Sebenta · Projetar e implementar a instalação de autómatos programáveis (UC00650)
- Introdução
- 1. Autómatos programáveis: aplicações e vantagens
- 2. Sistemas cablados vs. sistemas programados
- 3. Estrutura de uma instalação industrial com autómatos programáveis
- 4. O caderno de encargos de automatismos
- 5. Programas e linguagens de programação de autómatos
- 6. Programação em Ladder
- 7. Entradas analógicas de um autómato programável
- 8. Entradas rápidas de um autómato programável
- 9. Programação de funções avançadas
- 10. Sistemas de aquisição de dados
- 11. Sensores, protocolos de comunicação e aplicações de supervisão
- 12. Projetar o comando de uma máquina elétrica com autómato programável
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a projetar e implementar uma instalação industrial com autómatos programáveis, do primeiro esquema até ao comando de uma máquina elétrica a funcionar, com aquisição de dados e supervisão. O autómato programável (PLC, do inglês Programmable Logic Controller) é o coração de praticamente toda a automação industrial moderna: linhas de montagem, packaging, transporte, tratamento de água, elevadores, robótica. Dominar a sua estrutura, a sua programação e a sua integração com sensores e sistemas de supervisão é a competência central de um técnico de eletrónica e automação.
O percurso segue a lógica de um projeto real: primeiro entendemos porque existe o autómato e como se estrutura uma instalação; depois aprendemos a programar (linguagens, Ladder, funções avançadas); a seguir tratamos dos sinais do processo real (entradas analógicas e rápidas); depois montamos aquisição de dados e integramos sensores e protocolos; por fim implementamos supervisão e projetamos o comando de uma máquina elétrica, sempre com segurança e normas.
Objetivos de aprendizagem (referencial): definir a estrutura de uma instalação industrial com autómatos programáveis; montar sistemas de aquisição de dados para autómatos programáveis; implementar aplicações de supervisão de uma instalação com autómatos programáveis; e projetar o comando de uma máquina elétrica com autómato programável.
1. Autómatos programáveis: aplicações e vantagens
Um autómato programável é um computador industrial que lê entradas (sensores, botões), executa um programa guardado em memória e atualiza saídas (motores, válvulas, sinalização), em ciclo contínuo. O ciclo de funcionamento chama-se ciclo de varrimento (scan cycle): ler entradas, executar o programa, atualizar saídas, e repetir, muitas vezes por segundo.
Campos de aplicação
Os autómatos programáveis aplicam-se onde há necessidade de controlar sequências ou processos de forma fiável e repetível: linhas de montagem industriais, sistemas de embalamento, transportadores, semáforos, elevadores, estações de tratamento de água e efluentes, robótica industrial, climatização de edifícios (quando comandada por lógica programável).
Vantagens sobre o comando manual ou cablado
| Vantagem | Explicação |
|---|---|
| Flexibilidade | mudar o comportamento é alterar o programa, não recablar |
| Fiabilidade | menos peças móveis do que um comando eletromecânico |
| Diagnóstico | regista falhas e estados, facilita a manutenção |
| Escalabilidade | integra novos módulos e redes sem refazer a instalação |
| Produtividade | ciclos mais rápidos e consistentes |
Exemplo resolvido
Uma empresa de logística tem um sistema de triagem de encomendas comandado por relés. Cada vez que muda o critério de triagem (por peso, por destino), um eletricista tem de recablar o quadro, o que demora dias e pára a linha. Ao substituir por um autómato programável, o mesmo hardware de entradas e saídas (sensores de peso, leitores de código, desviadores) mantém-se; muda-se apenas o programa, o que reduz o tempo de reconfiguração de dias para horas.
2. Sistemas cablados vs. sistemas programados
Lógica cablada
Antes do autómato, a automação fazia-se com lógica cablada: relés, contactores e temporizadores ligados fisicamente segundo o esquema de comando. Cada função (arranque, paragem, temporização, intertravamento) corresponde a um componente físico. Alterar o funcionamento implica recablar o quadro.
A lógica cablada ainda hoje se usa em circuitos de segurança críticos (paragens de emergência, cortinas óticas), precisamente porque não depende de um programa que possa ter um erro ou uma falha de comunicação.
Lógica programada
No sistema programado, os relés de comando são substituídos por um autómato: a lógica passa a residir num programa, e a mesma cablagem física de entradas e saídas serve para muitos programas diferentes. A linguagem Ladder (esquema de contactos) foi desenhada deliberadamente para se parecer com um esquema elétrico, para que os eletricistas formados em lógica cablada transitassem com facilidade.
Quadro comparativo
| Característica | Cablado | Programado |
|---|---|---|
| Alterar a lógica | recablar | reprogramar |
| Diagnóstico | difícil, componente a componente | facilitado, registo de estados |
| Custo inicial | baixo, para lógicas simples | maior, mas escalável |
| Uso típico hoje | segurança crítica | controlo geral do processo |
3. Estrutura de uma instalação industrial com autómatos programáveis
Definir a estrutura de uma instalação industrial com autómatos programáveis é a primeira realização da UC, e organiza-se em camadas:
- Campo: sensores, botoneiras, atuadores, motores.
- Interface: módulos de entradas e saídas (E/S), cartas especiais (analógicas, rápidas).
- Controlo: CPU do autómato, memória, programa.
- Supervisão: consola gráfica, painel tátil, aplicação SCADA.
- Comunicação: rede de campo entre módulos, autómato e supervisão.
Layout de uma instalação industrial
O layout organiza fisicamente a instalação, considerando:
- Proximidade ao processo, para reduzir comprimento de cabos e facilitar o diagnóstico.
- Acessibilidade para manutenção, sem desligar toda a linha.
- Proteção ambiental: armários com grau de proteção (IP) adequado a pó, água ou vibração.
- Separação física entre cablagem de sinal (24 V DC, sensores) e cablagem de potência (motores), para reduzir interferências eletromagnéticas.
- Reserva de espaço no quadro e na tabela de E/S para expansões futuras.
Exemplo resolvido
Numa linha de engarrafamento com três máquinas, o layout coloca o autómato principal e a consola de supervisão numa sala técnica central, com remotas de entradas e saídas junto a cada máquina, ligadas por rede de campo. Isto evita puxar dezenas de cabos de sinal ao longo de toda a linha e simplifica a manutenção de cada máquina isoladamente.
4. O caderno de encargos de automatismos
O caderno de encargos é o documento que especifica, antes de qualquer desenho ou programação, o que a instalação automatizada tem de fazer:
- Objetivo do processo: o que a máquina ou a linha produz ou transforma.
- Entradas e saídas: lista de sensores, atuadores e sinalização.
- Modos de funcionamento: manual, automático, emergência, manutenção.
- Restrições de segurança: paragens de emergência, intertravamentos obrigatórios.
- Critérios de aceitação: como se verifica que a instalação cumpre o pedido.
O caderno de encargos funciona como contrato entre o cliente e o técnico. O que não está especificado não se assume nem se inventa.
Do caderno de encargos ao projeto
O projeto e realização de sistemas baseados em autómatos programáveis segue um fluxo metódico:
- Analisar o caderno de encargos e levantar entradas e saídas.
- Definir a estrutura da instalação (camadas, layout, módulos).
- Selecionar o autómato e os módulos de E/S adequados.
- Programar a lógica de funcionamento.
- Testar em simulação e depois em campo, com a máquina em vazio primeiro.
- Documentar (esquemas, lista de E/S, manual de utilização) e entregar ao cliente.
Saltar etapas, sobretudo a análise do caderno de encargos, é a causa mais comum de retrabalho num projeto de automação.
5. Programas e linguagens de programação de autómatos
Um programa de autómato organiza-se em blocos: o programa principal, sub-rotinas e, em autómatos mais avançados, blocos de função reutilizáveis. Corre em ciclo (scan): o autómato repete o programa do início ao fim, continuamente, atualizando entradas e saídas a cada volta.
A norma IEC 61131-3
A IEC 61131-3 normaliza as linguagens de programação de autómatos, tornando a competência transferível entre fabricantes:
| Linguagem | Tipo | Uso típico |
|---|---|---|
| Ladder (LD) | gráfica | lógica de contactos, a mais usada |
| Function Block Diagram (FBD) | gráfica | blocos funcionais interligados |
| Sequential Function Chart (SFC) | gráfica | sequências de etapas |
| Structured Text (ST) | textual | cálculo e lógica complexa |
| Instruction List (IL) | textual | instruções tipo assembly, em desuso |
Programação de autómatos: elementos base
Todo o programa trabalha com: entradas digitais (I, on/off), saídas digitais (Q), marcas internas (M, memória auxiliar), temporizadores (TON, ligar com atraso; TOF, desligar com atraso) e contadores (CTU, contar a subir; CTD, contar a descer).
6. Programação em Ladder
O Ladder representa a lógica como um esquema elétrico entre duas barras verticais de alimentação. Contactos representam condições de entrada (-| |- normalmente aberto, -|/|- normalmente fechado); bobinas representam saídas ou marcas internas (-( )-). Cada linha (rung) lê-se da esquerda para a direita: se a condição é verdadeira, a saída ativa.
Exemplo resolvido: arranque/paragem de um motor com selo
Circuito clássico: botão de arranque S1 (normalmente aberto), botão de paragem S2 (normalmente fechado), contactor do motor KM1.
S1 S2 KM1
─| |─|/|─( )─
KM1
─| |─
Passo a passo:
- Ao premir S1, o contacto fecha e ativa a bobina KM1.
- O contacto auxiliar KM1, ligado em paralelo com S1, mantém a bobina ativa mesmo depois de largar o botão. Este mecanismo chama-se selo ou retenção.
- Ao premir S2 (normalmente fechado), o circuito abre e desativa KM1, independentemente do estado de S1.
Este rung é a base de praticamente todo o comando de motores em automação industrial, e reaparece, ampliado com intertravamentos, no comando de uma máquina com dois sentidos (capítulo 11).
7. Entradas analógicas de um autómato programável
As entradas analógicas leem grandezas contínuas do processo real (temperatura, pressão, nível, posição), convertidas em sinais elétricos normalizados:
| Sinal standard | Gama | Uso típico |
|---|---|---|
| Tensão | 0/10 V | sensores de curta distância |
| Tensão bipolar | -10/10 V | sinais com sentido, ex.: velocidade |
| Corrente | 0/20 mA | transmissores industriais |
| Corrente com zero vivo | 4/20 mA | o mais usado em ambiente industrial |
O sinal 4/20 mA é preferido porque o "zero vivo" (4 mA no valor mínimo) distingue um valor real de zero de uma avaria de cablagem: 0 mA significa sempre fio cortado ou sensor desligado, nunca um valor legítimo do processo.
Configuração de cartas analógicas e tratamento do sinal
Configurar uma carta de entradas analógicas implica: definir o tipo de sinal por canal (tensão ou corrente, gama), a resolução em bits, a escala de engenharia (converter o valor bruto lido em unidades reais como bar ou ºC), aplicar filtragem para reduzir ruído e definir limites de alarme.
Exemplo resolvido: escala de um transmissor de pressão
Um transmissor 4/20 mA mede 0 a 10 bar. A carta lê uma corrente de 12 mA. Qual a pressão real?
P = (I_lida - I_min) / (I_max - I_min) × (P_max - P_min)
P = (12 - 4) / (20 - 4) × (10 - 0)
P = 8 / 16 × 10 = 5 bar
A leitura de 12 mA corresponde a 5 bar. Este cálculo de escala é o mais frequente na configuração de sinais analógicos em automação industrial.
8. Entradas rápidas de um autómato programável
As entradas rápidas (high-speed inputs) capturam sinais que mudam demasiado depressa para o ciclo de varrimento normal, tipicamente impulsos de um encoder.
- Encoder incremental: gera impulsos por rotação; mede velocidade e posição relativa, mas perde a referência absoluta ao desligar.
- Encoder absoluto: cada posição tem um código único; mantém a posição real mesmo após um corte de energia.
- Sinais A e B em quadratura indicam o sentido de rotação (a ordem dos impulsos diz se roda para a frente ou para trás); o sinal Z (quando existe) marca uma referência de zero por volta.
Configuração e funções específicas das cartas rápidas
Configurar uma carta de entradas rápidas implica: definir o modo de contagem (simples, quadratura, com ou sem referência Z), a frequência máxima suportada em kHz, associar a contagem a uma variável do programa e configurar eventos que disparam ações imediatas, processadas em hardware dedicado, fora do ciclo normal de varrimento.
Exemplo resolvido
Um transportador tem um encoder incremental de 1000 impulsos por rotação, ligado a uma roda de medição com 200 mm de circunferência. Quantos milímetros percorre a correia por impulso?
distância por impulso = circunferência / impulsos por rotação
distância por impulso = 200 mm / 1000 = 0,2 mm/impulso
Se o autómato contar 5000 impulsos, a correia percorreu 5000 × 0,2 = 1000 mm, ou seja, um metro.
9. Programação de funções avançadas
Words e floating points
Além dos bits simples, o programa trabalha com tipos de dados maiores: word (registo de 16 bits, para valores inteiros como contagens ou códigos de estado), double word (32 bits) e floating point ou real (número com casas decimais, usado em cálculos de engenharia). Usar o tipo errado provoca overflow (o valor excede o que o registo suporta) ou perda de precisão (arredondar um decimal para inteiro).
Operações de comparação e operações matemáticas
As operações de comparação (maior que, menor que, igual, entre limites) alimentam alarmes e condições de disparo. As operações matemáticas (soma, subtração, multiplicação, divisão, raiz quadrada) fazem os cálculos de processo, como a escala de um sinal analógico.
Boa prática: com valores reais (decimais), evita-se a comparação de igualdade exata, porque arredondamentos podem impedir que dois valores "batam certo". Usa-se antes uma gama, por exemplo
Temperatura > 79.5 e Temperatura < 80.5.
Operações de indexação e sub-rotinas
A indexação acede a uma posição de uma tabela de dados através de uma variável, útil para percorrer receitas, históricos ou listas de produtos. As sub-rotinas são blocos de programa reutilizáveis, chamados a partir do programa principal, que evitam repetir código, podem receber parâmetros e organizam o programa por função (arranque, alarmes, comunicação).
Exemplo resolvido
Um alarme de temperatura alta deve disparar quando Temperatura > 80,0 ºC. Se a variável Temperatura estiver definida como word inteira em vez de real, uma leitura processada de 79,6 seria arredondada para 79 e o alarme não dispararia junto ao limite, criando um risco de segurança. A correção é sempre usar floating point para grandezas físicas contínuas.
10. Sistemas de aquisição de dados
Um sistema de aquisição de dados recolhe, regista e disponibiliza os valores de um processo ao longo do tempo. Sensores capturam a grandeza física; módulos de entradas e saídas convertem o sinal em valores digitais para o autómato; o registo histórico guarda os valores para análise posterior (tendências, relatórios, rastreabilidade).
Montar sistemas de aquisição de dados para autómatos programáveis
Passos práticos, na ordem em que se aplicam num projeto real:
- Levantar as grandezas a medir e escolher os sensores adequados.
- Selecionar os módulos de entrada compatíveis (analógicas, digitais, rápidas).
- Cablar sensores e módulos, respeitando a separação entre sinal e potência.
- Configurar a escala e a frequência de amostragem de cada canal.
- Validar as leituras contra um instrumento de referência (multímetro, calibrador, osciloscópio).
A validação contra um instrumento de referência é o passo mais frequentemente esquecido, e é o que garante rigor na recolha de informações, um dos critérios de desempenho da UC.
11. Sensores, protocolos de comunicação e aplicações de supervisão
Configurar e integrar sensores e dispositivos de aquisição de dados
Cada família de sensores tem particularidades próprias de integração:
| Sensor | Grandeza | Saída típica |
|---|---|---|
| Indutivo / capacitivo | proximidade | digital (on/off) |
| Fotoelétrico | presença, contagem | digital, por vezes analógica |
| Termopar / PT100 | temperatura | milivolt / resistência, via módulo dedicado |
| Transmissor de pressão | pressão | 4/20 mA |
| Encoder | posição, velocidade | impulsos digitais rápidos |
Integrar um sensor é escolher o módulo certo para o seu tipo de sinal, respeitar a sua alimentação (24 V DC é o standard industrial), e confirmar a compatibilidade consultando sempre a folha técnica (datasheet).
Protocolos de comunicação industrial
Numa instalação com vários módulos, autómatos e consola de supervisão, a comunicação segue protocolos industriais normalizados:
| Protocolo | Características |
|---|---|
| Modbus (RTU/TCP) | simples, aberto, muito difundido |
| Profibus | rede de campo clássica, robusta |
| Profinet | Ethernet industrial, alta velocidade |
| Ethernet/IP | Ethernet industrial, comum em redes de origem americana |
Aplicar protocolos de comunicação industrial é uma aptidão explícita do referencial: garantir que autómatos, módulos remotos e a consola de supervisão "falam a mesma língua", com o endereçamento e a velocidade corretos.
Implementar aplicações de supervisão de uma instalação com autómatos programáveis
Uma aplicação de supervisão apresenta o estado do processo ao operador e permite atuar sem aceder diretamente ao programa. HMI (Human-Machine Interface) é o painel local junto à máquina; SCADA (Supervisory Control and Data Acquisition) supervisiona toda a instalação, muitas vezes num computador central.
Passos para implementar uma aplicação de supervisão:
- Desenhar o sinóptico: representação gráfica fiel ao processo real.
- Associar cada elemento gráfico a uma variável do autómato (tag).
- Configurar alarmes com limites, prioridades e mensagens claras.
- Definir níveis de acesso: quem só visualiza, quem pode atuar.
- Testar a comunicação entre a consola e o autómato antes de entregar ao operador.
12. Projetar o comando de uma máquina elétrica com autómato programável
Esta é a realização de síntese da UC, que junta estrutura, programação, sinais, aquisição de dados e supervisão num único projeto:
- Levantar os elementos da máquina: motores, sensores de fim de curso, botoneiras, sinalização.
- Definir os modos de funcionamento: manual, automático, emergência.
- Desenhar o esquema de potência (contactores, proteções) e o esquema de comando (Ladder).
- Programar intertravamentos, para impedir combinações perigosas.
- Testar em vazio, sem a carga real acoplada, antes do ensaio final.
Exemplo resolvido: comando de um motor trifásico com dois sentidos de marcha
Motor com marcha à direita (contactor KM1) e à esquerda (contactor KM2), botões S1 (direita), S2 (esquerda) e S3 (paragem geral), com intertravamento elétrico e mecânico.
S1 S3 KM2 KM1
─| |─|/|─|/|─( )─
KM1
─| |─
S2 S3 KM1 KM2
─| |─|/|─|/|─( )─
O contacto KM2, normalmente fechado, presente no rung de KM1, impede que os dois sentidos ativem em simultâneo, e o mesmo se aplica em espelho no rung de KM2. S3 corta ambos os sentidos, servindo de paragem geral. No esquema de potência, um intertravamento mecânico entre os dois contactores reforça o intertravamento lógico: mesmo que o programa falhasse, os contactores não poderiam fechar ao mesmo tempo fisicamente. Este exemplo reúne Ladder (bloco 6), intertravamento e segurança, e representa o culminar da unidade curricular.
Erros comuns
- Começar a programar sem caderno de encargos. Sem ele, o técnico decide sozinho o que a instalação deve fazer, e o resultado raramente coincide com a expectativa do cliente.
- Confundir sinal em tensão com sinal em corrente. Em distâncias longas, usa-se sempre corrente (4/20 mA), mais imune a interferências e a quedas de tensão no cabo.
- Usar entrada digital normal para contar impulsos rápidos de um encoder. Perde contagens; é preciso uma carta de entradas rápidas dedicada.
- Usar variáveis inteiras (word) para grandezas contínuas. Provoca arredondamentos que falseiam alarmes e cálculos.
- Confiar só no intertravamento lógico num comando de motor com dois sentidos, sem reforço mecânico nos contactores.
- Misturar cablagem de sinal com cablagem de potência na mesma calha, introduzindo ruído elétrico nas leituras.
- Entregar a instalação sem atualizar os esquemas depois de alterações feitas em obra.
Glossário
- Autómato programável (PLC) · computador industrial que lê entradas, executa um programa e comanda saídas.
- Ciclo de varrimento (scan cycle) · ciclo repetido de leitura, processamento e escrita executado pelo autómato.
- Ladder (LD) · linguagem gráfica de programação em forma de esquema de contactos.
- IEC 61131-3 · norma internacional das linguagens de programação de autómatos.
- Selo / retenção · contacto auxiliar que mantém uma saída ativa depois de largar o botão de arranque.
- Intertravamento · condição lógica ou mecânica que impede combinações perigosas de saídas.
- 4/20 mA (zero vivo) · sinal analógico em corrente cujo valor mínimo é 4 mA, permitindo distinguir zero real de avaria.
- Encoder incremental / absoluto · sensor de posição/velocidade por impulsos (incremental) ou por código único de posição (absoluto).
- Word / floating point · tipos de dados inteiro (16 bits) e decimal usados no programa.
- Sub-rotina · bloco de programa reutilizável, chamado a partir do programa principal.
- HMI / SCADA · interface homem-máquina local (HMI) e supervisão centralizada de toda a instalação (SCADA).
- Sinóptico · representação gráfica animada do processo numa aplicação de supervisão.
- Modbus / Profibus / Profinet · protocolos de comunicação industrial.
- Caderno de encargos · documento que especifica o funcionamento exigido de uma instalação automatizada.
Síntese
Uma instalação com autómatos programáveis nasce de um caderno de encargos e de uma estrutura bem definida (campo, interface, controlo, supervisão, comunicação), programa-se em Ladder ou noutra linguagem da IEC 61131-3, trata os sinais reais do processo através de entradas analógicas e rápidas, organiza a lógica avançada com words, floating points, comparações e sub-rotinas, recolhe informação através de sistemas de aquisição de dados e sensores integrados por protocolos de comunicação industrial, apresenta-a ao operador por aplicações de supervisão (HMI/SCADA), e culmina no projeto do comando de uma máquina elétrica real, sempre com segurança e normas aplicáveis. Este é o percurso completo de um técnico de automação, do papel ao quadro elétrico.
Exercícios resolvidos
1. Um técnico substitui um comando de relés por um autómato, mas mantém os contactores de potência. Porquê?
Resolução: o autómato comanda sinais de baixa potência (24 V DC); os contactores continuam a comutar a potência real do motor. O autómato substitui a lógica de comando, não a parte de potência, que continua a precisar de contactores dimensionados para a corrente do motor.
2. Um transmissor 4/20 mA mede 0 a 50 bar. A carta analógica lê 16 mA. Qual a pressão?
Resolução:
P = (16 - 4) / (20 - 4) × (50 - 0) = 12/16 × 50 = 37,5 bar.
3. Um encoder incremental de 500 impulsos por rotação está ligado a uma roldana de 100 mm de circunferência. Depois de 2500 impulsos, quantos milímetros percorreu a correia?
Resolução: distância por impulso
= 100/500 = 0,2 mm; percurso= 2500 × 0,2 = 500 mm.
4. Porque é que um circuito de paragem de emergência é normalmente cablado, e não apenas programado?
Resolução: porque a segurança crítica não pode depender de um programa que possa ter um erro, travar ou perder comunicação. A lógica cablada atua diretamente, independentemente do estado do autómato.
5. Um programa usa uma variável inteira (word) para guardar uma temperatura com casas decimais. Que problema isto causa, e como se resolve?
Resolução: causa perda de precisão por arredondamento, o que pode falsear alarmes perto do limite. Resolve-se usando uma variável do tipo floating point (real) para qualquer grandeza contínua do processo.
6. Numa instalação com autómato central e três máquinas remotas, que tipo de protocolo se espera encontrar, e porquê?
Resolução: um protocolo de rede de campo ou Ethernet industrial, como Modbus, Profibus ou Profinet, para ligar o autómato central às remotas de entradas e saídas de cada máquina, garantindo endereçamento correto e comunicação fiável a distância.