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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC00275

Sebenta · Planear e realizar estudos de mercado (UC00275)

Do problema de gestão às conclusões — tipologias, amostragem, questionários, focus groups, análise de dados, segmentação, personas, posicionamento e relatório
—h · — pontos crédito Curso: T. Marketing/RP, T. Vendas e Marketing ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Um estudo de mercado não serve para "saber a opinião das pessoas". Serve para reduzir a incerteza de uma decisão que custa dinheiro. Alguém vai lançar um produto, mudar um preço, abrir uma loja, refazer uma marca ou gastar orçamento numa campanha — e não sabe se vai correr bem. O estudo de mercado existe para que essa decisão seja tomada com menos risco.

Esta é a diferença entre um profissional e um amador: o amador começa por fazer um questionário; o profissional começa por escrever qual é a decisão que está em cima da mesa. Só depois escolhe o método. Um questionário mal desenhado, lançado ao público errado, tratado sem cuidado e apresentado num relatório confuso não reduz incerteza nenhuma — dá é uma falsa segurança, que é pior do que não saber nada.

Nesta UC aprendes o percurso completo: delimitar o mercado, traduzir um problema de gestão num problema de pesquisa, escolher a metodologia, construir os instrumentos (questionário, guião de entrevista, guião de focus group), recolher os dados dentro da lei, tratá-los e analisá-los com técnicas quantitativas e qualitativas, segmentar o mercado e construir personas, analisar a concorrência e definir um posicionamento, e finalmente escrever e apresentar o relatório que sustenta a recomendação.

Trabalhamos com casos reais de pequenas organizações portuguesas, porque é aí que a maioria dos técnicos de marketing vai trabalhar: com orçamento curto, amostras pequenas e prazos apertados. Aprender a fazer bem um estudo pequeno é mais útil do que aprender a admirar um estudo grande.

Objetivos de aprendizagem (referencial): colaborar no planeamento dos estudos de mercado a realizar; tratar e analisar dados sobre público-alvo e concorrência; colaborar na elaboração do relatório com as conclusões do estudo de mercado.

Como usar esta sebenta

Cada capítulo tem teoria curta, exemplos resolvidos passo-a-passo e tabelas de decisão. No fim há erros comuns, glossário, síntese e exercícios resolvidos. As fichas 01 e 02 e o mini-projeto aplicam tudo isto a um caso concreto.


1. O mercado: delimitar antes de estudar

1.1 O que é um mercado

Em marketing, mercado não é um sítio — é o conjunto de pessoas ou organizações com uma necessidade, com capacidade de compra e com acesso à oferta. As três condições contam. Quem tem vontade mas não tem dinheiro não é mercado. Quem tem dinheiro mas não consegue chegar ao produto também não.

Antes de estudar seja o que for, é preciso delimitar. Um estudo sobre "o mercado do café" é impossível. Um estudo sobre "o consumo de café fora de casa, ao pequeno-almoço, em cafetarias do centro do Montijo, por residentes ativos entre os 25 e os 55 anos" é fazível.

A delimitação tem quatro eixos:

Eixo Pergunta Exemplo
Produto/necessidade Que necessidade se satisfaz? Café fora de casa ao pequeno-almoço
Geográfico Que território? Centro do Montijo, raio de 800 m
Temporal Que período? Dias úteis, 7h–11h, época baixa
Cliente Quem? Residentes ativos 25–55 anos

1.2 Mercado atual, potencial e a cascata TAM–SAM–SOM

Nem todo o mercado está ao alcance de uma empresa. Usa-se uma cascata em três níveis:

Nível Significa Exemplo (padaria com fabrico próprio no Montijo)
TAM (Total Addressable Market) Todo o mercado teórico da categoria Pão e pastelaria consumidos no concelho: ~55 000 residentes × 0,55 €/dia ≈ 11 M€/ano
SAM (Serviceable Available Market) A parte que a empresa consegue servir com o que tem Freguesia do Montijo + Afonsoeiro, compra em loja física: ≈ 3,4 M€/ano
SOM (Serviceable Obtainable Market) A parte que é realista conquistar num prazo 6% do SAM em 2 anos ≈ 204 000 €/ano

Regra: um plano de negócios que apresenta o TAM como se fosse a faturação prevista está a mentir — normalmente sem querer. O número que interessa é o SOM, e tem de ser justificado.

1.3 Quota de mercado e quota relativa

Exemplo: num mercado local de 2 400 000 €, a empresa vende 168 000 € e o líder vende 600 000 €. Quota = 168 000 ÷ 2 400 000 = 7%. Quota relativa = 7 ÷ 25 = 0,28 — a empresa tem pouco mais de um quarto do tamanho do líder.

A quota relativa diz mais do que a quota absoluta: 7% num mercado com um líder de 25% é uma posição frágil; 7% num mercado atomizado onde o maior tem 9% é uma posição competitiva.

1.4 Procura, oferta e elasticidade

A procura é a quantidade que o mercado compra a um dado preço. A elasticidade-preço da procura mede o quanto a procura reage a uma variação de preço:

Elasticidade = variação % da quantidade ÷ variação % do preço

Exemplo resolvido. Uma cafetaria sobe o galão de 1,00 € para 1,10 € (+10%). As vendas diárias caem de 300 para 270 unidades (−10%).

Elasticidade = −10% ÷ +10% = −1,0 → procura de elasticidade unitária. A receita mantém-se: 300 × 1,00 = 300 €; 270 × 1,10 = 297 €. Praticamente igual.

Este é um dos números que um estudo de preço procura estimar — e é um número que muda por segmento: o cliente habitual de todos os dias é mais sensível ao preço do galão do que o visitante ocasional.


2. Tipologia de estudos de mercado

2.1 Os três grandes tipos, pelo grau de conhecimento

Toda a tipologia se organiza por uma pergunta simples: quanto é que já sabemos?

Tipo Quando se usa Pergunta típica Métodos Resultado
Exploratório Não sabemos quase nada; o problema é vago "Porque é que os clientes deixaram de vir?" Entrevistas, focus groups, observação, desk research Hipóteses, linguagem do consumidor, pistas
Descritivo Já sabemos o que perguntar; queremos medir "Quantos? Quem? Com que frequência?" Questionário a amostra, painéis, dados de vendas Números, percentagens, perfis, segmentos
Causal Queremos saber se X provoca Y "Se baixar o preço 10%, as vendas sobem?" Experiências, testes A/B, mercados-teste Relação de causa e efeito

A ordem natural é exploratório → descritivo → causal. Fazer um questionário antes de qualquer exploração é a causa nº 1 de questionários que perguntam o que não interessa.

2.2 Catálogo de estudos por objetivo

O referencial elenca uma família de estudos aplicados. Todos assentam nos três tipos acima; mudam o objetivo e os indicadores.

Estudo Responde a Indicadores típicos
Segmentação de mercado Que grupos distintos existem? Dimensão, valor e perfil de cada segmento
Tendências de mercado Para onde vai a categoria? Séries temporais, taxa de crescimento anual
Aceitação de produto Este produto interessa a alguém? Intenção de compra, top-2 box, preferência
Preço e elasticidade Quanto podemos cobrar? Preço ótimo, faixa aceitável, elasticidade
Concorrência Contra quem competimos e como? Quotas, mapa competitivo, benchmarking
Comportamento do consumidor Como decide e porquê? Jornada, gatilhos, travões, critérios de escolha
Satisfação de clientes Estamos a cumprir? CSAT, NPS, taxa de retenção, motivos de queixa
Posicionamento da marca Que lugar ocupamos na cabeça de quem compra? Mapa percetual, atributos associados
Imagem da marca O que é que a marca evoca? Notoriedade espontânea/assistida, associações
Penetração no mercado Que fatia já usamos? % de clientes na população-alvo, frequência
Eficácia das campanhas A campanha resultou? Recordação, atribuição, ROI, lift de vendas

2.3 Exemplo resolvido — escolher o tipo certo

Situação: Uma loja de produtos regionais no Montijo teve uma quebra de 18% nas vendas no último trimestre. A gerência acha que "é do preço" e quer fazer um questionário sobre preços.

Análise. A gerência já saltou para uma hipótese sem base. A quebra pode ser preço, mas também pode ser: obras na rua, um concorrente novo, mudança de horário, quebra de qualidade, ou perda de um cliente institucional.

Sequência correta:

  1. Desk research (1 dia) — cruzar vendas por categoria, por dia da semana e por hora com o histórico. Se a quebra é só ao sábado de manhã, não é preço.
  2. Exploratório (1 semana) — 8 entrevistas curtas: 4 a clientes habituais que reduziram a frequência, 4 a clientes que deixaram de vir (identificados pelo cartão de cliente).
  3. Descritivo (2 semanas) — só depois, questionário a 200 pessoas para medir o peso de cada causa levantada.
  4. Causal (opcional) — se o preço aparecer confirmado, testar durante 3 semanas um preço mais baixo em duas referências, comparando com referências de controlo.

Conclusão: começar pelo questionário de preços custaria 3 semanas e daria uma resposta a uma pergunta que talvez nem seja a certa.


3. Planear o estudo: do problema de gestão ao problema de pesquisa

3.1 A tradução que faz a diferença

Existem sempre dois problemas, e confundi-los estraga o estudo:

Problema de gestão Problema de pesquisa
Formulação Orientada à ação Orientada à informação
Quem o tem O decisor O investigador
Exemplo "Devemos abrir ao domingo?" "Qual é a procura potencial ao domingo, que perfil tem e que ticket médio pratica?"
Exemplo "Devemos lançar a gama sem glúten?" "Que dimensão tem o segmento com restrição alimentar no concelho, que preço aceita e onde compra hoje?"

3.2 As sete etapas do planeamento

O referencial define o planeamento como: definição de objetivos → escolha da metodologia → escolha dos instrumentos → recolha → tratamento da informação → sistematização → conclusões. Na prática usa-se esta grelha:

  1. Definir o problema de gestão (a decisão a tomar e o seu prazo).
  2. Traduzir em objetivos de pesquisa — um geral, 3 a 5 específicos, todos mensuráveis.
  3. Formular hipóteses — afirmações que o estudo pode confirmar ou desmentir.
  4. Escolher a metodologia — qualitativa, quantitativa ou mista; primária ou secundária.
  5. Escolher os instrumentos e a amostra — questionário/guião, dimensão, método de seleção.
  6. Planear o tratamento — como vão ser codificados e analisados os dados, antes de os recolher.
  7. Definir entregáveis, prazos e orçamento — e quem decide o quê.

Teste de utilidade: para cada pergunta do estudo, escreve "se a resposta for A faço X; se for B faço Y." Se não conseguires escrever, a pergunta não serve — é curiosidade, não é pesquisa.

3.3 Objetivos bem escritos

✗ Mau objetivo ✓ Bom objetivo
"Perceber os clientes" "Caracterizar a frequência de compra e o ticket médio dos clientes de 25–55 anos, por segmento"
"Saber se gostam do produto" "Medir a intenção de compra do novo pão de mistura a 1,60 €, numa escala de 5 pontos, em amostra de 200 residentes"
"Estudar a concorrência" "Comparar preço, horário, gama e serviço dos 5 concorrentes diretos num raio de 800 m"

3.4 O briefing de estudo (modelo de 10 pontos)

  1. Organização e contexto — quem pede e porquê, agora.
  2. Decisão em causa — o que vai acontecer com o resultado.
  3. Objetivo geral e objetivos específicos.
  4. Hipóteses a testar.
  5. População-alvo e critérios de inclusão/exclusão.
  6. Metodologia e justificação.
  7. Instrumentos e amostra prevista.
  8. Plano de tratamento dos dados.
  9. Prazos, marcos e orçamento.
  10. Entregáveis (relatório, apresentação, base de dados) e critérios de qualidade.

3.5 Exemplo resolvido — briefing completo

Pedido: "A Adega Cooperativa quer saber se vale a pena abrir uma loja com prova de vinhos ao público."

Ponto Preenchimento
Decisão Investir 45 000 € na conversão de um armazém em loja+prova, decisão até 30 de setembro
Objetivo geral Avaliar a viabilidade comercial de uma loja com prova junto do público residente e visitante
Obj. específico 1 Estimar a procura potencial mensal (nº de visitas e ticket médio)
Obj. específico 2 Identificar e dimensionar os segmentos interessados
Obj. específico 3 Determinar a faixa de preço aceitável para a prova (3 vinhos + queijo)
Obj. específico 4 Caracterizar a oferta concorrente num raio de 25 km
Hipótese 1 Existe um segmento de visitantes de fim de semana com disposição a pagar ≥ 12 € pela prova
Hipótese 2 O residente do concelho procura sobretudo compra de garrafa, não prova
Metodologia Mista: 10 entrevistas + observação de 3 concorrentes + questionário a 250 pessoas
Amostra 250 respostas, quotas por idade e residência; erro ≈ ±6,2% a 95%
Tratamento Frequências, cruzamentos por segmento, Van Westendorp para preço, análise temática das entrevistas
Prazo 6 semanas · Orçamento 1 800 €
Entregáveis Relatório 20 pág. + apresentação 15 min + base de dados anonimizada

4. Metodologias: qualitativo, quantitativo e fontes de dados

4.1 Qualitativo vs quantitativo

Qualitativo Quantitativo
Pergunta Porquê? Como? Quantos? Quanto? Com que frequência?
Amostra Pequena (5–30), intencional Grande, representativa
Dados Palavras, imagens, comportamentos Números
Instrumentos Entrevista, focus group, observação Questionário, painel, dados de vendas
Análise Codificação, análise de conteúdo Estatística
Resultado Hipóteses, compreensão, linguagem Medida, projeção, teste de hipóteses
Limite Não permite generalizar Não explica o porquê

Não são rivais: são sequência. O qualitativo diz-te o que perguntar; o quantitativo diz-te quanto pesa. O estudo misto (mixed methods) é hoje o padrão.

4.2 Fontes primárias e secundárias

Regra de ouro: nunca se recolhem dados primários antes de esgotar os secundários. É desperdício.

Fontes secundárias úteis em Portugal:

Fonte O que dá
INE População, censos, rendimento, despesa das famílias, alojamento
PORDATA Séries por concelho, comparáveis no tempo
Banco de Portugal (Central de Balanços) Rácios setoriais, faturação média por CAE
INE / Estatísticas do turismo Dormidas, proveitos, sazonalidade
Racius / Informa D&B Dados de empresas concorrentes
Câmara municipal e juntas Licenciamentos, eventos, fluxos, planos
Associações setoriais Volumes, tendências, preços de referência
Google Trends / Keyword Planner Interesse de pesquisa ao longo do tempo
Dados internos da empresa Vendas, CRM, reclamações, devoluções, tráfego

Os dados internos são a fonte secundária mais subaproveitada. Uma empresa com 3 anos de talões tem lá dentro sazonalidade, cesta média, elasticidade e retenção — de graça.

4.3 Avaliar a qualidade de uma fonte secundária

Cinco perguntas obrigatórias:

  1. Quem produziu e com que interesse? (um estudo sobre vinho pago por produtores de vinho não é neutro)
  2. Quando? Dados de 2019 sobre hábitos de consumo estão desatualizados.
  3. Como foi recolhido? Amostra? Dimensão? Método?
  4. Sobre quem? A população coincide com a tua?
  5. Está acessível o método, ou só o número bonito do comunicado de imprensa?

5. Amostragem

5.1 Conceitos

5.2 Métodos de amostragem

Probabilísticos (todos têm probabilidade conhecida de ser escolhidos → permitem inferência estatística):

Método Como Quando
Aleatória simples Sorteio da lista completa Existe lista fiável
Sistemática 1 em cada k a partir de um início aleatório Fluxo contínuo (clientes à entrada)
Estratificada Divide-se em estratos e sorteia-se dentro de cada um População heterogénea e conhecida
Por clusters Sorteiam-se grupos inteiros (ruas, turmas) Território disperso, poupa custo

Não probabilísticos (mais baratos, sem inferência formal):

Método Como Risco
Por conveniência Quem estiver à mão Enviesamento grave
Por quotas Respeitar proporções conhecidas (sexo, idade) Bom compromisso prático
Bola de neve Cada inquirido indica outros Públicos difíceis de alcançar
Intencional Escolha de casos ricos em informação Padrão no qualitativo

Em estudos qualitativos, a amostragem intencional não é uma falha — é o método correto. O objetivo não é representar, é compreender.

5.3 Dimensão da amostra e margem de erro

Para uma proporção, com população grande:

n = Z² × p × (1−p) / e²

Onde Z = 1,96 (95% de confiança), p = proporção esperada (usa-se 0,5 no pior caso), e = margem de erro.

Exemplo resolvido 1 — quantos inquéritos preciso? Queremos ±5% de erro, 95% de confiança, sem ideia da proporção.

n = 1,96² × 0,5 × 0,5 / 0,05²
n = 3,8416 × 0,25 / 0,0025
n = 0,9604 / 0,0025 = 384,16 → 385 respostas

Correção para população finita (quando a população é pequena):

n_ajustado = n / (1 + (n − 1) / N)

Exemplo resolvido 2 — população de 4 000 sócios.

n_ajustado = 385 / (1 + 384 / 4000) = 385 / 1,096 = 351 respostas

Exemplo resolvido 3 — margem de erro de uma amostra já recolhida. Recolheram-se 250 respostas numa população grande; 62% respondeu "sim".

e = 1,96 × √(0,62 × 0,38 / 250) = 1,96 × √(0,000942) = 1,96 × 0,0307 = 0,0602

Erro ≈ ±6,0 pontos → o valor real está entre 56% e 68%. Isto muda a leitura: "a maioria diz que sim" é seguro; "62% exatamente" não é.

Amostra Margem de erro (95%, p=0,5)
100 ±9,8%
200 ±6,9%
385 ±5,0%
600 ±4,0%
1 067 ±3,0%

Repara: passar de 385 para 1 067 respostas (quase 3×) só melhora o erro de 5% para 3%. A precisão é cara. Para decisões de pequena empresa, 200–300 respostas bem recolhidas chegam quase sempre.

5.4 Taxa de resposta e enviesamento de não-resposta

Se enviares 1 000 emails e responderem 80, tens 8% de taxa de resposta — e um problema: quem responde não é igual a quem não responde. Costumam responder os muito satisfeitos e os muito insatisfeitos. Mitigações: lembretes, incentivo simbólico, canal alternativo (presencial/telefone) e comparação do perfil dos respondentes com o perfil conhecido da população.


6. Questionários

6.1 Estrutura de um questionário

  1. Introdução — quem faz, para quê, duração, confidencialidade, RGPD, consentimento.
  2. Perguntas-filtro — garantem que o inquirido pertence à população.
  3. Perguntas gerais (fáceis, de aquecimento).
  4. Perguntas centrais (o núcleo dos objetivos).
  5. Perguntas sensíveis (rendimento, comportamentos) — no fim.
  6. Caracterização (idade, freguesia, ocupação) — no fim.
  7. Agradecimento e contacto.

6.2 Tipos de pergunta

Tipo Exemplo Vantagem Cuidado
Aberta "O que o levou a escolher esta loja?" Linguagem do consumidor Cara de codificar
Fechada dicotómica "Já comprou aqui? Sim/Não" Rápida Perde nuance
Escolha múltipla "Onde costuma comprar pão?" Fácil de tratar Lista tem de ser exaustiva + "Outro"
Escala de Likert "Concordo totalmente … Discordo totalmente" (5 ou 7 pontos) Mede intensidade Tendência para o meio
Diferencial semântico Caro 1–2–3–4–5–6–7 Barato Mede perceção de imagem Adjetivos têm de ser opostos reais
Ordenação "Ordene por importância" Força prioridades Cansativo acima de 5 itens
Soma constante "Distribua 100 pontos" Mede peso relativo Exige atenção
NPS "0 a 10, recomendaria?" Comparável, conhecido Não explica porquê — junta sempre um "porquê?"

6.3 Escalas — como se calculam

Likert (5 pontos): 1 = Discordo totalmente … 5 = Concordo totalmente. Reporta-se: média, e sobretudo o top-2 box (% de 4 e 5).

NPS (Net Promoter Score):

Promotores (9–10) %  −  Detratores (0–6) %  =  NPS

Exemplo resolvido. 200 respostas: 96 deram 9–10; 64 deram 7–8; 40 deram 0–6.

Promotores = 96/200 = 48%
Detratores = 40/200 = 20%
NPS = 48 − 20 = +28

Os passivos (7–8) não contam para a fórmula — mas contam para a leitura: 32% de passivos é um bloco grande de clientes que não muda de fornecedor por lealdade, muda por conveniência.

CSAT (satisfação): % de respostas 4 e 5 numa escala de 1 a 5.

6.4 Redigir perguntas: as sete regras

  1. Uma ideia por pergunta. ✗ "A loja é agradável e barata?" (double-barrelled — se for agradável e cara, o que responde?)
  2. Sem palavras enviesadas. ✗ "Concorda com o injusto aumento do preço?"
  3. Sem pressupostos. ✗ "Com que frequência compra aqui?" antes de saber se compra.
  4. Linguagem do inquirido. ✗ "Qual o seu grau de engagement com a brand?"
  5. Opções exaustivas e mutuamente exclusivas. ✗ Idades "18–25, 25–35" (quem tem 25?)
  6. Cuidado com a memória. ✗ "Quantos cafés bebeu no último ano?" → ✓ "na última semana".
  7. Neutralidade nas escalas — mesmo número de opções positivas e negativas.

6.5 Exemplo resolvido — corrigir um questionário

Original: 1. "Não acha que os nossos preços são justos?" 2. "Com que frequência visita a nossa excelente loja?" ( ) Muitas vezes ( ) Poucas vezes 3. "Idade: ( ) 18–30 ( ) 30–45 ( ) 45+" 4. "Qual o seu rendimento mensal?"

Problemas e correções:

# Problema Versão corrigida
1 Dupla negativa + indução da resposta "Relativamente à qualidade que recebe, os preços desta loja parecem-lhe: Muito caros / Caros / Adequados / Baratos / Muito baratos"
2 Adjetivo elogioso + escala vaga e subjetiva "Nos últimos 30 dias, quantas vezes comprou nesta loja? ( ) 0 ( ) 1–2 ( ) 3–5 ( ) 6–10 ( ) Mais de 10"
3 Escalões sobrepostos "18–29 / 30–44 / 45–59 / 60 ou mais"
4 Pergunta sensível, aberta e logo no início Passar para o fim, fechada em escalões, com opção "Prefiro não responder"

Falta ainda: pergunta-filtro no início ("É residente no concelho?"), consentimento RGPD e estimativa de duração.

6.6 Pré-teste

Nunca se lança um questionário sem pré-teste. 8 a 12 pessoas do perfil-alvo respondem enquanto se observa: onde hesitam, o que reinterpretam, quanto tempo demoram. Corrigem-se as perguntas e só depois se lança. Um pré-teste custa 2 horas e evita perder 300 respostas inúteis.


7. Entrevistas e focus groups

7.1 Entrevista em profundidade

Conversa individual de 30 a 60 minutos, com guião semiestruturado: temas fixos, perguntas flexíveis.

Estrutura do guião:

  1. Aquecimento — apresentação, consentimento, gravação, "não há respostas erradas".
  2. Contexto — rotina, hábitos, enquadramento.
  3. Núcleo — a experiência concreta: "conte-me a última vez que…".
  4. Aprofundamento — porquês, comparações, alternativas consideradas.
  5. Projeção — cenários hipotéticos, reação a conceitos.
  6. Fecho — "o que é que eu não lhe perguntei e devia ter perguntado?"

Técnicas de moderação:

7.2 Focus group

Discussão de grupo com 6 a 10 participantes, 60 a 120 minutos, conduzida por um moderador.

Bom para Mau para
Gerar ideias e linguagem Temas íntimos ou embaraçosos
Reagir a conceitos, embalagens, anúncios Medir frequências
Ver como as opiniões se formam em interação Quando há um líder de opinião a dominar

Regras práticas:

7.3 Saturação

Não há fórmula para o número de entrevistas. Usa-se o critério de saturação teórica: para quando duas ou três entrevistas seguidas deixam de trazer categorias novas. Na prática, 8 a 15 entrevistas por segmento cobrem a maioria dos casos, e 3 a 4 focus groups por público.


8. Observação, testes e estudos causais

8.1 Observação

Registar comportamento em vez de perguntar por ele — porque o que as pessoas dizem que fazem e o que fazem são coisas diferentes.

Tipo Exemplo
Estruturada Grelha: quantos entram, quantos compram, tempo médio na loja
Não estruturada Notas etnográficas sobre o percurso do cliente
Participante O investigador é cliente (mystery shopping)
Mecânica Contadores de pessoas, mapas de calor, analytics do site

Exemplo resolvido — taxa de conversão em loja. Em 3 dias contaram-se 412 entradas e 173 talões. Conversão = 173 ÷ 412 = 42%. Ticket médio 8,40 € → receita por visitante = 0,42 × 8,40 = 3,53 €. Este número permite avaliar se vale a pena investir em atrair tráfego (montra, campanha) ou em converter melhor quem já entra (atendimento, layout).

8.2 Testes de conceito e de produto

8.3 Estudos de preço

Van Westendorp (4 perguntas): a que preço acha o produto (1) demasiado barato para ter qualidade, (2) barato/bom negócio, (3) caro mas ainda aceitável, (4) demasiado caro para comprar. Cruzando as curvas obtém-se uma faixa de preço aceitável e um ponto de preço ótimo.

Gabor-Granger: mostra-se um preço e pergunta-se a intenção de compra; sobe-se e desce-se o preço até traçar a curva de procura e a receita máxima.

Exemplo resolvido — Gabor-Granger simplificado. Numa amostra de 200 pessoas:

Preço % que compraria Compradores estimados Receita
10 € 78% 156 1 560 €
12 € 61% 122 1 464 €
14 € 44% 88 1 232 €
16 € 25% 50 800 €

A receita máxima está a 10 €, mas repara: entre 10 € e 12 € a receita cai apenas 6% enquanto o número de clientes servidos cai 22%. Se a margem unitária for maior a 12 € (menos custo variável total), 12 € pode ser a melhor decisão de lucro. Receita não é lucro.

8.4 Experiências e testes A/B

Um estudo causal exige: um grupo de teste, um grupo de controlo, e apenas uma variável a mudar.

Exemplo resolvido. Testar se uma montra nova aumenta as entradas. Duas lojas semelhantes: A (nova montra) e B (controlo). Duas semanas antes e duas semanas depois.

Antes Depois Variação
Loja A (teste) 380 entradas 456 +20%
Loja B (controlo) 402 422 +5%

Efeito líquido = +20% − 5% = +15 pontos. Sem o grupo de controlo, teríamos atribuído os 20% à montra, quando 5% eram sazonalidade. É para isto que serve o controlo.


9. Proteção de dados, ética e normas de qualidade

9.1 RGPD em estudos de mercado

O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD, UE 2016/679) e a Lei n.º 58/2019 aplicam-se a qualquer recolha de dados pessoais — incluindo um questionário de escola.

Princípios que tens de conseguir demonstrar:

Princípio Na prática
Licitude e transparência Dizer quem recolhe, para quê e por quanto tempo
Limitação da finalidade Dados recolhidos para o estudo não vão para a lista de email do marketing
Minimização Não perguntar a morada se só precisas da freguesia; não pedir o nome se não precisas
Exatidão Corrigir dados errados
Limitação da conservação Definir prazo (ex.: apagar gravações 6 meses após o relatório)
Integridade e confidencialidade Ficheiros protegidos, não em pen partilhada

Consentimento válido é livre, específico, informado e inequívoco — e tem de poder ser retirado. Caixa pré-marcada não vale.

Dados sensíveis (saúde, religião, orientação sexual, opiniões políticas, dados biométricos) exigem consentimento explícito e uma justificação forte. Numa UC de marketing, a regra prática é não os recolher.

Menores: consentimento do titular das responsabilidades parentais para menores de 13 anos (em Portugal).

Texto-tipo de consentimento (para o topo do questionário):

Este questionário faz parte de um estudo de mercado realizado por [entidade], para avaliar [finalidade]. Demora cerca de 6 minutos. As respostas são anónimas e tratadas apenas de forma agregada; não é recolhido nome, contacto ou qualquer dado que o identifique. Os dados são conservados até [data] e depois eliminados. A participação é voluntária e pode desistir a qualquer momento. Responsável pelo tratamento: [nome/email]. Ao continuar, declara que leu esta informação e aceita participar.

9.2 Anonimização e pseudonimização

Atenção ao risco de reidentificação por cruzamento: "mulher, 34 anos, veterinária, Canha" identifica uma pessoa mesmo sem nome. Em amostras pequenas, agrega-se: "mulher, 30–39 anos, profissão liberal, concelho do Montijo".

9.3 Ética profissional

O Código ICC/ESOMAR define as regras da profissão. As essenciais:

9.4 Normas de qualidade

A NP EN ISO 20252 (estudos de mercado, sociais e de opinião) define requisitos de qualidade do processo. As exigências que se aplicam a qualquer estudo, mesmo pequeno:


10. Tratamento e análise de dados quantitativos

10.1 Da resposta à base de dados

  1. Codificar — cada pergunta é uma variável (coluna), cada resposta uma linha. Códigos numéricos para as opções (1=Sim, 2=Não, 99=NS/NR).
  2. Limpar — remover duplicados, respostas incompletas abaixo do limiar, tempos absurdos (respondeu a 40 perguntas em 45 segundos), respostas em linha reta (straightlining: tudo "3").
  3. Tratar não-respostas — decidir e documentar: excluir, ou imputar pela mediana.
  4. Recodificar — criar variáveis novas: escalões etários, índice de satisfação, segmento.

Nunca se apaga a base original. Trabalha-se sempre numa cópia, com um registo das transformações feitas.

10.2 Estatística descritiva

Medida O que diz Cuidado
Média Valor central "de equilíbrio" Destruída por valores extremos
Mediana O valor do meio Preferível quando há extremos (rendimentos, gastos)
Moda O mais frequente Única medida válida para variáveis nominais
Desvio-padrão Dispersão em torno da média Média igual + desvios diferentes = realidades diferentes
Amplitude Máximo − mínimo Sensível a um só caso
Percentis / quartis Posição relativa Ótimos para descrever distribuições

Exemplo resolvido — quando a média mente. Gasto mensal declarado por 9 clientes (€): 12, 15, 18, 20, 22, 25, 28, 30, 350

Reportar "gasto médio de 58 €" seria enganador — 8 dos 9 clientes gastam menos de 31 €. Reporta-se a mediana e menciona-se o caso atípico (que, aliás, deve ser investigado: é um cliente institucional? é um erro de digitação?).

10.3 Frequências e percentagens

Resposta n % % válida
Sim 118 47,2 49,6
Não 120 48,0 50,4
NS/NR 12 4,8
Total 250 100 100

A % válida exclui os NS/NR e é a que se usa na análise. Reportar sempre o n — "49,6%" sobre 250 é diferente de "49,6%" sobre 12.

10.4 Cruzamentos (tabelas de contingência)

Exemplo resolvido. Intenção de comprar a nova gama, por escalão etário (n=250):

Sim Não Total % Sim
18–34 74 36 110 67%
35–54 32 58 90 36%
55+ 12 38 50 24%
Total 118 132 250 47%

Leitura: a média global (47%) esconde tudo. O produto interessa aos 18–34 e é indiferente aos 55+. Uma decisão tomada sobre a média — "só metade quer, não avançamos" — seria errada: há um segmento com 67% de intenção que sustenta um lançamento dirigido.

Percentua-se sempre na direção da causa: aqui a idade "explica" a intenção, logo percentua-se por linha (dentro de cada escalão).

10.5 Testar se a diferença é real: qui-quadrado

O qui-quadrado (χ²) testa se duas variáveis categóricas estão associadas ou se a diferença observada pode ser fruto do acaso.

χ² = Σ (Observado − Esperado)² / Esperado
Esperado = (total da linha × total da coluna) / total geral

Exemplo resolvido, célula a célula (tabela acima, 2 colunas × 3 linhas):

Esperados: - 18–34 / Sim = (110 × 118) / 250 = 51,9 → Não = 58,1 - 35–54 / Sim = (90 × 118) / 250 = 42,5 → Não = 47,5 - 55+ / Sim = (50 × 118) / 250 = 23,6 → Não = 26,4

χ² = (74−51,9)²/51,9 + (36−58,1)²/58,1 + (32−42,5)²/42,5 + (58−47,5)²/47,5 + (12−23,6)²/23,6 + (38−26,4)²/26,4 χ² = 9,41 + 8,41 + 2,59 + 2,32 + 5,70 + 5,10 = 33,5

Graus de liberdade = (3−1) × (2−1) = 2. O valor crítico a 95% é 5,99. Como 33,5 > 5,99, rejeita-se a independência: a intenção de compra está associada à idade, e a diferença não é obra do acaso.

No relatório escreve-se: "A intenção de compra difere significativamente por escalão etário (χ²=33,5; gl=2; p<0,001)."

10.6 Correlação

O coeficiente de correlação de Pearson (r) mede a força e o sentido da relação linear entre duas variáveis numéricas. Varia de −1 a +1.

| |r| | Interpretação | |---|---| | 0,0–0,2 | Muito fraca | | 0,2–0,4 | Fraca | | 0,4–0,6 | Moderada | | 0,6–0,8 | Forte | | 0,8–1,0 | Muito forte |

Exemplo: r = 0,71 entre "satisfação com o atendimento" e "intenção de recompra" → relação forte e positiva. Mas correlação não é causalidade: pode ser a simpatia que gera recompra, pode ser quem já é fiel avaliar melhor o atendimento, ou pode haver uma terceira variável (a qualidade geral) a explicar as duas.

10.7 Índices compostos

Quando várias perguntas medem a mesma dimensão, constrói-se um índice — média das respostas, eventualmente ponderada.

Exemplo: Índice de Satisfação = (Qualidade×0,4) + (Atendimento×0,3) + (Preço×0,2) + (Rapidez×0,1), com todas as variáveis em escala 1–5. Um cliente com 5, 4, 3, 4 → (2,0 + 1,2 + 0,6 + 0,4) = 4,2. As ponderações devem vir do estudo (por exemplo, da importância declarada), não da intuição de quem faz as contas.


11. Análise de dados qualitativos

11.1 Do áudio ao dado

  1. Transcrever — integral para excertos citáveis; por temas quando o volume é grande. Ferramentas de transcrição automática poupam 70% do tempo, mas exigem revisão.
  2. Anonimizar — substituir nomes por códigos (E01, P3-M).
  3. Ler tudo antes de codificar. Duas vezes.

11.2 Análise de conteúdo e codificação

Codificar é atribuir etiquetas a segmentos de texto. Duas abordagens:

Na prática combinam-se: parte-se de categorias dos objetivos e acrescentam-se as que aparecem.

Livro de códigos (obrigatório): cada código com nome, definição, critério de inclusão, critério de exclusão e um exemplo.

11.3 Exemplo resolvido — matriz temática

Excertos de 6 entrevistas sobre a razão de não comprar numa loja de bairro:

Excerto (codificado) Código Categoria
E01: "nunca sei se está aberto ao sábado" Incerteza de horário Acessibilidade
E03: "fecho às 19h e eles já fecharam" Horário incompatível Acessibilidade
E02: "não tenho onde estacionar dois minutos" Estacionamento Acessibilidade
E04: "acho tudo mais caro, mas nunca comparei" Preço percebido Preço
E05: "no supermercado vejo o preço, ali tenho de perguntar" Falta de preços visíveis Preço / Transparência
E06: "sinto que tenho de comprar se entro" Pressão social Experiência
E02: "gosto de saber que é da terra" Origem local Valor simbólico

Contagem por categoria (6 entrevistas): Acessibilidade 3/6 · Preço 2/6 · Experiência 1/6 · Valor simbólico 1/6.

Conclusão qualitativa: o obstáculo dominante não é o preço — é a acessibilidade (horário, previsibilidade, estacionamento) e a opacidade dos preços. E há um ativo por explorar: o valor simbólico do local.

Hipóteses para o questionário quantitativo que se segue: - H1: mais de 50% dos não-clientes desconhecem o horário de sábado. - H2: a perceção de "mais caro" existe mesmo em quem nunca comparou preços. - H3: a afixação visível de preços aumenta a intenção de entrar.

Repara no encadeamento: o qualitativo produziu as hipóteses e a linguagem exata ("nunca sei se está aberto") que vão para o questionário. É assim que se ligam os dois métodos.

11.4 Rigor no qualitativo


12. Segmentação de mercado e personas

12.1 Porquê segmentar

Segmentar é dividir um mercado heterogéneo em grupos internamente homogéneos, para poder servir cada um com uma proposta adequada. Sem segmentação, a comunicação fala para uma média que não existe.

12.2 As quatro etapas (referencial)

  1. Escolher os critérios de segmentação.
  2. Descrever as características de cada segmento.
  3. Escolher um ou mais segmentos-alvo (targeting).
  4. Definir a política de marketing para cada segmento (mix adaptado).

12.3 Critérios de segmentação

Família Variáveis Exemplo
Geográfica Região, concelho, urbano/rural, clima Residentes vs visitantes de fim de semana
Demográfica Idade, sexo, dimensão do agregado, ciclo de vida familiar Famílias com filhos < 6 anos
Socioeconómica Rendimento, escolaridade, profissão Quadros e profissões liberais
Psicográfica Estilo de vida, valores, personalidade Preocupados com sustentabilidade
Comportamental Frequência, volume, ocasião de uso, fidelidade, benefício procurado Compradores só em ocasiões especiais

Os critérios comportamentais e de benefício procurado são normalmente os mais acionáveis. "Mulheres 25–34" não diz o que fazer; "quem compra para oferecer" diz — embalagem, cartão, hora de pico.

12.4 Um segmento tem de ser (teste MADAR)

Critério Pergunta
Mensurável Consigo estimar quantos são e quanto valem?
Acessível Consigo chegar-lhes por algum canal?
Dimensão suficiente Compensa financeiramente servi-lo?
Acionável Consigo fazer algo de diferente para eles?
Rentável / durável Vai existir daqui a 2 anos?

Um segmento que falha qualquer destes critérios é uma curiosidade estatística, não um alvo.

12.5 Exemplo resolvido — segmentar uma clientela

Caso: cafetaria com padaria própria; 250 questionários; variáveis: frequência semanal, ticket médio, momento de consumo, motivo principal.

Cruzando frequência × motivo, emergem quatro grupos:

Segmento % da amostra Frequência Ticket Motivo dominante Valor anual estimado
Rotina matinal 31% 5×/semana 2,10 € Rapidez e hábito 546 €/cliente
Pausa social 24% 2×/semana 4,80 € Estar com alguém 499 €/cliente
Compra de pão 28% 4×/semana 3,20 € Abastecimento 666 €/cliente
Fim de semana/ocasião 17% 0,5×/semana 12,40 € Prazer, oferta 322 €/cliente

Targeting. O segmento de maior valor unitário é "Compra de pão" (666 €/ano). O de maior potencial de crescimento é "Pausa social", porque tem o ticket mais elástico (uma sugestão de bolo sobe 1,50 €) e ocupa mesas em horas mortas.

Política de marketing por segmento:

Segmento Produto Preço Distribuição Comunicação
Rotina matinal Menu café+torrada pré-montado 2,20 € fixo Balcão dedicado 7h30–9h30 Cartaz "em 90 segundos"
Pausa social Bolos de fatia, chá de folha Margem alta Mesas, esplanada Instagram, 15h–17h
Compra de pão Pão do dia + encomenda Cartão 10+1 Fila rápida separada SMS de encomenda
Fim de semana Brunch, cabaz de oferta Pacote 15–25 € Reserva Parceria com turismo local

12.6 Personas

Uma persona é a representação de um segmento sob a forma de uma pessoa concreta, construída a partir de dados — nunca inventada. Serve para que a equipa decida pensando em alguém e não numa percentagem.

Uma persona bem feita tem:

Exemplo resolvido — persona do segmento "Pausa social":

Sandra Marques, 41 anos · Assistente administrativa numa empresa de logística no Parque Industrial · Vive no Afonsoeiro com o companheiro e um filho de 9 anos.

Dia típico: entra às 9h, sai às 17h30. Duas ou três vezes por semana sai do escritório à tarde com uma colega para "arejar a cabeça" durante 25 minutos.

Objetivos: pausa real, conversa sem pressa, algo doce sem culpa excessiva. Frustrações: espaços barulhentos; sentir que está a ocupar a mesa; ter de pedir ao balcão e voltar. Comportamento: 2×/semana, ticket 4,80 €, sempre entre as 15h e as 17h, paga com MB Way, quase nunca vai ao fim de semana. Critérios de decisão: 1) haver mesa livre, 2) ambiente calmo, 3) qualidade do bolo, 4) preço (só em 4.º). Canais: Instagram ao final do dia, grupo de WhatsApp de colegas, boca-a-boca. Citação (E07): "Não é o café, é os vinte minutos. Se estiver cheio e barulhento, voltamos para trás." Base: segmento "Pausa social", 24% da amostra (n=60), 6 entrevistas.

Implicação direta: o preço não é a alavanca deste segmento — a disponibilidade de mesa e o ruído são. Duas mesas reservadas entre as 15h e as 17h valem mais do que um desconto.


13. Concorrência e posicionamento

13.1 Identificar a concorrência

Nível Definição Exemplo (cafetaria)
Direta Mesma solução, mesmo público Outras cafetarias da zona
Indireta Solução diferente, mesma necessidade Máquina de café do escritório, padaria de supermercado
Substituta Necessidade satisfeita de outro modo Levar termos de casa
Potencial Ainda não está, mas pode entrar Cadeia nacional a abrir no centro comercial

A maior parte dos estudos falha por olhar só para a concorrência direta. A quebra de vendas de uma cafetaria pode vir da máquina de cápsulas que a empresa vizinha instalou.

13.2 Grelha de benchmarking

Compara-se com critérios observáveis e verificáveis, não com opiniões:

Critério Nós Conc. A Conc. B Conc. C
Preço do café (€) 0,80 0,75 0,90 0,85
Horário de abertura 7h–19h 7h30–20h 8h–18h 6h30–22h
Abre ao domingo Não Sim Não Sim
N.º de lugares sentados 24 12 40 30
Wi-Fi Não Sim Sim Sim
Pastelaria própria Sim Não Não Não
Avaliação Google (n) 4,3 (86) 4,1 (210) 3,8 (54) 4,6 (390)
Presença Instagram 620 seg. 3 100 5 400

Leitura: somos o único com fabrico próprio (ativo diferenciador), mas estamos em desvantagem em horário, domingo, Wi-Fi e notoriedade digital. O concorrente C é o líder e é forte em quase tudo — competir com ele em horário é caro; competir em produto próprio é onde temos vantagem estrutural.

Fontes para o benchmarking: visita presencial com grelha, mystery shopping, sites e redes sociais, avaliações Google (ler os comentários de 1 e 2 estrelas — é lá que estão as fraquezas), Racius para dados de empresa, e observação de fluxo à porta.

13.3 Posicionamento

Posicionamento é o lugar que a marca ocupa na mente do consumidor, por comparação com as alternativas. Não é o que a empresa diz de si; é o que fica na cabeça de quem compra.

Eixos de posicionamento (o referencial pede-os explicitamente) — as dimensões em que uma marca se pode diferenciar:

Eixo Diferenciação por Exemplo
Atributo do produto Característica objetiva "Cozido em forno de lenha"
Benefício O que o cliente ganha "Pequeno-almoço em 90 segundos"
Utilizador Para quem é "Para quem trabalha por turnos"
Uso/ocasião Quando se usa "O lanche de domingo em família"
Preço/qualidade Relação valor "Qualidade de pastelaria a preço de café"
Origem Proveniência "Feito no Montijo, com farinha da região"
Concorrência Por oposição "O contrário de uma cadeia"

Benefícios de um posicionamento claro:

13.4 Mapa percetual

Representa marcas em dois eixos que importam ao consumidor (identificados no estudo, não escolhidos ao acaso).

                    Alta qualidade percebida
                              ↑
                              │
          Conc. C ●           │        ● NÓS (desejado)
                              │
    Preço baixo ←─────────────┼─────────────→ Preço alto
                              │
          Conc. A ●           │   ● Conc. B
                              │
                              ↓
                    Baixa qualidade percebida

Leitura: o quadrante "qualidade alta + preço alto" está pouco ocupado — é um espaço livre. A questão seguinte é a que separa um bom estudo de um mau: há procura nesse espaço? Um espaço vazio no mapa pode ser uma oportunidade ou pode ser um sítio onde ninguém quer estar. Só o dado de procura responde.

Declaração de posicionamento (modelo):

Para [público-alvo] que [necessidade/situação], a [marca] é a [categoria] que [benefício principal], porque [prova/razão para acreditar] — ao contrário de [alternativa], que [limitação].

Exemplo preenchido:

Para quem trabalha no centro do Montijo e almoça fora, a Padaria X é a casa de pastelaria e refeições rápidas que serve um almoço leve, feito no próprio dia, em menos de 10 minutos, porque fabrica tudo no local desde as 5h da manhã — ao contrário das cadeias do centro comercial, que servem produto congelado reaquecido.


14. Comportamento do consumidor

14.1 O processo de decisão de compra (5 etapas)

Etapa O que acontece O que o estudo mede Alavanca de marketing
1. Reconhecimento da necessidade Surge um desfasamento entre situação atual e desejada Gatilhos, momentos, frequência Lembrete, ocasião, comunicação de contexto
2. Procura de informação Interna (memória) e externa (fontes) Que fontes, quem influencia, quanto tempo Presença nas fontes certas
3. Avaliação de alternativas Compara-se por critérios Critérios e sua importância relativa Sobressair no critério dominante
4. Decisão de compra Escolha e ato Local, momento, forma de pagamento, desistências Reduzir atrito no ponto de venda
5. Comportamento pós-compra Satisfação/dissonância CSAT, NPS, recompra, reclamações Acompanhamento, garantia, pós-venda

A dissonância cognitiva (arrependimento pós-compra) é forte em compras caras. Um email de confirmação com "fez uma boa escolha, veja como tirar partido" reduz devoluções — e é uma conclusão típica de um estudo de satisfação.

14.2 Fatores de influência

Nível Fatores Exemplo de impacto
Culturais Cultura, subcultura, classe social Hábito do café ao balcão em Portugal
Sociais Família, grupos de referência, papéis O filho decide o restaurante da família
Pessoais Idade, ciclo de vida, ocupação, estilo de vida Mudança de emprego muda o percurso diário
Psicológicos Motivação, perceção, aprendizagem, crenças, atitudes Preço alto lido como sinal de qualidade

14.3 Tipos de comportamento de compra

Envolvimento Diferença entre marcas Comportamento Exemplo
Alto Grande Complexo — pesquisa longa Automóvel, casa
Alto Pequena Redutor de dissonância — decide rápido e depois justifica Alcatifa, seguro
Baixo Grande Procura de variedade — troca por curiosidade Bolachas, cerveja
Baixo Pequena Habitual — automatismo Sal, pão

Implicação prática: num produto de compra habitual (o pão de todos os dias), a alavanca não é a argumentação — é a disponibilidade, o hábito e a rutura do hábito da concorrência. Investir num anúncio racional e longo é dinheiro perdido.

14.4 Papéis na decisão

Numa compra podem intervir cinco papéis, por vezes em pessoas diferentes:

Iniciador · Influenciador · Decisor · Comprador · Utilizador

Exemplo: compra de fardamento para uma empresa — o utilizador é o trabalhador, o influenciador é o responsável de segurança, o decisor é a direção financeira, o comprador é o departamento de compras. Um estudo que só ouça o utilizador falha o alvo da venda.

14.5 A jornada do consumidor

Mapear a jornada é registar, etapa a etapa: ações, pontos de contacto, pensamentos, emoções, atritos e oportunidades.

Etapa Ação Ponto de contacto Emoção Atrito Oportunidade
Descoberta Passa à porta Montra Indiferença Montra sem informação de preço Afixar 3 preços-âncora
Consideração Procura no telemóvel Google, Instagram Dúvida Horário desatualizado no Google Atualizar ficha Google
Compra Entra e pede Balcão Pressa Fila única para café e pão Fila rápida separada
Pós Come e vai Satisfação Nenhum motivo para voltar amanhã Cartão de fidelização

A jornada é a ferramenta que transforma o estudo em lista de ações. Cada atrito identificado é uma recomendação com dono e prazo.


15. Sistematização, relatório e apresentação

15.1 Da análise à conclusão

Três níveis, que nunca se devem misturar:

Nível Exemplo
Dado "62% dos inquiridos (n=250) desconhecem o horário de sábado."
Conclusão "O desconhecimento do horário é o principal obstáculo à visita ao fim de semana."
Recomendação "Afixar o horário na montra e atualizar a ficha Google até 15 de outubro (responsável: gerência)."

Um relatório que apresenta a recomendação sem o dado não convence; um que apresenta o dado sem a recomendação não serve para decidir.

15.2 Estrutura do relatório

  1. Capa — título, entidade, autor, data, versão.
  2. Sumário executivo (1–2 páginas) — problema, método, 3 a 5 conclusões, recomendações. É a única parte que muita gente vai ler; escreve-a por último e com o máximo cuidado.
  3. Introdução e enquadramento — contexto e problema de gestão.
  4. Objetivos e hipóteses.
  5. Metodologia — desenho, amostra, instrumentos, período, limitações.
  6. Resultados — organizados pelos objetivos, não pela ordem das perguntas do questionário.
  7. Análise da concorrência.
  8. Segmentos e personas.
  9. Conclusões — resposta explícita a cada objetivo e verdicto sobre cada hipótese.
  10. Recomendações — priorizadas, com esforço, impacto, responsável e prazo.
  11. Limitações — o que o estudo não permite concluir.
  12. Anexos — instrumentos, tabelas completas, guiões, consentimentos.

15.3 Ficha técnica (obrigatória)

Campo Exemplo
Entidade responsável Turma 11.º TMRPP, EP Montijo
Cliente Padaria X, Lda.
Universo Residentes 18+ nas freguesias do Montijo e Afonsoeiro
Método de recolha Questionário online + presencial (CAWI + PAPI)
Amostra 250 respostas válidas, quotas por sexo e idade
Margem de erro ±6,2 pp para p=0,5, 95% de confiança
Período de recolha 3 a 21 de outubro de 2026
Taxa de resposta 34%
Responsável pela análise [nome]

Sem ficha técnica, um resultado não é verificável — e não é um estudo, é uma opinião com números.

15.4 Visualizar os dados

Objetivo Gráfico certo Evitar
Comparar categorias Barras (horizontais se os rótulos forem longos) 3D, efeitos
Evolução no tempo Linhas Barras para séries longas
Composição do todo Barras empilhadas 100% Circular com >5 fatias
Relação entre variáveis Dispersão Linhas sem sentido temporal
Distribuição Histograma / caixa de bigodes Só a média

Regras não negociáveis:

15.5 Software de tratamento e análise

Ferramenta Para quê Nota
Excel / LibreOffice Calc Recolha, limpeza, tabelas dinâmicas, gráficos, qui-quadrado (TESTE.CHI), correlação (CORREL) Chega para a grande maioria dos estudos de PME
Google Forms / Microsoft Forms Questionário online, exportação direta para folha de cálculo Gratuito, atenção ao RGPD nas definições
LimeSurvey Questionários complexos, com lógica de salto e alojamento próprio Alternativa self-hosted, melhor para dados sensíveis
SPSS Estatística avançada, cruzamentos, testes Padrão académico, pago
Jamovi / PSPP / R Alternativas gratuitas ao SPSS Jamovi é o mais acessível a iniciantes
Power BI / Looker Studio Dashboards e monitorização contínua Bom para acompanhamento pós-estudo
NVivo / Taguette / MAXQDA Codificação qualitativa Taguette é gratuito e suficiente
Google Trends Interesse de pesquisa, sazonalidade Dados relativos, não absolutos

Funções de Excel úteis:

=CONTAR.SE(intervalo; critério)             frequências
=CONTAR.SE.S(int1; crit1; int2; crit2)      cruzamentos
=MÉDIA() =MED() =MODA.SIMPLES() =DESVPAD.A()
=CORREL(x; y)                                correlação de Pearson
=TESTE.CHI(observado; esperado)              p-value do qui-quadrado
Tabela Dinâmica                              a ferramenta mais rentável de todas

15.6 Apresentar


Erros comuns


Glossário

Termo Definição
Amostra Subconjunto da população efetivamente estudado
Base de sondagem Lista concreta a partir da qual se seleciona a amostra
Benchmarking Comparação sistemática com concorrentes segundo critérios definidos
CAWI / CATI / PAPI Inquérito online / telefónico / em papel
CSAT Índice de satisfação: % de respostas positivas numa escala
Desk research Pesquisa em fontes secundárias já existentes
Elasticidade-preço Variação % da procura por cada variação % do preço
Enviesamento (bias) Erro sistemático que distorce o resultado numa direção
Estudo causal Estudo que testa se X provoca Y, com grupo de controlo
Estudo descritivo Estudo que mede e caracteriza (quantos, quem, com que frequência)
Estudo exploratório Estudo que investiga um problema mal definido para gerar hipóteses
Focus group Discussão moderada com 6–10 participantes
Hipótese Afirmação testável que o estudo confirma ou desmente
Likert Escala de concordância, tipicamente de 5 ou 7 pontos
Mapa percetual Representação gráfica das marcas em dois eixos de perceção
Margem de erro Intervalo dentro do qual está o valor real da população
Mediana Valor que divide a distribuição ao meio
NPS % promotores (9–10) − % detratores (0–6)
Persona Representação concreta de um segmento, construída sobre dados
População / universo Conjunto total sobre o qual se quer concluir
Posicionamento Lugar que a marca ocupa na mente do consumidor face às alternativas
Pré-teste Ensaio do instrumento com 8–12 pessoas antes do lançamento
Pseudonimização Substituição de identificadores por códigos, com chave à parte
Qui-quadrado (χ²) Teste de associação entre variáveis categóricas
RGPD Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (UE 2016/679)
Saturação Momento em que novas recolhas deixam de trazer informação nova
Segmentação Divisão do mercado em grupos homogéneos e acionáveis
TAM / SAM / SOM Mercado total / disponível / obtenível
Targeting Escolha dos segmentos a servir
Top-2 box % das duas respostas mais positivas de uma escala
Triangulação Confirmação de um achado por mais do que um método
Van Westendorp Método de 4 perguntas para determinar a faixa de preço aceitável

Síntese

  1. Um estudo de mercado serve para reduzir o risco de uma decisão. Se não há decisão, não há estudo — há curiosidade.
  2. Delimita o mercado em produto, geografia, tempo e cliente. TAM/SAM/SOM: o número que interessa é o SOM.
  3. Exploratório → descritivo → causal. Nunca se mede antes de compreender, nunca se testa causa antes de descrever.
  4. Traduz o problema de gestão em problema de pesquisa e escreve objetivos mensuráveis com o teste "se A faço X, se B faço Y".
  5. Esgota os dados secundários — sobretudo os internos — antes de recolher dados primários.
  6. A amostra determina o que podes afirmar. 385 respostas → ±5%. Reporta sempre o n e a margem de erro.
  7. O questionário testa-se antes de se lançar. Uma ideia por pergunta, sem indução, com escalas equilibradas.
  8. Qualitativo dá o porquê e a linguagem; quantitativo dá o quanto. O padrão é misto.
  9. Observa em vez de perguntar sempre que o comportamento for observável.
  10. RGPD não é opcional: finalidade, minimização, consentimento, prazo, segurança — e anonimizar a sério.
  11. A média mente; os cruzamentos revelam. Testa se a diferença é real (χ²) antes de a chamar diferença.
  12. Correlação não é causalidade. Só um desenho com grupo de controlo permite falar de causa.
  13. Um segmento só serve se for mensurável, acessível, dimensionado, acionável e durável.
  14. A persona nasce dos dados e termina numa citação real — nunca é uma personagem inventada.
  15. Analisa a concorrência com critérios observáveis, incluindo a indireta e a substituta.
  16. O posicionamento é um lugar na cabeça do cliente, escolhido num eixo relevante e sustentado por uma prova.
  17. Separa dado, conclusão e recomendação. As recomendações vêm priorizadas, com esforço, impacto, responsável e prazo.
  18. Ficha técnica e limitações são parte do relatório, não um extra. É o que separa um estudo de uma opinião.

Exercícios resolvidos

Exercício A · Dimensionar a amostra

Uma associação com 1 800 sócios quer inquirir a satisfação com uma margem de erro de ±5% e 95% de confiança.

Resolução:

1) Amostra para população infinita:
   n = 1,96² × 0,5 × 0,5 / 0,05² = 384,16  385

2) Correção para população finita (N = 1 800):
   n_aj = 385 / (1 + (385  1)/1800)
        = 385 / (1 + 0,2133)
        = 385 / 1,2133 = 317,3  318 respostas

3) Quantos convites enviar? Com uma taxa de resposta esperada de 25%: 318 ÷ 0,25 = 1 272 convites. Como só há 1 800 sócios, é preciso contactar 71% da base — o que obriga a lembretes e a um canal alternativo (telefone) para os que não respondem online.

Conclusão prática: ou se aceita ±5% e se investe em taxa de resposta, ou se aceita ±6% (n≈250) e o estudo torna-se exequível. É uma decisão de gestão, não estatística — e tem de ser levada ao cliente.

Exercício B · Interpretar um cruzamento

Numa amostra de 300, à pergunta "voltaria a comprar?": residentes 68% sim (n=180), visitantes 44% sim (n=120).

Resolução:

  1. Diferença observada: 24 pontos percentuais.
  2. Margem de erro de cada subamostra:
  3. Residentes (n=180): 1,96 × √(0,68×0,32/180) = 1,96 × 0,0348 = ±6,8 pp → [61,2%; 74,8%]
  4. Visitantes (n=120): 1,96 × √(0,44×0,56/120) = 1,96 × 0,0453 = ±8,9 pp → [35,1%; 52,9%]
  5. Os intervalos não se sobrepõem (74,8% vs 52,9% de distância confortável) → a diferença é real, não é ruído amostral.
  6. Leitura de negócio: a retenção de visitantes é o problema. Sobre 120 visitantes, 67 não voltariam.
  7. Próximo passo: é preciso saber porquê — e isso é qualitativo. 8 entrevistas curtas a visitantes à saída, com a pergunta "o que teria de acontecer para voltar?".

Nota metodológica: ao subdividir a amostra, a margem de erro cresce. Uma amostra de 300 dá ±5,7% no total, mas ±8,9% num subgrupo de 120. Planeia a dimensão a pensar nos cruzamentos que vais precisar de fazer, não só no total.

Exercício C · Da entrevista à hipótese ao questionário

Numa entrevista, um cliente diz: "Eu ia lá mais vezes, mas nunca sei se está aberto."

Resolução — encadeamento completo:

Passo Produto
1. Código "Incerteza de horário"
2. Categoria Acessibilidade / Previsibilidade
3. Hipótese H: mais de 40% dos não-clientes desconhecem o horário de funcionamento
4. Pergunta de questionário "Sabe a que horas [loja] abre e fecha ao sábado? ( ) Sei ao certo ( ) Tenho uma ideia aproximada ( ) Não sei"
5. Pergunta de validação comportamental "Nos últimos 3 meses, alguma vez foi lá e estava fechado? ( ) Sim, uma vez ( ) Sim, mais do que uma ( ) Não"
6. Análise prevista Frequências + cruzamento com frequência de visita; χ² para testar associação
7. Se H se confirmar Recomendação: horário visível na montra + ficha Google atualizada + horário fixo (custo ~0 €, impacto alto)
8. Como medir o efeito Contagem de entradas ao sábado, 4 semanas antes vs 4 semanas depois, com o domingo como controlo de sazonalidade

O que este exercício demonstra: uma frase de uma entrevista transforma-se numa medida, numa decisão, numa ação de custo zero e num teste de eficácia. É este percurso completo — e não a estatística isolada — que define um estudo de mercado bem feito.

Exercício D · Detetar o enviesamento

Um restaurante coloca um questionário de satisfação em QR code na mesa e obtém 4,7/5 de média em 140 respostas. Conclui que "a satisfação é excelente".

Resolução — quatro enviesamentos:

  1. Enviesamento de seleção. Só responde quem está lá, satisfeito o suficiente para ficar até ao fim e disponível para pegar no telemóvel. Quem se foi embora a meio da refeição não respondeu.
  2. Enviesamento de não-resposta. 140 respostas em quantos clientes? Se foram 3 000, é uma taxa de 4,7% — o perfil desses 140 é sistematicamente diferente.
  3. Enviesamento de desejabilidade social. Responder no local, à mesa, com o empregado por perto, empurra a resposta para cima. O mesmo questionário enviado por email 24h depois dá tipicamente 0,4 a 0,8 pontos abaixo.
  4. Efeito de teto. Numa escala de 1 a 5 com média 4,7, quase não há variância — o instrumento deixa de conseguir distinguir bom de excelente, e nenhum cruzamento vai dar diferenças.

Correções: enviar o questionário por email/SMS algumas horas depois; incluir clientes que não voltaram (a partir do CRM); usar escala de 0–10 (mais variância); acrescentar uma pergunta aberta "o que poderíamos ter feito melhor?"; e triangular com as avaliações Google, que sofrem enviesamentos opostos (quem reclama escreve mais). Se as duas fontes convergirem, a conclusão é sólida.