Sebenta · Aplicar métodos estatísticos no controlo dos processos (UC00573)
- Introdução
- 1. O sistema de gestão da qualidade e o controlo estatístico
- 2. Estatística aplicada ao controlo de processos
- 3. Distribuições de dados: Normal e Poisson
- 4. Variabilidade dos processos e melhoria contínua
- 5. Cartas de controlo de variáveis e de atributos
- 6. Interpretar a carta e agir: da tendência à ação corretiva
- 7. Índices de capacidade do processo: Cp e Cpk
- 8. Sistemas de medição: análise e o estudo GRR
- 9. Amostragem, tendências e sazonalidade
- 10. Testes de hipóteses e intervalos de confiança
- 11. Ferramentas estatísticas avançadas: regressão linear e ANOVA
- 12. Normas da qualidade e a ligação ao sistema de gestão
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Numa fundição, nenhum processo produz duas peças rigorosamente iguais. A temperatura de vazamento oscila, a areia de moldação varia de lote para lote, um molde desgasta-se ao longo dos ciclos. O controlo estatístico de processos (CEP) é o conjunto de métodos que transforma essa variação natural em números que se podem controlar, em vez de decisões tomadas "a olho".
Esta sebenta segue o percurso de um técnico que aplica a estatística ao controlo da qualidade: primeiro descreve os dados (média, dispersão, distribuições), depois monitoriza o processo ao longo do tempo com cartas de controlo, avalia se o processo é capaz de cumprir as especificações (Cp e Cpk), confirma que confia nos sistemas de medição usados, e por fim usa ferramentas mais avançadas (amostragem, testes de hipóteses, regressão, ANOVA) para decidir com rigor onde agir.
Objetivos de aprendizagem (referencial): monitorizar e controlar os processos através de métodos estatísticos; identificar tendências e padrões nos processos; avaliar a capacidade do processo; implementar ações corretivas e preventivas.
1. O sistema de gestão da qualidade e o controlo estatístico
O sistema de gestão da qualidade (SGQ) de uma organização define como a qualidade é planeada, controlada e melhorada. O controlo estatístico de processos (CEP) é a metodologia que o SGQ usa para dar evidência numérica a esse controlo, em vez de depender só da inspeção final.
O CEP assenta num ciclo simples, repetido ao longo da produção:
Recolher dados → Registar numa carta → Comparar com limites → Decidir → Agir (corrigir/prevenir)
Este ciclo garante o alinhamento das ações de controlo com os objetivos estratégicos e com os requisitos da qualidade da organização: não se controla por controlar, controla-se para cumprir uma exigência do cliente ou da norma aplicável.
Porque intervir durante o processo, e não só no fim
Um controlo de qualidade que só inspeciona a peça acabada descobre o defeito depois de já ter sido produzido, muitas vezes em centenas de unidades. O CEP atua durante o processo: deteta uma deriva assim que ela começa, ainda antes de gerar peças fora de especificação. É esta antecipação que reduz custos, desperdício e retrabalho, um dos critérios de desempenho centrais desta unidade.
2. Estatística aplicada ao controlo de processos
Para descrever um conjunto de medições (ex.: a dureza de 20 peças fundidas, em HB), a estatística oferece duas famílias de medidas complementares.
Medidas de tendência central
| Medida | O que mostra | Como se obtém |
|---|---|---|
| Média (x̄) | o valor típico do conjunto | soma dos valores a dividir pelo número de valores (n) |
| Mediana | o valor do meio, com os dados ordenados | não é afetada por valores extremos |
| Moda | o valor que mais se repete | contagem de frequências |
Medidas de dispersão
| Medida | O que mostra |
|---|---|
| Amplitude (R) | diferença entre o maior e o menor valor da amostra |
| Desvio-padrão (σ, população; s, amostra) | quanto os valores se afastam, em média, do centro |
| Variância | o desvio-padrão elevado ao quadrado |
Exemplo resolvido · média e amplitude de um subgrupo
Cinco peças fundidas foram medidas quanto ao diâmetro de um furo (mm): 20,02; 20,05; 19,98; 20,01; 20,04.
- Soma = 20,02 + 20,05 + 19,98 + 20,01 + 20,04 = 100,10.
- Média = 100,10 / 5 = 20,02 mm.
- Amplitude = maior (20,05) menos menor (19,98) = 0,07 mm.
Este par (média, amplitude) de cada subgrupo é a matéria-prima da carta de controlo X̄-R do capítulo 4.
Controlar um processo é controlar os dois números ao mesmo tempo: a média (o processo está no alvo?) e a dispersão (o processo é consistente?). Um processo com a média certa mas com dispersão elevada continua a gerar peças fora de tolerância nos dois extremos.
3. Distribuições de dados: Normal e Poisson
A distribuição Normal
Quando um processo está estável, muitas características contínuas (dimensões, dureza, peso da peça fundida) distribuem-se segundo a distribuição Normal: a curva simétrica em forma de sino, definida por dois parâmetros, a média (μ) e o desvio-padrão (σ).
A regra empírica dos "3 sigma" resume o seu comportamento:
| Intervalo | Percentagem de valores |
|---|---|
| μ ± 1σ | cerca de 68% |
| μ ± 2σ | cerca de 95% |
| μ ± 3σ | cerca de 99,7% |
Esta regra é a base dos limites de controlo das cartas de variáveis (capítulo 4): os limites são colocados a 3σ do centro, precisamente porque, num processo Normal e estável, quase todos os pontos deveriam cair dentro desse intervalo.
A distribuição de Poisson
Quando o que se conta são eventos discretos raros num espaço ou intervalo fixo, como o número de porosidades numa peça fundida, aplica-se a distribuição de Poisson, caracterizada por um único parâmetro, λ (o número médio de ocorrências).
A Poisson é a base estatística das cartas de controlo de atributos do tipo c e u (capítulo 5): não se mede uma dimensão contínua, conta-se quantos defeitos aparecem.
Ler um histograma antes de qualquer carta
O histograma das medições recolhidas é sempre o primeiro gráfico a construir:
- Simétrico e centrado no alvo: processo bem ajustado, provavelmente Normal.
- Deslocado do alvo: a média do processo está desviada.
- Achatado e largo: dispersão elevada.
- Com dois picos (bimodal): pode indicar duas populações misturadas, como duas máquinas ou dois turnos com comportamento diferente.
4. Variabilidade dos processos e melhoria contínua
Toda a variação de um processo tem origem em duas famílias de causas, a distinção mais importante de todo o controlo estatístico.
Causas comuns vs causas especiais
| Causas comuns | Causas especiais | |
|---|---|---|
| Natureza | aleatórias, pequenas, muitas | identificáveis, isoladas |
| Origem | inerentes ao processo (vibração, material, ambiente) | eventos concretos (ferramenta gasta, erro do operador, lote defeituoso) |
| O que indicam | processo estável | processo fora de controlo |
| Como se trata | reduz-se com melhoria do processo em geral | elimina-se investigando e corrigindo a causa concreta |
A meta do controlo estatístico não é eliminar toda a variação (isso é impossível), é eliminar as causas especiais e, com o tempo, reduzir as causas comuns através da melhoria contínua. Reagir a cada oscilação normal como se fosse uma causa especial tem um nome, sobreajuste, e o efeito perverso de aumentar a variação em vez de a reduzir.
Melhoria contínua com instrumentos estatísticos
A melhoria contínua de processos usa os instrumentos e ferramentas de controlo estatístico (cartas, histogramas, índices de capacidade) para:
- Confirmar que o processo está estável (só causas comuns).
- Medir se essa estabilidade é suficiente para as especificações (capacidade, capítulo 6).
- Reduzir progressivamente a variação de causas comuns, quando o processo já está estável.
Um processo instável não se "melhora": primeiro estabiliza-se, eliminando causas especiais. Só depois faz sentido tentar melhorá-lo.
5. Cartas de controlo de variáveis e de atributos
A carta de controlo (desenvolvida por Walter Shewhart) é o principal instrumento do CEP: representa os valores do processo ao longo do tempo, com três linhas de referência.
| Linha | Significado |
|---|---|
| LC (linha central) | a média do processo |
| LSC (limite superior de controlo) | LC + 3σ |
| LIC (limite inferior de controlo) | LC − 3σ |
Os limites de controlo vêm dos dados do próprio processo, calculados a partir do seu histórico. Não são as tolerâncias do desenho da peça, que vêm do cliente. Confundir os dois é o erro mais comum de toda a matéria.
Cartas de variáveis: X̄-R
Para dados contínuos (dimensão, peso, dureza), a carta X̄-R combina duas cartas complementares construídas a partir de pequenos subgrupos regulares (tipicamente n=5):
- Carta X̄: acompanha a média de cada subgrupo; deteta desvios do centro do processo.
- Carta R: acompanha a amplitude de cada subgrupo; deteta alterações na dispersão.
Exemplo resolvido · carta X̄-R passo a passo
Uma fundição controla o diâmetro de um furo maquinado, recolhendo 5 peças por hora.
- Recolher 4 subgrupos de n=5 peças (um por hora) e medir o diâmetro (mm).
- Calcular a média (x̄) e a amplitude (R) de cada subgrupo.
- Calcular a linha central: a média das médias dos subgrupos (X̄̄) e a média das amplitudes (R̄).
- Calcular os limites: usando constantes de tabela (A2, D3, D4, específicas de n=5), LSC(X̄) = X̄̄ + A2·R̄ e LIC(X̄) = X̄̄ − A2·R̄; de forma semelhante para a carta R com D3 e D4.
- Traçar os pontos ao longo do tempo e verificar se caem dentro dos limites, sem padrões anormais.
A carta R controla-se antes da carta X̄: se a dispersão não está sob controlo, a leitura da média perde significado.
Cartas de atributos: p, np, c, u
Quando o que se avalia é uma característica qualitativa (conforme ou não conforme) ou uma contagem de defeitos, usam-se cartas de atributos:
| Carta | Mede | Tamanho da amostra | Distribuição base |
|---|---|---|---|
| p | proporção de peças defeituosas | variável | Binomial |
| np | número de peças defeituosas | fixo | Binomial |
| c | número de defeitos por unidade | fixo | Poisson |
| u | defeitos por unidade, área/tempo variável | variável | Poisson |
Numa fundição, a carta c aplica-se ao número de poros numa peça; a carta p, à proporção de peças rejeitadas por lote. A escolha depende de duas perguntas: o dado é medição ou contagem? conta-se peças ou defeitos?
6. Interpretar a carta e agir: da tendência à ação corretiva
Sinais de um processo fora de controlo
Um processo diz-se fora de controlo estatístico quando a carta mostra qualquer um destes sinais, mesmo sem nenhum ponto ultrapassar os limites:
- 1 ponto fora de LSC ou LIC.
- 7 ou mais pontos consecutivos do mesmo lado da linha central.
- Sequência crescente ou decrescente de vários pontos seguidos.
- Padrão cíclico repetido, associado a turnos, operadores ou lotes.
Identificar estas tendências e padrões, antes mesmo de um ponto sair fora dos limites, é uma das realizações centrais desta unidade e o que permite agir cedo.
Da deteção à ação corretiva e preventiva
- Investigar a causa no momento (registo de turno, lote, ferramenta, operador).
- Ação corretiva: eliminar a causa especial já identificada, para voltar o processo à normalidade.
- Ação preventiva: agir antes de o desvio acontecer, quando os dados apontam um risco previsível (ex.: desgaste conhecido de uma ferramenta).
- Registar a ocorrência e a ação tomada, alimentando a melhoria contínua.
Exemplo resolvido · diagnóstico de um padrão
Uma carta X̄ mostra 8 pontos consecutivos acima da linha central, todos dentro dos limites de controlo.
Resolução: apesar de nenhum ponto estar fora dos limites, 8 pontos seguidos do mesmo lado é um sinal estatístico de causa especial (o limiar de referência é 7). Investiga-se o que mudou nesse período: novo lote de matéria-prima, novo operador, ajuste não registado na máquina. A ação corretiva remove essa causa; se a causa for previsível (ex.: um novo lote é sabido ser mais duro), regista-se uma ação preventiva para o próximo lote semelhante.
7. Índices de capacidade do processo: Cp e Cpk
Um processo pode estar estatisticamente estável (sem causas especiais) e, mesmo assim, não conseguir cumprir as especificações do cliente. Avaliar a capacidade do processo responde a esta pergunta, comparando a variação natural do processo com os limites de especificação (LSE, limite superior; LIE, limite inferior) definidos no desenho da peça.
Este estudo só faz sentido depois de o processo estar estável (capítulo 6). Estudar a capacidade de um processo instável não tem significado, porque não se sabe qual é a sua variação "normal".
Fórmulas
| Índice | Fórmula | O que avalia |
|---|---|---|
| Cp | (LSE − LIE) / 6σ | se a dispersão cabe na tolerância, ignorando a centragem |
| Cpk | mín [ (LSE−μ)/3σ ; (μ−LIE)/3σ ] | dispersão e centragem face ao alvo |
Exemplo resolvido · Cp e Cpk
Um furo tem especificação 20 ± 0,3 mm (LSE = 20,3 mm; LIE = 19,7 mm). O processo, medido ao longo do tempo, apresenta μ = 20,05 mm e σ = 0,05 mm.
- Cp = (LSE − LIE) / 6σ = (20,3 − 19,7) / (6 × 0,05) = 0,6 / 0,3 = 2,0.
- Limite superior de Cpk = (LSE − μ) / 3σ = (20,3 − 20,05) / (3 × 0,05) = 0,25 / 0,15 = 1,67.
- Limite inferior de Cpk = (μ − LIE) / 3σ = (20,05 − 19,7) / (3 × 0,05) = 0,35 / 0,15 = 2,33.
- Cpk = mínimo dos dois = 1,67.
O Cp (2,0) é mais alto do que o Cpk (1,67): a dispersão do processo é pequena em relação à tolerância, mas o processo está ligeiramente desviado do centro (20,05 mm em vez de 20,00 mm).
Interpretar o valor e diagnosticar
| Valor de Cpk | Leitura |
|---|---|
| < 1,00 | processo incapaz, produz peças fora de especificação |
| 1,00 a 1,33 | capacidade marginal, requer vigilância apertada |
| 1,33 a 1,67 | capacidade adequada, padrão comum na indústria |
| > 1,67 | capacidade excelente |
Muitos cadernos de encargos da indústria exigem Cpk ≥ 1,33 como condição de fornecimento. O diagnóstico prático é sempre relativo: se Cp é baixo, o problema é a dispersão (reduzir causas comuns); se Cp é alto mas Cpk é baixo, o problema é a centragem (ajustar o processo ao alvo), não a variabilidade.
8. Sistemas de medição: análise e o estudo GRR
Antes de confiar em qualquer dado de processo, é preciso confiar no instrumento e no método que o gerou. A análise de sistemas de medição (MSA) avalia a adequação e a precisão dos equipamentos usados no controlo, como paquímetros, durómetros ou calibres.
Um sistema de medição impreciso pode fazer parecer que o processo varia, quando na realidade é o instrumento (ou a forma como é usado) que varia. Um índice Cpk excelente calculado com um sistema de medição mau não tem valor nenhum.
O estudo GRR
O GRR (Gauge Repeatability and Reproducibility, repetibilidade e reprodutibilidade) separa a variação total observada em três fontes:
| Fonte | Pergunta a que responde |
|---|---|
| Repetibilidade | o mesmo operador, medindo a mesma peça várias vezes, obtém o mesmo valor? |
| Reprodutibilidade | operadores diferentes, medindo a mesma peça, concordam entre si? |
| Variação do processo | quanto da variação total é mesmo do processo, e não do sistema de medição? |
Exemplo resolvido · planear um estudo GRR
Uma fundição quer validar o durómetro usado no controlo de dureza.
- Selecionar 3 operadores que usam o equipamento no dia a dia.
- Selecionar 10 peças que cubram a gama de dureza esperada no processo.
- Cada operador mede cada peça 3 vezes, em ordem aleatória, sem saber os resultados anteriores.
- Analisar estatisticamente: se a variação entre operadores (reprodutibilidade) ou entre repetições do mesmo operador (repetibilidade) for elevada face à variação total, o sistema de medição precisa de correção antes de se confiar nos dados que dele saem.
9. Amostragem, tendências e sazonalidade
Amostragem de processos
Medir 100% da produção é, em muitos processos de fundição, impraticável (ensaios destrutivos) ou económico apenas em parte. A amostragem resolve isto com rigor estatístico: recolhe-se um subconjunto representativo do lote ou período.
Boas práticas de amostragem:
- Aleatoriedade: cada peça do lote deve ter a mesma hipótese de ser escolhida, evitando amostrar sempre as peças mais acessíveis.
- Subgrupos racionais: agrupar peças produzidas em condições semelhantes (mesmo molde, mesmo turno), para não misturar causas de variação diferentes no mesmo subgrupo.
- Frequência ajustada ao risco: processos críticos ou instáveis pedem amostragem mais frequente.
- Registo completo: documentar quando, onde e como cada amostra foi recolhida, para permitir investigar mais tarde.
Tendências e sazonalidade
Além dos padrões pontuais de uma carta de controlo, é útil analisar o processo numa escala mais larga:
- Tendência: subida ou descida gradual e sustentada, por exemplo o desgaste progressivo de um molde ao longo de milhares de ciclos.
- Sazonalidade: variação que se repete em ciclos regulares, associada a turno, dia da semana, ou temperatura ambiente da nave fabril ao longo do ano.
Distinguir os dois orienta a ação: uma tendência aponta para manutenção ou substituição planeada; um padrão sazonal aponta para ajustar parâmetros do processo por época, não para trocar equipamento.
10. Testes de hipóteses e intervalos de confiança
Quando se altera um parâmetro do processo (novo fornecedor de areia, nova liga, novo operador), é preciso decidir, com dados, se a mudança teve efeito real e não é apenas variação natural.
O teste de hipóteses
- Hipótese nula (H0): não há diferença real; a mudança não teve efeito.
- Hipótese alternativa (H1): existe uma diferença real entre as condições.
O teste calcula a probabilidade de observar os dados obtidos se H0 fosse verdadeira. Se essa probabilidade for muito baixa (habitualmente abaixo de 5%), rejeita-se H0 e conclui-se que a diferença é estatisticamente significativa.
Intervalos de confiança
O intervalo de confiança acrescenta, à estimativa da média, uma faixa de valores plausíveis para o verdadeiro parâmetro do processo. Um intervalo de confiança de 95% significa que, repetindo o processo de amostragem muitas vezes, 95% dos intervalos calculados conteriam o valor real. Intervalos mais estreitos resultam de amostras maiores ou de processos com menos variação.
Exemplo resolvido · comparar dois fornecedores de areia
Uma fundição testa se um novo fornecedor de areia de moldação (B) altera a dureza média das peças, comparado com o fornecedor atual (A). Recolhem-se 20 peças de cada.
Resolução: define-se H0 (as durezas médias dos dois fornecedores são iguais) e H1 (são diferentes). Calcula-se um teste de comparação de médias com os dois conjuntos de 20 medições. Se o resultado do teste indicar uma probabilidade muito baixa de a diferença observada ocorrer só por acaso, rejeita-se H0: o fornecedor tem, de facto, impacto na dureza, e a decisão de mudar (ou não) apoia-se em evidência, não em impressão.
11. Ferramentas estatísticas avançadas: regressão linear e ANOVA
Quando há várias variáveis a considerar no processo, duas ferramentas avançadas completam a caixa de ferramentas do controlo estatístico:
- Regressão linear: modela a relação entre uma variável do processo (ex.: temperatura de vazamento) e um resultado (ex.: dureza final), permitindo prever o efeito de ajustar essa variável antes de o fazer na produção real.
- ANOVA (análise de variância): compara mais de dois grupos ao mesmo tempo (ex.: três turnos, quatro moldes) e indica se pelo menos um difere significativamente dos outros, sem multiplicar testes de duas médias e o erro estatístico que isso acumula.
Exemplo resolvido · quando usar cada ferramenta
Uma fundição tem dúvidas sobre dois efeitos diferentes: (a) se a temperatura de vazamento influencia a dureza da peça; (b) se os quatro moldes da linha produzem durezas médias diferentes entre si.
Resolução: (a) é uma relação entre uma variável contínua (temperatura) e um resultado contínuo (dureza), o caso da regressão linear. (b) é a comparação de quatro grupos (os quatro moldes), o caso da ANOVA; usar quatro testes de duas médias em vez de uma ANOVA aumentaria o risco de concluir por engano que há diferença onde não há.
12. Normas da qualidade e a ligação ao sistema de gestão
O controlo estatístico de processos não vive isolado: enquadra-se sempre nas normas da qualidade da organização e do setor da fundição. Estas normas definem o que medir, com que frequência amostrar e que registos manter, dando ao CEP o seu enquadramento formal dentro do sistema de gestão da qualidade.
Cumprir estas normas e aplicar corretamente as ferramentas estatísticas descritas nesta sebenta reduz custos, desperdício e repetições de trabalho, o objetivo último de todo este percurso: monitorizar, avaliar e melhorar o processo com rigor, autonomia e sentido crítico.
Erros comuns
- Confundir limites de controlo com especificações. Os limites de controlo vêm dos dados do processo; as especificações vêm do cliente ou do desenho. São coisas diferentes.
- Estudar a capacidade (Cp/Cpk) de um processo instável. Sem estabilidade estatística prévia, o índice não tem significado.
- Usar Cp e Cpk como sinónimos. Cp ignora a centragem do processo; Cpk não.
- Escolher a carta de controlo errada. Dados contínuos pedem cartas de variáveis; contagens pedem cartas de atributos.
- Ignorar tendências dentro dos limites. Sete pontos seguidos do mesmo lado da linha central avisam antes de qualquer ponto sair fora dos limites.
- Confiar cegamente num instrumento "calibrado". Calibração e precisão de utilização (GRR) são avaliações diferentes.
- Reagir a cada oscilação normal como causa especial. O sobreajuste que daí resulta aumenta, em vez de reduzir, a variação do processo.
Glossário
- CEP: controlo estatístico de processos, o conjunto de métodos que usa dados para monitorizar e melhorar um processo.
- Causa comum: fonte de variação aleatória e sempre presente, inerente ao processo.
- Causa especial: fonte de variação identificável e evitável, que provoca um desvio.
- Carta de controlo: gráfico com linha central e limites de controlo, usado para monitorizar um processo ao longo do tempo.
- LSC / LIC: limite superior / inferior de controlo, calculados a partir dos dados do processo.
- LSE / LIE: limite superior / inferior de especificação, definidos pelo cliente ou pelo desenho da peça.
- Cp: índice de capacidade que avalia a dispersão do processo face à tolerância.
- Cpk: índice de capacidade que avalia dispersão e centragem face ao alvo.
- MSA: análise de sistemas de medição, avalia a adequação de instrumentos e métodos de medição.
- GRR: estudo de repetibilidade e reprodutibilidade de um sistema de medição.
- Amostragem: recolha de um subconjunto representativo dos dados de um processo ou lote.
- Subgrupo racional: conjunto de peças recolhidas em condições semelhantes, para uma leitura correta da variação.
- Hipótese nula (H0): afirmação de que não existe diferença real entre condições.
- Intervalo de confiança: faixa de valores plausíveis para um parâmetro do processo, associada a um nível de confiança.
- Regressão linear: modelo estatístico da relação entre duas variáveis contínuas.
- ANOVA: análise de variância, compara três ou mais grupos ao mesmo tempo.
Síntese
O controlo estatístico de processos segue sempre a mesma lógica: descrever os dados (média, dispersão, distribuição Normal ou Poisson), monitorizar o processo ao longo do tempo com cartas de controlo (variáveis ou atributos), distinguir causas comuns de causas especiais e agir com ações corretivas e preventivas. Só depois de o processo estar estável, avalia-se a sua capacidade (Cp e Cpk) face às especificações, confirmando primeiro que o sistema de medição (GRR) é fiável. Ferramentas mais avançadas, amostragem, testes de hipóteses, intervalos de confiança, regressão e ANOVA, dão rigor às decisões sobre onde e como intervir. Tudo isto ao serviço de um único objetivo: cumprir as normas da qualidade com menos custos, menos desperdício e mais confiança nos resultados.
Exercícios resolvidos
1. Uma carta de controlo mostra um ponto isolado fora do limite superior de controlo. É uma causa comum ou especial?
Resolução: é um sinal de causa especial. Um ponto fora dos limites de controlo (calculados a 3σ da média do processo) é, por definição, um evento raro num processo estável só com causas comuns; deve investigar-se de imediato o que aconteceu nesse ponto no tempo (lote, turno, ferramenta).
2. Um processo tem LSE = 50,5 mm, LIE = 49,5 mm, μ = 50,0 mm e σ = 0,15 mm. Calcula o Cp e o Cpk.
Resolução: Cp = (50,5 − 49,5) / (6 × 0,15) = 1,0 / 0,9 ≈ 1,11. Como o processo está perfeitamente centrado (μ = 50,0, a meio de LSE e LIE), Cpk = Cp ≈ 1,11. É uma capacidade marginal (entre 1,00 e 1,33), o processo requer vigilância apertada.
3. Que tipo de dado (variável ou atributo) e que carta de controlo usarias para acompanhar o número de rechupes por peça fundida?
Resolução: é uma contagem de defeitos por unidade, dado de atributo com distribuição de Poisson. A carta adequada é a carta c (número de defeitos por unidade, com tamanho de amostra fixo).
4. Um estudo GRR revela que a reprodutibilidade (variação entre operadores) é muito maior do que a repetibilidade. Que conclusão tiras?
Resolução: o problema está nos operadores, não no instrumento em si: diferentes operadores obtêm resultados sistematicamente diferentes ao medir a mesma peça. A ação indicada é rever o método de medição (procedimento, formação, forma de segurar o instrumento), não trocar o equipamento.
5. Explica, com um exemplo de fundição, a diferença entre uma tendência e um padrão sazonal.
Resolução: uma tendência é uma deriva gradual e sustentada, como o desgaste progressivo de um molde ao longo de milhares de ciclos, que pede manutenção ou substituição planeada. Um padrão sazonal é uma variação cíclica, como mais rechupes no verão devido à temperatura mais alta da nave fabril, que pede ajuste de parâmetros por época, não substituição de equipamento.