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UC · Unidade de Competência · UC00254

Sebenta · Modelar conjuntos em CAD 3D (UC00254)

Montagens paramétricas de mobiliário em madeira, das relações às vistas explodidas e à simulação
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho de Produto em M ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a passar de peças isoladas para conjuntos completos em CAD 3D: um armário, uma estante ou uma gaveta, modelados como um sistema de componentes que se relacionam, se movem e se comportam como no móvel real. É o passo natural depois de saber modelar peças: agora as peças encontram-se, encaixam e são postas à prova antes de se cortar uma única placa.

O percurso segue o fluxo real de um projeto de mobiliário: primeiro lê-se o desenho e as especificações e percebe-se como o móvel vai ser fabricado; depois configura-se o software, importam-se ou modelam-se os componentes, montam-se com relações, contam-se os graus de liberdade, multiplicam-se os elementos repetidos, procuram-se colisões, geram-se vistas explodidas e simulações, e por fim produz-se o desenho técnico pronto para a oficina, dentro das normas de desenho, segurança e qualidade.

Os exemplos usam vocabulário genérico, válido para qualquer programa de CAD 3D paramétrico (SOLIDWORKS, Autodesk Inventor, Fusion, Solid Edge, FreeCAD, entre outros). Quando se cita o nome de um comando concreto, diz-se sempre de que programa é: os nomes mudam de programa para programa, a lógica não.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar desenhos e especificações técnicas para modelar conjuntos em CAD 3D; configurar o software de CAD 3D para desenho de conjuntos; executar relações de montagem, multiplicação de componentes e correção de interferências; aplicar vistas explodidas; editar conjuntos; realizar simulações e análises aos modelos; configurar, pré-visualizar e imprimir desenhos técnicos; aplicar as normas de desenho técnico, de segurança e saúde no trabalho e da qualidade.

Como estudar com esta sebenta

1. Da peça ao conjunto: materiais e processos de fabrico

Um conjunto (em inglês, assembly) é um modelo que reúne várias peças e ferragens numa só montagem coerente. Um armário de cozinha, por exemplo, é o conjunto de duas laterais, uma base, um tampo ou travessas, um fundo (as costas), prateleiras, portas, dobradiças, puxadores e parafusos, todos a interagir entre si.

Cada peça continua a existir no seu próprio ficheiro; o conjunto guarda onde está cada peça, como se liga às outras e o que ainda se pode mover.

1.1 Analisar desenhos e especificações antes de modelar

Analisar desenhos e especificações técnicas para modelar conjuntos em CAD 3D é a primeira realização desta UC. Antes de abrir o software, o técnico lê o desenho de conjunto e responde a cinco perguntas:

  1. Quantos componentes diferentes existem, e quantas vezes se repete cada um? (A lista de peças responde a isto.)
  2. De que material é cada peça, com que espessura e com que orientação do fio?
  3. Que ligações há entre peças: cavilha, parafuso, união excêntrica, cola, ferragem de catálogo?
  4. O que se move: portas, gavetas, tampos basculantes? E até onde?
  5. Que tolerâncias e folgas o desenho pede (folga entre frentes, recuo das costas, orla)?

1.2 Interpretar o desenho de conjunto

Em Portugal usa-se o método europeu de projeção (1.º diedro): a planta fica por baixo do alçado principal, e a vista lateral esquerda fica à direita do alçado. Quem lê um desenho feito pelo método americano (3.º diedro) sem reparar no símbolo de projeção da legenda troca vistas e modela o móvel ao contrário.

Regras de leitura que não mudam:

1.3 Materiais mais comuns em mobiliário

Material Constituição Comportamento a ter em conta no modelo Espessuras comerciais frequentes
Madeira maciça madeira serrada, com fio anisotrópica: mexe com a humidade, sobretudo na largura dependem do aplainado; confirmar com a serração
Aglomerado de partículas partículas de madeira coladas estável, fraco a segurar parafusos no topo 16 e 19 mm são as mais correntes; há outras
MDF fibras de madeira coladas homogéneo, bom para maquinar, fresar e lacar 16 e 19 mm muito correntes; gama larga
Contraplacado folhas de madeira coladas com o fio cruzado, em número ímpar resistente e leve, bom em peças estruturais gama larga; confirmar no catálogo
OSB partículas longas orientadas mais usado em construção do que em mobiliário à vista confirmar no catálogo

As espessuras disponíveis mudam de fabricante para fabricante e de decorativo para decorativo. O técnico confirma sempre no catálogo do fornecedor antes de fixar a espessura no modelo, porque essa espessura propaga-se a todas as medidas do conjunto.

1.4 A madeira mexe: anisotropia e teor de água

A madeira é anisotrópica: não se comporta da mesma forma em todas as direções.

Consequência para o modelo: um tampo de madeira maciça larga não pode ser preso rigidamente em toda a largura, tem de ter folga para trabalhar (furos ovalizados, grampos de tampo, ranhuras). Um painel de aglomerado ou MDF é muito mais estável e não precisa desse cuidado. No CAD, esta folga modela-se: não é um pormenor da oficina.

1.5 Processos de fabrico que o modelo tem de refletir

Explicar a importância dos processos de fabrico no design e na funcionalidade dos conjuntos é uma aptidão desta UC. Cada processo deixa marcas nas medidas:

Processo O que muda no modelo
Corte (esquadrejadora, seccionadora) cada corte consome a largura da serra; a lista de corte e o plano de corte têm de a considerar
Orlagem a orla colada no topo do painel soma espessura: a medida de corte é a medida final menos a orla
Furação diâmetros e profundidades dados pelo fabricante da ferragem (copo de dobradiça de 35 mm, furos de cavilha, furos de suportes)
Maquinação CNC fresas têm raio: um canto interior fresado nunca é vivo, fica com o raio da fresa
Colagem e prensagem peças de maciço coladas em painel cortam-se com sobremedida e só depois se calibram à medida final
Acabamento verniz, laca ou revestimento acrescentam uma espessura pequena, que pode importar em encaixes justos

O sistema 32 é a base da furação de muitos móveis europeus: linhas de furos de 5 mm de diâmetro com 32 mm de afastamento entre centros, onde encaixam suportes de prateleira, bases de dobradiças e corrediças. Modelar os furos no mesmo afastamento que a máquina vai furar é o que garante que as ferragens do modelo encaixam nas ferragens reais.

Exemplo resolvido · medida de corte de uma lateral orlada

Um armário tem laterais com 720 mm de altura final e 560 mm de profundidade final, em aglomerado melamínico de 19 mm, com orla de 2 mm apenas no topo da frente (a aresta à vista).

  1. A altura não leva orla nos topos de cima e de baixo (ficam escondidos): medida de corte na altura = 720 mm.
  2. A profundidade leva orla de 2 mm só num topo: medida de corte = 560 - 2 = 558 mm.
  3. No CAD, a peça pode ser modelada com a medida final (560 mm) e a orla como elemento próprio, ou com a medida de corte (558 mm) mais um corpo de orla de 2 mm. O que não pode acontecer é modelar 560 mm de painel mais 2 mm de orla: o móvel ficava com 562 mm e a porta deixava de alinhar com a frente.

Exemplo resolvido · quantas laterais saem de uma placa

De uma placa com 2800 mm de comprimento querem cortar-se laterais de 720 mm na direção do comprimento. A serra consome 4 mm por corte (valor ilustrativo; confirmar a espessura da lâmina da máquina) e o fornecedor recomenda refilar 10 mm em cada ponta da placa para eliminar arestas danificadas.

  1. Comprimento útil: 2800 - 2 × 10 = 2780 mm.
  2. Cada lateral consome 720 mm mais um corte de 4 mm: 724 mm.
  3. 2780 ÷ 724 = 3,84: saem 3 laterais inteiras.
  4. Sobra: 2780 - 3 × 724 = 608 mm, que pode servir para uma prateleira ou uma travessa.

Sem contar com a largura da serra, alguém podia pensar que 3 × 720 = 2160 mm deixavam 620 mm de sobra, e planear uma peça de 620 mm que afinal não cabe.

Regra de ouro: o modelo 3D descreve a peça acabada. A lista de corte, gerada a partir dele, tem de ser corrigida pelas orlas e pelas sobremedidas dos processos. Separar estas duas coisas evita metade dos erros entre o gabinete de desenho e a oficina.

2. Configurar a área gráfica e o ambiente CAD 3D

A área gráfica e do desenho é o conjunto de definições que o software usa antes de qualquer modelação: unidades, sistema de coordenadas, modelos de ficheiro, propriedades, pastas e opções de desempenho. Configurar o software de CAD 3D, garantindo a melhor utilização das ferramentas para desenho de conjuntos, é um critério de desempenho avaliado ao longo de toda a UC.

2.1 O que configurar no início de um projeto

Definição Escolha recomendada em mobiliário Porquê
Unidades milímetros as cotas de mobiliário são em milímetros; misturar unidades gera erros de escala silenciosos
Casas decimais mostradas 0 ou 1 para desenho; mais para verificação a precisão interna do software não muda, só a apresentação
Orientação dos eixos definir qual eixo aponta "para cima" e manter em todos os ficheiros programas diferentes usam convenções diferentes (Y ou Z para cima)
Modelos (templates) um modelo de peça, um de montagem e um de desenho, da escola ou da empresa unidades, propriedades e legenda ficam iguais em todos os projetos
Propriedades personalizadas designação, material, espessura, código, acabamento alimentam a lista de peças automaticamente
Pastas e bibliotecas pasta de projeto e caminho para a biblioteca de componentes evita referências partidas e duplicados
Desempenho modos simplificados para montagens grandes um roupeiro com centenas de parafusos torna-se lento a rodar e a reconstruir

2.2 Navegar na área gráfica

Numa montagem passa-se mais tempo a olhar do que a desenhar. Os comandos de visualização existem em todos os programas, com nomes e atalhos próprios:

2.3 Espaço de peça e espaço de montagem

No ambiente de peça modela-se um componente isolado. No ambiente de montagem, os componentes são referenciados a partir dos seus ficheiros originais, não redesenhados. Esta ligação chama-se associatividade: alterar a peça original atualiza automaticamente o conjunto e, a seguir, o desenho técnico.

Uma montagem típica de mobiliário organiza-se assim:

estante-modular.montagem
├── lateral-esquerda          (peça)
├── lateral-direita           (peça)
├── tampo                     (peça)
├── base                      (peça)
├── fundo                     (peça)
├── gaveta.montagem           (subconjunto)
│   ├── frente-gaveta
│   ├── lateral-gaveta (×2)
│   ├── traseira-gaveta
│   ├── fundo-gaveta
│   └── corrediça (×2)        (componente de biblioteca)
├── porta
├── dobradiça (×2)            (componente de biblioteca)
└── suporte-prateleira (×12)  (componente de biblioteca, padrão)

Mover ou renomear um ficheiro de peça fora do software, com o explorador de ficheiros, parte a ligação com a montagem. O conjunto fica com referências a apontar para um ficheiro que já não está no sítio esperado. Renomear e mover faz-se com as ferramentas de gestão do próprio programa, que atualizam as referências.

2.4 Convenção de nomes de ficheiros

Uma convenção simples, aplicada desde o primeiro dia, poupa horas:

Tipo Exemplo de nome Regra
Peça EST01-lateral-esq código do projeto, peça, lado
Subconjunto EST01-SC-gaveta "SC" identifica o subconjunto
Montagem principal EST01-MONT uma só por projeto
Desenho EST01-MONT-D01-rev02 número do desenho e revisão
Componente de biblioteca dobradiça-copo-35-110 tipo, diâmetro do copo, ângulo de abertura

Evitam-se espaços, acentos em nomes de ficheiros partilhados entre sistemas diferentes e nomes genéricos como peça1 ou novo.

Exemplo resolvido · preparar o ambiente para um projeto novo

A empresa vai desenhar uma estante modular com código EST01.

  1. Cria-se a pasta EST01 com subpastas pecas, montagens, desenhos e biblioteca-projeto.
  2. Abre-se o modelo de peça da empresa e confirma-se: unidades em milímetros, propriedades "Designação", "Material", "Espessura" e "Acabamento" já criadas.
  3. Confirma-se que o caminho da biblioteca de componentes normalizados aponta para a pasta partilhada da equipa.
  4. Abre-se o modelo de desenho: formato A3, legenda com o logótipo, campos de escala, autor, data e revisão ligados às propriedades.
  5. Só depois se começa a primeira peça.

Resultado: todas as peças deste projeto saem com as mesmas unidades e alimentam a mesma lista de peças sem retrabalho.

3. Importar componentes 3D

Um conjunto de mobiliário raramente é feito só de peças modeladas de raiz. Ferragens, puxadores, pés e acessórios vêm normalmente de catálogos de fabricante ou de portais de modelos 3D, e têm de ser importados.

3.1 Formatos de troca

Formato Tipo de geometria Uso habitual Cuidados
Nativo do mesmo programa sólido com histórico peças da própria equipa versão do programa tem de ser compatível
STEP (.step, .stp) sólido exato, sem histórico o formato neutro mais usado entre programas diferentes confirmar unidades e orientação
IGES (.igs, .iges) superfícies, por vezes sem sólido fechado ficheiros antigos pode chegar como superfícies soltas, a coser
Parasolid (.x_t, .x_b) sólido exato troca entre programas que usam o mesmo núcleo geométrico normalmente muito fiável
STL, OBJ malha de triângulos impressão 3D, visualização não tem faces planas nem eixos verdadeiros: fraco para relações de montagem

Um componente importado em formato neutro chega como um corpo "mudo": tem a forma certa, mas não tem a árvore de operações que o criou. Para uma ferragem de catálogo isso não é problema, porque não se vai alterar; para uma peça que a equipa vai continuar a editar, é preferível o ficheiro nativo.

3.2 Passos ao importar um componente

  1. Confirmar a escala e as unidades do ficheiro de origem (polegadas em vez de milímetros é o erro mais comum).
  2. Verificar a orientação do componente face aos eixos do projeto.
  3. Correr a verificação de geometria do programa, se o ficheiro vier de superfícies, para garantir que é um sólido fechado.
  4. Simplificar geometria desnecessária (roscas detalhadas, textos gravados, parafusos de fixação internos), que só pesa o modelo.
  5. Confirmar que os pontos de fixação (furos, encaixes, copo) correspondem à peça de madeira onde vão ser aplicados.
  6. Preencher as propriedades (designação, referência do fabricante) e guardar com um nome claro na biblioteca do projeto.

Exemplo resolvido · detetar um erro de unidades

Um ficheiro de dobradiça de copo de 35 mm é importado e o diâmetro do copo aparece no modelo com 889 mm.

  1. 889 ÷ 35 = 25,4. É exatamente o número de milímetros numa polegada.
  2. Conclusão: o ficheiro estava em milímetros, mas foi lido como se estivesse em polegadas (35 "polegadas" = 889 mm).
  3. Correção: voltar a importar indicando milímetros como unidade de origem.
  4. O caso inverso também acontece: um ficheiro em polegadas lido como milímetros mostra o copo com 1,378 mm (35 ÷ 25,4), um componente minúsculo que "desaparece" no ecrã.

A regra prática: depois de importar, mede-se sempre uma dimensão conhecida do catálogo antes de usar o componente.

Exemplo resolvido · preparar uma dobradiça de catálogo

O fabricante disponibiliza o ficheiro STEP de uma dobradiça de copo de 35 mm com base de montagem.

  1. Importa-se o ficheiro e mede-se o diâmetro do copo: 35 mm, como no catálogo.
  2. Verifica-se que o ficheiro chegou como vários corpos (copo, braço, base de montagem, parafusos). Guarda-se como subconjunto, porque uma dobradiça de copo é um mecanismo com várias articulações, não uma peça rígida.
  3. Suprimem-se os pormenores de rosca dos parafusos e o texto gravado com a marca.
  4. Preenchem-se as propriedades: designação, referência do fabricante, ângulo de abertura.
  5. Guarda-se como dobradiça-copo-35-110 na pasta de ferragens do projeto.

O componente está pronto a ser relacionado com a porta e com a lateral do móvel.

4. Criar uma montagem: do zero e a partir de blocos

4.1 Montagem ascendente e montagem descendente

Há duas formas de organizar o trabalho, e quase todos os projetos reais misturam as duas:

Ascendente (bottom-up) Descendente (top-down)
Como se faz as peças são modeladas primeiro, cada uma no seu ficheiro, e depois inseridas e relacionadas na montagem as peças são desenhadas dentro da montagem, no contexto das outras, a partir de um esboço ou de uma peça já posicionada
Vantagem peças independentes, fáceis de reutilizar noutros projetos as medidas de uma peça seguem automaticamente as das vizinhas
Risco medidas que não batem entre peças feitas em separado referências externas em cadeia: alterar uma peça pode reconstruir (ou partir) muitas outras
Em mobiliário ferragens, puxadores, gavetas-tipo já testadas a estrutura de um móvel por medida: a prateleira toma a largura do vão entre laterais

4.2 Fluxo de criação de uma montagem do zero

  1. Abrir um ficheiro de montagem novo a partir do modelo da empresa, com as unidades corretas.
  2. Inserir a primeira peça, normalmente a mais estrutural (a base ou uma lateral), e deixá-la fixa (em inglês, fixed ou ground): torna-se a referência de todo o conjunto. Muitos programas fixam automaticamente o primeiro componente inserido.
  3. Inserir as restantes peças e ferragens, uma a uma ou em subconjuntos.
  4. Aplicar relações de montagem entre cada componente e os que já estão posicionados.
  5. Verificar graus de liberdade e colisões antes de considerar a montagem concluída.

Fixar vários componentes "à mão", no sítio onde ficaram quando foram arrastados, dá um conjunto que parece certo mas não tem lógica: quando uma medida muda, as peças fixas não acompanham. Fixa-se um componente; os outros posicionam-se por relações.

4.3 Subconjuntos

Um subconjunto é uma montagem dentro de outra montagem: a gaveta completa (frente, laterais, traseira, fundo, corrediças) montada no seu ficheiro e inserida no armário como uma unidade.

Atenção: por defeito, muitos programas tratam o subconjunto inserido como rígido, e a gaveta deixa de deslizar dentro dele. Para simular o movimento no conjunto principal, o subconjunto tem de ser definido como flexível (o nome da opção varia com o programa).

4.4 Criação de montagem a partir de blocos

O conhecimento "criação de montagem a partir de blocos" refere-se a uma técnica descendente muito usada na fase de conceito: desenha-se primeiro um esboço de implantação (layout) em 2D, com cada peça representada por um bloco de esboço (um grupo de linhas tratado como um todo), e só depois se transformam esses blocos em peças 3D.

  1. Desenha-se o esboço do móvel em alçado ou em corte: um retângulo para cada lateral, para o tampo, para a base, para cada prateleira.
  2. Cada retângulo passa a ser um bloco com nome (lateral-esq, tampo...). Os blocos relacionam-se entre si por relações de esboço, e já se podem mover para testar proporções e mecanismos em 2D.
  3. Cria-se uma peça a partir de cada bloco e dá-se-lhe espessura por extrusão. No SOLIDWORKS, por exemplo, o comando chama-se Make Part from Block e faz parte das ferramentas de esboço de implantação da montagem; outros programas têm fluxos equivalentes (no Autodesk Inventor, a partir de blocos de esboço de uma peça de implantação).
  4. As peças ficam ligadas ao esboço: mudar a altura do bloco da lateral muda a altura da peça 3D.

Esta técnica serve para decidir proporções e mecanismos (um tampo basculante, uma cama rebatível) antes de gastar tempo em pormenores. Não se confunde com o subconjunto (4.3): o bloco é um esboço 2D que dá origem a peças; o subconjunto é uma montagem 3D já feita.

Exemplo resolvido · estante por medida a partir de blocos

Um cliente quer uma estante para um nicho de 1200 mm de largura e 2100 mm de altura, em aglomerado de 19 mm.

  1. No esboço de implantação desenham-se os blocos: duas laterais (19 × 2100), tampo e base entre laterais, e duas prateleiras.
  2. A largura do tampo não se escreve à mão: fica igual à distância entre as faces interiores das laterais. Com o nicho de 1200 mm e as laterais por fora: 1200 - 2 × 19 = 1162 mm.
  3. Transformam-se os blocos em peças e dá-se a cada uma a profundidade de 300 mm.
  4. O cliente mede de novo e o nicho afinal tem 1185 mm. Altera-se a cota do esboço: o tampo, a base e as prateleiras passam a 1185 - 38 = 1147 mm sem mais nenhuma edição.

5. Relações de montagem

Uma relação de montagem (em inglês, mate ou constraint, conforme o programa) define como dois componentes se posicionam um em relação ao outro, apoiada em referências geométricas (faces, arestas, eixos, pontos, planos). Executar diferentes tipos de relação de montagem de conjuntos de componentes é uma das aptidões centrais da UC.

5.1 Relações padrão

A tabela indica os graus de liberdade que cada relação retira quando é aplicada a um componente ainda livre (6 graus). Quando o componente já tem outras relações, a mesma relação pode retirar menos, porque alguns graus já tinham saído (ver capítulo 6).

Relação Entre Efeito Graus retirados (componente livre) Exemplo em mobiliário
Coincidente plano com plano as duas faces ficam no mesmo plano, em contacto 3 (1 translação, 2 rotações) a base de uma lateral apoiada na base do móvel
Coincidente ponto com plano o ponto fica sobre o plano 1 um vértice de uma peça encostado a uma parede de referência
Coincidente ponto com ponto os dois pontos coincidem 3 (as 3 translações) uma rótula
Concêntrica cilindro com cilindro os eixos ficam alinhados 4 (2 translações, 2 rotações) uma cavilha no seu furo
Paralela plano com plano as faces ficam com a mesma orientação 2 (2 rotações) a porta paralela à frente da lateral
Perpendicular plano com plano as faces ficam a 90° 1 (1 rotação) uma travessa perpendicular à lateral
Tangente plano com cilindro a face curva toca a plana 2 (1 translação, 1 rotação) um puxador cilíndrico pousado num painel
Distância plano com plano paralelo as faces ficam paralelas, a um afastamento fixo 3 a folga de 2 mm entre uma frente de gaveta e a estrutura
Ângulo plano com plano as faces ficam a um ângulo fixo 1 uma porta aberta a 90° para uma imagem de catálogo

Duas observações que evitam confusões:

5.2 Relações de limite e relações mecânicas

Além das relações padrão, os programas oferecem duas famílias úteis em mobiliário:

As relações mecânicas não substituem as relações padrão: a engrenagem só funciona se cada roda já estiver presa ao seu eixo por uma concêntrica.

5.3 Exemplo resolvido · uma cavilha no seu furo

Uma cavilha de 8 mm de diâmetro entra num furo de 8 mm na lateral.

  1. Concêntrica entre a superfície cilíndrica da cavilha e a do furo: retira 4 graus. A cavilha só pode deslizar ao longo do eixo e rodar em torno dele.
  2. Distância entre o topo da cavilha e a face da lateral (por exemplo, a cavilha fica a sobressair 17 mm): retira o deslizamento.
  3. Sobra a rotação em torno do próprio eixo. Numa cavilha cilíndrica, essa rotação não muda nada visível e pode ficar livre; se incomodar (por exemplo, na lista de verificação de graus livres), bloqueia-se com uma relação paralela entre um plano da cavilha e um plano da lateral.

5.4 Exemplo resolvido · relacionar uma porta com dobradiças

Há duas formas de modelar a porta, e é importante saber qual se está a usar.

Modelo simplificado (eixo de rotação equivalente). Serve para estudos rápidos de abertura e colisão:

  1. Cria-se, na porta, um eixo vertical que representa a articulação.
  2. Concêntrica (ou coincidente eixo com eixo) entre esse eixo e um eixo equivalente na lateral: retira 4 graus.
  3. Coincidente entre a face inferior da porta e um plano de referência à altura certa: retira o deslizamento ao longo do eixo.
  4. Sobra 1 grau: a rotação da porta. Uma relação de limite de ângulo entre 0° e o ângulo de abertura da dobradiça escolhida completa o modelo.

Modelo com a dobradiça real. A dobradiça de copo mais comum em mobiliário é um mecanismo de várias articulações: ao abrir, a porta não roda em torno de um eixo fixo, afasta-se ligeiramente da lateral enquanto roda. Por isso:

  1. O copo relaciona-se com o furo de 35 mm da porta (concêntrica e coincidente com a face interior da porta), o que prende a porta ao copo.
  2. A base de montagem relaciona-se com a lateral (concêntrica com os furos de fixação e coincidente com a face interior da lateral).
  3. O movimento da porta passa a ser comandado pelas articulações internas do subconjunto da dobradiça, que tem de estar definido como flexível.

O modelo simplificado é suficiente para a maior parte das verificações; o modelo real é o que mostra se a porta bate numa parede vizinha, num puxador ou numa gaveta interior.

6. Graus de liberdade

No espaço 3D, um componente livre tem seis graus de liberdade: três translações (ao longo de X, Y e Z) e três rotações (em torno de X, Y e Z). Cada relação de montagem retira um ou mais destes graus.

Estado Graus livres Significado
Fixo 0 preso à origem da montagem, sem relações (normalmente o primeiro componente)
Totalmente definido 0 não se move, porque as relações o prendem por completo
Subdefinido 1 a 6 ainda se move; pode ser intencional (porta, gaveta) ou falta de uma relação
Sobredefinido (conflito) relações contraditórias ou impossíveis de satisfazer ao mesmo tempo; o programa assinala erro

6.1 Contar graus: não é uma soma simples

A tabela do capítulo 5 diz quanto cada relação retira a um componente livre. Quando se aplicam várias relações seguidas, cada nova relação só retira os graus que ainda estavam livres. Por isso conta-se passo a passo, perguntando sempre: "depois desta relação, o que é que a peça ainda consegue fazer?".

Exemplo resolvido · lateral de um caixote com três coincidências

A base de um caixote está fixa. Quer prender-se uma lateral por três faces, perpendiculares entre si. Eixos: X na largura, Y na profundidade, Z na altura.

Passo Relação Graus retirados O que a lateral ainda faz Graus livres
0 nenhuma · tudo 6
1 coincidente: face inferior da lateral com face superior da base 3 (Tz, Rx, Ry) desliza no plano da base (Tx, Ty) e roda em torno da vertical (Rz) 3
2 coincidente: face exterior da lateral com o topo esquerdo da base 2 (Tx, Rz) só desliza em profundidade (Ty) 1
3 coincidente: face da frente da lateral com a face da frente da base 1 (Ty) nada 0

Total retirado: 3 + 2 + 1 = 6. Repara que a coincidência plano-plano do passo 2 "valeria" 3 graus numa peça livre, mas só retirou 2: a rotação que ela também prenderia (Ry) já tinha sido retirada no passo 1. A lateral fica totalmente definida.

Exemplo resolvido · gaveta que desliza

A estrutura do móvel está fixa. A gaveta relaciona-se com a corrediça (simplificada como uma peça fixa ao interior da lateral).

Passo Relação Graus retirados Graus livres
0 nenhuma · 6
1 coincidente: face inferior da lateral da gaveta com a face de apoio da corrediça 3 (Tz, Rx, Ry) 3
2 coincidente: face exterior da lateral da gaveta com a face interior da corrediça 2 (Tx, Rz) 1
3 limite de distância: frente da gaveta entre 0 e 450 mm da frente do móvel nenhum grau inteiro; limita o curso 1 (limitado)

Resultado: a gaveta fica com um único grau livre, a translação em profundidade (Ty), que é exatamente o movimento funcional. Se se aplicasse uma terceira coincidência (frente da gaveta com frente do móvel) em vez do limite, a gaveta ficava totalmente definida e deixava de abrir.

Exemplo resolvido · porta simplificada

Passo Relação Graus retirados Graus livres
0 nenhuma · 6
1 concêntrica: eixo da articulação da porta com o eixo equivalente na lateral 4 (2 translações perpendiculares ao eixo, 2 rotações que inclinariam o eixo) 2
2 coincidente: face inferior da porta com o plano de referência da altura 1 (translação ao longo do eixo) 1
3 limite de ângulo: entre 0° e 110° nenhum grau inteiro 1 (limitado)

A porta fica com um grau livre, a rotação em torno do eixo vertical.

Exemplo resolvido · rótula

Um candeeiro de braço articulado tem uma rótula esférica. Relaciona-se o centro da esfera com o centro da cavidade por uma coincidência ponto com ponto: retira as 3 translações. Sobram 3 rotações, que é o comportamento de uma rótula: roda em qualquer direção sem se deslocar.

6.2 Como verificar

6.3 Subdefinido e sobredefinido

Subdefinido não é, por si só, um erro. É um erro quando o grau livre não tem função: uma prateleira que ainda desliza para a frente porque falta uma relação, e que vai aparecer deslocada no desenho.

Sobredefinido é sempre um problema. Acontece quando:

Antes de acrescentar uma relação, pergunta: "que grau de liberdade é que esta relação vai retirar?". Se a resposta for "nenhum, já estava preso", não a acrescentes.

7. Comandos de movimentação de componentes

Mesmo com relações aplicadas, é frequente mover componentes durante a montagem: para os afastar antes de relacionar, para testar um mecanismo ou para posicionar uma peça nova.

7.1 Comandos de movimentação

Comando genérico O que faz Nome em alguns programas (exemplos)
Mover livremente arrasta o componente dentro dos graus que ainda possui Move Component (SOLIDWORKS), Free Move (Inventor)
Rodar roda o componente dentro dos graus que ainda possui Rotate Component (SOLIDWORKS), Free Rotate (Inventor)
Mover por valores desloca ou roda por uma distância ou ângulo escritos opção dos comandos anteriores na maior parte dos programas
Mover com deteção de colisões para o movimento (ou avisa) quando uma peça toca noutra opção do comando de mover em vários programas
Arrastar pela relação altera o valor de uma relação de distância ou ângulo e vê o resultado editar o valor da relação

Um componente totalmente definido não se move com estes comandos. Se o aluno tenta arrastar e "a peça está presa", o problema não é o comando, são as relações.

7.2 Editar conjuntos

Editar conjuntos é uma aptidão da UC e inclui mais do que mover:

Exemplo resolvido · substituir uma corrediça descontinuada

A corrediça de 450 mm usada num projeto deixou de ser fabricada. A equivalente de outro fornecedor tem o mesmo comprimento e os mesmos pontos de fixação.

  1. Seleciona-se a corrediça na árvore e usa-se substituir componente, escolhendo o ficheiro novo.
  2. O programa tenta reaplicar as relações. As que usavam a face de apoio e a face lateral passam logo, porque o novo ficheiro tem faces equivalentes.
  3. Uma relação usava um furo que no modelo novo tem outra posição; o programa assinala-a. Reatribui-se a relação ao furo correspondente.
  4. Confirma-se o curso da gaveta (limite de distância) e corre-se a deteção de colisões.

Resultado: troca feita sem recriar a gaveta nem as outras relações.

8. Referências geométricas

As relações de montagem apoiam-se sempre em referências geométricas. Escolher bem a referência é o que separa uma montagem que aguenta alterações de uma que se desfaz à primeira mudança de medida.

Referência Descrição Uso típico
Face superfície plana ou curva do sólido coincidências, distâncias, tangências
Aresta linha de encontro entre duas faces alinhar bordos quando não há face útil
Vértice ponto de encontro de arestas coincidências ponto com plano ou ponto com ponto
Eixo linha ao centro de um furo ou cilindro concêntricas, articulações
Planos de origem os três planos base de cada peça e da montagem relações robustas, que não dependem da forma
Plano ou eixo auxiliar criado pelo utilizador onde a peça não tem referência útil centrar ferragens, definir simetrias
Ponto auxiliar ponto criado num sítio calculado posição de um puxador, centro de uma rótula

8.1 Referências robustas e referências frágeis

Exemplo resolvido · centrar um puxador numa porta

Uma porta tem 596 mm de largura e 716 mm de altura. O puxador deve ficar centrado na largura, com o centro a 60 mm do bordo superior.

  1. Cria-se, na porta, um plano auxiliar a meia distância entre as duas faces laterais (plano de simetria da largura).
  2. Cria-se um segundo plano auxiliar desfasado 60 mm da face superior, para dentro.
  3. Relaciona-se o plano de simetria do puxador com o primeiro plano (coincidente) e o eixo do puxador com o segundo (coincidente).
  4. Relaciona-se a base do puxador com a face exterior da porta (coincidente).

Se a porta passar a ter 446 mm de largura, o plano de simetria recalcula-se e o puxador continua centrado, sem nenhuma edição. Se se tivesse escrito "298 mm a partir do bordo esquerdo" (metade de 596), o puxador ficava deslocado 75 mm do centro na porta nova.

Alguns programas têm uma relação própria para centrar um componente entre duas faces (no SOLIDWORKS chama-se Width, relação de largura), que dispensa o plano auxiliar.

9. Multiplicação de componentes segundo orientação

Muitos elementos de um móvel repetem-se: parafusos, cavilhas, suportes de prateleira, dobradiças, pés. A multiplicação de componentes evita inseri-los e relacioná-los um a um, e mantém-nos ligados ao original: se o primeiro mudar, todos mudam.

9.1 Tipos de padrão

Padrão Como se define Exemplo
Linear uma ou duas direções, espaçamento e número de instâncias suportes de prateleira ao longo de uma linha de furos do sistema 32
Circular eixo, ângulo entre instâncias (ou ângulo total) e número de instâncias pés de uma mesa redonda, parafusos de uma flange
Comandado por padrão da peça segue um padrão de furos já existente na peça um parafuso em cada furo de uma placa de fixação
Por esboço ou por curva segue pontos de um esboço ou uma curva cavilhas em posições irregulares, elementos ao longo de um arco
Espelho plano de simetria a dobradiça ou a porta do lado oposto

A orientação do padrão (a direção, o eixo, o plano de simetria) define-se sempre por uma referência geométrica: uma aresta, um eixo, um plano. É isso que o referencial chama "multiplicação segundo orientação".

9.2 Contas de um padrão linear

Num padrão linear com n instâncias e espaçamento p, a distância entre o centro da primeira e o centro da última é (n - 1) × p. É o erro mais comum: pensar que 8 furos a 32 mm ocupam 8 × 32 = 256 mm, quando ocupam 7 × 32 = 224 mm entre centros.

Exemplo resolvido · linha de suportes de prateleira

Uma lateral de 720 mm tem uma linha de furos do sistema 32 para suportes de prateleira. O primeiro furo está a 128 mm da base, e nenhum furo pode ficar a menos de 128 mm do topo.

  1. Espaço disponível entre o primeiro furo e o limite superior: 720 - 128 - 128 = 464 mm.
  2. Número de espaçamentos de 32 mm que cabem: 464 ÷ 32 = 14,5, portanto 14 espaçamentos.
  3. Número de furos: 14 + 1 = 15.
  4. Posição do último furo: 128 + 14 × 32 = 128 + 448 = 576 mm da base (fica a 144 mm do topo, dentro do limite).
  5. No CAD: modela-se um furo, faz-se um padrão linear na peça com 15 instâncias a 32 mm, e na montagem os suportes seguem esse padrão (padrão comandado pela peça). Assim, se a lateral mudar, os suportes acompanham.

Exemplo resolvido · pés de uma mesa redonda

Uma mesa redonda leva 4 pés iguais, colocados sobre uma circunferência de 700 mm de diâmetro.

  1. Insere-se e relaciona-se um pé (coincidente com a face inferior do tampo, e o seu eixo a 350 mm do centro).
  2. Padrão circular em torno do eixo vertical do tampo: 4 instâncias, ângulo entre instâncias 360° ÷ 4 = 90°.
  3. Se o cliente pedir 5 pés, muda-se o número para 5 e o ângulo passa a 72°.

9.3 Espelhar componentes

Espelhar cria a instância do lado oposto a partir de um plano de simetria. Há duas situações:

Muitos programas posicionam a instância espelhada pela própria operação de espelho, e não por relações próprias. Depois de espelhar, confirma-se que a instância acompanha as alterações do original e, se for uma peça móvel (uma porta), que continua a ter o grau de liberdade pretendido.

10. Biblioteca de componentes normalizados

Uma biblioteca de componentes normalizados reúne parafusos, porcas, anilhas, cavilhas, dobradiças, corrediças, puxadores e outras ferragens já modelados e prontos a inserir, organizados por família e por norma ou catálogo de fabricante.

10.1 Tipos de biblioteca

Tipo Origem Exemplos
Biblioteca do programa incluída ou instalada com o software Toolbox (SOLIDWORKS), Content Center (Inventor): parafusos, porcas e anilhas segundo normas ISO, DIN e outras
Catálogos de fabricantes modelos 3D disponibilizados pelos fabricantes de ferragens dobradiças, corrediças, sistemas de união, pés reguláveis
Portais de modelos sítios com milhares de componentes descarregáveis modelos de fornecedores em STEP ou em formato nativo
Biblioteca da empresa criada pela equipa peças-tipo da casa: pés, rodapés, perfis, puxadores próprios

10.2 Designar corretamente um componente normalizado

Um componente normalizado identifica-se pela norma e pelas dimensões, não pela aparência. Exemplos de designação:

Numa biblioteca bem configurada, estas designações ficam nas propriedades do componente e passam automaticamente para a lista de peças.

10.3 Boas práticas

Manter a biblioteca organizada, com nomes claros e sem duplicados, é uma forma direta de aplicar as atitudes de rigor e sentido de organização do referencial.

Exemplo resolvido · escolher o comprimento de um parafuso

Uma travessa de 19 mm é aparafusada, de face, contra o topo de uma lateral também de 19 mm. O parafuso entra pela face da travessa e prende no topo da lateral.

  1. O parafuso atravessa a travessa (19 mm) e entra na lateral pelo topo.
  2. Para prender bem, deve penetrar na lateral uma parte razoável do seu comprimento; se for curto, prende quase só na travessa.
  3. Um parafuso de 30 mm fica com 30 - 19 = 11 mm na lateral: pouco. Um de 50 mm fica com 31 mm, uma penetração bem maior.
  4. Verificação no CAD: o parafuso não pode sair por nenhuma face da lateral; como entra pelo topo, no sentido da altura, há espaço de sobra.
  5. A escolha final segue a recomendação do fabricante do parafuso para aquele material.

11. Colisão entre componentes

Antes de dar a montagem por terminada, verifica-se se existe colisão, também chamada interferência: duas peças a ocupar o mesmo espaço, algo impossível na realidade. Detetar e corrigir interferências é uma aptidão avaliada diretamente nesta UC.

11.1 Três verificações diferentes

Verificação Pergunta a que responde Quando se usa
Deteção de interferências (estática) há sólidos sobrepostos na posição atual? sempre, antes de fechar a montagem
Deteção de colisões ao mover (dinâmica) ao mover a porta ou a gaveta, alguma peça toca noutra? em tudo o que tem graus livres
Verificação de folgas a distância entre duas peças é pelo menos a folga mínima pedida? frentes de gaveta, portas, peças que dilatam

No SOLIDWORKS, por exemplo, a primeira chama-se Interference Detection e a terceira Clearance Verification; outros programas têm equivalentes com nomes próprios.

A deteção de interferências só encontra sólidos sobrepostos. Não assinala uma peça a flutuar, um parafuso cuja ponta sai para o ar por trás de um painel, nem uma folga pequena de mais. Essas situações descobrem-se com a verificação de folgas, com vistas de corte e com medições.

11.2 Interferências esperadas

Nem toda a interferência é erro. Algumas são esperadas e resultam da forma como se modela:

Os programas permitem ignorar interferências marcadas como esperadas, ou agrupar as que envolvem ferragens de fixação, para que a lista mostre só os problemas reais.

11.3 Colisões comuns em mobiliário

Exemplo resolvido · prateleira sem folga

Um móvel tem 800 mm de largura exterior e laterais de 19 mm. A prateleira foi modelada com 764 mm.

  1. Largura do vão interior: 800 - 2 × 19 = 762 mm.
  2. A prateleira tem 764 mm: sobra 1 mm para cada lado, que se sobrepõe às laterais.
  3. A prateleira tem 19 mm de espessura e 300 mm de profundidade. Volume de cada interferência: 1 × 19 × 300 = 5700 mm³; total 11 400 mm³, que é o valor que o programa mostra na lista de interferências.
  4. Correção: uma prateleira amovível, pousada em suportes, precisa de folga para entrar e sair. Com 1 mm de folga de cada lado (valor definido no projeto), a prateleira passa a 762 - 2 = 760 mm.
  5. Repete-se a deteção: zero interferências.

Exemplo resolvido · porta e gaveta interior

Um armário tem uma porta com dobradiças de copo de 95° de abertura e, atrás da porta, uma gaveta interior.

  1. A deteção estática, com a porta fechada e a gaveta fechada, não encontra nada.
  2. Abre-se a porta até ao limite (95°) e move-se a gaveta com a deteção de colisões ativa: a gaveta bate na porta, porque aos 95° a porta ainda ocupa uma parte do vão de saída do lado da dobradiça.
  3. Soluções possíveis, a decidir no projeto:
  4. dobradiças de maior ângulo de abertura, de modo que a porta liberte o vão;
  5. recuar a gaveta interior, afastando a sua frente da porta com um calço ou distanciador;
  6. reduzir a largura da gaveta.
  7. Escolhe-se uma solução, altera-se o modelo e repete-se o teste em todo o percurso: porta aberta ao máximo, gaveta a sair até ao fim.

O teste só na posição de repouso nunca apanharia este problema: é uma colisão que só existe com as duas peças em movimento.

Correr a deteção de colisões só no fim do projeto é caro: cada problema encontrado obriga a desfazer trabalho. Corre-se sempre que se acrescenta um subconjunto ou uma peça móvel.

12. Vista explodida

Uma vista explodida afasta os componentes de um conjunto ao longo de direções definidas, mostrando como se encaixam, sem alterar a montagem real. Aplicar as técnicas de visualização segundo vistas explodidas é um critério de desempenho da UC.

12.1 Para que serve

12.2 Construir uma vista explodida eficaz

  1. Organizar a montagem por subconjuntos antes de explodir.
  2. Escolher a ordem de explosão que corresponde à sequência real de montagem, ao contrário: o que se monta por último é o primeiro a sair.
  3. Escolher a direção de cada passo segundo a direção real de montagem (uma cavilha sai pelo eixo do furo, uma prateleira sai para a frente, as costas saem para trás).
  4. Ajustar a distância de cada componente para leitura clara, sem sobreposições.
  5. Acrescentar linhas de trajetória (linhas finas que ligam cada peça à sua posição de montagem).
  6. Guardar a vista explodida como uma configuração ou representação própria da montagem, sem alterar a vista normal.
  7. No desenho, acrescentar balões numerados ligados à lista de peças.

Exemplo resolvido · sequência de explosão de uma gaveta

Sequência de montagem real de uma gaveta em kit: (1) laterais nas cavilhas da traseira; (2) fundo no rasgo das laterais; (3) frente nas cavilhas das laterais; (4) corrediças nas laterais.

Sequência de explosão (inversa):

Passo de explosão Componente Direção
1 corrediças para fora, perpendicular às laterais
2 frente para a frente, segundo o eixo das cavilhas
3 fundo para a frente, a deslizar no rasgo
4 laterais para fora, segundo o eixo das cavilhas da traseira
5 cavilhas ao longo dos respetivos eixos, meio caminho entre as peças

A vista final lê-se de trás para a frente como uma instrução: primeiro as laterais com a traseira, depois o fundo, depois a frente, por fim as corrediças.

Explodir todos os componentes à mesma distância, sem lógica de agrupamento, transforma uma ferramenta de comunicação numa imagem confusa. Os parafusos e as cavilhas explodem junto da peça a que pertencem, não a flutuar longe dela.

13. Simulação e teste de resiliência dos modelos

Realizar simulações e análises aos modelos de conjuntos é a segunda realização central desta UC. O referencial pede o teste das funcionalidades e da resiliência dos modelos: esforços (stress), temperatura e outros fatores ambientais.

13.1 Tipos de simulação

Simulação Pergunta Exemplo em mobiliário
Movimento (cinemática) o mecanismo faz o percurso previsto, sem colisões? porta, gaveta, tampo basculante, cama rebatível
Esforços (análise estática por elementos finitos) onde estão as tensões maiores e quanto deforma a peça sob carga? prateleira com livros, tampo de mesa, cadeira
Térmica como variam as dimensões com a temperatura? peças de metal ou de plástico junto a fontes de calor
Fatores ambientais (humidade) quanto mexe a madeira com a variação do teor de água? tampos de maciço, portas de maciço, móveis de casa de banho
Estabilidade o móvel tomba quando se abre uma gaveta ou alguém se apoia? estantes altas, cómodas, roupeiros

13.2 Como funciona uma análise de esforços

A análise de esforços usa o método dos elementos finitos: o programa divide a peça numa malha de pequenos elementos e calcula como cada um se deforma. Os passos são sempre os mesmos:

  1. Material: atribuir a cada peça as propriedades do material (módulo de elasticidade, coeficiente de Poisson, resistência). Os valores vêm da ficha técnica do fornecedor ou de tabelas técnicas fiáveis.
  2. Fixações (condições de apoio): onde a peça está presa ou apoiada (sobre os suportes, contra a parede).
  3. Cargas: forças, pesos, pressões, com o valor e a direção corretos.
  4. Malha: gerar os elementos; em zonas críticas (cantos, furos) a malha deve ser mais fina.
  5. Resultados: tensões, deslocamentos e fator de segurança. Interpretar, não só olhar para as cores.

Limites que o técnico tem de conhecer. Muitas ferramentas de simulação integradas no CAD tratam o material como isotrópico (igual em todas as direções) e elástico linear. A madeira maciça não é isotrópica: é muito mais rígida no sentido do fio do que na perpendicular. Os derivados (aglomerado, MDF) aproximam-se melhor desse modelo no plano do painel. Além disso, os derivados e a madeira sofrem fluência: sob carga permanente, a flecha continua a aumentar com o tempo, coisa que uma análise estática linear não mostra. A simulação é uma ferramenta de comparação e decisão, não uma garantia.

13.3 Exemplo resolvido · flecha de uma prateleira

Uma prateleira de aglomerado com 19 mm de espessura, 300 mm de profundidade e 800 mm de vão livre entre apoios vai levar livros. Estima-se uma carga de 20 kg distribuída ao longo do vão. Usa-se um módulo de elasticidade ilustrativo de 2500 N/mm² (num projeto real, o valor vem da ficha técnica do painel).

Antes de correr a simulação, faz-se uma estimativa à mão, para saber que ordem de grandeza esperar. Para uma viga simplesmente apoiada com carga uniformemente distribuída, a flecha máxima (ao centro) é:

f = 5 × q × L⁴ ÷ (384 × E × I), com I = b × h³ ÷ 12

  1. Carga por milímetro de vão: q = 20 × 9,81 ÷ 800 = 0,245 N/mm.
  2. Momento de inércia da secção: I = 300 × 19³ ÷ 12 = 300 × 6859 ÷ 12 = 171 475 mm⁴.
  3. L⁴ = 800⁴ = 4,096 × 10¹¹ mm⁴.
  4. f = 5 × 0,245 × 4,096 × 10¹¹ ÷ (384 × 2500 × 171 475) ≈ 3,0 mm.

O projeto definiu um limite de flecha de 2 mm para esta prateleira. A estimativa (cerca de 3 mm) já mostra que não cumpre; a simulação no CAD deve dar um valor da mesma ordem. Se desse 0,3 mm ou 30 mm, algo estaria mal definido (unidades, carga, fixações).

Soluções e o seu efeito (a flecha é proporcional a L⁴ e inversamente proporcional a ):

Opção Conta Flecha estimada Cumpre 2 mm?
Aumentar a espessura para 25 mm 3,05 × (19 ÷ 25)³ = 3,05 × 0,439 ≈ 1,3 mm sim
Apoio central (dois vãos de 400 mm) vão a metade: fator (1/2)⁴ = 1/16 ≈ 0,2 mm ou menos sim
Manter e reduzir a carga para metade a flecha é proporcional à carga ≈ 1,5 mm sim, mas limita o uso
Material com o dobro da rigidez a flecha é inversamente proporcional a E ≈ 1,5 mm sim

Reparar como reduzir o vão é muito mais eficaz do que engrossar: é a quarta potência.

13.4 Exemplo resolvido · estabilidade de uma estante alta

Uma estante com 1800 mm de altura, 300 mm de profundidade e 40 kg de massa (vazia), com o centro de gravidade a meio da profundidade, está pousada no chão sem fixação. Que força horizontal, aplicada no topo e a puxar para a frente, a faz tombar?

  1. A estante tomba rodando em torno da aresta da frente da base.
  2. Momento que a segura (peso): 40 × 9,81 × 0,15 = 58,9 N·m (braço de 0,15 m, metade da profundidade).
  3. Momento que a derruba: F × 1,8 m.
  4. Tomba quando F × 1,8 > 58,9, ou seja, F > 32,7 N, o equivalente ao peso de cerca de 3,3 kg.

Uma criança que trepe às prateleiras aplica muito mais do que isso. É por isto que móveis de arrumação altos têm de ser concebidos para resistir ao derrube ou fixados à parede, e que a norma europeia de segurança para móveis de arrumação domésticos e de cozinha (EN 14749) inclui ensaios de estabilidade. No CAD, a fixação à parede modela-se (ferragem, furos, posição) e aparece nas instruções de montagem.

13.5 Temperatura e humidade

Exemplo resolvido · folga para um tampo de maciço

Um tampo de madeira maciça tem 600 mm de largura. Admite-se, a título ilustrativo, uma variação dimensional de 0,25 % na largura por cada ponto percentual de variação do teor de água (o valor real depende da espécie e do corte, e consulta-se em tabelas técnicas). Prevê-se que o teor de água varie entre 8 e 12 % ao longo do ano.

  1. Variação do teor de água: 12 - 8 = 4 pontos percentuais.
  2. Variação da largura: 600 × 0,25 % × 4 = 600 × 0,01 = 6 mm.
  3. Conclusão para o modelo: o tampo não pode ser aparafusado de forma rígida à estrutura em toda a largura. Modela-se a fixação com furos ovalizados ou grampos de tampo que permitam cerca de 3 mm de movimento para cada lado a partir do centro.
  4. Verificação no CAD: com o tampo nas medidas extremas (597 mm e 603 mm, por exemplo em duas configurações), corre-se a deteção de interferências.

Simular é uma forma prática de cumprir as normas da qualidade do referencial: testar antes de entregar, em vez de confiar só na experiência. Mas uma simulação só vale o que valem os dados de entrada: material, fixações e cargas.

14. Configurar, pré-visualizar e imprimir desenhos técnicos

Depois de validada a montagem por relações, colisões e simulação, gera-se o desenho técnico a partir do modelo 3D. Como o desenho é associativo, qualquer alteração ao modelo atualiza as vistas e as cotas; o que não se atualiza sozinho é a revisão na legenda, que é responsabilidade do técnico.

14.1 Configuração do desenho

14.2 Escolher a escala

Exemplo resolvido · escala de um armário numa folha A3

Um armário tem 1800 mm de altura, 800 mm de largura e 400 mm de profundidade. Vai ser desenhado numa folha A3 ao baixo (420 × 297 mm). Descontando margens e legenda, a zona útil ronda os 380 × 230 mm (valor aproximado, depende do modelo de folha).

  1. A 1:5: o alçado teria 1800 ÷ 5 = 360 mm de altura. Não cabe nos 230 mm.
  2. A 1:10: o alçado tem 180 mm de altura e 80 mm de largura; a vista lateral, à direita, tem 40 mm de largura; a planta, por baixo do alçado, tem 40 mm de altura, mas 180 + 40 = 220 mm já encosta ao limite dos 230 mm, sem espaço para cotas entre vistas.
  3. Solução a 1:10: alçado e vista lateral lado a lado, planta substituída por um corte horizontal numa segunda folha, ou folha A2.
  4. A 1:20 cabe tudo com folga (alçado de 90 mm), mas os pormenores de ferragens ficam ilegíveis: resolvem-se com pormenores ampliados a 1:2 ou 1:5.

Em qualquer escala, as cotas inscritas são as medidas reais: 1800, 800, 400.

14.3 Pré-visualização

A pré-visualização confirma, antes de gastar papel ou enviar um PDF, que:

14.4 Imprimir e exportar

Imprimir sem pré-visualizar é a forma mais comum de descobrir tarde de mais que uma cota ficou fora da folha, ou que a legenda não foi atualizada depois de uma alteração ao modelo.

15. Normas de desenho técnico, segurança e qualidade

15.1 Normas de desenho técnico

As normas internacionais ISO de documentação técnica de produto (muitas adotadas como normas europeias e portuguesas) definem como se desenha para qualquer técnico ler sem ambiguidade:

Assunto Norma de referência
Tipos e espessuras de linha ISO 128
Cotagem ISO 129-1
Escalas ISO 5455
Projeções ortogonais ISO 5456-2
Formatos e apresentação da folha ISO 5457
Legenda ISO 7200
Lista de peças ISO 7573
Referências de peças (balões) ISO 6433

No dia a dia, as regras que mais pesam num desenho de conjunto de mobiliário são: método europeu, escalas normalizadas, cotas em milímetros sem unidade com o valor real, cotagem funcional sem repetições, balões ligados à lista de peças, e o fio da madeira indicado nas peças de maciço.

15.2 Normas de segurança e saúde no trabalho

A segurança aparece nesta UC em três frentes:

O posto de trabalho de CAD. O trabalho com equipamentos dotados de visor está regulado em Portugal pelo Decreto-Lei n.º 349/93, de 1 de outubro (que transpôs a Diretiva 90/270/CEE), e pela Portaria n.º 989/93, de 6 de outubro, que fixa as prescrições mínimas. Na prática:

A oficina que vai fabricar o que se desenha. O técnico de desenho decide coisas que afetam quem fabrica. O pó de madeira dura é um agente cancerígeno reconhecido; a Diretiva (UE) 2017/2398 fixou para ele um valor-limite de exposição de 2 mg/m³ a partir de 17 de janeiro de 2023. Captação de pó na origem nas máquinas e máscara FFP2 ou FFP3 quando a captação não chega são as medidas básicas. Um projeto que reduz lixagens e maquinações desnecessárias também reduz exposição.

A segurança do produto. O móvel desenhado tem de ser seguro para quem o usa: estabilidade contra o derrube (capítulo 13), fixação à parede de móveis altos, arestas arredondadas nas zonas de contacto, batentes que impedem que uma gaveta saia e caia, e ausência de pontos de entalamento em mecanismos. Para móveis de arrumação domésticos e de cozinha, a norma europeia EN 14749 define requisitos de segurança e métodos de ensaio.

15.3 Normas da qualidade

A qualidade no projeto em CAD pratica-se com rotinas simples:

Exemplo · lista de verificação antes de enviar um conjunto para produção

Verificação Estado
Unidades em milímetros em todos os ficheiros
Primeiro componente fixo, restantes posicionados por relações
Graus livres documentados (porta: 1 rotação; gaveta: 1 translação)
Deteção de interferências: zero por resolver (esperadas justificadas)
Colisões testadas com portas e gavetas em movimento
Simulação feita e interpretada, com estimativa à mão coerente
Vista explodida com balões ligados à lista de peças
Desenho pré-visualizado, escala e legenda confirmadas, revisão atualizada

Erros comuns

Glossário

Síntese

Modelar um conjunto em CAD 3D segue sempre a mesma lógica:

  1. Ler o desenho e as especificações, e perceber materiais e processos de fabrico.
  2. Configurar o software: unidades, modelos, propriedades, pastas, biblioteca.
  3. Importar ou modelar os componentes, confirmando unidades e orientação.
  4. Montar: um componente fixo, os outros por relações; subconjuntos para o que se repete; blocos de esboço para o conceito.
  5. Contar graus de liberdade passo a passo e deixar livres só os que têm função.
  6. Multiplicar os elementos repetidos com padrões e espelhos.
  7. Verificar interferências, colisões em movimento e folgas.
  8. Explodir o conjunto pela ordem inversa da montagem.
  9. Simular movimento, esforços e ambiente, com estimativa à mão ao lado.
  10. Desenhar, pré-visualizar e imprimir à escala, segundo as normas de desenho, segurança e qualidade.

É este fluxo, aplicado com rigor, que transforma peças soltas num móvel pronto para a oficina.

Exercícios resolvidos

1. Um conjunto tem uma porta com dobradiça já relacionada, mas ao arrastar a porta ela não roda. O que verificas primeiro?

Resolução: o estado da porta na árvore de montagem. Se aparecer como totalmente definida, há uma relação a mais a bloquear a rotação (por exemplo, uma coincidência entre a face da porta e a frente da lateral, ou uma relação de ângulo com valor fixo em vez de uma relação de limite). Remove-se ou converte-se essa relação, deixando a concêntrica no eixo e a coincidência que fixa a altura. Se o subconjunto da dobradiça estiver definido como rígido, define-se como flexível.

2. Porque é que importar um componente de catálogo exige confirmar as unidades, mesmo que o ficheiro pareça correto no ecrã?

Resolução: porque o programa pode ler o valor numérico na unidade errada, criando um componente com a forma certa mas o tamanho errado por um fator de 25,4. No ecrã, sem outras peças por perto, isso não se nota. Só medindo uma dimensão conhecida (o copo de 35 mm de uma dobradiça) se confirma a escala.

3. Uma calha tem 12 furos a 32 mm entre centros. Que distância há entre o primeiro e o último furo, e que ferramenta usas para colocar os suportes?

Resolução: (12 - 1) × 32 = 11 × 32 = 352 mm. Usa-se um padrão linear (ou, melhor, um padrão comandado pelo padrão de furos da peça) a partir de um suporte já relacionado no primeiro furo.

4. Uma lateral é presa à base por três coincidências plano-plano em faces perpendiculares entre si. Quantos graus retira cada uma e com quantos fica a lateral?

Resolução: a primeira retira 3 (uma translação e duas rotações), a segunda retira 2 (uma translação e uma rotação, porque a outra rotação já tinha saído), a terceira retira 1 (a última translação). Total 6: a lateral fica totalmente definida, com 0 graus livres.

5. Uma gaveta colide com uma travessa interior só quando está quase totalmente aberta. Porque é que a deteção de interferências na posição fechada não apanhou este erro?

Resolução: porque a deteção de interferências analisa só a posição atual. A colisão só existe durante o movimento. É preciso mover a gaveta ao longo de todo o curso com a deteção de colisões ativa, ou verificar em várias posições intermédias.

6. Uma prateleira de 19 mm, com 800 mm de vão, dá numa estimativa 3,0 mm de flecha. Quanto dá, aproximadamente, se o vão passar a 600 mm, mantendo tudo o resto?

Resolução: a flecha é proporcional a L⁴. (600 ÷ 800)⁴ = 0,75⁴ ≈ 0,316. Flecha ≈ 3,0 × 0,316 ≈ 0,95 mm. Reduzir o vão em 25 % reduz a flecha para menos de um terço.

7. Um armário de 1800 mm de altura vai ser desenhado a 1:10. Quanto mede o alçado no papel e que valor se escreve na cota da altura?

Resolução: no papel, 1800 ÷ 10 = 180 mm. Na cota escreve-se 1800, sem unidade, porque a cota indica sempre a medida real.

8. Que informação tem de estar sempre atualizada na legenda de um desenho depois de uma revisão ao modelo?

Resolução: o número de revisão e a data, no mínimo, e a descrição da alteração na tabela de revisões. Quem recebe o desenho tem de saber que trabalha com a versão em vigor.

9. Explica a diferença entre uma vista explodida bem construída e uma mal construída.

Resolução: a bem construída afasta os componentes por subconjuntos, pela ordem inversa da montagem e segundo as direções reais de encaixe, com linhas de trajetória e balões; lê-se como uma instrução. A mal construída afasta tudo à mesma distância e em direções arbitrárias, com parafusos a flutuar longe das peças a que pertencem.

10. Uma estante de 1800 mm de altura, 300 mm de profundidade e 40 kg tomba com uma força horizontal no topo de cerca de 33 N. Que decisões de projeto resultam deste número?

Resolução: o número mostra que a estante, solta, tomba com uma força muito pequena. Decisões: prever fixação à parede (ferragem modelada, furos e posição indicados no desenho e nas instruções de montagem), aumentar a profundidade da base ou baixar o centro de gravidade (por exemplo, pondo peso em baixo), e verificar o projeto contra os requisitos de estabilidade da EN 14749.