo com as normas e a legislação em vigor e com o parecer da Ordem dos Médicos. Isto significa que há técnicas, substâncias e profundidades de ação que pertencem ao ato médico e que o técnico de estética não deve executar. Sempre que um valor, um limite ou uma concentração aparece nesta sebenta como referência, o profissional confirma-o no rótulo, na ficha técnica do fabricante e no diploma aplicável, na redação em vigor.

1. O produto cosmético: tipos, características, funções e ações

O que é um produto cosmético

No quadro europeu, um produto cosmético é qualquer substância ou mistura destinada a ser posta em contacto com as partes externas do corpo humano (epiderme, sistema piloso e capilar, unhas, lábios e órgãos genitais externos) ou com os dentes e as mucosas bucais, com a finalidade exclusiva ou principal de os limpar, perfumar, modificar o seu aspeto, protegê-los, mantê-los em bom estado ou corrigir odores corporais. A definição está no Regulamento (CE) n.º 1223/2009 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 30 de novembro de 2009, relativo aos produtos cosméticos, aplicável em todos os Estados-Membros, incluindo Portugal.

Três palavras da definição merecem atenção. Partes externas significa que o cosmético não é injetado, ingerido nem introduzido no organismo para atuar lá dentro. Finalidade exclusiva ou principal significa que a intenção do produto conta: um creme que se anuncia como tratamento de uma doença deixa de ser cosmético. E proteger, manter em bom estado, corrigir são verbos de manutenção e melhoria do aspeto, não de cura.

Cosmético, medicamento, dispositivo médico e suplemento

A confusão entre estas categorias é a origem de muitos erros em gabinete. A tabela resume as fronteiras.

Categoria Para que serve Onde atua Exemplo Quem regula (em Portugal)
Cosmético limpar, proteger, perfumar, modificar o aspeto, manter em bom estado superfície do corpo (epiderme, pelos, unhas, lábios) creme hidratante, sérum, máscara, batom INFARMED, no quadro do regulamento europeu
Medicamento tratar ou prevenir doenças, restaurar funções pode atuar no organismo todo pomada com corticoide, antifúngico INFARMED, com regime próprio
Dispositivo médico finalidade médica, sem ação principal farmacológica depende do dispositivo alguns pensos, certos géis médicos INFARMED, com regime próprio
Suplemento alimentar complementar a alimentação ingerido cápsulas de colagénio autoridades de segurança alimentar

Regra prática: se a embalagem ou o discurso prometem tratar acne grave, curar dermatite, eliminar celulite por ação metabólica ou outra promessa de doença, o produto está a sair da sua categoria. O técnico de estética trabalha com cosméticos e não promete o que um cosmético não pode cumprir.

Características de um bom cosmético

Um cosmético que se usa em gabinete e se aconselha para casa deve ser:

Tipos de produtos e formas de apresentação

Os cosméticos distinguem-se pela forma galénica (a "construção" física do produto) e pelo modo de uso. Conhecer a forma ajuda a prever a ação: uma emulsão leve hidrata sem pesar, um óleo isola, um gel refresca, uma máscara de argila absorve.

Forma Constituição resumida Sensação e uso típico
Emulsão óleo-em-água (O/A) gotículas de óleo dispersas em fase aquosa leve, não gordurosa; hidratantes diários, loções, leites de limpeza
Emulsão água-em-óleo (A/O) gotículas de água dispersas em fase oleosa rica, oclusiva; cremes nutritivos, cold creams, proteção contra o frio
Gel fase aquosa gelificada, por vezes sem óleos fresco, transparente; peles oleosas, pós-sol, géis de contacto para aparelhos
Sérum solução ou gel fluido com concentração alta de ativos aplica-se antes do creme; ação específica
Ampola dose única de concentrado, em geral para gabinete ou cura ação intensiva, durante um número de dias ou sessões
Loção / tónico solução aquosa ou hidroalcoólica prepara a pele, repõe o pH, retira resíduos
Óleo mistura de lípidos (óleos vegetais, ésteres) nutrição, massagem, desmaquilhagem
Máscara creme, argila, gel, folha ou pó para diluir ação de gabinete, de poucos minutos a meia hora
Pó partículas secas (talco, mica, amidos) fixação, cobertura, maquilhagem mineral
Esfoliante grânulos, enzimas ou ácidos em veículo renovação da superfície
Stick / bálsamo ceras e óleos sólidos lábios, zonas localizadas

Funções e ações: a diferença que o referencial exige

O referencial pede para classificar os cosméticos segundo a função e segundo a ação. São duas perguntas diferentes:

Um mesmo produto pode ter uma função e várias ações. Um creme hidratante tem a função de "hidratar", e as suas ações são humectante (atrai água), emoliente (alisa) e oclusiva (retém).

Exemplo resolvido · Classificar três produtos pela função e pela ação

Uma cliente deixa em cima da marquesa três produtos que usa em casa. Classifica cada um.

  1. Leite de limpeza em emulsão O/A, com extrato de camomila. Função: limpar. Ações: emulsionar e dissolver a sujidade e a maquilhagem (tensioativa suave), calmar (camomila).
  2. Sérum com ácido hialurónico e niacinamida. Função: tratar (hidratação profunda e uniformização). Ações: humectante (ácido hialurónico), reguladora da barreira e da pigmentação (niacinamida).
  3. Creme de rosto fator de proteção solar 50. Função: proteger. Ação: absorver e/ou refletir a radiação UV, diminuindo o dano solar.

Passos para classificar sempre: (1) ler a designação do produto e a lista de ingredientes; (2) dizer a função numa palavra; (3) identificar os ingredientes que justificam a ação; (4) conferir se a promessa do rótulo é compatível com a categoria cosmética.

Quadro de preparações por zona do corpo

O referencial refere preparações para o rosto, o corpo, as unhas e os pelos. A tabela resume o que se encontra em cada zona e o que se procura.

Zona Funções mais frequentes Exemplos de produtos Cuidados específicos
Rosto limpar, tonificar, esfoliar, hidratar, proteger, tratar leite, gel de limpeza, tónico, sérum, máscara, creme de dia e de noite, contorno de olhos pele mais fina e reativa; atenção a zona dos olhos e mucosas
Corpo hidratar, nutrir, esfoliar, modelar, relaxar creme corporal, óleo de massagem, esfoliante, creme refirmante áreas extensas, maior quantidade de produto por sessão
Unhas proteger, fortalecer, hidratar, embelezar óleo de cutículas, endurecedores, verniz, gel de unhas alergias de contacto a resinas; ventilação
Pelos depilar, acalmar, retardar o crescimento, prevenir pelos encravados cera quente ou fria, creme depilatório, loção pós-depilação pele irritada após a depilação, sem exposição solar imediata

2. Classificação dos cosméticos por função e ação: organizar o gabinete

Porque se classifica

Classificar não é um exercício escolar. É a base para organizar o espaço, os protocolos e o stock. Um gabinete com trinta produtos misturados numa gaveta perde tempo, corre o risco de usar produtos fora de prazo e aplica fora de sequência. Um gabinete organizado por função e por fase do protocolo encontra o que precisa em segundos.

Os critérios de classificação mais úteis

Critério Categorias Utilidade no gabinete
Função limpeza, tonificação, esfoliação, tratamento, hidratação/nutrição, proteção, maquilhagem ordena o protocolo
Ação hidratante, queratolítica, despigmentante, drenante, refirmante, calmante, sebo-reguladora, rubefaciente liga o produto ao objetivo do tratamento
Zona rosto, corpo, mãos e pés, unhas, pelos arruma prateleiras e carrinhos
Tipo de pele ou disfunção seca, oleosa, mista, sensível, desidratada, acneica, com manchas, fotoenvelhecida, celulite, flacidez seleciona produtos para a cliente
Local de uso gabinete (profissional) ou casa (retalho) separa stock de consumo e de venda
Momento do dia dia, noite aconselhamento para casa
Forma galénica emulsão, gel, óleo, pó, ampola armazenamento e manuseamento

Pele e anexos: o alvo dos cosméticos

O referencial fala de equilíbrio da pele e dos anexos. Os anexos cutâneos são as estruturas associadas à pele: folículos pilossebáceos (pelo mais glândula sebácea), glândulas sudoríparas e unhas. Um cosmético pode atuar:

Os cosméticos não são feitos para atuar na derme profunda nem para modificar a estrutura da pele de forma permanente. Quando uma técnica o pretende, está a sair do campo cosmético.

Tipos de pele e o que escolher

Tipo de pele Como se reconhece Função prioritária Ações e ativos habituais O que evitar
Normal equilibrada, sem brilho nem repuxar manter hidratação leve, proteção solar excesso de produtos
Seca repuxa, descama, falta de lípidos nutrir emolientes, ceramidas, manteigas, óleos detergentes agressivos, água muito quente
Desidratada falta de água, qualquer pele pode estar hidratar humectantes (glicerina, ácido hialurónico) álcool em excesso, esfoliação forte
Oleosa brilho, poros dilatados, sebo em excesso regular o sebo niacinamida, zinco, argila, ácido salicílico óleos pesados, oclusivos
Mista zona T oleosa, bochechas normais ou secas equilibrar por zonas duas texturas tratar o rosto todo da mesma forma
Sensível ardor, vermelhidão, reatividade acalmar e proteger pantenol, alantoína, bisabolol, poucos ingredientes perfume, álcool, ácidos fortes
Acneica comedões, pápulas, sebo purificar salicílico, azelaico, niacinamida produtos comedogénicos
Madura rugas, perda de firmeza rejuvenescer, hidratar retinoides permitidos, peptídeos, antioxidantes exposição solar sem filtro

Como organizar o produto no gabinete

A organização de um gabinete de estética pode seguir três princípios simultâneos.

  1. Por função e sequência de protocolo. Os produtos de limpeza juntos, depois os de tonificação, esfoliação, ativos e máscaras, e por fim os de hidratação e proteção. O carrinho de apoio reproduz a ordem em que se usam.
  2. Por zona e por tipo de serviço. Um carrinho de rosto, outro de corpo, outro de depilação, outro de unhas. Cada um com as suas ferramentas, descartáveis e produtos de uso corrente.
  3. Por estado e validade. À frente, os produtos fechados que caducam primeiro, qualquer que tenha sido a data de entrada (regra FEFO, ver o capítulo 11), e à parte os produtos em uso, marcados com a data de abertura.

Exemplo resolvido · Arrumar uma prateleira de ativos de gabinete

O gabinete tem estes produtos: ampola de vitamina C, máscara de argila, gel de limpeza, tónico calmante, creme de proteção solar, ampola de ácido hialurónico, esfoliante enzimático, creme de noite. Organiza-os para um protocolo facial de hidratação.

  1. Fase de limpeza: gel de limpeza e tónico calmante.
  2. Fase de preparação: esfoliante enzimático (só se a pele aguentar; numa pele sensível, dispensa-se).
  3. Fase de tratamento: ampola de ácido hialurónico (hidratação) e ampola de vitamina C. Escolhe-se uma por sessão ou conforme o fabricante.
  4. Fase de máscara: a máscara de argila não é adequada a um protocolo de hidratação numa pele seca; fica de fora, porque absorve e seca.
  5. Fase de fecho: creme de noite, ou creme de proteção solar se o tratamento for de dia.

Resultado: para este protocolo, a prateleira fica dividida em quatro zonas (limpeza e preparação, tratamento, fecho e, à parte, a zona dos tratamentos de pele oleosa, onde fica a máscara de argila). A arrumação passa a refletir a lógica clínica.

3. Componentes, matérias-primas, testes e produtos ecológicos, orgânicos, veganos e inovadores

A estrutura de uma fórmula cosmética

Quase todos os cosméticos têm a mesma arquitetura: um veículo (ou excipiente), que transporta, mais ativos, que cumprem a promessa do produto, mais aditivos, que tornam a fórmula estável, agradável e segura. Abrir um frasco é, na prática, abrir uma pequena construção química equilibrada.

Grupo Função na fórmula Exemplos (nome comum)
Veículo / solvente dissolver e transportar água, glicerina, propilenoglicol, álcool
Fase oleosa emoliência, oclusão, textura óleos vegetais, manteigas, ésteres, silicones
Emulsionantes juntar óleo e água de forma estável álcool cetearílico com emulsionante, lecitina
Tensioativos limpar, espumar lauril sulfato (e alternativas mais suaves), betaínas
Humectantes atrair e reter água glicerina, ácido hialurónico, ureia, pantenol
Texturizantes / espessantes dar corpo gomas (xantano), carbómeros, ceras
Conservantes impedir micro-organismos os da lista positiva europeia (anexo V do regulamento)
Antioxidantes impedir ranço e oxidação vitamina E, ascorbato
Reguladores de pH ajustar a acidez ácido cítrico, hidróxido de sódio, tampões
Corantes cor os da lista positiva (anexo IV) e pigmentos
Perfume / aromas cheiro misturas aromáticas, óleos essenciais
Filtros UV proteger do sol os da lista positiva (anexo VI)
Ativos ação específica retinoides, vitamina C, ácidos, peptídeos, extratos

Matérias-primas: de onde vêm

As matérias-primas são as substâncias que entram na fabricação. Segundo a origem, dividem-se em:

"Natural" e "sintético" não equivalem a "bom" e "mau". Há extratos vegetais fortemente alergénicos e há moléculas sintéticas muito bem toleradas. O que conta é a segurança demonstrada para a concentração e o uso previstos.

Aptidão: identificar componentes e a sua função

O rótulo traz a lista de ingredientes; a aptidão é transformar cada nome numa função. Um truque útil é saber reconhecer terminações frequentes: -ol (álcoois, como cetearyl alcohol), -ate (ésteres, como isopropyl myristate), -cone ou -siloxane (silicones), -paraben (parabenos), -glycol (glicóis), Sodium... (sais e tensioativos), Parfum (perfume), CI + número (corantes).

Exemplo resolvido · Ler uma fórmula pela ordem

Considera a lista de ingredientes de um creme hipotético, tal como aparece no rótulo:

Aqua, Glycerin, Caprylic/Capric Triglyceride, Cetearyl Alcohol, Butyrospermum Parkii Butter, Niacinamide, Panthenol, Tocopherol, Phenoxyethanol, Xanthan Gum, Parfum, Limonene.

Passos:

  1. A lista segue a ordem decrescente de concentração (acima de 1%). Aqua é o primeiro: a fórmula é uma emulsão com muita água (provavelmente O/A).
  2. Humectante: Glycerin em segundo lugar, logo com concentração significativa.
  3. Fase oleosa e emoliente: Caprylic/Capric Triglyceride e Butyrospermum Parkii Butter (manteiga de karité).
  4. Emulsionante/consistência: Cetearyl Alcohol (álcool gordo, dá corpo), com ajuda de Xanthan Gum (espessante).
  5. Ativos: Niacinamide (regula sebo e barreira) e Panthenol (calmante, hidratante).
  6. Antioxidante: Tocopherol (vitamina E).
  7. Conservante: Phenoxyethanol.
  8. Perfume e alergénio declarado: Parfum e Limonene (um dos alergénios de fragrância que o regulamento manda declarar quando ultrapassa certos limiares).

Conclusão: creme hidratante e calmante, rico, adequado a peles secas a normais. Para uma cliente com alergia conhecida a perfumes, não se aconselha, mesmo que o resto seja benigno.

Testes que um cosmético sofre

Antes de chegar ao mercado, um cosmético passa por vários tipos de ensaios, cada um a responder a uma pergunta diferente.

Teste Pergunta que responde Nota
Estabilidade o produto mantém-se igual durante o prazo de validade? testes de temperatura, luz, tempo
Compatibilidade com a embalagem a embalagem altera o produto? interação, migração
Eficácia antimicrobiana (challenge test) o sistema conservante protege? referência em normas ISO
Teste de segurança / irritação é seguro e tolerado? incluem ensaios em voluntários humanos, em condições controladas
Teste dermatológico tolerância cutânea sob controlo dermatológico não garante ausência de alergia individual
Teste oftalmológico tolerância ocular produtos para zona dos olhos
Teste de eficácia o efeito anunciado verifica-se? medições instrumentais, avaliação por utilizadores
Teste de fator de proteção solar quanto protege do UV? método normalizado

A expressão "dermatologicamente testado" quer dizer que houve testes, não que o produto serve a todas as peles. A União Europeia proíbe ensaios em animais de produtos acabados e de ingredientes cosméticos, e proíbe a comercialização de cosméticos com ingredientes testados em animais para fins cosméticos.

Produtos ecológicos, orgânicos, veganos e inovadores

Família O que significa O que não significa
Natural usa ingredientes de origem natural; definição variável não é uma garantia legal por si só
Orgânico / biológico ingredientes agrícolas de agricultura biológica, certificados por entidades privadas (por exemplo COSMOS, Ecocert, NATRUE) a palavra "bio" sozinha no rótulo não certifica
Ecológico pouco impacto ambiental na origem, no fabrico e na embalagem nem sempre é orgânico
Vegano sem ingredientes de origem animal; certificações como as das associações veganas não implica "natural" nem "sem testes em animais" por si só
Cruelty free não testado em animais selo de organização, pode variar de critério
Inovador tecnologias recentes: ativos biotecnológicos, encapsulação, microbioma, ativos de cultura celular novidade não significa melhor eficácia

Perante um selo, o profissional pergunta: quem certifica?, para quê? (ingredientes, processo, embalagem?) e o que garante?. O mesmo vale para as alegações "sem parabenos", "sem sulfatos" ou "livre de": são alegações sobre ausência de substâncias e têm de ser verdadeiras e comprovadas, mas dizem pouco sobre a qualidade global.

A norma ISO 16128 define critérios para calcular índices de ingredientes naturais e de origem natural nos cosméticos, o que ajuda a comparar produtos que se dizem naturais.

Exemplo resolvido · Avaliar uma alegação

Um fornecedor oferece um creme "100% natural, orgânico e vegano". O que perguntas antes de o integrares no gabinete?

  1. Natural: qual é o critério? Consultar a lista de ingredientes e verificar se há conservantes, silicones ou emulsionantes de síntese.
  2. Orgânico: há certificação? De que entidade, e abrange o produto final ou só um ingrediente?
  3. Vegano: há certificação, ou apenas uma declaração? Procurar derivados animais na lista (Beeswax, Lanolin, Carmine, Collagen, Keratin).
  4. "100%": uma emulsão tem sempre de ter conservante; se não há, o produto ou tem uma validade muito curta ou é suspeito.
  5. Segurança: o produto tem pessoa responsável identificada e está notificado? Nome e morada no rótulo.

Se as respostas não fecham, o produto pode ser bom, mas a alegação não está provada.

4. Rotulagem e documentação técnica dos produtos cosméticos

Porque o rótulo é uma ferramenta de trabalho

Quem organiza cosméticos tem de saber ler a embalagem. O rótulo diz quem é o responsável pelo produto, o que contém, como se usa, que cuidados exigir e até quando é válido. É também a primeira defesa em caso de reação adversa: o lote e o responsável permitem rastrear o produto e comunicar o problema.

Informação obrigatória

O regulamento europeu dos produtos cosméticos (Regulamento (CE) n.º 1223/2009, no capítulo da rotulagem, artigo 19.º) determina a informação que tem de constar na embalagem. Em Portugal, a informação obrigatória deve estar em português. Os itens essenciais, que o profissional deve saber localizar, são:

Item O que é Onde se procura Para que serve ao profissional
Nome e morada da pessoa responsável quem responde legalmente pelo produto embalagem exterior e interior contactar em caso de problema
País de origem para produtos importados embalagem rastreabilidade
Conteúdo nominal peso ou volume embalagem calcular custo por tratamento
Data de durabilidade mínima "utilizar de preferência antes de" (símbolo de ampulheta) embalagem produtos com validade até 30 meses
PAO (período após abertura) símbolo de frasco aberto com número de meses embalagem produtos de validade longa, depois de abertos
Precauções de utilização avisos, modo de uso embalagem ou folheto segurança
Número de lote identifica a produção embalagem rastreio e retirada
Função do produto para que serve, se não for evidente embalagem confirmar categoria
Lista de ingredientes (INCI) todos os componentes embalagem exterior alergias, composição

A lista de ingredientes e a nomenclatura INCI

A lista de ingredientes usa a nomenclatura INCI (International Nomenclature of Cosmetic Ingredients), uma linguagem comum a todos os países, por isso um creme português e um coreano têm os ingredientes com o mesmo nome. Regras de leitura:

Símbolos mais frequentes

Símbolo Significado
Frasco aberto com número e "M" (por exemplo 12M) PAO: meses de uso depois de aberto
Ampulheta data de durabilidade mínima
Livro aberto com mão consultar folheto ou instruções
Ponto verde, símbolo de reciclagem informação ambiental, não de segurança
Círculo com sol ou número de SPF proteção solar, segundo método normalizado
Letra "e" indicação da quantidade média (para pré-embalados), conforme regras de metrologia

Documentação técnica

Para além do rótulo, existe a documentação técnica que acompanha cada produto ao longo da cadeia. O profissional precisa de saber o nome e a utilidade de cada documento, mesmo que não os produza.

Documento Quem o tem ou fornece Para que serve
Ficha técnica do produto fornecedor / marca descreve composição, modo de uso, cuidados, validade, armazenamento
Ficha de dados de segurança (FDS) para produtos de uso profissional com substâncias perigosas, quando aplicável riscos e primeiros socorros
Dossiê de informação do produto (PIF) pessoa responsável reúne a descrição do produto, a avaliação de segurança, as boas práticas de fabrico e as provas dos efeitos alegados, e fica disponível para as autoridades
Relatório de segurança pessoa responsável, assinado por pessoa qualificada conclusão sobre a segurança do produto
Notificação no portal europeu CPNP pessoa responsável, antes de colocar o produto no mercado permite às autoridades e aos centros antivenenos conhecer o produto (artigo 13.º do regulamento)
Fatura e guia de remessa fornecedor prova de origem e de lote
Bula em produtos de uso profissional, quando o fabricante a fornece modo de uso e contraindicações

O gabinete deve arquivar as fichas técnicas e a documentação dos produtos que usa, ordenadas por marca ou por categoria, em suporte físico ou digital, e ter a informação à mão quando uma cliente perguntar ou quando houver uma inspeção.

A entidade competente

Em Portugal, a autoridade nacional competente para os produtos cosméticos é o INFARMED. O regime nacional de execução do regulamento europeu consta de decreto-lei publicado em 2025 (Decreto-Lei n.º 23/2025, de 19 de março), que atribui ao INFARMED a fiscalização do mercado e define o regime sancionatório. As reações adversas graves a produtos cosméticos são comunicadas através dos canais de cosmetovigilância indicados pela autoridade. Em caso de dúvida sobre procedimentos, o profissional consulta o sítio do INFARMED e o diploma na redação em vigor.

Exemplo resolvido · Verificar se uma embalagem está em condições de ser usada

Chega ao gabinete um frasco de sérum de uma marca desconhecida, sem folheto. Verifica o rótulo.

  1. Responsável: aparece "Fabricado na China", sem nome nem morada de pessoa responsável na União Europeia. Falha.
  2. Lote: não existe número de lote. Falha.
  3. Lista INCI: está em inglês e português, mas incompleta, sem Aqua nem conservante. Suspeito.
  4. Validade: sem ampulheta nem PAO. Falha.
  5. Precauções: sem texto.

Decisão: não usar nem vender. Não é possível rastrear o produto nem saber a sua segurança. Regista-se a ocorrência, guarda-se o frasco à parte (identificado como não conforme) e informa-se o fornecedor. Se houver suspeita de que o produto está em circulação, comunica-se à autoridade competente.

Exemplo resolvido · Calcular o custo por tratamento a partir do conteúdo nominal

Um creme de massagem vem em frasco de 500 mL a 42,00 €. Cada massagem corporal gasta, em média, 12 mL.

  1. Número de massagens por frasco: 500 ÷ 12 = 41,67; contam-se 41 massagens completas.
  2. Custo por massagem: 42,00 ÷ 41 ≈ 1,02 €.
  3. Se o frasco tiver PAO de 12 meses, para gastar as 41 massagens o gabinete precisa de fazer cerca de 3,4 por mês (41 ÷ 12 ≈ 3,42), ou seja, 4 por mês na prática: com 3 por mês gasta apenas 36 em 12 meses. Se fizer 2 por mês, gasta apenas 24 em 12 meses: o frasco é maior do que convém. Convém então comprar a embalagem de 250 mL.

Este raciocínio liga rótulo (conteúdo nominal e PAO), economia do gabinete e organização do stock.

5. Vias de penetração, promotores químicos e vesículas coloidais

A pele como barreira

Para um ativo cumprir a sua promessa tem de chegar ao local onde atua. A pele, porém, é uma barreira desenhada para impedir a entrada de substâncias. A camada mais externa, o estrato córneo, tem 10 a 20 µm de espessura e funciona como "tijolos e cimento": os corneócitos (células achatadas e mortas, os tijolos) rodeados por lípidos organizados (ceramidas, colesterol e ácidos gordos livres, o cimento). Por baixo está a epiderme viável, com os queratinócitos e os melanócitos, e depois a derme, onde estão os vasos, as fibras de colagénio e elastina, e as terminações nervosas.

Um cosmético atua tipicamente no estrato córneo e na epiderme. Se uma substância chegasse à circulação em quantidades relevantes, deixava de ser um cosmético (passaria a ser medicamento ou dispositivo, com regras próprias).

As vias de penetração

O referencial pede dois grandes caminhos: a via transepidérmica (que se subdivide em intercelular e intracelular) e a via dos apêndices (folículo pilossebáceo e poros).

Via Por onde passa Que moléculas favorece Peso na penetração total
Transepidérmica intercelular pelos lípidos entre os corneócitos moléculas lipofílicas, de tamanho moderado; é a via principal maior
Transepidérmica intracelular (transcelular) atravessa corneócitos e lípidos alternadamente moléculas pequenas e com equilíbrio entre afinidade pela água e pelos lípidos menor, caminho mais longo e mais "difícil"
Apêndices: folículo pilossebáceo pelos canais do pelo e da glândula sebácea partículas e vesículas, compostos que se dissolvem no sebo pequena em área (cerca de 0,1% da superfície), mas relevante para partículas
Apêndices: poros sudoríparos pelos canais das glândulas sudoríparas moléculas muito pequenas ou iónicas muito reduzida

Pontos a reter: a via intercelular é a principal para moléculas comuns; a via folicular ganha importância para nanopartículas, vesículas e produtos aplicados com métodos físicos.

O que influencia a penetração

Três grupos de fatores determinam se um ativo atravessa a barreira.

  1. Propriedades da molécula: tamanho (a regra prática diz que moléculas acima de cerca de 500 dalton penetram mal o estrato córneo), afinidade para lípidos e água (o equilíbrio é melhor que os extremos), carga elétrica e forma neutra ou ionizada (as formas não ionizadas penetram melhor).
  2. Propriedades do veículo: o veículo pode favorecer ou dificultar a libertação do ativo. O mesmo ativo numa emulsão, num gel ou num óleo penetra de forma diferente.
  3. Propriedades da pele: zona do corpo (a pálpebra é fina, a planta do pé é espessa), hidratação, idade, integridade da barreira, temperatura.

Uma ideia útil vem da lei de Fick: o fluxo de um ativo através da pele é maior quando há gradiente de concentração elevado, boa afinidade com o estrato córneo e barreira fina. Daqui se retira o princípio prático: não se compensa um ativo mal formulado com mais produto, melhora-se o veículo, a preparação da pele ou o método de entrega.

Promotores químicos de penetração

Os promotores químicos (também chamados facilitadores ou enhancers) são substâncias que, adicionadas ao veículo, aumentam temporária e reversivelmente a permeabilidade do estrato córneo. Atuam por um ou mais mecanismos: fluidificar os lípidos intercelulares, extrair lípidos, hidratar o estrato córneo, aumentar a solubilidade do ativo no veículo ou dissolver parcialmente a queratina.

Promotor Mecanismo principal Observação
Água (hidratação, oclusão) incha o estrato córneo o mais simples e seguro: pele hidratada deixa passar mais
Propilenoglicol, glicóis solvente, altera a organização lipídica pode irritar peles sensíveis
Etanol extrai lípidos, aumenta solubilidade seca a pele em concentrações altas
Ácidos gordos (oleico) fluidificam os lípidos podem irritar
Terpenos (mentol, limoneno) desorganizam os lípidos alergénio potencial
Ureia hidrata e queratolítica suave boa tolerância
Tensioativos solubilizam lípidos usar com cuidado, risco de irritação
Ácidos de esfoliação removem corneócitos ver capítulo dos peelings

Todo o promotor é um compromisso: quanto mais facilita a entrada, maior o risco de irritação e de absorção de substâncias indesejadas. Por isso, a concentração permitida e a segurança do conjunto são avaliadas pelo responsável do produto.

Vesículas coloidais transportadoras de ativos

Um ativo pode ser "embalado" em estruturas microscópicas que o protegem e o libertam de forma controlada. São as vesículas coloidais: pequenas esferas formadas por uma ou mais camadas de lípidos, com um núcleo aquoso ou oleoso.

Sistema Constituição Característica Para que serve
Lipossomas bicamada de fosfolípidos, com núcleo aquoso biocompatíveis, transportam ativos hidrossolúveis e lipossolúveis hidratação, antioxidantes, vitaminas
Niossomas bicamada de tensioativos não iónicos mais estáveis e de custo menor ativos de hidratação e anti-envelhecimento
Transferossomas / etossomas vesículas flexíveis, com etanol (etossomas) ou ativadores de borda passam melhor por canais estreitos ativos que precisam de ir mais fundo
Nanopartículas lipídicas sólidas núcleo lipídico sólido libertação prolongada ativos sensíveis (retinol)
Microesferas esferas maiores com ativo no interior libertação lenta, proteção vitaminas, ativos sensíveis à luz

As vantagens das vesículas são proteger o ativo da oxidação, aumentar a retenção na pele, libertar de forma gradual e, por vezes, reduzir a irritação. Os limites: custo, estabilidade da própria vesícula, e a necessidade de avaliação de segurança, sobretudo se forem nanomateriais, que têm regras e rotulagem especiais.

Exemplo resolvido · Escolher o veículo para um ativo hidrossolúvel

Pretende-se aplicar vitamina C (ácido ascórbico) numa cliente com pele fotoenvelhecida. O ativo é hidrossolúvel, muito sensível à oxidação.

  1. Problema: o ácido ascórbico oxida facilmente com a luz e o ar, perde ação e escurece.
  2. Veículo: sérum aquoso, de pH ácido, em embalagem opaca e com bomba doseadora (sem ar nem luz).
  3. Promotor/facilitador: a pele, previamente hidratada e esfoliada com suavidade, absorve melhor.
  4. Vesícula: um sérum com vitamina C encapsulada em lipossomas ou microesferas ganha em estabilidade e em tolerância.
  5. Armazenamento: frasco bem fechado, ao abrigo da luz e, se o fabricante o recomendar, no frio.

Resultado: o frasco escolhido é o opaco, com bomba, encapsulado, e os procedimentos do gabinete incluem fechar logo o frasco e anotar a data de abertura.

6. Facilitar a penetração por meios físicos: eletroterapia e microagulhamento

Selecionar métodos facilitadores

A aptidão do referencial é selecionar métodos facilitadores da penetração de substâncias ativas. Selecionar é decidir, em função do ativo, da zona, da pele e do equipamento disponível, se se usa um método físico e qual. Muitas vezes a resposta é "nenhum": o cosmético, bem formulado e aplicado com massagem sobre uma pele bem preparada, basta.

Os métodos físicos que o referencial considera são a eletroterapia facilitadora (fonoforese, iontoforese e eletroporação) e o microagulhamento superficial.

Fonoforese

A fonoforese usa ultrassons para facilitar a entrada de ativos. As ondas de pressão do ultrassom fluidificam os lípidos do estrato córneo (por vibração e por efeito de cavitação) e promovem o movimento do ativo. Usa-se um gel de contacto que também veicula o ativo.

Aspeto Informação
Frequências 1 MHz (ação mais profunda) e 3 MHz (mais superficial); para cosmética facial utiliza-se a frequência superficial, segundo o aparelho
Modo contínuo ou pulsado; o pulsado reduz o aquecimento
Técnica cabeça sempre em movimento, com gel, sem pressão excessiva
Ativos hidrossolúveis, em gel de contacto compatível
Precauções não parar sobre a mesma zona; não usar sobre zonas com implantes que o fabricante contraindique, nem sobre os olhos

Iontoforese

A iontoforese usa corrente galvânica (contínua, de baixa intensidade) para empurrar ativos ionizados para dentro da pele. Funciona pelo princípio de que cargas iguais se repelem: um ativo de carga negativa (aniónico) aplica-se sob o polo negativo (cátodo); um ativo de carga positiva (catiónico), sob o polo positivo (ânodo).

Aspeto Informação
Corrente contínua, de baixa intensidade; a densidade de corrente respeita o limite do fabricante do aparelho (referência habitual na ordem de décimos de miliampere por centímetro quadrado)
Elétrodos ativo (com o produto) e neutro (retorno), em contacto com a pele húmida
Ativos ionizados, em solução aquosa (ampolas próprias)
Sensação formigueiro ligeiro; ardor intenso indica problema
Efeitos a vigiar irritação sob o elétrodo, queimadura química (efeito dos polos sobre a pele), eritema
Contraindicações habituais pacemaker e dispositivos eletrónicos implantados, material metálico na zona, gravidez, lesões, sensibilidade alterada, epilepsia

Uma ideia importante: a iontoforese não é tão "universal" como parece. Só serve para substâncias que se ionizam e que estejam no pH adequado; não funciona com óleos nem com cremes sem carga.

Eletroporação

A eletroporação usa pulsos elétricos de curta duração que criam, temporariamente, poros transitórios nas membranas das células e nas bicamadas lipídicas, facilitando a passagem de moléculas maiores, inclusive hidrossolúveis, que de outra maneira dificilmente entrariam. Em estética, existem equipamentos denominados "eletroporação" ou "mesoterapia sem agulhas" com pulsos de alta voltagem e de muito curta duração, dirigidos ao estrato córneo.

Aspeto Informação
Ativos moléculas hidrossolúveis, incluindo de maior peso molecular (hialurónico, peptídeos)
Vantagem independe da carga do ativo
Precauções as mesmas da corrente elétrica: pacemaker, gravidez, implantes metálicos, lesões, zonas com alterações de sensibilidade

Comparar os três métodos

Método Energia Mecanismo Ativos adequados Cuidados
Fonoforese ultrassom fluidifica lípidos, cavitação em gel, hidrossolúveis ou lipossolúveis movimento contínuo, aquecimento
Iontoforese corrente galvânica repulsão de iões, "empurra" ionizados, aquosos polos, intensidade, queimadura química
Eletroporação pulsos elétricos curtos poros transitórios hidrossolúveis, maiores contraindicações elétricas

Microagulhamento

O microagulhamento (em inglês microneedling) consiste em criar microcanais muito pequenos na pele, com agulhas finas, para estimular a renovação e facilitar a entrada de ativos. O referencial trata-o com limites bem definidos para os tratamentos de beleza.

Contexto histórico e evolução. A ideia de estimular a pele por micro-perfurações é antiga. Instrumentos com agulhas aplicados por rolo ou caneta foram evoluindo, desde a técnica manual até aos dispositivos modernos de rolo (dermaroller) e de caneta com motor (dermapen), com agulhas descartáveis e comprimento regulável.

Especificações para os tratamentos de beleza. No contexto da estética, o referencial limita o microagulhamento a uma profundidade superficial, na epiderme não vascularizada. Isto significa que:

Instrumentos.

Instrumento Descrição Vantagens Limitações
Dermaroller cilindro com agulhas, rolado sobre a pele simples, económico pressão e ângulo variáveis, maior risco de microlesões irregulares
Dermapen caneta com motor e cartucho de agulhas descartável profundidade regulável e constante, mais precisão custo, cartuchos

Biossegurança. É a parte que não admite atalhos. As agulhas são materiais de uso único (cartuchos descartáveis ou rolos de uso individual para a cliente), o profissional usa luvas, higieniza a pele com antissético adequado, usa barreiras descartáveis nos equipamentos, descarta as agulhas num contentor para cortantes e trata as superfícies. Um rolo reutilizável nunca é partilhado entre clientes.

Cosméticos aplicados ao microagulhamento. Como os microcanais aumentam a absorção, o produto aplicado tem de ser seguro para esse uso: formulações estéreis ou de baixa carga microbiana, sem perfume, sem corantes, sem partículas, sem conservantes irritantes, em embalagens de dose única, com indicação do fabricante para uso após microagulhamento. Produtos comuns do dia a dia, ricos em perfume ou em óleos essenciais, não devem ser aplicados.

Princípios ativos habituais, em formulações próprias para este uso: ácido hialurónico, vitamina C estabilizada, peptídeos, fatores de crescimento cosméticos (de origem não humana, no âmbito de cosmético), niacinamida, ceramidas. A escolha liga-se à disfunção estética: hidratação, tom desigual, aspeto envelhecido, cicatrizes superficiais, estrias (no corpo).

Precauções e contraindicações. Infeções ativas na zona (herpes, verrugas, acne inflamatória intensa), lesões, queimadura solar recente, tendência a queloides, doenças cutâneas ativas, tratamento recente com fármacos que fragilizam a pele (segundo indicação médica), gravidez (por prudência), doenças da coagulação. Em caso de dúvida, remete-se a cliente para o médico.

Exemplo resolvido · Escolher o método para três clientes

Cliente A: pele desidratada, quer um tratamento de hidratação com ácido hialurónico, sem desconforto. Usa pacemaker. - Iontoforese e eletroporação: contraindicadas (pacemaker). Fonoforese: só se o fabricante do aparelho e o médico o permitirem; na dúvida, evita-se. Escolha: massagem facial com ampola de ácido hialurónico em pele bem preparada, sem método elétrico.

Cliente B: pele madura, quer luminosidade. Sem contraindicações. Usa-se uma ampola de vitamina C ionizável (ascorbato, aniónico). - Na forma de ascorbato (por exemplo, ascorbil fosfato de sódio, em solução de pH próximo do neutro) a vitamina C é aniónica; iontoforese com o polo negativo é uma opção legítima, com ampola própria e seguindo o manual do aparelho.

Cliente C: pele com poros dilatados e marcas leves de acne, sem inflamação ativa. - Microagulhamento superficial com dermapen, dentro do limite do referencial, associado a um sérum de dose única compatível. Verificar que não há acne inflamatória ativa; se houver, adia-se.

Em todos os casos, regista-se a decisão e as contraindicações verificadas na ficha da cliente.

7. Preparações cosméticas de gabinete: termogénicos, ativos específicos e famílias por tratamento

Preparações aplicadas ao rosto, corpo, unhas e pelos

O referencial pede o conhecimento das preparações segundo a ação e segundo a função. Para organizar o conhecimento, usa-se uma tabela por serviço.

Serviço Funções (por ordem de uso) Ações predominantes Exemplos de produtos
Higiene facial limpar, esfoliar, tonificar, tratar, hidratar, proteger tensioativa, queratolítica, hidratante, calmante leite, gel, esfoliante, tónico, máscara
Tratamento anti-idade tratar, hidratar, proteger antioxidante, estimulante, refirmante sérum de vitamina C, retinoide permitido, peptídeos
Tratamento de acne limpar, purificar, tratar queratolítica suave, sebo-reguladora, calmante gel com salicílico, argila, niacinamida
Tratamento despigmentante esfoliar, tratar, proteger despigmentante, antioxidante vitamina C, niacinamida, ácido tranexâmico, arbutina (quando permitida), filtro solar
Massagem corporal aquecer, deslizar, hidratar emoliente, relaxante óleos, cremes de massagem
Tratamento corporal modelador esfoliar, tratar, drenar, refirmar termogénica, drenante, refirmante géis e cremes com cafeína, extratos vegetais
Manicura / pedicura limpar, amaciar, proteger queratolítica suave, hidratante, endurecedora óleo de cutículas, amaciadores, base e verniz
Depilação preparar, depilar, acalmar depilatória, antissética, calmante ceras, pré e pós-depilação

Cosméticos corporais termogénicos

Os cosméticos termogénicos são produtos que provocam sensação de calor e aumento local da circulação, usados em tratamentos corporais (modelação, relaxamento muscular, preparação para massagem). O seu efeito principal é rubefaciente: vasodilatação superficial, com vermelhidão e calor.

Tipo Ativos frequentes Como atuam Cuidados
Rubefacientes nicotinato de metilo e outros derivados do ácido nicotínico, extratos de pimenta (capsicum), gengibre, canela, pimenta preta dilatam vasos, sensação de calor teste prévio, pele íntegra
Estimulantes cafeína, algas, extratos de plantas ação sobre a circulação superficial (promessas de modelação) efeito sobretudo sensorial
Ocluídos com calor bandas, ligaduras, mantas térmicas com produto aumentam a temperatura e a penetração risco de queimadura, controlar tempo
Frio (contraponto) mentol, cânfora, géis refrescantes vasoconstrição e sensação de frescura pernas cansadas, edema

Precauções: não aplicar sobre pele lesionada, irritada ou com varizes marcadas; não aplicar perto de mucosas e olhos; lavar as mãos depois; o produto aquece e pode dar ardor. Contraindicações habituais: gravidez, hipersensibilidade ao ativo, problemas circulatórios, hipertensão não controlada, febre, doenças da pele. A alegação "queima gordura" é comercial: o efeito é local, sensorial e circulatório.

Substâncias ativas para tratamentos de beleza específicos

O referencial cita as famílias de ativos por tipo de tratamento. A tabela relaciona o ativo à ação e à nota de segurança.

Família Exemplos de ativos Ação Notas
Despigmentantes vitamina C, niacinamida, ácido azelaico, ácido kójico, ácido tranexâmico, alfa-arbutina, extratos de alcaçuz inibem a tirosinase ou a transferência de melanina filtro solar é obrigatório; alguns ativos têm limites legais; a hidroquinona não é permitida em cosméticos de despigmentação no regime europeu
Rejuvenescentes retinoides (retinol e derivados), peptídeos, antioxidantes, ácido hialurónico estimulam a renovação e a síntese de matriz o retinol e os seus ésteres têm limites regulados no anexo III do regulamento
Revitalizantes vitaminas (C, E, grupo B), minerais, extratos, aminoácidos repõem, protegem, estimulam pele cansada ou desvitalizada
Celulíticos cafeína, extratos de algas, de hera, de castanha-da-índia ação superficial sobre microcirculação e aspeto promessas moderadas
Refirmantes peptídeos, extratos que estimulam colagénio, tensores (proteínas, polímeros) aumentam a firmeza aparente efeito tensor imediato e temporário
Drenantes extratos de plantas diuréticas e venotónicas (cavalinha, hera), mentol estimulam a circulação e a drenagem superficial pernas pesadas
Controladores da oleosidade niacinamida, zinco, ácido salicílico, argilas, extratos de hamamélis regulam o sebo e absorvem evitar secar em excesso
Vasoconstritores extratos de castanha-da-índia, centelha asiática, hamamélis, cânfora, frio contraem vasos superficiais, atenuam rubor em pele com rosácea ou couperose, dentro dos limites cosméticos

Exemplo resolvido · Montar um tratamento corporal modelador

Uma cliente pede um tratamento de modelação para a zona das coxas. Sem varizes, sem patologias, mas com pele sensível ao calor.

  1. Avaliação: ficha, antecedentes, sensibilidade, histórico de alergia (nenhum).
  2. Preparação: esfoliação suave do corpo para melhorar a absorção.
  3. Teste prévio: aplicar o produto termogénico numa pequena zona do antebraço, esperar o tempo indicado pelo fabricante e observar vermelhidão excessiva ou prurido.
  4. Produto: como a cliente é sensível ao calor, escolhe-se gel com cafeína e algas, de ação termogénica suave, em vez de um creme com pimenta de forte efeito.
  5. Aplicação: massagem modeladora com o produto, sem bandas oclusivas.
  6. Fecho: creme hidratante, indicações de hidratação, evitar sol e calor extremo nas horas seguintes.
  7. Registo: produto, lote, tempo, reação observada.

8. Peelings químicos

Contexto histórico

A ideia de renovar a pele com substâncias esfoliantes é muito antiga: registos históricos referem o uso de leite azedo (ácido láctico), de vinho (ácido tartárico) e de frutos ácidos para "refrescar" a pele em civilizações antigas. No século XIX, a dermatologia europeia começou a estudar o uso de agentes químicos como o fenol e o ácido salicílico em doenças da pele. Ao longo do século XX, as técnicas foram sendo sistematizadas e surgiram os alfa-hidroxiácidos (AHA), de uso cosmético, mais suaves. Desde então, a evolução vai no sentido de peelings mais superficiais e mais controlados, com menos risco.

Definição e mecanismo de ação

Um peeling químico é a aplicação controlada de uma ou mais substâncias químicas (em geral ácidos) sobre a pele, para provocar esfoliação e renovação das camadas superficiais. O mecanismo, em termos simples:

  1. O ácido quebra as ligações entre os corneócitos (desmossomas) ou provoca a coagulação de proteínas.
  2. As células soltam-se e a camada superficial descama.
  3. A pele, para se reparar, acelera a renovação celular e estimula a produção de matriz na camada logo abaixo.
  4. O resultado é uma pele mais lisa, uniforme e luminosa, com atenuação de manchas superficiais e de pequenas irregularidades.

Classificação por profundidade

A classificação clássica distingue os peelings pela profundidade que a ação atinge. Esta é a classificação que o aluno deve dominar, porque decide o que é de gabinete de estética e o que é ato médico.

Nível Camada atingida Agentes típicos Descamação Enquadramento
Muito superficial estrato córneo AHA em baixa concentração, enzimas, ácido salicílico a baixa concentração mínima, quase impercetível estética
Superficial epiderme até à camada basal AHA a concentrações de gabinete, salicílico, mandélico, pirúvico em formulações apropriadas visível, 1 a 4 dias estética, dentro dos limites aplicáveis a cada substância, das indicações do fabricante e do parecer aplicável
Médio derme papilar ácido tricloroacético (TCA) a concentrações médias, associações marcada, com crosta médico
Profundo derme reticular fenol e fórmulas profundas muito marcada, recuperação longa médico, em ambiente de bloco

O técnico de estética trabalha nos dois primeiros níveis. A fronteira nunca depende da vontade do profissional: depende da substância, da concentração, do pH, da formulação e do enquadramento legal.

Ações fisiológicas

Ácidos usados em estética: características

O referencial pede os ácidos, o pH, a concentração permitida nos tratamentos de beleza, a apresentação, o modo de aplicação e as recomendações. A tabela dá as características de cada ácido; a concentração e o pH tratam-se logo a seguir, porque, ao contrário do que se espera, entre os ácidos de peeling só o salicílico tem limite fixado por lei (o kójico, usado como despigmentante auxiliar, também está restringido: anexo III, entrada 375, até 1% em produtos de rosto e mãos, pelo Regulamento (UE) 2024/996).

Ácido Grupo Origem típica Pele indicada Notas
Glicólico AHA cana-de-açúcar oleosa, envelhecida, manchas molécula muito pequena, penetra depressa, mais irritante
Láctico AHA leite, fermentação seca, sensível, desidratada mais suave, hidratante
Mandélico AHA amêndoas amargas sensível, com manchas, pigmentada, fototipos altos molécula maior, penetra devagar, bem tolerado
Cítrico, málico, tartárico AHA frutos auxiliares em misturas fracos, associados
Salicílico BHA (beta-hidroxiácido) casca de salgueiro, síntese oleosa, acneica, poros lipossolúvel, penetra nos folículos, relação com aspirina: cuidado em alergia a salicilatos
Pirúvico alfa-cetoácido síntese acne, manchas forte, em baixas concentrações
Azelaico diácido cereais, síntese acne, rosácea, manchas boa tolerância; ação despigmentante
Fítico, kójico auxiliares arroz, fungos manchas ação despigmentante suave
Tricloroacético (TCA) ácido halogenado síntese uso médico nos peelings médios não é cosmético de gabinete de estética

Concentração e pH de uso em estética. Há duas situações diferentes e convém não as confundir. Os AHA (glicólico, láctico, mandélico, pirúvico) não estão restringidos nos anexos do Regulamento (CE) n.º 1223/2009: não existe para eles um limite europeu de concentração nem de pH. O que existe são os pareceres científicos citados a seguir, a informação do fabricante e o parecer da Ordem dos Médicos referido no referencial. O ácido salicílico, pelo contrário, está restringido: a entrada 98 do anexo III admite-o, para fins que não sejam a conservação do produto, até 3,0% em produtos capilares de enxaguar e até 2,0% nos restantes produtos (até 0,5% em loção corporal, sombra de olhos, máscara de pestanas, eyeliner, batom e desodorizante roll-on), e proíbe-o em preparações para crianças com menos de 3 anos. A entrada não fixa pH. Daqui decorre uma consequência prática: um produto de salicílico com concentração muito acima de 2,0% não é um cosmético ao abrigo deste anexo, e não é por vir em frasco de uso profissional que passa a ser. Os valores do anexo confirmam-se sempre na redação em vigor. Para cada peeling, o profissional regista no protocolo a concentração, o pH e o tempo indicados no rótulo e na ficha técnica, e recusa o produto cujo rótulo não os indique.

pH e concentração: duas variáveis, não uma

A força de um peeling com ácidos depende de duas coisas: da concentração total do ácido e do pH da formulação. O pH determina quanta parte do ácido está na forma livre (não dissociada), que é a forma ativa e capaz de penetrar. Esta relação segue a equação de Henderson-Hasselbalch:

Fração livre = 1 ÷ (1 + 10^(pH − pKa))

Exemplo resolvido · Efeito do pH numa solução de ácido glicólico

O ácido glicólico tem pKa de cerca de 3,83. Calcula a fração livre (ativa) a três valores de pH.

  1. pH 3,0: pH − pKa = 3,0 − 3,83 = −0,83; 10^(−0,83) ≈ 0,148; fração livre = 1 ÷ 1,148 ≈ 87%.
  2. pH 3,5: diferença −0,33; 10^(−0,33) ≈ 0,468; fração livre = 1 ÷ 1,468 ≈ 68%.
  3. pH 4,0: diferença +0,17; 10^(0,17) ≈ 1,479; fração livre = 1 ÷ 2,479 ≈ 40%.

Leitura: a mesma concentração de glicólico, ao subir o pH de 3,0 para 4,0, perde mais de metade da ação. Um peeling a 30% com pH 2,0 é muito mais agressivo do que um a 30% com pH 3,5. Por isso, a concentração dita no rótulo sem o pH não diz tudo.

Valores de referência de concentração e pH

Não havendo limite legal europeu para os AHA, o que existe são pareceres científicos. Convém saber de quem são, porque não têm o mesmo peso.

O parecer europeu é o do comité científico SCCNFP, SCCNFP/0370/00, adotado a 28 de junho de 2000 e expressamente mantido pelo parecer SCCNFP/0799/04, de 25 de maio de 2004. O comité considerou que faltavam dados para uma avaliação completa e, pelo princípio da precaução, sugeriu que o ácido glicólico pode ser usado com segurança até 4%, com pH igual ou superior a 3,8, e o ácido láctico até 2,5%, com pH igual ou superior a 5. Recomendou também avisos ao utilizador para evitar o contacto com os olhos e para evitar ou proteger da radiação UV durante o uso, porque os AHA aumentam o dano que o sol provoca na pele. O parecer não distingue uso profissional de uso doméstico: estes são os valores que o comité europeu considerou prudentes.

A referência norte-americana é a revisão do painel CIR (Cosmetic Ingredient Review, 1997) sobre o ácido glicólico, o ácido láctico e os seus sais e ésteres simples (e não sobre todos os AHA), que concluiu que são seguros em produtos de consumo até 10% com pH igual ou superior a 3,5, desde que formulados para não aumentar a sensibilidade solar ou com instruções de proteção solar diária, e em produtos de salão até 30% com pH igual ou superior a 3,0, desde que sejam de uso breve e descontínuo, seguido de enxaguamento completo, aplicados por pessoa treinada e com instruções de proteção solar diária. É um painel da indústria dos Estados Unidos, não uma posição europeia, e os 30% nunca foram aprovados por nenhum comité europeu.

Nenhum destes números é lei. O que cada técnico pode aplicar é determinado pela legislação em vigor, pela informação do fabricante e pelo parecer da Ordem dos Médicos referido no referencial. O rótulo e a ficha técnica indicam o uso profissional permitido, e as instruções do fabricante prevalecem sobre qualquer regra de bolso. Na dúvida entre dois valores, aplica-se o mais prudente.

Apresentação e modo de aplicação

Os peelings de estética apresentam-se como soluções, géis ou cremes, com ou sem neutralizante, em frascos de uso profissional, às vezes em kits com pré-peeling e pós-peeling.

Sequência típica de um peeling superficial:

  1. Anamnese e avaliação: fototipo, tipo de pele, medicação, tratamentos recentes, exposição solar, histórico de herpes, gravidez, alergias.
  2. Pré-preparação (às vezes em casa durante uma a duas semanas): pele hidratada, protegida e, se for o caso, com produtos de preparação indicados pelo profissional ou médico.
  3. Teste de sensibilidade numa pequena zona, quando o fabricante o recomenda.
  4. Limpeza e desengorduramento da pele, retirar maquilhagem e oleosidade.
  5. Proteger zonas sensíveis (cantos do nariz, boca, pálpebras) com vaselina ou produto indicado.
  6. Aplicar com pincel ou compressa, em camada uniforme, seguindo a ordem recomendada (testa, face, nariz, queixo, por exemplo), cronometrando.
  7. Vigiar: eritema (vermelhidão), ardor, sensação de picada. Uma vermelhidão uniforme ligeira é esperada; branqueamento ou ardor intenso, não.
  8. Neutralizar ou remover no tempo definido, seguindo a ficha do produto (alguns ácidos neutralizam-se, outros removem-se com água; o salicílico, por exemplo, tem comportamento próprio).
  9. Acalmar e proteger: máscara calmante, creme reparador, filtro solar.
  10. Registar produto, lote, concentração, pH, tempo, resposta.

Indicações

Pele com acne superficial, poros dilatados, textura irregular, manchas solares leves, melasma superficial (com acompanhamento médico quando persistente), fotoenvelhecimento ligeiro, cicatrizes superficiais de acne, pele baça.

Contraindicações e precauções

Situação Porquê Conduta
Gravidez e amamentação prudência e falta de dados; alguns ácidos (salicílico) com restrição não aplicar; remeter
Pele lesionada, feridas, infeção ativa (herpes, impetigo, verrugas) risco de agravamento e disseminação adiar
Queimadura solar, pele bronzeada recente risco de manchas e queimadura adiar
Medicação com isotretinoína (por via oral) ou retinoides fortes pele fragilizada só com indicação do médico, em geral esperar meses
Tratamentos recentes (depilação, laser, microagulhamento) pele já agredida respeitar intervalo
Alergia ao ácido ou a salicilatos reação não aplicar
Fototipos altos (IV a VI) risco de hiperpigmentação pós-inflamatória usar ácidos suaves (mandélico, láctico), baixa concentração, ou remeter
Rosácea ativa, dermatite irritação adiar, remeter ao médico
Doenças autoimunes, imunossupressão cicatrização alterada consultar médico

Precauções gerais: proteção solar diária durante e depois do tratamento; evitar sol direto, calor intenso e sauna nos dias seguintes; evitar esfoliantes e produtos irritantes; não arrancar pele solta; intervalos entre sessões segundo o protocolo do fabricante; e, perante qualquer reação anormal (empolamento, dor persistente, crosta), suspender e remeter a cliente para o médico.

Exemplo resolvido · Escolher o peeling para duas clientes

Cliente 1: 28 anos, pele oleosa, comedões e pápulas ligeiras, fototipo III, sem medicação, sem gravidez. - Escolha: peeling com ácido salicílico (lipossolúvel, entra nos folículos) dentro do limite da entrada 98 do anexo III do Regulamento (CE) n.º 1223/2009 (2,0% na generalidade dos produtos, na redação em vigor) e com concentração e pH indicados no rótulo, pós-peeling calmante e filtro solar. Indicação coerente: poros e comedões.

Cliente 2: 45 anos, pele sensível com manchas, fototipo V, usa um creme com retinoide forte prescrito pelo médico. - Escolha: não aplicar peeling de gabinete até o médico autorizar, porque o retinoide forte e o fototipo alto aumentam o risco de irritação e de pigmentação pós-inflamatória. Se o médico autorizar, ácido mandélico em baixa concentração é uma opção de menor risco.

A decisão registada na ficha inclui o motivo da escolha ou da recusa.

9. Seleção, planeamento e protocolo; aconselhamento cosmético e avaliação de riscos

Da ficha da cliente ao protocolo

Selecionar e planear intervenções cosméticas para o equilíbrio da pele e dos anexos é um processo com passos fixos. Cada passo produz informação que o seguinte usa.

Passo O que se faz Resultado
1. Anamnese perguntar saúde, medicação, alergias, hábitos, expectativas, tratamentos anteriores ficha preenchida
2. Avaliação da pele observar tipo, estado, disfunções, hidratação, sensibilidade diagnóstico estético
3. Objetivo acordar com a cliente o que se pretende e o que é realista objetivo definido
4. Contraindicações verificar riscos e limites do âmbito cosmético autorizar, adaptar ou remeter
5. Seleção de cosméticos escolher por função, ação, tipo de pele e segurança lista de produtos
6. Protocolo definir sequência, tempos, número de sessões protocolo escrito
7. Execução aplicar, vigiar, ajustar tratamento realizado
8. Registo e conselho anotar produtos, lote, reação; recomendar cuidados de casa ficha atualizada

Elaborar um protocolo de aplicação

O protocolo de tratamento é o documento que define a função, a ação e a sequência de aplicação de cada cosmético, de acordo com o critério de desempenho do referencial. Um bom protocolo tem:

Estrutura-tipo da sequência de aplicação:

  1. Higienização da pele (leite ou gel).
  2. Tonificação (repor pH).
  3. Esfoliação ou preparação, quando indicada.
  4. Ativo de tratamento (ampola ou sérum), com ou sem método facilitador.
  5. Massagem ou aparelho.
  6. Máscara.
  7. Hidratação e proteção (creme, filtro solar de dia).

Esta ordem tem lógica: os produtos mais fluidos e ativos vão primeiro, os mais ricos e oclusivos depois, porque um creme oclusivo antes de um sérum impediria o sérum de entrar.

Exemplo resolvido · Protocolo de hidratação facial em 60 minutos

Cliente de 38 anos, pele desidratada e baça, sem contraindicações. Objetivo: hidratação e luminosidade.

Minutos Fase Produto Função e ação
0 a 5 Anamnese rápida e observação ficha verificação de contraindicações
5 a 12 Limpeza leite de limpeza suave limpar; tensioativa e emoliente
12 a 15 Tonificação loção calmante repor pH; calmante
15 a 22 Esfoliação suave esfoliante enzimático queratolítica suave
22 a 27 Ativo ampola de ácido hialurónico hidratar; humectante
27 a 42 Massagem facial creme de massagem relaxar; emoliente
42 a 52 Máscara máscara de gel hidratante hidratar; humectante e oclusiva leve
52 a 58 Finalização creme hidratante com filtro (se for de dia) proteger; hidratar
58 a 60 Conselhos e registo ficha aconselhamento

Conferência: os tempos somam 60 minutos; a sequência vai do fluido ao oclusivo; nenhum produto contraria a pele desidratada.

Aconselhamento cosmético

Aconselhar é recomendar à cliente os produtos de cuidados diários e o uso correto, para manter e prolongar o resultado do gabinete. Boas práticas:

Uso correto: o que dizer à cliente

Produto Quantidade aproximada (rosto) Momento Regra
Limpeza uma noz manhã e noite massajar e enxaguar bem
Tónico quantidade que molhe o disco após limpeza sem esfregar
Sérum 2 a 4 gotas ou 1 a 2 bombadas antes do creme sobre pele limpa
Hidratante uma ervilha a uma avelã dia e noite aplicar em movimentos ascendentes
Filtro solar cerca de duas "falanges" de dedo todas as manhãs, renovar quantidade generosa; renovar a cada duas horas ao sol
Esfoliante pequena quantidade 1 a 2 vezes por semana não em pele irritada
Ácidos e retinoides segundo indicação geralmente à noite introdução gradual, filtro solar de dia

Avaliar os riscos da aplicação

A aptidão "avaliar os riscos de aplicação dos cosméticos" divide-se em quatro tipos de risco.

  1. Reações da pele: irritação (dose e agressividade do produto), alergia de contacto (resposta imunológica, aparece em pessoas sensibilizadas, às vezes após semanas), fotossensibilidade (reação com o sol), hiperpigmentação pós-inflamatória.
  2. Risco de contaminação: produto contaminado por micro-organismos devido a espátulas sujas, dedos nos frascos, potes abertos há muito tempo.
  3. Risco do método: queimaduras (calor, corrente, ácidos), lesão por agulhas, infeções.
  4. Risco para o profissional: inalação de vapores, contacto repetido com ácidos, alergias profissionais (comuns em unhas e tintas); uso de EPI.

Redução de risco: anamnese, teste de sensibilidade, quantidade mínima eficaz, higiene (espátulas, pincéis descartáveis ou desinfetados, nunca mergulhar dedos), ficha técnica à mão, vigilância durante o tratamento, plano para reação adversa e registo.

Exemplo resolvido · Resposta a uma reação adversa

Uma cliente apresenta vermelhidão intensa e ardor, 5 minutos depois de uma ampola de vitamina C.

  1. Parar a aplicação e remover o produto com água fria ou soro, conforme o protocolo.
  2. Acalmar com compressas frias e produto calmante.
  3. Avaliar: extensão, inchaço, dificuldade em respirar. Se houver inchaço da face, dificuldade respiratória ou mal-estar geral, chamar o 112 de imediato.
  4. Registar: produto, lote, hora, sinais e o que foi feito.
  5. Aconselhar: não aplicar mais produtos, não se expor ao sol, procurar o médico se persistir.
  6. Comunicar ao fornecedor e, se a reação for grave, às entidades competentes pelos canais de cosmetovigilância.
  7. Rever a ficha da cliente: passa a constar a reação ao produto.

10. Cosméticos de maquilhagem: estabilidade, validade, maquilhagem semipermanente e riscos

Maquilhagem como produto cosmético

Os produtos de maquilhagem (bases, corretores, pós, sombras, máscaras de pestanas, lápis, batons, rouges) são cosméticos de aplicação de cor, em contacto com zonas sensíveis (olhos, lábios). Têm regras iguais às dos restantes cosméticos e exigências extra de higiene por causa das mucosas e da humidade.

Produto Base da fórmula Validade típica depois de aberto (PAO) Risco principal
Máscara de pestanas emulsão com ceras e pigmentos cerca de 3 a 6 meses, conforme o rótulo infeção ocular, bactérias; bombear ar para dentro
Eyeliner líquido solução ou emulsão cerca de 3 a 6 meses idem
Lápis (olhos, lábios) ceras e pigmentos mais longa, mas afiar de cada vez contaminação da ponta
Base líquida emulsão 6 a 12 meses bactérias, oxidação
Pó compacto pós prensados 12 a 24 meses contaminação por esponjas e pincéis
Batom ceras, óleos e pigmentos 12 a 24 meses herpes (transmissão), ranço

Os prazos acima são indicativos; vale sempre o símbolo PAO e a data de durabilidade mínima do fabricante.

Estabilidade e validade na maquilhagem

Uma maquilhagem instável mostra-se por separação de fases (água e óleo separam), mudança de cor (oxidação dos pigmentos), mudança de cheiro (ranço), textura grumosa, bolor ou crescimento de fungos (sobretudo em produtos aquosos). A causa pode ser o calor (carro, janela), a luz, o ar ou a contaminação. Um produto que mostre qualquer um destes sinais é descartado, mesmo dentro da data.

Higiene no uso profissional

Maquilhagem semipermanente: o que é e como se enquadra

A maquilhagem semipermanente (também conhecida por micropigmentação ou pigmentação) deposita pigmentos na pele com agulhas, para desenhar sobrancelhas, contorno de olhos ou lábios. O referencial pede a estabilidade e a validade das tintas, as tintas para maquilhagem semipermanente e os riscos na utilização.

Pontos a distinguir:

Riscos na utilização das tintas

Risco Causa Prevenção
Infeção agulhas, tinta ou ambiente contaminados material de uso único, higiene, tinta esterilizada
Reação alérgica pigmentos (por vezes níquel e outros), preservantes teste, histórico de alergias, lote registado
Granulomas e cicatrizes resposta do organismo ao pigmento técnica correta, evitar pigmentos de má qualidade
Alteração da cor oxidação, mistura de pigmentos, tom da pele escolha adequada, tom de teste
Interferência em exames alguns pigmentos podem afetar imagens médicas informar a cliente
Resultado irreversível ou difícil de remover pigmento na derme consentimento informado

Exemplo resolvido · Decidir o que fazer com uma tinta de lote desconhecido

Um fornecedor oferece uma tinta de micropigmentação muito barata, "sem rótulo em português, lote em falta".

  1. Rotulagem: sem informação em português e sem lote, não se cumpre a rastreabilidade mínima.
  2. Risco: se uma cliente tiver reação, não há como identificar o produto, nem avisar outras clientes.
  3. Decisão: recusar. Procurar um fornecedor com documentação, lote, validade, composição e responsável identificado.
  4. Registo: arquivar a recusa e a razão.

11. Estabilidade, conservação, armazenamento, validade e stock

Estabilidade

A estabilidade de um cosmético é a sua capacidade de manter, durante o prazo de validade e em condições de armazenamento adequadas, as propriedades físicas, químicas, microbiológicas e sensoriais com que foi fabricado. Os sinais de instabilidade são:

Tipo Como se manifesta Causa provável
Física separação de fases, cristais, grumos, alteração de viscosidade temperaturas extremas, agitação, congelação
Química mudança de cor ou cheiro, perda de ação do ativo luz, oxigénio, calor, pH
Microbiológica bolor, turvação, cheiro azedo contaminação, conservante insuficiente, mau manuseamento
Sensorial textura diferente, cheiro alterado oxidação, ranço
Da embalagem deformação, fuga, corrosão reação com o conteúdo

Conservação: o que acelera a degradação

Cinco "inimigos" resumem o que faz estragar um cosmético:

  1. Calor: acelera as reações químicas e a separação de fases.
  2. Luz (sobretudo UV): degrada ativos fotossensíveis (vitamina C, retinoides).
  3. Ar (oxigénio): oxida lípidos e vitaminas.
  4. Água e humidade: favorecem o crescimento de micro-organismos.
  5. Contaminação (dedos, espátulas, produto devolvido ao frasco).

Condições de armazenamento

Aspeto Boa prática
Temperatura local fresco e seco, sem variações bruscas; cumprir a indicação do fabricante; alguns produtos pedem frio
Luz ao abrigo da luz solar direta, em armário fechado ou embalagem opaca
Humidade longe de zonas húmidas (casa de banho, lavatório, vapor)
Posição em pé, bem fechados, com a tampa limpa
Segregação separar o que está em uso do que está fechado; separar o profissional do de venda
Produtos inflamáveis afastados de fontes de calor (álcool, acetona, lacas) e conforme as regras de segurança
Material de uso único em local limpo, em embalagem fechada
Zona de quarentena prateleira para produtos duvidosos, devolvidos, fora de prazo ou em investigação

Manipulação

Prazo de validade: data de durabilidade mínima e PAO

Há dois conceitos que se complementam.

Ao abrir um produto, o gabinete anota a data de abertura e calcula a data limite de utilização: a mais cedo entre a data de durabilidade mínima e a data de abertura mais o PAO.

Exemplo resolvido · Calcular a data limite de utilização

Três produtos do gabinete, todos abertos em uso:

  1. Creme com PAO de 12M, aberto a 3 de março de 2026. Somam-se 12 meses: data limite 3 de março de 2027.
  2. Sérum com PAO de 6M, aberto a 15 de janeiro de 2026. Somam-se 6 meses: data limite 15 de julho de 2026. A 14 de outubro de 2026 já passou o limite: o frasco é descartado, mesmo que pareça bom.
  3. Pó compacto com ampulheta e data de durabilidade mínima 08/2027, aberto em novembro de 2026. Como o produto tem data de durabilidade mínima (e não PAO), a data limite é agosto de 2027.

Regra de ouro: se houver sinais de instabilidade (cheiro, cor, textura, bolor), o produto é descartado antes da data limite. A data é um teto, não uma garantia.

Gestão do stock

Organizar e controlar o stock de produtos significa saber o que há, onde está, quanto dura e quando repor.

Conceito Definição Para que serve
FIFO (first in, first out) o primeiro a entrar é o primeiro a sair produtos com validade semelhante
FEFO (first expired, first out) o primeiro a caducar é o primeiro a sair regra preferível em cosméticos
Stock mínimo / de segurança quantidade abaixo da qual se encomenda evitar rupturas
Ponto de encomenda stock em que se faz a encomenda consumo durante o prazo de entrega, mais segurança
Inventário contagem periódica do que existe acerto entre registo e realidade
Rotação arrumar à frente o que caduca primeiro, qualquer que tenha sido a data de entrada cumprir FEFO
Rastreabilidade ligar o lote ao cliente retirar rapidamente um lote problemático

Ponto de encomenda = consumo diário × prazo de entrega (dias) + stock de segurança.

Exemplo resolvido · Calcular o ponto de encomenda

O gabinete gasta, em média, 6 ampolas de hidratação por semana (6 dias de trabalho). O fornecedor entrega em 5 dias úteis. O gabinete quer uma segurança de 4 ampolas.

  1. Consumo diário: 6 ÷ 6 = 1 ampola por dia.
  2. Consumo durante a entrega: 1 × 5 = 5 ampolas.
  3. Ponto de encomenda: 5 + 4 = 9 ampolas.
  4. Regra: quando restarem 9 ampolas, faz-se a encomenda.

Exemplo resolvido · Aplicar FEFO a um lote

Na prateleira existem: 4 cremes (lote A, validade 06/2027), 6 cremes (lote B, validade 03/2027), 3 cremes (lote C, validade 09/2027).

  1. Ordenar por validade: B (03/2027), A (06/2027), C (09/2027).
  2. Sair primeiro o lote B, depois A, depois C.
  3. Colocar o lote B à frente e os restantes atrás, por ordem.
  4. Quando entrar um lote novo, vai para o fundo ou para a posição que a sua validade indicar.
  5. Mensalmente, fazer uma lista dos produtos a menos de 3 meses da validade para se usarem em primeiro lugar, ou para se promoverem na venda.

Produtos fora de prazo, danificados ou retirados

Um produto fora de validade, com sinais de instabilidade, ou que tenha sido alvo de retirada por parte do fabricante ou da autoridade, não se usa nem se vende. Fica separado em quarentena, identificado, e eliminado segundo as regras de resíduos aplicáveis, com registo do que foi eliminado. O gabinete acompanha os avisos de retirada publicados pelas autoridades e pelos fornecedores.

12. Normas de qualidade, legislação em vigor, ética e segurança

Normas de qualidade

As normas de qualidade padronizam processos para garantir resultados consistentes e seguros. Para o profissional de estética, as mais relevantes são:

Norma / conceito Âmbito Relevância
ISO 22716 boas práticas de fabrico de cosméticos referência para fabricantes; o profissional beneficia da qualidade dos fornecedores
ISO 9001 sistemas de gestão da qualidade base para organizar processos, registos, ações corretivas no gabinete
ISO 11930 avaliação da proteção antimicrobiana de um cosmético liga-se ao challenge test e à conservação
ISO 16128 índices de ingredientes naturais e de origem natural comparar produtos
Boas práticas do gabinete higiene, desinfeção, registos exigidas pela atividade

Aplicar normas de qualidade no gabinete significa documentar, registar e melhorar: procedimentos escritos, fichas, registos de lote, controlo de validades, limpeza e desinfeção com registo, tratamento de reclamações e ações corretivas.

Legislação e entidades

O quadro legal é um ponto de partida que o profissional confirma sempre na redação em vigor.

Âmbito Diploma ou entidade O que regula
Europeu Regulamento (CE) n.º 1223/2009, relativo aos produtos cosméticos, com as suas alterações definição de cosmético, pessoa responsável, avaliação de segurança, dossiê, notificação, rotulagem, substâncias proibidas e restritas, cosmetovigilância
Anexos do regulamento II (substâncias proibidas), III (restritas), IV (corantes permitidos), V (conservantes permitidos), VI (filtros UV permitidos) listas positivas e negativas
Nacional Decreto-Lei n.º 23/2025, de 19 de março execução do regulamento em Portugal, operadores, fiscalização, regime sancionatório
Autoridade competente INFARMED fiscalização, vigilância do mercado, informação sobre produtos
Parecer profissional Ordem dos Médicos enquadramento do que é ato médico e do que pode ser feito em estética
Legislação geral segurança e saúde no trabalho, resíduos, proteção de dados pessoais obrigações do estabelecimento

Pontos práticos que decorrem destes diplomas:

Atitudes profissionais

O referencial valoriza atitudes que, no dia a dia, se traduzem em atos concretos.

Atitude Exemplo no gabinete
Responsabilidade assumir e corrigir um erro, registar a reação adversa
Autonomia decidir dentro do âmbito, sem esperar por ordens para tarefas rotineiras
Prontidão em caso de emergência conhecer o plano de resposta e o número 112
Autocontrolo manter a calma perante uma cliente exigente ou uma reação
Iniciativa propor melhorias ao armazenamento
Apresentação pessoal farda limpa, cabelo apanhado, unhas curtas, mãos desinfetadas
Resolução de problemas adaptar o protocolo se a pele reage
Sentido de organização prateleiras, fichas e registos ordenados
Conduta ética não prometer curas, não usar produtos duvidosos, confidencialidade
Respeito pelas normas de segurança e saúde no trabalho EPI, ventilação, ergonomia, rotulagem de químicos

Segurança e saúde no trabalho aplicadas aos cosméticos

Exemplo resolvido · Preparar o gabinete para uma inspeção

Uma manhã, o responsável do estabelecimento sabe que haverá uma visita de verificação. Que organização pode apresentar?

  1. Produtos: todos com rótulo completo em português, lote e validade; nenhum fora do prazo na prateleira de uso.
  2. Documentação: pasta com fichas técnicas e faturas dos produtos, ordenadas por marca.
  3. Fichas das clientes: arquivadas com confidencialidade, com consentimento sobre dados.
  4. Registo de limpeza e desinfeção: datado e assinado.
  5. Armazenamento: produtos longe do calor e da humidade, quarentena identificada.
  6. Segurança: EPI disponível, extintor e kit de primeiros socorros no prazo.
  7. Resíduos: contentor para cortantes devidamente identificado.

O resultado é uma inspeção sem surpresas, porque o trabalho diário já estava organizado.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Organizar os cosméticos num serviço de estética e bem-estar é um trabalho com cinco etapas ligadas. Primeiro, conhecer e classificar o produto: um cosmético atua só nas partes externas do corpo, tem uma função (para que serve na rotina) e uma ação (o que faz na pele), e distingue-se de medicamentos e dispositivos. Depois, ler a sua composição e a sua documentação: veículo, ativos e aditivos, lista INCI em ordem decrescente, testes, selos de natural, orgânico e vegano, e a informação obrigatória do rótulo (responsável, lote, validade ou PAO, precauções) com a ficha técnica e o dossiê do produto. Em terceiro lugar, perceber como o ativo chega à pele: vias intercelular, intracelular e dos apêndices, promotores químicos, vesículas coloidais e métodos físicos (fonoforese, iontoforese, eletroporação, microagulhamento superficial), sempre com as contraindicações. Em quarto, selecionar, planear e aconselhar: termogénicos, ativos específicos e peelings químicos (classificados por profundidade, com pH e concentração, e apenas os superficiais em estética), protocolo com função, ação e sequência, riscos avaliados e aconselhamento honesto para os cuidados diários. Por fim, armazenar, conservar e controlar: estabilidade, calor, luz, ar, humidade e contaminação como inimigos, PAO e data de durabilidade, FEFO, ponto de encomenda, quarentena, e tudo isto dentro das normas de qualidade e da legislação em vigor, com ética e segurança no trabalho. Quem domina esta cadeia escolhe melhor, aplica com segurança, poupa produto e protege a cliente.

Exercícios resolvidos

1. Uma cliente diz que um creme "cura a dermatite". Qual é o problema?

Resolução: o produto estaria a prometer tratar uma doença, o que sai da definição de cosmético (que limpa, protege, mantém em bom estado, modifica o aspeto). Uma alegação deste tipo só cabe a medicamentos. O profissional não repete a promessa e remete a cliente para o médico se existir dermatite.

2. Classifica um sérum com ácido hialurónico quanto à função e à ação.

Resolução: função: tratar/hidratar (ativo de hidratação). Ação: humectante, porque o ácido hialurónico atrai e retém água no estrato córneo.

3. Numa lista INCI a ordem é Aqua, Glycerin, Cetearyl Alcohol, Niacinamide, Phenoxyethanol, Parfum. Que tipo de produto é e o que se pode concluir sobre a perfumação?

Resolução: Aqua em primeiro lugar e um álcool gordo indicam uma emulsão aquosa (O/A), provavelmente um creme ou loção hidratante; a glicerina é humectante; a niacinamida é ativo de regulação da barreira e do sebo; o fenoxietanol é conservante. Tem Parfum, logo não é indicado para uma cliente alérgica a perfumes.

4. Um frasco tem o símbolo de frasco aberto com "6M", aberto a 10 de setembro de 2026. Qual é a data limite de utilização?

Resolução: 6 meses após 10 de setembro de 2026 é 10 de março de 2027.

5. Uma ampola de 2 mL é usada em cada sessão. Uma caixa tem 10 ampolas e custa 45 €. Qual o custo do produto por sessão e quantos mililitros se gastam em 10 sessões?

Resolução: custo por sessão = 45 ÷ 10 = 4,50 €; mililitros = 10 × 2 = 20 mL.

6. Um ativo aniónico (carga negativa) vai ser aplicado por iontoforese. Sob que polo se coloca?

Resolução: sob o polo negativo (cátodo), porque cargas iguais se repelem e o ativo é "empurrado" para dentro da pele.

7. Calcula a fração livre de um ácido com pKa 3,83 numa solução a pH 3,83.

Resolução: pH − pKa = 0; 10^0 = 1; fração livre = 1 ÷ (1 + 1) = 50%. Quando o pH é igual ao pKa, metade do ácido está na forma livre.

8. Um peeling superficial é recusado a uma cliente que toma isotretinoína por via oral. Está certa a decisão?

Resolução: sim. A medicação fragiliza a pele e aumenta o risco de irritação e de lesão. Só se aplicaria com indicação do médico, em geral muito depois de terminar o tratamento. Regista-se a decisão na ficha.

9. O gabinete gasta 2 frascos de gel de limpeza por semana. O fornecedor entrega em 7 dias e o gabinete quer 3 frascos de segurança. Qual o ponto de encomenda?

Resolução: consumo por dia (semana de 7 dias): 2 ÷ 7 ≈ 0,29 frascos/dia; durante 7 dias: 2 frascos; mais a segurança de 3: 5 frascos. Encomenda-se quando restarem 5.

10. Porque se aplica FEFO e não FIFO aos cosméticos?

Resolução: porque dois produtos entrados em datas diferentes podem ter validades diferentes; o que entrou depois pode caducar primeiro. O FEFO garante que sai primeiro o que caduca primeiro e reduz o desperdício.

11. Uma máscara de pestanas foi aberta há 8 meses e tem PAO de 6M. Podes usá-la numa cliente?

Resolução: não. O prazo depois de aberto terminou há 2 meses. Em produtos da zona dos olhos, o risco de infeção justifica descartar. Substitui-se por uma máscara de pestanas nova e usa-se um aplicador descartável individual.

12. Antes de microagulhamento superficial, a cliente pede para aplicares o seu creme perfumado de casa. Aceitas?

Resolução: não. Os microcanais aumentam a absorção; o creme perfumado pode irritar ou sensibilizar. Aplicam-se apenas formulações próprias para este uso (sem perfume, sem corantes, de baixa carga microbiana), em dose única, como o fabricante indica.