Sebenta · Desenvolver e executar projetos de eletrónica (UC00648)
- Introdução
- 1. O ciclo de um projeto de eletrónica
- 2. Diagrama de blocos
- 3. Diagrama de estados
- 4. Descritivo e especificações do projeto
- 5. Circuitos eletrónicos: tipos e aplicações
- 6. Datasheets: leitura e consulta
- 7. Dimensionamento de fontes de alimentação
- 8. Software de simulação: seleção e configuração
- 9. Simulação: análise transiente, de frequência e lógica
- 10. Interpretação de resultados e otimização
- 11. Implementação física em breadboard
- 12. Osciloscópio e multímetro
- 13. Desenho e fabrico de circuitos impressos
- 14. Soldadura de componentes
- 15. Fechar o projeto: normas, segurança e revisão final
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a conduzir um projeto de eletrónica do início ao fim: perceber o que o cliente precisa, planear o sistema em blocos e estados, desenhar e simular o circuito, montá-lo em breadboard, medir com osciloscópio e multímetro, e por fim desenhar e fabricar a placa de circuito impresso (PCB), com soldadura de componentes convencionais, SMD e BGA. É o trabalho de um técnico de eletrónica e comunicações em empresas de instalação e reparação de equipamentos elétricos e eletrónicos, ou num departamento de assistência técnica.
O percurso segue sempre a mesma ordem profissional: primeiro especifica-se o que o sistema tem de fazer, depois planeia-se com diagramas de blocos e de estados, desenha-se o esquema com componentes escolhidos a partir de datasheets, simula-se para validar antes de gastar material, prototipa-se em breadboard com instrumentos de medida, e só no fim se fabrica a placa definitiva, com soldadura e tratamento antioxidante.
Objetivos de aprendizagem (referencial): elaborar o diagrama de blocos do sistema para os objetivos do projeto; simular o funcionamento do circuito projetado; desenhar e revelar placas de circuito impresso de suporte ao projeto, revelando autonomia, adequando componentes e configurações à função do circuito, respeitando regras e procedimentos técnicos e cumprindo as normas de proteção ambiental e de segurança e saúde no trabalho.
1. O ciclo de um projeto de eletrónica
Um projeto de eletrónica não começa a desenhar-se ao acaso: segue um ciclo com etapas bem definidas, cada uma dependente da anterior.
Onde se desenvolvem projetos
- Empresas de instalação e reparação de equipamentos elétricos e eletrónicos.
- Departamentos de assistência técnica de empresas de diversos setores de atividade: indústria, comunicações, saúde, automóvel, consumo.
As sete etapas
- Especificar: descritivo e especificações técnicas do que o sistema tem de fazer.
- Planear: diagrama de blocos e, quando há comportamento sequencial, diagrama de estados.
- Desenhar: esquema elétrico com componentes escolhidos a partir de datasheets.
- Simular: validar o comportamento no software antes de montar fisicamente.
- Prototipar: montar em breadboard e confirmar com osciloscópio e multímetro.
- Fabricar: desenhar, revelar, furar e soldar a placa de circuito impresso definitiva.
- Documentar e entregar: esquema, PCB, lista de materiais e resultados de teste.
Um cliente pede um sistema de alarme com sensor de presença. O técnico não pega logo no ferro de soldar: primeiro escreve o que o sistema tem de fazer (especificar), depois desenha o diagrama de blocos (sensor, condicionamento, controlo, atuador, alimentação), simula o circuito de temporização, monta em breadboard para confirmar, e só depois desenha e fabrica a placa final.
Saltar etapas custa caro: um circuito fabricado sem simular pode chegar à placa final com um erro que seria gratuito de apanhar no simulador.
2. Diagrama de blocos
O diagrama de blocos é a primeira representação visual de um sistema: mostra as funções e como se ligam, sem entrar no detalhe de componentes. É a realização central do início de qualquer projeto: "elaborar o diagrama de blocos do sistema para os objetivos do projeto".
- Cada bloco representa uma função (alimentar, condicionar sinal, controlar, atuar, comunicar).
- As setas mostram o fluxo de sinal, dados ou energia entre blocos.
- Constrói-se a partir dos objetivos: primeiro definem-se as funções necessárias, só depois se desenham os blocos que as realizam.
- É o ponto de partida para o esquema elétrico detalhado de cada bloco.
Exemplo resolvido: diagrama de blocos de um alarme
Objetivo: alarme que soa quando um sensor de presença deteta movimento, com temporização de armar/desarmar.
[Sensor PIR] → [Condicionamento de sinal] → [Microcontrolador]
│
[Temporização armar/desarmar] ──┤
│
[Atuador (buzzer)]
[Fonte de alimentação] → alimenta todos os blocos acima
Cada bloco é depois desenvolvido em esquema elétrico próprio, com componentes reais escolhidos por datasheet. A fonte de alimentação é sempre um bloco transversal: alimenta todos os outros e por isso nunca fica de fora do diagrama, mesmo que pareça "óbvia".
3. Diagrama de estados
Quando o sistema tem comportamento sequencial (o que faz depende não só das entradas atuais mas também do que já aconteceu antes), o diagrama de blocos não chega. É preciso o diagrama de estados.
Conceitos
- Estado: uma situação estável do sistema (ex.: "desarmado", "armado", "em alarme").
- Transição: seta entre estados, sempre rotulada com a condição que a provoca.
- Estado inicial: assinalado de forma distinta, normalmente com uma seta de entrada sem origem.
O diagrama de blocos mostra a estrutura; o diagrama de estados mostra o comportamento ao longo do tempo. São representações diferentes e complementares do mesmo sistema.
Exemplo resolvido: diagrama de estados do alarme
sensor OK
┌──────────────────┐
▼ │
[DESARMADO] ──armar──► [ARMADO] ──deteção──► [EM ALARME]
▲ │
└───────────── desarmar (código) ──────────────┘
- DESARMADO: sistema em repouso, ignora o sensor.
- ARMADO: aguarda deteção de movimento do sensor.
- EM ALARME: buzzer ativo até se introduzir o código correto.
Este diagrama torna-se depois a base direta da lógica implementada em breadboard (circuitos sequenciais) ou no microcontrolador.
4. Descritivo e especificações do projeto
O descritivo explica em texto o que o sistema faz; as especificações técnicas traduzem isso em valores concretos e verificáveis. Funcionam como um contrato entre quem pede e quem desenvolve.
Estrutura de um descritivo de projeto
| Secção | Conteúdo |
|---|---|
| Objetivo | o que o sistema resolve, para quem |
| Contexto de uso | ambiente, condições, restrições |
| Requisitos funcionais | comportamento esperado, em linguagem clara |
| Requisitos técnicos | valores, normas, tolerâncias |
| Diagrama de blocos | visão estrutural |
| Diagrama de estados | visão comportamental, se aplicável |
| Lista de materiais previstos | componentes principais |
| Critérios de aceitação | como se testa e valida o resultado no fim |
Especificações vagas como "deve ser rápido" ou "deve ser fiável" não servem para nada: no fim do projeto ninguém consegue verificar se foram cumpridas. Uma especificação boa tem sempre um número: "o sensor deve detetar movimento até 5 metros, com ângulo de 110°".
O descritivo escreve-se antes de desenhar o esquema, não depois. É também o documento que se atualiza sempre que algo muda ao longo do projeto.
5. Circuitos eletrónicos: tipos e aplicações
Saber que tipo de circuito o projeto exige determina os componentes a escolher, o software de simulação e as técnicas de fabrico a usar.
Famílias de circuitos
| Tipo | Característica | Exemplo de aplicação |
|---|---|---|
| Analógico | sinais contínuos, qualquer valor | amplificadores, fontes lineares |
| Digital | sinais discretos, 0 ou 1 | lógica, microcontroladores |
| Misto | combina analógico e digital | conversores A/D, sensores |
| Comunicações | transmite/recebe sinal | rádio, redes, telemetria |
Dentro dos circuitos digitais distinguem-se ainda:
- Combinatórios: a saída depende só das entradas atuais (ex.: uma porta lógica).
- Sequenciais: a saída depende também do estado anterior, têm memória (ex.: um contador, um flip-flop).
Aplicações por setor
- Indústria e automação: controlo de processos, autómatos, sensores e atuadores.
- Comunicações: transmissão de dados, redes, rádio frequência.
- Consumo: eletrodomésticos, carregadores, iluminação LED.
- Automóvel: controlo de motor, sensores, sistemas de segurança.
- Saúde: equipamento de monitorização, instrumentação de precisão.
Cada setor impõe normas próprias (segurança, compatibilidade eletromagnética, ambiente) que condicionam a escolha de componentes e o próprio desenho do circuito. Um circuito para uso médico exige margens de segurança muito mais apertadas do que um brinquedo.
6. Datasheets: leitura e consulta
A datasheet (ficha técnica) é o documento oficial do fabricante com todas as especificações de um componente. Consultá-la bem evita escolher o componente errado ou usá-lo fora dos seus limites.
Estrutura típica de uma datasheet
- Descrição geral e aplicações.
- Características máximas absolutas: limites que nunca podem ser ultrapassados, mesmo por instantes, sob pena de destruir o componente.
- Características elétricas: valores típicos de funcionamento normal.
- Pinout: função de cada terminal ou pino.
- Diagrama de blocos interno (nos circuitos integrados).
- Curvas de desempenho: gráficos, por exemplo ganho em função da frequência.
- Notas de aplicação: circuitos de exemplo e recomendações do fabricante.
Não confundir "características máximas absolutas" com "valores de funcionamento normal". As máximas são limites de destruição do componente, não valores recomendados de uso; o funcionamento normal fica sempre bem abaixo delas.
Técnicas de consulta rápida
- Ir direto ao pinout e à tabela de características elétricas primeiro; o texto introdutório fica para dúvidas.
- Usar o índice ou os marcadores do PDF para saltar para a secção certa.
- Comparar sempre os valores da datasheet com as especificações do projeto.
- Confirmar o encapsulamento (footprint): o mesmo componente tem variantes THT e SMD, com pinouts diferentes.
- Guardar a datasheet junto do projeto, tal como as bibliotecas de componentes no software de desenho.
7. Dimensionamento de fontes de alimentação
Dimensionar uma fonte é calcular os valores que garantem que o circuito recebe a tensão e a corrente certas, com margem de segurança.
Procedimento
- Levantar a carga total: somar a corrente de todos os blocos, retirada da datasheet de cada componente.
- Definir a tensão de saída exigida pelo bloco mais sensível.
- Escolher o tipo de fonte: linear (mais simples, menos ruído) ou comutada (mais eficiente, mais compacta).
- Selecionar o regulador ou conversor com margem sobre a corrente máxima (tipicamente +30 a +50%).
- Calcular a dissipação térmica do regulador, se linear.
Exemplo resolvido: fonte linear com 7805
O circuito precisa de 5 V e 300 mA para alimentar um microcontrolador e sensores. A entrada, vinda de um transformador e retificador, é 9 V DC não regulados.
- O regulador 7805 dá 5 V fixos e suporta até 1 A: margem larga acima dos 300 mA necessários.
- Dissipação de potência: P = (V_in − V_out) × I = (9 − 5) × 0,3 = 1,2 W.
- A datasheet do 7805 indica a resistência térmica junção-ambiente: sem dissipador, o componente aquece acima do limite seguro para esta dissipação.
- Decisão: aplicar um pequeno dissipador de calor ao regulador.
Se a entrada fosse 12 V em vez de 9 V, a dissipação subiria para P = (12 − 5) × 0,3 = 2,1 W, tornando o dissipador ainda mais necessário. O cálculo, apoiado nos valores da datasheet, é quem decide.
8. Software de simulação: seleção e configuração
Critérios de seleção
Nem todo o software de simulação serve para todos os projetos:
- Tipo de circuito: analógico (motor SPICE), digital (simuladores lógicos), misto (ferramentas híbridas).
- Biblioteca de componentes: se tem os componentes reais do projeto ou exige criar modelos de raiz.
- Precisão do motor de simulação: uns são mais fiéis à física real do que outros.
- Custo e licenciamento: livre (KiCad, LTspice, Falstad) ou comercial (Proteus, Multisim).
- Compatibilidade com o resto do fluxo, do esquema ao PCB.
Configuração e montagem do circuito em simulação
- Seleção de componentes da biblioteca, com o valor e encapsulamento certos.
- Configuração de parâmetros conforme a datasheet: tensão máxima, tolerância, modelo do componente.
- Ligação de componentes: fios e nós corretos, terra comum, fontes bem referenciadas.
- Correr a verificação elétrica (ERC) antes de simular.
Um circuito mal configurado dá resultados de simulação sem sentido, mesmo que o esquema pareça correto à vista.
9. Simulação: análise transiente, de frequência e lógica
Antes de correr qualquer simulação, configuram-se as condições: fonte de estímulo (DC, AC, pulso, rampa), duração ou gama de frequências, sondas de medição e passo de simulação.
Análise transiente
Mostra como o circuito evolui ao longo do tempo. É a análise mais usada para observar formas de onda.
Circuito RC com R = 1 kΩ e C = 1 µF, alimentado por um degrau de 5 V. Configura-se a fonte para saltar de 0 V para 5 V em t = 0, corre-se a análise transiente até 5 ms, e coloca-se uma sonda no nó de saída. O resultado é uma curva exponencial de carga, com constante de tempo τ = R×C = 1 ms.
Serve para estudar arranques, temporizações, oscilações e o comportamento de circuitos digitais no tempo.
Análise de frequência
Mostra como o circuito responde a diferentes frequências do sinal de entrada, essencial para filtros e amplificadores. O resultado típico é um diagrama de Bode, com ganho (dB) e fase em função da frequência, e permite identificar a frequência de corte de um filtro.
Num filtro passa-baixo RC, a frequência de corte é fc = 1/(2πRC); na simulação AC, o ganho cai 3 dB exatamente nessa frequência, como previsto pela fórmula.
Simulação lógica
Para circuitos digitais, mostra os níveis (0/1) ao longo do tempo, num cronograma, com cada sinal numa linha e as transições marcadas. Serve para verificar tabelas de verdade de circuitos combinatórios e sequências de estados de circuitos sequenciais, e permite detetar atrasos de propagação e glitches (transições curtas e indesejadas).
10. Interpretação de resultados e otimização
Simular só tem valor se o resultado for comparado com o que se esperava.
Procedimento de interpretação
- Antes de simular, prever o resultado (cálculo ou tabela de verdade).
- Correr a simulação.
- Comparar ponto a ponto: valores, tempos, formas de onda.
- Se bate certo, o esquema está validado para essa condição.
- Se não bate, procurar a causa: erro de ligação, componente mal configurado, ou o próprio cálculo previsto estava errado.
Deteção de anomalias
| Sintoma na simulação | Causa provável |
|---|---|
| Tensão a 0 V onde não devia | ligação em falta ou terra mal referenciada |
| Oscilação inesperada | realimentação positiva não intencional |
| Saturação (sinal cortado) | ganho excessivo ou fonte mal dimensionada |
| Simulação não converge | modelo de componente incompatível ou erro de configuração |
Análise de desempenho e otimização
Depois de o circuito funcionar, otimiza-se: experimentam-se diferentes configurações (variar valores de componentes) e comparam-se métricas como consumo, ruído, tempo de resposta ou margem de estabilidade. Cada configuração testada deve ficar documentada, e a escolha final assenta em critérios objetivos, nunca em preferência pessoal.
11. Implementação física em breadboard
Depois de simular, o circuito passa para uma breadboard (placa de ensaios), sem soldar, para confirmar o comportamento com componentes reais.
A breadboard
- Tem linhas internas ligadas: normalmente grupos de 5 furos verticais na zona central, e barramentos horizontais para alimentação.
- Permite montar e desmontar rapidamente, ideal para testar antes do fabrico definitivo.
- Serve tanto para circuitos combinatórios (portas lógicas, descodificadores) como sequenciais (flip-flops, contadores, com memória de estado).
Nem todos os furos de uma linha horizontal estão necessariamente ligados: muitas breadboards dividem os barramentos de alimentação a meio. Confirma sempre com o multímetro em modo de continuidade antes de assumir.
Procedimento de montagem
- Seguir o esquema elétrico já simulado, componente a componente.
- Confirmar todas as ligações visualmente antes de alimentar.
- Testar secção a secção, não montar o circuito inteiro sem verificar por partes.
- Em circuitos sequenciais, confirmar o estado inicial antes de aplicar estímulos de teste.
- Registar os resultados e comparar com a simulação.
12. Osciloscópio e multímetro
O multímetro
Mede grandezas elétricas pontuais: tensão, corrente, resistência e continuidade.
| Grandeza | Como medir |
|---|---|
| Tensão (V) | sempre em paralelo com o componente ou nó |
| Corrente (A) | sempre em série, interrompendo o circuito |
| Resistência (Ω) | só com o circuito desligado da alimentação |
| Continuidade | apita quando há ligação (barramentos, trilhas) |
Medir corrente em paralelo (como se fosse tensão) curto-circuita o multímetro e pode queimar o seu fusível interno. Medir resistência com o circuito ligado dá valores errados e pode danificar o aparelho.
O osciloscópio
Mostra a forma de onda de um sinal ao longo do tempo, o que o multímetro não consegue: variações rápidas, ruído, transitórios.
- Base de tempo: escala horizontal (tempo por divisão).
- Escala vertical: tensão por divisão.
- Trigger (disparo): fixa a imagem num ponto de referência do sinal.
- Sonda: liga-se ao ponto de teste e à massa (GND) do circuito.
Procedimento base: ligar a sonda → escolher a escala vertical e horizontal → ajustar o trigger → ler a forma de onda. Esquecer a garra de massa da sonda é o erro mais comum: dá leituras erradas ou muito ruidosas.
13. Desenho e fabrico de circuitos impressos
Processo e técnicas de desenho de PCB
Desenhar uma placa de circuito impresso (PCB) transforma o esquema elétrico simulado numa disposição física de componentes e trilhas de cobre.
- Colocação de componentes: agrupar por função, respeitar distâncias térmicas e mecânicas.
- Roteamento das trilhas: seguir o esquema, evitar cruzamentos, usar larguras adequadas à corrente prevista.
- Camadas (layers): face de componentes, face de solda, serigrafia, máscara de solda.
- Regras de desenho (design rules): distância mínima entre trilhas, diâmetro mínimo de furos.
Os comandos são semelhantes aos do desenho esquemático: colocar componente, traçar trilha, definir largura, criar plano de massa, e correr a verificação de regras (DRC) antes de dar o desenho por concluído.
Técnicas de execução de circuitos impressos
| Etapa | O que se faz |
|---|---|
| 1. Corte | cortar o laminado de cobre na dimensão da placa |
| 2. Desenho | transferir o layout para o cobre (transparência + insolação, ou impressora CNC) |
| 3. Tratamento de superfícies | limpar e preparar o cobre antes da revelação |
| 4. Impressão/revelação | banho em tanque de revelação, remove o cobre indesejado |
| 5. Furação | furos para componentes THT e vias |
| 6. Soldadura | fixar os componentes (ver capítulo seguinte) |
| 7. Tratamento antioxidante | verniz ou spray de proteção contra oxidação do cobre exposto |
Saltar o tratamento de superfícies costuma dar uma revelação irregular, por sujidade ou gordura no cobre. E a revelação usa produtos químicos corrosivos: exige sempre equipamento de proteção individual e extração de fumos.
14. Soldadura de componentes
Soldadura manual
Une eletricamente e mecanicamente um componente à placa, através de uma liga metálica fundida.
- Preparar o ferro de soldar à temperatura correta para o tipo de solda.
- Limpar e preparar os terminais e a trilha.
- Aquecer a junta (terminal + trilha), não apenas o fio de solda.
- Aplicar o fio de solda até formar um cone brilhante e uniforme.
- Retirar o calor e deixar arrefecer sem mexer no componente.
Uma solda "fria" (baça, granulada) parece colada mas é uma junta elétrica pouco fiável, e falha mais cedo ou mais tarde.
Soldadura SMD e BGA
- SMD (Surface Mount Device): componentes minúsculos, sem furos, soldados diretamente sobre pastilhas na superfície. Exige ferro de ponta fina, pasta de solda ou reflow, e por vezes lupa.
- BGA (Ball Grid Array): encapsulamento com bolas de solda escondidas sob o próprio componente, sem terminais visíveis.
- Reballing: processo de refazer as bolas de solda de um componente BGA antes de o reaplicar.
- Substituição em circuitos eletrónicos: remoção do BGA defeituoso (estação de retrabalho, ar quente) e colocação de um novo, alinhado com precisão.
Estas técnicas exigem mais cuidado e equipamento específico do que a soldadura THT convencional: um pequeno desalinhamento pode inutilizar o componente ou a própria placa.
15. Fechar o projeto: normas, segurança e revisão final
Revisão contra o descritivo
Antes de dar o projeto por concluído, revê-se tudo contra o descritivo do capítulo 4:
- As especificações foram cumpridas? Confirma-se com medições, não se assume.
- O diagrama de blocos e de estados correspondem ao circuito final?
- A placa passou por soldadura de qualidade e tratamento antioxidante?
- A documentação (esquema, PCB, lista de materiais, resultados de simulação e de medição) está completa?
Normas e segurança
- Equipamentos de Proteção Individual (EPI): óculos, luvas, avental, sempre que se solda ou se trabalha com químicos de revelação.
- Extração de fumos obrigatória durante a soldadura e a revelação de placas.
- Normas, regras técnicas e legislação aplicável: seguir sempre as regras do setor.
- Proteção ambiental: descarte correto de resíduos químicos e de placas rejeitadas.
Cumprir normas e segurança não é burocracia adicional: é uma condição de desempenho avaliada em toda a UC, tal como o rigor, a autonomia e a resolução de problemas.
Erros comuns
- Desenhar o esquema sem passar pelo diagrama de blocos: perde-se a visão de conjunto e é fácil esquecer um bloco inteiro (a fonte de alimentação é o caso mais comum).
- Escrever especificações vagas: sem números, ninguém consegue verificar no fim se foram cumpridas.
- Confundir características máximas absolutas com valores de funcionamento normal na datasheet.
- Saltar a simulação e ir direto ao fabrico: um erro de ligação barato de corrigir no simulador torna-se caro numa placa já fabricada.
- Medir corrente em paralelo no multímetro, curto-circuitando o aparelho.
- Esquecer a garra de massa da sonda do osciloscópio.
- Soldar SMD com o ferro e a ponta usados em THT, sem a temperatura e precisão adequadas.
- Saltar o tratamento antioxidante: o cobre exposto oxida e degrada a placa e as soldas ao longo do tempo.
- Dar o projeto por terminado assim que "funciona", sem confirmar contra as especificações escritas.
Glossário
- Diagrama de blocos: representação funcional de um sistema, sem detalhe de componentes.
- Diagrama de estados: representação do comportamento sequencial de um sistema.
- Descritivo: documento que explica o que o sistema faz e como.
- Datasheet: ficha técnica de um componente, com as suas especificações.
- THT / SMD / BGA: tipos de montagem de componentes: com furos, de superfície, e com bolas de solda ocultas.
- Reballing: processo de refazer as bolas de solda de um BGA.
- Análise transiente: simulação do comportamento de um circuito ao longo do tempo.
- Análise de frequência (AC): simulação da resposta de um circuito a diferentes frequências.
- Diagrama de Bode: gráfico de ganho e fase em função da frequência.
- Simulação lógica: simulação de circuitos digitais, com cronograma de níveis 0/1.
- Breadboard: placa de ensaios para montagem sem soldadura.
- PCB: placa de circuito impresso.
- Roteamento: traçado das trilhas de cobre de um PCB.
- DRC: verificação das regras de desenho de um PCB (design rule check).
- ERC: verificação elétrica de regras de um esquema (electrical rule check).
- Tratamento antioxidante: proteção do cobre exposto contra oxidação.
- EPI: equipamento de proteção individual.
Síntese
Um projeto de eletrónica segue sempre o mesmo ciclo: especificar (descritivo e especificações) → planear (diagrama de blocos e de estados) → desenhar (esquema, com componentes escolhidos por datasheet) → simular (transiente, frequência, lógica, com interpretação de resultados e otimização) → prototipar (breadboard, com osciloscópio e multímetro) → fabricar (desenho e execução do PCB, soldadura THT, SMD e BGA, tratamento antioxidante) → documentar e rever contra o que foi especificado. Cumprir normas, segurança e proteção ambiental atravessa todas as etapas, do primeiro esquema à última solda.
Exercícios resolvidos
1. Um circuito precisa de 5 V a 300 mA, alimentado por uma entrada de 9 V DC não regulados através de um 7805. Calcula a potência dissipada pelo regulador.
Resolução: P = (V_in − V_out) × I = (9 − 5) × 0,3 = 1,2 W. Com esta dissipação, é preciso confirmar na datasheet se o 7805 precisa de dissipador de calor para não ultrapassar a temperatura máxima de junção.
2. Que análise de simulação escolhes para ver a frequência de corte de um filtro passa-baixo, e porquê?
Resolução: a análise de frequência (AC), porque mostra o ganho e a fase do circuito ao longo de uma gama de frequências, num diagrama de Bode. A análise transiente mostra o comportamento no tempo, não a resposta em frequência.
3. Na simulação de um amplificador, o sinal de saída aparece "cortado" no topo e na base da onda. Qual a causa mais provável?
Resolução: saturação, normalmente por ganho excessivo ou por uma fonte de alimentação mal dimensionada que não dá margem para a amplitude do sinal. A correção passa por reduzir o ganho ou rever a tensão de alimentação.
4. Precisas de medir a corrente que atravessa uma resistência num circuito em breadboard. Como ligas o multímetro?
Resolução: em série, interrompendo o circuito nesse ponto para o multímetro medir toda a corrente que passa. Ligar em paralelo (como se mede tensão) curto-circuita o aparelho.
5. Que diferença há entre soldadura THT e soldadura SMD, e que cuidado adicional exige a soldadura BGA?
Resolução: a soldadura THT usa componentes com terminais que atravessam furos na placa; a SMD usa componentes sem furos, soldados sobre pastilhas na superfície, com ferro de ponta fina. A BGA esconde as ligações sob o próprio componente, em bolas de solda: exige reballing ou substituição com estação de retrabalho e alinhamento de precisão, sem visibilidade direta das juntas.
6. Um colega desenhou o PCB diretamente a partir da ideia do circuito, sem passar por diagrama de blocos nem simulação. O que lhe dirias?
Resolução: que está a saltar etapas críticas do ciclo do projeto: sem o diagrama de blocos arrisca esquecer funções inteiras (como a fonte de alimentação), e sem simular só vai descobrir erros de ligação depois de fabricada a placa, o que é muito mais caro de corrigir do que num simulador.