Sebenta · Planear e realizar estudos de mercado (UC00275)
- Introdução
- 1. O mercado: delimitar antes de estudar
- 2. Tipologia de estudos de mercado
- 3. Planear o estudo: do problema de gestão ao problema de pesquisa
- 4. Metodologias: qualitativo, quantitativo e fontes de dados
- 5. Amostragem
- 6. Questionários
- 7. Entrevistas e focus groups
- 8. Observação, testes e estudos causais
- 9. Proteção de dados, ética e normas de qualidade
- 10. Tratamento e análise de dados quantitativos
- 11. Análise de dados qualitativos
- 12. Segmentação de mercado e personas
- 13. Concorrência e posicionamento
- 14. Comportamento do consumidor
- 15. Sistematização, relatório e apresentação
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Um estudo de mercado não serve para "saber a opinião das pessoas". Serve para reduzir a incerteza de uma decisão que custa dinheiro. Alguém vai lançar um produto, mudar um preço, abrir uma loja, refazer uma marca ou gastar orçamento numa campanha — e não sabe se vai correr bem. O estudo de mercado existe para que essa decisão seja tomada com menos risco.
Esta é a diferença entre um profissional e um amador: o amador começa por fazer um questionário; o profissional começa por escrever qual é a decisão que está em cima da mesa. Só depois escolhe o método. Um questionário mal desenhado, lançado ao público errado, tratado sem cuidado e apresentado num relatório confuso não reduz incerteza nenhuma — dá é uma falsa segurança, que é pior do que não saber nada.
Nesta UC aprendes o percurso completo: delimitar o mercado, traduzir um problema de gestão num problema de pesquisa, escolher a metodologia, construir os instrumentos (questionário, guião de entrevista, guião de focus group), recolher os dados dentro da lei, tratá-los e analisá-los com técnicas quantitativas e qualitativas, segmentar o mercado e construir personas, analisar a concorrência e definir um posicionamento, e finalmente escrever e apresentar o relatório que sustenta a recomendação.
Trabalhamos com casos reais de pequenas organizações portuguesas, porque é aí que a maioria dos técnicos de marketing vai trabalhar: com orçamento curto, amostras pequenas e prazos apertados. Aprender a fazer bem um estudo pequeno é mais útil do que aprender a admirar um estudo grande.
Objetivos de aprendizagem (referencial): colaborar no planeamento dos estudos de mercado a realizar; tratar e analisar dados sobre público-alvo e concorrência; colaborar na elaboração do relatório com as conclusões do estudo de mercado.
Como usar esta sebenta
Cada capítulo tem teoria curta, exemplos resolvidos passo-a-passo e tabelas de decisão. No fim há erros comuns, glossário, síntese e exercícios resolvidos. As fichas 01 e 02 e o mini-projeto aplicam tudo isto a um caso concreto.
1. O mercado: delimitar antes de estudar
1.1 O que é um mercado
Em marketing, mercado não é um sítio — é o conjunto de pessoas ou organizações com uma necessidade, com capacidade de compra e com acesso à oferta. As três condições contam. Quem tem vontade mas não tem dinheiro não é mercado. Quem tem dinheiro mas não consegue chegar ao produto também não.
Antes de estudar seja o que for, é preciso delimitar. Um estudo sobre "o mercado do café" é impossível. Um estudo sobre "o consumo de café fora de casa, ao pequeno-almoço, em cafetarias do centro do Montijo, por residentes ativos entre os 25 e os 55 anos" é fazível.
A delimitação tem quatro eixos:
| Eixo | Pergunta | Exemplo |
|---|---|---|
| Produto/necessidade | Que necessidade se satisfaz? | Café fora de casa ao pequeno-almoço |
| Geográfico | Que território? | Centro do Montijo, raio de 800 m |
| Temporal | Que período? | Dias úteis, 7h–11h, época baixa |
| Cliente | Quem? | Residentes ativos 25–55 anos |
1.2 Mercado atual, potencial e a cascata TAM–SAM–SOM
Nem todo o mercado está ao alcance de uma empresa. Usa-se uma cascata em três níveis:
| Nível | Significa | Exemplo (padaria com fabrico próprio no Montijo) |
|---|---|---|
| TAM (Total Addressable Market) | Todo o mercado teórico da categoria | Pão e pastelaria consumidos no concelho: ~55 000 residentes × 0,55 €/dia ≈ 11 M€/ano |
| SAM (Serviceable Available Market) | A parte que a empresa consegue servir com o que tem | Freguesia do Montijo + Afonsoeiro, compra em loja física: ≈ 3,4 M€/ano |
| SOM (Serviceable Obtainable Market) | A parte que é realista conquistar num prazo | 6% do SAM em 2 anos ≈ 204 000 €/ano |
Regra: um plano de negócios que apresenta o TAM como se fosse a faturação prevista está a mentir — normalmente sem querer. O número que interessa é o SOM, e tem de ser justificado.
1.3 Quota de mercado e quota relativa
- Quota de mercado (%) = vendas da empresa ÷ vendas totais do mercado × 100
- Quota relativa = quota da empresa ÷ quota do maior concorrente
Exemplo: num mercado local de 2 400 000 €, a empresa vende 168 000 € e o líder vende 600 000 €. Quota = 168 000 ÷ 2 400 000 = 7%. Quota relativa = 7 ÷ 25 = 0,28 — a empresa tem pouco mais de um quarto do tamanho do líder.
A quota relativa diz mais do que a quota absoluta: 7% num mercado com um líder de 25% é uma posição frágil; 7% num mercado atomizado onde o maior tem 9% é uma posição competitiva.
1.4 Procura, oferta e elasticidade
A procura é a quantidade que o mercado compra a um dado preço. A elasticidade-preço da procura mede o quanto a procura reage a uma variação de preço:
Elasticidade = variação % da quantidade ÷ variação % do preço
Exemplo resolvido. Uma cafetaria sobe o galão de 1,00 € para 1,10 € (+10%). As vendas diárias caem de 300 para 270 unidades (−10%).
Elasticidade = −10% ÷ +10% = −1,0 → procura de elasticidade unitária. A receita mantém-se: 300 × 1,00 = 300 €; 270 × 1,10 = 297 €. Praticamente igual.
- |E| > 1 → elástica: subir o preço reduz a receita.
- |E| < 1 → inelástica: subir o preço aumenta a receita.
- |E| = 1 → unitária: a receita não se altera.
Este é um dos números que um estudo de preço procura estimar — e é um número que muda por segmento: o cliente habitual de todos os dias é mais sensível ao preço do galão do que o visitante ocasional.
2. Tipologia de estudos de mercado
2.1 Os três grandes tipos, pelo grau de conhecimento
Toda a tipologia se organiza por uma pergunta simples: quanto é que já sabemos?
| Tipo | Quando se usa | Pergunta típica | Métodos | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| Exploratório | Não sabemos quase nada; o problema é vago | "Porque é que os clientes deixaram de vir?" | Entrevistas, focus groups, observação, desk research | Hipóteses, linguagem do consumidor, pistas |
| Descritivo | Já sabemos o que perguntar; queremos medir | "Quantos? Quem? Com que frequência?" | Questionário a amostra, painéis, dados de vendas | Números, percentagens, perfis, segmentos |
| Causal | Queremos saber se X provoca Y | "Se baixar o preço 10%, as vendas sobem?" | Experiências, testes A/B, mercados-teste | Relação de causa e efeito |
A ordem natural é exploratório → descritivo → causal. Fazer um questionário antes de qualquer exploração é a causa nº 1 de questionários que perguntam o que não interessa.
2.2 Catálogo de estudos por objetivo
O referencial elenca uma família de estudos aplicados. Todos assentam nos três tipos acima; mudam o objetivo e os indicadores.
| Estudo | Responde a | Indicadores típicos |
|---|---|---|
| Segmentação de mercado | Que grupos distintos existem? | Dimensão, valor e perfil de cada segmento |
| Tendências de mercado | Para onde vai a categoria? | Séries temporais, taxa de crescimento anual |
| Aceitação de produto | Este produto interessa a alguém? | Intenção de compra, top-2 box, preferência |
| Preço e elasticidade | Quanto podemos cobrar? | Preço ótimo, faixa aceitável, elasticidade |
| Concorrência | Contra quem competimos e como? | Quotas, mapa competitivo, benchmarking |
| Comportamento do consumidor | Como decide e porquê? | Jornada, gatilhos, travões, critérios de escolha |
| Satisfação de clientes | Estamos a cumprir? | CSAT, NPS, taxa de retenção, motivos de queixa |
| Posicionamento da marca | Que lugar ocupamos na cabeça de quem compra? | Mapa percetual, atributos associados |
| Imagem da marca | O que é que a marca evoca? | Notoriedade espontânea/assistida, associações |
| Penetração no mercado | Que fatia já usamos? | % de clientes na população-alvo, frequência |
| Eficácia das campanhas | A campanha resultou? | Recordação, atribuição, ROI, lift de vendas |
2.3 Exemplo resolvido — escolher o tipo certo
Situação: Uma loja de produtos regionais no Montijo teve uma quebra de 18% nas vendas no último trimestre. A gerência acha que "é do preço" e quer fazer um questionário sobre preços.
Análise. A gerência já saltou para uma hipótese sem base. A quebra pode ser preço, mas também pode ser: obras na rua, um concorrente novo, mudança de horário, quebra de qualidade, ou perda de um cliente institucional.
Sequência correta:
- Desk research (1 dia) — cruzar vendas por categoria, por dia da semana e por hora com o histórico. Se a quebra é só ao sábado de manhã, não é preço.
- Exploratório (1 semana) — 8 entrevistas curtas: 4 a clientes habituais que reduziram a frequência, 4 a clientes que deixaram de vir (identificados pelo cartão de cliente).
- Descritivo (2 semanas) — só depois, questionário a 200 pessoas para medir o peso de cada causa levantada.
- Causal (opcional) — se o preço aparecer confirmado, testar durante 3 semanas um preço mais baixo em duas referências, comparando com referências de controlo.
Conclusão: começar pelo questionário de preços custaria 3 semanas e daria uma resposta a uma pergunta que talvez nem seja a certa.
3. Planear o estudo: do problema de gestão ao problema de pesquisa
3.1 A tradução que faz a diferença
Existem sempre dois problemas, e confundi-los estraga o estudo:
| Problema de gestão | Problema de pesquisa | |
|---|---|---|
| Formulação | Orientada à ação | Orientada à informação |
| Quem o tem | O decisor | O investigador |
| Exemplo | "Devemos abrir ao domingo?" | "Qual é a procura potencial ao domingo, que perfil tem e que ticket médio pratica?" |
| Exemplo | "Devemos lançar a gama sem glúten?" | "Que dimensão tem o segmento com restrição alimentar no concelho, que preço aceita e onde compra hoje?" |
3.2 As sete etapas do planeamento
O referencial define o planeamento como: definição de objetivos → escolha da metodologia → escolha dos instrumentos → recolha → tratamento da informação → sistematização → conclusões. Na prática usa-se esta grelha:
- Definir o problema de gestão (a decisão a tomar e o seu prazo).
- Traduzir em objetivos de pesquisa — um geral, 3 a 5 específicos, todos mensuráveis.
- Formular hipóteses — afirmações que o estudo pode confirmar ou desmentir.
- Escolher a metodologia — qualitativa, quantitativa ou mista; primária ou secundária.
- Escolher os instrumentos e a amostra — questionário/guião, dimensão, método de seleção.
- Planear o tratamento — como vão ser codificados e analisados os dados, antes de os recolher.
- Definir entregáveis, prazos e orçamento — e quem decide o quê.
Teste de utilidade: para cada pergunta do estudo, escreve "se a resposta for A faço X; se for B faço Y." Se não conseguires escrever, a pergunta não serve — é curiosidade, não é pesquisa.
3.3 Objetivos bem escritos
| ✗ Mau objetivo | ✓ Bom objetivo |
|---|---|
| "Perceber os clientes" | "Caracterizar a frequência de compra e o ticket médio dos clientes de 25–55 anos, por segmento" |
| "Saber se gostam do produto" | "Medir a intenção de compra do novo pão de mistura a 1,60 €, numa escala de 5 pontos, em amostra de 200 residentes" |
| "Estudar a concorrência" | "Comparar preço, horário, gama e serviço dos 5 concorrentes diretos num raio de 800 m" |
3.4 O briefing de estudo (modelo de 10 pontos)
- Organização e contexto — quem pede e porquê, agora.
- Decisão em causa — o que vai acontecer com o resultado.
- Objetivo geral e objetivos específicos.
- Hipóteses a testar.
- População-alvo e critérios de inclusão/exclusão.
- Metodologia e justificação.
- Instrumentos e amostra prevista.
- Plano de tratamento dos dados.
- Prazos, marcos e orçamento.
- Entregáveis (relatório, apresentação, base de dados) e critérios de qualidade.
3.5 Exemplo resolvido — briefing completo
Pedido: "A Adega Cooperativa quer saber se vale a pena abrir uma loja com prova de vinhos ao público."
| Ponto | Preenchimento |
|---|---|
| Decisão | Investir 45 000 € na conversão de um armazém em loja+prova, decisão até 30 de setembro |
| Objetivo geral | Avaliar a viabilidade comercial de uma loja com prova junto do público residente e visitante |
| Obj. específico 1 | Estimar a procura potencial mensal (nº de visitas e ticket médio) |
| Obj. específico 2 | Identificar e dimensionar os segmentos interessados |
| Obj. específico 3 | Determinar a faixa de preço aceitável para a prova (3 vinhos + queijo) |
| Obj. específico 4 | Caracterizar a oferta concorrente num raio de 25 km |
| Hipótese 1 | Existe um segmento de visitantes de fim de semana com disposição a pagar ≥ 12 € pela prova |
| Hipótese 2 | O residente do concelho procura sobretudo compra de garrafa, não prova |
| Metodologia | Mista: 10 entrevistas + observação de 3 concorrentes + questionário a 250 pessoas |
| Amostra | 250 respostas, quotas por idade e residência; erro ≈ ±6,2% a 95% |
| Tratamento | Frequências, cruzamentos por segmento, Van Westendorp para preço, análise temática das entrevistas |
| Prazo | 6 semanas · Orçamento 1 800 € |
| Entregáveis | Relatório 20 pág. + apresentação 15 min + base de dados anonimizada |
4. Metodologias: qualitativo, quantitativo e fontes de dados
4.1 Qualitativo vs quantitativo
| Qualitativo | Quantitativo | |
|---|---|---|
| Pergunta | Porquê? Como? | Quantos? Quanto? Com que frequência? |
| Amostra | Pequena (5–30), intencional | Grande, representativa |
| Dados | Palavras, imagens, comportamentos | Números |
| Instrumentos | Entrevista, focus group, observação | Questionário, painel, dados de vendas |
| Análise | Codificação, análise de conteúdo | Estatística |
| Resultado | Hipóteses, compreensão, linguagem | Medida, projeção, teste de hipóteses |
| Limite | Não permite generalizar | Não explica o porquê |
Não são rivais: são sequência. O qualitativo diz-te o que perguntar; o quantitativo diz-te quanto pesa. O estudo misto (mixed methods) é hoje o padrão.
4.2 Fontes primárias e secundárias
- Secundárias — dados que já existem. Rápidas e baratas; não foram recolhidas para o teu problema.
- Primárias — dados que recolhes de propósito. Caros e lentos; exatamente à medida.
Regra de ouro: nunca se recolhem dados primários antes de esgotar os secundários. É desperdício.
Fontes secundárias úteis em Portugal:
| Fonte | O que dá |
|---|---|
| INE | População, censos, rendimento, despesa das famílias, alojamento |
| PORDATA | Séries por concelho, comparáveis no tempo |
| Banco de Portugal (Central de Balanços) | Rácios setoriais, faturação média por CAE |
| INE / Estatísticas do turismo | Dormidas, proveitos, sazonalidade |
| Racius / Informa D&B | Dados de empresas concorrentes |
| Câmara municipal e juntas | Licenciamentos, eventos, fluxos, planos |
| Associações setoriais | Volumes, tendências, preços de referência |
| Google Trends / Keyword Planner | Interesse de pesquisa ao longo do tempo |
| Dados internos da empresa | Vendas, CRM, reclamações, devoluções, tráfego |
Os dados internos são a fonte secundária mais subaproveitada. Uma empresa com 3 anos de talões tem lá dentro sazonalidade, cesta média, elasticidade e retenção — de graça.
4.3 Avaliar a qualidade de uma fonte secundária
Cinco perguntas obrigatórias:
- Quem produziu e com que interesse? (um estudo sobre vinho pago por produtores de vinho não é neutro)
- Quando? Dados de 2019 sobre hábitos de consumo estão desatualizados.
- Como foi recolhido? Amostra? Dimensão? Método?
- Sobre quem? A população coincide com a tua?
- Está acessível o método, ou só o número bonito do comunicado de imprensa?
5. Amostragem
5.1 Conceitos
- População (ou universo) — o conjunto total sobre o qual queremos concluir.
- Base de sondagem — a lista concreta a partir da qual se seleciona (e onde nascem os enviesamentos).
- Amostra — os elementos efetivamente inquiridos.
- Unidade de análise — indivíduo, agregado familiar, empresa, visita, compra.
5.2 Métodos de amostragem
Probabilísticos (todos têm probabilidade conhecida de ser escolhidos → permitem inferência estatística):
| Método | Como | Quando |
|---|---|---|
| Aleatória simples | Sorteio da lista completa | Existe lista fiável |
| Sistemática | 1 em cada k a partir de um início aleatório | Fluxo contínuo (clientes à entrada) |
| Estratificada | Divide-se em estratos e sorteia-se dentro de cada um | População heterogénea e conhecida |
| Por clusters | Sorteiam-se grupos inteiros (ruas, turmas) | Território disperso, poupa custo |
Não probabilísticos (mais baratos, sem inferência formal):
| Método | Como | Risco |
|---|---|---|
| Por conveniência | Quem estiver à mão | Enviesamento grave |
| Por quotas | Respeitar proporções conhecidas (sexo, idade) | Bom compromisso prático |
| Bola de neve | Cada inquirido indica outros | Públicos difíceis de alcançar |
| Intencional | Escolha de casos ricos em informação | Padrão no qualitativo |
Em estudos qualitativos, a amostragem intencional não é uma falha — é o método correto. O objetivo não é representar, é compreender.
5.3 Dimensão da amostra e margem de erro
Para uma proporção, com população grande:
n = Z² × p × (1−p) / e²
Onde Z = 1,96 (95% de confiança), p = proporção esperada (usa-se 0,5 no pior caso), e = margem de erro.
Exemplo resolvido 1 — quantos inquéritos preciso? Queremos ±5% de erro, 95% de confiança, sem ideia da proporção.
n = 1,96² × 0,5 × 0,5 / 0,05²
n = 3,8416 × 0,25 / 0,0025
n = 0,9604 / 0,0025 = 384,16 → 385 respostas
Correção para população finita (quando a população é pequena):
n_ajustado = n / (1 + (n − 1) / N)
Exemplo resolvido 2 — população de 4 000 sócios.
n_ajustado = 385 / (1 + 384 / 4000) = 385 / 1,096 = 351 respostas
Exemplo resolvido 3 — margem de erro de uma amostra já recolhida. Recolheram-se 250 respostas numa população grande; 62% respondeu "sim".
e = 1,96 × √(0,62 × 0,38 / 250) = 1,96 × √(0,000942) = 1,96 × 0,0307 = 0,0602
Erro ≈ ±6,0 pontos → o valor real está entre 56% e 68%. Isto muda a leitura: "a maioria diz que sim" é seguro; "62% exatamente" não é.
| Amostra | Margem de erro (95%, p=0,5) |
|---|---|
| 100 | ±9,8% |
| 200 | ±6,9% |
| 385 | ±5,0% |
| 600 | ±4,0% |
| 1 067 | ±3,0% |
Repara: passar de 385 para 1 067 respostas (quase 3×) só melhora o erro de 5% para 3%. A precisão é cara. Para decisões de pequena empresa, 200–300 respostas bem recolhidas chegam quase sempre.
5.4 Taxa de resposta e enviesamento de não-resposta
Se enviares 1 000 emails e responderem 80, tens 8% de taxa de resposta — e um problema: quem responde não é igual a quem não responde. Costumam responder os muito satisfeitos e os muito insatisfeitos. Mitigações: lembretes, incentivo simbólico, canal alternativo (presencial/telefone) e comparação do perfil dos respondentes com o perfil conhecido da população.
6. Questionários
6.1 Estrutura de um questionário
- Introdução — quem faz, para quê, duração, confidencialidade, RGPD, consentimento.
- Perguntas-filtro — garantem que o inquirido pertence à população.
- Perguntas gerais (fáceis, de aquecimento).
- Perguntas centrais (o núcleo dos objetivos).
- Perguntas sensíveis (rendimento, comportamentos) — no fim.
- Caracterização (idade, freguesia, ocupação) — no fim.
- Agradecimento e contacto.
6.2 Tipos de pergunta
| Tipo | Exemplo | Vantagem | Cuidado |
|---|---|---|---|
| Aberta | "O que o levou a escolher esta loja?" | Linguagem do consumidor | Cara de codificar |
| Fechada dicotómica | "Já comprou aqui? Sim/Não" | Rápida | Perde nuance |
| Escolha múltipla | "Onde costuma comprar pão?" | Fácil de tratar | Lista tem de ser exaustiva + "Outro" |
| Escala de Likert | "Concordo totalmente … Discordo totalmente" (5 ou 7 pontos) | Mede intensidade | Tendência para o meio |
| Diferencial semântico | Caro 1–2–3–4–5–6–7 Barato | Mede perceção de imagem | Adjetivos têm de ser opostos reais |
| Ordenação | "Ordene por importância" | Força prioridades | Cansativo acima de 5 itens |
| Soma constante | "Distribua 100 pontos" | Mede peso relativo | Exige atenção |
| NPS | "0 a 10, recomendaria?" | Comparável, conhecido | Não explica porquê — junta sempre um "porquê?" |
6.3 Escalas — como se calculam
Likert (5 pontos): 1 = Discordo totalmente … 5 = Concordo totalmente. Reporta-se: média, e sobretudo o top-2 box (% de 4 e 5).
NPS (Net Promoter Score):
Promotores (9–10) % − Detratores (0–6) % = NPS
Exemplo resolvido. 200 respostas: 96 deram 9–10; 64 deram 7–8; 40 deram 0–6.
Promotores = 96/200 = 48%
Detratores = 40/200 = 20%
NPS = 48 − 20 = +28
Os passivos (7–8) não contam para a fórmula — mas contam para a leitura: 32% de passivos é um bloco grande de clientes que não muda de fornecedor por lealdade, muda por conveniência.
CSAT (satisfação): % de respostas 4 e 5 numa escala de 1 a 5.
6.4 Redigir perguntas: as sete regras
- Uma ideia por pergunta. ✗ "A loja é agradável e barata?" (double-barrelled — se for agradável e cara, o que responde?)
- Sem palavras enviesadas. ✗ "Concorda com o injusto aumento do preço?"
- Sem pressupostos. ✗ "Com que frequência compra aqui?" antes de saber se compra.
- Linguagem do inquirido. ✗ "Qual o seu grau de engagement com a brand?"
- Opções exaustivas e mutuamente exclusivas. ✗ Idades "18–25, 25–35" (quem tem 25?)
- Cuidado com a memória. ✗ "Quantos cafés bebeu no último ano?" → ✓ "na última semana".
- Neutralidade nas escalas — mesmo número de opções positivas e negativas.
6.5 Exemplo resolvido — corrigir um questionário
Original: 1. "Não acha que os nossos preços são justos?" 2. "Com que frequência visita a nossa excelente loja?" ( ) Muitas vezes ( ) Poucas vezes 3. "Idade: ( ) 18–30 ( ) 30–45 ( ) 45+" 4. "Qual o seu rendimento mensal?"
Problemas e correções:
| # | Problema | Versão corrigida |
|---|---|---|
| 1 | Dupla negativa + indução da resposta | "Relativamente à qualidade que recebe, os preços desta loja parecem-lhe: Muito caros / Caros / Adequados / Baratos / Muito baratos" |
| 2 | Adjetivo elogioso + escala vaga e subjetiva | "Nos últimos 30 dias, quantas vezes comprou nesta loja? ( ) 0 ( ) 1–2 ( ) 3–5 ( ) 6–10 ( ) Mais de 10" |
| 3 | Escalões sobrepostos | "18–29 / 30–44 / 45–59 / 60 ou mais" |
| 4 | Pergunta sensível, aberta e logo no início | Passar para o fim, fechada em escalões, com opção "Prefiro não responder" |
Falta ainda: pergunta-filtro no início ("É residente no concelho?"), consentimento RGPD e estimativa de duração.
6.6 Pré-teste
Nunca se lança um questionário sem pré-teste. 8 a 12 pessoas do perfil-alvo respondem enquanto se observa: onde hesitam, o que reinterpretam, quanto tempo demoram. Corrigem-se as perguntas e só depois se lança. Um pré-teste custa 2 horas e evita perder 300 respostas inúteis.
7. Entrevistas e focus groups
7.1 Entrevista em profundidade
Conversa individual de 30 a 60 minutos, com guião semiestruturado: temas fixos, perguntas flexíveis.
Estrutura do guião:
- Aquecimento — apresentação, consentimento, gravação, "não há respostas erradas".
- Contexto — rotina, hábitos, enquadramento.
- Núcleo — a experiência concreta: "conte-me a última vez que…".
- Aprofundamento — porquês, comparações, alternativas consideradas.
- Projeção — cenários hipotéticos, reação a conceitos.
- Fecho — "o que é que eu não lhe perguntei e devia ter perguntado?"
Técnicas de moderação:
- Silêncio — a pausa de 3 segundos é a melhor pergunta de aprofundamento.
- Eco — repetir a última palavra do entrevistado com entoação de pergunta.
- "Conte-me mais sobre isso."
- Perguntar por episódios, não por opiniões: "conte-me a última vez que desistiu de comprar aqui" dá muito mais do que "o que acha da loja".
- Nunca defender a marca. Quem entrevista não corrige o entrevistado.
7.2 Focus group
Discussão de grupo com 6 a 10 participantes, 60 a 120 minutos, conduzida por um moderador.
| Bom para | Mau para |
|---|---|
| Gerar ideias e linguagem | Temas íntimos ou embaraçosos |
| Reagir a conceitos, embalagens, anúncios | Medir frequências |
| Ver como as opiniões se formam em interação | Quando há um líder de opinião a dominar |
Regras práticas:
- Homogeneidade dentro do grupo, heterogeneidade entre grupos — não misturar quem paga 5 € com quem paga 50 €.
- Recrutamento com ficha de triagem e incentivo.
- Mesa redonda, cartões com nomes, telemóveis fora da mesa.
- Moderador controla o dominador ("vamos ouvir quem ainda não falou") e puxa o silencioso (pergunta direta pelo nome).
- Materiais de estímulo (protótipos, imagens, cartões para ordenar) valem mais do que perguntas.
- Gravação áudio + um observador que regista linguagem não-verbal.
7.3 Saturação
Não há fórmula para o número de entrevistas. Usa-se o critério de saturação teórica: para quando duas ou três entrevistas seguidas deixam de trazer categorias novas. Na prática, 8 a 15 entrevistas por segmento cobrem a maioria dos casos, e 3 a 4 focus groups por público.
8. Observação, testes e estudos causais
8.1 Observação
Registar comportamento em vez de perguntar por ele — porque o que as pessoas dizem que fazem e o que fazem são coisas diferentes.
| Tipo | Exemplo |
|---|---|
| Estruturada | Grelha: quantos entram, quantos compram, tempo médio na loja |
| Não estruturada | Notas etnográficas sobre o percurso do cliente |
| Participante | O investigador é cliente (mystery shopping) |
| Mecânica | Contadores de pessoas, mapas de calor, analytics do site |
Exemplo resolvido — taxa de conversão em loja. Em 3 dias contaram-se 412 entradas e 173 talões. Conversão = 173 ÷ 412 = 42%. Ticket médio 8,40 € → receita por visitante = 0,42 × 8,40 = 3,53 €. Este número permite avaliar se vale a pena investir em atrair tráfego (montra, campanha) ou em converter melhor quem já entra (atendimento, layout).
8.2 Testes de conceito e de produto
- Teste de conceito — descrição/imagem do produto + medição de intenção de compra ("definitivamente compraria" … ). Usa-se o top-2 box com correção: historicamente, só cerca de metade de quem diz "definitivamente compraria" compra mesmo.
- Teste cego — produto sem marca, para isolar o efeito da marca.
- Teste monádico — cada inquirido avalia um produto (sem comparação) — mais realista.
8.3 Estudos de preço
Van Westendorp (4 perguntas): a que preço acha o produto (1) demasiado barato para ter qualidade, (2) barato/bom negócio, (3) caro mas ainda aceitável, (4) demasiado caro para comprar. Cruzando as curvas obtém-se uma faixa de preço aceitável e um ponto de preço ótimo.
Gabor-Granger: mostra-se um preço e pergunta-se a intenção de compra; sobe-se e desce-se o preço até traçar a curva de procura e a receita máxima.
Exemplo resolvido — Gabor-Granger simplificado. Numa amostra de 200 pessoas:
| Preço | % que compraria | Compradores estimados | Receita |
|---|---|---|---|
| 10 € | 78% | 156 | 1 560 € |
| 12 € | 61% | 122 | 1 464 € |
| 14 € | 44% | 88 | 1 232 € |
| 16 € | 25% | 50 | 800 € |
A receita máxima está a 10 €, mas repara: entre 10 € e 12 € a receita cai apenas 6% enquanto o número de clientes servidos cai 22%. Se a margem unitária for maior a 12 € (menos custo variável total), 12 € pode ser a melhor decisão de lucro. Receita não é lucro.
8.4 Experiências e testes A/B
Um estudo causal exige: um grupo de teste, um grupo de controlo, e apenas uma variável a mudar.
Exemplo resolvido. Testar se uma montra nova aumenta as entradas. Duas lojas semelhantes: A (nova montra) e B (controlo). Duas semanas antes e duas semanas depois.
| Antes | Depois | Variação | |
|---|---|---|---|
| Loja A (teste) | 380 entradas | 456 | +20% |
| Loja B (controlo) | 402 | 422 | +5% |
Efeito líquido = +20% − 5% = +15 pontos. Sem o grupo de controlo, teríamos atribuído os 20% à montra, quando 5% eram sazonalidade. É para isto que serve o controlo.
9. Proteção de dados, ética e normas de qualidade
9.1 RGPD em estudos de mercado
O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD, UE 2016/679) e a Lei n.º 58/2019 aplicam-se a qualquer recolha de dados pessoais — incluindo um questionário de escola.
Princípios que tens de conseguir demonstrar:
| Princípio | Na prática |
|---|---|
| Licitude e transparência | Dizer quem recolhe, para quê e por quanto tempo |
| Limitação da finalidade | Dados recolhidos para o estudo não vão para a lista de email do marketing |
| Minimização | Não perguntar a morada se só precisas da freguesia; não pedir o nome se não precisas |
| Exatidão | Corrigir dados errados |
| Limitação da conservação | Definir prazo (ex.: apagar gravações 6 meses após o relatório) |
| Integridade e confidencialidade | Ficheiros protegidos, não em pen partilhada |
Consentimento válido é livre, específico, informado e inequívoco — e tem de poder ser retirado. Caixa pré-marcada não vale.
Dados sensíveis (saúde, religião, orientação sexual, opiniões políticas, dados biométricos) exigem consentimento explícito e uma justificação forte. Numa UC de marketing, a regra prática é não os recolher.
Menores: consentimento do titular das responsabilidades parentais para menores de 13 anos (em Portugal).
Texto-tipo de consentimento (para o topo do questionário):
Este questionário faz parte de um estudo de mercado realizado por [entidade], para avaliar [finalidade]. Demora cerca de 6 minutos. As respostas são anónimas e tratadas apenas de forma agregada; não é recolhido nome, contacto ou qualquer dado que o identifique. Os dados são conservados até [data] e depois eliminados. A participação é voluntária e pode desistir a qualquer momento. Responsável pelo tratamento: [nome/email]. Ao continuar, declara que leu esta informação e aceita participar.
9.2 Anonimização e pseudonimização
- Anonimizar — tornar impossível reidentificar. Dados anonimizados saem do âmbito do RGPD.
- Pseudonimizar — substituir identificadores por códigos (E01, E02) guardando a chave à parte. Continua a ser dado pessoal.
Atenção ao risco de reidentificação por cruzamento: "mulher, 34 anos, veterinária, Canha" identifica uma pessoa mesmo sem nome. Em amostras pequenas, agrega-se: "mulher, 30–39 anos, profissão liberal, concelho do Montijo".
9.3 Ética profissional
O Código ICC/ESOMAR define as regras da profissão. As essenciais:
- Não usar a pesquisa como pretexto para vender (sugging) nem para angariar (frugging).
- Não enganar o participante sobre a natureza do estudo (exceto quando indispensável, e sempre com debriefing no fim).
- Respeitar a recusa e o direito de interromper.
- Não deturpar resultados nem selecionar apenas os que agradam ao cliente.
- Separar claramente facto de interpretação no relatório.
9.4 Normas de qualidade
A NP EN ISO 20252 (estudos de mercado, sociais e de opinião) define requisitos de qualidade do processo. As exigências que se aplicam a qualquer estudo, mesmo pequeno:
- Rastreabilidade — cada número do relatório tem de poder ser reconduzido ao dado bruto.
- Documentação do método — ficha técnica obrigatória (ver 15.3).
- Controlo de qualidade da recolha — validação de uma percentagem dos inquéritos.
- Conservação segura dos dados brutos durante um prazo definido.
- Independência — quem analisa não pode ter interesse no resultado.
10. Tratamento e análise de dados quantitativos
10.1 Da resposta à base de dados
- Codificar — cada pergunta é uma variável (coluna), cada resposta uma linha. Códigos numéricos para as opções (1=Sim, 2=Não, 99=NS/NR).
- Limpar — remover duplicados, respostas incompletas abaixo do limiar, tempos absurdos (respondeu a 40 perguntas em 45 segundos), respostas em linha reta (straightlining: tudo "3").
- Tratar não-respostas — decidir e documentar: excluir, ou imputar pela mediana.
- Recodificar — criar variáveis novas: escalões etários, índice de satisfação, segmento.
Nunca se apaga a base original. Trabalha-se sempre numa cópia, com um registo das transformações feitas.
10.2 Estatística descritiva
| Medida | O que diz | Cuidado |
|---|---|---|
| Média | Valor central "de equilíbrio" | Destruída por valores extremos |
| Mediana | O valor do meio | Preferível quando há extremos (rendimentos, gastos) |
| Moda | O mais frequente | Única medida válida para variáveis nominais |
| Desvio-padrão | Dispersão em torno da média | Média igual + desvios diferentes = realidades diferentes |
| Amplitude | Máximo − mínimo | Sensível a um só caso |
| Percentis / quartis | Posição relativa | Ótimos para descrever distribuições |
Exemplo resolvido — quando a média mente. Gasto mensal declarado por 9 clientes (€):
12, 15, 18, 20, 22, 25, 28, 30, 350
- Média = 520 ÷ 9 = 57,8 €
- Mediana = 22 €
- Sem o caso extremo: média = 21,3 €
Reportar "gasto médio de 58 €" seria enganador — 8 dos 9 clientes gastam menos de 31 €. Reporta-se a mediana e menciona-se o caso atípico (que, aliás, deve ser investigado: é um cliente institucional? é um erro de digitação?).
10.3 Frequências e percentagens
| Resposta | n | % | % válida |
|---|---|---|---|
| Sim | 118 | 47,2 | 49,6 |
| Não | 120 | 48,0 | 50,4 |
| NS/NR | 12 | 4,8 | — |
| Total | 250 | 100 | 100 |
A % válida exclui os NS/NR e é a que se usa na análise. Reportar sempre o n — "49,6%" sobre 250 é diferente de "49,6%" sobre 12.
10.4 Cruzamentos (tabelas de contingência)
Exemplo resolvido. Intenção de comprar a nova gama, por escalão etário (n=250):
| Sim | Não | Total | % Sim | |
|---|---|---|---|---|
| 18–34 | 74 | 36 | 110 | 67% |
| 35–54 | 32 | 58 | 90 | 36% |
| 55+ | 12 | 38 | 50 | 24% |
| Total | 118 | 132 | 250 | 47% |
Leitura: a média global (47%) esconde tudo. O produto interessa aos 18–34 e é indiferente aos 55+. Uma decisão tomada sobre a média — "só metade quer, não avançamos" — seria errada: há um segmento com 67% de intenção que sustenta um lançamento dirigido.
Percentua-se sempre na direção da causa: aqui a idade "explica" a intenção, logo percentua-se por linha (dentro de cada escalão).
10.5 Testar se a diferença é real: qui-quadrado
O qui-quadrado (χ²) testa se duas variáveis categóricas estão associadas ou se a diferença observada pode ser fruto do acaso.
χ² = Σ (Observado − Esperado)² / Esperado
Esperado = (total da linha × total da coluna) / total geral
Exemplo resolvido, célula a célula (tabela acima, 2 colunas × 3 linhas):
Esperados: - 18–34 / Sim = (110 × 118) / 250 = 51,9 → Não = 58,1 - 35–54 / Sim = (90 × 118) / 250 = 42,5 → Não = 47,5 - 55+ / Sim = (50 × 118) / 250 = 23,6 → Não = 26,4
χ² = (74−51,9)²/51,9 + (36−58,1)²/58,1 + (32−42,5)²/42,5 + (58−47,5)²/47,5 + (12−23,6)²/23,6 + (38−26,4)²/26,4 χ² = 9,41 + 8,41 + 2,59 + 2,32 + 5,70 + 5,10 = 33,5
Graus de liberdade = (3−1) × (2−1) = 2. O valor crítico a 95% é 5,99. Como 33,5 > 5,99, rejeita-se a independência: a intenção de compra está associada à idade, e a diferença não é obra do acaso.
No relatório escreve-se: "A intenção de compra difere significativamente por escalão etário (χ²=33,5; gl=2; p<0,001)."
10.6 Correlação
O coeficiente de correlação de Pearson (r) mede a força e o sentido da relação linear entre duas variáveis numéricas. Varia de −1 a +1.
| |r| | Interpretação | |---|---| | 0,0–0,2 | Muito fraca | | 0,2–0,4 | Fraca | | 0,4–0,6 | Moderada | | 0,6–0,8 | Forte | | 0,8–1,0 | Muito forte |
Exemplo: r = 0,71 entre "satisfação com o atendimento" e "intenção de recompra" → relação forte e positiva. Mas correlação não é causalidade: pode ser a simpatia que gera recompra, pode ser quem já é fiel avaliar melhor o atendimento, ou pode haver uma terceira variável (a qualidade geral) a explicar as duas.
10.7 Índices compostos
Quando várias perguntas medem a mesma dimensão, constrói-se um índice — média das respostas, eventualmente ponderada.
Exemplo: Índice de Satisfação = (Qualidade×0,4) + (Atendimento×0,3) + (Preço×0,2) + (Rapidez×0,1), com todas as variáveis em escala 1–5. Um cliente com 5, 4, 3, 4 → (2,0 + 1,2 + 0,6 + 0,4) = 4,2. As ponderações devem vir do estudo (por exemplo, da importância declarada), não da intuição de quem faz as contas.
11. Análise de dados qualitativos
11.1 Do áudio ao dado
- Transcrever — integral para excertos citáveis; por temas quando o volume é grande. Ferramentas de transcrição automática poupam 70% do tempo, mas exigem revisão.
- Anonimizar — substituir nomes por códigos (E01, P3-M).
- Ler tudo antes de codificar. Duas vezes.
11.2 Análise de conteúdo e codificação
Codificar é atribuir etiquetas a segmentos de texto. Duas abordagens:
- Dedutiva — as categorias vêm da teoria/objetivos, definidas antes.
- Indutiva — as categorias emergem do próprio material (grounded).
Na prática combinam-se: parte-se de categorias dos objetivos e acrescentam-se as que aparecem.
Livro de códigos (obrigatório): cada código com nome, definição, critério de inclusão, critério de exclusão e um exemplo.
11.3 Exemplo resolvido — matriz temática
Excertos de 6 entrevistas sobre a razão de não comprar numa loja de bairro:
| Excerto (codificado) | Código | Categoria |
|---|---|---|
| E01: "nunca sei se está aberto ao sábado" | Incerteza de horário | Acessibilidade |
| E03: "fecho às 19h e eles já fecharam" | Horário incompatível | Acessibilidade |
| E02: "não tenho onde estacionar dois minutos" | Estacionamento | Acessibilidade |
| E04: "acho tudo mais caro, mas nunca comparei" | Preço percebido | Preço |
| E05: "no supermercado vejo o preço, ali tenho de perguntar" | Falta de preços visíveis | Preço / Transparência |
| E06: "sinto que tenho de comprar se entro" | Pressão social | Experiência |
| E02: "gosto de saber que é da terra" | Origem local | Valor simbólico |
Contagem por categoria (6 entrevistas): Acessibilidade 3/6 · Preço 2/6 · Experiência 1/6 · Valor simbólico 1/6.
Conclusão qualitativa: o obstáculo dominante não é o preço — é a acessibilidade (horário, previsibilidade, estacionamento) e a opacidade dos preços. E há um ativo por explorar: o valor simbólico do local.
Hipóteses para o questionário quantitativo que se segue: - H1: mais de 50% dos não-clientes desconhecem o horário de sábado. - H2: a perceção de "mais caro" existe mesmo em quem nunca comparou preços. - H3: a afixação visível de preços aumenta a intenção de entrar.
Repara no encadeamento: o qualitativo produziu as hipóteses e a linguagem exata ("nunca sei se está aberto") que vão para o questionário. É assim que se ligam os dois métodos.
11.4 Rigor no qualitativo
- Saturação — declarar quando se atingiu.
- Triangulação — confirmar um achado por dois métodos (entrevista + observação).
- Dupla codificação — duas pessoas codificam os mesmos 2–3 documentos e comparam; discrepâncias afinam o livro de códigos.
- Citações literais no relatório, com código do entrevistado — dão prova e força.
- Casos negativos — procurar e reportar quem contraria o padrão. Um relatório sem contradições é um relatório mal feito.
12. Segmentação de mercado e personas
12.1 Porquê segmentar
Segmentar é dividir um mercado heterogéneo em grupos internamente homogéneos, para poder servir cada um com uma proposta adequada. Sem segmentação, a comunicação fala para uma média que não existe.
12.2 As quatro etapas (referencial)
- Escolher os critérios de segmentação.
- Descrever as características de cada segmento.
- Escolher um ou mais segmentos-alvo (targeting).
- Definir a política de marketing para cada segmento (mix adaptado).
12.3 Critérios de segmentação
| Família | Variáveis | Exemplo |
|---|---|---|
| Geográfica | Região, concelho, urbano/rural, clima | Residentes vs visitantes de fim de semana |
| Demográfica | Idade, sexo, dimensão do agregado, ciclo de vida familiar | Famílias com filhos < 6 anos |
| Socioeconómica | Rendimento, escolaridade, profissão | Quadros e profissões liberais |
| Psicográfica | Estilo de vida, valores, personalidade | Preocupados com sustentabilidade |
| Comportamental | Frequência, volume, ocasião de uso, fidelidade, benefício procurado | Compradores só em ocasiões especiais |
Os critérios comportamentais e de benefício procurado são normalmente os mais acionáveis. "Mulheres 25–34" não diz o que fazer; "quem compra para oferecer" diz — embalagem, cartão, hora de pico.
12.4 Um segmento tem de ser (teste MADAR)
| Critério | Pergunta |
|---|---|
| Mensurável | Consigo estimar quantos são e quanto valem? |
| Acessível | Consigo chegar-lhes por algum canal? |
| Dimensão suficiente | Compensa financeiramente servi-lo? |
| Acionável | Consigo fazer algo de diferente para eles? |
| Rentável / durável | Vai existir daqui a 2 anos? |
Um segmento que falha qualquer destes critérios é uma curiosidade estatística, não um alvo.
12.5 Exemplo resolvido — segmentar uma clientela
Caso: cafetaria com padaria própria; 250 questionários; variáveis: frequência semanal, ticket médio, momento de consumo, motivo principal.
Cruzando frequência × motivo, emergem quatro grupos:
| Segmento | % da amostra | Frequência | Ticket | Motivo dominante | Valor anual estimado |
|---|---|---|---|---|---|
| Rotina matinal | 31% | 5×/semana | 2,10 € | Rapidez e hábito | 546 €/cliente |
| Pausa social | 24% | 2×/semana | 4,80 € | Estar com alguém | 499 €/cliente |
| Compra de pão | 28% | 4×/semana | 3,20 € | Abastecimento | 666 €/cliente |
| Fim de semana/ocasião | 17% | 0,5×/semana | 12,40 € | Prazer, oferta | 322 €/cliente |
Targeting. O segmento de maior valor unitário é "Compra de pão" (666 €/ano). O de maior potencial de crescimento é "Pausa social", porque tem o ticket mais elástico (uma sugestão de bolo sobe 1,50 €) e ocupa mesas em horas mortas.
Política de marketing por segmento:
| Segmento | Produto | Preço | Distribuição | Comunicação |
|---|---|---|---|---|
| Rotina matinal | Menu café+torrada pré-montado | 2,20 € fixo | Balcão dedicado 7h30–9h30 | Cartaz "em 90 segundos" |
| Pausa social | Bolos de fatia, chá de folha | Margem alta | Mesas, esplanada | Instagram, 15h–17h |
| Compra de pão | Pão do dia + encomenda | Cartão 10+1 | Fila rápida separada | SMS de encomenda |
| Fim de semana | Brunch, cabaz de oferta | Pacote 15–25 € | Reserva | Parceria com turismo local |
12.6 Personas
Uma persona é a representação de um segmento sob a forma de uma pessoa concreta, construída a partir de dados — nunca inventada. Serve para que a equipa decida pensando em alguém e não numa percentagem.
Uma persona bem feita tem:
- Nome, idade, foto/ilustração, ocupação, contexto familiar
- Um dia típico relevante para a categoria
- Objetivos (o que quer alcançar)
- Frustrações (o que a impede hoje)
- Comportamento de compra: onde, quando, quanto, com que frequência
- Critérios de decisão por ordem de importância
- Canais onde está e em quem confia
- Uma citação real retirada das entrevistas
- Fonte dos dados (qual segmento representa, com que n)
Exemplo resolvido — persona do segmento "Pausa social":
Sandra Marques, 41 anos · Assistente administrativa numa empresa de logística no Parque Industrial · Vive no Afonsoeiro com o companheiro e um filho de 9 anos.
Dia típico: entra às 9h, sai às 17h30. Duas ou três vezes por semana sai do escritório à tarde com uma colega para "arejar a cabeça" durante 25 minutos.
Objetivos: pausa real, conversa sem pressa, algo doce sem culpa excessiva. Frustrações: espaços barulhentos; sentir que está a ocupar a mesa; ter de pedir ao balcão e voltar. Comportamento: 2×/semana, ticket 4,80 €, sempre entre as 15h e as 17h, paga com MB Way, quase nunca vai ao fim de semana. Critérios de decisão: 1) haver mesa livre, 2) ambiente calmo, 3) qualidade do bolo, 4) preço (só em 4.º). Canais: Instagram ao final do dia, grupo de WhatsApp de colegas, boca-a-boca. Citação (E07): "Não é o café, é os vinte minutos. Se estiver cheio e barulhento, voltamos para trás." Base: segmento "Pausa social", 24% da amostra (n=60), 6 entrevistas.
Implicação direta: o preço não é a alavanca deste segmento — a disponibilidade de mesa e o ruído são. Duas mesas reservadas entre as 15h e as 17h valem mais do que um desconto.
13. Concorrência e posicionamento
13.1 Identificar a concorrência
| Nível | Definição | Exemplo (cafetaria) |
|---|---|---|
| Direta | Mesma solução, mesmo público | Outras cafetarias da zona |
| Indireta | Solução diferente, mesma necessidade | Máquina de café do escritório, padaria de supermercado |
| Substituta | Necessidade satisfeita de outro modo | Levar termos de casa |
| Potencial | Ainda não está, mas pode entrar | Cadeia nacional a abrir no centro comercial |
A maior parte dos estudos falha por olhar só para a concorrência direta. A quebra de vendas de uma cafetaria pode vir da máquina de cápsulas que a empresa vizinha instalou.
13.2 Grelha de benchmarking
Compara-se com critérios observáveis e verificáveis, não com opiniões:
| Critério | Nós | Conc. A | Conc. B | Conc. C |
|---|---|---|---|---|
| Preço do café (€) | 0,80 | 0,75 | 0,90 | 0,85 |
| Horário de abertura | 7h–19h | 7h30–20h | 8h–18h | 6h30–22h |
| Abre ao domingo | Não | Sim | Não | Sim |
| N.º de lugares sentados | 24 | 12 | 40 | 30 |
| Wi-Fi | Não | Sim | Sim | Sim |
| Pastelaria própria | Sim | Não | Não | Não |
| Avaliação Google (n) | 4,3 (86) | 4,1 (210) | 3,8 (54) | 4,6 (390) |
| Presença Instagram | 620 seg. | 3 100 | — | 5 400 |
Leitura: somos o único com fabrico próprio (ativo diferenciador), mas estamos em desvantagem em horário, domingo, Wi-Fi e notoriedade digital. O concorrente C é o líder e é forte em quase tudo — competir com ele em horário é caro; competir em produto próprio é onde temos vantagem estrutural.
Fontes para o benchmarking: visita presencial com grelha, mystery shopping, sites e redes sociais, avaliações Google (ler os comentários de 1 e 2 estrelas — é lá que estão as fraquezas), Racius para dados de empresa, e observação de fluxo à porta.
13.3 Posicionamento
Posicionamento é o lugar que a marca ocupa na mente do consumidor, por comparação com as alternativas. Não é o que a empresa diz de si; é o que fica na cabeça de quem compra.
Eixos de posicionamento (o referencial pede-os explicitamente) — as dimensões em que uma marca se pode diferenciar:
| Eixo | Diferenciação por | Exemplo |
|---|---|---|
| Atributo do produto | Característica objetiva | "Cozido em forno de lenha" |
| Benefício | O que o cliente ganha | "Pequeno-almoço em 90 segundos" |
| Utilizador | Para quem é | "Para quem trabalha por turnos" |
| Uso/ocasião | Quando se usa | "O lanche de domingo em família" |
| Preço/qualidade | Relação valor | "Qualidade de pastelaria a preço de café" |
| Origem | Proveniência | "Feito no Montijo, com farinha da região" |
| Concorrência | Por oposição | "O contrário de uma cadeia" |
Benefícios de um posicionamento claro:
- Diferenciação — dá uma razão para escolher.
- Coerência — todas as decisões (preço, montra, tom) passam a ter um critério.
- Eficiência de comunicação — a mensagem repete-se e acumula.
- Suporte ao preço — um posicionamento forte permite margem.
- Defesa competitiva — ocupar um lugar torna difícil ser copiado.
13.4 Mapa percetual
Representa marcas em dois eixos que importam ao consumidor (identificados no estudo, não escolhidos ao acaso).
Alta qualidade percebida
↑
│
Conc. C ● │ ● NÓS (desejado)
│
Preço baixo ←─────────────┼─────────────→ Preço alto
│
Conc. A ● │ ● Conc. B
│
↓
Baixa qualidade percebida
Leitura: o quadrante "qualidade alta + preço alto" está pouco ocupado — é um espaço livre. A questão seguinte é a que separa um bom estudo de um mau: há procura nesse espaço? Um espaço vazio no mapa pode ser uma oportunidade ou pode ser um sítio onde ninguém quer estar. Só o dado de procura responde.
Declaração de posicionamento (modelo):
Para [público-alvo] que [necessidade/situação], a [marca] é a [categoria] que [benefício principal], porque [prova/razão para acreditar] — ao contrário de [alternativa], que [limitação].
Exemplo preenchido:
Para quem trabalha no centro do Montijo e almoça fora, a Padaria X é a casa de pastelaria e refeições rápidas que serve um almoço leve, feito no próprio dia, em menos de 10 minutos, porque fabrica tudo no local desde as 5h da manhã — ao contrário das cadeias do centro comercial, que servem produto congelado reaquecido.
14. Comportamento do consumidor
14.1 O processo de decisão de compra (5 etapas)
| Etapa | O que acontece | O que o estudo mede | Alavanca de marketing |
|---|---|---|---|
| 1. Reconhecimento da necessidade | Surge um desfasamento entre situação atual e desejada | Gatilhos, momentos, frequência | Lembrete, ocasião, comunicação de contexto |
| 2. Procura de informação | Interna (memória) e externa (fontes) | Que fontes, quem influencia, quanto tempo | Presença nas fontes certas |
| 3. Avaliação de alternativas | Compara-se por critérios | Critérios e sua importância relativa | Sobressair no critério dominante |
| 4. Decisão de compra | Escolha e ato | Local, momento, forma de pagamento, desistências | Reduzir atrito no ponto de venda |
| 5. Comportamento pós-compra | Satisfação/dissonância | CSAT, NPS, recompra, reclamações | Acompanhamento, garantia, pós-venda |
A dissonância cognitiva (arrependimento pós-compra) é forte em compras caras. Um email de confirmação com "fez uma boa escolha, veja como tirar partido" reduz devoluções — e é uma conclusão típica de um estudo de satisfação.
14.2 Fatores de influência
| Nível | Fatores | Exemplo de impacto |
|---|---|---|
| Culturais | Cultura, subcultura, classe social | Hábito do café ao balcão em Portugal |
| Sociais | Família, grupos de referência, papéis | O filho decide o restaurante da família |
| Pessoais | Idade, ciclo de vida, ocupação, estilo de vida | Mudança de emprego muda o percurso diário |
| Psicológicos | Motivação, perceção, aprendizagem, crenças, atitudes | Preço alto lido como sinal de qualidade |
14.3 Tipos de comportamento de compra
| Envolvimento | Diferença entre marcas | Comportamento | Exemplo |
|---|---|---|---|
| Alto | Grande | Complexo — pesquisa longa | Automóvel, casa |
| Alto | Pequena | Redutor de dissonância — decide rápido e depois justifica | Alcatifa, seguro |
| Baixo | Grande | Procura de variedade — troca por curiosidade | Bolachas, cerveja |
| Baixo | Pequena | Habitual — automatismo | Sal, pão |
Implicação prática: num produto de compra habitual (o pão de todos os dias), a alavanca não é a argumentação — é a disponibilidade, o hábito e a rutura do hábito da concorrência. Investir num anúncio racional e longo é dinheiro perdido.
14.4 Papéis na decisão
Numa compra podem intervir cinco papéis, por vezes em pessoas diferentes:
Iniciador · Influenciador · Decisor · Comprador · Utilizador
Exemplo: compra de fardamento para uma empresa — o utilizador é o trabalhador, o influenciador é o responsável de segurança, o decisor é a direção financeira, o comprador é o departamento de compras. Um estudo que só ouça o utilizador falha o alvo da venda.
14.5 A jornada do consumidor
Mapear a jornada é registar, etapa a etapa: ações, pontos de contacto, pensamentos, emoções, atritos e oportunidades.
| Etapa | Ação | Ponto de contacto | Emoção | Atrito | Oportunidade |
|---|---|---|---|---|---|
| Descoberta | Passa à porta | Montra | Indiferença | Montra sem informação de preço | Afixar 3 preços-âncora |
| Consideração | Procura no telemóvel | Google, Instagram | Dúvida | Horário desatualizado no Google | Atualizar ficha Google |
| Compra | Entra e pede | Balcão | Pressa | Fila única para café e pão | Fila rápida separada |
| Pós | Come e vai | — | Satisfação | Nenhum motivo para voltar amanhã | Cartão de fidelização |
A jornada é a ferramenta que transforma o estudo em lista de ações. Cada atrito identificado é uma recomendação com dono e prazo.
15. Sistematização, relatório e apresentação
15.1 Da análise à conclusão
Três níveis, que nunca se devem misturar:
| Nível | Exemplo |
|---|---|
| Dado | "62% dos inquiridos (n=250) desconhecem o horário de sábado." |
| Conclusão | "O desconhecimento do horário é o principal obstáculo à visita ao fim de semana." |
| Recomendação | "Afixar o horário na montra e atualizar a ficha Google até 15 de outubro (responsável: gerência)." |
Um relatório que apresenta a recomendação sem o dado não convence; um que apresenta o dado sem a recomendação não serve para decidir.
15.2 Estrutura do relatório
- Capa — título, entidade, autor, data, versão.
- Sumário executivo (1–2 páginas) — problema, método, 3 a 5 conclusões, recomendações. É a única parte que muita gente vai ler; escreve-a por último e com o máximo cuidado.
- Introdução e enquadramento — contexto e problema de gestão.
- Objetivos e hipóteses.
- Metodologia — desenho, amostra, instrumentos, período, limitações.
- Resultados — organizados pelos objetivos, não pela ordem das perguntas do questionário.
- Análise da concorrência.
- Segmentos e personas.
- Conclusões — resposta explícita a cada objetivo e verdicto sobre cada hipótese.
- Recomendações — priorizadas, com esforço, impacto, responsável e prazo.
- Limitações — o que o estudo não permite concluir.
- Anexos — instrumentos, tabelas completas, guiões, consentimentos.
15.3 Ficha técnica (obrigatória)
| Campo | Exemplo |
|---|---|
| Entidade responsável | Turma 11.º TMRPP, EP Montijo |
| Cliente | Padaria X, Lda. |
| Universo | Residentes 18+ nas freguesias do Montijo e Afonsoeiro |
| Método de recolha | Questionário online + presencial (CAWI + PAPI) |
| Amostra | 250 respostas válidas, quotas por sexo e idade |
| Margem de erro | ±6,2 pp para p=0,5, 95% de confiança |
| Período de recolha | 3 a 21 de outubro de 2026 |
| Taxa de resposta | 34% |
| Responsável pela análise | [nome] |
Sem ficha técnica, um resultado não é verificável — e não é um estudo, é uma opinião com números.
15.4 Visualizar os dados
| Objetivo | Gráfico certo | Evitar |
|---|---|---|
| Comparar categorias | Barras (horizontais se os rótulos forem longos) | 3D, efeitos |
| Evolução no tempo | Linhas | Barras para séries longas |
| Composição do todo | Barras empilhadas 100% | Circular com >5 fatias |
| Relação entre variáveis | Dispersão | Linhas sem sentido temporal |
| Distribuição | Histograma / caixa de bigodes | Só a média |
Regras não negociáveis:
- Eixo Y começa em zero em gráficos de barras. Cortar o eixo exagera diferenças e é desonesto.
- Sempre o
ne a fonte por baixo do gráfico. - Um gráfico, uma ideia. O título diz a conclusão ("A intenção de compra cai com a idade"), não a variável ("Intenção por idade").
- Não usar percentagens com casas decimais numa amostra de 40 pessoas — "37,5%" sobre 40 são 15 pessoas. Escreve "15 em 40".
15.5 Software de tratamento e análise
| Ferramenta | Para quê | Nota |
|---|---|---|
| Excel / LibreOffice Calc | Recolha, limpeza, tabelas dinâmicas, gráficos, qui-quadrado (TESTE.CHI), correlação (CORREL) |
Chega para a grande maioria dos estudos de PME |
| Google Forms / Microsoft Forms | Questionário online, exportação direta para folha de cálculo | Gratuito, atenção ao RGPD nas definições |
| LimeSurvey | Questionários complexos, com lógica de salto e alojamento próprio | Alternativa self-hosted, melhor para dados sensíveis |
| SPSS | Estatística avançada, cruzamentos, testes | Padrão académico, pago |
| Jamovi / PSPP / R | Alternativas gratuitas ao SPSS | Jamovi é o mais acessível a iniciantes |
| Power BI / Looker Studio | Dashboards e monitorização contínua | Bom para acompanhamento pós-estudo |
| NVivo / Taguette / MAXQDA | Codificação qualitativa | Taguette é gratuito e suficiente |
| Google Trends | Interesse de pesquisa, sazonalidade | Dados relativos, não absolutos |
Funções de Excel úteis:
=CONTAR.SE(intervalo; critério) frequências
=CONTAR.SE.S(int1; crit1; int2; crit2) cruzamentos
=MÉDIA() =MED() =MODA.SIMPLES() =DESVPAD.A()
=CORREL(x; y) correlação de Pearson
=TESTE.CHI(observado; esperado) p-value do qui-quadrado
Tabela Dinâmica a ferramenta mais rentável de todas
15.6 Apresentar
- 10 a 15 minutos, 12 a 18 slides. Nunca ler o relatório.
- Abrir pela conclusão, não pela metodologia. Quem decide quer saber o resultado; o método vem a seguir para dar confiança.
- Um slide por conclusão, com o gráfico que a prova.
- Levar as limitações explicitamente — dá credibilidade, não a tira.
- Terminar com um slide de decisões pedidas: o que precisas que o cliente decida hoje.
- Preparar as três perguntas difíceis: "a amostra é fiável?", "isto quanto custa a implementar?", "e se fizermos o contrário?"
Erros comuns
- Começar pelo questionário. Antes de perguntar seja o que for, é preciso saber que decisão está em causa. Questionário é o quinto passo, não o primeiro.
- Confundir problema de gestão com problema de pesquisa. "Devemos baixar o preço?" não é uma pergunta de estudo; "qual é a elasticidade-preço por segmento?" é.
- Perguntar em vez de observar. As pessoas dizem que reciclam mais do que reciclam, que leem mais do que leem e que são menos sensíveis ao preço do que são.
- Amostra por conveniência apresentada como representativa. Inquirir os amigos e a família e escrever "a população do concelho considera que…".
- Ignorar o erro amostral. Anunciar que "subiu de 61% para 63%" quando a margem é ±6 pontos. Não subiu nada.
- Perguntas de duas pontas (double-barrelled) e escalas enviesadas com mais opções positivas do que negativas.
- Nunca fazer pré-teste — e descobrir depois de 300 respostas que a pergunta 7 era ambígua.
- Tratar a média como se descrevesse toda a gente. A média esconde os segmentos, que é onde está a decisão.
- Confundir correlação com causalidade. As vendas de gelado e os afogamentos correlacionam-se; o gelado não afoga ninguém.
- Estudo causal sem grupo de controlo — atribuir à campanha o que era sazonalidade.
- Recolher dados pessoais a mais, sem consentimento, sem finalidade e sem prazo de conservação.
- Reidentificar sem querer — publicar "homem, 52 anos, farmacêutico de Canha" numa amostra pequena.
- Analisar só o que confirma a hipótese do cliente. Se o estudo nunca desmente ninguém, provavelmente não foi feito.
- Não procurar casos negativos no qualitativo — reportar só o padrão dominante e esconder as vozes discordantes.
- Relatório sem recomendações, ou com recomendações sem esforço, impacto e responsável.
- Gráficos com eixo cortado, circulares com 9 fatias, e percentagens com decimais sobre amostras de 30.
- Perder o dado bruto e não conseguir refazer um número quando alguém o questiona.
- Não reportar as limitações — o que faz com que a primeira pergunta difícil deite abaixo o estudo inteiro.
Glossário
| Termo | Definição |
|---|---|
| Amostra | Subconjunto da população efetivamente estudado |
| Base de sondagem | Lista concreta a partir da qual se seleciona a amostra |
| Benchmarking | Comparação sistemática com concorrentes segundo critérios definidos |
| CAWI / CATI / PAPI | Inquérito online / telefónico / em papel |
| CSAT | Índice de satisfação: % de respostas positivas numa escala |
| Desk research | Pesquisa em fontes secundárias já existentes |
| Elasticidade-preço | Variação % da procura por cada variação % do preço |
| Enviesamento (bias) | Erro sistemático que distorce o resultado numa direção |
| Estudo causal | Estudo que testa se X provoca Y, com grupo de controlo |
| Estudo descritivo | Estudo que mede e caracteriza (quantos, quem, com que frequência) |
| Estudo exploratório | Estudo que investiga um problema mal definido para gerar hipóteses |
| Focus group | Discussão moderada com 6–10 participantes |
| Hipótese | Afirmação testável que o estudo confirma ou desmente |
| Likert | Escala de concordância, tipicamente de 5 ou 7 pontos |
| Mapa percetual | Representação gráfica das marcas em dois eixos de perceção |
| Margem de erro | Intervalo dentro do qual está o valor real da população |
| Mediana | Valor que divide a distribuição ao meio |
| NPS | % promotores (9–10) − % detratores (0–6) |
| Persona | Representação concreta de um segmento, construída sobre dados |
| População / universo | Conjunto total sobre o qual se quer concluir |
| Posicionamento | Lugar que a marca ocupa na mente do consumidor face às alternativas |
| Pré-teste | Ensaio do instrumento com 8–12 pessoas antes do lançamento |
| Pseudonimização | Substituição de identificadores por códigos, com chave à parte |
| Qui-quadrado (χ²) | Teste de associação entre variáveis categóricas |
| RGPD | Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (UE 2016/679) |
| Saturação | Momento em que novas recolhas deixam de trazer informação nova |
| Segmentação | Divisão do mercado em grupos homogéneos e acionáveis |
| TAM / SAM / SOM | Mercado total / disponível / obtenível |
| Targeting | Escolha dos segmentos a servir |
| Top-2 box | % das duas respostas mais positivas de uma escala |
| Triangulação | Confirmação de um achado por mais do que um método |
| Van Westendorp | Método de 4 perguntas para determinar a faixa de preço aceitável |
Síntese
- Um estudo de mercado serve para reduzir o risco de uma decisão. Se não há decisão, não há estudo — há curiosidade.
- Delimita o mercado em produto, geografia, tempo e cliente. TAM/SAM/SOM: o número que interessa é o SOM.
- Exploratório → descritivo → causal. Nunca se mede antes de compreender, nunca se testa causa antes de descrever.
- Traduz o problema de gestão em problema de pesquisa e escreve objetivos mensuráveis com o teste "se A faço X, se B faço Y".
- Esgota os dados secundários — sobretudo os internos — antes de recolher dados primários.
- A amostra determina o que podes afirmar. 385 respostas → ±5%. Reporta sempre o n e a margem de erro.
- O questionário testa-se antes de se lançar. Uma ideia por pergunta, sem indução, com escalas equilibradas.
- Qualitativo dá o porquê e a linguagem; quantitativo dá o quanto. O padrão é misto.
- Observa em vez de perguntar sempre que o comportamento for observável.
- RGPD não é opcional: finalidade, minimização, consentimento, prazo, segurança — e anonimizar a sério.
- A média mente; os cruzamentos revelam. Testa se a diferença é real (χ²) antes de a chamar diferença.
- Correlação não é causalidade. Só um desenho com grupo de controlo permite falar de causa.
- Um segmento só serve se for mensurável, acessível, dimensionado, acionável e durável.
- A persona nasce dos dados e termina numa citação real — nunca é uma personagem inventada.
- Analisa a concorrência com critérios observáveis, incluindo a indireta e a substituta.
- O posicionamento é um lugar na cabeça do cliente, escolhido num eixo relevante e sustentado por uma prova.
- Separa dado, conclusão e recomendação. As recomendações vêm priorizadas, com esforço, impacto, responsável e prazo.
- Ficha técnica e limitações são parte do relatório, não um extra. É o que separa um estudo de uma opinião.
Exercícios resolvidos
Exercício A · Dimensionar a amostra
Uma associação com 1 800 sócios quer inquirir a satisfação com uma margem de erro de ±5% e 95% de confiança.
Resolução:
1) Amostra para população infinita:
n = 1,96² × 0,5 × 0,5 / 0,05² = 384,16 → 385
2) Correção para população finita (N = 1 800):
n_aj = 385 / (1 + (385 − 1)/1800)
= 385 / (1 + 0,2133)
= 385 / 1,2133 = 317,3 → 318 respostas
3) Quantos convites enviar? Com uma taxa de resposta esperada de 25%:
318 ÷ 0,25 = 1 272 convites. Como só há 1 800 sócios, é preciso contactar 71% da base — o que obriga a lembretes e a um canal alternativo (telefone) para os que não respondem online.
Conclusão prática: ou se aceita ±5% e se investe em taxa de resposta, ou se aceita ±6% (n≈250) e o estudo torna-se exequível. É uma decisão de gestão, não estatística — e tem de ser levada ao cliente.
Exercício B · Interpretar um cruzamento
Numa amostra de 300, à pergunta "voltaria a comprar?": residentes 68% sim (n=180), visitantes 44% sim (n=120).
Resolução:
- Diferença observada: 24 pontos percentuais.
- Margem de erro de cada subamostra:
- Residentes (n=180): 1,96 × √(0,68×0,32/180) = 1,96 × 0,0348 = ±6,8 pp → [61,2%; 74,8%]
- Visitantes (n=120): 1,96 × √(0,44×0,56/120) = 1,96 × 0,0453 = ±8,9 pp → [35,1%; 52,9%]
- Os intervalos não se sobrepõem (74,8% vs 52,9% de distância confortável) → a diferença é real, não é ruído amostral.
- Leitura de negócio: a retenção de visitantes é o problema. Sobre 120 visitantes, 67 não voltariam.
- Próximo passo: é preciso saber porquê — e isso é qualitativo. 8 entrevistas curtas a visitantes à saída, com a pergunta "o que teria de acontecer para voltar?".
Nota metodológica: ao subdividir a amostra, a margem de erro cresce. Uma amostra de 300 dá ±5,7% no total, mas ±8,9% num subgrupo de 120. Planeia a dimensão a pensar nos cruzamentos que vais precisar de fazer, não só no total.
Exercício C · Da entrevista à hipótese ao questionário
Numa entrevista, um cliente diz: "Eu ia lá mais vezes, mas nunca sei se está aberto."
Resolução — encadeamento completo:
| Passo | Produto |
|---|---|
| 1. Código | "Incerteza de horário" |
| 2. Categoria | Acessibilidade / Previsibilidade |
| 3. Hipótese | H: mais de 40% dos não-clientes desconhecem o horário de funcionamento |
| 4. Pergunta de questionário | "Sabe a que horas [loja] abre e fecha ao sábado? ( ) Sei ao certo ( ) Tenho uma ideia aproximada ( ) Não sei" |
| 5. Pergunta de validação comportamental | "Nos últimos 3 meses, alguma vez foi lá e estava fechado? ( ) Sim, uma vez ( ) Sim, mais do que uma ( ) Não" |
| 6. Análise prevista | Frequências + cruzamento com frequência de visita; χ² para testar associação |
| 7. Se H se confirmar | Recomendação: horário visível na montra + ficha Google atualizada + horário fixo (custo ~0 €, impacto alto) |
| 8. Como medir o efeito | Contagem de entradas ao sábado, 4 semanas antes vs 4 semanas depois, com o domingo como controlo de sazonalidade |
O que este exercício demonstra: uma frase de uma entrevista transforma-se numa medida, numa decisão, numa ação de custo zero e num teste de eficácia. É este percurso completo — e não a estatística isolada — que define um estudo de mercado bem feito.
Exercício D · Detetar o enviesamento
Um restaurante coloca um questionário de satisfação em QR code na mesa e obtém 4,7/5 de média em 140 respostas. Conclui que "a satisfação é excelente".
Resolução — quatro enviesamentos:
- Enviesamento de seleção. Só responde quem está lá, satisfeito o suficiente para ficar até ao fim e disponível para pegar no telemóvel. Quem se foi embora a meio da refeição não respondeu.
- Enviesamento de não-resposta. 140 respostas em quantos clientes? Se foram 3 000, é uma taxa de 4,7% — o perfil desses 140 é sistematicamente diferente.
- Enviesamento de desejabilidade social. Responder no local, à mesa, com o empregado por perto, empurra a resposta para cima. O mesmo questionário enviado por email 24h depois dá tipicamente 0,4 a 0,8 pontos abaixo.
- Efeito de teto. Numa escala de 1 a 5 com média 4,7, quase não há variância — o instrumento deixa de conseguir distinguir bom de excelente, e nenhum cruzamento vai dar diferenças.
Correções: enviar o questionário por email/SMS algumas horas depois; incluir clientes que não voltaram (a partir do CRM); usar escala de 0–10 (mais variância); acrescentar uma pergunta aberta "o que poderíamos ter feito melhor?"; e triangular com as avaliações Google, que sofrem enviesamentos opostos (quem reclama escreve mais). Se as duas fontes convergirem, a conclusão é sólida.