Sebenta · Desenhar conjuntos em CAD 2D (UC00468)
- Introdução
- 1. O desenho de conjunto e a configuração do CAD
- 2. Comandos de CAD 2D
- 3. Camadas (layers)
- 4. Especificações técnicas de fabrico
- 5. Vistas e organização da informação
- 6. Traços, linhas e traços de localização
- 7. Cortes e secções em conjuntos
- 8. Cotagem de conjuntos
- 9. Materiais: caracterização e quantificação
- 10. Samblagens
- 11. Ferragens
- 12. Simbologia de acabamentos
- 13. Organização da folha: desenho, legenda e texto
- 14. Blocos e bibliotecas
- 15. Numeração das peças e lista de peças
- 16. Configurar e imprimir os desenhos
- 17. Normas de segurança e saúde no trabalho e normas da qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a desenhar conjuntos completos em CAD 2D, o passo que separa quem desenha peças soltas de quem entrega um projeto pronto para a oficina. Um conjunto é o desenho de várias peças relacionadas entre si, na posição em que ficam montadas: uma estante, uma gaveta, um armário completo. Representá-lo bem exige mais do que desenhar cada peça: exige escolher as vistas certas, mostrar o interior com cortes, cotar com rigor, numerar as peças e ligá-las a uma lista de materiais, representar samblagens e ferragens, e organizar tudo numa folha que se imprime à escala certa.
O título da unidade tem quatro palavras que funcionam como plano de estudo, e cada uma tem capítulos próprios nesta sebenta:
| Palavra do título | O que tens de saber fazer | Capítulos |
|---|---|---|
| Desenhar | usar os comandos de CAD 2D com precisão, organizar camadas, traçar vistas e cortes | 1, 2, 3, 5, 6, 7 |
| Conjuntos | representar peças montadas, numerá-las, cortar sem confundir peças vizinhas, cotar a montagem | 5, 7, 8, 10, 11, 15 |
| CAD | configurar o software, criar blocos e bibliotecas, extrair dados para tabelas | 1, 2, 3, 14, 15 |
| 2D | representar em projeções ortogonais, com perspetiva só como apoio, e imprimir em papel ou PDF à escala | 5, 13, 16 |
O percurso segue a ordem de um projeto real: primeiro configura-se o software de acordo com a especificação técnica, depois analisa-se a especificação, desenham-se as vistas necessárias, mostram-se cortes e secções, aplicam-se as regras de cotagem, caracterizam-se e quantificam-se os materiais, representam-se samblagens e ferragens, indicam-se os acabamentos, organiza-se a folha e a legenda, ganha-se velocidade com blocos e bibliotecas, constrói-se a lista de peças e, por fim, configura-se a impressão, tudo dentro das normas de segurança e saúde no trabalho e das normas da qualidade.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar as especificações técnicas das peças de conjunto; configurar o software de CAD de acordo com essas especificações; definir o número de vistas e pormenores necessários; executar a cotagem dos desenhos com rigor; organizar os espaços para o desenho, legenda e texto; organizar diferentes camadas no desenho; criar blocos e bibliotecas; criar e inserir a tabela de materiais das peças de conjunto; configurar e imprimir os desenhos técnicos; e aplicar as normas de desenho técnico, de segurança e saúde no trabalho, e da qualidade.
Ao longo da sebenta usa-se sempre o mesmo caso de estudo: uma estante modular de 800 × 1800 × 300 mm (largura × altura × profundidade) em aglomerado melaminado. Cada capítulo acrescenta-lhe uma camada de informação, e no fim tens o desenho de conjunto completo, com lista de peças, pronto a imprimir.
1. O desenho de conjunto e a configuração do CAD
Que desenhos compõem um projeto de mobiliário
Um móvel raramente se resolve com uma só folha. O dossiê técnico de um móvel costuma ter vários tipos de desenho, cada um com a sua função:
| Desenho | O que mostra | Para quem |
|---|---|---|
| Desenho de conjunto | o móvel montado, com as peças numeradas, cotas gerais e de montagem, lista de peças | oficina (montagem), orçamento, cliente |
| Desenho de subconjunto | uma parte montada do móvel (a gaveta, a porta, o rodapé) | oficina (pré-montagem) |
| Desenho de fabrico (de peça) | cada peça isolada, completamente cotada, com furações e orlas | secção de corte e maquinação |
| Pormenor | uma zona ampliada (samblagem, ferragem, perfil) | oficina, controlo de qualidade |
| Vista explodida (perspetiva) | as peças afastadas ao longo dos eixos de montagem | montador, cliente, instruções de montagem |
Esta UC centra-se no desenho de conjunto, mas um conjunto bem feito aponta para os outros desenhos: cada número de peça na lista remete para a peça, e cada pormenor tem a sua escala e a sua identificação.
O desenho de conjunto não tem de cotar todas as medidas de todas as peças. Cota as dimensões gerais (fora a fora), as cotas de montagem e as que interessam à função. As medidas completas de cada peça ficam na lista de peças ou nos desenhos de fabrico. Cotar tudo no conjunto enche a folha e cria cotas repetidas, que acabam por se contradizer.
Porque configurar antes de desenhar
Configurar o software de acordo com as especificações técnicas das peças de conjunto é o primeiro critério de desempenho da UC. Um ficheiro mal configurado dá cotas com casas decimais sem sentido, textos ilegíveis na impressão e camadas que ninguém percebe. A configuração faz-se uma vez, guarda-se num modelo (template) e reutiliza-se em todos os projetos.
| Parâmetro | Configuração para mobiliário | Porquê |
|---|---|---|
| Unidades | milímetros, precisão 0 ou 0,0 | as cotas de mobiliário são inteiras ou com uma casa decimal |
| Ângulos | graus decimais, sentido anti-horário | convenção comum nos programas de CAD |
| Escala de trabalho | desenhar sempre à escala real (1:1) no espaço de modelo | a escala só se aplica na folha, na janela de visualização ou na impressão |
| Camadas | convenção fixa (capítulo 3) | cada tipo de linha tem cor, tipo e espessura próprios |
| Estilos de texto | letra normalizada, alturas de 2,5 · 3,5 · 5 · 7 mm na folha impressa | legibilidade (ISO 3098) |
| Estilos de cota | setas ou traços oblíquos, texto a 3,5 mm, sem unidade escrita | regras de cotagem (capítulo 8) |
| Formatos de folha | A4, A3, A2 com esquadria e legenda | ISO 5457 e ISO 7200 (capítulo 13) |
Desenha à escala real, imprime à escala. No CAD, uma lateral de 1800 mm desenha-se com 1800 unidades. A redução para 1:10 faz-se na folha (a janela de visualização mostra o modelo a 1:10) ou no momento de imprimir. Quem desenha "já reduzido" perde a cotagem associativa: o CAD passa a medir 180 em vez de 1800.
O software
Há muitos programas de CAD 2D e todos partilham os mesmos conceitos: entidades geométricas, camadas, blocos, cotas, folhas e impressão. Nas escolas e oficinas portuguesas encontras, por exemplo, AutoCAD e AutoCAD LT, DraftSight, BricsCAD, e opções gratuitas como LibreCAD, QCAD ou o módulo de desenho do FreeCAD. Nesta sebenta os conceitos são gerais; quando se nomeia um comando concreto, indica-se de que programa é, porque os nomes mudam de programa para programa e também com a língua da instalação.
Exemplo resolvido: configurar o ficheiro da estante
Especificação recebida: estante de 800 × 1800 × 300 mm, em aglomerado melaminado, a entregar em A3.
- Abre-se o modelo da escola (template com legenda, esquadria e estilos já definidos).
- Confirmam-se as unidades: milímetros, precisão 0.
- Desenha-se tudo à escala 1:1 no espaço de modelo.
- Escolhe-se a escala de apresentação: à escala 1:10, a altura de 1800 mm ocupa 1800 ÷ 10 = 180 mm na folha. A área útil de um A3 horizontal é 390 × 277 mm (ISO 5457), por isso a vista de frente cabe com folga para cotas, vista de cima e legenda. A escala 1:10 é normalizada (ISO 5455).
- Confirmam-se as camadas do modelo (capítulo 3) e acrescentam-se as que o projeto pede, por exemplo uma camada para as ferragens.
- Guarda-se o ficheiro com nome codificado e revisão, por exemplo
EST-800-conjunto-revA.
Só depois de configurado é que o desenho das vistas começa.
2. Comandos de CAD 2D
Famílias de comandos
Os programas de CAD 2D organizam os comandos em famílias. Os nomes abaixo, entre parênteses, são os comandos do AutoCAD na versão inglesa (a que se escreve na linha de comandos, e que funciona em qualquer língua da instalação se precedida de um sublinhado, por exemplo _LINE). Noutros programas os nomes podem ser diferentes; o conceito é o mesmo.
| Família | Conceito | No AutoCAD | Uso num móvel |
|---|---|---|---|
| Desenho | linha, polilinha, retângulo, círculo, arco | LINE, PLINE, RECTANG, CIRCLE, ARC | contornos de laterais, tampos, furos |
| Edição | mover, copiar, rodar, espelhar | MOVE, COPY, ROTATE, MIRROR | repetir laterais, espelhar a lateral esquerda |
| Edição | cópia paralela (equidistante) | OFFSET | espessura das peças, recuo de prateleiras |
| Edição | cortar e prolongar até outra entidade | TRIM, EXTEND | acertar encontros de peças |
| Edição | concordar e chanfrar cantos | FILLET, CHAMFER | cantos boleados, chanfros |
| Edição | matriz retangular, polar ou ao longo de um caminho | ARRAY | furação em série, prateleiras iguais |
| Anotação | tracejado de corte | HATCH | zonas cortadas |
| Anotação | cotas lineares, alinhadas, de raio, de diâmetro | DIMLINEAR, DIMALIGNED, DIMRADIUS, DIMDIAMETER | cotagem |
| Anotação | texto e linhas de referência | MTEXT, MLEADER | notas, números de peça |
| Anotação | tabela | TABLE | lista de peças |
| Organização | camadas | LAYER | ver capítulo 3 |
| Organização | criar, inserir e editar blocos | BLOCK, INSERT, BEDIT, WBLOCK | ver capítulo 14 |
| Saída | configurar a página e imprimir | PAGESETUP, PLOT | ver capítulo 16 |
Precisão: nunca desenhar "a olho"
Um desenho de CAD só é rigoroso se cada ponto for introduzido com precisão. Há três formas de o garantir:
- Coordenadas: absolutas (em relação à origem), relativas (em relação ao último ponto) ou polares (distância e ângulo em relação ao último ponto). No AutoCAD, a coordenada relativa escreve-se com
@:@762,0avança 762 mm na horizontal. - Referências a objetos (object snaps): o cursor "agarra" o ponto final, o ponto médio, o centro, a interseção, a perpendicular. No AutoCAD, ativam-se com OSNAP.
- Modo ortogonal e rastreio polar: obrigam as linhas a seguir a horizontal, a vertical ou ângulos definidos.
Uma linha que "parece" tocar noutra mas fica a 0,3 mm dela é um erro invisível no ecrã e visível na oficina: a cota associativa mede 761,7 em vez de 762, o tracejado não fecha e a peça sai mal cortada. Usa sempre referências a objetos e confirma com o comando de medir distâncias (no AutoCAD, DIST ou MEASUREGEOM).
Exemplo resolvido: desenhar a vista de frente da estante com precisão
Dados: laterais de 19 mm de espessura e 1800 mm de altura; largura total 800 mm; tampo e base entre as laterais.
- Retângulo da lateral esquerda: do ponto 0,0 ao ponto relativo
@19,1800. - Lateral direita: copiar a esquerda com um deslocamento de 800 - 19 = 781 mm na horizontal (a face exterior direita fica em x = 800).
- Largura interior entre laterais: 800 - 2 × 19 = 762 mm. É o comprimento do tampo e da base.
- Base: retângulo de 762 × 19 a partir do canto interior inferior da lateral esquerda (referência a objeto: ponto final), elevado da altura do rodapé se o houver.
- Prateleiras: um retângulo de 760 × 19 (2 mm de folga total para entrarem entre as laterais) e depois ARRAY com o espaçamento definido.
- Verificação: medir a distância entre as faces exteriores das laterais. Tem de dar exatamente 800.
3. Camadas (layers)
Organizar diferentes camadas no desenho é uma aptidão própria da UC. Uma camada é um "acetato" transparente onde se colocam as entidades do mesmo tipo. Cada camada tem um nome, uma cor, um tipo de linha e uma espessura de linha; as entidades desenhadas nela herdam essas propriedades (no AutoCAD, com a propriedade definida como ByLayer, "da camada").
Para que servem
- Imprimir com as espessuras certas: se a camada de contornos tem 0,5 mm e a de cotas 0,25 mm, a folha sai correta sem mexer entidade a entidade.
- Mostrar e esconder informação: desligar a camada das cotas para ver só a geometria; desligar a camada das ferragens para imprimir uma versão para o cliente.
- Bloquear o que já está validado, para não se mexer por engano.
- Ler o desenho de outra pessoa: com uma convenção fixa, qualquer técnico da equipa sabe onde está cada coisa.
Uma convenção de camadas para mobiliário
A convenção é da escola ou da empresa; o importante é que seja fixa, escrita e igual em todos os projetos. Um exemplo, com as espessuras do grupo de linhas 0,5 (capítulo 6):
| Camada | Conteúdo | Tipo de linha | Espessura (mm) |
|---|---|---|---|
CONTORNO |
arestas visíveis | contínua | 0,5 |
INVISIVEL |
arestas ocultas | tracejada | 0,25 |
EIXOS |
eixos de simetria, centros de furos | traço-ponto | 0,25 |
CORTE-PLANO |
traço do plano de corte | traço-ponto com extremos grossos | 0,25 e 0,5 |
TRACEJADO |
hachuras | contínua | 0,25 |
COTAS |
cotas e linhas de chamada | contínua | 0,25 |
TEXTO |
notas, números de peça | contínua | 0,25 |
FERRAGENS |
dobradiças, corrediças, ligadores | contínua | 0,25 ou 0,5 |
POSICOES |
posições extremas (porta aberta, gaveta puxada) | traço-dois-pontos | 0,25 |
FOLHA |
esquadria, legenda, lista de peças | contínua | 0,5 e 0,25 |
JANELAS |
contornos das janelas de visualização | contínua | não se imprime |
Nomes sem acentos nem espaços (INVISIVEL, CORTE-PLANO) evitam problemas quando o ficheiro é aberto noutro programa ou exportado para DXF. A camada JANELAS fica marcada como "não imprimível".
Regras de trabalho com camadas
- Muda de camada antes de desenhar, não depois. Corrigir camadas no fim é trabalho dobrado.
- As propriedades ficam na camada (ByLayer); não se forçam cores ou espessuras entidade a entidade, salvo exceção justificada.
- A camada 0 reserva-se para desenhar o conteúdo dos blocos (capítulo 14).
- Antes de entregar, limpa camadas vazias e elementos não usados (no AutoCAD, PURGE).
Exemplo resolvido: onde fica cada entidade da estante
| Entidade | Camada |
|---|---|
| contorno das laterais, tampo, base e prateleiras | CONTORNO |
| furação de sistema 32 vista de frente (escondida pela lateral) | INVISIVEL |
| eixos das filas de furos | EIXOS |
| traço do corte A-A | CORTE-PLANO |
| hachura da lateral cortada | TRACEJADO |
| cotas 800, 1800, 300 | COTAS |
| números de peça em balão | TEXTO |
| bloco do suporte de prateleira | FERRAGENS |
Para imprimir uma versão "de apresentação" para o cliente, desligam-se INVISIVEL, EIXOS e FERRAGENS sem apagar nada.
4. Especificações técnicas de fabrico
Antes de desenhar um conjunto, analisam-se as especificações técnicas das peças: o documento ou pedido que define o que se pretende fabricar. É a primeira realização da UC e a origem de todas as decisões do desenho.
O que traz uma especificação
| Grupo | Informação | Exemplo na estante |
|---|---|---|
| Dimensões gerais | largura, altura, profundidade, limites de espaço | 800 × 1800 × 300 mm |
| Função e uso | cargas, frequência de uso, número de prateleiras | livros, 3 prateleiras amovíveis |
| Ambiente | interior, exterior, humidade, exposição solar | sala, interior seco |
| Materiais | espécie de madeira ou derivado, espessura, cor | aglomerado melaminado branco |
| Acabamentos | tipo, cor, brilho, orlas | orla ABS branca nas arestas visíveis |
| Ligações | fixas, desmontáveis, preferência da oficina | desmontável para transporte |
| Ferragens | tipo, fabricante preferido, gama | suportes de prateleira, ligadores excêntricos |
| Produção | quantidade, máquinas disponíveis, prazos | pequena série, furação em série disponível |
| Normas e requisitos | normas de produto, segurança, qualidade exigida | fixação à parede recomendada |
Especificações de fabrico que o desenho tem de transmitir
Além do que o cliente pede, o desenho de conjunto transmite à oficina especificações de fabrico: informação que diz como a peça é feita, não só o que é.
- Sentido do fio ou do padrão de cada peça (capítulo 9).
- Orlas: que arestas levam orla, de que material e espessura.
- Furações: diâmetro, profundidade e posição de cada furo (cavilhas, ligadores, suportes, dobradiças).
- Folgas de montagem: entre portas, entre gaveta e corpo, entre prateleira e laterais.
- Tolerâncias relevantes para a montagem.
- Acabamento de cada face (capítulo 12).
- Sequência de montagem, quando não é óbvia.
Da especificação ao desenho
- Ler tudo antes de desenhar e sublinhar o que é medida, material, ferragem e requisito.
- Cruzar com os catálogos e fichas técnicas dos fornecedores: espessuras comerciais, formatos de placa, furações de ferragens.
- Identificar o que falta e perguntar ao cliente, ao chefe de projeto ou à oficina.
- Quando é preciso decidir sem resposta, decidir com critério técnico e registar a decisão nas notas do desenho ou no dossiê.
- Registar tudo na legenda, nas notas e na lista de peças, para que o desenho seja rastreável até à especificação que o originou.
Erro a evitar: inventar uma dimensão ou uma referência que não consta da especificação nem do catálogo. Quando falta informação, assinala-se "a confirmar" e regista-se a dúvida, em vez de se arbitrar um valor em silêncio.
Exemplo resolvido: analisar a especificação da estante
Pedido do cliente: "Estante branca com 80 cm de largura, 1,80 m de altura e 30 cm de fundo, para livros, com três prateleiras que se possam mudar de altura, desmontável para caber no carro."
| Pedido | Tradução técnica | Estado |
|---|---|---|
| 80 cm × 1,80 m × 30 cm | 800 × 1800 × 300 mm (cotas em mm) | confirmado |
| branca | aglomerado melaminado branco, espessura a escolher no catálogo | confirmar referência da cor |
| três prateleiras amovíveis | 3 prateleiras sobre suportes, em filas de furos | confirmado |
| desmontável | tampo e base ligados às laterais por ligadores excêntricos e cavilhas | decisão técnica registada |
| para livros | prateleira com vão de 762 mm; verificar a flecha com o fornecedor ou por ensaio | a confirmar |
| estabilidade | costa em placa fina aparafusada e fixação à parede recomendada | decisão técnica registada |
A estante que sai desta análise tem 2 laterais, tampo, base, 3 prateleiras amovíveis e uma costa. É o conjunto que se desenha nos capítulos seguintes.
5. Vistas e organização da informação
Projeções ortogonais e método europeu
Um conjunto representa-se por vistas ortogonais: projeções do objeto sobre planos perpendiculares entre si, com as linhas de projeção perpendiculares a cada plano. Em Portugal, como na maior parte da Europa, usa-se o método europeu (projeção no 1.º diedro, ISO 5456-2):
- a vista de cima (planta) fica por baixo da vista de frente (alçado principal);
- a vista lateral esquerda fica à direita da vista de frente;
- a vista lateral direita fica à esquerda da vista de frente;
- as vistas alinham-se entre si: a planta tem a mesma largura que o alçado e fica na mesma vertical; a lateral tem a mesma altura e fica na mesma horizontal.
O método de projeção indica-se na legenda pelo símbolo do 1.º diedro (um tronco de cone visto de frente e de lado). No método americano (3.º diedro) a posição das vistas é a inversa; um desenho recebido de fora tem de ser lido pelo símbolo, nunca por hábito.
Escolher a vista principal
A vista de frente (alçado principal) é a que mais condiciona a leitura do desenho. Escolhe-se a que:
- mostra o móvel na posição de uso (uma estante de pé, uma mesa assente nas pernas);
- revela mais forma e mais informação com menos arestas ocultas;
- em mobiliário, coincide normalmente com a face que o utilizador vê (portas, frentes de gaveta).
Quantas vistas bastam
O critério de desempenho pede para definir o número de vistas e pormenores necessários. A regra é a do necessário e suficiente:
- Cada vista tem de acrescentar informação que as outras não dão; se não acrescenta, não entra.
- Muitas vezes um corte substitui uma vista com vantagem, porque mostra o interior em vez de o encher de tracejados.
- Um pormenor (vista ampliada de uma zona) resolve o que a escala geral não deixa ler: uma samblagem, uma ferragem, um perfil de orla.
- Peças repetidas não se desenham várias vezes em vista própria: numeram-se com o mesmo número e contam-se na lista de peças.
Pormenores e vistas parciais
Um pormenor assinala-se na vista de origem com um círculo ou contorno fino à volta da zona e uma letra maiúscula; o desenho ampliado leva a mesma letra e a sua escala, por exemplo "B (1:2)" ou "C (2:1)". Em mobiliário, as escalas de pormenor mais usadas são 1:2 e 1:1, e 2:1 para ferragens pequenas. Todas estas escalas são normalizadas (ISO 5455): de redução 1:2, 1:5, 1:10, 1:20, 1:50; de ampliação 2:1, 5:1, 10:1. Escalas como 1:4 ou 1:25 não são normalizadas.
Uma vista parcial mostra só a parte de uma peça que interessa, limitada por uma linha de rutura (contínua fina à mão livre ou em ziguezague). Poupa espaço quando a peça é comprida e uniforme, como uma lateral de 1800 mm com uma furação só nas pontas.
Organização da informação na folha
O referencial pede que se organize a informação em vistas, perspetivas, cortes, linhas invisíveis e cotas. Cada um tem a sua função:
| Elemento | Função | Regra prática |
|---|---|---|
| Vistas ortogonais | forma e medidas | base obrigatória do desenho; são as que se cotam |
| Perspetiva (isométrica, cavaleira) ou vista explodida | ajudar a perceber a montagem | apoio visual, geralmente sem cotas, num canto da folha |
| Cortes e secções | mostrar o interior | preferir um corte a muitas linhas invisíveis |
| Linhas invisíveis (tracejadas) | arestas ocultas | só as que ajudam a ler; omitir as que confundem |
| Cotas | dimensões reais | fora das vistas, sempre que possível, sem cruzar linhas |
No CAD 2D, a perspetiva isométrica desenha-se com linhas a 30º (ou com o modo isométrico do programa, quando existe). É um desenho 2D com aparência 3D: serve para ler a montagem, não para medir.
Exemplo resolvido: escolher as vistas de uma caixa de gaveta
Caixa de gaveta simples: frente aplicada, duas laterais, traseira e fundo em placa fina encaixado em ranhura.
- Vista de frente: mostra a frente aplicada, a largura e a altura. É a vista principal.
- Vista de cima: mostra a profundidade, a disposição das laterais e da traseira e a posição das corrediças.
- Vista lateral exterior: mostraria só a altura (já na vista de frente) e a profundidade (já na vista de cima), e o que interessa, o fundo encaixado na ranhura, ficaria escondido. Não acrescenta informação: substitui-se por um corte.
- Corte A-A longitudinal, pelo meio da gaveta: mostra a ranhura do fundo, a ligação da frente e a da traseira.
- Pormenor B (1:1) da ranhura do fundo, para a cotar com rigor.
Resultado: duas vistas, um corte e um pormenor. Cada elemento responde a uma pergunta que os outros não respondem.
Exemplo resolvido: as vistas da estante e o espaço que ocupam
Estante de 800 × 1800 × 300 mm à escala 1:10.
| Vista | Largura na folha | Altura na folha |
|---|---|---|
| Frente | 800 ÷ 10 = 80 mm | 1800 ÷ 10 = 180 mm |
| Cima (por baixo da frente) | 80 mm | 300 ÷ 10 = 30 mm |
| Corte lateral A-A (à direita da frente) | 30 mm | 180 mm |
Altura ocupada: 180 + 30 + cerca de 20 mm entre vistas = 230 mm, mais as cotas. Largura ocupada: 80 + 30 + 20 = 130 mm, mais cotas. Numa área útil de 390 × 277 mm (A3 horizontal) sobra espaço à direita para a legenda, a lista de peças e dois pormenores a 1:2.
6. Traços, linhas e traços de localização
Tipos de linha
Cada linha tem um significado fixo (ISO 128; na tradição portuguesa, NP 62). Os tipos usados em desenho de conjuntos de mobiliário:
| Linha | Representa |
|---|---|
| Contínua grossa | arestas e contornos visíveis |
| Contínua fina | linhas de cota e de chamada, linhas de referência, hachuras, arestas fictícias |
| Contínua fina à mão livre ou em ziguezague | limites de vistas parciais e de cortes parciais |
| Tracejada fina | arestas e contornos invisíveis |
| Traço-ponto fina | eixos de simetria, eixos de furos, trajetórias |
| Traço-ponto fina, grossa nas extremidades e nas mudanças de direção | planos de corte |
| Traço-dois-pontos fina | peças adjacentes, posições extremas de peças móveis (porta aberta, gaveta puxada) |
As espessuras seguem a série da ISO 128: 0,13 · 0,18 · 0,25 · 0,35 · 0,5 · 0,7 · 1 · 1,4 · 2 mm. Num desenho usa-se um grupo em que a linha grossa tem o dobro da fina (0,5 e 0,25, ou 0,7 e 0,35).
Traços de localização
Os traços de localização são as linhas que situam elementos sem fazerem parte da forma do objeto. São a "grelha" invisível que permite montar e cotar:
- Eixos de simetria: dizem que a peça é simétrica e servem de referência às cotas.
- Eixos de furos: dois traços-ponto cruzados no centro de cada furo, cruzando-se sempre em traço, e ultrapassando ligeiramente o contorno do furo. Numa fila de furos, um eixo comum atravessa-os a todos.
- Traço do plano de corte: localiza o corte na vista de origem, com letras e setas que indicam o sentido de observação.
- Linhas de referência: ligam uma nota ou um número de peça ao elemento a que se referem.
- Eixos de montagem: numa vista explodida, mostram a trajetória de encaixe das peças.
Exemplo resolvido: localizar a furação de um furo de cavilha
Um furo de cavilha de Ø 8 mm fica no topo de uma lateral de 19 mm, a meio da espessura, a 32 mm da aresta da frente.
- Traça-se o eixo do furo a meio da espessura: 19 ÷ 2 = 9,5 mm de cada face.
- Traça-se o eixo perpendicular a 32 mm da aresta da frente.
- O cruzamento dos dois eixos (em traço) é o centro do furo.
- As cotas partem dos eixos, não do contorno do círculo: cota 32 da aresta ao eixo, e a posição a meio da espessura fica dada pelo eixo de simetria (ou pela cota 9,5).
- O diâmetro cota-se com Ø 8 e uma linha de referência.
Ordem de prioridade
Quando duas linhas coincidem, desenha-se só a mais importante: 1) arestas visíveis; 2) arestas invisíveis; 3) planos de corte; 4) eixos; 5) linhas de chamada e de cota.
7. Cortes e secções em conjuntos
Um corte mostra o interior de uma peça ou conjunto como se tivesse sido seccionado por um plano imaginário e se tivesse retirado a parte entre o observador e o plano: vê-se a superfície cortada e o que está para lá dela. Uma secção mostra só a superfície cortada, sem o que está para trás.
Tipos de corte
| Tipo | Como é | Quando se usa em mobiliário |
|---|---|---|
| Corte total | o plano atravessa todo o conjunto | corte vertical de uma estante ou de um armário |
| Meio-corte | metade em vista exterior, metade em corte, separadas pelo eixo de simetria | peças e conjuntos simétricos |
| Corte parcial | só uma zona em corte, limitada por linha de rutura | mostrar um furo, uma cavilha, uma ranhura sem cortar tudo |
| Corte por planos paralelos (em degrau) | o plano muda de posição para passar por vários elementos | apanhar num só corte uma ranhura e um furo desalinhados |
| Corte por planos concorrentes | dois planos que se cruzam, sendo um rodado para o plano do outro | peças com elementos dispostos em ângulo |
Secções
- Secção rebatida: desenhada sobre a própria vista, com contorno fino. Útil para mostrar o perfil de uma travessa ou de um puxador.
- Secção deslocada: desenhada fora da vista, identificada com letras, com contorno grosso. Útil para perfis de molduras e rodapés.
Identificar o corte
- O plano de corte desenha-se na vista de origem com linha traço-ponto fina, grossa nas extremidades e nas mudanças de direção.
- Setas nas extremidades indicam o sentido de observação.
- Letras maiúsculas junto às setas identificam o corte (A, B, C...).
- A vista cortada leva o título correspondente, por exemplo "A-A".
Hachuras em desenhos de conjunto
Nas zonas cortadas, a superfície aparece tracejada (hachurada): linhas finas paralelas, em regra a 45º. Num conjunto há regras próprias, porque várias peças são cortadas lado a lado:
- Peças adjacentes levam hachuras em sentidos diferentes (45º para um lado e para o outro) ou com espaçamentos diferentes, para se distinguirem.
- A mesma peça leva a mesma hachura (sentido e espaçamento) em todos os cortes em que aparece, mesmo que esteja separada em duas zonas.
- Secções muito finas (uma chapa, uma placa de 3 mm à escala 1:10) podem ser enegrecidas (preenchidas a cheio), deixando um pequeno espaço branco entre peças adjacentes.
- Madeira e derivados: é comum distinguir a madeira cortada ao topo (perpendicular ao fio) da madeira cortada ao longo do fio, e dar aos painéis derivados (aglomerado, MDF, contraplacado) uma representação própria. As convenções variam entre escolas e empresas; a que se usar tem de estar explicada numa nota ou legenda de materiais e ser igual em todo o conjunto.
O que não se corta longitudinalmente
Por convenção (ISO 128), há elementos que não se cortam no sentido do comprimento, mesmo quando o plano de corte passa pelo seu eixo: desenham-se inteiros, em vista. Hachurá-los não acrescenta informação, porque são maciços e não têm interior a mostrar:
- parafusos, pernos, porcas e anilhas;
- cavilhas e pinos;
- rebites, chavetas, veios e varões;
- esferas, nervuras e braços de peças.
Se o plano os cortar transversalmente (perpendicular ao eixo), aparecem como um círculo e hachuram-se normalmente.
Erro a evitar: hachurar uma cavilha cortada ao comprimento, ou, ao contrário, deixar sem hachura uma lateral de aglomerado cortada. A regra aplica-se aos elementos maciços de ligação, não às peças do móvel.
Tipologia de peças e a representação que pedem
A tipologia da peça determina que vistas, cortes e secções fazem sentido:
| Tipo de peça | Exemplos | Representação adequada |
|---|---|---|
| Placas planas | laterais, tampos, prateleiras, costas | vista de frente e espessura numa segunda vista ou na lista de peças |
| Peças com furação | laterais com sistema 32, portas com copa de dobradiça | vista com eixos de furos e um corte parcial para a profundidade |
| Peças com encaixe | fundo de gaveta em ranhura, respigas, meias-madeiras | corte ou pormenor ampliado da zona do encaixe |
| Peças simétricas | frentes, tampos com molduras iguais | meio-corte, eixo de simetria, meia vista |
| Peças de perfil | molduras, rodapés, orlas maciças, puxadores | secção rebatida ou deslocada |
| Peças de revolução | pés torneados, puxadores redondos | uma vista com eixo; um meio-corte se forem ocas |
| Elementos normalizados | parafusos, cavilhas, ferragens | representação simplificada ou bloco; não se cortam ao comprimento |
Exemplo resolvido: o corte A-A da estante
O plano A-A é vertical, perpendicular à frente, e passa a meio da largura da estante. As setas apontam para a direita: retira-se a metade esquerda e observa-se da esquerda para a direita, como numa vista lateral esquerda.
- Cortam-se: o tampo, a base, as três prateleiras e a costa. Cada uma leva a sua hachura; tampo e prateleira vizinhos têm sentidos opostos.
- A costa de 3 mm, à escala 1:10, fica com 0,3 mm na folha: enegrece-se.
- Veem-se, para lá do plano, a face interior da lateral direita (em vista, sem hachura) e a sua furação de sistema 32, desenhada com eixos.
- Os suportes de prateleira e os parafusos da costa que o plano apanhe ao comprimento desenham-se inteiros, sem hachura.
- Na vista de frente, o traço do plano leva as letras A e as setas; o corte leva o título A-A e, no método europeu, fica à direita da vista de frente (onde ficaria a vista lateral esquerda), alinhado com ela.
8. Cotagem de conjuntos
A cotagem é um dos critérios de desempenho mais avaliados da UC: "executando a cotagem dos desenhos, garantindo que é efetuada com rigor". A norma de referência é a ISO 129-1 (na tradição portuguesa, NP 297).
A cota é sempre a medida real da peça, seja qual for a escala. A lateral de 1800 mm, desenhada a 1:10, ocupa 180 mm na folha, mas a cota escrita é 1800. As cotas escrevem-se em milímetros, sem unidade; a legenda diz uma vez "Cotas em mm". Em CAD, desenhando à escala 1:1, a cota associativa mede automaticamente o valor real.
Elementos de uma cota
- Linha de chamada (ou de extensão): contínua fina, perpendicular ao elemento cotado; parte do contorno (em muitos gabinetes com um pequeno intervalo) e ultrapassa ligeiramente a linha de cota.
- Linha de cota: contínua fina, paralela ao elemento medido, entre as linhas de chamada.
- Extremidades: setas, traços oblíquos a 45º ou pontos; um só tipo em todo o desenho.
- Número de cota: por cima da linha, a meio, legível de baixo ou do lado direito da folha.
- Símbolos: Ø diâmetro, R raio, □ quadrado; 2 × Ø 8 indica dois furos iguais.
- Tolerância, quando a medida o exige: por exemplo 762 ± 1. Em mobiliário, as tolerâncias usuais constam das especificações da empresa ou do cliente; indicam-se no desenho quando são relevantes para a montagem.
Regras gerais
- Cada medida necessária cota-se uma única vez, na vista onde é mais clara.
- Não se cota sobre arestas invisíveis quando existe uma vista ou corte em que a aresta é visível.
- As linhas de cota não coincidem com eixos, arestas ou outras linhas, nem são prolongamentos delas.
- As cotas menores ficam mais perto da peça e as maiores mais afastadas, para que as linhas de chamada não cruzem linhas de cota.
- As cotas ficam fora das vistas, sempre que possível, e agrupadas na vista que melhor mostra o elemento.
- Não se fecham cadeias: se estão cotadas todas as parcelas, a total é redundante; se interessar como informação, escreve-se entre parênteses (cota auxiliar).
- Furos e elementos circulares cotam-se a partir dos eixos.
Modos de dispor as cotas
| Modo | Como é | Quando usar |
|---|---|---|
| Em série | cotas seguidas umas às outras | distâncias entre elementos vizinhos |
| Em paralelo | todas a partir da mesma referência | quando os erros não se devem somar |
| Cumulativa (sobreposta) | uma só linha a partir de uma origem, com valores acumulados | furação em série, posições de prateleiras |
| Por coordenadas | tabela de X e Y a partir de uma origem | muitos furos, programação de máquinas CNC |
Em mobiliário, cotar a partir de uma referência (a aresta de trás de uma lateral, a face inferior, a aresta da frente) é muito usado, porque é assim que as máquinas de furar em série e os centros de maquinação trabalham.
O que se cota num conjunto
| Tipo de cota | Exemplos na estante |
|---|---|
| Dimensões gerais (fora a fora) | largura 800, altura 1800, profundidade 300 |
| Cotas de montagem | vão interior 762, posição do tampo e da base |
| Cotas funcionais | zona de furação das prateleiras, recuo das prateleiras em relação à frente |
| Cotas de pormenor | posição e diâmetro das cavilhas e dos ligadores, no pormenor ampliado |
As medidas completas de cada peça (comprimento, largura, espessura) ficam na lista de peças; não se repetem no desenho de conjunto.
A cotagem em CAD
- Estilo de cota: define altura do texto, tipo de extremidade, distâncias, precisão. Um estilo por escala de apresentação, ou um estilo anotativo (no AutoCAD, a propriedade Annotative ajusta o tamanho do texto e das setas à escala da janela).
- Cotas associativas: ligadas à geometria. Se a peça for esticada, a cota atualiza-se. Nunca se escreve à mão por cima do valor medido: uma cota "forçada" esconde um desenho errado.
- Onde cotar: no espaço de modelo (com estilo anotativo) ou no espaço de papel (sobre a janela). O importante é escolher uma forma e mantê-la em todo o projeto.
Exemplo resolvido: cotar a furação de sistema 32 da lateral
As prateleiras amovíveis apoiam em suportes metidos em furos de Ø 5 mm, em duas filas verticais. A convenção muito usada na indústria (o chamado sistema 32) põe os furos com passo de 32 mm e a primeira fila a 37 mm da aresta da frente. Confirma sempre estes valores no catálogo do suporte escolhido.
- Filas: uma a 37 mm da aresta da frente, outra a 37 mm da aresta de trás. Distância entre filas: 300 - 2 × 37 = 226 mm.
- Zona de furação: primeiro furo a 320 mm da face inferior da lateral; 37 furos por fila.
- Último furo: 320 + (37 - 1) × 32 = 320 + 36 × 32 = 320 + 1152 = 1472 mm.
- Verificação: o tampo ocupa de 1781 a 1800 mm (1800 - 19 = 1781), por isso o último furo fica 1781 - 1472 = 309 mm abaixo do tampo. Não há conflito.
- Cotagem: em vez de 37 cotas, escreve-se uma cota de posição 320 a partir da face inferior, uma cota 36 × 32 (= 1152) entre o primeiro e o último furo e a nota 37 × Ø 5 para cada fila. As filas cotam-se com 37 a partir de cada aresta.
- Contagem para a lista de peças e para a oficina: 37 furos × 2 filas × 2 laterais = 148 furos.
Exemplo resolvido: organizar as cotas da vista de frente
- Linha mais próxima da vista (lado direito): posições da base e do tampo.
- Linha seguinte: a zona de furação (320 e 1152).
- Linha mais afastada: a altura total 1800.
- Em baixo, por baixo da vista de cima: vão interior 762 mais perto e largura total 800 mais longe.
- Profundidade 300: cota-se uma só vez, na vista de cima ou no corte A-A, não nos dois.
Nenhuma medida aparece duas vezes, nenhuma linha de chamada cruza uma linha de cota, e todas as cotas ficam fora das vistas.
9. Materiais: caracterização e quantificação
Madeira maciça
A madeira é um material anisotrópico: as suas propriedades mudam com a direção. Há três direções a considerar:
- Longitudinal (ao longo do fio): a mais resistente e a mais estável; a retração é praticamente desprezável.
- Radial (do centro para a casca): retração moderada.
- Tangencial (tangente aos anéis de crescimento): a maior retração, cerca do dobro da radial.
Consequências para o desenho:
- O comprimento das peças maciças segue, em regra, o sentido do fio, e o fio indica-se no desenho (seta ou nota) e na lista de peças.
- As peças largas de madeira maciça trabalham (incham e retraem) na largura: um tampo maciço fixa-se de forma a poder mexer, e isso tem de aparecer no pormenor da fixação.
- O teor de água da madeira para mobiliário de interior anda, em regra, pelos 8 a 12 %; a especificação e o fornecedor definem o valor exato.
- Espécies comuns em Portugal: pinho, carvalho, castanho, faia, freixo, nogueira, e várias madeiras importadas. A espécie escreve-se pelo nome comum (e, se necessário, pelo nome científico).
Derivados de madeira
| Material | Constituição | Uso típico no móvel |
|---|---|---|
| Contraplacado | folhas de madeira coladas com o fio cruzado, em número ímpar | costas, fundos, peças curvas, prateleiras resistentes |
| Aglomerado de partículas | partículas de madeira coladas por prensagem | corpos de móveis, quase sempre revestido (melamina, folha) |
| MDF | fibras de madeira coladas, de densidade média | frentes lacadas, peças fresadas, molduras |
| HDF | fibras, de alta densidade, em placas finas | costas e fundos de gaveta |
| OSB | partículas longas orientadas, em camadas | estruturas e interiores; pouco usado em faces visíveis |
| Lamelado colado / painel de lamelas | réguas de madeira maciça coladas lado a lado | tampos, prateleiras maciças |
Revestimentos e orlas. O aglomerado e o MDF revestem-se com papel melamínico (o "melaminado"), folha de madeira natural ou laminado de alta pressão. As arestas cortadas levam orla (ABS, PVC, melamina, folha de madeira ou maciça).
Espessuras. Em aglomerado e MDF, as espessuras comerciais mais frequentes nos catálogos dos fabricantes que abastecem Portugal são 16 e 19 mm, mas há muitas outras (e o 18 mm é comum noutros mercados). As placas finas de HDF para costas e fundos rondam os 3 mm. Confirma sempre no catálogo do fornecedor: é a ficha técnica que manda.
Caracterizar
Caracterizar um material é descrevê-lo com precisão suficiente para que a oficina e o fornecedor não tenham dúvidas:
| Dado | Exemplo |
|---|---|
| Tipo | aglomerado de partículas |
| Revestimento e cor | melamina branca, referência do fabricante |
| Espessura | 19 mm |
| Sentido do fio ou do padrão | ao comprimento (quando o padrão tem direção, como um padrão imitação de madeira) |
| Orlas | ABS branca nas arestas visíveis |
| Classe ou requisito especial | por exemplo, resistência à humidade, se a especificação o pedir |
Para madeira maciça: espécie, qualidade (sem nós, com nós sãos), teor de água, sentido do fio e dimensões brutas e acabadas.
Quantificar
Quantificar é calcular quanto material o conjunto consome, para orçamento, encomenda e plano de corte. Cada tipo de material tem a sua unidade:
| Material | Unidade | Como se calcula |
|---|---|---|
| Madeira maciça | m³ | comprimento × largura × espessura, em metros |
| Painéis (aglomerado, MDF, contraplacado) | m² (por espessura) | comprimento × largura, em metros |
| Orlas, molduras, perfis | metro linear (m) | soma dos comprimentos |
| Ferragens, parafusos, cavilhas | unidades (un.) | contagem |
| Colas, vernizes, lacas | kg ou L | consumo por m², pela ficha técnica |
Conversões que não podem falhar: mm ÷ 1000 = m; 1 m² = 1 000 000 mm²; 1 m³ = 1000 dm³ = 1 000 000 000 mm³.
O desperdício (serradura, aparas, defeitos, sobras de placa) acrescenta-se como percentagem explícita, escrita na tabela, e não escondida nas medidas. O valor depende do material, do plano de corte e da oficina; num exercício usa-se o valor dado pelo professor ou pela empresa.
Exemplo resolvido: painéis da estante
Aglomerado melaminado branco 19 mm. Medidas acabadas de cada peça (comprimento × largura):
| Peça | Qtd. | Medidas (mm) | Área unitária (m²) | Área total (m²) |
|---|---|---|---|---|
| Lateral | 2 | 1800 × 300 | 1,8 × 0,3 = 0,540 | 1,080 |
| Tampo | 1 | 762 × 300 | 0,762 × 0,3 = 0,2286 | 0,2286 |
| Base | 1 | 762 × 300 | 0,2286 | 0,2286 |
| Prateleira | 3 | 760 × 280 | 0,76 × 0,28 = 0,2128 | 0,6384 |
| Total líquido | 2,1756 |
Com um desperdício de 15 % (valor dado pela oficina): 2,1756 × 1,15 = 2,502 m², cerca de 2,50 m² de aglomerado melaminado 19 mm a encomendar.
A costa, em HDF de 3 mm com 1796 × 796 mm, conta à parte: 1,796 × 0,796 = 1,430 m².
Exemplo resolvido: orla das arestas visíveis
Levam orla as arestas da frente de todas as peças e as arestas de cima das laterais (ficam à vista, porque o tampo entra entre as laterais):
- laterais, frente: 2 × 1800 = 3600 mm;
- laterais, topo: 2 × 300 = 600 mm;
- tampo e base, frente: 2 × 762 = 1524 mm;
- prateleiras, frente: 3 × 760 = 2280 mm.
Total: 3600 + 600 + 1524 + 2280 = 8004 mm = 8,00 m. Com 10 % para os topos cortados e as perdas da máquina: 8,004 × 1,10 = 8,80 m de orla.
Exemplo resolvido: madeira maciça de uma mesa de apoio
Quatro pernas de carvalho, acabadas a 45 × 45 × 720 mm, tiradas de peças brutas de 50 × 50 × 750 mm (sobremedida para desempenar, desengrossar e topejar).
- Volume acabado de uma perna: 0,045 × 0,045 × 0,720 = 0,001458 m³. Quatro pernas: 0,005832 m³ (5,832 dm³).
- Volume bruto de uma perna: 0,050 × 0,050 × 0,750 = 0,001875 m³. Quatro pernas: 0,0075 m³ (7,5 dm³).
- Aproveitamento: 0,005832 ÷ 0,0075 = 0,778, ou seja 77,8 %; a perda por sobremedida é de 22,2 %.
- Encomenda-se o volume bruto, e ainda com a margem de defeitos que a oficina indicar.
Peso
A tabela de peças pode incluir o peso, útil para transporte, embalagem e manuseamento. Calcula-se com a massa volúmica (densidade) indicada na ficha técnica do material:
massa (kg) = volume (m³) × massa volúmica (kg/m³)
Exemplo resolvido: peso dos painéis da estante
Suponha-se que a ficha técnica do aglomerado indica 650 kg/m³ (valor usado aqui só para o exercício; usa sempre o da ficha do fornecedor).
- Volume total: área líquida × espessura = 2,1756 × 0,019 = 0,04134 m³.
- Massa: 0,04134 × 650 = 26,9 kg.
- Por peça: lateral 0,540 × 0,019 × 650 = 6,7 kg; tampo ou base 0,2286 × 0,019 × 650 = 2,8 kg; prateleira 0,2128 × 0,019 × 650 = 2,6 kg.
- Verificação: 2 × 6,7 + 2 × 2,8 + 3 × 2,6 = 13,4 + 5,6 + 7,8 = 26,8 kg, igual ao total com o arredondamento.
Para o cálculo usa-se a área líquida (o que fica no móvel); o desperdício não pesa na estante.
10. Samblagens
Samblagem é a ligação entre duas ou mais peças de madeira ou derivados. A escolha depende do material, da função, dos esforços e de o móvel ter de ser desmontável ou não.
Samblagens tradicionais (madeira maciça)
| Samblagem | Como é | Uso típico |
|---|---|---|
| Furo e respiga | a respiga (espiga talhada no topo de uma peça) entra num furo (também chamado caixa) aberto na outra | ligação de pernas e travessas, caixilhos, portas de almofada |
| Malhete (rabo de andorinha) | dentes em forma de cauda de andorinha que travam a peça num sentido | cantos de gavetas em maciço, caixas |
| Meia-madeira | cada peça é rebaixada a metade da espessura e sobrepõem-se | cruzamentos de travessas, aros |
| Ranhura e lingueta (macho e fêmea) | uma peça tem ranhura, a outra lingueta | painéis, lambris, fundos |
| Encaixe em ranhura | a peça entra numa ranhura sem lingueta própria | fundos de gaveta, costas encaixadas |
Atenção aos nomes. Malhete é a samblagem em cauda de andorinha; respiga é a espiga que entra num furo. "Malhete e respiga" não é uma samblagem: a expressão certa é furo e respiga. Estas samblagens pedem madeira maciça; em aglomerado, o material desfaz-se e não segura os dentes nem a respiga.
Samblagens com elementos de ligação (painéis e produção em série)
| Ligação | Como é | Desmontável? |
|---|---|---|
| Cavilhas | cilindros de madeira (por exemplo Ø 8 × 35 mm) colados em furos das duas peças | não (coladas) |
| Lamelas (espigas planas) | pastilhas ovais de madeira prensada, coladas em rasgos | não |
| Parafusos de montagem para aglomerado (tipo «confirmat») | parafuso de rosca larga em furo escalonado | sim, poucas vezes |
| Ligadores excêntricos | um excêntrico metido num furo de uma peça prende a cabeça de um perno aparafusado na outra | sim, várias vezes |
| Cantoneiras e ligadores de superfície | peças metálicas ou plásticas aparafusadas no interior | sim |
Os ligadores excêntricos são o padrão do mobiliário desmontável: o perno aparafusa-se numa peça, entra num furo da outra e é apertado pelo excêntrico ao rodar. Combinam-se quase sempre com cavilhas, que alinham as peças e aguentam o esforço de corte, enquanto o excêntrico só aperta.
Representar a samblagem no conjunto
No desenho de conjunto, a samblagem tem de ficar visível, cotada e identificada, não só implícita numa nota:
- Pormenor ampliado, normalmente a 1:2 ou 1:1, identificado com letra na vista de origem.
- Corte pela zona da samblagem, quando é preciso mostrar a profundidade dos furos, da respiga ou da ranhura.
- Cotas de posição (a partir de uma aresta de referência), diâmetros e profundidades.
- Nota com o tipo de samblagem e a referência dos elementos de ligação (que também entram na lista de peças).
- Em CAD, os elementos de ligação repetidos (cavilhas, ligadores) inserem-se como blocos (capítulo 14).
Exemplo resolvido: ligação do tampo às laterais da estante
Decisão (desmontável): em cada encontro tampo-lateral, 2 ligadores excêntricos e 2 cavilhas de Ø 8 × 35 mm.
- Posições ao longo da profundidade (300 mm): cavilhas a 32 mm de cada aresta; ligadores a 64 mm de cada aresta. As posições são uma decisão do desenhador, compatível com o catálogo e com o passo de 32 mm.
- Pormenor C (1:2): corte pelo encontro, mostrando o furo do excêntrico no tampo, o perno na lateral e a cavilha. Diâmetros e distâncias do furo do excêntrico tirados do catálogo do ligador escolhido.
- Contagem: 4 encontros (tampo e base, cada um com 2 laterais) × 2 = 8 ligadores e 8 cavilhas.
- Na lista de peças: ligador excêntrico, 8 un., referência do fabricante; cavilha de faia Ø 8 × 35, 8 un.
- No corte, os pernos e as cavilhas atravessados ao comprimento desenham-se inteiros, sem hachura.
11. Ferragens
As ferragens são os componentes, geralmente metálicos ou plásticos, que dão função, movimento e ligação ao conjunto. Não se desenham "a olho": as medidas e furações vêm do catálogo e da ficha técnica do fabricante.
| Ferragem | Função | O que o desenho tem de mostrar |
|---|---|---|
| Dobradiças (de copa, de piano, de pivot) | articular portas | posição e diâmetro da copa (Ø 35 mm nas dobradiças de copa correntes), distância ao bordo segundo o catálogo, número de dobradiças |
| Corrediças (de rolete, de esferas, ocultas) | deslizar gavetas | comprimento, folga lateral exigida pelo fabricante, furação de fixação |
| Suportes de prateleira | apoiar prateleiras amovíveis | diâmetro e posição dos furos (sistema 32) |
| Ligadores | unir painéis de forma desmontável | furações nas duas peças (capítulo 10) |
| Puxadores | abrir portas e gavetas | entre-eixos dos furos de fixação, posição na frente |
| Pés niveladores, rodízios | apoiar e nivelar o móvel | posição, altura regulável |
| Fixações à parede | impedir o tombamento | posição e tipo, com nota de segurança |
Representação no desenho
- Representação simplificada: a ferragem desenha-se com o contorno essencial (o suficiente para mostrar posição e ocupação), não com todos os pormenores de fabrico.
- Blocos para ferragens repetidas, com atributos para a referência (capítulo 14).
- Camada própria (
FERRAGENS), para se poder desligar numa versão de apresentação. - Posições extremas de peças móveis em traço-dois-pontos: a porta aberta, a gaveta puxada, para verificar que não batem noutras peças.
- Referência do fabricante e modelo na lista de peças, para a oficina encomendar exatamente o que foi projetado.
Antes de fixar uma ferragem no desenho, verifica a compatibilidade: espessura mínima da porta para a copa, folga lateral que a corrediça exige, carga admissível do suporte de prateleira. Uma ferragem incompatível só se descobre na montagem, com a peça já furada.
Exemplo resolvido: suportes de prateleira e puxador
- Suportes de prateleira: 4 por prateleira (dois em cada lateral) × 3 prateleiras = 12 suportes. Inserem-se como bloco na camada
FERRAGENS, nas posições da furação de sistema 32 (capítulo 8). - Puxador de um armário com portas: entre-eixos de 128 mm (medida de catálogo, múltiplo de 32). Numa porta de 396 mm de largura, com o puxador centrado na largura, os furos ficam a (396 - 128) ÷ 2 = 134 mm de cada aresta vertical. Cota-se o entre-eixos 128 e a posição 134 a partir de uma aresta.
- Porta de 700 mm de altura com dobradiças de copa: o número de dobradiças e as distâncias às arestas tiram-se da tabela do fabricante (depende da altura e do peso da porta). No desenho cotam-se o Ø 35 da copa e a sua posição, e a referência entra na lista de peças.
12. Simbologia de acabamentos
O desenho de conjunto tem de dizer que acabamento leva cada face e cada aresta. Sem essa informação, a oficina decide por omissão, e cada oficina decide de maneira diferente.
Duas tradições
- Na mecânica, o estado da superfície indica-se com um símbolo gráfico normalizado (o "visto" com o parâmetro de rugosidade, por exemplo Ra, segundo a ISO 21920-1, que substituiu a ISO 1302). Existe e podes encontrá-lo em desenhos de ferragens ou de peças metálicas.
- No mobiliário, essa simbologia de rugosidade não é a prática corrente nem é obrigatória. O acabamento indica-se por notas e especificações: tipo de produto, cor, brilho, grão da última lixagem, número de demãos, faces e arestas abrangidas.
Como indicar o acabamento num conjunto de mobiliário
- Nota geral na área de texto, para o acabamento que se aplica à maior parte do móvel. Exemplo: "Acabamento geral: melamina branca; orla ABS branca nas arestas visíveis."
- Códigos de acabamento quando há mais de um: define-se uma pequena tabela (A1, A2, A3...) e cada face ou peça remete para o código, por nota com linha de referência ou por coluna na lista de peças.
- Orlas: indicam-se por aresta. Muitas empresas usam uma marca convencional ao longo da aresta orlada (um traço grosso paralelo, um pequeno triângulo, uma letra); a convenção, seja qual for, tem de estar explicada na folha.
- Faces interiores e ocultas: também se especificam, mesmo que o acabamento seja mais simples ("interior: em cru" ou "interior: verniz, uma demão").
| Código | Especificação de acabamento (exemplo) |
|---|---|
| A1 | melamina branca, referência do fabricante, faces à vista |
| A2 | verniz aquoso incolor, acetinado, lixagem final grão 240, duas demãos |
| A3 | laca poliuretânica branca, mate, sobre primário |
| O1 | orla ABS branca, espessura conforme catálogo, arestas indicadas |
Os códigos são da empresa ou da escola; o que importa é que a tabela esteja na folha e seja usada de forma constante.
A especificação completa de um acabamento em madeira ou MDF costuma incluir: tipo de produto (óleo, cera, verniz aquoso, verniz poliuretânico, laca), cor, brilho (mate, acetinado, brilhante), preparação (grão da última lixagem, primário, betume) e número de demãos. Os valores concretos vêm da ficha técnica do produto de acabamento.
Exemplo resolvido: acabamentos da estante
- Nota geral: "Acabamento A1 em todas as faces das peças 1 a 5; orla O1 nas arestas marcadas."
- Pormenor da orla: marca convencional ao longo das arestas da frente de todas as peças e do topo das laterais (as mesmas arestas contadas no capítulo 9, total 8,00 m).
- Costa (peça 6): "HDF 3 mm, face à vista branca, face interior em cru."
- Tabela de acabamentos junto da lista de peças, com os códigos A1 e O1.
Erro a evitar: esquecer o acabamento das faces interiores de uma gaveta ou armário. Sem indicação, a oficina assume o que é costume na casa, que pode não ser o que o cliente pediu.
13. Organização da folha: desenho, legenda e texto
Organizar a folha é uma realização central da UC: "organizando os espaços para o desenho, legenda e texto".
Formatos e esquadria
Os formatos são os da série A (ISO 216): A4 210 × 297, A3 297 × 420, A2 420 × 594, A1 594 × 841, A0 841 × 1189 mm. A esquadria (ISO 5457) delimita a área útil: 20 mm de margem do lado esquerdo (arquivo) e 10 mm nos restantes lados.
| Formato | Área útil dentro da esquadria (mm) |
|---|---|
| A4 vertical | 180 × 277 |
| A3 horizontal | 390 × 277 |
| A2 horizontal | 564 × 400 |
As zonas da folha
| Zona | Conteúdo | Posição |
|---|---|---|
| Área de desenho | vistas, cortes, pormenores, perspetiva | a maior parte da folha, com espaço entre vistas para as cotas |
| Legenda (cartucho) | identificação do desenho | canto inferior direito, encostada à esquadria |
| Lista de peças | tabela de peças e materiais | por cima da legenda, com a mesma largura, ou numa folha própria |
| Área de texto | notas gerais, acabamentos, tolerâncias gerais | junto da legenda ou por cima da lista de peças |
A disposição segue uma hierarquia de leitura: primeiro a vista principal e as vistas que dela dependem (alinhadas pelo método europeu), depois os cortes, depois os pormenores, com a perspetiva num canto livre.
A legenda
A legenda segue a ISO 7200 (na tradição portuguesa, NP 204). A largura máxima da legenda é de 180 mm, a mesma da área útil de um A4 vertical. Campos habituais:
| Campo | Exemplo |
|---|---|
| Título | Estante modular 800 · conjunto |
| Número do desenho | EST-800-001 |
| Escala principal | 1:10 (os pormenores levam a sua junto a cada um) |
| Método de projeção | símbolo do 1.º diedro |
| Unidade | Cotas em mm |
| Desenhou / verificou / aprovou | nomes e datas |
| Revisão | A, B, C... |
| Folha | 1/1 |
| Entidade | escola ou empresa |
Espaço de modelo e espaço de papel
Os programas de CAD separam dois espaços:
- Espaço de modelo: onde se desenha o móvel à escala real (1:1).
- Espaço de papel (folha, layout): onde está a esquadria, a legenda e a lista de peças, em milímetros de papel, com uma ou mais janelas de visualização, cada uma com a sua escala (uma a 1:10 para as vistas gerais, outras a 1:2 para os pormenores).
Esta separação é a forma mais limpa de ter várias escalas na mesma folha e de imprimir a folha a 1:1 sem contas. No AutoCAD, as folhas chamam-se layouts e as janelas criam-se com MVIEW (ou VPORTS); a escala de cada janela fixa-se nas suas propriedades e bloqueia-se para não mudar por engano.
Exemplo resolvido: montar a folha A3 da estante
- Folha A3 horizontal, esquadria a 20/10/10/10 mm: área útil 390 × 277 mm.
- Legenda no canto inferior direito, com 180 mm de largura.
- Lista de peças por cima da legenda, com a mesma largura de 180 mm. Sobram 390 - 180 = 210 mm de largura à esquerda para o desenho.
- Janela 1:10 com vista de frente (80 × 180 mm), vista de cima (80 × 30 mm) por baixo e corte A-A (30 × 180 mm) à direita da frente: ocupa cerca de 130 × 230 mm com os intervalos, a que se somam as cotas. Cabe nos 210 mm disponíveis.
- Janelas 1:2 para os pormenores C (ligação do tampo) e D (suporte de prateleira), por cima da lista de peças.
- Notas gerais (acabamentos, "Cotas em mm", tolerâncias gerais) num bloco de texto junto dos pormenores.
Texto
- Letra normalizada (ISO 3098); alturas de 3,5 mm para cotas e notas, 5 a 7 mm para títulos e letras de cortes e pormenores.
- Notas curtas, numeradas, em frases completas e sem abreviaturas inventadas.
- O texto nunca cruza linhas do desenho.
14. Blocos e bibliotecas
O que é um bloco
Um bloco é um conjunto de entidades agrupadas e guardadas com um nome, como uma unidade reutilizável. Insere-se quantas vezes for preciso, com posição, escala e rotação próprias, mas a definição existe uma só vez no ficheiro.
Vantagens:
- Desenha-se uma vez, usa-se sempre: o mesmo suporte de prateleira inserido 12 vezes.
- Consistência: todas as inserções são iguais.
- Atualização em massa: redefinir o bloco atualiza todas as inserções de uma vez.
- Ficheiros mais leves: cada inserção é uma referência, não uma cópia da geometria.
- Contagem automática: o CAD sabe quantas inserções há de cada bloco, o que alimenta a lista de peças.
Criar um bloco bem feito
- Desenha o conteúdo na camada 0 (no AutoCAD, as entidades na camada 0 de um bloco assumem a camada onde o bloco é inserido) ou com propriedades ByBlock, para que o bloco herde a camada
FERRAGENSao ser inserido. - Desenha-o à escala real (1:1) e, para símbolos que devem ter sempre o mesmo tamanho no papel, num tamanho unitário.
- Escolhe um ponto de inserção útil: o centro do furo de fixação, o eixo da ferragem, o canto de referência.
- Dá-lhe um nome claro e codificado (ver bibliotecas).
- Acrescenta atributos quando cada inserção precisa de dados próprios.
No AutoCAD: BLOCK cria o bloco dentro do ficheiro; WBLOCK grava-o como ficheiro próprio; INSERT insere; BEDIT abre o editor de blocos; ATTDEF define atributos; ATTSYNC atualiza os atributos das inserções depois de mudar a definição.
Atributos
Um atributo é um campo de texto associado ao bloco, preenchido em cada inserção: número de peça, referência do fabricante, material, quantidade. Os atributos podem ser visíveis (aparecem na folha, como o número dentro de um balão) ou invisíveis (só servem para extrair dados, como a referência do fabricante).
Exemplo resolvido: bloco "balão" com atributo
- Na camada 0, desenha-se um círculo de Ø 10 mm (tamanho no papel) e define-se um atributo
N_PECA, centrado no círculo, altura 5 mm. - Cria-se o bloco
SIMB-BALAOcom ponto de inserção no centro do círculo. - Em cada peça do conjunto insere-se o bloco e escreve-se o número (1, 2, 3...). A linha de referência desenha-se à parte ou, no AutoCAD, usa-se um estilo de linha de referência múltipla (MLEADER) com o bloco como conteúdo.
- Se a escola mudar o diâmetro do balão, redefine-se o bloco e todos os balões mudam.
Exemplo resolvido: bloco do suporte de prateleira
- Desenha-se a representação simplificada do suporte, com o ponto de inserção no centro do furo de Ø 5.
- Atributos invisíveis:
REF(referência do fabricante) eDESIGNACAO. - Nome:
FER-SUP-PRAT-05. - Insere-se em 12 posições da furação de sistema 32, na camada
FERRAGENS, usando referências a objetos (centro do furo). - Contagem: o CAD indica 12 inserções, que confere com 4 suportes × 3 prateleiras.
Blocos dinâmicos e paramétricos
Alguns programas permitem blocos que mudam de forma sem deixarem de ser o mesmo bloco: uma corrediça com vários comprimentos, uma porta que se desenha aberta ou fechada. No AutoCAD chamam-se blocos dinâmicos e definem-se no editor de blocos com parâmetros e ações. Poupam bibliotecas enormes com uma variante por medida.
Bibliotecas
Uma biblioteca é uma coleção organizada de blocos, partilhada entre projetos e entre a equipa.
| Família | Exemplos de blocos | Prefixo de nome |
|---|---|---|
| Ferragens | dobradiças, corrediças, suportes, ligadores, puxadores | FER- |
| Elementos de ligação | cavilhas, parafusos, lamelas | LIG- |
| Símbolos | balão, método de projeção, marca de orla, seta de fio, indicação de corte | SIMB- |
| Folhas | esquadrias e legendas A4, A3, A2 | FOLHA- |
| Pormenores-tipo | encaixe de fundo em ranhura, ligação por excêntrico | DET- |
Regras de uma boa biblioteca:
- Local único e partilhado (uma pasta na rede ou na nuvem da equipa), com cópia de segurança; não uma cópia diferente em cada computador.
- Nomes codificados e consistentes: família, tipo, medida (
FER-DOB-COPA35,LIG-CAV-08x35). - Uma ficha por bloco: fabricante, referência, data, quem criou.
- Controlo de versões: quando um bloco muda, a versão antiga não se apaga sem verificar os projetos que a usam.
- Acesso rápido: no AutoCAD, pelas paletas de ferramentas (TOOLPALETTES), pelo DesignCenter (ADCENTER) ou pela paleta de blocos; noutros programas, pelos respetivos gestores de bibliotecas.
Muitos fabricantes de ferragens disponibilizam ficheiros CAD dos seus produtos. São um bom ponto de partida, mas convém simplificá-los para o desenho de conjunto (um bloco com milhares de entidades torna o ficheiro lento) e confirmar as medidas com a ficha técnica.
15. Numeração das peças e lista de peças
Numerar as peças no conjunto
Cada peça diferente do conjunto recebe um número (a referência de peça, ISO 6433), que aparece no desenho e na lista de peças:
- O número escreve-se num balão (círculo fino) ou só em algarismos maiores do que os das cotas, na extremidade de uma linha de referência fina.
- A linha de referência termina num ponto quando toca dentro da peça, ou numa seta quando toca no contorno.
- As linhas de referência não se cruzam entre si, não são paralelas às hachuras próximas e não passam por cima de cotas.
- Os balões alinham-se em linhas ou colunas, para a leitura ser fácil.
- Peças iguais têm o mesmo número; numera-se uma das ocorrências e a quantidade vai para a lista.
- A numeração segue uma ordem lógica: por sequência de montagem, ou das peças maiores para as menores, e por fim as ferragens e elementos de ligação.
A lista de peças
A lista de peças (ISO 7573; na tradição portuguesa, NP 205) é a tabela que acompanha o desenho de conjunto. Fica por cima da legenda, com a mesma largura, e preenche-se de baixo para cima (a linha dos títulos das colunas encosta à legenda), ou numa folha separada quando é longa.
| Coluna | Conteúdo |
|---|---|
| N.º (item) | o número do balão |
| Designação | nome da peça: lateral, tampo, prateleira, ligador excêntrico |
| Qtd. | quantas peças iguais |
| Material | material e espessura, ou "ferragem" |
| Dimensões | comprimento × largura × espessura (acabadas), ou medida comercial |
| Referência / norma | referência do fabricante, norma do elemento normalizado, número do desenho de fabrico |
| Peso (quando útil) | massa unitária ou total |
| Observações | sentido do fio, orlas, acabamento (códigos do capítulo 12) |
Exemplo resolvido: lista de peças da estante
| N.º | Designação | Qtd. | Material | Dimensões (mm) | Referência | Observações |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 10 | Parafuso da costa | 16 | aço | 3,5 × 16 | fabricante | cabeça de embeber |
| 9 | Suporte de prateleira | 12 | metálico | para furo Ø 5 | fabricante | bloco FER-SUP-PRAT-05 |
| 8 | Cavilha | 8 | faia | Ø 8 × 35 | ranhurada | |
| 7 | Ligador excêntrico (conjunto excêntrico e perno) | 8 | metálico | catálogo | fabricante | |
| 6 | Costa | 1 | HDF 3 mm | 1796 × 796 | face à vista branca, interior em cru | |
| 5 | Prateleira | 3 | aglomerado melaminado 19 mm | 760 × 280 | A1; orla O1 na frente | |
| 4 | Base | 1 | aglomerado melaminado 19 mm | 762 × 300 | A1; orla O1 na frente | |
| 3 | Tampo | 1 | aglomerado melaminado 19 mm | 762 × 300 | A1; orla O1 na frente | |
| 2 | Lateral direita | 1 | aglomerado melaminado 19 mm | 1800 × 300 | furação espelhada da peça 1 | |
| 1 | Lateral esquerda | 1 | aglomerado melaminado 19 mm | 1800 × 300 | A1; orla O1 na frente e no topo | |
| N.º | Designação | Qtd. | Material | Dimensões (mm) | Referência | Observações |
Repara em três decisões:
- As laterais têm números diferentes (1 e 2) porque a furação da direita é o espelho da esquerda; não são intercambiáveis. Tampo e base, se forem furados de igual forma, poderiam ter o mesmo número com Qtd. 2.
- As ferragens e elementos de ligação estão na lista, com quantidades que conferem com as contagens dos capítulos 10 e 11.
- A lista é lida de baixo para cima, por isso o título das colunas está na última linha, encostado à legenda.
A tabela em CAD
- Em vez de desenhar a tabela com linhas e textos soltos, usa-se o objeto tabela do programa (no AutoCAD, TABLE), que se edita como uma folha de cálculo.
- Os dados dos atributos dos blocos podem ser extraídos para uma tabela (no AutoCAD, DATAEXTRACTION): a contagem dos suportes, ligadores e cavilhas sai automaticamente das inserções.
- Uma tabela também se pode ligar a uma folha de cálculo externa, para que o orçamento e o desenho usem os mesmos números.
16. Configurar e imprimir os desenhos
Configurar e imprimir é uma realização e uma aptidão próprias da UC. Um desenho perfeito no ecrã que sai cortado, à escala errada ou com todas as linhas da mesma espessura não cumpriu o seu papel.
O que se configura
| Parâmetro | Escolha | Verificação |
|---|---|---|
| Dispositivo | impressora, plotter ou impressora virtual de PDF | o formato pretendido existe no dispositivo |
| Formato de papel | A4, A3, A2... igual ao da folha desenhada | orientação vertical ou horizontal certa |
| Área a imprimir | a folha (layout), ou uma janela/limites definidos | a esquadria fica toda dentro da área imprimível |
| Escala de impressão | 1:1 quando se imprime uma folha de papel com janelas à escala; a escala do desenho quando se imprime diretamente do modelo | medir uma cota conhecida no papel |
| Espessuras de linha | pela camada, através de uma tabela de estilos de impressão | contornos grossos, cotas e eixos finos |
| Cor | preto (monocromático) para desenho técnico, salvo exceção | as cores das camadas não saem em cinzento claro ilegível |
| Centragem e margens | segundo a área imprimível do dispositivo | nada cortado junto aos bordos |
No AutoCAD, a configuração guarda-se com PAGESETUP (configuração de página associada a cada folha) e imprime-se com PLOT; as espessuras controlam-se pelas propriedades das camadas e pelas tabelas de estilos de impressão (ficheiros .ctb, por cor, ou .stb, por estilo). Outros programas têm opções equivalentes com outros nomes.
Imprimir do espaço de papel ou do modelo
- Do espaço de papel (recomendado): a folha está em milímetros de papel; imprime-se a 1:1; cada janela tem a sua escala (1:10, 1:2). É assim que se juntam várias escalas na mesma folha.
- Do modelo: imprime-se uma janela do modelo à escala do desenho (por exemplo "1 mm no papel = 10 unidades do desenho" para 1:10). Funciona para uma só escala, mas obriga a desenhar a esquadria e a legenda ampliadas, o que é fonte de erros.
O PDF é hoje o formato normal de entrega e de arquivo. Deve ser vetorial (não uma imagem), com as espessuras de linha corretas e o formato de página igual ao da folha. O nome do ficheiro segue a codificação do projeto e inclui a revisão (EST-800-001-revA.pdf).
Exemplo resolvido: verificar a escala depois de imprimir
A estante foi impressa em A3 com a janela a 1:10.
- Mede-se no papel, com régua, a altura da vista de frente: deve dar 1800 ÷ 10 = 180 mm.
- Se der 173 mm, a impressão foi ajustada à página e não está à escala: 173 ÷ 180 = 0,961, cerca de 96 %. Corrige-se escolhendo escala 1:1 para a folha, sem "ajustar à página".
- Mede-se um pormenor a 1:2: um furo de Ø 8 mm deve medir 4 mm no papel (8 ÷ 2).
- Confirma-se que a esquadria aparece completa nos quatro lados e que as linhas de contorno estão visivelmente mais grossas do que as de cota.
Mesmo com a escala certa, na oficina mede-se pelas cotas, nunca com régua sobre o papel. A verificação com régua serve para controlar a impressão, não para fabricar.
17. Normas de segurança e saúde no trabalho e normas da qualidade
Segurança e saúde no posto de CAD
O trabalho de desenho em CAD é trabalho com equipamentos dotados de visor. Em Portugal, as prescrições mínimas de segurança e saúde para este trabalho constam do Decreto-Lei n.º 349/93, de 1 de outubro, que transpõe a Diretiva 90/270/CEE, e da Portaria n.º 989/93, de 6 de outubro, que fixa as normas técnicas de execução. Em termos práticos:
| Aspeto | Boa prática |
|---|---|
| Ecrã | topo à altura dos olhos ou ligeiramente abaixo, a uma distância confortável de leitura, sem reflexos |
| Iluminação | luz suficiente e sem encandeamento; ecrã perpendicular às janelas |
| Cadeira e postura | regulável em altura, costas apoiadas, pés assentes, antebraços apoiados |
| Teclado e rato | à altura dos cotovelos, perto do corpo, pulsos direitos |
| Pausas | interromper o trabalho contínuo no ecrã com pausas ou mudança de tarefa, e descansar a vista olhando ao longe |
| Vigilância da saúde | exames à visão previstos na lei para quem trabalha com visor |
Segurança e saúde que o desenho transmite à oficina
O desenho também protege quem fabrica, monta e usa o móvel:
- Fixação à parede de móveis altos (como a estante de 1800 mm), indicada em nota e com a ferragem na lista de peças, para evitar o tombamento.
- Arestas e cantos: boleados ou chanfrados quando o móvel é para crianças ou para passagens.
- Peso de cada peça (capítulo 9), para planear o manuseamento e a embalagem.
- Materiais e acabamentos: a ficha de dados de segurança dos produtos de acabamento define as proteções na aplicação.
- Pó de madeira: o pó de madeiras duras (folhosas) é um agente cancerígeno reconhecido. A Diretiva (UE) 2017/2398, transposta em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 35/2020, fixou para ele um valor-limite de 2 mg/m³ (média de 8 horas) a partir de 17 de janeiro de 2023. Na oficina, isto exige aspiração na origem nas máquinas e proteção respiratória (máscaras FFP2 ou FFP3) quando a aspiração não chega. Para o desenhador, a consequência é preferir soluções que evitem lixagens e maquinações desnecessárias.
Normas da qualidade
A qualidade de um desenho mede-se por não gerar dúvidas nem erros na oficina. Na prática:
- Normas de desenho técnico aplicadas de forma constante: ISO 128 (linhas, cortes), ISO 129-1 (cotagem), ISO 5455 (escalas), ISO 5456-2 (projeções), ISO 5457 (folhas), ISO 7200 (legenda), ISO 7573 (lista de peças), ISO 3098 (escrita).
- Verificação por outra pessoa antes de emitir (campo "verificou" na legenda).
- Controlo de revisões: cada alteração muda a letra da revisão e fica registada (o quê, quando, quem).
- Controlo de documentos: o desenho em uso na oficina é sempre a última revisão; as anteriores retiram-se ou marcam-se como obsoletas.
- Lista de verificação antes de imprimir.
Numa empresa com sistema de gestão da qualidade (por exemplo, certificado pela ISO 9001), o controlo de documentos e de revisões é uma exigência do próprio sistema.
Exemplo resolvido: lista de verificação do desenho da estante
| Verificação | Estado |
|---|---|
| Vistas necessárias e suficientes, alinhadas pelo método europeu | ✓ |
| Corte A-A identificado na vista de origem, hachuras distintas por peça, ligações não cortadas ao comprimento | ✓ |
| Cotas gerais, de montagem e funcionais; nenhuma repetida; valores reais | ✓ |
| Todas as peças numeradas; números iguais no desenho e na lista | ✓ |
| Lista de peças com ferragens e elementos de ligação; quantidades conferidas | ✓ |
| Materiais caracterizados; acabamentos e orlas especificados | ✓ |
| Pormenores das ligações e da furação com escala indicada | ✓ |
| Legenda completa: escala, método de projeção, unidade, revisão, autor, verificação | ✓ |
| Nota de fixação à parede | ✓ |
| Impressão à escala verificada com régua | ✓ |
Erros comuns
- Desenhar já reduzido no espaço de modelo, em vez de desenhar a 1:1 e aplicar a escala na folha.
- Escrever a cota à escala (180 em vez de 1800), ou pôr "mm" em todas as cotas.
- Forçar cotas à mão por cima do valor medido, escondendo um desenho errado.
- Tudo na mesma camada, com cores e espessuras forçadas entidade a entidade.
- Multiplicar vistas sem necessidade, em vez de escolher as que acrescentam informação e usar cortes.
- Esquecer o plano de corte na vista de origem, deixando o corte sem identificação (A-A).
- Hachurar parafusos, pernos e cavilhas cortados ao comprimento, ou usar a mesma hachura em duas peças vizinhas.
- Chamar "malhete e respiga" à samblagem de furo e respiga, ou propor samblagens de maciço em aglomerado.
- Inventar uma medida ou referência que não consta da especificação nem do catálogo, em vez de a assinalar como "a confirmar".
- Prateleiras com a largura total do móvel, esquecendo que entram entre as laterais (800 - 2 × 19 = 762, menos a folga).
- Esquecer as ferragens na lista de peças, contando só as peças de madeira.
- Esconder o desperdício nas medidas em vez de o escrever como percentagem.
- Números de peça sem correspondência entre o desenho e a lista.
- Redesenhar a mesma ferragem em cada posição, em vez de a transformar em bloco.
- Imprimir "ajustado à página", perdendo a escala.
Glossário
- Anisotropia: propriedade de um material cujas características mudam com a direção; na madeira, longitudinal, radial e tangencial.
- Atributo: campo de texto associado a um bloco, preenchido em cada inserção.
- Balão: círculo com o número de uma peça, na extremidade de uma linha de referência.
- Biblioteca: coleção organizada e partilhada de blocos.
- Bloco: conjunto de entidades guardado com um nome e inserido como uma unidade.
- Camada (layer): agrupamento de entidades com nome, cor, tipo e espessura de linha.
- Cavilha: cilindro de madeira colado em furos de duas peças, para as alinhar e ligar.
- Conjunto: desenho de várias peças na posição em que ficam montadas.
- Corte: representação do interior, como se o objeto fosse seccionado por um plano, incluindo o que está para lá dele.
- Cota: indicação de uma medida real, com linha de cota, linhas de chamada, extremidades e valor.
- Espaço de papel (layout): folha do CAD com esquadria, legenda e janelas de visualização à escala.
- Ferragem: componente, geralmente metálico ou plástico, que dá função, movimento ou ligação ao móvel.
- Furo e respiga: samblagem em que a espiga talhada numa peça entra num furo aberto na outra.
- Hachura (tracejado de corte): linhas finas paralelas que preenchem as superfícies cortadas.
- Ligador excêntrico: ligação desmontável em que um excêntrico aperta um perno aparafusado na outra peça.
- Lista de peças: tabela com número, designação, quantidade, material e dimensões das peças do conjunto.
- Malhete: samblagem em cauda de andorinha.
- Método europeu: projeção no 1.º diedro; a vista de cima fica por baixo da de frente e a lateral esquerda à direita.
- Pormenor: vista ampliada de uma zona, identificada com letra e escala.
- Secção: representação só da superfície cortada, sem o que está para trás.
- Sistema 32: convenção industrial de furação com passo de 32 mm.
- Traços de localização: eixos, traços de planos de corte e linhas de referência que situam elementos sem fazerem parte da forma.
Síntese
Desenhar um conjunto em CAD 2D segue sempre a mesma ordem. Configura-se o software (milímetros, desenho a 1:1, camadas, estilos, modelo de folha) e analisa-se a especificação, registando o que falta como "a confirmar". Escolhem-se as vistas necessárias e suficientes pelo método europeu, e usam-se cortes, secções e pormenores para mostrar o interior e as ligações, com hachuras distintas para peças vizinhas e sem cortar ao comprimento parafusos, pernos e cavilhas. Cota-se com rigor (valores reais, em mm, sem unidade, cada medida uma vez), dando prioridade às dimensões gerais, de montagem e funcionais. Caracterizam-se e quantificam-se os materiais nas unidades certas (m³, m², metro linear, unidades), com o desperdício explícito e, quando útil, o peso. Samblagens e ferragens aparecem desenhadas, cotadas e referenciadas; os acabamentos indicam-se por notas e códigos. A folha organiza-se em desenho, legenda, lista de peças e texto; blocos e bibliotecas dão velocidade e consistência; a lista de peças liga-se à numeração do desenho. Por fim configura-se e imprime-se à escala, verificando com régua, dentro das normas de segurança e saúde no trabalho e das normas da qualidade.
Exercícios resolvidos
1. Uma estante tem 900 mm de largura exterior e laterais de 16 mm. Qual o comprimento do tampo, se entra entre as laterais, e o das prateleiras amovíveis com 2 mm de folga total?
Resolução: vão interior = 900 - 2 × 16 = 868 mm, que é o comprimento do tampo. Prateleiras: 868 - 2 = 866 mm. Desenhar a prateleira com 900 mm seria o erro de a fazer sobrepor às laterais.
2. Num corte de conjunto, o plano passa pelo eixo de um perno de ligador e corta ao comprimento duas prateleiras vizinhas de aglomerado. Como se representam?
Resolução: o perno desenha-se inteiro, sem hachura, porque os elementos maciços de ligação não se cortam longitudinalmente. As duas prateleiras hachuram-se com sentidos opostos (ou espaçamentos diferentes), para se distinguirem, e cada uma mantém a sua hachura em todos os cortes do desenho.
3. Uma lateral de 2000 mm é desenhada a 1:20. Que medida ocupa no papel e que cota se escreve?
Resolução: no papel, 2000 ÷ 20 = 100 mm. A cota escrita é 2000, sem unidade, porque a cota é sempre a medida real. A escala 1:20 é normalizada.
4. Calcula a área líquida e a área a encomendar de 5 prateleiras de 866 × 350 mm, com 12 % de desperdício.
Resolução: área de uma prateleira = 0,866 × 0,350 = 0,3031 m². Cinco prateleiras: 0,3031 × 5 = 1,5155 m². Com 12 % de desperdício: 1,5155 × 1,12 = 1,697 m², cerca de 1,70 m².
5. Uma travessa de pinho acabada tem 900 × 70 × 22 mm. São precisas 6. Qual o volume acabado total, em m³ e em dm³?
Resolução: uma travessa: 0,900 × 0,070 × 0,022 = 0,001386 m³. Seis travessas: 0,001386 × 6 = 0,008316 m³ = 8,316 dm³ (1 m³ = 1000 dm³). Para encomendar, calcula-se também o volume bruto com a sobremedida.
6. Uma lateral de 720 mm de altura tem furação de sistema 32 a partir de 160 mm da face inferior, com 12 furos por fila. Onde fica o último furo e quantos furos há em 2 laterais com 2 filas cada?
Resolução: último furo: 160 + (12 - 1) × 32 = 160 + 352 = 512 mm da face inferior. Furos: 12 × 2 filas × 2 laterais = 48 furos. Cota-se 160, 11 × 32 (= 352) e a nota 12 × Ø 5 por fila.
7. Um armário de cozinha tem 6 portas, cada uma com 2 dobradiças de copa. Como se representam as dobradiças em CAD e como entram na lista de peças?
Resolução: cria-se um bloco da dobradiça (representação simplificada, ponto de inserção no centro da copa de Ø 35, atributo com a referência) e insere-se nas 12 posições (6 × 2), na camada
FERRAGENS. Na lista de peças entra uma linha: dobradiça, 12 un., referência do fabricante. Se a furação mudar, redefine-se o bloco e todas as inserções atualizam.
8. Um aluno imprimiu a folha A3 e a vista de frente de um móvel de 1800 mm, a 1:10, mede 167 mm. O que aconteceu?
Resolução: deveria medir 1800 ÷ 10 = 180 mm. Como 167 ÷ 180 = 0,928, a impressão saiu a cerca de 93 %: foi impressa com "ajustar à página" em vez de escala 1:1. Corrige-se a configuração de página e volta-se a verificar com régua.
9. Um cliente pede "uma cómoda em carvalho maciço, com os cantos das gavetas à moda antiga, e uma estrutura que se possa desmontar para mudanças". Que samblagens propões e como as representas?
Resolução: para os cantos das gavetas, malhetes (cauda de andorinha), que travam a frente sem ferragens; as gavetas ficam coladas. Para a estrutura desmontável, ligações por ferragens de montagem (ligadores ou parafusos com casquilho roscado) combinadas com cavilhas de alinhamento, em vez de furo e respiga colados, que não se desmontam. Tudo se representa em pormenores a 1:2 ou 1:1, com corte pela zona da ligação, cotas de posição e medidas dos malhetes, nota com o tipo de samblagem e as ferragens na lista de peças.
10. Uma estante de 800 × 1800 × 300 mm vai para o quarto de uma criança. Que duas indicações de segurança devem constar do desenho?
Resolução: a fixação à parede contra o tombamento (nota e ferragem na lista de peças) e o boleado ou chanfro das arestas acessíveis, cotado num pormenor. Pode ainda indicar-se o peso das peças para o manuseamento na montagem.