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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC00468

Sebenta · Desenhar conjuntos em CAD 2D (UC00468)

Do software configurado à folha impressa, vistas, cortes, cotagem, materiais, samblagens, ferragens, blocos, bibliotecas e lista de peças de um conjunto de mobiliário
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho de Produto em M ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a desenhar conjuntos completos em CAD 2D, o passo que separa quem desenha peças soltas de quem entrega um projeto pronto para a oficina. Um conjunto é o desenho de várias peças relacionadas entre si, na posição em que ficam montadas: uma estante, uma gaveta, um armário completo. Representá-lo bem exige mais do que desenhar cada peça: exige escolher as vistas certas, mostrar o interior com cortes, cotar com rigor, numerar as peças e ligá-las a uma lista de materiais, representar samblagens e ferragens, e organizar tudo numa folha que se imprime à escala certa.

O título da unidade tem quatro palavras que funcionam como plano de estudo, e cada uma tem capítulos próprios nesta sebenta:

Palavra do título O que tens de saber fazer Capítulos
Desenhar usar os comandos de CAD 2D com precisão, organizar camadas, traçar vistas e cortes 1, 2, 3, 5, 6, 7
Conjuntos representar peças montadas, numerá-las, cortar sem confundir peças vizinhas, cotar a montagem 5, 7, 8, 10, 11, 15
CAD configurar o software, criar blocos e bibliotecas, extrair dados para tabelas 1, 2, 3, 14, 15
2D representar em projeções ortogonais, com perspetiva só como apoio, e imprimir em papel ou PDF à escala 5, 13, 16

O percurso segue a ordem de um projeto real: primeiro configura-se o software de acordo com a especificação técnica, depois analisa-se a especificação, desenham-se as vistas necessárias, mostram-se cortes e secções, aplicam-se as regras de cotagem, caracterizam-se e quantificam-se os materiais, representam-se samblagens e ferragens, indicam-se os acabamentos, organiza-se a folha e a legenda, ganha-se velocidade com blocos e bibliotecas, constrói-se a lista de peças e, por fim, configura-se a impressão, tudo dentro das normas de segurança e saúde no trabalho e das normas da qualidade.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar as especificações técnicas das peças de conjunto; configurar o software de CAD de acordo com essas especificações; definir o número de vistas e pormenores necessários; executar a cotagem dos desenhos com rigor; organizar os espaços para o desenho, legenda e texto; organizar diferentes camadas no desenho; criar blocos e bibliotecas; criar e inserir a tabela de materiais das peças de conjunto; configurar e imprimir os desenhos técnicos; e aplicar as normas de desenho técnico, de segurança e saúde no trabalho, e da qualidade.

Ao longo da sebenta usa-se sempre o mesmo caso de estudo: uma estante modular de 800 × 1800 × 300 mm (largura × altura × profundidade) em aglomerado melaminado. Cada capítulo acrescenta-lhe uma camada de informação, e no fim tens o desenho de conjunto completo, com lista de peças, pronto a imprimir.

1. O desenho de conjunto e a configuração do CAD

Que desenhos compõem um projeto de mobiliário

Um móvel raramente se resolve com uma só folha. O dossiê técnico de um móvel costuma ter vários tipos de desenho, cada um com a sua função:

Desenho O que mostra Para quem
Desenho de conjunto o móvel montado, com as peças numeradas, cotas gerais e de montagem, lista de peças oficina (montagem), orçamento, cliente
Desenho de subconjunto uma parte montada do móvel (a gaveta, a porta, o rodapé) oficina (pré-montagem)
Desenho de fabrico (de peça) cada peça isolada, completamente cotada, com furações e orlas secção de corte e maquinação
Pormenor uma zona ampliada (samblagem, ferragem, perfil) oficina, controlo de qualidade
Vista explodida (perspetiva) as peças afastadas ao longo dos eixos de montagem montador, cliente, instruções de montagem

Esta UC centra-se no desenho de conjunto, mas um conjunto bem feito aponta para os outros desenhos: cada número de peça na lista remete para a peça, e cada pormenor tem a sua escala e a sua identificação.

O desenho de conjunto não tem de cotar todas as medidas de todas as peças. Cota as dimensões gerais (fora a fora), as cotas de montagem e as que interessam à função. As medidas completas de cada peça ficam na lista de peças ou nos desenhos de fabrico. Cotar tudo no conjunto enche a folha e cria cotas repetidas, que acabam por se contradizer.

Porque configurar antes de desenhar

Configurar o software de acordo com as especificações técnicas das peças de conjunto é o primeiro critério de desempenho da UC. Um ficheiro mal configurado dá cotas com casas decimais sem sentido, textos ilegíveis na impressão e camadas que ninguém percebe. A configuração faz-se uma vez, guarda-se num modelo (template) e reutiliza-se em todos os projetos.

Parâmetro Configuração para mobiliário Porquê
Unidades milímetros, precisão 0 ou 0,0 as cotas de mobiliário são inteiras ou com uma casa decimal
Ângulos graus decimais, sentido anti-horário convenção comum nos programas de CAD
Escala de trabalho desenhar sempre à escala real (1:1) no espaço de modelo a escala só se aplica na folha, na janela de visualização ou na impressão
Camadas convenção fixa (capítulo 3) cada tipo de linha tem cor, tipo e espessura próprios
Estilos de texto letra normalizada, alturas de 2,5 · 3,5 · 5 · 7 mm na folha impressa legibilidade (ISO 3098)
Estilos de cota setas ou traços oblíquos, texto a 3,5 mm, sem unidade escrita regras de cotagem (capítulo 8)
Formatos de folha A4, A3, A2 com esquadria e legenda ISO 5457 e ISO 7200 (capítulo 13)

Desenha à escala real, imprime à escala. No CAD, uma lateral de 1800 mm desenha-se com 1800 unidades. A redução para 1:10 faz-se na folha (a janela de visualização mostra o modelo a 1:10) ou no momento de imprimir. Quem desenha "já reduzido" perde a cotagem associativa: o CAD passa a medir 180 em vez de 1800.

O software

Há muitos programas de CAD 2D e todos partilham os mesmos conceitos: entidades geométricas, camadas, blocos, cotas, folhas e impressão. Nas escolas e oficinas portuguesas encontras, por exemplo, AutoCAD e AutoCAD LT, DraftSight, BricsCAD, e opções gratuitas como LibreCAD, QCAD ou o módulo de desenho do FreeCAD. Nesta sebenta os conceitos são gerais; quando se nomeia um comando concreto, indica-se de que programa é, porque os nomes mudam de programa para programa e também com a língua da instalação.

Exemplo resolvido: configurar o ficheiro da estante

Especificação recebida: estante de 800 × 1800 × 300 mm, em aglomerado melaminado, a entregar em A3.

  1. Abre-se o modelo da escola (template com legenda, esquadria e estilos já definidos).
  2. Confirmam-se as unidades: milímetros, precisão 0.
  3. Desenha-se tudo à escala 1:1 no espaço de modelo.
  4. Escolhe-se a escala de apresentação: à escala 1:10, a altura de 1800 mm ocupa 1800 ÷ 10 = 180 mm na folha. A área útil de um A3 horizontal é 390 × 277 mm (ISO 5457), por isso a vista de frente cabe com folga para cotas, vista de cima e legenda. A escala 1:10 é normalizada (ISO 5455).
  5. Confirmam-se as camadas do modelo (capítulo 3) e acrescentam-se as que o projeto pede, por exemplo uma camada para as ferragens.
  6. Guarda-se o ficheiro com nome codificado e revisão, por exemplo EST-800-conjunto-revA.

Só depois de configurado é que o desenho das vistas começa.

2. Comandos de CAD 2D

Famílias de comandos

Os programas de CAD 2D organizam os comandos em famílias. Os nomes abaixo, entre parênteses, são os comandos do AutoCAD na versão inglesa (a que se escreve na linha de comandos, e que funciona em qualquer língua da instalação se precedida de um sublinhado, por exemplo _LINE). Noutros programas os nomes podem ser diferentes; o conceito é o mesmo.

Família Conceito No AutoCAD Uso num móvel
Desenho linha, polilinha, retângulo, círculo, arco LINE, PLINE, RECTANG, CIRCLE, ARC contornos de laterais, tampos, furos
Edição mover, copiar, rodar, espelhar MOVE, COPY, ROTATE, MIRROR repetir laterais, espelhar a lateral esquerda
Edição cópia paralela (equidistante) OFFSET espessura das peças, recuo de prateleiras
Edição cortar e prolongar até outra entidade TRIM, EXTEND acertar encontros de peças
Edição concordar e chanfrar cantos FILLET, CHAMFER cantos boleados, chanfros
Edição matriz retangular, polar ou ao longo de um caminho ARRAY furação em série, prateleiras iguais
Anotação tracejado de corte HATCH zonas cortadas
Anotação cotas lineares, alinhadas, de raio, de diâmetro DIMLINEAR, DIMALIGNED, DIMRADIUS, DIMDIAMETER cotagem
Anotação texto e linhas de referência MTEXT, MLEADER notas, números de peça
Anotação tabela TABLE lista de peças
Organização camadas LAYER ver capítulo 3
Organização criar, inserir e editar blocos BLOCK, INSERT, BEDIT, WBLOCK ver capítulo 14
Saída configurar a página e imprimir PAGESETUP, PLOT ver capítulo 16

Precisão: nunca desenhar "a olho"

Um desenho de CAD só é rigoroso se cada ponto for introduzido com precisão. Há três formas de o garantir:

  1. Coordenadas: absolutas (em relação à origem), relativas (em relação ao último ponto) ou polares (distância e ângulo em relação ao último ponto). No AutoCAD, a coordenada relativa escreve-se com @: @762,0 avança 762 mm na horizontal.
  2. Referências a objetos (object snaps): o cursor "agarra" o ponto final, o ponto médio, o centro, a interseção, a perpendicular. No AutoCAD, ativam-se com OSNAP.
  3. Modo ortogonal e rastreio polar: obrigam as linhas a seguir a horizontal, a vertical ou ângulos definidos.

Uma linha que "parece" tocar noutra mas fica a 0,3 mm dela é um erro invisível no ecrã e visível na oficina: a cota associativa mede 761,7 em vez de 762, o tracejado não fecha e a peça sai mal cortada. Usa sempre referências a objetos e confirma com o comando de medir distâncias (no AutoCAD, DIST ou MEASUREGEOM).

Exemplo resolvido: desenhar a vista de frente da estante com precisão

Dados: laterais de 19 mm de espessura e 1800 mm de altura; largura total 800 mm; tampo e base entre as laterais.

  1. Retângulo da lateral esquerda: do ponto 0,0 ao ponto relativo @19,1800.
  2. Lateral direita: copiar a esquerda com um deslocamento de 800 - 19 = 781 mm na horizontal (a face exterior direita fica em x = 800).
  3. Largura interior entre laterais: 800 - 2 × 19 = 762 mm. É o comprimento do tampo e da base.
  4. Base: retângulo de 762 × 19 a partir do canto interior inferior da lateral esquerda (referência a objeto: ponto final), elevado da altura do rodapé se o houver.
  5. Prateleiras: um retângulo de 760 × 19 (2 mm de folga total para entrarem entre as laterais) e depois ARRAY com o espaçamento definido.
  6. Verificação: medir a distância entre as faces exteriores das laterais. Tem de dar exatamente 800.

3. Camadas (layers)

Organizar diferentes camadas no desenho é uma aptidão própria da UC. Uma camada é um "acetato" transparente onde se colocam as entidades do mesmo tipo. Cada camada tem um nome, uma cor, um tipo de linha e uma espessura de linha; as entidades desenhadas nela herdam essas propriedades (no AutoCAD, com a propriedade definida como ByLayer, "da camada").

Para que servem

Uma convenção de camadas para mobiliário

A convenção é da escola ou da empresa; o importante é que seja fixa, escrita e igual em todos os projetos. Um exemplo, com as espessuras do grupo de linhas 0,5 (capítulo 6):

Camada Conteúdo Tipo de linha Espessura (mm)
CONTORNO arestas visíveis contínua 0,5
INVISIVEL arestas ocultas tracejada 0,25
EIXOS eixos de simetria, centros de furos traço-ponto 0,25
CORTE-PLANO traço do plano de corte traço-ponto com extremos grossos 0,25 e 0,5
TRACEJADO hachuras contínua 0,25
COTAS cotas e linhas de chamada contínua 0,25
TEXTO notas, números de peça contínua 0,25
FERRAGENS dobradiças, corrediças, ligadores contínua 0,25 ou 0,5
POSICOES posições extremas (porta aberta, gaveta puxada) traço-dois-pontos 0,25
FOLHA esquadria, legenda, lista de peças contínua 0,5 e 0,25
JANELAS contornos das janelas de visualização contínua não se imprime

Nomes sem acentos nem espaços (INVISIVEL, CORTE-PLANO) evitam problemas quando o ficheiro é aberto noutro programa ou exportado para DXF. A camada JANELAS fica marcada como "não imprimível".

Regras de trabalho com camadas

  1. Muda de camada antes de desenhar, não depois. Corrigir camadas no fim é trabalho dobrado.
  2. As propriedades ficam na camada (ByLayer); não se forçam cores ou espessuras entidade a entidade, salvo exceção justificada.
  3. A camada 0 reserva-se para desenhar o conteúdo dos blocos (capítulo 14).
  4. Antes de entregar, limpa camadas vazias e elementos não usados (no AutoCAD, PURGE).

Exemplo resolvido: onde fica cada entidade da estante

Entidade Camada
contorno das laterais, tampo, base e prateleiras CONTORNO
furação de sistema 32 vista de frente (escondida pela lateral) INVISIVEL
eixos das filas de furos EIXOS
traço do corte A-A CORTE-PLANO
hachura da lateral cortada TRACEJADO
cotas 800, 1800, 300 COTAS
números de peça em balão TEXTO
bloco do suporte de prateleira FERRAGENS

Para imprimir uma versão "de apresentação" para o cliente, desligam-se INVISIVEL, EIXOS e FERRAGENS sem apagar nada.

4. Especificações técnicas de fabrico

Antes de desenhar um conjunto, analisam-se as especificações técnicas das peças: o documento ou pedido que define o que se pretende fabricar. É a primeira realização da UC e a origem de todas as decisões do desenho.

O que traz uma especificação

Grupo Informação Exemplo na estante
Dimensões gerais largura, altura, profundidade, limites de espaço 800 × 1800 × 300 mm
Função e uso cargas, frequência de uso, número de prateleiras livros, 3 prateleiras amovíveis
Ambiente interior, exterior, humidade, exposição solar sala, interior seco
Materiais espécie de madeira ou derivado, espessura, cor aglomerado melaminado branco
Acabamentos tipo, cor, brilho, orlas orla ABS branca nas arestas visíveis
Ligações fixas, desmontáveis, preferência da oficina desmontável para transporte
Ferragens tipo, fabricante preferido, gama suportes de prateleira, ligadores excêntricos
Produção quantidade, máquinas disponíveis, prazos pequena série, furação em série disponível
Normas e requisitos normas de produto, segurança, qualidade exigida fixação à parede recomendada

Especificações de fabrico que o desenho tem de transmitir

Além do que o cliente pede, o desenho de conjunto transmite à oficina especificações de fabrico: informação que diz como a peça é feita, não só o que é.

Da especificação ao desenho

  1. Ler tudo antes de desenhar e sublinhar o que é medida, material, ferragem e requisito.
  2. Cruzar com os catálogos e fichas técnicas dos fornecedores: espessuras comerciais, formatos de placa, furações de ferragens.
  3. Identificar o que falta e perguntar ao cliente, ao chefe de projeto ou à oficina.
  4. Quando é preciso decidir sem resposta, decidir com critério técnico e registar a decisão nas notas do desenho ou no dossiê.
  5. Registar tudo na legenda, nas notas e na lista de peças, para que o desenho seja rastreável até à especificação que o originou.

Erro a evitar: inventar uma dimensão ou uma referência que não consta da especificação nem do catálogo. Quando falta informação, assinala-se "a confirmar" e regista-se a dúvida, em vez de se arbitrar um valor em silêncio.

Exemplo resolvido: analisar a especificação da estante

Pedido do cliente: "Estante branca com 80 cm de largura, 1,80 m de altura e 30 cm de fundo, para livros, com três prateleiras que se possam mudar de altura, desmontável para caber no carro."

Pedido Tradução técnica Estado
80 cm × 1,80 m × 30 cm 800 × 1800 × 300 mm (cotas em mm) confirmado
branca aglomerado melaminado branco, espessura a escolher no catálogo confirmar referência da cor
três prateleiras amovíveis 3 prateleiras sobre suportes, em filas de furos confirmado
desmontável tampo e base ligados às laterais por ligadores excêntricos e cavilhas decisão técnica registada
para livros prateleira com vão de 762 mm; verificar a flecha com o fornecedor ou por ensaio a confirmar
estabilidade costa em placa fina aparafusada e fixação à parede recomendada decisão técnica registada

A estante que sai desta análise tem 2 laterais, tampo, base, 3 prateleiras amovíveis e uma costa. É o conjunto que se desenha nos capítulos seguintes.

5. Vistas e organização da informação

Projeções ortogonais e método europeu

Um conjunto representa-se por vistas ortogonais: projeções do objeto sobre planos perpendiculares entre si, com as linhas de projeção perpendiculares a cada plano. Em Portugal, como na maior parte da Europa, usa-se o método europeu (projeção no 1.º diedro, ISO 5456-2):

O método de projeção indica-se na legenda pelo símbolo do 1.º diedro (um tronco de cone visto de frente e de lado). No método americano (3.º diedro) a posição das vistas é a inversa; um desenho recebido de fora tem de ser lido pelo símbolo, nunca por hábito.

Escolher a vista principal

A vista de frente (alçado principal) é a que mais condiciona a leitura do desenho. Escolhe-se a que:

  1. mostra o móvel na posição de uso (uma estante de pé, uma mesa assente nas pernas);
  2. revela mais forma e mais informação com menos arestas ocultas;
  3. em mobiliário, coincide normalmente com a face que o utilizador vê (portas, frentes de gaveta).

Quantas vistas bastam

O critério de desempenho pede para definir o número de vistas e pormenores necessários. A regra é a do necessário e suficiente:

Pormenores e vistas parciais

Um pormenor assinala-se na vista de origem com um círculo ou contorno fino à volta da zona e uma letra maiúscula; o desenho ampliado leva a mesma letra e a sua escala, por exemplo "B (1:2)" ou "C (2:1)". Em mobiliário, as escalas de pormenor mais usadas são 1:2 e 1:1, e 2:1 para ferragens pequenas. Todas estas escalas são normalizadas (ISO 5455): de redução 1:2, 1:5, 1:10, 1:20, 1:50; de ampliação 2:1, 5:1, 10:1. Escalas como 1:4 ou 1:25 não são normalizadas.

Uma vista parcial mostra só a parte de uma peça que interessa, limitada por uma linha de rutura (contínua fina à mão livre ou em ziguezague). Poupa espaço quando a peça é comprida e uniforme, como uma lateral de 1800 mm com uma furação só nas pontas.

Organização da informação na folha

O referencial pede que se organize a informação em vistas, perspetivas, cortes, linhas invisíveis e cotas. Cada um tem a sua função:

Elemento Função Regra prática
Vistas ortogonais forma e medidas base obrigatória do desenho; são as que se cotam
Perspetiva (isométrica, cavaleira) ou vista explodida ajudar a perceber a montagem apoio visual, geralmente sem cotas, num canto da folha
Cortes e secções mostrar o interior preferir um corte a muitas linhas invisíveis
Linhas invisíveis (tracejadas) arestas ocultas só as que ajudam a ler; omitir as que confundem
Cotas dimensões reais fora das vistas, sempre que possível, sem cruzar linhas

No CAD 2D, a perspetiva isométrica desenha-se com linhas a 30º (ou com o modo isométrico do programa, quando existe). É um desenho 2D com aparência 3D: serve para ler a montagem, não para medir.

Exemplo resolvido: escolher as vistas de uma caixa de gaveta

Caixa de gaveta simples: frente aplicada, duas laterais, traseira e fundo em placa fina encaixado em ranhura.

  1. Vista de frente: mostra a frente aplicada, a largura e a altura. É a vista principal.
  2. Vista de cima: mostra a profundidade, a disposição das laterais e da traseira e a posição das corrediças.
  3. Vista lateral exterior: mostraria só a altura (já na vista de frente) e a profundidade (já na vista de cima), e o que interessa, o fundo encaixado na ranhura, ficaria escondido. Não acrescenta informação: substitui-se por um corte.
  4. Corte A-A longitudinal, pelo meio da gaveta: mostra a ranhura do fundo, a ligação da frente e a da traseira.
  5. Pormenor B (1:1) da ranhura do fundo, para a cotar com rigor.

Resultado: duas vistas, um corte e um pormenor. Cada elemento responde a uma pergunta que os outros não respondem.

Exemplo resolvido: as vistas da estante e o espaço que ocupam

Estante de 800 × 1800 × 300 mm à escala 1:10.

Vista Largura na folha Altura na folha
Frente 800 ÷ 10 = 80 mm 1800 ÷ 10 = 180 mm
Cima (por baixo da frente) 80 mm 300 ÷ 10 = 30 mm
Corte lateral A-A (à direita da frente) 30 mm 180 mm

Altura ocupada: 180 + 30 + cerca de 20 mm entre vistas = 230 mm, mais as cotas. Largura ocupada: 80 + 30 + 20 = 130 mm, mais cotas. Numa área útil de 390 × 277 mm (A3 horizontal) sobra espaço à direita para a legenda, a lista de peças e dois pormenores a 1:2.

6. Traços, linhas e traços de localização

Tipos de linha

Cada linha tem um significado fixo (ISO 128; na tradição portuguesa, NP 62). Os tipos usados em desenho de conjuntos de mobiliário:

Linha Representa
Contínua grossa arestas e contornos visíveis
Contínua fina linhas de cota e de chamada, linhas de referência, hachuras, arestas fictícias
Contínua fina à mão livre ou em ziguezague limites de vistas parciais e de cortes parciais
Tracejada fina arestas e contornos invisíveis
Traço-ponto fina eixos de simetria, eixos de furos, trajetórias
Traço-ponto fina, grossa nas extremidades e nas mudanças de direção planos de corte
Traço-dois-pontos fina peças adjacentes, posições extremas de peças móveis (porta aberta, gaveta puxada)

As espessuras seguem a série da ISO 128: 0,13 · 0,18 · 0,25 · 0,35 · 0,5 · 0,7 · 1 · 1,4 · 2 mm. Num desenho usa-se um grupo em que a linha grossa tem o dobro da fina (0,5 e 0,25, ou 0,7 e 0,35).

Traços de localização

Os traços de localização são as linhas que situam elementos sem fazerem parte da forma do objeto. São a "grelha" invisível que permite montar e cotar:

Exemplo resolvido: localizar a furação de um furo de cavilha

Um furo de cavilha de Ø 8 mm fica no topo de uma lateral de 19 mm, a meio da espessura, a 32 mm da aresta da frente.

  1. Traça-se o eixo do furo a meio da espessura: 19 ÷ 2 = 9,5 mm de cada face.
  2. Traça-se o eixo perpendicular a 32 mm da aresta da frente.
  3. O cruzamento dos dois eixos (em traço) é o centro do furo.
  4. As cotas partem dos eixos, não do contorno do círculo: cota 32 da aresta ao eixo, e a posição a meio da espessura fica dada pelo eixo de simetria (ou pela cota 9,5).
  5. O diâmetro cota-se com Ø 8 e uma linha de referência.

Ordem de prioridade

Quando duas linhas coincidem, desenha-se só a mais importante: 1) arestas visíveis; 2) arestas invisíveis; 3) planos de corte; 4) eixos; 5) linhas de chamada e de cota.

7. Cortes e secções em conjuntos

Um corte mostra o interior de uma peça ou conjunto como se tivesse sido seccionado por um plano imaginário e se tivesse retirado a parte entre o observador e o plano: vê-se a superfície cortada e o que está para lá dela. Uma secção mostra a superfície cortada, sem o que está para trás.

Tipos de corte

Tipo Como é Quando se usa em mobiliário
Corte total o plano atravessa todo o conjunto corte vertical de uma estante ou de um armário
Meio-corte metade em vista exterior, metade em corte, separadas pelo eixo de simetria peças e conjuntos simétricos
Corte parcial só uma zona em corte, limitada por linha de rutura mostrar um furo, uma cavilha, uma ranhura sem cortar tudo
Corte por planos paralelos (em degrau) o plano muda de posição para passar por vários elementos apanhar num só corte uma ranhura e um furo desalinhados
Corte por planos concorrentes dois planos que se cruzam, sendo um rodado para o plano do outro peças com elementos dispostos em ângulo

Secções

Identificar o corte

  1. O plano de corte desenha-se na vista de origem com linha traço-ponto fina, grossa nas extremidades e nas mudanças de direção.
  2. Setas nas extremidades indicam o sentido de observação.
  3. Letras maiúsculas junto às setas identificam o corte (A, B, C...).
  4. A vista cortada leva o título correspondente, por exemplo "A-A".

Hachuras em desenhos de conjunto

Nas zonas cortadas, a superfície aparece tracejada (hachurada): linhas finas paralelas, em regra a 45º. Num conjunto há regras próprias, porque várias peças são cortadas lado a lado:

O que não se corta longitudinalmente

Por convenção (ISO 128), há elementos que não se cortam no sentido do comprimento, mesmo quando o plano de corte passa pelo seu eixo: desenham-se inteiros, em vista. Hachurá-los não acrescenta informação, porque são maciços e não têm interior a mostrar:

Se o plano os cortar transversalmente (perpendicular ao eixo), aparecem como um círculo e hachuram-se normalmente.

Erro a evitar: hachurar uma cavilha cortada ao comprimento, ou, ao contrário, deixar sem hachura uma lateral de aglomerado cortada. A regra aplica-se aos elementos maciços de ligação, não às peças do móvel.

Tipologia de peças e a representação que pedem

A tipologia da peça determina que vistas, cortes e secções fazem sentido:

Tipo de peça Exemplos Representação adequada
Placas planas laterais, tampos, prateleiras, costas vista de frente e espessura numa segunda vista ou na lista de peças
Peças com furação laterais com sistema 32, portas com copa de dobradiça vista com eixos de furos e um corte parcial para a profundidade
Peças com encaixe fundo de gaveta em ranhura, respigas, meias-madeiras corte ou pormenor ampliado da zona do encaixe
Peças simétricas frentes, tampos com molduras iguais meio-corte, eixo de simetria, meia vista
Peças de perfil molduras, rodapés, orlas maciças, puxadores secção rebatida ou deslocada
Peças de revolução pés torneados, puxadores redondos uma vista com eixo; um meio-corte se forem ocas
Elementos normalizados parafusos, cavilhas, ferragens representação simplificada ou bloco; não se cortam ao comprimento

Exemplo resolvido: o corte A-A da estante

O plano A-A é vertical, perpendicular à frente, e passa a meio da largura da estante. As setas apontam para a direita: retira-se a metade esquerda e observa-se da esquerda para a direita, como numa vista lateral esquerda.

  1. Cortam-se: o tampo, a base, as três prateleiras e a costa. Cada uma leva a sua hachura; tampo e prateleira vizinhos têm sentidos opostos.
  2. A costa de 3 mm, à escala 1:10, fica com 0,3 mm na folha: enegrece-se.
  3. Veem-se, para lá do plano, a face interior da lateral direita (em vista, sem hachura) e a sua furação de sistema 32, desenhada com eixos.
  4. Os suportes de prateleira e os parafusos da costa que o plano apanhe ao comprimento desenham-se inteiros, sem hachura.
  5. Na vista de frente, o traço do plano leva as letras A e as setas; o corte leva o título A-A e, no método europeu, fica à direita da vista de frente (onde ficaria a vista lateral esquerda), alinhado com ela.

8. Cotagem de conjuntos

A cotagem é um dos critérios de desempenho mais avaliados da UC: "executando a cotagem dos desenhos, garantindo que é efetuada com rigor". A norma de referência é a ISO 129-1 (na tradição portuguesa, NP 297).

A cota é sempre a medida real da peça, seja qual for a escala. A lateral de 1800 mm, desenhada a 1:10, ocupa 180 mm na folha, mas a cota escrita é 1800. As cotas escrevem-se em milímetros, sem unidade; a legenda diz uma vez "Cotas em mm". Em CAD, desenhando à escala 1:1, a cota associativa mede automaticamente o valor real.

Elementos de uma cota

Regras gerais

  1. Cada medida necessária cota-se uma única vez, na vista onde é mais clara.
  2. Não se cota sobre arestas invisíveis quando existe uma vista ou corte em que a aresta é visível.
  3. As linhas de cota não coincidem com eixos, arestas ou outras linhas, nem são prolongamentos delas.
  4. As cotas menores ficam mais perto da peça e as maiores mais afastadas, para que as linhas de chamada não cruzem linhas de cota.
  5. As cotas ficam fora das vistas, sempre que possível, e agrupadas na vista que melhor mostra o elemento.
  6. Não se fecham cadeias: se estão cotadas todas as parcelas, a total é redundante; se interessar como informação, escreve-se entre parênteses (cota auxiliar).
  7. Furos e elementos circulares cotam-se a partir dos eixos.

Modos de dispor as cotas

Modo Como é Quando usar
Em série cotas seguidas umas às outras distâncias entre elementos vizinhos
Em paralelo todas a partir da mesma referência quando os erros não se devem somar
Cumulativa (sobreposta) uma só linha a partir de uma origem, com valores acumulados furação em série, posições de prateleiras
Por coordenadas tabela de X e Y a partir de uma origem muitos furos, programação de máquinas CNC

Em mobiliário, cotar a partir de uma referência (a aresta de trás de uma lateral, a face inferior, a aresta da frente) é muito usado, porque é assim que as máquinas de furar em série e os centros de maquinação trabalham.

O que se cota num conjunto

Tipo de cota Exemplos na estante
Dimensões gerais (fora a fora) largura 800, altura 1800, profundidade 300
Cotas de montagem vão interior 762, posição do tampo e da base
Cotas funcionais zona de furação das prateleiras, recuo das prateleiras em relação à frente
Cotas de pormenor posição e diâmetro das cavilhas e dos ligadores, no pormenor ampliado

As medidas completas de cada peça (comprimento, largura, espessura) ficam na lista de peças; não se repetem no desenho de conjunto.

A cotagem em CAD

Exemplo resolvido: cotar a furação de sistema 32 da lateral

As prateleiras amovíveis apoiam em suportes metidos em furos de Ø 5 mm, em duas filas verticais. A convenção muito usada na indústria (o chamado sistema 32) põe os furos com passo de 32 mm e a primeira fila a 37 mm da aresta da frente. Confirma sempre estes valores no catálogo do suporte escolhido.

  1. Filas: uma a 37 mm da aresta da frente, outra a 37 mm da aresta de trás. Distância entre filas: 300 - 2 × 37 = 226 mm.
  2. Zona de furação: primeiro furo a 320 mm da face inferior da lateral; 37 furos por fila.
  3. Último furo: 320 + (37 - 1) × 32 = 320 + 36 × 32 = 320 + 1152 = 1472 mm.
  4. Verificação: o tampo ocupa de 1781 a 1800 mm (1800 - 19 = 1781), por isso o último furo fica 1781 - 1472 = 309 mm abaixo do tampo. Não há conflito.
  5. Cotagem: em vez de 37 cotas, escreve-se uma cota de posição 320 a partir da face inferior, uma cota 36 × 32 (= 1152) entre o primeiro e o último furo e a nota 37 × Ø 5 para cada fila. As filas cotam-se com 37 a partir de cada aresta.
  6. Contagem para a lista de peças e para a oficina: 37 furos × 2 filas × 2 laterais = 148 furos.

Exemplo resolvido: organizar as cotas da vista de frente

  1. Linha mais próxima da vista (lado direito): posições da base e do tampo.
  2. Linha seguinte: a zona de furação (320 e 1152).
  3. Linha mais afastada: a altura total 1800.
  4. Em baixo, por baixo da vista de cima: vão interior 762 mais perto e largura total 800 mais longe.
  5. Profundidade 300: cota-se uma só vez, na vista de cima ou no corte A-A, não nos dois.

Nenhuma medida aparece duas vezes, nenhuma linha de chamada cruza uma linha de cota, e todas as cotas ficam fora das vistas.

9. Materiais: caracterização e quantificação

Madeira maciça

A madeira é um material anisotrópico: as suas propriedades mudam com a direção. Há três direções a considerar:

Consequências para o desenho:

Derivados de madeira

Material Constituição Uso típico no móvel
Contraplacado folhas de madeira coladas com o fio cruzado, em número ímpar costas, fundos, peças curvas, prateleiras resistentes
Aglomerado de partículas partículas de madeira coladas por prensagem corpos de móveis, quase sempre revestido (melamina, folha)
MDF fibras de madeira coladas, de densidade média frentes lacadas, peças fresadas, molduras
HDF fibras, de alta densidade, em placas finas costas e fundos de gaveta
OSB partículas longas orientadas, em camadas estruturas e interiores; pouco usado em faces visíveis
Lamelado colado / painel de lamelas réguas de madeira maciça coladas lado a lado tampos, prateleiras maciças

Revestimentos e orlas. O aglomerado e o MDF revestem-se com papel melamínico (o "melaminado"), folha de madeira natural ou laminado de alta pressão. As arestas cortadas levam orla (ABS, PVC, melamina, folha de madeira ou maciça).

Espessuras. Em aglomerado e MDF, as espessuras comerciais mais frequentes nos catálogos dos fabricantes que abastecem Portugal são 16 e 19 mm, mas há muitas outras (e o 18 mm é comum noutros mercados). As placas finas de HDF para costas e fundos rondam os 3 mm. Confirma sempre no catálogo do fornecedor: é a ficha técnica que manda.

Caracterizar

Caracterizar um material é descrevê-lo com precisão suficiente para que a oficina e o fornecedor não tenham dúvidas:

Dado Exemplo
Tipo aglomerado de partículas
Revestimento e cor melamina branca, referência do fabricante
Espessura 19 mm
Sentido do fio ou do padrão ao comprimento (quando o padrão tem direção, como um padrão imitação de madeira)
Orlas ABS branca nas arestas visíveis
Classe ou requisito especial por exemplo, resistência à humidade, se a especificação o pedir

Para madeira maciça: espécie, qualidade (sem nós, com nós sãos), teor de água, sentido do fio e dimensões brutas e acabadas.

Quantificar

Quantificar é calcular quanto material o conjunto consome, para orçamento, encomenda e plano de corte. Cada tipo de material tem a sua unidade:

Material Unidade Como se calcula
Madeira maciça comprimento × largura × espessura, em metros
Painéis (aglomerado, MDF, contraplacado) m² (por espessura) comprimento × largura, em metros
Orlas, molduras, perfis metro linear (m) soma dos comprimentos
Ferragens, parafusos, cavilhas unidades (un.) contagem
Colas, vernizes, lacas kg ou L consumo por m², pela ficha técnica

Conversões que não podem falhar: mm ÷ 1000 = m; 1 m² = 1 000 000 mm²; 1 m³ = 1000 dm³ = 1 000 000 000 mm³.

O desperdício (serradura, aparas, defeitos, sobras de placa) acrescenta-se como percentagem explícita, escrita na tabela, e não escondida nas medidas. O valor depende do material, do plano de corte e da oficina; num exercício usa-se o valor dado pelo professor ou pela empresa.

Exemplo resolvido: painéis da estante

Aglomerado melaminado branco 19 mm. Medidas acabadas de cada peça (comprimento × largura):

Peça Qtd. Medidas (mm) Área unitária (m²) Área total (m²)
Lateral 2 1800 × 300 1,8 × 0,3 = 0,540 1,080
Tampo 1 762 × 300 0,762 × 0,3 = 0,2286 0,2286
Base 1 762 × 300 0,2286 0,2286
Prateleira 3 760 × 280 0,76 × 0,28 = 0,2128 0,6384
Total líquido 2,1756

Com um desperdício de 15 % (valor dado pela oficina): 2,1756 × 1,15 = 2,502 m², cerca de 2,50 m² de aglomerado melaminado 19 mm a encomendar.

A costa, em HDF de 3 mm com 1796 × 796 mm, conta à parte: 1,796 × 0,796 = 1,430 m².

Exemplo resolvido: orla das arestas visíveis

Levam orla as arestas da frente de todas as peças e as arestas de cima das laterais (ficam à vista, porque o tampo entra entre as laterais):

Total: 3600 + 600 + 1524 + 2280 = 8004 mm = 8,00 m. Com 10 % para os topos cortados e as perdas da máquina: 8,004 × 1,10 = 8,80 m de orla.

Exemplo resolvido: madeira maciça de uma mesa de apoio

Quatro pernas de carvalho, acabadas a 45 × 45 × 720 mm, tiradas de peças brutas de 50 × 50 × 750 mm (sobremedida para desempenar, desengrossar e topejar).

  1. Volume acabado de uma perna: 0,045 × 0,045 × 0,720 = 0,001458 m³. Quatro pernas: 0,005832 m³ (5,832 dm³).
  2. Volume bruto de uma perna: 0,050 × 0,050 × 0,750 = 0,001875 m³. Quatro pernas: 0,0075 m³ (7,5 dm³).
  3. Aproveitamento: 0,005832 ÷ 0,0075 = 0,778, ou seja 77,8 %; a perda por sobremedida é de 22,2 %.
  4. Encomenda-se o volume bruto, e ainda com a margem de defeitos que a oficina indicar.

Peso

A tabela de peças pode incluir o peso, útil para transporte, embalagem e manuseamento. Calcula-se com a massa volúmica (densidade) indicada na ficha técnica do material:

massa (kg) = volume (m³) × massa volúmica (kg/m³)

Exemplo resolvido: peso dos painéis da estante

Suponha-se que a ficha técnica do aglomerado indica 650 kg/m³ (valor usado aqui só para o exercício; usa sempre o da ficha do fornecedor).

  1. Volume total: área líquida × espessura = 2,1756 × 0,019 = 0,04134 m³.
  2. Massa: 0,04134 × 650 = 26,9 kg.
  3. Por peça: lateral 0,540 × 0,019 × 650 = 6,7 kg; tampo ou base 0,2286 × 0,019 × 650 = 2,8 kg; prateleira 0,2128 × 0,019 × 650 = 2,6 kg.
  4. Verificação: 2 × 6,7 + 2 × 2,8 + 3 × 2,6 = 13,4 + 5,6 + 7,8 = 26,8 kg, igual ao total com o arredondamento.

Para o cálculo usa-se a área líquida (o que fica no móvel); o desperdício não pesa na estante.

10. Samblagens

Samblagem é a ligação entre duas ou mais peças de madeira ou derivados. A escolha depende do material, da função, dos esforços e de o móvel ter de ser desmontável ou não.

Samblagens tradicionais (madeira maciça)

Samblagem Como é Uso típico
Furo e respiga a respiga (espiga talhada no topo de uma peça) entra num furo (também chamado caixa) aberto na outra ligação de pernas e travessas, caixilhos, portas de almofada
Malhete (rabo de andorinha) dentes em forma de cauda de andorinha que travam a peça num sentido cantos de gavetas em maciço, caixas
Meia-madeira cada peça é rebaixada a metade da espessura e sobrepõem-se cruzamentos de travessas, aros
Ranhura e lingueta (macho e fêmea) uma peça tem ranhura, a outra lingueta painéis, lambris, fundos
Encaixe em ranhura a peça entra numa ranhura sem lingueta própria fundos de gaveta, costas encaixadas

Atenção aos nomes. Malhete é a samblagem em cauda de andorinha; respiga é a espiga que entra num furo. "Malhete e respiga" não é uma samblagem: a expressão certa é furo e respiga. Estas samblagens pedem madeira maciça; em aglomerado, o material desfaz-se e não segura os dentes nem a respiga.

Samblagens com elementos de ligação (painéis e produção em série)

Ligação Como é Desmontável?
Cavilhas cilindros de madeira (por exemplo Ø 8 × 35 mm) colados em furos das duas peças não (coladas)
Lamelas (espigas planas) pastilhas ovais de madeira prensada, coladas em rasgos não
Parafusos de montagem para aglomerado (tipo «confirmat») parafuso de rosca larga em furo escalonado sim, poucas vezes
Ligadores excêntricos um excêntrico metido num furo de uma peça prende a cabeça de um perno aparafusado na outra sim, várias vezes
Cantoneiras e ligadores de superfície peças metálicas ou plásticas aparafusadas no interior sim

Os ligadores excêntricos são o padrão do mobiliário desmontável: o perno aparafusa-se numa peça, entra num furo da outra e é apertado pelo excêntrico ao rodar. Combinam-se quase sempre com cavilhas, que alinham as peças e aguentam o esforço de corte, enquanto o excêntrico só aperta.

Representar a samblagem no conjunto

No desenho de conjunto, a samblagem tem de ficar visível, cotada e identificada, não só implícita numa nota:

  1. Pormenor ampliado, normalmente a 1:2 ou 1:1, identificado com letra na vista de origem.
  2. Corte pela zona da samblagem, quando é preciso mostrar a profundidade dos furos, da respiga ou da ranhura.
  3. Cotas de posição (a partir de uma aresta de referência), diâmetros e profundidades.
  4. Nota com o tipo de samblagem e a referência dos elementos de ligação (que também entram na lista de peças).
  5. Em CAD, os elementos de ligação repetidos (cavilhas, ligadores) inserem-se como blocos (capítulo 14).

Exemplo resolvido: ligação do tampo às laterais da estante

Decisão (desmontável): em cada encontro tampo-lateral, 2 ligadores excêntricos e 2 cavilhas de Ø 8 × 35 mm.

  1. Posições ao longo da profundidade (300 mm): cavilhas a 32 mm de cada aresta; ligadores a 64 mm de cada aresta. As posições são uma decisão do desenhador, compatível com o catálogo e com o passo de 32 mm.
  2. Pormenor C (1:2): corte pelo encontro, mostrando o furo do excêntrico no tampo, o perno na lateral e a cavilha. Diâmetros e distâncias do furo do excêntrico tirados do catálogo do ligador escolhido.
  3. Contagem: 4 encontros (tampo e base, cada um com 2 laterais) × 2 = 8 ligadores e 8 cavilhas.
  4. Na lista de peças: ligador excêntrico, 8 un., referência do fabricante; cavilha de faia Ø 8 × 35, 8 un.
  5. No corte, os pernos e as cavilhas atravessados ao comprimento desenham-se inteiros, sem hachura.

11. Ferragens

As ferragens são os componentes, geralmente metálicos ou plásticos, que dão função, movimento e ligação ao conjunto. Não se desenham "a olho": as medidas e furações vêm do catálogo e da ficha técnica do fabricante.

Ferragem Função O que o desenho tem de mostrar
Dobradiças (de copa, de piano, de pivot) articular portas posição e diâmetro da copa (Ø 35 mm nas dobradiças de copa correntes), distância ao bordo segundo o catálogo, número de dobradiças
Corrediças (de rolete, de esferas, ocultas) deslizar gavetas comprimento, folga lateral exigida pelo fabricante, furação de fixação
Suportes de prateleira apoiar prateleiras amovíveis diâmetro e posição dos furos (sistema 32)
Ligadores unir painéis de forma desmontável furações nas duas peças (capítulo 10)
Puxadores abrir portas e gavetas entre-eixos dos furos de fixação, posição na frente
Pés niveladores, rodízios apoiar e nivelar o móvel posição, altura regulável
Fixações à parede impedir o tombamento posição e tipo, com nota de segurança

Representação no desenho

Antes de fixar uma ferragem no desenho, verifica a compatibilidade: espessura mínima da porta para a copa, folga lateral que a corrediça exige, carga admissível do suporte de prateleira. Uma ferragem incompatível só se descobre na montagem, com a peça já furada.

Exemplo resolvido: suportes de prateleira e puxador

  1. Suportes de prateleira: 4 por prateleira (dois em cada lateral) × 3 prateleiras = 12 suportes. Inserem-se como bloco na camada FERRAGENS, nas posições da furação de sistema 32 (capítulo 8).
  2. Puxador de um armário com portas: entre-eixos de 128 mm (medida de catálogo, múltiplo de 32). Numa porta de 396 mm de largura, com o puxador centrado na largura, os furos ficam a (396 - 128) ÷ 2 = 134 mm de cada aresta vertical. Cota-se o entre-eixos 128 e a posição 134 a partir de uma aresta.
  3. Porta de 700 mm de altura com dobradiças de copa: o número de dobradiças e as distâncias às arestas tiram-se da tabela do fabricante (depende da altura e do peso da porta). No desenho cotam-se o Ø 35 da copa e a sua posição, e a referência entra na lista de peças.

12. Simbologia de acabamentos

O desenho de conjunto tem de dizer que acabamento leva cada face e cada aresta. Sem essa informação, a oficina decide por omissão, e cada oficina decide de maneira diferente.

Duas tradições

Como indicar o acabamento num conjunto de mobiliário

  1. Nota geral na área de texto, para o acabamento que se aplica à maior parte do móvel. Exemplo: "Acabamento geral: melamina branca; orla ABS branca nas arestas visíveis."
  2. Códigos de acabamento quando há mais de um: define-se uma pequena tabela (A1, A2, A3...) e cada face ou peça remete para o código, por nota com linha de referência ou por coluna na lista de peças.
  3. Orlas: indicam-se por aresta. Muitas empresas usam uma marca convencional ao longo da aresta orlada (um traço grosso paralelo, um pequeno triângulo, uma letra); a convenção, seja qual for, tem de estar explicada na folha.
  4. Faces interiores e ocultas: também se especificam, mesmo que o acabamento seja mais simples ("interior: em cru" ou "interior: verniz, uma demão").
Código Especificação de acabamento (exemplo)
A1 melamina branca, referência do fabricante, faces à vista
A2 verniz aquoso incolor, acetinado, lixagem final grão 240, duas demãos
A3 laca poliuretânica branca, mate, sobre primário
O1 orla ABS branca, espessura conforme catálogo, arestas indicadas

Os códigos são da empresa ou da escola; o que importa é que a tabela esteja na folha e seja usada de forma constante.

A especificação completa de um acabamento em madeira ou MDF costuma incluir: tipo de produto (óleo, cera, verniz aquoso, verniz poliuretânico, laca), cor, brilho (mate, acetinado, brilhante), preparação (grão da última lixagem, primário, betume) e número de demãos. Os valores concretos vêm da ficha técnica do produto de acabamento.

Exemplo resolvido: acabamentos da estante

Erro a evitar: esquecer o acabamento das faces interiores de uma gaveta ou armário. Sem indicação, a oficina assume o que é costume na casa, que pode não ser o que o cliente pediu.

13. Organização da folha: desenho, legenda e texto

Organizar a folha é uma realização central da UC: "organizando os espaços para o desenho, legenda e texto".

Formatos e esquadria

Os formatos são os da série A (ISO 216): A4 210 × 297, A3 297 × 420, A2 420 × 594, A1 594 × 841, A0 841 × 1189 mm. A esquadria (ISO 5457) delimita a área útil: 20 mm de margem do lado esquerdo (arquivo) e 10 mm nos restantes lados.

Formato Área útil dentro da esquadria (mm)
A4 vertical 180 × 277
A3 horizontal 390 × 277
A2 horizontal 564 × 400

As zonas da folha

Zona Conteúdo Posição
Área de desenho vistas, cortes, pormenores, perspetiva a maior parte da folha, com espaço entre vistas para as cotas
Legenda (cartucho) identificação do desenho canto inferior direito, encostada à esquadria
Lista de peças tabela de peças e materiais por cima da legenda, com a mesma largura, ou numa folha própria
Área de texto notas gerais, acabamentos, tolerâncias gerais junto da legenda ou por cima da lista de peças

A disposição segue uma hierarquia de leitura: primeiro a vista principal e as vistas que dela dependem (alinhadas pelo método europeu), depois os cortes, depois os pormenores, com a perspetiva num canto livre.

A legenda

A legenda segue a ISO 7200 (na tradição portuguesa, NP 204). A largura máxima da legenda é de 180 mm, a mesma da área útil de um A4 vertical. Campos habituais:

Campo Exemplo
Título Estante modular 800 · conjunto
Número do desenho EST-800-001
Escala principal 1:10 (os pormenores levam a sua junto a cada um)
Método de projeção símbolo do 1.º diedro
Unidade Cotas em mm
Desenhou / verificou / aprovou nomes e datas
Revisão A, B, C...
Folha 1/1
Entidade escola ou empresa

Espaço de modelo e espaço de papel

Os programas de CAD separam dois espaços:

Esta separação é a forma mais limpa de ter várias escalas na mesma folha e de imprimir a folha a 1:1 sem contas. No AutoCAD, as folhas chamam-se layouts e as janelas criam-se com MVIEW (ou VPORTS); a escala de cada janela fixa-se nas suas propriedades e bloqueia-se para não mudar por engano.

Exemplo resolvido: montar a folha A3 da estante

  1. Folha A3 horizontal, esquadria a 20/10/10/10 mm: área útil 390 × 277 mm.
  2. Legenda no canto inferior direito, com 180 mm de largura.
  3. Lista de peças por cima da legenda, com a mesma largura de 180 mm. Sobram 390 - 180 = 210 mm de largura à esquerda para o desenho.
  4. Janela 1:10 com vista de frente (80 × 180 mm), vista de cima (80 × 30 mm) por baixo e corte A-A (30 × 180 mm) à direita da frente: ocupa cerca de 130 × 230 mm com os intervalos, a que se somam as cotas. Cabe nos 210 mm disponíveis.
  5. Janelas 1:2 para os pormenores C (ligação do tampo) e D (suporte de prateleira), por cima da lista de peças.
  6. Notas gerais (acabamentos, "Cotas em mm", tolerâncias gerais) num bloco de texto junto dos pormenores.

Texto

14. Blocos e bibliotecas

O que é um bloco

Um bloco é um conjunto de entidades agrupadas e guardadas com um nome, como uma unidade reutilizável. Insere-se quantas vezes for preciso, com posição, escala e rotação próprias, mas a definição existe uma só vez no ficheiro.

Vantagens:

Criar um bloco bem feito

  1. Desenha o conteúdo na camada 0 (no AutoCAD, as entidades na camada 0 de um bloco assumem a camada onde o bloco é inserido) ou com propriedades ByBlock, para que o bloco herde a camada FERRAGENS ao ser inserido.
  2. Desenha-o à escala real (1:1) e, para símbolos que devem ter sempre o mesmo tamanho no papel, num tamanho unitário.
  3. Escolhe um ponto de inserção útil: o centro do furo de fixação, o eixo da ferragem, o canto de referência.
  4. Dá-lhe um nome claro e codificado (ver bibliotecas).
  5. Acrescenta atributos quando cada inserção precisa de dados próprios.

No AutoCAD: BLOCK cria o bloco dentro do ficheiro; WBLOCK grava-o como ficheiro próprio; INSERT insere; BEDIT abre o editor de blocos; ATTDEF define atributos; ATTSYNC atualiza os atributos das inserções depois de mudar a definição.

Atributos

Um atributo é um campo de texto associado ao bloco, preenchido em cada inserção: número de peça, referência do fabricante, material, quantidade. Os atributos podem ser visíveis (aparecem na folha, como o número dentro de um balão) ou invisíveis (só servem para extrair dados, como a referência do fabricante).

Exemplo resolvido: bloco "balão" com atributo

  1. Na camada 0, desenha-se um círculo de Ø 10 mm (tamanho no papel) e define-se um atributo N_PECA, centrado no círculo, altura 5 mm.
  2. Cria-se o bloco SIMB-BALAO com ponto de inserção no centro do círculo.
  3. Em cada peça do conjunto insere-se o bloco e escreve-se o número (1, 2, 3...). A linha de referência desenha-se à parte ou, no AutoCAD, usa-se um estilo de linha de referência múltipla (MLEADER) com o bloco como conteúdo.
  4. Se a escola mudar o diâmetro do balão, redefine-se o bloco e todos os balões mudam.

Exemplo resolvido: bloco do suporte de prateleira

  1. Desenha-se a representação simplificada do suporte, com o ponto de inserção no centro do furo de Ø 5.
  2. Atributos invisíveis: REF (referência do fabricante) e DESIGNACAO.
  3. Nome: FER-SUP-PRAT-05.
  4. Insere-se em 12 posições da furação de sistema 32, na camada FERRAGENS, usando referências a objetos (centro do furo).
  5. Contagem: o CAD indica 12 inserções, que confere com 4 suportes × 3 prateleiras.

Blocos dinâmicos e paramétricos

Alguns programas permitem blocos que mudam de forma sem deixarem de ser o mesmo bloco: uma corrediça com vários comprimentos, uma porta que se desenha aberta ou fechada. No AutoCAD chamam-se blocos dinâmicos e definem-se no editor de blocos com parâmetros e ações. Poupam bibliotecas enormes com uma variante por medida.

Bibliotecas

Uma biblioteca é uma coleção organizada de blocos, partilhada entre projetos e entre a equipa.

Família Exemplos de blocos Prefixo de nome
Ferragens dobradiças, corrediças, suportes, ligadores, puxadores FER-
Elementos de ligação cavilhas, parafusos, lamelas LIG-
Símbolos balão, método de projeção, marca de orla, seta de fio, indicação de corte SIMB-
Folhas esquadrias e legendas A4, A3, A2 FOLHA-
Pormenores-tipo encaixe de fundo em ranhura, ligação por excêntrico DET-

Regras de uma boa biblioteca:

  1. Local único e partilhado (uma pasta na rede ou na nuvem da equipa), com cópia de segurança; não uma cópia diferente em cada computador.
  2. Nomes codificados e consistentes: família, tipo, medida (FER-DOB-COPA35, LIG-CAV-08x35).
  3. Uma ficha por bloco: fabricante, referência, data, quem criou.
  4. Controlo de versões: quando um bloco muda, a versão antiga não se apaga sem verificar os projetos que a usam.
  5. Acesso rápido: no AutoCAD, pelas paletas de ferramentas (TOOLPALETTES), pelo DesignCenter (ADCENTER) ou pela paleta de blocos; noutros programas, pelos respetivos gestores de bibliotecas.

Muitos fabricantes de ferragens disponibilizam ficheiros CAD dos seus produtos. São um bom ponto de partida, mas convém simplificá-los para o desenho de conjunto (um bloco com milhares de entidades torna o ficheiro lento) e confirmar as medidas com a ficha técnica.

15. Numeração das peças e lista de peças

Numerar as peças no conjunto

Cada peça diferente do conjunto recebe um número (a referência de peça, ISO 6433), que aparece no desenho e na lista de peças:

A lista de peças

A lista de peças (ISO 7573; na tradição portuguesa, NP 205) é a tabela que acompanha o desenho de conjunto. Fica por cima da legenda, com a mesma largura, e preenche-se de baixo para cima (a linha dos títulos das colunas encosta à legenda), ou numa folha separada quando é longa.

Coluna Conteúdo
N.º (item) o número do balão
Designação nome da peça: lateral, tampo, prateleira, ligador excêntrico
Qtd. quantas peças iguais
Material material e espessura, ou "ferragem"
Dimensões comprimento × largura × espessura (acabadas), ou medida comercial
Referência / norma referência do fabricante, norma do elemento normalizado, número do desenho de fabrico
Peso (quando útil) massa unitária ou total
Observações sentido do fio, orlas, acabamento (códigos do capítulo 12)

Exemplo resolvido: lista de peças da estante

N.º Designação Qtd. Material Dimensões (mm) Referência Observações
10 Parafuso da costa 16 aço 3,5 × 16 fabricante cabeça de embeber
9 Suporte de prateleira 12 metálico para furo Ø 5 fabricante bloco FER-SUP-PRAT-05
8 Cavilha 8 faia Ø 8 × 35 ranhurada
7 Ligador excêntrico (conjunto excêntrico e perno) 8 metálico catálogo fabricante
6 Costa 1 HDF 3 mm 1796 × 796 face à vista branca, interior em cru
5 Prateleira 3 aglomerado melaminado 19 mm 760 × 280 A1; orla O1 na frente
4 Base 1 aglomerado melaminado 19 mm 762 × 300 A1; orla O1 na frente
3 Tampo 1 aglomerado melaminado 19 mm 762 × 300 A1; orla O1 na frente
2 Lateral direita 1 aglomerado melaminado 19 mm 1800 × 300 furação espelhada da peça 1
1 Lateral esquerda 1 aglomerado melaminado 19 mm 1800 × 300 A1; orla O1 na frente e no topo
N.º Designação Qtd. Material Dimensões (mm) Referência Observações

Repara em três decisões:

A tabela em CAD

16. Configurar e imprimir os desenhos

Configurar e imprimir é uma realização e uma aptidão próprias da UC. Um desenho perfeito no ecrã que sai cortado, à escala errada ou com todas as linhas da mesma espessura não cumpriu o seu papel.

O que se configura

Parâmetro Escolha Verificação
Dispositivo impressora, plotter ou impressora virtual de PDF o formato pretendido existe no dispositivo
Formato de papel A4, A3, A2... igual ao da folha desenhada orientação vertical ou horizontal certa
Área a imprimir a folha (layout), ou uma janela/limites definidos a esquadria fica toda dentro da área imprimível
Escala de impressão 1:1 quando se imprime uma folha de papel com janelas à escala; a escala do desenho quando se imprime diretamente do modelo medir uma cota conhecida no papel
Espessuras de linha pela camada, através de uma tabela de estilos de impressão contornos grossos, cotas e eixos finos
Cor preto (monocromático) para desenho técnico, salvo exceção as cores das camadas não saem em cinzento claro ilegível
Centragem e margens segundo a área imprimível do dispositivo nada cortado junto aos bordos

No AutoCAD, a configuração guarda-se com PAGESETUP (configuração de página associada a cada folha) e imprime-se com PLOT; as espessuras controlam-se pelas propriedades das camadas e pelas tabelas de estilos de impressão (ficheiros .ctb, por cor, ou .stb, por estilo). Outros programas têm opções equivalentes com outros nomes.

Imprimir do espaço de papel ou do modelo

PDF

O PDF é hoje o formato normal de entrega e de arquivo. Deve ser vetorial (não uma imagem), com as espessuras de linha corretas e o formato de página igual ao da folha. O nome do ficheiro segue a codificação do projeto e inclui a revisão (EST-800-001-revA.pdf).

Exemplo resolvido: verificar a escala depois de imprimir

A estante foi impressa em A3 com a janela a 1:10.

  1. Mede-se no papel, com régua, a altura da vista de frente: deve dar 1800 ÷ 10 = 180 mm.
  2. Se der 173 mm, a impressão foi ajustada à página e não está à escala: 173 ÷ 180 = 0,961, cerca de 96 %. Corrige-se escolhendo escala 1:1 para a folha, sem "ajustar à página".
  3. Mede-se um pormenor a 1:2: um furo de Ø 8 mm deve medir 4 mm no papel (8 ÷ 2).
  4. Confirma-se que a esquadria aparece completa nos quatro lados e que as linhas de contorno estão visivelmente mais grossas do que as de cota.

Mesmo com a escala certa, na oficina mede-se pelas cotas, nunca com régua sobre o papel. A verificação com régua serve para controlar a impressão, não para fabricar.

17. Normas de segurança e saúde no trabalho e normas da qualidade

Segurança e saúde no posto de CAD

O trabalho de desenho em CAD é trabalho com equipamentos dotados de visor. Em Portugal, as prescrições mínimas de segurança e saúde para este trabalho constam do Decreto-Lei n.º 349/93, de 1 de outubro, que transpõe a Diretiva 90/270/CEE, e da Portaria n.º 989/93, de 6 de outubro, que fixa as normas técnicas de execução. Em termos práticos:

Aspeto Boa prática
Ecrã topo à altura dos olhos ou ligeiramente abaixo, a uma distância confortável de leitura, sem reflexos
Iluminação luz suficiente e sem encandeamento; ecrã perpendicular às janelas
Cadeira e postura regulável em altura, costas apoiadas, pés assentes, antebraços apoiados
Teclado e rato à altura dos cotovelos, perto do corpo, pulsos direitos
Pausas interromper o trabalho contínuo no ecrã com pausas ou mudança de tarefa, e descansar a vista olhando ao longe
Vigilância da saúde exames à visão previstos na lei para quem trabalha com visor

Segurança e saúde que o desenho transmite à oficina

O desenho também protege quem fabrica, monta e usa o móvel:

Normas da qualidade

A qualidade de um desenho mede-se por não gerar dúvidas nem erros na oficina. Na prática:

  1. Normas de desenho técnico aplicadas de forma constante: ISO 128 (linhas, cortes), ISO 129-1 (cotagem), ISO 5455 (escalas), ISO 5456-2 (projeções), ISO 5457 (folhas), ISO 7200 (legenda), ISO 7573 (lista de peças), ISO 3098 (escrita).
  2. Verificação por outra pessoa antes de emitir (campo "verificou" na legenda).
  3. Controlo de revisões: cada alteração muda a letra da revisão e fica registada (o quê, quando, quem).
  4. Controlo de documentos: o desenho em uso na oficina é sempre a última revisão; as anteriores retiram-se ou marcam-se como obsoletas.
  5. Lista de verificação antes de imprimir.

Numa empresa com sistema de gestão da qualidade (por exemplo, certificado pela ISO 9001), o controlo de documentos e de revisões é uma exigência do próprio sistema.

Exemplo resolvido: lista de verificação do desenho da estante

Verificação Estado
Vistas necessárias e suficientes, alinhadas pelo método europeu
Corte A-A identificado na vista de origem, hachuras distintas por peça, ligações não cortadas ao comprimento
Cotas gerais, de montagem e funcionais; nenhuma repetida; valores reais
Todas as peças numeradas; números iguais no desenho e na lista
Lista de peças com ferragens e elementos de ligação; quantidades conferidas
Materiais caracterizados; acabamentos e orlas especificados
Pormenores das ligações e da furação com escala indicada
Legenda completa: escala, método de projeção, unidade, revisão, autor, verificação
Nota de fixação à parede
Impressão à escala verificada com régua

Erros comuns

Glossário

Síntese

Desenhar um conjunto em CAD 2D segue sempre a mesma ordem. Configura-se o software (milímetros, desenho a 1:1, camadas, estilos, modelo de folha) e analisa-se a especificação, registando o que falta como "a confirmar". Escolhem-se as vistas necessárias e suficientes pelo método europeu, e usam-se cortes, secções e pormenores para mostrar o interior e as ligações, com hachuras distintas para peças vizinhas e sem cortar ao comprimento parafusos, pernos e cavilhas. Cota-se com rigor (valores reais, em mm, sem unidade, cada medida uma vez), dando prioridade às dimensões gerais, de montagem e funcionais. Caracterizam-se e quantificam-se os materiais nas unidades certas (m³, m², metro linear, unidades), com o desperdício explícito e, quando útil, o peso. Samblagens e ferragens aparecem desenhadas, cotadas e referenciadas; os acabamentos indicam-se por notas e códigos. A folha organiza-se em desenho, legenda, lista de peças e texto; blocos e bibliotecas dão velocidade e consistência; a lista de peças liga-se à numeração do desenho. Por fim configura-se e imprime-se à escala, verificando com régua, dentro das normas de segurança e saúde no trabalho e das normas da qualidade.

Exercícios resolvidos

1. Uma estante tem 900 mm de largura exterior e laterais de 16 mm. Qual o comprimento do tampo, se entra entre as laterais, e o das prateleiras amovíveis com 2 mm de folga total?

Resolução: vão interior = 900 - 2 × 16 = 868 mm, que é o comprimento do tampo. Prateleiras: 868 - 2 = 866 mm. Desenhar a prateleira com 900 mm seria o erro de a fazer sobrepor às laterais.

2. Num corte de conjunto, o plano passa pelo eixo de um perno de ligador e corta ao comprimento duas prateleiras vizinhas de aglomerado. Como se representam?

Resolução: o perno desenha-se inteiro, sem hachura, porque os elementos maciços de ligação não se cortam longitudinalmente. As duas prateleiras hachuram-se com sentidos opostos (ou espaçamentos diferentes), para se distinguirem, e cada uma mantém a sua hachura em todos os cortes do desenho.

3. Uma lateral de 2000 mm é desenhada a 1:20. Que medida ocupa no papel e que cota se escreve?

Resolução: no papel, 2000 ÷ 20 = 100 mm. A cota escrita é 2000, sem unidade, porque a cota é sempre a medida real. A escala 1:20 é normalizada.

4. Calcula a área líquida e a área a encomendar de 5 prateleiras de 866 × 350 mm, com 12 % de desperdício.

Resolução: área de uma prateleira = 0,866 × 0,350 = 0,3031 m². Cinco prateleiras: 0,3031 × 5 = 1,5155 m². Com 12 % de desperdício: 1,5155 × 1,12 = 1,697 m², cerca de 1,70 m².

5. Uma travessa de pinho acabada tem 900 × 70 × 22 mm. São precisas 6. Qual o volume acabado total, em m³ e em dm³?

Resolução: uma travessa: 0,900 × 0,070 × 0,022 = 0,001386 m³. Seis travessas: 0,001386 × 6 = 0,008316 m³ = 8,316 dm³ (1 m³ = 1000 dm³). Para encomendar, calcula-se também o volume bruto com a sobremedida.

6. Uma lateral de 720 mm de altura tem furação de sistema 32 a partir de 160 mm da face inferior, com 12 furos por fila. Onde fica o último furo e quantos furos há em 2 laterais com 2 filas cada?

Resolução: último furo: 160 + (12 - 1) × 32 = 160 + 352 = 512 mm da face inferior. Furos: 12 × 2 filas × 2 laterais = 48 furos. Cota-se 160, 11 × 32 (= 352) e a nota 12 × Ø 5 por fila.

7. Um armário de cozinha tem 6 portas, cada uma com 2 dobradiças de copa. Como se representam as dobradiças em CAD e como entram na lista de peças?

Resolução: cria-se um bloco da dobradiça (representação simplificada, ponto de inserção no centro da copa de Ø 35, atributo com a referência) e insere-se nas 12 posições (6 × 2), na camada FERRAGENS. Na lista de peças entra uma linha: dobradiça, 12 un., referência do fabricante. Se a furação mudar, redefine-se o bloco e todas as inserções atualizam.

8. Um aluno imprimiu a folha A3 e a vista de frente de um móvel de 1800 mm, a 1:10, mede 167 mm. O que aconteceu?

Resolução: deveria medir 1800 ÷ 10 = 180 mm. Como 167 ÷ 180 = 0,928, a impressão saiu a cerca de 93 %: foi impressa com "ajustar à página" em vez de escala 1:1. Corrige-se a configuração de página e volta-se a verificar com régua.

9. Um cliente pede "uma cómoda em carvalho maciço, com os cantos das gavetas à moda antiga, e uma estrutura que se possa desmontar para mudanças". Que samblagens propões e como as representas?

Resolução: para os cantos das gavetas, malhetes (cauda de andorinha), que travam a frente sem ferragens; as gavetas ficam coladas. Para a estrutura desmontável, ligações por ferragens de montagem (ligadores ou parafusos com casquilho roscado) combinadas com cavilhas de alinhamento, em vez de furo e respiga colados, que não se desmontam. Tudo se representa em pormenores a 1:2 ou 1:1, com corte pela zona da ligação, cotas de posição e medidas dos malhetes, nota com o tipo de samblagem e as ferragens na lista de peças.

10. Uma estante de 800 × 1800 × 300 mm vai para o quarto de uma criança. Que duas indicações de segurança devem constar do desenho?

Resolução: a fixação à parede contra o tombamento (nota e ferragem na lista de peças) e o boleado ou chanfro das arestas acessíveis, cotado num pormenor. Pode ainda indicar-se o peso das peças para o manuseamento na montagem.