Efetuar o diagnóstico capilar (UC00535)
- Introdução
- 1. O diagnóstico capilar: o que é, para que serve e onde acaba
- 2. A pele e o couro cabeludo: histologia e funções
- 3. O pelo e o fio de cabelo: estrutura e composição
- 4. Ciclos de renovação da pele e de crescimento capilar
- 5. Classificação dos tipos de cabelo e suas características
- 6. Causas externas que afetam o cabelo
- 7. Causas internas: o stress e outros fatores do organismo
- 8. Aspetos fundamentais a observar no diagnóstico capilar
- 9. Técnicas de diagnóstico capilar: métodos visuais e tácteis
- 10. Testes específicos: tração, porosidade e elasticidade
- 11. Ferramentas de aumento e fotografia capilar
- 12. Avaliação tricológica I: as alopecias
- 13. Avaliação tricológica II: outras condições do couro cabeludo e da fibra capilar
- Caspa (pitiríase simples)
- Dermatite seborreica
- Psoríase capilar
- Tricoptilose (pontas duplas)
- Outras alterações da haste
- Outras condições dermatológicas e situações a sinalizar
- Reação a produtos: o teste de sensibilidade
- Quando encaminhar para o médico
- Exemplo resolvido · caspa ou dermatite seborreica?
- 14. Interpretar os resultados e sinalizar riscos
- 15. Tratamento capilar: tipos, objetivos, produtos, ingredientes ativos e aplicação
- 16. Aconselhar o cliente e comunicar o resultado do diagnóstico
- Princípios da boa comunicação
- Estrutura de uma comunicação de resultado
- Mostrar para fazer entender
- Palavras que ajudam e palavras que complicam
- Dar más notícias e recusar um serviço
- Encaminhar para o médico
- Aconselhamento para casa
- Gerir expectativas
- Exemplo resolvido · comunicar um diagnóstico com recusa parcial
- 17. Registar a informação na ficha de cliente
- 18. Segurança e saúde no trabalho, higiene e normas aplicáveis
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.
Introdução
Antes de cortar, colorir, alisar ou tratar, o bom profissional olha e pergunta. Esta sebenta ensina a efetuar o diagnóstico capilar: analisar o cabelo e o couro cabeludo, avaliar alterações, anomalias e doenças do couro cabeludo, aconselhar o cliente depois do diagnóstico e registar tudo na ficha de cliente. É a competência que decide se um serviço pode avançar, se tem de ser adaptado ou se o cliente deve ser encaminhado para um médico.
O percurso segue a ordem em que o trabalho acontece num salão. Primeiro percebemos do que é feito o que vamos observar: a pele, o couro cabeludo, o folículo, o fio e os ciclos de renovação. Depois aprendemos a classificar os tipos de cabelo e a reconhecer as causas externas e internas que o alteram. Segue-se o núcleo prático: os aspetos fundamentais a observar, as técnicas de diagnóstico (visuais e tácteis), os testes de tração, porosidade e elasticidade, as ferramentas de aumento e a fotografia capilar. Estudamos depois a avaliação tricológica, isto é, as alopecias e as outras condições do couro cabeludo e da haste do cabelo. Fechamos com a interpretação dos resultados, o tratamento capilar a sugerir, a comunicação ao cliente, o registo e a segurança e saúde no trabalho.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar o cabelo e o couro cabeludo; avaliar alterações, anomalias ou doenças do couro cabeludo; aconselhar o cliente após o diagnóstico; registar a informação recolhida na ficha de cliente.
Um limite que nunca se esquece. O cabeleireiro não faz diagnóstico médico. Observa, regista, sinaliza e encaminha. Quando um sinal sugere doença do couro cabeludo, o passo certo é recomendar a consulta de um médico (dermatologista ou médico assistente) e adaptar ou suspender o serviço. Nunca se promete cura, nunca se indica medicação e nunca se diz ao cliente, nem se escreve na ficha, o nome de uma doença, seja como certeza, seja como hipótese.
Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem explicação, tabelas de consulta e, onde faz sentido, exemplos resolvidos passo a passo. Refaz o raciocínio antes de ler a solução. Sempre que possível, pratica em modelos ou colegas, com autorização, porque o olhar clínico treina-se com a repetição.
1. O diagnóstico capilar: o que é, para que serve e onde acaba
O diagnóstico capilar é o conjunto organizado de observações, perguntas e testes que permite conhecer o estado do cabelo e do couro cabeludo de uma pessoa antes de lhe propor um serviço ou um tratamento. Não é um olhar rápido ao espelho: tem um objetivo (porque estamos a diagnosticar?), um protocolo (que passos seguimos?) e um resultado (o que concluímos e o que dizemos ao cliente?).
Porque se faz
| Objetivo do diagnóstico | Exemplo | Decisão que permite |
|---|---|---|
| Escolher o serviço certo | cabelo muito poroso que quer descoloração | adaptar a técnica ou recusar |
| Escolher o tratamento certo | couro cabeludo oleoso com cabelo seco nas pontas | rotina diferente para raiz e comprimentos |
| Identificar riscos | couro cabeludo irritado e com feridas | adiar um serviço químico |
| Detetar sinais de alerta | placas sem cabelo, perda súbita | recomendar consulta médica |
| Acompanhar a evolução | fotografias antes e depois de um plano | mostrar resultados ao cliente |
Os três critérios de desempenho
O referencial exige que o diagnóstico seja feito:
- Cumprindo os protocolos definidos de acordo com o objetivo do diagnóstico. Um diagnóstico para uma coloração tem passos diferentes de um diagnóstico para um plano de tratamento anticaspa. O protocolo do estabelecimento diz o que se observa, por que ordem e como se regista.
- Sinalizando os aspetos que resultam em riscos associados à aplicação de técnicas e produtos. Cabelo muito danificado, couro cabeludo com lesões, alergias referidas pelo cliente e uso recente de outros produtos químicos são riscos que têm de ficar assinalados.
- Comunicando de forma clara o resultado do diagnóstico. O cliente tem de perceber o que foi encontrado, o que isso significa para o serviço e o que se recomenda, sem termos que o confundam.
As quatro realizações
| Realização | O que faz o profissional | Capítulos |
|---|---|---|
| Analisar o cabelo e o couro cabeludo | observa, toca, testa, amplia, fotografa | 8 a 11 |
| Avaliar alterações, anomalias ou doenças do couro cabeludo | reconhece sinais, distingue o que é do salão e o que é médico | 12 a 14 |
| Aconselhar o cliente após o diagnóstico | explica, sugere tratamento, define rotina de casa | 15 e 16 |
| Registar a informação na ficha de cliente | escreve dados objetivos, datados e legíveis | 17 |
Onde acaba a competência do cabeleireiro
Este ponto protege o cliente e o profissional. O cabeleireiro pode e deve:
- observar e descrever o que vê, com vocabulário rigoroso;
- fazer testes simples e não invasivos (tração, porosidade, elasticidade, observação ampliada);
- sugerir cuidados cosméticos e serviços adequados ao estado do cabelo;
- reconhecer que algo foge ao normal e encaminhar.
O cabeleireiro não deve:
- afirmar que o cliente tem determinada doença;
- prescrever ou desaconselhar medicamentos;
- prometer que um produto cosmético faz crescer cabelo ou cura uma doença;
- tocar em lesões abertas, nem realizar serviços químicos em pele lesionada.
Exemplo resolvido · o que dizer perante uma placa sem cabelo
Uma cliente de 30 anos, durante a observação, mostra uma zona redonda do couro cabeludo sem cabelo, de pele lisa e normal, com cerca do tamanho de uma moeda. Diz que a notou há duas semanas.
- Observar: forma, tamanho, cor da pele, presença de descamação, crostas ou vermelhidão. Aqui, a pele está lisa, sem sinais de inflamação.
- Registar: localização exata (por exemplo, zona occipital esquerda), dimensões aproximadas, data em que a cliente a notou, fotografia com autorização.
- Sinalizar o risco: um serviço químico agressivo não é prudente até haver avaliação.
- Comunicar: "Reparei numa zona sem cabelo que merece ser vista por um médico. Recomendo marcar uma consulta de dermatologia. Até lá, o melhor é adiar o serviço de coloração."
- Não fazer: dar à situação um nome de doença, ainda que em tom de hipótese, sugerir loções ou prometer que o cabelo volta.
A frase certa descreve e encaminha. A frase errada diagnostica e promete.
2. A pele e o couro cabeludo: histologia e funções
A histologia estuda os tecidos. Para quem faz diagnóstico capilar, conhecer a histologia da pele é conhecer o terreno onde o cabelo nasce: um couro cabeludo saudável é a primeira condição para um cabelo saudável.
As três camadas da pele
A pele organiza-se em três camadas, de fora para dentro.
| Camada | Constituição | Funções principais |
|---|---|---|
| Epiderme | tecido que se renova continuamente, formado sobretudo por queratinócitos; tem ainda melanócitos, que produzem melanina | barreira contra agentes externos, proteção contra a perda de água, pigmentação |
| Derme | tecido conjuntivo com fibras de colagénio e de elastina, vasos sanguíneos, terminações nervosas | sustentação, elasticidade, nutrição da epiderme, sensibilidade, raízes dos pelos |
| Hipoderme | tecido subcutâneo com células de gordura | isolamento térmico, reserva de energia, amortecimento |
A epiderme em pormenor
A epiderme está dividida em estratos. Na base, a camada basal produz continuamente novas células. Estas vão subindo, vão-se enchendo de queratina e achatando-se, até chegarem à superfície na camada córnea, formada por células mortas e achatadas que acabam por se soltar (descamação normal e invisível a olho nu). Esta subida é o ciclo de renovação da pele, estudado no capítulo 4.
A camada córnea e a película de sebo e suor que a cobre formam o manto hidrolipídico, uma emulsão protetora ligeiramente ácida. Ajuda a reter a água na pele, dificulta a instalação de microrganismos e é sensível a produtos de limpeza demasiado agressivos.
Os anexos cutâneos
Chamam-se anexos as estruturas derivadas da pele que cumprem funções próprias:
- Folículo piloso: pequena invaginação da epiderme na derme onde nasce e cresce o pelo.
- Glândula sebácea: ligada ao folículo, produz o sebo, que lubrifica o fio e a pele.
- Glândula sudorípara: produz suor, que ajuda a regular a temperatura.
- Músculo eretor do pelo: pequeno músculo ligado ao folículo; ao contrair-se, eriça o pelo (a "pele de galinha").
- Unhas: placas de queratina, também anexos, embora fora do âmbito desta UC.
O couro cabeludo
O couro cabeludo é a pele que cobre o crânio. Tem as três camadas da pele comum, mas distingue-se por características próprias:
| Característica | O que significa para o profissional |
|---|---|
| Muito rico em folículos pilosos | é a zona onde o cabelo nasce e se renova |
| Muitas glândulas sebáceas | tende à oleosidade e a escamas gordurosas quando o equilíbrio falha |
| Muito vascularizado | cicatriza depressa, mas sangra com facilidade se for lesionado |
| Muito inervado | sente prurido, ardor e dor, que são sinais úteis a registar |
| Exposto ao sol, ao vento e a produtos | sofre agressões externas frequentes |
Funções do couro cabeludo
- Proteção do crânio e do cérebro contra agressões físicas, químicas e microbianas.
- Sustentação do cabelo, com as raízes ancoradas nos folículos.
- Regulação térmica, pela vascularização e pelo suor.
- Produção de sebo, que lubrifica e protege o fio.
- Perceção sensorial, pelas terminações nervosas.
- Renovação celular contínua, que mantém a barreira.
O que se observa de normal e de alterado
| Aspeto | Couro cabeludo saudável | Sinais de alteração |
|---|---|---|
| Cor da pele | rosada ou de tom uniforme com a pele do cliente | vermelhidão difusa ou em placas |
| Superfície | lisa, sem escamas visíveis | escamas finas, grosseiras, aderentes ou gordurosas |
| Sebo | equilibrado, cabelo não se suja depressa | brilho gorduroso excessivo ou secura repuxada |
| Sensação | confortável | prurido, ardor, dor, sensação de repuxar |
| Lesões | ausentes | crostas, feridas, pústulas, placas |
| Folículos | cada folículo com fios | zonas com folículos vazios ou fios muito finos |
Exemplo resolvido · identificar a camada afetada
Um cliente queixa-se de que o couro cabeludo "descama muito". Ao observar, vê escamas brancas e finas que caem ao pentear, sem vermelhidão evidente.
- As escamas são células da camada córnea que se soltam em maior quantidade e em pequenos aglomerados visíveis.
- O fenómeno está ligado à renovação da epiderme, que ocorre mais depressa do que o habitual.
- Sem vermelhidão nem crostas, a observação é, em raciocínio interno, compatível com caspa (capítulo 13). Ao cliente descreve-se o que se vê, sem dar nome.
- Regista: tipo de escama (fina, branca, solta), ausência de vermelhidão, queixa de prurido (sim ou não).
3. O pelo e o fio de cabelo: estrutura e composição
O cabelo é um pelo especializado da cabeça. Compreender a sua estrutura explica porque quebra, porque absorve água, porque a cor é duradoura e porque os químicos o alteram.
As duas partes do pelo
| Parte | Onde está | Estado |
|---|---|---|
| Raiz (bolbo e parte inferior do folículo) | dentro do couro cabeludo | viva, com células em multiplicação |
| Haste | fora do couro cabeludo, o fio visível | morta, formada por células queratinizadas |
Esta distinção é capital: a haste está morta. Nenhum champô, máscara ou ampola "regenera" a haste; apenas melhora o seu aspeto, hidrata, protege ou repara temporariamente a superfície. O que cresce e se produz acontece na raiz.
A raiz e o folículo
O folículo piloso é um tubo na pele, com um alargamento na base, o bolbo piloso. Dentro do bolbo estão:
- Papila dérmica: pequeno cone de tecido conjuntivo, com vasos sanguíneos, que fornece nutrientes e sinais de crescimento.
- Matriz: células em divisão constante, que dão origem ao fio.
- Melanócitos: células que depositam melanina no fio em formação.
Ao folículo estão ligados a glândula sebácea e o músculo eretor. A bainha que envolve a raiz protege-a e molda a forma do fio.
As camadas da haste
A haste tem três camadas, da periferia para o centro.
| Camada | Descrição | Função | O que a danifica |
|---|---|---|---|
| Cutícula | escamas sobrepostas, transparentes, como telhas | proteger o interior, dar brilho e suavidade | atrito, calor, químicos, alcalinidade |
| Córtex | massa fibrosa de queratina e pigmento | dá força, elasticidade, cor e forma | descoloração, alisamentos, rotura da cutícula |
| Medula | núcleo central, nem sempre presente | função pouco clara, mais comum em fios grossos | sem relevância prática para o serviço |
A cutícula é a camada que mais interessa ao diagnóstico. Quando está fechada e alinhada, o fio reflete a luz (brilho) e desliza (suavidade). Quando está levantada ou partida, o fio fica áspero, sem brilho, mais poroso, e emaranha-se.
A composição química
O cabelo é constituído em grande parte por queratina, uma proteína fibrosa. Contém ainda água, lípidos (gorduras), pigmento (melanina) e pequenas quantidades de outros elementos. A solidez da queratina vem de ligações entre as cadeias de proteína:
| Ligação | Característica | Como se altera |
|---|---|---|
| Pontes de dissulfeto | muito fortes, dão a forma permanente (liso, ondulado) | alisamentos e permanentes quebram-nas e voltam a formá-las |
| Pontes de hidrogénio | fracas, quebram-se com água e voltam a formar-se ao secar | por isso o cabelo molhado se molda e a brushing dura até à próxima lavagem |
| Ligações salinas | sensíveis ao pH | produtos ácidos e alcalinos alteram-nas |
A cor: melanina
A cor natural vem da melanina, produzida pelos melanócitos. Há dois tipos principais:
- Eumelanina: pigmento escuro (castanho a preto).
- Feomelanina: pigmento avermelhado e amarelado.
A proporção entre os dois e a quantidade total determinam a cor natural. Com o tempo, os melanócitos produzem menos pigmento e surgem os cabelos brancos, fios sem melanina. Os fios brancos tendem a ser mais difíceis de colorir em certas situações, e por isso a presença de brancos deve ser registada.
Tamanho e forma do fio
A forma do folículo determina a secção do fio: mais redonda nos cabelos lisos, mais achatada ou oval nos ondulados e encaracolados. Daqui resulta a forma natural do cabelo. Além disso, o diâmetro do fio varia entre pessoas e ao longo da vida, e determina a classificação de fino, médio e grosso (capítulo 5).
Exemplo resolvido · ligar a estrutura a um problema
Uma cliente diz que o cabelo "parte e não tem brilho" depois de várias descolorações.
- A descoloração dissolve o pigmento do córtex, mas para o fazer tem de levantar as escamas da cutícula.
- Repetida, a cutícula fica levantada ou partida: o fio perde brilho e protege menos o córtex.
- O córtex, exposto, perde água e proteína; o fio fica mais frágil e quebra.
- Consequência para o diagnóstico: o fio terá elevada porosidade e baixa resistência, o que condiciona qualquer novo serviço químico.
4. Ciclos de renovação da pele e de crescimento capilar
Tanto a pele como o cabelo estão em renovação permanente. Perceber estes ciclos evita falsos alarmes (a queda normal) e ajuda a reconhecer o que não é normal.
Ciclo de renovação da pele
As células da camada basal dividem-se e as novas células sobem até à camada córnea, enchem-se de queratina, morrem e acabam por se soltar. Este percurso demora algumas semanas num adulto saudável. Quando o ciclo se acelera, as escamas saem mais cedo e em maior quantidade: é o que acontece na caspa, na dermatite seborreica e, de forma mais marcada, na psoríase.
| Situação | Renovação | Aspeto no couro cabeludo |
|---|---|---|
| Normal | ritmo regular | descamação invisível |
| Acelerada | mais depressa | escamas visíveis, soltas ou aderentes |
| Lenta (com a idade) | mais devagar | pele mais baça e seca |
Ciclo de crescimento do cabelo
Cada folículo funciona de modo independente e passa por três fases principais, que se repetem ao longo da vida.
| Fase | Nome | O que acontece | Duração relativa |
|---|---|---|---|
| Crescimento | anágena | o bolbo produz o fio ativamente | a fase mais longa, de anos |
| Transição | catágena | o crescimento pára e o folículo encolhe | muito curta |
| Repouso | telógena | o fio está preso mas inativo, até ser empurrado por um novo fio | alguns meses |
Ao fim da fase telógena, o fio cai (por vezes chamada fase exógena) e o folículo inicia nova fase anágena. A maior parte dos folículos está em anágena em cada momento, e só uma minoria em catágena ou telógena. É por isso que a queda diária de alguns fios é normal: são fios telógenos a ser substituídos.
O mosaico capilar
Como cada folículo tem o seu relógio, não caem todos ao mesmo tempo. É o chamado mosaico. Quando muitos folículos entram em simultâneo em telógena, por exemplo depois de um acontecimento marcante, a queda passa a ser notada: é o eflúvio telógeno (capítulo 13).
Fatores que alteram os ciclos
| Fator | Efeito possível |
|---|---|
| Doença, febre, cirurgia | queda difusa algumas semanas ou meses depois |
| Parto | queda difusa no período seguinte |
| Dieta muito restritiva | cabelo mais fraco e queda |
| Stress intenso | encurtamento da fase de crescimento |
| Hormonas e hereditariedade | miniaturização progressiva dos folículos (alopecia androgenética) |
| Tração e inflamação | lesão do folículo |
Porque é útil na prática
- Perante uma cliente que diz "estou a perder muito cabelo", pergunta-se desde quando e o que aconteceu nos meses anteriores: o intervalo entre o acontecimento e a queda é uma pista valiosa.
- Cabelo que cresce mas não ganha comprimento sugere fios que quebram, não que não crescem.
- O comprimento do cabelo depende da duração da fase anágena de cada pessoa. Quem tem fase curta tem mais dificuldade em deixar crescer, e isso é fisiológico, não falta de cuidados.
Exemplo resolvido · a queda depois de um acontecimento
Uma cliente de 38 anos refere que, há dois meses, o cabelo começou a cair muito no duche e na escova. Pergunta-se-lhe o que mudou nos meses anteriores: teve uma doença com febre alta cerca de três meses antes.
- A queda difusa surgiu algum tempo depois da doença: compatível com uma entrada simultânea de muitos folículos na fase telógena.
- O profissional não conclui nem promete: regista a cronologia, observa se há zonas sem cabelo, faz o teste de tração (capítulo 10).
- Recomenda consulta médica, porque a queda difusa pode ter várias causas.
- Tranquiliza, sem prometer: situações deste tipo costumam ser reversíveis quando a causa é tratada, mas só o médico o pode confirmar.
5. Classificação dos tipos de cabelo e suas características
Não existe uma classificação única, e por isso o profissional descreve o cabelo por vários critérios ao mesmo tempo. Dois clientes de cabelo "liso" podem precisar de cuidados completamente diferentes, porque um é fino e oleoso e o outro grosso e seco.
Critério 1 · a forma do fio
A forma depende do folículo e vê-se no cabelo seco, sem produtos de modelar.
| Tipo | Descrição | Características habituais |
|---|---|---|
| Liso | fio direito, sem ondulação | o sebo desce facilmente da raiz às pontas; reflete bem a luz; tende a ficar oleoso na raiz |
| Ondulado | forma ligeira de "S" | volume médio; pode ter raiz mais lisa e pontas mais onduladas |
| Encaracolado | caracóis definidos em espiral | o sebo tem mais dificuldade em descer, o que torna as pontas mais secas |
| Crespo (frisado, afro) | espirais muito apertadas ou ziguezague | mais frágil nas curvas, tendência para secura e quebra, encolhe muito |
Um sistema muito usado em salões numera os tipos de 1 a 4 (liso, ondulado, encaracolado, crespo) e usa as letras A, B e C para indicar o grau de curvatura dentro de cada tipo. Serve de linguagem comum com o cliente, mas é uma convenção de uso, não uma norma, e muita gente tem zonas com texturas diferentes na mesma cabeça.
Critério 2 · a espessura do fio
| Espessura | O que se nota | Implicação |
|---|---|---|
| Fino | quase não se sente entre os dedos | frágil, fica sem volume, sobrecarrega-se com produtos pesados |
| Médio | sente-se com clareza | comportamento intermédio |
| Grosso | fio robusto, sente-se com nitidez | resiste mais, mas custa a receber a cor e a hidratação |
Não confundir espessura do fio (diâmetro de cada fio) com densidade (quantidade de fios por área) nem com volume (efeito visual). Alguém pode ter fios finos em grande quantidade.
Critério 3 · a oleosidade da raiz e do couro cabeludo
| Tipo | Sinais | Cuidados gerais |
|---|---|---|
| Normal | cabelo equilibrado, lava-se com regularidade moderada | manutenção suave |
| Oleoso | raiz brilhante e pesada pouco depois da lavagem | lavagem regular com produtos suaves, sem esfregar com força |
| Seco | couro cabeludo e fio baços, por vezes repuxados | produtos hidratantes e nutritivos, água morna |
| Misto | raiz oleosa e comprimentos secos | produtos diferentes para raiz e comprimentos |
| Sensibilizado | irrita-se facilmente | produtos suaves, sem perfumes fortes, teste de tolerância |
Critério 4 · o estado da fibra
O fio pode estar natural (nunca sofreu tratamentos químicos) ou sensibilizado (colorido, descolorido, alisado, com permanente ou muito exposto ao calor). O estado da fibra decide quase tudo no serviço: um cabelo natural, resistente e pouco poroso reage de modo muito diferente de um cabelo descolorido várias vezes.
Critério 5 · a cor e a presença de brancos
Regista-se a cor natural, a cor atual (se foi alterada) e a proporção de cabelos brancos. A cor natural e a presença de brancos condicionam a escolha da coloração.
Exemplo resolvido · caracterizar um cabelo com cinco critérios
Um cliente tem cabelo que, ao secar naturalmente, forma caracóis definidos, com fios que se sentem pouco entre os dedos, raiz brilhante ao fim de dois dias, pontas secas e uma coloração feita há quatro semanas.
- Forma: encaracolado.
- Espessura: fino.
- Oleosidade: raiz que oleia depressa e pontas secas, ou seja, misto.
- Estado da fibra: sensibilizado (coloração recente).
- Cor e brancos: registar a cor atual, a cor natural declarada e se há brancos.
Descrição final na ficha: "cabelo encaracolado, fino, misto (raiz oleosa e comprimentos secos), sensibilizado por coloração há quatro semanas". Conclusão prática: hidratação nos comprimentos, produtos leves na raiz, atenção a novos químicos.
6. Causas externas que afetam o cabelo
O cabelo está sempre exposto ao ambiente e aos hábitos de cuidado. As causas externas são todos os fatores vindos de fora que alteram o fio ou o couro cabeludo. Reconhecê-las é metade do diagnóstico, porque muitos problemas desaparecem quando se corrige o hábito.
Clima
| Fator | Efeito no cabelo | Conselho |
|---|---|---|
| Calor e sol | desidrata, enfraquece, desbota a cor | proteger do sol, hidratar |
| Frio e vento | secura, eletricidade estática, emaranhado | proteger com gorro limpo e hidratar |
| Humidade elevada | o cabelo absorve água e incha, perde forma | produtos anti-frisado, secagem cuidadosa |
| Ar seco (aquecimento, ar condicionado) | secura, estática | hidratação, evitar ambientes muito secos |
| Água do mar | sal desidrata e deixa o fio áspero | enxaguar com água doce depois da praia |
| Água de piscina | o cloro pode ressequir e alterar tons claros | molhar com água doce antes e lavar depois |
Exposição aos raios UV
A radiação ultravioleta degrada a melanina e a queratina: o cabelo perde cor (aclara e fica com tons indesejados), brilho e resistência. O couro cabeludo também é pele e pode sofrer queimadura solar, sobretudo em zonas de risca ou onde há pouco cabelo. Recomenda-se usar chapéu e produtos com proteção UV específicos para o cabelo, indicados no rótulo.
Poluição
Partículas, fumos e poeiras depositam-se no fio e no couro cabeludo. O resultado é um cabelo baço, pesado e sem brilho, e um couro cabeludo que pode irritar. A solução é uma lavagem regular e adequada, sem agressividade.
Opções de lavagem
A lavagem é um dos fatores externos mais influentes, em ambos os sentidos.
| Hábito | Efeito |
|---|---|
| Água muito quente | agride o couro cabeludo, estimula a oleosidade, seca o fio |
| Champô inadequado ao tipo de cabelo e de couro cabeludo | oleosidade, secura ou irritação |
| Quantidade excessiva de produto, enxaguamento incompleto | resíduos, comichão, aspeto pesado |
| Lavagens demasiado raras | acumulação de sebo e de produto |
| Esfregar com as unhas | microlesões, irritação |
| Não pentear com cuidado, sobretudo molhado | quebra e arranca fios |
| Secar com toalha a esfregar | atrito na cutícula |
Não existe uma regra única de frequência de lavagem: depende do tipo de cabelo, da oleosidade, do estilo de vida e do estado do couro cabeludo. O profissional pergunta como o cliente lava, em vez de assumir.
Desadequação na utilização dos cosméticos capilares
Um bom produto usado mal pode causar problemas. Exemplos frequentes:
- Produto errado para o tipo de cabelo (por exemplo, máscara muito nutritiva em cabelo fino e oleoso).
- Excesso de produtos de styling, que se acumulam (efeito de acumulação ou build-up).
- Aplicar condicionador ou máscara na raiz quando só era indicado para comprimentos.
- Não respeitar o tempo de atuação indicado pelo fabricante.
- Misturar muitos produtos sem perceber as funções de cada um.
- Uso prolongado de produtos de tratamento para fins diferentes dos previstos.
Estas situações resolvem-se com informação: ler o rótulo e a ficha técnica e ajustar a rotina.
Utilização de acessórios
| Acessório | Risco | Prevenção |
|---|---|---|
| Elásticos apertados | quebra e queda por tração no mesmo sítio | usar elásticos suaves, variar o penteado |
| Ganchos e ganchos metálicos | atrito e quebra | acessórios sem arestas |
| Penteados muito apertados (tranças, rabos de cavalo tensos, extensões) | alopecia por tração | alternar, não manter tensão constante |
| Escovas e pentes inadequados | arranca fios e danifica a cutícula | escolher a escova pelo tipo de cabelo |
| Secador e placas a temperaturas altas | desidrata e danifica a cutícula | proteção térmica, distância e temperatura moderadas |
Produtos químicos
As técnicas químicas alteram a estrutura da fibra capilar.
| Técnica | Atua em | Risco principal |
|---|---|---|
| Coloração | cutícula e córtex | secagem, sensibilização, reação alérgica ao corante |
| Descoloração | dissolve o pigmento no córtex | porosidade elevada, fragilidade, quebra |
| Alisamento e permanente | pontes de dissulfeto e outras | enfraquecimento, queimadura química do couro cabeludo se mal aplicado |
| Tratamentos com calor | ligações de hidrogénio e superfície | desidratação e rotura de cutícula |
| Combinação de vários serviços | soma dos riscos | quebra e perda de elasticidade |
A combinação de técnicas é o cenário mais perigoso: descolorar um cabelo já alisado, ou alisar um cabelo já descolorido, pode ser desastroso. O diagnóstico deve perguntar sempre o historial de químicos do cliente: que serviços, quando, onde foram feitos, e se houve reação.
Exemplo resolvido · identificar as causas externas
Uma cliente tem cabelo seco e quebradiço nas pontas, baço e com muito frisado. Diz que lava todos os dias com água bem quente, seca com secador no máximo e faz rabo de cavalo muito apertado para o ginásio. Foi à praia há duas semanas.
- Água quente: dessecação do couro cabeludo e do fio.
- Secador no máximo sem proteção: calor excessivo na cutícula.
- Rabo de cavalo apertado: tração, risco de quebra no mesmo ponto.
- Praia: sal e UV, desidratação adicional.
- Plano de conselhos: água morna, temperatura média no secador com protetor térmico, elástico suave e penteado alternado, hidratação e proteção solar capilar.
- Registar os hábitos na ficha, para comparar na próxima visita.
7. Causas internas: o stress e outros fatores do organismo
As causas internas vêm do interior do organismo. O referencial destaca os efeitos do stress no cabelo e no couro cabeludo, mas o profissional deve saber que o cabelo reflete também outras condições gerais de saúde.
Como o stress atua
O stress intenso ou prolongado desencadeia reações hormonais e inflamatórias no corpo. No cabelo, pode:
| Efeito | Descrição |
|---|---|
| Eflúvio telógeno | muitos folículos passam em simultâneo à fase de repouso e o cabelo cai de forma difusa, algumas semanas ou meses depois do período de stress |
| Agravamento de condições do couro cabeludo | dermatite seborreica, psoríase e prurido tendem a agravar-se em períodos de tensão |
| Alterações da oleosidade | o sebo pode aumentar ou o couro cabeludo tornar-se mais sensível |
| Hábitos nocivos | arrancar ou torcer cabelo de forma repetida (tricotilomania), roer cabelo, descuidar a rotina de cuidados |
| Agravamento de alopecia areata | em algumas pessoas, o stress parece coincidir com o aparecimento ou agravamento (relação sugerida, não demonstrada de forma simples) |
Como se manifesta o stress no cabelo
- Queda aumentada, difusa, notada no duche, na escova e na almofada.
- Cabelo mais fraco e baço, por perda de qualidade da fibra.
- Couro cabeludo irritado, com prurido, ardor ou descamação.
- Lesões por hábito: fios partidos de comprimentos diferentes na zona da frente, por puxar ou torcer.
Outros fatores internos que o profissional deve conhecer
| Fator | Exemplo |
|---|---|
| Alimentação | dietas muito restritivas ou carências nutricionais podem enfraquecer o cabelo |
| Hormonas | alterações da tiroide, gravidez, pós-parto, menopausa |
| Doenças gerais | febre alta, doenças crónicas, anemia |
| Medicamentos | alguns tratamentos médicos têm queda de cabelo como efeito |
| Hereditariedade | tendência familiar para perda de cabelo |
| Idade | cabelo mais fino, mais seco e menos pigmentado com o tempo |
O profissional não avalia nem corrige nenhum destes fatores; pergunta, regista e encaminha quando a queixa o justifica.
Como conduzir a conversa sobre stress
Falar de saúde e de emoções é delicado. Algumas boas práticas:
- fazer perguntas abertas e neutras: "Houve alguma mudança importante nos últimos meses?";
- respeitar o silêncio ou a recusa em responder;
- nunca atribuir a queda de cabelo ao stress como certeza;
- tratar a informação como confidencial.
Exemplo resolvido · relacionar queixa e causa interna
Um cliente de 45 anos queixa-se de couro cabeludo com muita comichão e escamas, e acrescenta que anda "muito pressionado no trabalho" nos últimos meses. Diz que o problema vem e vai e tem piorado agora.
- Observar o couro cabeludo: escamas, vermelhidão, localização.
- Registar a queixa (prurido), o historial (problema recorrente) e o contexto (período de stress).
- Interpretar com cautela: em raciocínio interno, a oscilação com a tensão é compatível com condições que se agravam com o stress, como a dermatite seborreica ou a caspa. O nome não se diz ao cliente.
- Aconselhar: produtos suaves adequados a couro cabeludo sensível; se houver vermelhidão marcada ou lesões, recomendar consulta médica.
- Não afirmar que o stress é a causa nem dar à situação um nome de doença, ainda que em tom de hipótese.
8. Aspetos fundamentais a observar no diagnóstico capilar
O referencial lista treze aspetos a observar. Para cada um, o profissional precisa de saber o que é, como se observa e o que significa.
Visão geral
| Aspeto | O que é | Como se observa |
|---|---|---|
| Densidade | quantidade de fios por zona do couro cabeludo | afastar o cabelo em risca e ver quanto couro cabeludo se vê |
| Cor | cor natural e atual, brancos | luz natural, comparação com cartela |
| Textura | sensação do cabelo ao toque (fino, macio, áspero) | tacto entre os dedos |
| Hidratação | quantidade de água no fio | toque, flexibilidade, aspeto baço ou macio |
| Oleosidade | sebo na raiz e no fio | aspeto da raiz, sensação de peso, brilho |
| Brilho | reflexão da luz na superfície | luz direta, cutícula alinhada ou levantada |
| Resistência | capacidade de aguentar tração sem partir | teste de tração e de elasticidade |
| Diâmetro | espessura de cada fio | toque; ampliação para comparar fios |
| Elasticidade | capacidade de esticar e voltar ao tamanho | teste de elasticidade |
| pH | acidez ou alcalinidade (superfície do fio e produtos) | fita de pH em produtos; avaliação indireta no fio |
| Porosidade | capacidade de absorver e reter água e produtos | teste de porosidade e toque |
| Extremidades | estado das pontas | observação direta e ampliada |
| Eletricidade estática | tendência do cabelo para se eriçar e atrair | observação ao pentear |
Densidade
A densidade avalia-se separando o cabelo em várias zonas (frontal, topo, laterais, nuca) e vendo quanto couro cabeludo se vê entre os fios. Compara-se entre zonas e com o que o cliente diz ser o habitual. Densidade diminuída em zonas específicas (entradas, coroa, risca alargada) é um sinal a registar e, se for progressiva, a encaminhar. Regista-se por zona: "boa", "média", "diminuída".
Cor
Observa-se a cor da raiz e dos comprimentos e a proporção de brancos. Diferenças entre raiz e pontas indicam cor aplicada, descoloração, ou desgaste pelo sol. Regista-se o que se vê e o que o cliente declara sobre cor natural.
Textura
É a perceção ao tato. Cabelo macio tem cutícula fechada; áspero tem cutícula levantada. Passa-se o fio entre os dedos da raiz até às pontas e no sentido contrário: se há ressalto ou rugosidade, a cutícula está levantada.
Hidratação
Um cabelo bem hidratado é flexível, macio e com brilho natural. Seco, fica quebradiço, áspero e baço. A hidratação depende da água retida no córtex: é por isso que o cabelo ressequido por calor, sol ou químicos quebra mais.
Oleosidade
Resulta do sebo produzido nas glândulas sebáceas. Observa-se pelo brilho e peso da raiz, pela rapidez com que o cabelo "suja" e pela sensação gordurosa. É importante distinguir oleosidade da raiz (sebo) de oleosidade por produtos (acumulação de cosméticos).
Brilho
O brilho vem da cutícula alinhada, que reflete a luz de modo uniforme. Um cabelo com brilho tem cutícula fechada; um cabelo baço tem cutícula levantada ou danificada, ou resíduos à superfície.
Resistência
Mede-se pela capacidade de o fio suportar força de tração sem partir. Cabelo resistente aguenta puxões suaves; cabelo fraco parte. Avalia-se com o teste de tração e o teste de elasticidade (capítulo 10).
Diâmetro
Compara-se o diâmetro de fios de zonas diferentes (raiz, comprimento, pontas). Diferenças marcantes entre fios da mesma zona, fios finos misturados com fios grossos, podem indicar miniaturização folicular, característica da alopecia androgenética, que se vê melhor com ampliação.
Elasticidade
É a capacidade de esticar e voltar ao comprimento inicial. Um fio saudável, molhado, estica de forma apreciável e regressa; um fio danificado estica pouco ou parte, ou estica e não volta.
pH
O cabelo e o couro cabeludo têm um pH ligeiramente ácido. Produtos alcalinos fazem inchar e levantar a cutícula, o que ajuda alguns serviços químicos mas deixa o cabelo mais vulnerável; produtos ácidos fecham a cutícula. Na prática, o profissional lê o pH indicado na ficha técnica dos produtos e pode usar fitas indicadoras de pH nas soluções. O pH do fio avalia-se de modo indireto, pela reação aos produtos e pelo aspeto da cutícula.
Porosidade
É a facilidade com que o fio absorve e retém água e produtos. Depende do estado da cutícula.
| Porosidade | Cutícula | Comportamento |
|---|---|---|
| Baixa | muito fechada | repele a água, demora a molhar, os produtos ficam à superfície |
| Média | normal | absorve e retém bem |
| Alta | levantada ou danificada | absorve depressa mas perde depressa, fica seco e frisado |
Extremidades
Observam-se as pontas: tricoptilose (pontas duplas), fios de comprimentos muito diferentes, pontas finas, secas, ou com nós. Pontas danificadas são sinal de desgaste acumulado e orientam o conselho (corte de manutenção, hidratação).
Eletricidade estática
O cabelo com estática eriça-se e atrai-se. É mais frequente com ar seco, frio, atrito (gorros, camisolas, escovas sintéticas) e com cabelos secos ou sensibilizados. É um sinal indireto de falta de hidratação e de cutícula danificada.
Exemplo resolvido · preencher os aspetos observáveis à primeira vista
Dos treze aspetos, oito vêem-se ou sentem-se logo. Cabelo de uma cliente: poucos fios na zona frontal quando se separa a risca; cor castanha com tons alaranjados nas pontas; áspero ao toque no sentido contrário; baço; raiz sem peso; pontas com muitas bifurcações; estática ao pentear.
- Densidade: diminuída na zona frontal (a registar e acompanhar).
- Cor: castanha, com alaranjado nas pontas (provável desgaste de cor ou descoloração anterior).
- Textura: áspera, cutícula levantada.
- Brilho: baixo.
- Oleosidade: baixa na raiz.
- Extremidades: tricoptilose.
- Estática: presente.
- Hidratação: baixa, deduzida do conjunto.
- Conclusão: cabelo seco e sensibilizado, com cutícula danificada; atenção à densidade frontal.
Ficam a testar os restantes cinco aspetos: a resistência, a elasticidade e a porosidade, com os testes do capítulo 10; o diâmetro, com ampliação; e o pH, que se lê na ficha técnica dos produtos usados.
9. Técnicas de diagnóstico capilar: métodos visuais e tácteis
O diagnóstico combina o que se vê, o que se toca e o que o cliente conta. Antes de qualquer teste ou equipamento, vem a conversa.
As fases do diagnóstico
- Acolhimento e conversa (anamnese).
- Observação visual do cabelo e do couro cabeludo.
- Avaliação táctil do cabelo e do couro cabeludo.
- Testes específicos (tração, porosidade, elasticidade).
- Observação ampliada e fotografia, se disponíveis.
- Interpretação e sinalização de riscos.
- Comunicação do resultado e conselho.
- Registo na ficha de cliente.
1. A anamnese: a conversa inicial
Anamnese é o conjunto de perguntas que reconstrói o historial do cliente. Perguntas úteis:
| Tema | Pergunta-tipo |
|---|---|
| Motivo da visita | O que gostaria de melhorar ou preocupa-o no cabelo? |
| Queixas | Tem comichão, ardor, queda, descamação, oleosidade? Desde quando? |
| Hábitos de lavagem | Com que frequência lava? Que produtos usa? Que temperatura? |
| Serviços anteriores | Que químicos fez e quando? Houve reação? |
| Alergias | Tem alergias conhecidas a produtos, corantes, perfumes? |
| Saúde geral | Alguma situação de saúde ou medicação que queira partilhar? |
| Mudanças recentes | Houve alterações importantes nos últimos meses? |
| Cuidados de casa | Que produtos, acessórios e hábitos de secagem usa? |
Evita-se a pergunta que sugere a resposta. Escuta-se mais do que se fala, e o cliente decide o que partilha.
2. Observação visual
Observa-se com boa luz, de preferência natural ou luz branca de boa qualidade, sem produtos de styling e com o cabelo seco, depois molhado se necessário. Passos:
- Visão de conjunto: forma, volume, cor, brilho, estado das pontas.
- Separar o cabelo em zonas e riscas, afastando-o com um pente de cauda ou pinças, para ver o couro cabeludo.
- Observar o couro cabeludo: cor, escamas, sebo, lesões, vermelhidão, folículos.
- Comparar zonas: frontal, topo, laterais, nuca, coroa.
- Observar o aspeto da linha do cabelo, risca, e fios que se partem.
Descreve-se o que se vê, com palavras objetivas: "vermelhidão em placa na zona temporal esquerda, com escamas esbranquiçadas", em vez de "tem psoríase".
3. Avaliação táctil
O tacto fornece informação que o olhar não dá.
| Gesto | Que informação |
|---|---|
| Passar o fio entre dedos da raiz às pontas e ao contrário | aspereza, cutícula levantada |
| Sentir uma mecha entre polegar e indicador | espessura e quantidade de fios |
| Esticar suavemente um fio | resistência e elasticidade |
| Pressionar suavemente o couro cabeludo com a ponta dos dedos | sensibilidade, calor, zonas dolorosas |
| Sentir a superfície do couro cabeludo | oleosidade, escamas aderentes, relevo |
O profissional lava ou desinfeta as mãos antes e depois. Em caso de lesões abertas, não toca sem proteção, e prefere encaminhar.
4. Ferramentas simples de apoio
- Pente de cauda e pinças para separar e isolar zonas.
- Boa luz e, se possível, uma lupa ou uma câmara de ampliação (capítulo 11).
- Fita de pH para produtos.
- Cartela de cores para a cor atual.
- Ficha de cliente (capítulo 17), com campos que guiam a observação.
Protocolo: porque seguir sempre a mesma ordem
Seguir o protocolo do estabelecimento garante que nada se esquece, que dois profissionais diferentes recolhem a mesma informação e que o registo é comparável de visita para visita. Um diagnóstico sem protocolo corre o risco de omitir exatamente o ponto que importava.
Exemplo resolvido · primeira consulta, passo a passo
Um cliente novo, 28 anos, vem pedir "cabelo mais forte". Aplica-se o protocolo.
- Acolher e explicar: "Vou fazer algumas perguntas e observar o cabelo e o couro cabeludo, com a sua autorização."
- Anamnese: hábitos (lava todos os dias), químicos (uma coloração há seis meses), alergias (nenhuma referida), queixas (pontas secas, queda "normal").
- Observação visual: densidade boa, pontas com tricoptilose, couro cabeludo sem lesões.
- Avaliação táctil: áspero no sentido contrário, elasticidade a testar.
- Testes de tração, porosidade, elasticidade (capítulo 10).
- Interpretar: cabelo sensibilizado nas pontas, couro cabeludo saudável.
- Comunicar e aconselhar: corte das pontas, hidratação, proteção térmica.
- Registar tudo e agendar acompanhamento.
10. Testes específicos: tração, porosidade e elasticidade
Os testes dão resultados objetivos e comparáveis onde a observação sozinha deixa dúvidas. São simples, não invasivos e feitos no salão. Antes de cada teste, explica-se ao cliente o que se vai fazer e pede-se autorização.
Princípios comuns a todos os testes
- Mãos limpas e material limpo.
- Cabelo sem produtos de styling, para não falsear o resultado.
- Mais do que uma zona: raiz, comprimentos e pontas, e zonas diferentes da cabeça.
- Mesmo método em todas as visitas, para poder comparar.
- Registar o resultado de forma objetiva.
- Um teste não diagnostica doença: dá uma indicação que se junta ao resto.
Teste de tração
Para que serve: avaliar a firmeza com que os fios estão presos e a resistência do fio. Há duas leituras: se os fios saem pela raiz (queda) e se os fios partem (fragilidade).
Como se faz (teste de tração do couro cabeludo, ou pull test):
- Separar uma pequena mecha numa zona do couro cabeludo (repete-se em várias zonas, por exemplo frontal, topo, laterais e nuca).
- Pegar na mecha entre o polegar e o indicador, junto à raiz, sem torcer.
- Deslizar os dedos da raiz até às pontas, com tração suave e firme, constante.
- Observar e contar quantos fios ficam na mão e como são (com bolbo ou partidos).
- Repetir noutras zonas e registar.
Como se interpreta:
| Observação | Leitura provável | Atitude |
|---|---|---|
| Nenhum fio ou muito poucos saem | tração normal | registar |
| Saem vários fios com bolbo | possível queda aumentada (por exemplo, eflúvio) | registar a zona, recomendar consulta médica |
| Saem fios partidos a meio | fragilidade da haste, não queda pela raiz | cabelo sensibilizado, tratar a fibra |
| Positivo numa zona só | queda localizada | registar com precisão, recomendar consulta |
A quantidade que é "normal" e a que é "aumentada" depende do protocolo do estabelecimento e da orientação médica. O profissional não dá um número como diagnóstico: usa a regra "poucos fios é esperado; vários fios, sobretudo repetidos em várias zonas, justifica sinalizar".
Cuidados: não se faz tração forte em quem referiu dor, em couro cabeludo com lesões ou inflamado, nem em quem lavou o cabelo muito recentemente de forma a alterar o resultado. Se o cliente fez o penteado muito apertado há pouco, o resultado deve ser interpretado com cautela.
Teste de tração do fio (resistência): isolar um fio, segurá-lo pelas duas extremidades e esticar devagar. É o mesmo gesto do teste de elasticidade, descrito adiante.
Teste de porosidade
Para que serve: perceber se a cutícula está fechada, normal ou levantada, o que decide a escolha de produtos e a segurança de serviços químicos.
Há três métodos habituais, que se complementam.
| Método | Como se faz | O que se vê |
|---|---|---|
| Teste de toque (deslizar) | segurar um fio ou mecha e deslizar os dedos da ponta para a raiz | liso e macio indica cutícula fechada; rugoso ou com ressaltos indica cutícula levantada |
| Teste da água (absorção) | borrifar ou molhar uma mecha limpa e observar | a água fica em gotas à superfície e demora a entrar (baixa); absorve depressa (alta) |
| Teste do copo (flutuação) | colocar um fio limpo, sem produtos, num copo de água e observar | flutua por muito tempo (baixa); afunda depressa (alta) |
O teste do copo é popular, mas menos fiável: depende de resíduos, de produtos e da tensão superficial da água. Usa-se como indicação adicional, nunca como único critério.
Como se interpreta:
| Resultado | Significado | Implicação prática |
|---|---|---|
| Porosidade baixa | cutícula muito fechada | produtos pesados ficam à superfície; usar texturas leves e calor suave para ajudar a penetração |
| Porosidade média | normal | resposta previsível |
| Porosidade alta | cutícula danificada | absorve depressa e perde depressa; atenção a descolorações e alisamentos; proteger e reparar antes |
Importante: a porosidade pode ser diferente na raiz e nas pontas. A raiz, mais recente, costuma estar menos danificada do que as pontas, mais antigas e mais expostas. Testa-se em várias zonas.
Teste de elasticidade
Para que serve: avaliar a capacidade de o fio esticar e regressar ao tamanho inicial, sem partir. É um indicador da saúde do córtex e do equilíbrio hídrico.
Como se faz:
- Escolher um fio de uma zona, molhado, de preferência. Repete-se com fio seco, se o protocolo o indicar.
- Segurá-lo entre as duas mãos, uma em cada extremidade, com cerca de uma mão de distância.
- Esticar devagar, com cuidado, até sentir resistência.
- Soltar suavemente e observar se o fio regressa ao comprimento de partida.
- Repetir noutras zonas.
Como se interpreta:
| Resultado | Leitura |
|---|---|
| Estica de forma apreciável e regressa ao tamanho inicial | boa elasticidade, fibra saudável |
| Estica pouco e parte depressa | cabelo seco, frágil, com falta de hidratação e de resistência |
| Estica e não regressa | córtex enfraquecido, danificado por químicos ou calor |
| Estica demasiado, sente-se esponjoso e mole | proteína insuficiente ou dano químico importante |
Cuidados: esticar com suavidade, porque o próprio teste pode partir o fio. Usa-se um fio isolado e não uma mecha.
Resumo dos três testes
| Teste | Mede | Resultado "preocupante" | Decisão associada |
|---|---|---|---|
| Tração | firmeza e resistência | vários fios com bolbo, fios partidos | registar, encaminhar se queda, tratar a fibra se fios partidos |
| Porosidade | estado da cutícula | porosidade alta | reparar antes de químicos, proteger |
| Elasticidade | estado do córtex | não regressa, parte depressa | evitar serviços agressivos, tratamento reconstrutor |
Exemplo resolvido · interpretar os três testes juntos
Uma cliente que descolora há anos: o teste de tração mostra dois ou três fios partidos a meio, sem bolbo; no teste do toque, o fio é muito rugoso; a água é absorvida quase de imediato; no teste de elasticidade, o fio molhado estica e não regressa.
- Tração: fios partidos, não arrancados pela raiz: problema de fragilidade da haste, não de queda.
- Porosidade: alta, com cutícula muito levantada.
- Elasticidade: córtex enfraquecido.
- Interpretação global: cabelo com dano químico importante, muito sensibilizado.
- Risco a sinalizar: nova descoloração ou alisamento pode levar a quebra extensa.
- Conselho: pausa nos serviços químicos, tratamento reconstrutor e hidratante, corte de pontas, reavaliação em visitas seguintes.
11. Ferramentas de aumento e fotografia capilar
Há alterações que o olho nu não consegue ver ou só vê com dificuldade: o estado da cutícula, a diferença de diâmetro dos fios, os orifícios dos folículos, as escamas pequenas. É para isso que existem as ferramentas de aumento.
Equipamentos
| Equipamento | O que é | Para que serve |
|---|---|---|
| Lupa de mão ou de bancada | lente de aumento simples | observar pontas, escamas e couro cabeludo de perto |
| Micro câmara de diagnóstico (microcâmara capilar) | câmara pequena com luz e ampliação, ligada a ecrã ou dispositivo | ver o couro cabeludo e o fio ampliados e mostrá-los ao cliente |
| Dermatoscópio | aparelho de observação ampliada da pele, com luz própria | observar a superfície do couro cabeludo e dos folículos |
| Microscópio capilar | ampliação superior, geralmente para o fio | observar a cutícula e a estrutura do fio |
| Software de análise capilar | programa que trabalha as imagens | medir, comparar, guardar e acompanhar a evolução |
O estudo do couro cabeludo e dos fios com dermatoscópio chama-se, no meio profissional, tricoscopia. O cabeleireiro usa estas ferramentas como apoio à observação, não para dar diagnósticos médicos.
O que se vê com ampliação
| O que se observa | Normal | Sinal a registar |
|---|---|---|
| Cutícula do fio | escamas fechadas e alinhadas | escamas levantadas, partidas ou ausentes |
| Haste | superfície regular e contínua | nós, fissuras, estrangulamentos, quebras |
| Pontas | extremidade regular | pontas abertas, bifurcadas ou irregulares |
| Orifícios dos folículos | cada abertura com fio ou fios | aberturas vazias, fios com diâmetros muito diferentes |
| Superfície do couro cabeludo | pele limpa e uniforme | escamas, crostas, vermelhidão, vasos visíveis |
| Sebo | película discreta | excesso, obstrução dos orifícios |
Como usar as ferramentas de aumento
- Limpar e desinfetar o aparelho antes e depois de cada cliente, segundo as instruções do fabricante. Usar protetores descartáveis de ponta quando existirem.
- Explicar ao cliente o que se vai fazer e obter autorização.
- Calibrar o brilho e o foco, para ver sem reflexos.
- Separar o cabelo em zonas e observar em locais pré-definidos (por exemplo, frontal, topo, nuca, laterais).
- Não pressionar a ponta contra o couro cabeludo: o contacto deve ser suave, para não magoar nem alterar a cor da pele.
- Observar vários fios e várias zonas, não apenas um ponto.
- Guardar as imagens com identificação do cliente, zona e data, se houver consentimento.
Fotografia capilar
A fotografia documenta o estado inicial e permite comparar a evolução. Para ser útil, tem de ser repetível.
| Boa prática | Razão |
|---|---|
| Consentimento do cliente, informado sobre a finalidade | as imagens são dados pessoais e, ligadas à saúde, merecem cuidado acrescido |
| Mesma luz em cada sessão | a luz muda a cor e o aspeto |
| Mesmo fundo, simples e neutro | evita distrações |
| Mesmas posições: frente, topo, laterais, nuca | permite comparar |
| Mesma distância e mesmo enquadramento | tamanho comparável |
| Cabelo seco, sem produtos de styling, a menos que o objetivo seja outro | consistência |
| Sem filtros nem edições | não alterar a realidade |
| Ficheiro identificado com cliente, data e zona | organização |
| Guardar com segurança, em local de acesso restrito | confidencialidade |
Sem rosto não quer dizer sem dados pessoais: se o cliente é identificável, as imagens continuam a exigir cuidado.
Exemplo resolvido · documentar uma zona de densidade diminuída
Um cliente tem a risca mais larga. Pretende-se documentar para acompanhar durante meses.
- Pedir autorização e explicar a finalidade.
- Preparar o cabelo limpo e seco, sem produtos, e fixar o enquadramento (por exemplo, topo, a uma distância definida).
- Fotografar a zona na posição padrão e, com a micro câmara, a mesma zona ampliada.
- Identificar os ficheiros (cliente, zona, data).
- Registar na ficha: "risca com largura aumentada em comparação com o relato do cliente; fios de diâmetros diferentes observados com ampliação".
- Repetir nas visitas seguintes, mesma posição, luz e distância.
- Recomendar consulta médica, se a diminuição for progressiva.
12. Avaliação tricológica I: as alopecias
A tricologia é o estudo do cabelo e do couro cabeludo. A avaliação tricológica observa, regista e interpreta alterações do couro cabeludo e do cabelo. O profissional de cabeleireiro faz a avaliação de nível básico: reconhece sinais, descreve e encaminha. O diagnóstico médico pertence ao médico.
O que é a alopecia
Alopecia é a diminuição ou ausência de cabelo em zonas onde normalmente existe. Pode ser difusa (por toda a cabeça) ou localizada (em zonas definidas), e reversível ou permanente, consoante o folículo seja preservado ou destruído.
Visão geral dos principais tipos
| Tipo | Como se apresenta | Causa principal | Reversível? |
|---|---|---|---|
| Androgenética | diminuição progressiva e com padrão típico | hereditariedade e hormonas | progressiva, sem cura simples |
| Areata | placas redondas ou ovais sem cabelo, de pele normal | mecanismo autoimune | frequentemente reversível |
| Cicatricial | zonas lisas, com perda definitiva de folículos | inflamação que destrói o folículo | perda permanente |
| Por tração | recuo na linha do cabelo ou zonas de tensão | penteados apertados e extensões | reversível no início |
| Eflúvio telógeno | queda difusa | stress, doença, parto, dieta, fármacos | em regra reversível |
| Tricotilomania | zonas com fios partidos de comprimento irregular | arrancar o cabelo de forma repetida | depende do acompanhamento |
Alopecia androgenética
É a forma mais frequente. Resulta de uma sensibilidade dos folículos a hormonas, de base hereditária. Os folículos vão miniaturizando: o fio torna-se progressivamente mais fino, mais curto e mais claro, até o folículo deixar de produzir fio visível.
| Sexo | Padrão típico |
|---|---|
| Homens | recuo da linha frontal (entradas), rarefação no topo (coroa) |
| Mulheres | rarefação difusa no topo, com risca alargada, e linha frontal preservada |
O que o profissional observa: progressão lenta, diâmetros de fio muito diferentes na mesma zona, risca alargada, mais couro cabeludo visível, antecedentes familiares. O que faz: registar, fotografar, aconselhar cuidados suaves e recomendar consulta médica, e fazê-lo cedo, porque a avaliação precoce é a que dá mais opções ao médico. Ao cliente diz-se que convém uma avaliação médica e que quanto mais cedo, melhor; não se fala de tratamentos, que são do médico.
Alopecia areata
Caracteriza-se por placas redondas ou ovais, bem delimitadas, sem cabelo, com pele de aspeto normal, lisa e sem descamação ou com pouca. É considerada de origem autoimune, ou seja, o sistema imunitário ataca os folículos de forma temporária. Surge em qualquer idade, e pode atingir só uma placa ou várias.
O que o profissional observa: placa lisa, limites nítidos, por vezes fios curtos e finos na orla ("em ponto de exclamação"). O que faz: registar, fotografar, não esfregar nem aplicar produtos irritantes na zona, recomendar consulta e ter sensibilidade para o impacto emocional que a situação pode ter.
Alopecias cicatriciais
Resultam de inflamação que destrói o folículo e o substitui por tecido cicatricial. Por isso a perda é permanente e é importante agir cedo. Sinais de alerta:
- zona lisa, brilhante, sem aberturas de folículos visíveis;
- vermelhidão, escamas à volta dos folículos, prurido, ardor ou dor;
- progressão com o tempo.
O que faz o profissional: sinaliza com urgência relativa e recomenda consulta médica sem demora; não faz serviços químicos nem tração na zona.
Alopecia por tração
Resulta de tensão repetida sobre os folículos: tranças e rabos de cavalo muito apertados, extensões, apliques colados, turbantes. Nota-se por recuo da linha do cabelo nas têmporas e na testa, ou zonas onde o penteado prende, por vezes com pequenos inchaços e vermelhidão à volta dos folículos.
No início, é reversível se a causa for retirada. Se a tração continua durante muito tempo, os folículos podem lesionar-se de modo definitivo. O que faz o profissional: perguntar pelo tipo de penteados, aconselhar a alternar e a reduzir a tensão, evitar técnicas que a aumentem e recomendar consulta se há dor, crostas ou perda persistente.
Eflúvio telógeno
Já referido no capítulo 4. É uma queda difusa e aumentada pela entrada simultânea de muitos folículos em fase de repouso. Os desencadeantes são variados: stress intenso, doença com febre, cirurgia, parto, dietas muito restritivas, alterações hormonais e certos medicamentos. Costuma surgir semanas ou meses depois do desencadeante.
Sinais: queda difusa, cabelo mais ralo no conjunto, sem placas, sem alteração marcada do couro cabeludo, com teste de tração positivo (fios com bolbo claro). O que faz o profissional: registar a cronologia, recomendar consulta para identificar a causa e transmitir que, quando a causa é resolvida, a recuperação é habitual, sem prometer.
Tricotilomania e hábitos
A tricotilomania é o hábito compulsivo de arrancar cabelo. Vê-se zonas com fios partidos de comprimentos diferentes, formas irregulares, por vezes zona frontal ou coroa. É sensível e exige tato. O profissional não acusa nem confronta, regista de modo neutro e, com delicadeza, sugere apoio médico ou psicológico.
Fluxo de decisão perante perda de cabelo
| Pergunta | Resposta | Passo seguinte |
|---|---|---|
| A perda é difusa ou em placas? | difusa | pensar em eflúvio, androgenética; testar tração |
| em placas | pensar em areata, cicatricial, tração, hábito | |
| A pele está normal ou alterada? | normal e lisa | areata, androgenética |
| com inflamação, dor, crostas, brilho cicatricial | sinalizar urgência, encaminhar | |
| Houve acontecimento recente? | sim | registar cronologia (eflúvio) |
| Há penteados apertados? | sim | pensar em tração |
| Em todos os casos | registar, fotografar, recomendar consulta |
Exemplo resolvido · distinguir dois casos de perda de cabelo
Caso A. Mulher, 52 anos, risca cada vez mais larga no topo nos últimos dois anos, mãe com situação semelhante, couro cabeludo sem vermelhidão, fios de diâmetros variados.
Caso B. Homem, 25 anos, placa redonda sem cabelo, de pele lisa e normal, que apareceu em poucas semanas.
- Caso A: perda difusa, lenta e progressiva no topo, antecedente familiar, fios de diâmetro variado: o padrão é compatível com alopecia androgenética feminina. Pele normal. O profissional regista, fotografa e recomenda consulta médica.
- Caso B: perda localizada em placa, pele de aspeto normal, início rápido: o padrão é compatível com alopecia areata. O profissional regista, fotografa, evita irritar a zona e recomenda consulta.
- Em ambos, a hipótese «compatível com» serve só de raciocínio interno, e o passo final é o encaminhamento. Nenhum nome de doença é dito ao cliente nem escrito na ficha.
Atenção ao uso destas hipóteses. A hipótese «compatível com...» é raciocínio interno do profissional, que lhe serve para decidir a urgência do encaminhamento. Nunca é o que se diz ao cliente. Ao cliente diz-se apenas o que se vê e que um médico deve avaliar, por exemplo: «Há um sinal no couro cabeludo que um médico deve ver.» Na ficha regista-se a descrição objetiva, nunca o nome da doença (capítulos 16 e 17).
13. Avaliação tricológica II: outras condições do couro cabeludo e da fibra capilar
Além das alopecias, o referencial manda reconhecer dermatite seborreica, psoríase capilar, eflúvio telógeno, tricoptilose (pontas duplas), caspa e outras condições dermatológicas.
Caspa (pitiríase simples)
O que é: descamação do couro cabeludo em escamas finas e esbranquiçadas, com pouca ou nenhuma vermelhidão. É muito comum e não contagiosa.
Sinais: escamas soltas nos ombros e no cabelo, prurido ligeiro ou ausente, couro cabeludo de aspeto quase normal.
Fatores associados: renovação acelerada da epiderme, secura ou oleosidade, certos microrganismos que vivem normalmente na pele, stress, frio, produtos inadequados.
O que faz o profissional: aconselhar champôs específicos para caspa, lavagem regular e suave, evitar arranhar. Se não melhorar ou houver vermelhidão e crostas, recomendar consulta.
Dermatite seborreica
O que é: inflamação crónica e recorrente das zonas ricas em glândulas sebáceas, como o couro cabeludo, a testa, as sobrancelhas e a zona atrás das orelhas.
Sinais: vermelhidão e escamas amareladas e oleosas, por vezes aderentes, com prurido e, em fases agudas, crostas. Agrava-se com stress, frio e cansaço, e tende a voltar.
| Comparação | Caspa | Dermatite seborreica |
|---|---|---|
| Escamas | finas, brancas, secas | amareladas, oleosas, mais aderentes |
| Vermelhidão | ausente ou ligeira | presente |
| Prurido | ligeiro ou ausente | frequente |
| Outras zonas | normalmente só o couro cabeludo | pode afetar testa, sobrancelhas, atrás das orelhas |
O que faz o profissional: reconhecer, descrever, evitar produtos irritantes e fricção, aconselhar produtos suaves e recomendar consulta, porque o tratamento é médico.
Psoríase capilar
O que é: doença crónica da pele, de base imunitária, em que a renovação das células da epiderme é muito acelerada. Não é contagiosa.
Sinais: placas espessas, bem delimitadas, vermelhas, cobertas por escamas esbranquiçadas ou prateadas que se soltam em camadas. Podem passar da linha do cabelo para a testa ou a nuca. Pode haver prurido.
Distinguir da dermatite seborreica: as placas da psoríase são mais espessas e bem delimitadas, com escamas mais secas e prateadas; as da dermatite seborreica são mais oleosas e amareladas. Na prática, a distinção cabe ao médico.
O que faz o profissional: não arrancar escamas, evitar fricção e químicos agressivos nessas zonas, aconselhar suavidade e recomendar consulta. Se o cliente perguntar se «se pega», não se confirma nem se desmente doença nenhuma: diz-se que há quadros de aspeto muito parecido com causas diferentes, umas contagiosas e outras não, e que isso é precisamente o que o médico vai esclarecer. Entretanto, o material usado nesse cliente higieniza-se como em qualquer caso de dúvida.
Tricoptilose (pontas duplas)
O que é: divisão da extremidade do fio, que se abre em duas ou mais pontas, por desgaste da cutícula e do córtex.
Causas: calor, atrito, químicos, falta de hidratação, falta de corte regular.
Sinais: pontas abertas em "Y", com aspeto seco, por vezes com nós. Vê-se melhor com ampliação.
Ponto crucial: o fio aberto não se "cola". Produtos para pontas dão um efeito temporário de proteção, mas a solução definitiva é cortar acima da zona danificada. É um dos conselhos honestos mais importantes que o profissional pode dar.
Outras alterações da haste
| Alteração | Descrição | Causa habitual | Atitude |
|---|---|---|---|
| Tricorrexe nodosa | pequenos nós ou engrossamentos na haste onde esta parte | trauma químico e físico | cortar, proteger |
| Fragilidade geral | fios partem a meio | químicos, calor, tração | tratar a fibra |
| Acumulação de produto | cabelo pesado, baço, couro cabeludo com resíduo | produtos em excesso | lavagem de limpeza profunda indicada, rotina mais simples |
| Cabelo seco e baço | sem brilho, áspero | desidratação | hidratação |
Outras condições dermatológicas e situações a sinalizar
| Situação | Sinais gerais | Atitude do profissional |
|---|---|---|
| Tinha do couro cabeludo (infeção por fungos) | zonas com descamação e fios partidos junto ao couro cabeludo, por vezes com inflamação; pode ser contagiosa | não realizar o serviço, higienizar material, encaminhar para médico |
| Pediculose (piolhos) | prurido forte, presença de parasitas ou lêndeas (ovos) agarradas ao fio | não realizar o serviço, desinfetar o material, informar o cliente de que deve falar com um farmacêutico ou com o médico sobre o tratamento |
| Foliculite | pequenos pontos vermelhos ou com pus à volta dos folículos | não esfregar, evitar produtos irritantes, encaminhar |
| Dermatite de contacto | vermelhidão, ardor, prurido após contacto com um produto | retirar o produto, enxaguar, registar o produto, encaminhar se persistir |
| Lesões, feridas, queimaduras | pele aberta, crostas, bolhas | não aplicar produtos químicos, encaminhar |
| Alterações de sinais na pele (pintas que mudam, feridas que não cicatrizam) | formas e cores irregulares | sinalizar com delicadeza e recomendar consulta de dermatologia |
Reação a produtos: o teste de sensibilidade
Antes de colorações e de outros produtos que a ficha técnica indique, faz-se o teste de sensibilidade (ou de tolerância) segundo as instruções do fabricante: aplica-se uma pequena quantidade numa zona de pele definida pelo fabricante e aguarda-se o tempo indicado. Se aparecer reação, não se faz o serviço. O resultado regista-se na ficha, com a data. Em cliente com historial de reação, o cuidado é redobrado.
O rótulo das colorações de cabelo traz avisos que se leem antes de começar: podem provocar reações alérgicas graves, pelo que se manda ler e seguir as instruções de utilização; o produto não se destina a menores de 16 anos; não se deve pintar o cabelo com erupção cutânea na face ou com o couro cabeludo sensível, irritado ou danificado, nem depois de uma reação a uma coloração ou a uma tatuagem temporária de «hena negra», e estas tatuagens podem aumentar o risco de alergia. Perante qualquer destes casos, não se faz o serviço. A prova de sensibilidade não substitui estes avisos nem os torna dispensáveis: segue-se sempre o rótulo e a ficha do fabricante.
Quando encaminhar para o médico
| Sinal | Urgência |
|---|---|
| Perda súbita e em placas | marcar consulta em breve |
| Perda difusa persistente | consulta |
| Zona lisa, brilhante, com dor ou inflamação | consulta sem demora |
| Feridas, crostas, pus, dor intensa | consulta rápida |
| Suspeita de infeção ou parasitas | não realizar o serviço, encaminhar |
| Reação após produto, com inchaço do rosto ou dificuldade em respirar | emergência médica: ligar o 112, o número europeu de emergência |
Exemplo resolvido · caspa ou dermatite seborreica?
Dois clientes dizem que "têm caspa".
Cliente 1: escamas brancas, finas e soltas, couro cabeludo sem vermelhidão, prurido ligeiro ocasional, só no couro cabeludo.
Cliente 2: escamas amareladas e oleosas, aderentes, couro cabeludo vermelho, prurido frequente, vermelhidão também atrás das orelhas e nas sobrancelhas.
- Cliente 1: sem sinais de alerta, o quadro é, em raciocínio interno, compatível com caspa. O profissional descreve o que vê, aconselha champô específico, lavagem regular e suave, e propõe acompanhamento.
- Cliente 2: vermelhidão, escamas oleosas e envolvimento de outras zonas fazem pensar, em raciocínio interno, em dermatite seborreica, o que justifica encaminhar. Ao cliente diz-se: «Há vermelhidão e escamas em várias zonas, e um médico deve ver.» O profissional evita produtos irritantes, aconselha suavidade e recomenda consulta médica.
- Em ambos, o profissional descreve e sugere; o diagnóstico definitivo cabe ao médico.
Atenção ao uso destas hipóteses. A hipótese «compatível com...» é raciocínio interno do profissional, que lhe serve para decidir a urgência do encaminhamento. Nunca é o que se diz ao cliente. Ao cliente diz-se apenas o que se vê e que um médico deve avaliar, por exemplo: «Há um sinal no couro cabeludo que um médico deve ver.» Na ficha regista-se a descrição objetiva, nunca o nome da doença (capítulos 16 e 17).
14. Interpretar os resultados e sinalizar riscos
Recolher dados é só metade do trabalho. A outra metade é interpretar o conjunto e transformá-lo numa decisão: avançar, adaptar, adiar ou encaminhar.
Do dado à decisão
- Reunir tudo: anamnese, observação, tacto, testes, ampliação, fotografias.
- Procurar padrões: o que se repete? o que se contradiz?
- Distinguir o que é do cabelo (fibra) e o que é do couro cabeludo (pele).
- Identificar os riscos para cada serviço ou produto pretendido.
- Decidir: avançar, adaptar, adiar, recusar ou encaminhar.
- Comunicar a decisão ao cliente e registar.
Fibra versus pele
| Origem do problema | Exemplos | Quem trata |
|---|---|---|
| Fibra capilar (haste) | pontas duplas, porosidade alta, fragilidade, baço | o profissional, com serviços e produtos cosméticos |
| Couro cabeludo (cosmético) | oleosidade, caspa ligeira, sensibilidade | o profissional, com produtos específicos |
| Couro cabeludo (médico) | placas, inflamação, lesões, queda de causa desconhecida, suspeita de infeção | o médico; o profissional encaminha |
Matriz de risco: que serviço é seguro?
| Achado no diagnóstico | Coloração | Descoloração | Alisamento ou permanente | Tratamento hidratante |
|---|---|---|---|---|
| Cabelo natural, saudável, couro cabeludo normal | possível | possível, com cuidado | possível, com cuidado | possível |
| Cabelo muito poroso e frágil | com cautela e preparação | desaconselhar | desaconselhar | indicado |
| Couro cabeludo irritado ou com lesões | não fazer | não fazer | não fazer | adiar ou adaptar |
| Reação anterior a uma coloração ou a outro produto, teste de sensibilidade positivo | não fazer | não fazer | adiar | possível, com produto seguro |
| Suspeita de infeção ou parasitas | não fazer | não fazer | não fazer | não fazer |
| Químicos recentes de outros tipos | avaliar compatibilidade, esperar | não fazer sem avaliar | não fazer sem avaliar | possível |
A matriz é um guia. O protocolo do estabelecimento e as instruções do fabricante prevalecem, e na dúvida não se faz o serviço e pede-se opinião a quem sabe mais.
Riscos associados à aplicação de técnicas e produtos
| Risco | Como surge | Prevenção |
|---|---|---|
| Reação alérgica | contacto com corante ou outro produto | historial, teste de sensibilidade, luvas |
| Irritação ou queimadura química | produto em pele sensível ou lesionada, tempo excessivo | avaliar o couro cabeludo antes, respeitar tempos |
| Quebra do cabelo | químicos em fibra frágil | avaliar porosidade e elasticidade, adaptar |
| Resultado de cor imprevisível | produtos anteriores ou cabelo muito poroso | perguntar historial, fazer teste de mecha |
| Agravamento de doença | serviço em couro cabeludo inflamado | não executar, encaminhar |
| Contágio | material mal desinfetado, infeção ou parasitas | higiene rigorosa, recusar o serviço |
Teste de mecha
Antes de um serviço químico num cabelo sensibilizado, pode fazer-se um teste de mecha: aplica-se o produto numa pequena mecha escondida e observa-se o resultado final (cor e estado do fio). Evita surpresas e dá segurança ao cliente e ao profissional.
Como escrever uma conclusão de diagnóstico
Uma boa conclusão é curta, objetiva e útil. Modelo:
"Cabelo [forma], [espessura], [oleosidade], sensibilizado por [causa]. Porosidade [nível], elasticidade [nível]. Couro cabeludo [estado]. Riscos: [lista]. Decisão: [serviço adaptado, adiado ou encaminhamento]. Conselho: [rotina e produtos]."
Exemplo resolvido · decidir se uma coloração avança
Uma cliente pede uma coloração. Diagnóstico: cabelo natural com pontas ligeiramente secas; porosidade média; elasticidade boa; couro cabeludo normal; sem alergias; coloração anterior há dez semanas; teste de sensibilidade negativo.
- Riscos identificados: pontas secas (risco menor), raiz com crescimento (zona natural).
- Matriz: cabelo saudável, couro cabeludo normal, teste negativo: coloração possível.
- Adaptação: aplicar na raiz primeiro e nos comprimentos mais tarde, hidratar as pontas, sugerir corte de manutenção.
- Comunicar: explicar o plano e o cuidado nas pontas.
- Registar: diagnóstico, teste, decisão e produtos usados.
Variante: se o couro cabeludo estivesse com crostas e vermelhidão, a decisão seria não fazer o serviço e recomendar consulta, mesmo com o cliente a insistir.
15. Tratamento capilar: tipos, objetivos, produtos, ingredientes ativos e aplicação
Depois do diagnóstico, o profissional sugere um tratamento capilar. Sugerir não é prescrever: é propor, com fundamento, cuidados cosméticos adequados ao estado do cabelo e do couro cabeludo, dentro das competências da profissão.
Tipos de tratamento e objetivos
| Tipo de tratamento | Objetivo | Indicado para |
|---|---|---|
| Limpeza e equilíbrio do couro cabeludo | remover sebo, resíduos e escamas, equilibrar o couro cabeludo | oleosidade, acumulação de produto, caspa ligeira |
| Hidratação | repor a água na fibra | cabelo seco, baço, com estática |
| Nutrição | repor lípidos e dar suavidade e brilho | cabelo muito seco, áspero, crespo |
| Reconstrução | reforçar a fibra com proteínas e agentes reparadores | cabelo fraco, poroso, com perda de elasticidade |
| Selagem das pontas e proteção | proteger as extremidades e a cutícula | pontas secas ou abertas (efeito temporário) |
| Tratamentos para o couro cabeludo (anticaspa, seborregulador, calmante) | tratar aspetos cosméticos do couro cabeludo | caspa, oleosidade, sensibilidade |
| Proteção (térmica, solar) | defender do calor e dos UV | cabelo exposto a calor e sol |
Regra de ouro: diferentes zonas podem precisar de tratamentos diferentes. Um cabelo misto pede produtos de equilíbrio na raiz e hidratação nos comprimentos.
Tipos de produtos
| Produto | Função | Quando |
|---|---|---|
| Champô | limpar o couro cabeludo e o cabelo | todas as lavagens |
| Champô de limpeza profunda | remover acumulação de produtos e resíduos | de vez em quando, nunca como rotina diária |
| Condicionador | fechar a cutícula, facilitar o desembaraçar, dar suavidade | após o champô, nos comprimentos |
| Máscara | tratamento intensivo de hidratação, nutrição ou reconstrução | com periodicidade indicada pelo fabricante |
| Ampola, sérum, tónico | concentrado de ativos, por vezes para o couro cabeludo | ciclos de tratamento |
| Leave-in (sem enxaguar) | proteger, desembaraçar, hidratar | pós-lavagem |
| Óleo | selar, proteger, dar brilho | nas pontas, em pouca quantidade |
| Protetor térmico | defender do calor | antes de secador, placas e ferros |
| Esfoliante de couro cabeludo | remover escamas e acumulação à superfície | uso moderado, nunca em pele irritada |
Ingredientes ativos e funções
O rótulo e a ficha técnica dos produtos indicam os ingredientes. Algumas famílias úteis a conhecer:
| Família de ingrediente | Função geral | Exemplo de uso |
|---|---|---|
| Humectantes (por exemplo, glicerina, pantenol) | atrair e reter água | hidratação |
| Emolientes e óleos vegetais | amaciar e proteger | nutrição e brilho |
| Proteínas hidrolisadas (queratina, trigo, seda, entre outras) | reforçar e preencher a fibra | reconstrução |
| Aminoácidos | reparar e fortalecer | fibra fraca |
| Agentes condicionadores catiónicos | fechar a cutícula, reduzir estática | condicionadores |
| Silicones | alisar a superfície e proteger, dando brilho imediato | acabamento, protetor térmico |
| Agentes anticaspa | controlar os microrganismos e a descamação | champôs anticaspa |
| Agentes seborreguladores | equilibrar o sebo | couro cabeludo oleoso |
| Agentes calmantes (por exemplo, extratos suavizantes, pantenol) | reduzir a sensação de irritação | couro cabeludo sensível |
| Filtros UV | proteger da radiação | produtos de verão |
Cuidado: os rótulos usam a nomenclatura internacional de ingredientes. Os produtos cosméticos têm de cumprir as regras europeias e nacionais sobre cosméticos, incluindo a rotulagem, e as alegações de um cosmético têm de ser verdadeiras e não prometer efeitos medicinais. Um cosmético não trata doenças. Para pormenores sobre ingredientes, restrições e obrigações de rotulagem, consulta-se a legislação sobre produtos cosméticos na redação em vigor e a ficha técnica do produto.
Métodos de aplicação
| Produto | Como aplicar | Cuidados |
|---|---|---|
| Champô | molhar bem, aplicar pouco produto, massajar a polpa dos dedos no couro cabeludo | água morna, enxaguar bem |
| Condicionador | dos comprimentos às pontas, evitando a raiz | respeitar o tempo, enxaguar |
| Máscara | em cabelo lavado e húmido, nos comprimentos, pentear para distribuir | tempo de atuação indicado, não exceder |
| Tratamento de couro cabeludo | em risca, no couro cabeludo, massajando com suavidade | só em pele sem lesões |
| Leave-in e óleo | pequena quantidade nas pontas e comprimentos | pouco produto, para não pesar |
| Protetor térmico | em cabelo molhado e distribuído, antes do calor | temperatura moderada |
| Esfoliante | no couro cabeludo húmido, com suavidade | não usar em couro cabeludo irritado |
Precauções gerais
- Ler o rótulo e a ficha técnica e seguir as instruções do fabricante.
- Verificar o couro cabeludo: sem lesões nem irritação antes de aplicar produtos ativos.
- Perguntar por alergias e fazer o teste quando indicado.
- Usar luvas quando o produto o exigir.
- Evitar o contacto com os olhos e as mucosas; se acontecer, enxaguar com água em abundância e, se persistir, procurar ajuda médica.
- Não misturar produtos que não estejam previstos para ser misturados.
- Respeitar tempos e temperaturas.
- Guardar os produtos como indicado e verificar o prazo de validade.
- Registar os produtos usados na ficha do cliente.
Como escolher o tratamento a sugerir
- Identificar o problema principal (fibra, couro cabeludo, ambos).
- Identificar a causa provável (hábitos, químicos, ambiente).
- Escolher o tipo de tratamento que responde ao objetivo.
- Escolher o produto pelo tipo de cabelo e pelos ativos.
- Definir a periodicidade e a rotina de casa.
- Combinar a reavaliação.
Exemplo resolvido · propor um plano
Cliente com cabelo longo, fino e sensibilizado por coloração, raiz oleosa e pontas secas, com tricoptilose. Teste de elasticidade: estica pouco. Couro cabeludo sem lesões.
- Problemas: raiz oleosa (couro cabeludo), pontas secas e abertas (fibra), elasticidade reduzida (fibra).
- Causas prováveis: água muito quente e secagem com calor excessivo; coloração.
- Plano em duas frentes:
- Raiz: champô de equilíbrio, água morna, não aplicar condicionador na raiz.
- Comprimentos: máscara hidratante e reconstrutora com periodicidade combinada, protetor térmico, corte das pontas.
- Rotina de casa: lavar com água morna, secar a temperatura média, evitar elásticos apertados.
- Reavaliação daqui a algumas semanas, repetindo os testes e as fotografias.
- Registar o plano e os produtos.
16. Aconselhar o cliente e comunicar o resultado do diagnóstico
O terceiro critério de desempenho é comunicar de forma clara o resultado do diagnóstico. Um diagnóstico perfeito de que o cliente nada percebe é um diagnóstico perdido.
Princípios da boa comunicação
| Princípio | Em prática |
|---|---|
| Clareza | frases curtas, palavras simples, termos técnicos só se explicados |
| Honestidade | dizer o que se viu, o que se pode fazer e o que não se pode prometer |
| Empatia | o cabelo é parte da identidade; queda e doenças mexem com a autoestima |
| Respeito | tratar o cliente como parceiro nas decisões |
| Confidencialidade | o que se fala e se vê não sai dali |
| Utilidade | cada conclusão leva a uma recomendação concreta |
Estrutura de uma comunicação de resultado
- Resumir o que se observou, com linguagem simples.
- Explicar o que isso significa para o cabelo e para o serviço.
- Indicar os riscos, se existirem, e a decisão (avançar, adaptar, adiar, encaminhar).
- Propor o plano de tratamento e a rotina de casa.
- Confirmar a compreensão e esclarecer dúvidas.
- Combinar o seguimento (próxima visita, reavaliação).
Mostrar para fazer entender
As imagens de ampliação e as fotografias ajudam a mostrar o que se descreve: o cliente vê as pontas abertas, a cutícula levantada, a risca alargada. Mostrar é mais convincente do que dizer, e ajuda o cliente a aceitar um conselho, como adiar uma coloração.
Palavras que ajudam e palavras que complicam
| Evitar | Usar |
|---|---|
| "Tem uma doença." | "Há um sinal no couro cabeludo que um médico deve ver." |
| "Isto cura com este champô." | "Este champô ajuda a controlar a descamação; se não melhorar, convém ver um médico." |
| "O seu cabelo está arruinado." | "O cabelo está bastante sensibilizado. Há um plano para o recuperar de forma gradual." |
| "Vai cair tudo." | "A queda aumentada tem várias causas; o médico pode descobrir a sua." |
| "Isso é do stress." | "Mudanças importantes podem influenciar o cabelo. Houve alguma recentemente?" |
| Termos técnicos sem explicação | Termo técnico seguido de explicação simples |
Dar más notícias e recusar um serviço
Por vezes é preciso dizer "hoje não podemos fazer este serviço". Faz-se com:
- Calma e empatia: reconhecer a expectativa do cliente.
- Razão clara e curta: o risco para o couro cabeludo ou para o cabelo.
- Alternativa concreta: o que se pode fazer agora e quando o serviço poderá ser feito.
- Firmeza gentil se o cliente insistir: a segurança não é negociável. Se o cliente insistir, regista-se a recusa e a explicação dada.
Encaminhar para o médico
Quando se recomenda consulta:
- dizer porquê, sem alarmar;
- indicar a especialidade (dermatologia) ou o médico assistente;
- sugerir o que levar (notas e fotografias, com autorização);
- não adiantar diagnósticos nem tratamentos;
- registar a recomendação.
Aconselhamento para casa
Dar poucos conselhos, claros e possíveis de cumprir, em vez de uma lista enorme. Exemplo:
- Lavar com água morna e champô adequado, massajando o couro cabeludo com a polpa dos dedos.
- Aplicar a máscara só nos comprimentos, uma vez por semana ou como indicado.
- Usar protetor térmico antes do secador.
- Variar o penteado e usar elásticos suaves.
- Voltar daqui a algumas semanas para reavaliar.
Gerir expectativas
O cabelo cresce devagar e a recuperação de dano é gradual. É preferível prometer menos e cumprir do que garantir resultados que não dependem do profissional. Em perda de cabelo, esclarece-se que os cuidados cosméticos melhoram o aspeto e o conforto, mas não substituem a avaliação e o tratamento médicos.
Exemplo resolvido · comunicar um diagnóstico com recusa parcial
Uma cliente chega para descolorar. O diagnóstico mostra cabelo com porosidade alta, elasticidade fraca (estica e não regressa) e muitas pontas partidas.
- Resumir: "Fizemos alguns testes. O cabelo está muito sensibilizado por tratamentos anteriores."
- Mostrar: imagem da câmara com a cutícula levantada e pontas partidas.
- Explicar o risco: "Se descolorarmos agora, o cabelo pode partir."
- Decisão e alternativa: "Proponho começar por um plano de reconstrução e hidratação durante algumas semanas e voltar a avaliar."
- Confirmar: "Faz sentido? Tem alguma dúvida?"
- Registar: o diagnóstico, a recusa temporária, o motivo e o plano combinado.
Resposta possível da cliente: "Mas eu queria hoje." O profissional mantém-se cordial: reconhece o desejo, repete a razão, e oferece uma segunda opção segura (por exemplo, um tom que não exija descoloração).
17. Registar a informação na ficha de cliente
O quarto objetivo do referencial é registar a informação recolhida na ficha de cliente. A ficha é a memória do estabelecimento: permite acompanhar a evolução, proteger o cliente e o profissional, e dar continuidade ao serviço mesmo que seja outra pessoa a atender.
Para que serve a ficha
| Função | Exemplo |
|---|---|
| Continuidade | outro profissional percebe o historial |
| Segurança | alergias e reações anteriores sempre à vista |
| Evolução | comparar antes e depois |
| Prova | demonstra que se avaliou, avisou e acordou |
| Qualidade | permite melhorar o serviço |
Estrutura de uma ficha de diagnóstico
| Secção | Conteúdo |
|---|---|
| Identificação | nome, contacto, data, profissional |
| Motivo da visita | o que o cliente pede ou refere |
| Anamnese | queixas, hábitos, químicos anteriores, alergias, saúde, medicação que o cliente queira partilhar |
| Observação do couro cabeludo | estado, oleosidade, descamação, lesões, sensibilidade |
| Observação do cabelo | forma, espessura, densidade, cor, textura, brilho, pontas |
| Testes | tração, porosidade, elasticidade, resultado de cada |
| Imagens | fotografias e ampliações, com indicação da zona e data |
| Interpretação e riscos | conclusão e riscos sinalizados |
| Decisão | serviço feito, adaptado, adiado, recusado ou encaminhamento |
| Conselho dado | plano, produtos, rotina |
| Consentimentos | autorização para dados e imagens; reação ao teste de sensibilidade |
| Seguimento | data da próxima visita |
Regras de um bom registo
- Objetivo: descrever o que se viu, não opiniões ("vermelhidão em placa no topo", e não "parece psoríase").
- Completo nos campos obrigatórios, com "nada a referir" quando for o caso.
- Datado e identificado: data e autoria de cada registo.
- Legível e organizado; sem abreviaturas que mais ninguém entenda.
- Rigoroso nas unidades e escalas usadas (por exemplo, "densidade diminuída na zona frontal").
- Atualizado: cada visita acrescenta, não apaga o que já está.
- Sem juízos de valor sobre o cliente.
- Registar o que o cliente disse com as suas palavras quando for relevante.
- Registar as recusas e os encaminhamentos, com o motivo.
Dados pessoais e confidencialidade
A ficha contém dados pessoais e, por vezes, informação sobre saúde, que merece cuidado acrescido. As regras europeias e nacionais de proteção de dados aplicam-se: recolher só o necessário, informar o cliente da finalidade, obter o consentimento quando necessário, guardar com segurança (armário fechado ou sistema com acesso restrito), não partilhar com quem não deve e respeitar o direito do cliente de consultar e corrigir os seus dados. Para os pormenores, consulta-se a legislação de proteção de dados na redação em vigor e as orientações do estabelecimento.
Exemplo de preenchimento
| Campo | Registo |
|---|---|
| Data | 12 de outubro |
| Motivo | quer cabelo mais forte e menos pontas secas |
| Anamnese | lava diariamente com água quente; coloração há seis meses; sem alergias referidas; sem queixas no couro cabeludo |
| Couro cabeludo | cor uniforme, sem escamas nem lesões, oleosidade moderada |
| Cabelo | liso, médio, densidade boa; castanho com pontas aclaradas; áspero no sentido contrário |
| Testes | tração: sem fios com bolbo; porosidade: alta nas pontas, média na raiz; elasticidade: regressa parcialmente nas pontas |
| Imagens | fotografias de frente, topo e nuca; ampliação das pontas |
| Riscos | pontas muito porosas: evitar nova descoloração |
| Decisão | corte de manutenção e tratamento hidratante |
| Conselho | água morna, protetor térmico, máscara semanal nos comprimentos |
| Seguimento | reavaliação em quatro a seis semanas |
Exemplo resolvido · corrigir um registo mau
Registo mau: "Cliente com o cabelo uma desgraça, deve ter psoríase. Disse-lhe para comprar um champô forte."
- Problema 1: juízo de valor ("uma desgraça").
- Problema 2: diagnóstico médico dado como certeza ("deve ter psoríase").
- Problema 3: conselho vago e sem produto nem fundamento.
- Problema 4: faltam datas, zonas, testes, riscos e decisão.
- Registo corrigido: "Placas com escamas esbranquiçadas e vermelhidão na zona temporal direita, com cerca de 3 cm, prurido referido. Serviço químico adiado. Recomendada consulta de dermatologia. Aconselhado champô suave sem fricção até avaliação. Cliente informada e de acordo."
18. Segurança e saúde no trabalho, higiene e normas aplicáveis
O referencial pede o conhecimento da regulamentação e normas sobre segurança e saúde do trabalho nos estabelecimentos comerciais de serviços, e a aptidão de aplicar as normas de segurança e saúde no trabalho. Uma atitude de respeito por elas é parte da avaliação.
Enquadramento
Em Portugal, a segurança e saúde no trabalho regem-se por legislação própria, na redação em vigor, que obriga os empregadores a organizar as condições de trabalho de forma a prevenir riscos, e os trabalhadores a cumprir as regras de segurança e a usar os equipamentos que lhes são fornecidos. Os estabelecimentos de serviços de cabeleireiro têm ainda regras específicas de higiene e salubridade. O profissional deve conhecer o regulamento interno do local, os procedimentos de higiene e a informação de segurança dos produtos. Para os diplomas concretos, consulta-se a legislação aplicável na redação em vigor.
Riscos no diagnóstico capilar e como preveni-los
| Risco | Exemplo | Prevenção |
|---|---|---|
| Biológico | contacto com escamas, parasitas, infeção | mãos limpas, material desinfetado, recusar serviço se há suspeita |
| Químico | contacto da pele ou dos olhos com produtos | luvas, ventilação, ler as fichas técnicas e de segurança |
| Alergénico | reação a corantes ou perfumes | historial, teste de sensibilidade, retirar o produto |
| Ergonómico | posturas forçadas ao observar de perto, ficar muito tempo em pé | ajustar a altura da cadeira, alternar posturas, pausas |
| Elétrico | equipamentos como secadores e câmaras | verificar cabos e estado, evitar água perto de tomadas |
| Cortes e picadas | pentes de cauda, tesouras | arrumar com cuidado, usar com atenção |
| Escorregamento | chão molhado | limpar de imediato, sinalizar |
Higiene
- Lavar as mãos antes e depois de cada cliente.
- Limpar e desinfetar pentes, pinças, câmaras, dermatoscópios e superfícies entre clientes, segundo as instruções do fabricante.
- Usar capas e toalhas limpas para cada cliente.
- Usar protetores descartáveis de ponta nos aparelhos, quando existam.
- Separar o material sujo do limpo.
- Eliminar resíduos de forma adequada, com atenção a produtos químicos e a material cortante.
Equipamentos de proteção individual e boas práticas
- Luvas descartáveis quando se manipulam produtos químicos ou há risco de contacto com lesões.
- Avental ou bata de proteção.
- Calçado adequado, antiderrapante.
- Ventilação do espaço de trabalho.
- Informação de segurança dos produtos consultada e acessível.
- Primeiros socorros: saber onde está o material e a quem recorrer; em caso de emergência, ligar o 112.
Proteção ambiental
O respeito pelas normas de proteção ambiental inclui usar a quantidade certa de produto, não deitar produtos químicos concentrados de qualquer maneira, separar resíduos e preferir embalagens recicláveis quando possível.
Atitudes profissionais avaliadas
O referencial destaca a responsabilidade pelas ações, a autonomia no âmbito das funções, o sentido de organização, o empenho, a autodisciplina, a conduta ética, a flexibilidade, a persistência e o respeito pelas normas de segurança, proteção ambiental e saúde no trabalho. Em diagnóstico capilar, a conduta ética significa nunca fingir saber o que não se sabe, respeitar a privacidade e encaminhar quando é o caso.
Exemplo resolvido · identificar e prevenir riscos num posto de diagnóstico
Um posto tem cadeira fixa, câmara de ampliação ligada por cabo comprido no chão e produtos de teste sem rótulo legível.
- Risco elétrico e de tropeção: cabo no chão. Medida: prender o cabo, afastá-lo da passagem.
- Risco químico: produtos sem rótulo. Medida: identificar todos, guardar com etiqueta e consultar a informação de segurança.
- Risco ergonómico: cadeira fixa obriga a curvar a coluna. Medida: ajustar altura, usar banco regulável.
- Risco biológico: câmara partilhada. Medida: protetores descartáveis e desinfeção entre clientes.
- Registar as correções e informar o responsável do estabelecimento.
Erros comuns
- Fazer diagnóstico médico: afirmar que o cliente tem determinada doença em vez de descrever e encaminhar.
- Prometer curas ou crescimento de cabelo com produtos cosméticos.
- Saltar a anamnese e começar logo pelo serviço.
- Tocar em lesões abertas ou realizar serviços químicos em couro cabeludo irritado.
- Confundir caspa com dermatite seborreica ou psoríase, e tratar tudo da mesma maneira.
- Confundir espessura com densidade: fios finos podem ser muitos, e fios grossos podem ser poucos.
- Fazer o teste de tração com força, que arranca fios saudáveis e falseia o resultado.
- Testar só uma zona da cabeça, quando raiz, comprimentos e pontas diferem.
- Confiar só no teste do copo para a porosidade.
- Esticar mechas em vez de um fio no teste de elasticidade, ou esticar depressa.
- Fotografar sem consentimento, ou sem repetir luz, fundo e distância.
- Tratar a haste como se estivesse viva: nenhum produto regenera a haste, apenas melhora o seu aspeto ou a protege.
- Prometer "colar" as pontas duplas: a solução é o corte.
- Ignorar o historial de químicos e juntar serviços incompatíveis.
- Não fazer o teste de sensibilidade quando é indicado, ou ignorar uma reação anterior.
- Aplicar condicionador ou máscara na raiz em couro cabeludo oleoso.
- Usar termos técnicos sem explicar ao cliente.
- Registar opiniões ou juízos de valor em vez de factos.
- Guardar fichas e imagens sem cuidado com a confidencialidade.
- Esquecer a higiene entre clientes, sobretudo nos aparelhos de ampliação.
Glossário
- Anágena: fase de crescimento do ciclo do cabelo, a mais longa.
- Anamnese: conjunto de perguntas que recolhe o historial do cliente.
- Alopecia: diminuição ou ausência de cabelo em zonas onde normalmente existe.
- Alopecia areata: perda de cabelo em placas bem delimitadas, de pele normal, de origem imunitária.
- Alopecia androgenética: perda progressiva de cabelo de base hereditária e hormonal, com miniaturização dos folículos.
- Alopecia cicatricial: perda permanente de cabelo por destruição do folículo.
- Alopecia por tração: perda de cabelo causada por tensão repetida nos folículos.
- Bolbo piloso: alargamento do folículo na base, onde o fio se forma.
- Caspa: descamação do couro cabeludo em escamas finas e esbranquiçadas, sem inflamação marcada.
- Catágena: fase curta de transição do ciclo do cabelo.
- Córtex: camada intermédia do fio, que dá força, elasticidade e cor.
- Cutícula: camada externa do fio, de escamas sobrepostas.
- Densidade: quantidade de fios por zona do couro cabeludo.
- Dermatite seborreica: inflamação crónica e recorrente das zonas ricas em glândulas sebáceas.
- Dermatoscópio: aparelho de observação ampliada e iluminada da pele.
- Derme: camada intermédia da pele, de tecido conjuntivo.
- Eflúvio telógeno: queda difusa de cabelo por entrada simultânea de muitos folículos em repouso.
- Elasticidade: capacidade de o fio esticar e regressar ao comprimento inicial.
- Epiderme: camada externa da pele, que se renova continuamente.
- Eumelanina: pigmento escuro do cabelo.
- Feomelanina: pigmento avermelhado e amarelado do cabelo.
- Folículo piloso: estrutura da pele onde nasce e cresce o pelo.
- Haste: parte visível do pelo, formada por células mortas queratinizadas.
- Hipoderme: camada profunda da pele, com células de gordura.
- Histologia: estudo dos tecidos.
- Manto hidrolipídico: película protetora de sebo e suor à superfície da pele.
- Medula: núcleo central do fio, nem sempre presente.
- Melanina: pigmento responsável pela cor da pele e do cabelo.
- Miniaturização folicular: redução progressiva do tamanho do folículo e do diâmetro do fio.
- Papila dérmica: pequeno cone de tecido conjuntivo na base do folículo, que nutre o bolbo.
- pH: medida de acidez ou alcalinidade.
- Porosidade: facilidade com que o fio absorve e retém água e produtos.
- Psoríase capilar: doença crónica da pele, com placas espessas e escamas prateadas, no couro cabeludo.
- Queratina: proteína fibrosa que constitui a maior parte do cabelo.
- Telógena: fase de repouso do ciclo do cabelo.
- Teste de tração: teste que avalia a firmeza do fio na raiz e a sua resistência.
- Tricologia: estudo do cabelo e do couro cabeludo.
- Tricoptilose: divisão da ponta do fio, ou pontas duplas.
- Tricoscopia: observação ampliada do couro cabeludo e dos fios.
- Tricotilomania: hábito compulsivo de arrancar o cabelo.
Síntese
O diagnóstico capilar é um processo organizado que combina conversa, observação, tacto, testes e ampliação, para decidir o que se pode fazer em segurança e o que se deve aconselhar. Parte do conhecimento da pele e do couro cabeludo (epiderme, derme, hipoderme, anexos) e do fio (cutícula, córtex, medula, queratina e ligações), e dos ciclos de renovação da pele e de crescimento do cabelo (anágena, catágena, telógena). Os cabelos classificam-se por forma, espessura, oleosidade, estado da fibra e cor. As causas externas (clima, UV, poluição, lavagem, cosméticos mal usados, acessórios, químicos) e as internas (stress e outros fatores do organismo) explicam muitas alterações. Observam-se treze aspetos fundamentais, de densidade a eletricidade estática, e executam-se os testes de tração, porosidade e elasticidade, com apoio de ferramentas de aumento e de fotografia repetível. Na avaliação tricológica, o profissional reconhece alopecias (androgenética, areata, cicatricial, por tração, eflúvio telógeno), caspa, dermatite seborreica, psoríase, tricoptilose e outras alterações, mas não diagnostica doenças: descreve, sinaliza e encaminha. A matriz de risco orienta a decisão (avançar, adaptar, adiar, recusar). O tratamento sugerido é cosmético, bem fundamentado e comunicado com clareza, honestidade e empatia. Tudo fica registado na ficha de cliente, de forma objetiva, datada e confidencial, e é feito com higiene, segurança e respeito pelas normas de saúde no trabalho.
Exercícios resolvidos
1. Uma cliente diz que o cabelo "é fino". Que outros critérios deves avaliar para o descrever completamente?
Resolução: Além da espessura, avalia a forma (liso, ondulado, encaracolado ou crespo), a oleosidade, o estado da fibra (natural ou sensibilizado), a cor e brancos, e ainda a densidade, que não é o mesmo que a espessura.
2. Porque é que dizer que um champô "regenera" o cabelo é incorreto?
Resolução: A haste do cabelo é formada por células mortas. Os produtos podem hidratar, proteger e melhorar o aspeto da superfície, mas não regeneram tecido vivo. O que cresce é produzido na raiz, dentro do folículo.
3. Num teste de tração, saem vários fios com bolbo claro numa zona e nenhum nas outras. Como interpretas e que decisão tomas?
Resolução: O resultado é localizado e sugere queda numa zona. Regista-se a zona e a quantidade observada, sem dar diagnóstico, repete-se com suavidade, fotografa-se e recomenda-se consulta médica. Não se promete causa nem solução. O serviço adapta-se, evitando tração e químicos agressivos nessa zona.
4. Um fio molhado estica e não regressa ao tamanho inicial. O que sugere e que serviço desaconselhas?
Resolução: Sugere córtex enfraquecido, com perda de elasticidade. Desaconselha-se descoloração e alisamento até haver tratamento reconstrutor e nova avaliação.
5. Explica a diferença entre porosidade baixa e alta e uma consequência prática de cada.
Resolução: Porosidade baixa: cutícula muito fechada, a água e os produtos entram com dificuldade e ficam à superfície; usam-se texturas leves. Porosidade alta: cutícula levantada ou danificada, absorve depressa e perde depressa, fica seco e frisado; antes de químicos, repara-se e protege-se.
6. Descreve duas diferenças entre caspa e dermatite seborreica.
Resolução: Na caspa as escamas são finas, brancas e secas, sem vermelhidão marcada; na dermatite seborreica são amareladas e oleosas, há vermelhidão, prurido mais frequente e pode haver envolvimento de outras zonas (testa, sobrancelhas, atrás das orelhas).
7. Um cliente tem uma placa redonda sem cabelo, de pele lisa e normal, com início em poucas semanas. Que frase usas e que decisão tomas?
Resolução: Descreve-se e encaminha-se: "Reparei numa zona sem cabelo que deve ser vista por um médico." Em raciocínio interno, o quadro é compatível com alopecia areata, mas o nome da doença não se diz ao cliente nem se escreve na ficha. Regista-se a localização, as dimensões e a data, fotografa-se com autorização, evita-se irritar a zona e recomenda-se consulta de dermatologia.
8. Porque é que fotografar o couro cabeludo exige consentimento e método repetível?
Resolução: As imagens são dados pessoais, e ligadas à saúde merecem cuidado acrescido: é preciso informar a finalidade e obter autorização. O método repetível (mesma luz, fundo, posições e distância) permite comparar a evolução de forma fiável.
9. Uma cliente com couro cabeludo vermelho e com crostas insiste numa coloração. O que fazes?
Resolução: Não se faz o serviço. Explica-se com calma e empatia que o couro cabeludo está irritado e que um produto químico pode agravar, propõe-se uma alternativa segura, recomenda-se consulta médica e regista-se a recusa, o motivo e a explicação dada.
10. Corrige este registo: "Cabelo horrível, deve ser da tiroide."
Resolução: Há um juízo de valor e uma conclusão médica sem fundamento. Um registo correto descreve factos: "Cabelo fino, seco, com pontas abertas e queda difusa referida desde há três meses. Recomendada consulta médica para avaliação da queda."
11. Indica três riscos de um posto de diagnóstico mal organizado e uma medida para cada.
Resolução: (1) Biológico, câmara partilhada sem desinfeção: protetores descartáveis e desinfeção entre clientes. (2) Químico, produtos sem rótulo: identificar e guardar com etiqueta. (3) Elétrico e de tropeção, cabo no chão: prender o cabo e afastá-lo da passagem.
12. Uma cliente com cabelo misto (raiz oleosa, pontas secas) pede "um tratamento para o cabelo todo". Que plano propões?
Resolução: Dois tratamentos na mesma cabeça: na raiz, champô de equilíbrio e água morna, sem condicionador; nos comprimentos e pontas, máscara hidratante ou nutritiva com a periodicidade indicada, protetor térmico e, se houver tricoptilose, corte. Reavalia-se em algumas semanas.