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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC00467

Sebenta · Desenhar componentes em CAD 2D (UC00467)

Do posto de trabalho ao desenho técnico pronto a imprimir, com rigor geométrico e normalizado
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho de Produto em M ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

No sector da madeira e do mobiliário, um desenho técnico bem feito é o que liga a ideia do designer à peça real cortada na oficina. Em Portugal, o grosso da indústria do móvel concentra-se no Vale do Sousa, com Paços de Ferreira (conhecida como "Capital do Móvel") e Paredes à cabeça, e em quase todas essas empresas o percurso é o mesmo: o gabinete de desenho entrega à produção um conjunto de desenhos de componentes (laterais, tampos, prateleiras, portas, frentes de gaveta, travessas, fundos) e uma lista de corte, e é a partir desses papéis, ou desses ficheiros, que as máquinas cortam, furam e orlam.

Esta sebenta ensina a desenhar componentes em CAD 2D: configurar o posto de trabalho, analisar a especificação técnica de cada peça, dominar os sistemas de coordenadas, usar os comandos de desenho, de visualização e de edição, alterar geometrias, organizar o trabalho por camadas, reutilizar blocos e referências externas, cotar com rigor, aplicar tramas e produzir um desenho pronto a imprimir e a entregar à produção, sempre segundo as normas de desenho técnico, de segurança e saúde no trabalho e da qualidade.

Componente, nesta UC, é uma peça isolada de um móvel, representada sozinha, com as vistas necessárias, todas as cotas para a fabricar e as especificações (material, espessura, sentido do fio, orlas, furação, acabamento, tolerâncias). O desenho de conjunto do móvel é outro documento; aqui trabalha-se a peça.

Objetivos de aprendizagem (referencial): configurar o posto de CAD; analisar as especificações técnicas dos componentes; interpretar desenhos e especificações técnicas; identificar as dimensões das componentes; aplicar em CAD 2D a cotagem dos desenhos; organizar diferentes camadas no desenho; adicionar dimensões, anotações e outros detalhes; configurar e imprimir os desenhos; e aplicar as normas de desenho técnico, de segurança e saúde no trabalho e da qualidade.

Sobre os nomes dos comandos. Os princípios desta sebenta valem para qualquer programa de CAD 2D (AutoCAD, AutoCAD LT, DraftSight, BricsCAD, LibreCAD, QCad, entre outros). Quando aparece o nome de um comando em maiúsculas (por exemplo OFFSET ou TRIM), é o nome que esse comando tem no AutoCAD (versão inglesa, que também funciona na versão portuguesa se escreveres o nome precedido de um sublinhado, como _OFFSET). Noutros programas o comando existe com nome parecido; confirma no menu de ajuda do teu.

1. Configurar o posto de CAD

Configurar o posto de trabalho é a primeira realização desta UC e a base de tudo o resto: um posto mal configurado gera desenhos com unidades erradas, formatos incoerentes, camadas diferentes de desenho para desenho e ficheiros difíceis de encontrar.

O que compõe um posto de CAD

Elemento O que se exige Porquê
Software de CAD 2D instalado, licenciado quando aplicável, atualizado versões antigas podem não abrir ficheiros recentes
Computador processador e memória suficientes, placa gráfica capaz mover desenhos pesados sem atrasos
Monitor boa resolução; de preferência grande ou dois ecrãs ver a folha inteira e o pormenor ao mesmo tempo
Rato com roda (zoom e pan) e boa precisão apontar com exatidão, navegar depressa
Acesso à internet ligação estável consultar normas e catálogos de ferragens, partilhar ficheiros
Impressora ou plotter configurada e testada imprimir à escala certa no dia em que é preciso
Armazenamento pastas de projeto e cópias de segurança não perder trabalho nem confundir versões

Formatos de ficheiro que vais encontrar

O modelo (template) do posto

Um modelo bem feito define de uma vez tudo o que se repete: unidades, camadas, tipos de linha, estilos de texto e de cotagem, legenda e layouts com os formatos de folha usados. Todos os desenhos novos partem dele e ficam coerentes entre si.

Organizar ficheiros e pastas

Uma convenção simples, igual para todo o gabinete, evita metade dos problemas:

Projetos/
  2026-014_Estante_Parede/
    01_Especificacoes/     (pedido do cliente, fichas técnicas)
    02_CAD/                (DWG de trabalho)
    03_Referencias/        (Xrefs, blocos do projeto)
    04_Impressao/          (PDF emitidos)
    05_Arquivo/            (versões antigas)

Nome de ficheiro com código do projeto, peça e revisão, por exemplo 2026-014_lateral-esq_revB.dwg. Evita espaços e acentos nos nomes de ficheiro: há programas e servidores que os tratam mal.

Exemplo resolvido · preparar um novo desenho

  1. Abrir o software de CAD e escolher Novo desenho a partir de modelo.
  2. Confirmar a unidade de trabalho: milímetros (no AutoCAD, comando UNITS, ver capítulo 4).
  3. Confirmar que as camadas de base (contorno, ocultas, eixos, cotas, texto, tramas, construção, janelas) vêm do modelo.
  4. Escolher o layout com o formato de folha adequado à peça (um lateral de roupeiro com 2000 mm fica, a 1:10, com 200 mm no papel: cabe num A4 ao alto, mas com uma segunda vista e as cotas um A3 é mais confortável; um puxador cabe num A4 à escala 1:1 ou 2:1).
  5. Guardar de imediato com um nome descritivo na pasta do projeto, por exemplo 2026-014_prateleira_revA.dwg.
  6. Confirmar que a gravação automática e as cópias de segurança estão ativas.

Antes de desenhar a primeira linha, confirma sempre a unidade de trabalho. Descobrir a meio de um projeto que as peças foram desenhadas em centímetros obriga a escalar tudo por 10 e a rever todas as cotas.

2. Analisar as especificações técnicas dos componentes

Antes de desenhar, é preciso ler e perceber o que se vai desenhar. É a segunda realização do referencial e é aqui que se decidem as vistas, a escala e as cotas.

O que traz uma especificação técnica de componente

Campo Exemplo Para que serve no desenho
Designação e código Lateral esquerdo, LAT-E-01 título da legenda, nome do ficheiro
Quantidade 2 (um esquerdo, um direito) indicar "2x" ou desenhar o simétrico
Material aglomerado revestido a melamina trama e nota de material
Dimensões 720 × 560 × 19 cotas principais
Sentido do fio (ou do veio decorativo) ao longo dos 720 mm seta de fio no desenho e na lista de corte
Orlas 1 mm nas arestas à vista símbolo de orla nas arestas
Furação furos para prateleiras, cavilhas, dobradiças vistas, cotas de posição, diâmetros e profundidades
Acabamento cor, textura, verniz nota na legenda ou na lista
Tolerâncias ±0,5 nas medidas de corte (exemplo) nota geral ou cota com tolerância

Ordem das dimensões e sentido do fio

Na madeira e nos derivados com veio decorativo, a ordem das dimensões transmite informação. A convenção corrente nas listas de corte é comprimento × largura × espessura, com o comprimento medido no sentido do fio. A madeira é anisotrópica: resiste e trabalha de forma diferente ao longo do fio e através dele (a retração tangencial é cerca do dobro da radial e a longitudinal é praticamente desprezável). Por isso, numa peça de madeira maciça, o sentido do fio decide-se no projeto e tem de vir indicado no desenho e na lista de corte, normalmente por uma seta dupla sobre a vista.

"560 × 720" e "720 × 560" não são a mesma peça quando há fio: numa, o veio corre ao alto; na outra, deitado. Confirma sempre a convenção da empresa e desenha a seta do fio.

Ler as vistas: o método europeu

As peças representam-se em projeções ortogonais. Em Portugal usa-se o método europeu (1.º diedro), com o respetivo símbolo na legenda. Neste método, em relação ao alçado principal (vista de frente):

Para um componente plano, como um lateral, uma prateleira ou uma porta, bastam normalmente duas vistas: a vista da face maior (com o contorno e a furação) e uma vista de topo ou de lado que mostre a espessura e a profundidade dos furos. Um corte substitui a segunda vista quando há furos cegos, rebaixos ou encaixes que interessa mostrar por dentro.

Exemplo resolvido · analisar a ficha de um lateral

Ficha recebida: "Lateral de móvel baixo de cozinha, 2 unidades (esq. + dir.), aglomerado melamínico branco 19 mm, 720 × 560, orla ABS 1 mm na aresta da frente, furação para prateleira regulável em duas filas, tolerância de corte ±0,5 mm."

  1. Peça e quantidade: um desenho basta; indica-se "2x, esquerdo e direito simétricos" (ou desenham-se os dois, se a furação não for simétrica).
  2. Material e espessura: aglomerado de partículas revestido, 19 mm. Trama de derivado na vista de corte e nota de material na legenda.
  3. Dimensões principais: 720 (altura) × 560 (profundidade) × 19 (espessura).
  4. Orlas: só a aresta da frente, com 720 mm de comprimento; marcar essa aresta com o símbolo de orla da empresa.
  5. Furação: duas filas de furos, posições e diâmetros a confirmar com o fabricante das ferragens (ver o exemplo do capítulo 6).
  6. Tolerâncias: 720 ±0,5 significa que a peça é aceite entre 719,5 mm e 720,5 mm (campo de tolerância de 1 mm).
  7. Vistas: vista da face interior (contorno e furação) + vista de cima com a espessura e a profundidade dos furos.
  8. Formato e escala: a peça tem 720 × 560; a 1:5 ocupa 144 × 112 mm no papel, o que cabe numa folha A3 com a segunda vista e as cotas; a 1:10 também caberia num A4, mas os furos de 5 mm ficariam com 0,5 mm no papel, ilegíveis sem uma vista de pormenor.

Identificar as dimensões dos componentes

"Identificar as dimensões" é saber, para cada peça, quais são as dimensões de fabrico (as que a máquina corta) e distingui-las das dimensões do conjunto. Exemplo: numa estante com 800 mm de largura exterior e dois laterais de 22 mm, uma prateleira encaixada entre os laterais mede 800 - 2 × 22 = 756 mm; se a prateleira ficar por cima dos laterais, mede os 800 mm todos. A mesma estante dá componentes diferentes conforme o tipo de ligação, e é o desenho do componente que tem de trazer a medida certa.

Conta de verificação. Móvel com 600 mm de largura exterior, laterais de 19 mm, fundo de 8 mm encaixado num rasgo de 10 mm de profundidade em cada lateral. Largura livre entre laterais: 600 - 2 × 19 = 562 mm. Largura do fundo: 562 + 2 × 10 = 582 mm, menos uma folga de montagem que a empresa define (por exemplo 1 mm por lado, valor ilustrativo): 580 mm. Sem estas contas, o fundo desenhado com 600 mm nunca entraria.

3. Sistemas de coordenadas

Todo o desenho em CAD assenta num sistema de coordenadas: a forma de dizer ao programa exatamente onde fica cada ponto. É o que distingue desenhar "a olho" de desenhar com rigor.

O sistema cartesiano

O sistema cartesiano tem um eixo X (horizontal, positivo para a direita) e um eixo Y (vertical, positivo para cima), com origem no ponto (0,0). No AutoCAD chama-se WCS (sistema de coordenadas universal) ao sistema fixo do desenho e UCS (sistema de coordenadas do utilizador) a um sistema que o utilizador pode deslocar ou rodar, por exemplo para pôr a origem no canto de uma peça.

Coordenadas absolutas

A posição é sempre medida a partir da origem: 120,80 é o ponto com x = 120 e y = 80, independentemente do que já foi desenhado. Úteis para o primeiro ponto de uma peça ou para pontos cuja posição em relação à origem é conhecida.

Coordenadas relativas

A posição é medida a partir do último ponto indicado, com o símbolo @: @50,0 é 50 mm para a direita do último ponto; @0,-30 é 30 mm para baixo; @-20,15 é 20 mm para a esquerda e 15 mm para cima. Os sinais indicam o sentido.

Coordenadas polares

As coordenadas polares definem o ponto por uma distância e um ângulo a partir do último ponto: @100<45 significa 100 mm a 45°. Por defeito, o ângulo mede-se a partir do eixo X positivo (0° aponta para a direita) e no sentido anti-horário: 90° é para cima, 180° para a esquerda, 270° para baixo. Um ângulo negativo roda no sentido horário (@100<-90 é o mesmo que @100<270).

As polares convertem-se em relativas cartesianas com trigonometria:

Coordenada polar Δx Δy Direção
@100<0 100,00 0,00 para a direita
@100<90 0,00 100,00 para cima
@100<30 86,60 50,00 direita e para cima
@100<45 70,71 70,71 diagonal a meio
@60<135 -42,43 42,43 esquerda e para cima
@50<210 -43,30 -25,00 esquerda e para baixo
@80<-90 0,00 -80,00 para baixo (igual a @80<270)

A armadilha da entrada dinâmica

Nas versões recentes do AutoCAD, com a entrada dinâmica ligada (tecla F12), o segundo ponto e os seguintes escritos sem @ já são interpretados como relativos por defeito. Para forçar uma coordenada absoluta nesse modo escreve-se # antes (#120,80). Com a entrada dinâmica desligada, vale a regra clássica: sem @ é absoluta. Se a peça aparecer num sítio estranho, verifica primeiro isto.

Exemplo resolvido · travessa com chanfro

Peça: travessa de 500 × 80 mm com um chanfro de 20 × 20 mm no canto superior direito.

Passo Entrada Ponto obtido (absoluto) Explicação
1 0,0 (0, 0) canto inferior esquerdo, absoluto
2 @500,0 (500, 0) 500 para a direita
3 @0,60 (500, 60) sobe 80 - 20 = 60 até ao início do chanfro
4 @-20,20 (480, 80) chanfro: 20 para a esquerda e 20 para cima
5 @-480,0 (0, 80) 500 - 20 = 480 para a esquerda
6 opção Fechar (0, 0) fecha a polilinha no ponto inicial

O passo 4 também se pode escrever em polares: o chanfro tem comprimento √(20² + 20²) = √800 ≈ 28,28 mm e aponta para cima e para a esquerda, ou seja, a 135°: @28.28<135. As relativas cartesianas são mais exatas aqui, porque não arredondam a raiz quadrada.

No AutoCAD, o separador decimal nas coordenadas é o ponto (28.28) e a vírgula separa x de y (500,0). Escrever 28,28 numa coordenada é interpretado como x = 28 e y = 28. No texto e nas cotas impressas, em português, usa-se a vírgula decimal.

Exemplo resolvido · da polar para a cartesiana e vice-versa

a) Do ponto 200,100, desenha-se uma linha com @60<135. Onde acaba? Δx = 60 × cos 135° = 60 × (-0,7071) = -42,43; Δy = 60 × sen 135° = 60 × 0,7071 = 42,43. Ponto final: (200 - 42,43; 100 + 42,43) = (157,57; 142,43).

b) Uma diagonal vai de (0,0) a (300,400). Qual é a notação polar? Distância = √(300² + 400²) = √250 000 = 500 mm. Ângulo = arctg(400/300) = arctg(1,333) ≈ 53,13°. Notação: @500<53.13. Confirma-se com o comando de medir (DIST no AutoCAD), que dá a distância e o ângulo no plano XY.

c) Um pé de mesa inclinado tem 700 mm de comprimento e faz 80° com o chão, inclinado para a direita. Partindo da base, escreve-se @700<80: Δx = 700 × cos 80° = 121,55 mm; Δy = 700 × sen 80° = 689,37 mm. A altura vertical que o pé vence é, por isso, 689,37 mm, e não 700: é esta a conta que o desenhador faz para acertar a altura do móvel.

Quando usar cada sistema

Sistema Referência Notação Uso típico
Absoluto origem (0,0) 120,80 primeiro ponto; pontos com posição conhecida na folha
Relativo último ponto @50,0 pontos seguintes, contornos com medidas conhecidas
Polar último ponto @100<45 linhas inclinadas, chanfros, pés inclinados

Na prática, combina-se tudo com as ajudas ao desenho: referências a objetos (osnap, que "agarram" o ponto final, o ponto médio, o centro ou a interseção), o modo ortogonal e o rastreio polar. Veremos estas ajudas no capítulo 5.

4. Unidades de medida

A unidade de trabalho

Em mobiliário e marcenaria a unidade de trabalho é o milímetro. As cotas escrevem-se em milímetros e sem símbolo de unidade (escreve-se 720, não 720 mm); quando alguma medida estiver noutra unidade, a unidade escreve-se junto dessa cota.

Um pormenor que confunde principiantes: para o AutoCAD, uma "unidade de desenho" é só um número. É o desenhador que decide que 1 unidade = 1 mm, e essa decisão tem de ser a mesma em todos os ficheiros do projeto. Por isso se diz que se desenha à escala real, 1:1: uma prateleira de 756 mm desenha-se com 756 unidades.

O que se configura (comando UNITS no AutoCAD)

Parâmetro Valor habitual em mobiliário Nota
Tipo de comprimento decimal
Precisão 0 ou 0,0 número de casas mostradas; o desenho guarda sempre o valor exato
Tipo de ângulo graus decimais
Precisão angular 0 ou 0,0
Sentido positivo dos ângulos anti-horário é o valor por defeito; não mudar sem razão
Direção do ângulo 0° Este (eixo X positivo) valor por defeito
Unidade de inserção milímetros escala automaticamente blocos e desenhos inseridos que venham noutra unidade

A precisão só muda o que se mostra. Uma peça desenhada com 599,6 mm aparece como "600" com precisão 0. Configura a precisão das cotas de forma a veres os erros, e desenha sempre com valores exatos, nunca "a olho".

Conversões que aparecem no dia a dia

De Para mm Fator
metro (m) mm × 1000
centímetro (cm) mm × 10
polegada (in) mm × 25,4
pé (ft) mm × 304,8

Em arquitetura é frequente desenhar em metros ou centímetros; em catálogos norte-americanos de ferragens aparecem polegadas. Antes de inserir um ficheiro de outra origem, mede uma cota conhecida.

Exemplo resolvido · DXF de um fornecedor em polegadas

Um fornecedor envia o DXF de um puxador. Inserido no teu desenho, o comando de medir dá 5,04 entre os eixos dos furos de fixação, mas a ficha técnica diz entre-eixos de 128 mm.

  1. Suspeita: o ficheiro vem em polegadas. Confirmação: 128 / 25,4 = 5,039, que arredonda para 5,04.
  2. Correção: escalar o puxador com fator 25,4 a partir de um ponto de base (comando SCALE no AutoCAD).
  3. Verificação: medir de novo; o entre-eixos dá 5,039 × 25,4 = 128,0 mm.
  4. Prevenção: configurar corretamente a unidade de inserção dos dois ficheiros, para que a conversão seja automática da próxima vez.

Da mesma forma, um desenho de arquitetura em metros em que uma parede mede "3,6" tem de ser escalado × 1000 para bater com o móvel desenhado em milímetros (3600 mm).

5. Área gráfica e área do desenho

A área gráfica

A área gráfica é a zona central do ecrã onde os objetos se desenham. À volta dela estão os elementos da interface que convém conhecer pelo nome:

Elemento Função
Friso ou barras de ferramentas acesso aos comandos por ícones
Linha de comandos onde se escrevem comandos e coordenadas e onde o programa pede o passo seguinte; lê-a sempre
Barra de estado liga e desliga as ajudas ao desenho (grelha, snap, orto, polar, osnap)
Ícone do sistema de coordenadas mostra a orientação de X e Y e onde está o UCS
Separadores Modelo e Layout alternam entre o espaço modelo e as folhas de impressão
Cursor em cruz mostra a posição; as coordenadas aparecem na barra de estado

Ajudas ao desenho (teclas de função no AutoCAD)

Ajuda Tecla (AutoCAD) O que faz
Grelha F7 mostra uma quadrícula de referência; não é impressa
Snap F9 o cursor salta de passo em passo (por exemplo, de 10 em 10 mm)
Orto F8 obriga as linhas a serem horizontais ou verticais
Rastreio polar F10 sugere direções a ângulos definidos (por exemplo, de 15 em 15°)
Referências a objetos (osnap) F3 agarra pontos exatos: extremidade, ponto médio, centro, interseção, perpendicular, tangente, quadrante
Rastreio de referências F11 alinha o cursor com pontos de objetos já desenhados
Entrada dinâmica F12 mostra as coordenadas e medidas junto ao cursor

As referências a objetos são a ferramenta mais importante para desenhar com rigor: ligar uma linha à extremidade exata de outra, pôr o centro de um furo no ponto médio de uma aresta. Clicar "perto" sem referência dá quase sempre um erro de décimas que só se descobre ao cotar.

A área do desenho: espaço modelo e espaço papel

É a janela de visualização que tem a escala, não a peça. Assim, a mesma lateral pode aparecer a 1:5 numa folha e a 1:10 noutra, sem redesenhar nada.

Os limites do desenho (comando LIMITS no AutoCAD) definem uma área de referência no modelo, usada pela grelha; não impedem desenhar fora dela.

Zoom não é escala

Zoom (aproximar, afastar, janela, extensão) e pan (deslocar a vista) servem para navegar na área gráfica sem alterar as coordenadas reais dos objetos. Uma peça de 1200 mm continua a medir 1200 mm mesmo que o zoom a mostre do tamanho de uma unha. A escala do desenho só existe na folha impressa.

Zoom não é escala. Se precisas de uma peça "mais pequena" para caber na folha, mudas a escala da janela de visualização no layout; nunca escalas a geometria.

6. Comandos de desenho em 2D

Os comandos de desenho constroem a geometria da peça, ponto a ponto ou forma a forma. Todos pedem pontos, que se dão por coordenadas (capítulo 3) ou por clique com uma referência a objeto ativa (capítulo 5).

Comandos base

Comando No AutoCAD O que desenha Uso típico em componentes
Linha LINE segmentos retos independentes linhas soltas, eixos
Polilinha PLINE segmentos (retos ou em arco) ligados num só objeto contornos de peças, que depois se tramam ou exportam para CNC
Retângulo RECTANG polilinha fechada de 4 lados, com opção de cantos arredondados ou chanfrados tampos, prateleiras, portas
Círculo CIRCLE por centro e raio, ou centro e diâmetro furos, puxadores redondos
Arco ARC por três pontos, ou centro, início e fim cantos curvos, recortes
Elipse ELLIPSE por eixos recortes ovais, pegas
Polígono POLYGON polígono regular tampos hexagonais

Comandos de construção auxiliar

A trama, o texto e as cotas também se "desenham", mas têm capítulos próprios (13, 14 e 15), porque são a forma de comunicar a especificação.

Porque é que a polilinha fechada importa

Uma polilinha fechada é um único objeto: seleciona-se com um clique, a sua área e perímetro leem-se nas propriedades, aceita uma trama sem fugas e sai limpa para DXF, onde o programa de CNC a reconhece como um contorno contínuo. Um contorno feito com linhas soltas, mesmo que pareça fechado, pode ter extremos a 0,01 mm de distância que impedem tudo isto. Linhas soltas que tocam nas extremidades podem ser juntas numa polilinha com o comando de juntar (JOIN no AutoCAD).

Exemplo resolvido · contorno de uma prateleira com polilinha

Prateleira de 756 × 250 mm.

  1. Ativar o comando de polilinha.
  2. Primeiro ponto em coordenadas absolutas: 0,0.
  3. Pontos seguintes em relativas: @756,0, @0,250, @-756,0.
  4. Opção Fechar: liga automaticamente o último ponto ao primeiro (equivale a @0,-250).
  5. Selecionar o objeto e confirmar nas propriedades: tipo "polilinha", fechada: sim, área 756 × 250 = 189 000 mm² (0,189 m²), perímetro 2 × (756 + 250) = 2012 mm.

O mesmo contorno faz-se num passo com o comando de retângulo: primeiro canto 0,0, canto oposto @756,250.

Exemplo resolvido · lateral com furação para prateleira regulável

Lateral de 720 (altura) × 560 (profundidade), furação para suportes de prateleira em duas filas. No mobiliário de painel é muito usado o chamado sistema 32: furos de Ø5 mm com passo de 32 mm e a primeira fila a 37 mm da aresta da frente. A posição da segunda fila e a profundidade dos furos dependem das ferragens escolhidas e confirmam-se sempre na ficha do fabricante; aqui, como exemplo, a segunda fila fica simétrica, a 37 mm da aresta de trás.

  1. Contorno: retângulo de 0,0 a @560,720 (x = profundidade, y = altura).
  2. Primeiro furo: círculo com centro em 37,232 e diâmetro 5.
  3. Posições das filas: x = 37 e x = 560 - 37 = 523; distância entre filas = 523 - 37 = 486 mm.
  4. Matriz retangular (capítulo 7): 7 linhas × 2 colunas, espaçamento entre linhas 32, entre colunas 486.
  5. Verificação: último furo de cada fila em y = 232 + 6 × 32 = 424; o conjunto ocupa 424 - 232 = 192 mm de altura; total de 14 furos.
  6. Cotas: posição do primeiro furo em relação às arestas, passo "6 × 32 = 192" e diâmetro "14 × Ø5" (ver capítulo 13).

7. Comandos de visualização e de edição

Comandos de visualização

Os comandos de visualização não alteram nenhum objeto: só mudam o que se vê.

Comando No AutoCAD Para quê
Zoom janela ZOOM › Window aproximar uma zona escolhida
Zoom extensão ZOOM › Extents ver todos os objetos do desenho (útil quando "desaparece" tudo)
Zoom anterior ZOOM › Previous voltar ao enquadramento anterior
Pan PAN (ou roda do rato premida) deslocar a vista
Vistas guardadas VIEW guardar e recuperar enquadramentos usados muitas vezes
Regenerar REGEN recalcular a visualização quando os arcos aparecem facetados ou a vista fica desatualizada

Truque de oficina: se depois de colar um objeto "não se vê nada", faz zoom extensão. Muitas vezes o objeto está a quilómetros da origem porque foi colado com coordenadas de outro desenho.

Comandos de edição

Comando No AutoCAD O que faz Cuidado
Mover MOVE desloca por ponto de base e segundo ponto, ou por deslocamento usar referências a objetos no ponto de base
Copiar COPY duplica idem
Rodar ROTATE roda em torno de um ponto; ângulos positivos no sentido anti-horário confirmar o ponto de rotação
Espelhar MIRROR cria a imagem simétrica em relação a uma linha por defeito o AutoCAD não inverte o texto (variável MIRRTEXT a 0)
Escalar SCALE aumenta ou reduz por igual em X e Y nunca se escala uma peça para "caber na folha"
Matriz ARRAY (ARRAYRECT, ARRAYPOLAR) repete em linhas e colunas ou à volta de um centro verificar número de elementos e espaçamento
Apagar ERASE elimina objetos
Desfazer / refazer UNDO / REDO anula ou repõe operações

O comando de escalar é sempre uniforme: o mesmo fator em X e em Y. Uma peça "esticada só num sentido" não vem deste comando; vem, por exemplo, de um bloco inserido com fatores X e Y diferentes, e isso distorce o componente. Para mudar só o comprimento de uma peça usa-se o comando de esticar (capítulo 9), que mantém a espessura e os furos.

Exemplo resolvido · furos espaçados com matriz retangular

Prateleira com 5 furos de fixação alinhados, espaçados 50 mm entre centros.

  1. Desenhar o primeiro furo (círculo) na posição inicial, com coordenadas.
  2. Matriz retangular: 1 linha, 5 colunas, espaçamento entre colunas 50 mm.
  3. Verificação: do primeiro ao último furo vão (5 - 1) × 50 = 200 mm, e não 250: há 4 intervalos entre 5 furos. É o erro de contagem mais frequente.

Exemplo resolvido · matriz polar num tampo redondo

Tampo redondo com 6 furos de fixação à base, distribuídos num círculo de Ø400 mm.

  1. Desenhar o tampo e o primeiro furo no círculo de fixação (raio 200 mm), por exemplo em @200<90 a partir do centro.
  2. Matriz polar com centro no centro do tampo, 6 elementos em 360°.
  3. Ângulo entre furos: 360 / 6 = 60°. Distância em linha reta entre dois furos vizinhos: num hexágono a corda é igual ao raio, 200 mm.

8. Entidades: seleção e modificação

Entidade (ou objeto) é cada elemento do desenho: uma linha, um círculo, uma polilinha, uma cota, um texto, um bloco inserido.

Métodos de seleção

Método Como se faz (AutoCAD) O que apanha
Clique clicar no objeto um objeto de cada vez
Janela arrastar da esquerda para a direita só os objetos totalmente dentro do retângulo
Cruzamento arrastar da direita para a esquerda tudo o que está dentro ou toca no retângulo
Vedação (fence) opção F durante a seleção tudo o que uma linha quebrada atravessa
Remover da seleção Shift + clique retira objetos já selecionados
Seleção rápida QSELECT filtra por tipo, camada, cor, etc.
Selecionar semelhantes SELECTSIMILAR todos os objetos do mesmo tipo e camada

Modificar propriedades

A regra "pela camada"

Cor, tipo de linha e espessura devem ficar definidos pela camada ("ByLayer"). Assim, mudar a camada de um objeto muda-lhe o aspeto todo, e mudar a camada muda todos os objetos dela. Um desenho em que cada linha tem cor e espessura forçadas à mão é difícil de corrigir e imprime de forma imprevisível.

9. Alteração de geometrias

Para além de mover e copiar, o CAD tem comandos que alteram a própria forma de um objeto.

Comando No AutoCAD O que faz Uso típico
Aparar TRIM corta a parte de um objeto que ultrapassa outro limpar interseções
Prolongar EXTEND prolonga um objeto até encontrar outro fechar contornos
Offset (cópia equidistante) OFFSET cópia paralela a uma distância definida espessuras, orlas, rebaixos
Arredondar FILLET liga dois objetos por um arco de raio definido cantos de tampos; com raio 0 cria um canto vivo exato
Chanfrar CHAMFER corta o canto com um segmento reto chanfros de arestas
Quebrar BREAK abre um objeto entre dois pontos interromper uma linha
Juntar JOIN une segmentos que se tocam num só objeto transformar linhas soltas em polilinha
Esticar STRETCH desloca a parte apanhada por uma janela de cruzamento, esticando o resto mudar a medida de uma peça sem a redesenhar
Alinhar ALIGN move e roda um objeto para coincidir com pontos de outro encostar peças inclinadas

Exemplo resolvido · espessura de um tampo em vista lateral, por offset

Tampo de aglomerado revestido de 19 mm de espessura, com 600 mm de profundidade, visto de lado.

  1. Desenhar a linha da face superior: de 0,0 a @600,0.
  2. Comando de offset com distância 19, clicando por baixo da linha: aparece a face inferior, paralela.
  3. O offset de uma linha não fecha o contorno: ficam duas linhas paralelas com as pontas soltas. Fecham-se desenhando os dois topos com referência a extremidades (de ponta a ponta), ou usando o comando de juntar para obter uma polilinha.
  4. Mais rápido ainda: desenhar logo a secção como um retângulo 0,0 a @600,-19.
  5. Se se quiser mostrar a orla de 1 mm na frente, faz-se um offset de 1 mm da linha do topo da frente, para dentro.

O offset de uma polilinha fechada gera outra polilinha fechada, já com os cantos resolvidos. É o caminho mais rápido para desenhar, por exemplo, o contorno interior de uma moldura de porta com 60 mm de largura: offset de 60 para dentro.

Exemplo resolvido · chanfro e arredondamento

O raio de um arredondamento interior tem de ser compatível com a ferramenta de fabrico: uma fresa de Ø10 não faz cantos interiores com raio menor do que 5 mm. Um canto interior desenhado vivo num recorte fresado não é fabricável. Confirma com a oficina.

Exemplo resolvido · da mesma lateral, uma variante mais alta

A lateral de 720 mm tem de passar a 820 mm, mantendo a furação e a espessura.

  1. Comando de esticar; selecionar com janela de cruzamento (da direita para a esquerda) apanhando só a parte de cima da peça.
  2. Ponto de base qualquer; deslocamento @0,100.
  3. Resultado: as arestas verticais esticam 100 mm; os objetos totalmente dentro da janela (por exemplo, furos do topo) deslocam-se 100 mm; os que ficaram fora não se mexem.
  4. As cotas associadas atualizam-se sozinhas para 820. Se alguma continuar a dizer 720, estava solta da geometria (ou foi escrita à mão), e isso é um erro a corrigir.

10. Desenhos por camadas

O que são camadas

Uma camada (layer) é um nível independente onde se organizam objetos do mesmo tipo de informação. Pensa em folhas de acetato transparentes empilhadas: cada uma leva uma parte do desenho e podem ver-se todas juntas ou só algumas. Cada camada tem nome, cor, tipo de linha e espessura de linha próprios, e os objetos herdam-nos quando as suas propriedades estão "pela camada".

Uma convenção de camadas para componentes de mobiliário

Espessuras para folhas A3 e A4. Em folhas maiores é comum subir para o par 0,7 / 0,35; o que importa é manter a razão entre linha grossa e linha fina de cerca de 2:1.

Camada Contém Tipo de linha Espessura (mm) Imprime?
CONTORNO arestas e contornos visíveis contínua 0,50 sim
OCULTAS arestas não visíveis tracejada 0,25 sim
EIXOS eixos e linhas de simetria, centros de furos traço-ponto (traço longo e ponto) 0,25 sim
CORTE indicação dos planos de corte traço-ponto fino com extremos grossos 0,25 / 0,50 sim
COTAS cotas, linhas de chamada, chamadas de notas contínua 0,25 sim
TEXTO notas, designações (texto) 0,25 a 0,35 sim
TRAMAS tramas de corte e de material contínua 0,25 sim
LEGENDA moldura e legenda da folha contínua 0,50 / 0,25 sim
CONSTRUCAO linhas auxiliares contínua 0,25 não
JANELAS contornos das janelas de visualização contínua não

Os nomes em maiúsculas e sem acentos evitam problemas quando o ficheiro passa para outros programas ou para o CAM de uma máquina. No AutoCAD, os tipos de linha normalizados ISO estão no ficheiro acadiso.lin (por exemplo ACAD_ISO02W100 para tracejado e ACAD_ISO04W100 para traço-ponto longo); os tipos HIDDEN e CENTER também servem, desde que a escala dos tipos de linha esteja bem ajustada.

Estados de uma camada

Estado Efeito Quando usar
Ligada / desligada mostra ou esconde os objetos esconder cotas para ver só a peça
Congelada / descongelada esconde e o programa deixa de os processar camadas pesadas que não se usam agora
Bloqueada vê-se mas não se pode alterar proteger a legenda ou uma referência
Imprimível / não imprimível controla se sai na impressão construção e janelas de visualização
Corrente é onde vão os novos objetos verificar sempre antes de desenhar

Duas camadas especiais do AutoCAD: a camada 0, que não se pode apagar nem renomear e onde convém criar a geometria dos blocos (capítulo 11), e a camada Defpoints, criada automaticamente pelas cotas, que nunca é impressa. Quem desenha na Defpoints por engano descobre-o na impressão, quando as linhas não saem.

Exemplo resolvido · montar a convenção num desenho novo

  1. Abrir o gestor de camadas (LAYER no AutoCAD).
  2. Criar as camadas da tabela acima, com nome, cor, tipo de linha e espessura.
  3. Marcar CONSTRUCAO e JANELAS como não imprimíveis.
  4. Bloquear LEGENDA depois de preenchida.
  5. Pôr CONTORNO como camada corrente e desenhar o contorno da peça.
  6. Mudar para EIXOS, desenhar os eixos dos furos; mudar para COTAS e cotar.
  7. Guardar o ficheiro como modelo para os próximos desenhos, para não repetir este trabalho.

Boa gestão de camadas é, na prática, a atitude de sentido de organização avaliada nesta UC: um desenho com tudo numa só camada é difícil de ler, de editar e de imprimir seletivamente.

Antes de desenhar qualquer elemento, confirma qual é a camada corrente. É o erro mais comum de quem começa: desenhar a peça inteira na camada das cotas e só dar por isso quando a impressão sai toda com linha fina.

11. Blocos, atributos e referências externas

Blocos

Um bloco agrupa vários objetos num único elemento reutilizável, com um nome e um ponto de inserção: uma dobradiça, uma cavilha, um puxador, a legenda da folha, o símbolo do método de projeção. A definição do bloco fica guardada dentro do desenho; cada vez que se insere, cria-se uma inserção (referência a essa definição). Vantagens:

No AutoCAD, BLOCK cria um bloco dentro do desenho, WBLOCK grava-o como ficheiro DWG independente (para uma biblioteca partilhada), INSERT insere-o e BEDIT abre o editor de blocos.

Cria a geometria dos blocos na camada 0 e com as propriedades "pela camada". Assim, a inserção adota as propriedades da camada onde é inserida. Um bloco criado noutras camadas leva essas camadas consigo para todos os desenhos onde entrar.

Atributos

Um atributo é um campo de texto variável associado a um bloco: a referência, o material, o fornecedor, o acabamento. A definição do atributo (etiqueta, pergunta e valor por defeito; ATTDEF no AutoCAD) faz parte do bloco; o valor é próprio de cada inserção. Duas cavilhas iguais podem ter atributos com valores diferentes (por exemplo, comprimentos 30 e 35).

Usos típicos: a legenda da folha (título, autor, data, escala e revisão como atributos, preenchidos em cada desenho) e as ferragens (referência e quantidade, que depois se extraem para uma tabela, DATAEXTRACTION no AutoCAD).

Editar a definição de um bloco atualiza a geometria de todas as inserções, mas não altera os valores dos atributos já preenchidos em cada uma. E, se acrescentares ou mudares definições de atributos, as inserções que já existiam não as recebem sozinhas: no AutoCAD, é preciso sincronizá-las com ATTSYNC.

Referências externas

Uma referência externa (xref) é outro ficheiro de desenho ligado, e não copiado, ao desenho atual. O conteúdo continua a morar no ficheiro de origem; o desenho atual guarda só o caminho para ele.

Uso típico no mobiliário: a planta da cozinha do cliente, desenhada pelo arquiteto, ligada como referência ao desenho dos módulos; ou o contorno de um móvel partilhado por vários desenhadores, cada um a pormenorizar os seus componentes.

Bloco inserido Referência externa
Onde fica o conteúdo gravado dentro do desenho num ficheiro externo ligado
Quando muda o original editar a definição atualiza as inserções desse desenho o desenho mostra a nova versão ao abrir ou ao recarregar
Risco ficar desatualizado em relação a outros desenhos ligação partida se o ficheiro mudar de sítio
Uso típico ferragens repetidas, legenda, símbolos plantas e desenhos de base partilhados em equipa

Exemplo resolvido · biblioteca de ferragens

  1. Na camada 0, desenhar a cavilha Ø8 × 35 vista de lado (retângulo de 35 × 8 com pequenos chanfros) e em vista de topo (círculo Ø8).
  2. Definir três atributos: REF (valor por defeito CAV-8x35), DIAM (8) e COMP (35).
  3. Criar o bloco "CAVILHA_8" com ponto de inserção no centro do círculo.
  4. Gravá-lo como ficheiro na pasta de biblioteca do gabinete (WBLOCK).
  5. Inserir o bloco nas 4 posições de cavilha de um lateral (por matriz, se o espaçamento for regular).
  6. Mudar a geometria no editor de blocos (por exemplo, acrescentar as estrias da cavilha): as 4 inserções atualizam-se.
  7. Contar as inserções ou extrair os atributos para uma tabela: 4 × CAV-8x35 por lateral, 8 no móvel.

12. Normas de desenho técnico

As normas de desenho técnico existem para que qualquer profissional leia o desenho da mesma forma, independentemente de quem o desenhou e do programa usado. As mais usadas no desenho de componentes são normas internacionais ISO; várias estão adotadas em Portugal como normas portuguesas (NP EN ISO), através do IPQ. Consulta sempre a versão em vigor.

Assunto Norma de referência
Linhas, vistas, cortes e tramas série ISO 128
Projeções ortogonais (métodos de representação) ISO 5456-2
Escalas ISO 5455
Formatos e apresentação das folhas ISO 5457
Legenda (bloco de títulos) ISO 7200
Cotagem ISO 129-1
Escrita (letras e algarismos) série ISO 3098

Tipos de linha e aplicações

Linha Aplicações principais
Contínua grossa arestas e contornos visíveis
Contínua fina linhas de cota e de chamada, tramas, chamadas de notas, arestas fictícias
Tracejada fina arestas e contornos ocultos
Traço-ponto fino (traço longo) eixos, linhas de simetria, circunferências de furação
Traço-ponto fino com extremos e mudanças de direção grossos planos de corte
Traço e dois pontos fino peças vizinhas, posições extremas de peças móveis (por exemplo, uma porta aberta)
Contínua fina à mão livre ou em ziguezague limite de vistas parciais ou interrompidas

As espessuras escolhem-se numa série normalizada (0,13; 0,18; 0,25; 0,35; 0,5; 0,7; 1; 1,4; 2 mm), com a linha grossa a cerca do dobro da fina. Quando duas linhas coincidem, a prioridade é: contorno visível, oculta, plano de corte, eixo, linha de chamada.

Formatos de folha (série A)

Formato Dimensões (mm)
A0 841 × 1189
A1 594 × 841
A2 420 × 594
A3 297 × 420
A4 210 × 297

Cada formato é metade do anterior (dobra-se o lado maior ao meio) e todos têm a mesma proporção, 1 : √2. O A0 tem 1 m² de área. A folha leva uma moldura que deixa margem, e a legenda fica no canto inferior direito.

Escalas normalizadas

Tipo Escalas
Real 1:1
Redução 1:2, 1:5, 1:10, 1:20, 1:50, 1:100, 1:200 (e assim sucessivamente)
Ampliação 2:1, 5:1, 10:1, 20:1, 50:1

Escalas como 1:4, 1:3 ou 4:1 não são normalizadas e evitam-se. A escala principal escreve-se na legenda; as vistas a outra escala (pormenores) levam a sua escala junto ao título da vista, por exemplo "Pormenor A (2:1)".

Legenda

Campos habituais: nome da empresa ou escola, título (designação da peça), número do desenho, autor, verificação e aprovação, data, escala, símbolo do método de projeção (1.º diedro), material, índice de revisão e número da folha. A legenda faz-se como bloco com atributos (capítulo 11), para se preencher sem redesenhar.

Escrita normalizada

A altura do texto escolhe-se numa série normalizada: 1,8; 2,5; 3,5; 5; 7; 10; 14; 20 mm. Nos componentes usa-se normalmente 3,5 mm nas cotas e notas e 5 ou 7 mm nos títulos. É a altura no papel impresso; o capítulo 14 mostra a conta para o espaço modelo.

13. Cotagem dos desenhos

Cotar é comunicar a medida exata de cada elemento da peça, de forma normalizada e inequívoca. Um desenho bem cotado permite à oficina fabricar a peça sem perguntar nada ao gabinete de desenho e sem medir o papel com uma régua.

Regras que não se discutem

  1. As medidas lineares escrevem-se em milímetros, sem o símbolo da unidade.
  2. O valor inscrito é sempre a medida real da peça, seja qual for a escala do desenho. Uma prateleira de 756 mm desenhada a 1:10 cota-se "756", nunca "75,6".
  3. Cada elemento cota-se uma só vez, na vista onde se vê melhor. Nada de cotas repetidas.
  4. Linhas de cota e de chamada são contínuas finas. As arestas e os eixos não servem de linha de cota; um eixo pode, prolongado, servir de linha de chamada.
  5. O texto da cota fica por cima da linha de cota, a meio, legível a partir de baixo ou do lado direito da folha.
  6. Cotas menores por dentro, maiores por fora, para as linhas não se cruzarem. Cotas fora do contorno sempre que possível.
  7. Evita cotar arestas ocultas; se é preciso, faz um corte.
  8. Uma cota auxiliar, só informativa, escreve-se entre parênteses: não é verificada no controlo.

Elementos de uma cota

Cada cota é composta por linha de cota (com os seus limites: setas, traços oblíquos ou pontos), linhas de chamada (que levam a medida desde o objeto até à linha de cota) e valor da cota. Símbolos que acompanham o valor: Ø (diâmetro), R (raio), (quadrado), (diâmetro esférico).

Comandos de cotagem

Tipo No AutoCAD Uso
Linear DIMLINEAR distâncias horizontais ou verticais
Alinhada DIMALIGNED distância ao longo de uma direção inclinada
Angular DIMANGULAR ângulo entre dois elementos
Raio DIMRADIUS arcos e arredondamentos
Diâmetro DIMDIAMETER círculos e furos
Em paralelo DIMBASELINE várias cotas a partir da mesma referência
Em série (em cadeia) DIMCONTINUE cotas seguidas, cada uma a partir da anterior
Por coordenadas DIMORDINATE posições de furos a partir de uma origem, como a máquina CNC as lê
Cotagem rápida QDIM várias cotas de uma vez

Em paralelo, em série ou por coordenadas

Regra prática: a furação de montagem (onde as peças têm de coincidir umas com as outras) cota-se em paralelo ou por coordenadas, a partir da mesma aresta de referência que a máquina vai usar.

Estilo de cotagem

O estilo de cotagem (DIMSTYLE no AutoCAD) define de uma vez a aparência de todas as cotas: altura do texto (3,5 mm no papel), tipo e tamanho dos limites, distâncias das linhas de chamada, precisão (0 ou 0,0) e separador decimal (vírgula, em português). Cria-se no modelo do posto e não se mexe cota a cota.

Cotas associativas

Uma cota associativa está ligada aos pontos da geometria: se a peça muda de tamanho, o valor atualiza-se sozinho. Nunca se escreve por cima do valor medido: uma cota com o texto substituído à mão mostra um número que já não corresponde ao desenho e é uma das fontes de erro mais graves que existem.

Tolerâncias

Uma tolerância é a variação admissível de uma medida. Formas de a indicar:

Indicação Significa Limites
600 ±0,5 desvio simétrico 599,5 a 600,5
600 +0 / -1 só pode ser menor 599,0 a 600,0
32 +0,1 / 0 só pode ser maior 32,0 a 32,1
nota geral "tolerâncias não indicadas ±0,5" vale para todas as cotas sem tolerância própria

Os valores desta tabela são exemplos de notação. Os valores reais vêm da especificação técnica do componente ou das regras da empresa, que dependem do material e das máquinas.

Exemplo resolvido · cotar o lateral com furação

Retoma o lateral de 720 × 560 × 19 do capítulo 6.

  1. Dimensões gerais: cota linear vertical 720 e horizontal 560, por fora, na vista principal.
  2. Espessura: cota 19 na vista de cima.
  3. Aresta de referência: a aresta inferior e a aresta da frente (a mesma que a máquina vai usar).
  4. Posição das filas: 37 a partir da aresta da frente; 523 a partir da mesma aresta para a segunda fila (em paralelo), ou 37 a partir da aresta de trás se a empresa preferir cotar a partir das duas arestas.
  5. Posição vertical: 232 da aresta inferior ao primeiro furo.
  6. Passo: cota em série escrita como "6 × 32 (= 192)", que diz tudo numa linha.
  7. Furos: uma chamada com "14 × Ø5" e a profundidade indicada pelo fabricante do suporte.
  8. Verificação: nenhuma medida repetida, todas legíveis, nenhuma linha de cota a cruzar outra.

Exemplo resolvido · detetar uma cota errada

Um colega entrega uma prateleira com as cotas 756 (total), 200 + 356 + 200 (série). Soma: 200 + 356 + 200 = 756, certo. Mas numa segunda prateleira aparece 756 com 200 + 350 + 200 = 750: há 6 mm que não batem. Ou a cota total foi escrita à mão, ou uma das parciais foi alterada. Mede-se a geometria com o comando de medir para saber qual é a verdadeira e refazem-se as cotas associativas. A soma das cotas em série tem sempre de dar a cota total.

14. Anotações e outros detalhes

"Adicionar dimensões, anotações e outros detalhes" é uma aptidão do referencial. As cotas dão a geometria; as anotações dão tudo o resto que a oficina precisa de saber.

Texto

Chamadas

Uma chamada (MLEADER no AutoCAD) é uma linha fina terminada numa seta ou ponto que aponta um elemento e leva uma nota: "14 × Ø5", "Orla ABS 1 mm", "Rebaixo 8 × 10". Aponta-se para o contorno com seta, ou para dentro de uma superfície com um ponto.

Notas específicas da madeira e do mobiliário

Anotação Como se faz Porquê
Sentido do fio seta dupla sobre a vista, paralela ao fio garante que a peça é cortada com o veio na direção certa
Orlas símbolo ou traço junto às arestas orladas, com legenda cada empresa tem a sua convenção; tem de vir explicada na folha
Material e espessura nota geral ou campo da legenda define a trama e a encomenda
Face à vista nota ou símbolo na face nos painéis com uma face melhor do que a outra
Quantidade e simetria "2x, esquerdo e direito" evita cortar duas peças iguais quando eram simétricas
Acabamento nota verniz, lacado, cor

Notas gerais

Um bloco de notas numeradas, perto da legenda, evita repetir informação por todo o desenho:

NOTAS
1. Medidas em mm.
2. Material: aglomerado revestido a melamina, branco, 19 mm.
3. Orla ABS 1 mm nas arestas assinaladas.
4. Tolerâncias não indicadas: ±0,5 (exemplo; seguir a regra da empresa).
5. Furação segundo a ficha do fabricante das ferragens.

Altura do texto no espaço modelo

Se o texto for escrito no layout (espaço papel), escreve-se com a altura real que vai ter impresso: 3,5 mm. Se for escrito no espaço modelo, onde a peça está a 1:1, tem de ser multiplicado pelo denominador da escala da janela de visualização:

Escala da janela Altura no modelo para 3,5 mm impressos
1:1 3,5
1:2 7
1:5 17,5
1:10 35
1:20 70

Para evitar estas contas, o AutoCAD tem objetos anotativos: texto, cotas e tramas que se ajustam sozinhos à escala de cada janela de visualização. Seja qual for o método, o resultado impresso tem de ter a altura normalizada.

Tabelas

A lista de corte ou lista de peças pode fazer-se como tabela no próprio desenho (TABLE no AutoCAD): designação, quantidade, comprimento × largura × espessura, material, fio e orlas. Os atributos dos blocos de ferragens podem ser extraídos para outra tabela com as quantidades.

15. Tramas para as especificações técnicas

O que são tramas

Uma trama (também chamada hachura) é um padrão gráfico que preenche uma área fechada. No desenho técnico tem duas funções: mostrar onde o material foi cortado num corte ou secção, e, quando a convenção o prevê, sugerir que material é.

Regras gerais da trama de corte

Tramas na madeira e nos derivados

Na madeira maciça é costume distinguir o corte ao topo (transversal ao fio, onde se veem os anéis de crescimento) do corte ao longo do fio: o topo desenha-se com uma representação dos anéis ou com uma trama cruzada, e o corte ao longo do fio com linhas que acompanham o veio. Os derivados (contraplacado, aglomerado de partículas, MDF de fibras, OSB de partículas longas orientadas) também têm representações habituais, por exemplo as camadas cruzadas do contraplacado.

Estas representações variam de livro para livro e de empresa para empresa. Por isso, a regra segura é: usar a convenção da empresa, aplicá-la sempre da mesma forma e explicá-la numa legenda ou nota de material no desenho. A trama sozinha nunca substitui a nota de material.

Parâmetros de uma trama

Parâmetro O que controla
Padrão o desenho da trama (linhas simples a 45°, cruzadas, padrões de material)
Escala o espaçamento entre linhas
Ângulo a inclinação, somada à do padrão
Associatividade se a trama acompanha as alterações do contorno
Camada deve ir para a camada TRAMAS

No AutoCAD, o padrão ANSI31 é a trama de linhas finas a 45° mais usada em cortes. Com a trama associativa, se o contorno for esticado, a trama acompanha-o.

Aplicar tramas com rigor

Exemplo resolvido · cortar e tramar um tampo com orla maciça

Secção de um tampo em contraplacado de 18 mm com uma orla (bordo) de madeira maciça de 18 × 30 mm colada à frente.

  1. Desenhar as duas secções como polilinhas fechadas: contraplacado e orla maciça, lado a lado.
  2. Tramar o contraplacado com a convenção de derivado da empresa (ou linhas a 45°).
  3. Tramar a orla maciça com a convenção de madeira maciça cortada ao topo (a orla corre ao longo do tampo, por isso no corte vê-se o seu topo), ou, se a convenção for simples, com linhas a 45° na direção contrária às do contraplacado, para as duas peças se distinguirem.
  4. Pôr as duas tramas na camada TRAMAS.
  5. Acrescentar a nota de material: "Tampo: contraplacado 18 mm. Orla: madeira maciça 18 × 30 mm."

16. Dimensionamento e manipulação gráfica do desenho

Verificar as dimensões

A peça desenha-se sempre à escala real (1:1) no espaço modelo, independentemente da escala de impressão. Antes de cotar e imprimir, as dimensões verificam-se contra a especificação técnica, com as ferramentas de consulta do programa (no AutoCAD: DIST para distâncias e ângulos, LIST para as propriedades de um objeto, MEASUREGEOM para distância, raio, ângulo e área, e o painel de propriedades).

Exemplo resolvido · área e perímetro de um tampo com cantos arredondados

Tampo de 1200 × 600 mm com os 4 cantos arredondados a R50. Quanto mede a orla e qual é a área?

Perímetro (comprimento de orla): - lados retos: 2 × (1200 + 600) - 8 × 50 = 3600 - 400 = 3200 mm (a cada canto perdem-se 50 mm em cada um dos dois lados); - arcos: 4 quartos de círculo = um círculo inteiro de raio 50: 2 × π × 50 = 314,16 mm; - total: 3200 + 314,16 = 3514,16 mm, ou seja, cerca de 3,51 m de orla (mais a sobra de corte que a empresa usar).

Área: - retângulo: 1200 × 600 = 720 000 mm²; - em cada canto retira-se um quadrado de 50 × 50 = 2500 mm² e devolve-se um quarto de círculo de π × 50² / 4 = 1963,50 mm²; perde-se 2500 - 1963,50 = 536,50 mm² por canto; - total: 720 000 - 4 × 536,50 = 717 854 mm², ou seja, 0,718 m².

Verificação no CAD: selecionar a polilinha do tampo e ler, nas propriedades, a área e o comprimento. Se os valores não baterem com as contas, o contorno não é aquele que se pensava (um canto a mais, um raio diferente).

Manter as dimensões e as proporções do conjunto

Os componentes de um móvel dependem uns dos outros. Antes de dar um componente por terminado, confirma as medidas que o ligam aos vizinhos: a prateleira entre laterais mede a largura interior; o fundo encaixado soma a profundidade dos rasgos; a porta sobreposta mede a abertura mais a sobreposição. Um componente certo por si só mas errado em relação aos outros é uma peça para o lixo.

Corrigir uma geometria com a escala errada

Às vezes chega uma geometria com o tamanho errado (um contorno importado, um desenho em outra unidade). O comando de escalar com a opção Referência resolve sem contas: indica-se uma medida conhecida no desenho (por exemplo, uma aresta que deve ter 560) e o comprimento que ela deve ter; o programa calcula o fator. Depois confirmam-se outras medidas para ter a certeza.

Manipulação gráfica: escolher a escala de impressão

Na folha, cada medida real fica dividida pelo denominador da escala: medida no papel = medida real / N (para uma escala 1:N).

Peça Medida maior 1:2 1:5 1:10 1:20
Puxador 160 80 32 16 8
Frente de gaveta 560 280 112 56 28
Lateral de móvel baixo 720 360 144 72 36
Lateral de roupeiro 2000 1000 400 200 100

Descontando a moldura, a legenda e o espaço para cotas, a área útil de um A3 deitado anda pela ordem de 380 × 230 mm (estimativa, depende da moldura e da legenda usadas). Com a tabela vê-se logo que o lateral de roupeiro cabe a 1:10 (200 mm) mas não a 1:5 (400 mm); e que o lateral do móvel baixo cabe folgado a 1:5 (144 mm).

Detalhes pequenos (furos de 5 mm, um rebaixo de 3 mm) ficam ilegíveis numa vista geral a 1:10 (0,5 mm e 0,3 mm no papel). Resolvem-se com uma vista de pormenor a outra escala, 1:1 ou 2:1, na mesma folha.

Janelas de visualização (viewports)

No layout, cada janela de visualização mostra o espaço modelo a uma escala própria.

  1. Criar a janela (MVIEW no AutoCAD) na camada JANELAS, que não se imprime.
  2. Entrar na janela e fixar a escala. No AutoCAD, pela lista de escalas da barra de estado ou pelo comando ZOOM com o fator XP: 1:10 é 0.1xp, 1:5 é 0.2xp, 1:2 é 0.5xp, 2:1 é 2xp.
  3. Enquadrar a peça com pan (sem zoom, senão muda a escala).
  4. Bloquear a janela, para que um zoom acidental não lhe estrague a escala.
  5. Escrever a escala junto do título de cada vista.

Exemplo resolvido · uma folha, duas escalas

Folha A3 com o lateral de 720 × 560 e um pormenor da furação.

Janela Escala Tamanho da peça no papel
Vista geral do lateral 1:5 144 × 112 mm
Pormenor A (furo e aresta) 2:1 um furo de Ø5 fica com 10 mm; os 37 mm até à aresta ficam com 74 mm

A mesma geometria aparece duas vezes, a duas escalas, sem nada ter sido copiado ou redesenhado. Se o lateral mudar, as duas vistas mudam.

17. Configuração, pré-visualização e impressão

Configurar a página

Cada layout guarda uma configuração de página (PAGESETUP no AutoCAD) com:

Parâmetro O que escolher
Dispositivo a impressora ou plotter, ou um "impressor" de PDF (no AutoCAD, DWG To PDF.pc3)
Formato de papel o formato da moldura desenhada (A4, A3, A2...)
Área a imprimir Layout (a folha inteira); ou Janela, Extensão, Limites, quando se imprime do modelo
Escala de impressão 1:1 no layout, porque a escala está nas janelas de visualização; quando se imprime do modelo, a escala do desenho
Estilo de impressão tabela de penas: por exemplo monochrome.ctb, que imprime tudo a preto
Espessuras imprimir as espessuras de linha dos objetos (das camadas)
Orientação retrato ou paisagem
Centrar centrar na folha ou definir desvio

Estilos de impressão (tabelas de penas)

A tabela monochrome.ctb é a mais usada para desenhos técnicos: tudo sai a preto, com as espessuras definidas nas camadas. Sem ela, as cores claras do ecrã (amarelo, ciano) saem em cinzento quase invisível numa impressora a cores.

Pré-visualizar antes de imprimir

A pré-visualização é a última verificação antes de gastar papel ou de enviar o ficheiro para produção. Confirma-se que:

Imprimir e verificar a escala impressa

Depois de impresso, mede-se com uma régua uma cota conhecida: a 1:5, a cota 560 tem de medir 112 mm no papel. Se medir 108 ou 116, a impressora está a "ajustar à folha" e a escala está errada. É por isso que, no quadro de impressão, "ajustar ao papel" fica sempre desligado nos desenhos técnicos.

Exemplo resolvido · configurar e imprimir um lateral em A3

  1. No layout, configurar a página: dispositivo PDF, formato A3, paisagem, área Layout, escala 1:1, estilo monochrome.ctb.
  2. Criar a janela da vista geral a 1:5 e a do pormenor a 2:1; bloquear as duas.
  3. Preencher os atributos da legenda: título "Lateral esquerdo", escala principal "1:5", data, autor, revisão A.
  4. Pré-visualizar: cotas legíveis, construção invisível, nada cortado.
  5. Gerar o PDF com um nome coerente: 2026-014_lateral-esq_revA.pdf.
  6. Imprimir uma cópia e medir: a aresta de 720 tem de medir 144 mm.

Para muitos layouts de uma vez, o AutoCAD tem a impressão em lote (PUBLISH).

18. Normas de segurança e saúde no trabalho

As normas de segurança e saúde no trabalho aplicam-se mesmo num posto de secretária. O trabalho de CAD é trabalho com equipamentos dotados de visor, regulado em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 349/93, de 1 de outubro (que transpõe a Diretiva 90/270/CEE), e pela Portaria n.º 989/93, de 6 de outubro, que fixa as prescrições mínimas do posto. O quadro geral da segurança e saúde no trabalho é o regime jurídico aprovado pela Lei n.º 102/2009.

O posto de trabalho com visor

Elemento Boas práticas
Ecrã imagem estável, brilho e contraste reguláveis, orientável e inclinável; topo do ecrã à altura dos olhos ou ligeiramente abaixo; à distância de um braço, mais ou menos
Posição do ecrã perpendicular às janelas, para não ter reflexos nem luz de frente
Teclado e rato independentes do ecrã, ao mesmo nível, com espaço para apoiar os antebraços
Cadeira estável, com altura do assento regulável e encosto regulável; apoio para os pés se os pés não assentarem no chão
Superfície de trabalho ampla, pouco refletora, com espaço para os documentos
Iluminação suficiente e sem reflexos no ecrã; estores ou cortinas nas janelas
Ambiente ruído e temperatura que não perturbem a atenção
Organização pausas ou mudanças de atividade ao longo do dia, para reduzir a fadiga visual e postural
Saúde o empregador assegura vigilância da saúde, incluindo exames à vista

Uma regra prática: cotovelos a cerca de 90°, pulsos direitos, costas apoiadas no encosto, pés assentes. E, de vez em quando, desviar o olhar do ecrã para um ponto distante.

Quando o desenhador vai à oficina

O desenhador de componentes vai muitas vezes à oficina: medir uma peça, confirmar uma furação, ver uma montagem. Aí valem as regras da oficina: circular pelas zonas marcadas, não se aproximar de máquinas em funcionamento, usar o equipamento de proteção exigido. O pó de madeira dura (folhosas) é um agente cancerígeno reconhecido: a Diretiva (UE) 2017/2398, transposta em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 35/2020, fixou para ele um valor-limite de exposição profissional de 2 mg/m³ a partir de 17 de janeiro de 2023 (3 mg/m³ até essa data). A proteção começa pela aspiração na origem; a máscara (FFP2 ou FFP3) é para quando a aspiração não chega.

19. Normas da qualidade

As normas da qualidade traduzem-se, no gabinete de desenho, em procedimentos que evitam que um erro chegue à oficina. A norma de referência para os sistemas de gestão da qualidade das empresas é a ISO 9001; no dia a dia, o que interessa é o que ela exige de controlo de documentos e de verificação.

A lista de verificação do componente

Antes de emitir um desenho:

Verificar Sim/Não
Dimensões gerais conferem com a especificação técnica
Medidas de ligação conferem com os componentes vizinhos
Unidade em mm, peça a 1:1 no modelo
Todas as cotas necessárias, nenhuma repetida, todas associativas
Soma das cotas em série igual à cota total
Tolerâncias indicadas (na cota ou em nota geral)
Sentido do fio, orlas, face à vista, material e acabamento indicados
Tipos e espessuras de linha pela convenção; camadas certas
Tramas com a convenção da empresa e nota de material
Escala de cada vista escrita e normalizada
Legenda completa: título, número, autor, data, escala, método de projeção, revisão
Pré-visualização aprovada; linhas de construção invisíveis

Controlo de revisões

Cada vez que um desenho emitido muda, sobe o índice de revisão (A, B, C...) e regista-se na tabela de revisões o que mudou, quando e por quem. A oficina trabalha com a última revisão; as anteriores vão para a pasta de arquivo, marcadas como anuladas. Sem isto, é inevitável um dia alguém cortar peças por um desenho antigo.

Rastreabilidade e cópias de segurança

Exemplo resolvido · uma revisão

A oficina avisa que o fundo do móvel (revisão A) tem 582 mm e não entra: a empresa usa uma folga de montagem que não foi descontada. O desenhador:

  1. confirma a regra da folga com o responsável (por exemplo, 1 mm por lado, valor ilustrativo);
  2. altera a geometria: 582 - 2 × 1 = 580 mm; a cota associativa atualiza-se;
  3. sobe a revisão para B e escreve na tabela: "Largura do fundo 582 › 580 (folga de montagem)", com a data e as iniciais;
  4. emite o PDF ..._fundo_revB.pdf e move a revisão A para o arquivo;
  5. avisa a oficina de que a revisão A está anulada.

A responsabilidade profissional é direta: um erro de cotagem ou de escala descoberto só na oficina significa peças inutilizadas e material caro desperdiçado. É por isso que rigor, sentido crítico e respeito pelas regras e normas definidas são atitudes explicitamente avaliadas nesta UC.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Desenhar componentes em CAD 2D segue sempre a mesma ordem. Primeiro configura-se o posto e o ficheiro: unidade em milímetros, modelo com camadas e estilos, pastas e nomes coerentes. Depois analisa-se a especificação técnica do componente: dimensões de fabrico, material, fio, orlas, furação, tolerâncias, e decide-se que vistas usar, pelo método europeu. Situa-se cada ponto com coordenadas (absolutas, relativas ou polares) e com as referências a objetos, dentro da área gráfica, sempre à escala real. Constrói-se a peça com os comandos de desenho, visualização, edição e alteração de geometrias, e organiza-se tudo por camadas, com blocos e atributos para o que se repete e referências externas para o que se partilha. Comunica-se a especificação com cotas normalizadas e associativas, anotações (fio, orlas, material, notas gerais) e tramas. Verifica-se o dimensionamento contra a especificação e contra os componentes vizinhos. Por fim, configura-se, pré-visualiza-se e imprime-se o desenho a partir do layout, com as janelas de visualização em escalas normalizadas, e emite-se com a revisão controlada, respeitando as normas de desenho técnico, de segurança e saúde no trabalho e da qualidade.

Exercícios resolvidos

1. Um colega desenha um retângulo de 300 mm por 200 mm usando só coordenadas absolutas para todos os pontos, a começar em (50,40). Quais são os pontos? Como ficaria com relativas?

Resolução: em absolutas: 50,40, 350,40, 350,240, 50,240 (somou 300 a x e 200 a y). Funciona, mas obriga a calcular cada canto. Em relativas, só o primeiro ponto é absoluto: 50,40, @300,0, @0,200, @-300,0 e Fechar. Se a peça mudar de sítio, as relativas não mudam; as absolutas têm de ser todas recalculadas.

2. A partir do ponto (100,100), escreve-se @80<150. Onde fica o ponto?

Resolução: Δx = 80 × cos 150° = 80 × (-0,8660) = -69,28; Δy = 80 × sen 150° = 80 × 0,5 = 40,00. O ponto fica em (30,72; 140,00): para a esquerda e para cima, como se espera de um ângulo entre 90° e 180°.

3. Uma prateleira desenhada mede 75,6 no CAD, mas a especificação diz 756 mm. O que aconteceu e como se corrige?

Resolução: a peça foi desenhada em centímetros (ou escalada por 0,1 para "caber"). Corrige-se escalando por 10 a partir de um ponto de base (ou com a opção Referência: 75,6 › 756), e confirma-se a unidade do desenho. A peça tem de ter 756 unidades no modelo; a redução para o papel faz-se na janela de visualização.

4. Qual a diferença entre inserir um bloco duas vezes e ligar duas vezes o mesmo ficheiro como referência externa?

Resolução: o bloco fica gravado dentro do desenho: editar a definição atualiza as duas inserções, mas só nesse desenho, e os valores dos atributos de cada inserção não mudam. A referência externa continua a ser um ficheiro à parte: quando o original muda, o desenho mostra a nova versão ao ser aberto ou quando se recarrega a referência. O bloco serve para ferragens e símbolos; a referência externa, para desenhos de base partilhados pela equipa.

5. Uma trama aplicada a uma secção de corte preenche a folha toda. Causa e correção?

Resolução: o contorno não está fechado: há uma abertura, às vezes de centésimas de milímetro, entre duas linhas. Corrige-se juntando as linhas numa polilinha (comando de juntar) ou fechando o canto com um arredondamento de raio 0, confirmando nas propriedades que a polilinha está fechada, e só depois se reaplica a trama.

6. Uma frente de gaveta de 560 × 180 vai ser impressa numa folha A4 ao alto (área útil estimada de 180 × 250 mm). Que escala normalizada escolhes?

Resolução: a 1:2, a frente fica com 280 × 90 mm: os 280 mm não cabem nos 180 mm de largura útil. A 1:5 fica com 112 × 36 mm, e cabe com espaço para uma segunda vista e cotas. Escala: 1:5. (A 1:4 caberia, mas não é uma escala normalizada.)

7. Numa folha a 1:10, quer-se texto com 3,5 mm impresso. Se o texto for escrito no espaço modelo sem objetos anotativos, que altura se lhe dá?

Resolução: 3,5 × 10 = 35 unidades (mm) no modelo. Se for escrito no layout, dá-se-lhe diretamente 3,5.

8. Quatro furos estão cotados em série a partir da aresta da peça: 40, 100, 100, 100, cada cota com tolerância ±0,3. Onde fica o último furo e qual o desvio máximo possível? E se fossem cotados em paralelo?

Resolução: posição nominal do último furo: 40 + 3 × 100 = 340 mm da aresta. Em série, os desvios podem somar-se: 4 × 0,3 = ±1,2 mm, portanto entre 338,8 e 341,2. Em paralelo (cotas 40, 140, 240, 340 todas a partir da aresta), cada posição tem só ±0,3: o último furo fica entre 339,7 e 340,3. Para furação de montagem, a cotagem em paralelo é a escolha certa.

9. Uma estante tem 900 mm de largura exterior, laterais de 18 mm e três prateleiras encaixadas entre os laterais. Qual é o comprimento de cada prateleira e quanto mede a orla de 1 mm aplicada na frente das três?

Resolução: comprimento = 900 - 2 × 18 = 864 mm. A orla vai só na aresta da frente, que tem o comprimento da prateleira: 3 × 864 = 2592 mm, cerca de 2,6 m, mais a sobra de corte que a empresa usar.

10. Antes de enviar um desenho para a oficina, que passos garantem que está pronto?

Resolução: conferir a peça com a especificação técnica e com os componentes vizinhos; confirmar que está a 1:1 no modelo e em milímetros; rever as cotas (necessárias, não repetidas, associativas, somas certas, tolerâncias); verificar fio, orlas, material e notas; confirmar camadas, tipos e espessuras de linha e tramas; pré-visualizar a impressão (escala de cada janela, legibilidade, construção invisível, legenda completa); imprimir e medir uma cota com régua; emitir o PDF com o índice de revisão correto.