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UC · Unidade de Competência · UC00253

Sebenta · Modelar componentes em CAD 3D (UC00253)

Do esboço 2D ao sólido paramétrico: coordenadas, camadas, cotagem, materiais e simulação de componentes de mobiliário
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Desenho de Produto em M ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a modelar componentes de mobiliário em CAD 3D, do primeiro esboço 2D até a um sólido paramétrico pronto para simular, cotar e enviar para o fabrico. É a competência central de um técnico de desenho de produto em madeira e mobiliário: quase tudo o que acontece depois, orçamento, maquinação CNC, montagem, nasce do modelo 3D que constróis aqui.

O percurso segue o fluxo de trabalho real de um gabinete de desenho: primeiro configura-se o ambiente de trabalho, depois define-se o sistema de coordenadas e a unidade, constrói-se o modelo por esboços 2D convertidos em sólidos, organiza-se em camadas, torna-se paramétrico para gerar variantes, reutilizam-se blocos e bibliotecas, derivam-se vistas 2D e cotas a partir do sólido, atribuem-se materiais e texturas, testam-se simulações de esforços, e tudo isto sob normas de desenho técnico, segurança e qualidade.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar desenhos e especificações técnicas para modelar componentes de mobiliário; configurar o software de CAD 3D; organizar diferentes camadas no desenho; converter entidades bidimensionais em objetos sólidos; criar blocos e bibliotecas; aplicar restrições e dimensões paramétricas; executar projeções planas a partir dos desenhos 3D; aplicar a cotagem dos desenhos em CAD 3D; aplicar texturas e materiais aos modelos; configurar, pré-visualizar e imprimir os desenhos; exportar e importar modelos 3D; testar a funcionalidade e a resiliência dos modelos; e aplicar as normas de desenho técnico, de segurança e saúde no trabalho e da qualidade.

1. O papel do CAD 3D no desenho de produto em madeira

Um técnico de desenho de produto em madeira e mobiliário não desenha só para "mostrar" um móvel: desenha para que uma máquina de corte, um operador de colagem e um montador consigam executar a peça sem ambiguidade. O modelo 3D é o documento de trabalho central desse processo.

Do papel ao sólido digital

Durante décadas, o desenho técnico de mobiliário fez-se em prancheta, depois em CAD 2D: linhas, cotas e vistas desenhadas à mão, uma por uma. O CAD 3D inverte esta lógica: constrói-se um sólido paramétrico que representa a peça real, com volume, material e dimensões, e todas as vistas 2D, cotas e listas de materiais derivam automaticamente dele.

Três formas de representar um objeto em 3D

Nem todo o "3D" é igual. Os programas guardam a geometria de três maneiras muito diferentes, e confundi-las é fonte de muitos problemas na troca de ficheiros.

Representação O que guarda Pontos fortes Limitações Onde aparece
Sólido (B-rep) faces exatas que fecham um volume, com "dentro" e "fora" tem volume e massa, aceita booleanas, gera vistas e cotas rigorosas formas orgânicas muito livres são mais difíceis peças de mobiliário, maquinação, desenho de fabrico
Superfície só a "pele", sem espessura formas curvas livres (assentos, frentes curvas) não tem volume nem massa até ser fechada ou espessada design de forma, carroçarias, peças ergonómicas
Malha (mesh) milhares de triângulos (ou polígonos) planos que aproximam a forma leve para visualizar e imprimir em 3D, vem de digitalizações 3D não tem cotas, parâmetros nem faces exatas: um cilindro é um prisma de muitas faces STL para impressão 3D, render, modelos de jogos, digitalização

B-rep (boundary representation, representação por fronteira) quer dizer que o sólido é descrito pelas faces, arestas e vértices que o limitam, com geometria matemática exata: um furo de 8 mm é um cilindro perfeito de 8 mm, não uma aproximação por triângulos.

Uma malha parece um sólido no ecrã, mas não se comporta como tal: não se lhe pode medir um raio com rigor, não aceita bem operações booleanas e não gera cotas associativas. Um componente de mobiliário que vai ser cotado e maquinado deve ser modelado como sólido.

Modelação paramétrica por histórico e modelação direta

Os programas de CAD 3D seguem uma de duas filosofias (muitos combinam as duas):

Paramétrica (histórico) Direta
Alterar uma medida muda-se o parâmetro e tudo se recalcula empurra-se a face à mão
Famílias de variantes excelente fraca
Editar ficheiros importados sem histórico limitada excelente
Risco típico árvore que "parte" quando uma operação perde a referência perda da intenção de projeto

Não há um só programa

No mercado há dezenas de programas de CAD 3D, e o que se aprende nesta UC tem de servir em qualquer um. Há programas generalistas de desenho com módulo 3D (o AutoCAD, por exemplo), programas de modelação paramétrica mecânica (SolidWorks, Inventor, Fusion, FreeCAD, entre outros), programas de modelação livre e visualização (SketchUp, Rhino, Blender) e programas específicos para mobiliário, que ligam o modelo à lista de corte e à CNC. Os nomes dos comandos mudam de programa para programa; os conceitos (esboço, restrição, extrusão, booleana, vista associativa, cota associativa) são os mesmos. Nesta sebenta, sempre que se dá o nome concreto de um comando, diz-se de que programa é.

O que o técnico analisa antes de modelar

Antes de abrir o software, o técnico analisa desenhos e especificações técnicas: um caderno de encargos, um esboço do cliente, um catálogo de ferragens, ou um desenho de arquitetura de interiores. Desta análise saem:

Só depois desta análise é que a modelação começa. Modelar sem esta etapa produz peças bonitas que não cabem no espaço real ou não são fabricáveis com o material disponível.

Exemplo resolvido: interpretar uma especificação simples

Um cliente pede um armário de arrumação para um corredor de 1,80 m de largura, 2,40 m de altura livre, e profundidade máxima de 40 cm, em MDF lacado de 18 mm, com três portas.

  1. Dimensões gerais: largura 1800 mm, altura até 2400 mm (deixar folga de montagem, por exemplo 15 mm no topo), profundidade máxima 400 mm.
  2. Material: MDF de 18 mm de espessura, a considerar em todas as espessuras de painel do modelo.
  3. Divisão: três portas para 1800 mm de largura dá, em princípio, portas de cerca de 590 a 600 mm cada, a confirmar com as ferragens escolhidas.
  4. Próximo passo: com estes dados fixados, começa a configuração do ficheiro e a modelação dos primeiros painéis.

Repara na conversão de unidades logo no ponto 1: o cliente falou em metros e centímetros, mas o modelo trabalha em milímetros (1,80 m = 1800 mm; 40 cm = 400 mm). Esta conversão faz-se uma vez, no papel, antes de abrir o programa.

2. Interpretar desenhos e especificações técnicas

Modelar começa por ler bem o que outros desenharam. Muitas vezes o ponto de partida é um desenho técnico 2D (de um arquiteto, de um cliente industrial, de um fornecedor) e o técnico tem de o transformar num modelo 3D fiel. Interpretar mal uma vista é modelar a peça errada com todo o rigor.

O método europeu de projeção (1.º diedro)

Em Portugal, como no resto da Europa, as vistas ortogonais dispõem-se segundo o método europeu, também chamado 1.º diedro (ISO 5456-2). A vista de partida é o alçado principal (vista de frente), escolhido para ser a vista que mais informação dá sobre a peça. As outras vistas arrumam-se à volta dele assim:

Vista Posição na folha, em relação ao alçado principal
Planta (vista de cima) por baixo
Vista lateral esquerda (vista da esquerda) à direita
Vista lateral direita à esquerda
Vista de baixo por cima

A regra de memória é simples: no 1.º diedro, cada vista fica do lado oposto àquele de onde se olha. Olhar de cima dá uma vista que se desenha em baixo; olhar da esquerda dá uma vista que se desenha à direita.

Nos Estados Unidos e noutros países usa-se o método americano (3.º diedro), em que a planta fica por cima do alçado e a vista da esquerda fica à esquerda. Um desenho americano lido como se fosse europeu dá uma peça espelhada. Confirma sempre o símbolo do método de projeção na legenda antes de modelar a partir de um desenho de outra origem.

Tipos de linha que é preciso reconhecer

Linha Aspeto Significado
Contínua grossa traço cheio, mais espesso arestas e contornos visíveis
Contínua fina traço cheio, fino linhas de cota e de chamada, trama (tracejado) das zonas cortadas
Tracejada traços curtos arestas invisíveis (escondidas)
Traço-ponto fina traço longo, ponto, traço longo eixos de simetria e eixos de furos e de peças torneadas
Traço-ponto com extremos grossos como a anterior, com as pontas reforçadas indicação do plano de corte

As espessuras de linha seguem uma série normalizada (0,25; 0,35; 0,5; 0,7 mm, entre outras), e a linha grossa tem normalmente o dobro da espessura da fina.

Escalas e cotas

O sentido do fio

Nas peças de madeira maciça e nos folheados, o desenho e a lista de corte indicam o sentido do fio (a direção das fibras), normalmente com uma seta. O comprimento das peças maciças segue o fio, por razões de resistência e de estabilidade. No modelo 3D, esta informação tem de ficar registada (no nome da peça, num atributo ou na orientação da textura) para não se perder.

Exemplo resolvido: ler um desenho de uma lateral

Recebes uma folha A3 com o símbolo do 1.º diedro na legenda, escala 1:5. O alçado principal mostra um retângulo estreito, com a cota 720 na vertical e 18 na horizontal (a lateral vista de frente, de topo). Por baixo dele há outro retângulo estreito, com 18 na horizontal e 400 na vertical. À direita do alçado há um retângulo com as cotas 400 e 720, com duas circunferências de eixo traço-ponto e a indicação "2 × Ø8".

  1. Método: 1.º diedro, portanto o retângulo por baixo é a planta e o da direita é a vista lateral esquerda.
  2. Dimensões: altura 720 mm e espessura 18 mm (alçado), profundidade 400 mm (planta), confirmadas na vista lateral (400 × 720), que mostra a face grande da peça.
  3. Furação: dois furos de Ø8 mm na face vista na lateral (típicos de cavilhas); a posição sai das cotas desses furos.
  4. Escala: a peça tem 720 mm; no papel, a 1:5, ocupa 720 / 5 = 144 mm. A escala só serve para verificar o enquadramento; o modelo 3D faz-se com 720 mm, nunca com 144.
  5. Resultado: modelar um sólido de 720 × 400 × 18 mm, com dois furos Ø8 na face indicada, e verificar se as cotas do desenho são suficientes. Faltando alguma, regista-se a dúvida e confirma-se antes de modelar.

3. Configurar a área gráfica

Antes de desenhar a primeira linha, configura-se o ambiente de trabalho do software de CAD 3D: a área gráfica.

Espaço do modelo vs layout

Praticamente todo o software de CAD 3D distingue dois espaços de trabalho:

Espaço Para que serve Escala
Modelo (model space) construir o sólido sempre à escala real (1:1)
Layout / apresentação organizar vistas para impressão escala de folha (ex.: 1:5, 1:10)

O componente é sempre modelado à escala real no espaço do modelo. É só na folha de layout que se escolhe uma escala de representação para caber no papel.

Elementos a configurar

Templates: consistência entre projetos

Um template (modelo de ficheiro) guarda, prontos a usar, a unidade, as camadas, os estilos de cota e os materiais mais comuns de um gabinete. Começar sempre de um template poupa tempo e evita erros de configuração repetidos projeto após projeto.

Um gabinete de mobiliário de cozinha cria um template com: unidade em milímetros, camadas "Estrutura", "Ferragens", "Cotas" e "Anotações" já criadas, estilo de cota sem casas decimais (as cotas de mobiliário são, quase sempre, milímetros inteiros), e materiais "MDF branco 18 mm" e "MDF branco 6 mm" (para fundos) já disponíveis. Cada projeto novo arranca deste template, nunca de um ficheiro em branco.

4. Unidades de medida e sistemas de coordenadas

A unidade correta desde o primeiro clique

No desenho de produto em madeira, a unidade de trabalho quase universal é o milímetro. Painéis, furos de cavilhas e ferragens exigem o rigor que o milímetro dá; o metro é demasiado grosseiro para cotar um furo de 8 mm com precisão.

Confundir a unidade base do ficheiro é o erro mais caro de todos: um modelo criado em centímetros e lido como se estivesse em milímetros aparece dez vezes mais pequeno; um modelo em metros lido em milímetros aparece mil vezes mais pequeno; um modelo em polegadas lido em milímetros fica 25,4 vezes mais pequeno. Verifica sempre a unidade antes de desenhar a primeira linha, e antes de importar um ficheiro de outra origem.

Tabela de conversão de unidades de comprimento

De Para mm Exemplo
1 m × 1000 2,40 m = 2400 mm
1 cm × 10 40 cm = 400 mm
1 polegada (in, ") × 25,4 3/4" = 19,05 mm
1 pé (ft) × 304,8 8 ft = 2438,4 mm

As polegadas aparecem em catálogos de ferragens e de máquinas de origem americana e em muitos ficheiros descarregados da internet. As áreas e os volumes convertem-se com o quadrado e o cubo do fator: 1 m² = 1 000 000 mm² e 1 m³ = 1 000 000 000 mm³ (10⁹). É por isso que um volume lido em mm³ tem de ser dividido por 10⁹ para dar m³, antes de se multiplicar pela densidade em kg/m³.

Exemplo resolvido: um ficheiro que chegou com o tamanho errado

Um fornecedor envia um modelo de puxador. Ao importá-lo, o puxador aparece com 6,3 mm de comprimento, quando o catálogo indica 160 mm.

  1. Razão entre o esperado e o obtido: 160 / 6,3 ≈ 25,4.
  2. 25,4 é exatamente o número de milímetros numa polegada: o ficheiro foi criado em polegadas e lido como milímetros.
  3. Correção: voltar a importar indicando a unidade de origem correta (polegadas) ou, se o programa não o permitir, escalar o objeto por 25,4 a partir de um ponto de base conhecido.
  4. Verificação: medir de novo o puxador (deve dar 160 mm) e um detalhe conhecido, como a distância entre furos de fixação.

Coordenadas absolutas e relativas

Cada ponto de um esboço ou de um sólido existe num sistema de três eixos: X (largura), Y (profundidade) e Z (altura). A orientação dos eixos segue a regra da mão direita: com o polegar em X e o indicador em Y, o dedo médio aponta para Z positivo.

No AutoCAD, por exemplo, uma coordenada relativa escreve-se com o prefixo @ (@600,0 quer dizer "600 mm em X a partir do último ponto") e uma polar usa o sinal < para o ângulo (@300<45 quer dizer "300 mm a 45°"). Outros programas pedem os valores em caixas de diálogo ou diretamente sobre o esboço, mas a lógica é a mesma.

Exemplo resolvido: contorno de uma lateral com canto chanfrado

Pretende-se o contorno de uma lateral de 400 mm (X) por 720 mm (Y), com o canto superior direito cortado a 45° numa extensão de 50 mm em cada direção. Partindo da origem (0,0):

Ponto Entrada (relativa) Coordenada absoluta resultante
P1 origem (0, 0)
P2 400 em X (400, 0)
P3 670 em Y (400, 670)
P4 recua 50 em X e sobe 50 em Y (350, 720)
P5 recua 350 em X (0, 720)
fecho volta a P1 (0, 0)

Verificação: 670 + 50 = 720 mm de altura total e 350 + 50 = 400 mm de largura total. O segmento P3-P4 tem comprimento √(50² + 50²) = √5000 ≈ 70,7 mm e está a 135° do eixo X, o que em coordenadas polares se escreveria como uma distância de 70,7 mm a 135°. Usar relativas evita calcular à mão as coordenadas absolutas de cada ponto; usar a polar só compensa quando se conhece o comprimento e o ângulo, e não os catetos.

O sistema de coordenadas do utilizador (UCS)

Por omissão, o sistema de coordenadas está alinhado com o "chão" do modelo. Mas muitos componentes têm faces inclinadas, laterais ou de topo onde é preciso desenhar diretamente. O UCS (user coordinate system) pode ser deslocado e rodado para coincidir com essa face, tornando o desenho local tão simples como desenhar sobre uma folha plana. O nome UCS vem do AutoCAD (onde o comando se chama UCS); nos programas paramétricos o mesmo resultado obtém-se escolhendo uma face ou um plano de trabalho como plano do esboço, e o esboço herda desse plano os seus eixos locais.

Exemplo resolvido: furar uma face lateral

Para colocar dois furos de cavilha na face lateral de um painel vertical, sem mover o UCS seria preciso calcular manualmente a posição de cada furo no sistema global, com os três eixos a intervir ao mesmo tempo.

  1. Mover a origem do UCS para o canto inferior da face lateral do painel.
  2. Rodar o UCS até o plano XY do UCS coincidir com essa face.
  3. Desenhar os dois furos com coordenadas simples nesse plano local (por exemplo, a 50 mm e a 400 mm da extremidade).
  4. O software converte automaticamente estas coordenadas locais para a posição correta no sistema global.

5. Comandos de visualização em CAD 3D

Modelar em 3D exige navegar constantemente à volta da peça: ver de perto um encaixe, ver o conjunto todo, ver o interior de uma gaveta.

Modos de visualização

Modo Mostra Uso típico
Arame (wireframe) só as arestas, transparente ver através da peça, verificar geometria interna
Sólido sombreado volumes opacos, sem cor real trabalho de modelação do dia a dia
Realista / render com materiais e texturas apresentação ao cliente

Cortes, ocultação e vista explodida

Antes de aprovar uma junta de encaixe entre uma lateral e uma prateleira, o técnico aplica um plano de corte que atravessa a junta. A vista em corte mostra que a folga entre as duas peças é de apenas 0,2 mm, dentro da tolerância aceitável para aquele tipo de encaixe.

6. Da entidade bidimensional ao sólido

A maioria dos componentes de mobiliário nasce de um esboço 2D: um contorno de linhas, arcos ou curvas, desenhado num plano.

O esboço tem de estar fechado

Para um esboço 2D poder ser convertido num sólido, o contorno tem de estar fechado, sem espaços abertos nem linhas sobrepostas. Um esboço com um pequeno espaço aberto impede o comando de conversão de identificar um volume definido.

Comandos de conversão em sólido

Comando O que faz Exemplo de uso
Extrusão "puxa" o perfil numa direção, dando-lhe espessura um painel plano
Revolução roda o perfil à volta de um eixo um pé torneado
Varrimento (sweep) desloca o perfil ao longo de um caminho uma moldura
Solevação (loft) liga vários perfis colocados em planos diferentes, criando uma transição suave entre eles um pé que passa de secção quadrada a redonda, um puxador orgânico

Linhas soltas, polilinhas e regiões

Num programa paramétrico, o esboço é um objeto próprio e o programa deteta sozinho os contornos fechados. Num programa de desenho generalista, as entidades 2D são linhas, arcos e polilinhas independentes, e é preciso transformá-las primeiro num contorno único:

No AutoCAD, por exemplo, juntam-se linhas soltas numa polilinha com o comando JOIN, cria-se uma região com REGION e convertem-se em sólidos com EXTRUDE, REVOLVE, SWEEP e LOFT; o PRESSPULL extrude diretamente uma área fechada delimitada por linhas. Noutros programas os nomes são diferentes (Extrusão, Revolução, Varrimento, Solevação), mas o princípio é o mesmo.

Regras que evitam falhas na conversão

Comando Condição para funcionar
Extrusão contorno fechado; a direção não pode ficar no plano do esboço
Revolução o perfil fica todo de um lado do eixo (pode tocar no eixo, nunca o atravessar)
Varrimento o perfil é perpendicular ao início do caminho; o caminho não tem curvas mais apertadas do que o próprio perfil
Solevação os perfis estão em planos diferentes e ordenados; os pontos de início de cada perfil estão alinhados, para a transição não "torcer"

Exemplo resolvido: modelar um painel por extrusão

  1. Desenhar um esboço retangular de 600 mm por 400 mm num plano.
  2. Verificar que o contorno está fechado, sem duplicações.
  3. Aplicar o comando de extrusão com uma distância de 18 mm, correspondente à espessura do MDF escolhido.
  4. Resultado: um sólido de 600 x 400 x 18 mm, pronto a receber furos, chanfros ou camadas de cotagem.

Exemplo resolvido: modelar um pé torneado por revolução

  1. Desenhar, num único plano, metade do perfil do pé (a silhueta lateral vista de um lado do eixo de simetria).
  2. Definir o eixo de revolução, coincidente com o centro do pé.
  3. Aplicar o comando de revolução a 360 graus.
  4. Resultado: um sólido de simetria circular completa, gerado a partir de metade do trabalho de desenho.

Se o pé tiver 40 mm de diâmetro máximo, o perfil desenhado tem 20 mm de largura máxima (o raio), com o lado reto encostado ao eixo. Um erro frequente é desenhar o perfil com 40 mm de largura: o pé sai com 80 mm de diâmetro.

Exemplo resolvido: uma moldura por varrimento

  1. Desenhar o caminho: o retângulo do contorno exterior de um quadro, 500 × 700 mm.
  2. Desenhar o perfil da moldura (por exemplo, 30 mm de largura por 20 mm de altura, com um boleado na aresta exterior) num plano perpendicular ao caminho, num dos cantos.
  3. Aplicar o varrimento do perfil ao longo do caminho.
  4. Resultado: uma moldura contínua com os cantos em esquadria resolvidos automaticamente.
  5. Nota de fabrico: na oficina, a moldura faz-se em quatro peças com cortes a 45°. Para a lista de corte, o modelo deve ser dividido nessas quatro peças, cada uma com o fio ao comprido.

Exemplo resolvido: um pé por solevação

  1. Desenhar, no plano do chão (Z = 0), um quadrado de 40 × 40 mm.
  2. Desenhar, num plano paralelo a Z = 450 mm, uma circunferência de 25 mm de diâmetro, centrada na mesma vertical.
  3. Aplicar a solevação entre os dois perfis.
  4. Resultado: um pé que passa gradualmente de secção quadrada em baixo a secção redonda em cima. Uma peça assim não se faz num torno; exige maquinação CNC ou trabalho manual, e isso tem de ser discutido com a oficina antes de se aprovar o desenho.

7. Desenho por camadas

O que são camadas e para que servem

As camadas (layers) organizam o desenho em grupos independentes, cada um com nome, cor, espessura de linha e estado (visível, oculta, bloqueada) próprios.

Sem camadas, um projeto de mobiliário torna-se rapidamente ilegível: estrutura, ferragens, cotas e anotações misturadas na mesma vista.

Uma convenção de camadas típica num gabinete de mobiliário: 0-Estrutura para painéis e sólidos principais, 1-Ferragens para blocos de dobradiças e corrediças, 2-Cotas para toda a cotagem, 3-Anotacoes para texto e notas, 4-Eixos para geometria de construção auxiliar.

Boas práticas de camadas

Propriedades de uma camada e a sua ligação à impressão

Propriedade Para que serve Exemplo num gabinete
Nome identificar o conteúdo 2-Cotas
Cor leitura rápida no ecrã; em alguns programas, também define a espessura na impressão cotas a verde, eixos a vermelho
Tipo de linha contínua, tracejada, traço-ponto 4-Eixos em traço-ponto
Espessura de linha como a linha sai impressa contornos 0,5 mm, cotas 0,25 mm
Estado visível/oculta, bloqueada, imprimível ou não geometria de construção visível mas não imprimível

Uma boa convenção faz com que o desenho saia impresso com as espessuras certas sem trabalho adicional: se todas as cotas estão na camada de cotas e essa camada tem linha fina, todas as cotas saem finas.

Camadas em programas paramétricos

Nem todos os programas usam a palavra "camada". Os programas de desenho generalistas (no AutoCAD, o gestor abre-se com o comando LAYER) trabalham por camadas; os programas paramétricos organizam o modelo sobretudo por corpos, componentes e pastas na árvore de histórico, e deixam as camadas para as folhas de desenho; outros programas de modelação usam etiquetas ou grupos com a mesma função. O objetivo é sempre o mesmo: arrumar a informação para a poder mostrar, esconder, bloquear e imprimir por grupos.

Num módulo baixo de cozinha com quatro portas, o técnico isola a camada 1-Ferragens para contar as dobradiças (são 8: duas por porta), confirma que batem com o orçamento, e volta a ligar as restantes camadas. A contagem demorou segundos, porque nenhuma dobradiça estava perdida na camada da estrutura.

8. Criação e modelação de sólidos

Primitivas e operações booleanas

Além de partir de um esboço, é possível começar por uma primitiva (cubo, cilindro, esfera) e depois combiná-la com outros sólidos através de operações booleanas:

Editar sólidos: chanfros, boleados e cascas

Exemplo resolvido: rebaixo para dobradiça por subtração

  1. Modelar o painel da porta como um sólido retangular de 18 mm de espessura.
  2. Desenhar, na face interior, um esboço circular com o diâmetro do copo da dobradiça (por exemplo, 35 mm).
  3. Extrudir esse esboço para dentro do painel, até à profundidade de furação indicada na ficha técnica da dobradiça (na gama CLIP top da Blum, por exemplo, são 13 mm), criando um segundo sólido.
  4. Aplicar subtração: sólido do painel menos sólido do rebaixo, resultando no alojamento da dobradiça.
  5. Verificação: numa porta de 18 mm com um rebaixo de 13 mm, sobram 18 - 13 = 5 mm de material no fundo do copo. É pouco, e é por isso que a posição e a profundidade vêm sempre do fabricante e nunca se arredondam "por segurança" para mais. A distância do bordo do copo à aresta da porta também vem da ficha técnica, porque dela depende a sobreposição da porta.

9. Geometrias tridimensionais de componentes

Geometrias típicas do mobiliário

Simetria e espelho

Muitas peças de mobiliário são simétricas: dois pés iguais, duas laterais em espelho, um par de portas. Em vez de modelar as duas metades à mão, modela-se uma só e usa-se o comando de espelho (mirror) para gerar a segunda automaticamente.

Um par de laterais de armário, uma esquerda e uma direita, é modelado a partir de uma única lateral: desenham-se os furos, chanfros e rebaixos numa só peça, e o comando de espelho gera a peça simétrica em segundos, garantindo que as duas são geometricamente idênticas em espelho.

Superfícies curvas

Frentes de móvel curvas ou assentos ergonómicos não se resolvem bem com sólidos simples. Nestes casos, define-se primeiro a superfície (a "pele" da forma) e só depois se espessa em sólido, um fluxo de trabalho distinto da extrusão direta de um esboço plano.

10. Restrições e dimensões paramétricas

O que é parametrizar um modelo

Um modelo paramétrico guarda a lógica de construção, não só a forma final: as dimensões são variáveis (parâmetros), relacionadas entre si por regras, e não números fixos e independentes.

Alterar o valor de um parâmetro atualiza automaticamente o sólido inteiro e todas as vistas derivadas dele.

As restrições geométricas mais usadas

Restrição O que impõe Exemplo num componente de mobiliário
Horizontal / vertical uma linha fica paralela ao eixo X / Y do esboço arestas de uma lateral retangular
Paralelo duas linhas mantêm a mesma direção as duas faces de uma ranhura
Perpendicular duas linhas fazem 90° o fundo e a frente de um rebaixo
Coincidente um ponto fica sobre outro ponto ou sobre uma linha o canto do contorno na origem
Tangente uma linha e um arco (ou dois arcos) ligam-se sem "quina" o boleado de um tampo
Concêntrico dois círculos ou arcos partilham o centro o copo e o furo de uma ferragem
Igual dois segmentos ou dois raios ficam com o mesmo valor os quatro cantos boleados de um tampo
Simétrico dois elementos ficam em espelho em relação a uma linha os furos de um puxador em relação ao eixo da gaveta
Fixo um elemento fica preso na posição a origem do esboço

As restrições dimensionais acrescentam os números: comprimentos, distâncias, raios, diâmetros e ângulos.

Esboço subdefinido, totalmente definido e sobredefinido

Cada elemento de um esboço tem "graus de liberdade": um ponto no plano pode mover-se em X e em Y (2 graus); uma linha pode mover-se e rodar e mudar de comprimento. Cada restrição geométrica ou dimensional tira graus de liberdade.

Estado O que quer dizer Consequência
Subdefinido ainda há elementos que se podem mover sem mudar nenhuma cota ao alterar um parâmetro, o esboço pode deformar-se de forma imprevisível
Totalmente definido nenhum elemento se pode mover sem violar uma restrição comportamento previsível: é o objetivo
Sobredefinido há restrições a mais ou contraditórias o programa recusa-se a resolver ou assinala erro

Muitos programas mostram o estado pela cor das linhas. No SolidWorks, por exemplo, a geometria subdefinida aparece a azul e a totalmente definida a preto; no FreeCAD, o esboço totalmente definido fica a verde. Noutros programas as cores são outras, mas há sempre uma indicação.

A regra de ouro é: esboço totalmente definido, sem restrições em excesso. Uma cota a mais não é "segurança extra": é uma restrição redundante que o programa rejeita ou transforma numa cota de referência (só de leitura).

Exemplo resolvido: definir totalmente o esboço de uma lateral

Esboço: um retângulo de 720 × 400 mm desenhado à mão livre, sem restrições.

  1. Ao desenhar um retângulo com a ferramenta própria, o programa já aplica coincidências nos quatro cantos, duas horizontais e duas verticais. Continua subdefinido: pode mudar de tamanho e deslizar pelo plano.
  2. Aplicar coincidente entre o canto inferior esquerdo e a origem: o retângulo deixa de poder deslizar.
  3. Cotar a aresta vertical com 720 e a horizontal com 400: o retângulo deixa de poder mudar de tamanho.
  4. O esboço fica totalmente definido. Se agora se acrescentar uma cota de 720 à aresta vertical do lado direito, ela é redundante (as verticais e as horizontais já garantem que os lados opostos são iguais) e o programa assinala sobredefinição.
  5. Para parametrizar, em vez de 720 escreve-se o nome do parâmetro, por exemplo Altura_lateral.

A intenção de projeto

Parametrizar bem é escolher as cotas que o cliente e a oficina vão querer mudar. Se uma prateleira deve ficar sempre a meio da altura interior, a cota correta é "metade da altura interior", não "350 mm". Se a lateral pode mudar de altura, os furos de dobradiça devem estar cotados a partir das arestas de topo e de base, não a partir da origem. A isto chama-se intenção de projeto (design intent): o modelo deve reagir às mudanças como o técnico reagiria.

Exemplo resolvido: parametrizar a largura de uma gaveta

  1. Modelar a caixa de uma gaveta, definindo a largura interior como o parâmetro Largura_gaveta, inicialmente 400 mm.
  2. Definir a espessura lateral da caixa como o parâmetro Esp_lateral, 12 mm.
  3. Relacionar a largura exterior da caixa como Largura_gaveta + 2 × Esp_lateral, em vez de um número fixo.
  4. Alterar Largura_gaveta para 500 mm: a caixa inteira recalcula-se automaticamente, mantendo a relação com a espessura lateral.

Contas: largura exterior inicial = 400 + 2 × 12 = 424 mm; depois da alteração = 500 + 2 × 12 = 524 mm.

Exemplo resolvido: a gaveta a partir do vão do móvel

Na prática, o parâmetro de partida costuma ser o vão interior do móvel, e a caixa da gaveta calcula-se a partir dele e da corrediça escolhida. As corrediças telescópicas de esferas de montagem lateral pedem, em regra, uma folga de cerca de 12,7 mm (meia polegada) de cada lado entre a caixa e a lateral do móvel; outras corrediças (ocultas, de montagem por baixo) têm regras próprias. O valor usado no modelo sai sempre da ficha técnica da corrediça.

Móvel com vão interior de 564 mm, corrediça lateral com 12,7 mm por lado, laterais da gaveta de 12 mm:

  1. Largura_exterior_gaveta = Vao_interior - 2 × Folga_corredica = 564 - 2 × 12,7 = 538,6 mm.
  2. Largura_interior_gaveta = Largura_exterior_gaveta - 2 × Esp_lateral = 538,6 - 24 = 514,6 mm.
  3. Se o módulo passar a ter um vão de 764 mm, o modelo recalcula: 764 - 25,4 = 738,6 mm por fora e 714,6 mm por dentro.

A tolerância destas corrediças é muito apertada: uma caixa um ou dois milímetros mais larga já não corre bem. É exatamente o tipo de relação que se deve escrever como fórmula e nunca como número solto.

Trabalhar com famílias de variantes

Restrições contraditórias, como duas cotas a tentar fixar o mesmo comprimento com valores diferentes, impedem o modelo de resolver. O software assinala o conflito; o técnico tem de decidir qual restrição remover ou ajustar.

11. Dimensionamento e manipulação gráfica do desenho

Modelar não é só criar geometria: é também deslocá-la, copiá-la, alinhá-la e medi-la com rigor. Estas operações de manipulação gráfica são as que mais se usam num dia de trabalho, e é nelas que se introduzem os erros "de um milímetro" que só aparecem na montagem.

Comandos de transformação

Comando O que faz O que é preciso indicar Cuidado
Mover desloca sem alterar a forma ponto de base e destino (ou deslocamento X, Y, Z) escolher um ponto de base notável (um canto), nunca "um sítio qualquer"
Copiar cria cópias independentes ponto de base e destinos se o objeto se repete e pode mudar, deve ser um bloco ou componente
Rodar gira em torno de um ponto (2D) ou de um eixo (3D) centro ou eixo e ângulo o sentido positivo do ângulo é o anti-horário
Espelhar cria a imagem simétrica plano ou linha de simetria ferragens com lado (esquerda/direita) também ficam espelhadas
Escalar multiplica todas as dimensões por um fator ponto de base e fator nunca para "acertar" uma peça cotada: muda também espessuras e furos
Alinhar leva uma face ou aresta a coincidir com outra as faces ou arestas de referência confirma que o alinhamento é por face e não por aresta de chanfro
Matriz / padrão repete em linha, em grelha ou em círculo número de elementos e espaçamento define o espaçamento como parâmetro

Referências de objeto (snap) e entrada numérica

Medir e consultar

Todos os programas têm ferramentas para medir distâncias, ângulos, áreas e volumes diretamente sobre o modelo, e para consultar as propriedades de um objeto (camada, material, dimensões). Medir antes de aprovar é o hábito que distingue um técnico rigoroso.

Exemplo resolvido: distribuir uma fila de furos de prateleira

Uma lateral de 720 mm de altura precisa de uma fila de furos para suportes de prateleira, com o primeiro furo a 100 mm da base, o último a 100 mm do topo, e furos intermédios a cada 32 mm.

  1. Distância disponível entre o primeiro e o último furo: 720 - 100 - 100 = 520 mm.
  2. Número de intervalos de 32 mm: 520 / 32 = 16,25. Não é inteiro: com passo de 32 mm, o último furo não pode ficar exatamente a 100 mm do topo.
  3. Solução: usar 16 intervalos, o que ocupa 16 × 32 = 512 mm, e colocar o último furo a 720 - 100 - 512 = 108 mm do topo. Ficam 17 furos.
  4. Modelar um furo e aplicar um padrão linear de 17 elementos com espaçamento 32 mm.
  5. Verificar com o comando de medir: do primeiro ao último furo devem ser 512 mm.

A lição é que as regras de fabrico (aqui, o passo de 32 mm) mandam nas cotas, e não o contrário.

12. Blocos e bibliotecas de componentes

Blocos: geometria reutilizável

Um bloco (ou componente) é um conjunto de geometria agrupada sob um nome, que pode ser inserido várias vezes no mesmo projeto ou em projetos diferentes. Editar o bloco original atualiza todas as instâncias já inseridas.

Ferragens padrão, como dobradiças, puxadores e corrediças, são normalmente modeladas uma única vez como bloco e depois reutilizadas em cada projeto que as precise.

Bibliotecas: organizar os blocos

Uma biblioteca organizada por categoria, com nomes claros ("Dobradiça_reta_35mm", não "Bloco3"), poupa horas de trabalho ao longo de um ano de projetos. Um bloco mal modelado, com dimensões erradas, propaga o mesmo erro por todos os projetos que o utilizam.

Atributos de bloco

Um bloco pode ter atributos associados: referência do fabricante, preço, código interno. Estes atributos alimentam, mais tarde, listas de materiais e orçamentos automáticos, sem trabalho manual adicional.

Criar um bloco passo a passo

  1. Modelar a peça uma vez, à escala real, na posição mais cómoda (por exemplo, com o centro do copo da dobradiça na origem).
  2. Escolher o ponto de inserção: o ponto pelo qual o bloco vai ser "pegado" ao inseri-lo. Para uma dobradiça, o centro do copo; para um puxador, o ponto médio entre os furos de fixação. Um ponto de inserção mal escolhido obriga a mover cada instância depois de a inserir.
  3. Dar um nome claro e definir os atributos (fabricante, referência, preço).
  4. Guardar o bloco dentro do projeto ou num ficheiro próprio, para o reutilizar noutros projetos.

No AutoCAD, por exemplo, cria-se o bloco dentro do desenho com BLOCK, grava-se num ficheiro independente com WBLOCK, insere-se com INSERT e editam-se os atributos com ATTDEF (definição) e ATTEDIT (valores). Nos programas paramétricos, o equivalente ao bloco é o componente ou a peça inserida numa montagem: cada peça é um ficheiro, e a montagem guarda apenas as posições e as relações entre elas.

Blocos, componentes e cópias: qual usar

Situação Usar
A mesma ferragem repetida 30 vezes num roupeiro bloco ou componente
Duas laterais iguais que podem mudar juntas componente (ou espelho associativo)
Uma prateleira que vai ser alterada só num dos módulos cópia independente (ou nova variante do componente)
Um furo repetido numa peça padrão (matriz), não bloco

Organizar uma biblioteca de gabinete

13. Projeções planas a partir do modelo 3D

Gerar vistas 2D a partir do sólido

A partir do modelo 3D, o software gera automaticamente as projeções planas necessárias ao fabrico: vista de frente, de cima, lateral, isométrica, cortes e pormenores. Estas vistas não são redesenhadas; são extraídas diretamente da geometria do sólido.

As vistas são associativas: alterar o modelo 3D atualiza automaticamente todas as vistas derivadas, o que garante que o desenho de fabrico nunca diverge da peça real. Nos programas paramétricos, isto acontece no ambiente de desenho (drawing), que é um ficheiro ligado ao da peça; no AutoCAD, por exemplo, as vistas associativas de um sólido criam-se com o comando VIEWBASE (vista base) e as vistas projetadas a partir dela.

O fluxo para criar as vistas

  1. Abrir uma folha com o formato e a legenda do gabinete (A4, A3...).
  2. Confirmar que o método de projeção é o 1.º diedro (método europeu).
  3. Escolher a vista base (alçado principal): a que mais informação dá sobre a forma e a que mostra a peça na posição de uso ou de fabrico.
  4. Projetar as outras vistas a partir dela: o programa coloca a planta por baixo e a vista lateral esquerda à direita do alçado.
  5. Acrescentar só as vistas necessárias: uma peça plana simples pode ficar bem definida com duas vistas e uma nota de espessura; uma peça com furação em várias faces pede três ou mais.
  6. Acrescentar cortes onde o interior é importante (encaixes, rebaixos, ranhuras) e pormenores ampliados onde a escala geral não deixa ler (por exemplo, um pormenor 2:1 de um encaixe).
  7. Acrescentar uma perspetiva (isométrica) para ajudar a leitura, sem cotas.

Cortes e pormenores

Escolher a escala e a folha

Folha Dimensões (mm) Uso típico em mobiliário
A4 210 × 297 peças pequenas, pormenores, fichas de peça
A3 297 × 420 componentes e móveis pequenos, o formato mais comum na oficina
A2 420 × 594 conjuntos, móveis grandes
A1 594 × 841 cozinhas e roupeiros completos

Exemplo resolvido: escolher a escala de uma lateral

Uma lateral de 720 × 400 × 18 mm vai ser desenhada em A3 (área útil aproximada de 390 × 270 mm, descontando margens e legenda), com alçado, planta e vista lateral.

  1. A 1:2, o alçado ocuparia 360 mm de altura: não cabe na altura útil de 270 mm.
  2. A 1:5, o alçado ocupa 720 / 5 = 144 mm de altura e 400 / 5 = 80 mm de largura (se a lateral estiver de frente) ou 18 / 5 = 3,6 mm (se estiver de topo). Cabe com folga para cotas.
  3. Uma espessura de 3,6 mm no papel é legível, mas os furos de Ø5 mm ficam com 1 mm: acrescenta-se um pormenor a 1:1 ou 2:1 para a furação.
  4. Decisão: escala geral 1:5, pormenor de furação à escala adequada, ambas indicadas no desenho. As cotas mantêm-se em valor real (720, 400, 18, Ø5).

A escala 1:4, que daria um desenho "maior", não se usa porque não é normalizada: a série recomendada passa de 1:2 diretamente para 1:5.

14. Cotagem de componentes em CAD 3D

Cotar a partir do modelo 3D

Cotar em CAD 3D é associar uma cota a uma geometria real do sólido, não escrever um número solto sobre a vista.

As regras que o desenho tem de cumprir

As regras gerais de cotagem estão normalizadas (ISO 129-1). As que mais contam num desenho de mobiliário:

  1. As cotas estão em milímetros e não se escreve a unidade. Outra unidade (graus nos ângulos) indica-se sempre.
  2. O valor é sempre a medida real, qualquer que seja a escala da vista.
  3. Cada dimensão cota-se uma só vez, na vista onde se lê melhor. Cotas repetidas contradizem-se quando uma muda.
  4. Cotam-se as dimensões necessárias e suficientes para fabricar e verificar a peça, sem obrigar a oficina a somar ou subtrair.
  5. As cotas colocam-se fora da peça sempre que possível, das mais pequenas (junto à peça) para as maiores (mais afastadas), para as linhas de cota não se cruzarem.
  6. Não se cota a arestas invisíveis (tracejado); faz-se um corte e cota-se no corte.
  7. Diâmetros levam o símbolo Ø, raios a letra R; furos iguais podem cotar-se uma vez com a indicação do número (por exemplo "4 × Ø8").
  8. Os furos cotam-se ao centro (ao eixo), não ao bordo.

Cadeia, paralelo e cotas a partir de uma referência

Tipo Como é Quando usar Cuidado
Em cadeia (em série) cada cota começa onde acaba a anterior quando o que interessa é a distância entre elementos vizinhos os erros de cada cota somam-se ao longo da cadeia
Em paralelo todas as cotas partem da mesma referência quando o que interessa é a posição de cada elemento em relação à aresta de referência ocupa mais espaço na folha
Por coordenadas (cotas de ordenada) um zero na referência e só o valor de cada posição furação com muitos furos, muito próxima da forma como a CNC trabalha a referência (zero) tem de ser a mesma da máquina

Exemplo resolvido: cotar um painel com furos de cavilha

  1. Modelar o painel com dois furos de cavilha a 100 mm e a 500 mm da extremidade esquerda.
  2. Se a tolerância crítica for a distância de cada furo à extremidade, usar cotas em paralelo, ambas medidas a partir da mesma referência: 100 e 500.
  3. Se a tolerância crítica for a distância entre os dois furos, cotar diretamente de um furo ao outro: 100 (da aresta ao primeiro) e 400 (do primeiro ao segundo), em cadeia.
  4. Rever a cotagem final contra a especificação técnica original antes de enviar para a oficina.

Exemplo resolvido: quanto se acumula numa cadeia

Uma lateral tem cinco furos cotados em cadeia, cada cota com uma tolerância de ±0,5 mm. No pior caso, a posição do quinto furo em relação à aresta pode afastar-se até 5 × 0,5 = 2,5 mm do valor nominal. Cotados em paralelo a partir da aresta, cada furo afasta-se no máximo 0,5 mm da sua posição. Se o quinto furo tiver de coincidir com um furo de outra peça, a cotagem em paralelo (ou por coordenadas) é a escolha certa.

Uma cota que não corresponde à geometria real do sólido é um erro grave, não um pormenor estético: uma gaveta com a cota da largura errada simplesmente não entra no móvel depois de cortada.

15. Materiais e processos de fabrico

O modelo 3D não é só forma: também carrega material, que influencia peso, custo, resistência e o processo de fabrico. Um bom desenhador modela a pensar em como a peça vai ser feita: uma forma impossível de maquinar, ou que obriga a desperdiçar metade de uma placa, é um mau desenho, por mais bonita que seja.

Painéis derivados de madeira

Material Como é feito Características Uso típico
Contraplacado folhas finas de madeira coladas com o fio cruzado entre camadas vizinhas, em número ímpar estável, resistente, bom a segurar parafusos; as orlas mostram as camadas costas, fundos de gaveta, peças curvas, mobiliário de design
Aglomerado de partículas partículas de madeira coladas e prensadas económico, estável; fraco a segurar parafusos no topo; quase sempre usado revestido (melamina, folha) mobiliário de série, caixas de cozinha e roupeiros
MDF fibras de madeira coladas e prensadas homogéneo, fácil de maquinar e de lacar, aceita fresagens decorativas; pesado frentes lacadas, peças fresadas, molduras
OSB partículas longas orientadas, em camadas resistente, aspeto característico estruturas, construção, alguns móveis de estética industrial

O fio cruzado do contraplacado é o que o torna estável: cada folha contraria o movimento da vizinha. O número ímpar de folhas garante que as duas faces exteriores têm o fio na mesma direção e que o painel fica equilibrado.

As espessuras comerciais variam por material e por fornecedor; em aglomerado e MDF são frequentes, entre outras, 16, 18 e 19 mm. O modelo tem de usar a espessura real da placa que vai ser comprada, confirmada no catálogo do fornecedor, e não um número redondo escolhido por comodidade.

Madeira maciça: um material anisotrópico

A madeira maciça comporta-se de forma diferente consoante a direção:

Consequências para o modelo: um tampo maciço largo não se prende rigidamente em toda a largura (tem de poder "trabalhar"); uma almofada maciça numa porta de quadro fica solta na ranhura, com folga; e as peças coladas cruzando o fio devem ser evitadas ou resolvidas com ligações que permitam o movimento.

Massa volúmica dos materiais mais usados

A massa volúmica (densidade, em kg/m³) é o valor que o programa usa para calcular a massa do modelo. Os valores variam com a espécie, a origem, o teor de água e o fabricante; os seguintes são ordens de grandeza de referência (madeira a cerca de 12 % de humidade) e devem ser confirmados na ficha técnica do material usado:

Material Massa volúmica aproximada
Pinho bravo cerca de 550 kg/m³ (os valores publicados andam entre cerca de 510 e 600)
Carvalho cerca de 650 a 750 kg/m³
MDF cerca de 700 a 800 kg/m³ (numa placa de 18 mm, valores à volta de 720 a 750 são comuns)

Processos de fabrico e o que exigem do desenho

Processo O que faz O que o desenho tem de respeitar
Corte em seccionadora corta as placas em peças retangulares peças retangulares, com a largura do disco (corte) considerada no aproveitamento; sentido do veio ou do padrão indicado
Orlagem cola uma orla (fita de melamina, ABS, folha ou madeira) nos topos das placas indicar que topos levam orla e a espessura da orla, que se soma (ou desconta) às medidas da peça
Furação abre furos para cavilhas, ligadores, dobradiças e suportes respeitar diâmetros e profundidades das ferragens; no sistema 32, furos de 5 mm com passo de 32 mm, normalmente a 37 mm da frente
Maquinação CNC (fresagem) fresa contornos, rebaixos, ranhuras e furos a partir do modelo os cantos interiores ficam com o raio da fresa: um canto interior vivo a 90° não sai de uma fresa
Torneamento dá forma a peças de revolução só formas que resultam de rodar um perfil em torno de um eixo
Colagem e prensagem junta peças e folheia painéis superfícies de colagem planas e suficientes; considerar a espessura da cola e da folha
Acabamento (lacagem, envernizamento) protege e dá aspeto final considerar a espessura do acabamento nas folgas de portas e gavetas

Exemplo resolvido: um rebaixo que a CNC não consegue fazer

O modelo tem um rebaixo retangular de 60 × 40 mm com cantos interiores vivos (raio zero), para encaixar uma placa de identificação.

  1. A CNC vai usar uma fresa de 6 mm de diâmetro, que deixa nos cantos interiores um raio mínimo de 3 mm.
  2. A placa de identificação tem cantos vivos: não entra num rebaixo com cantos de raio 3.
  3. Soluções: (a) mudar o modelo para cantos interiores com R3 e pedir uma placa com cantos arredondados; (b) usar a solução de "orelhas" (pequenos alívios circulares nos cantos, para a placa de cantos vivos caber); (c) esquadrejar os cantos à mão, o que custa tempo.
  4. Lição: o modelo deve mostrar o que a máquina realmente faz. Um desenho com cantos vivos, quando a peça sai com raios, é um desenho errado.

Explicar a importância dos processos de fabrico no design é uma das aptidões desta UC: cada decisão de forma tem um custo de fabrico. Antes de aprovar um modelo, pergunta: com que máquina é que isto se faz, e quantas operações são precisas?

16. Materiais e texturas no modelo

Material físico e aparência não são a mesma coisa

Os programas de CAD 3D distinguem, de forma mais ou menos explícita, duas coisas que o aluno tende a confundir:

Material físico Aparência (textura, cor, acabamento visual)
O que é propriedades de engenharia: massa volúmica, módulo de elasticidade, resistência, coeficientes térmicos imagem, cor, brilho, rugosidade visual aplicadas às faces
Para que serve calcular massa, centro de gravidade e simulações ver a peça como vai ficar, fazer renders
Muda o cálculo? sim não

Aplicar uma textura de carvalho a uma peça não a torna mais pesada nem mais rígida: só muda a imagem. Se a propriedade de massa continuar a usar a densidade de outro material (ou nenhuma), a massa calculada está errada, por mais realista que o render pareça. Por isso, sempre que se atribui um material a uma peça, confirma-se que o material físico também foi atribuído, e não só a aparência.

Texturas e mapeamento

As texturas simulam visualmente o aspeto de um material, como o veio da madeira ou o padrão de um laminado, aplicado sobre a superfície do sólido. O mapeamento ajusta a forma como a imagem se "cola" à peça:

Render

O render final gera uma imagem fotorrealista, útil para apresentar o projeto ao cliente antes do fabrico. Depende da aparência dos materiais, da iluminação e da câmara. Um render convincente não substitui a verificação técnica: o cliente aprova a imagem, mas a oficina fabrica a partir do desenho cotado.

Exemplo resolvido: tampo de carvalho com o veio errado

Um tampo de 1200 × 600 mm em carvalho aparece no render com o veio na direção dos 600 mm.

  1. Na peça real, o fio segue o comprimento (1200 mm): o render está errado.
  2. Correção: rodar a textura 90° no mapeamento dessa peça (ou redefinir a direção do mapeamento em caixa).
  3. Verificação: o veio deve correr ao longo dos 1200 mm no tampo e, nas orlas, aparecer em topo ou em comprimento conforme o que a oficina vai fazer.
  4. Verificação física: confirmar que o material físico do tampo é carvalho (e não o material por omissão do programa), para que a massa calculada seja realista.

17. Exportação e importação de modelos 3D

Um modelo raramente fica só no programa onde nasceu: vai para um colega com outro programa, para um fornecedor de ferragens, para a CNC, para uma impressora 3D ou para um programa de render. Cada destino pede um formato diferente, e cada formato leva e perde informação diferente.

Os formatos e o que levam

Formato Tipo O que leva O que perde Uso típico
Nativo (o do próprio programa) completo geometria exata, histórico, parâmetros, restrições, materiais nada, mas só abre no mesmo programa (e em versões compatíveis) continuar a trabalhar
STEP (.stp, .step) neutro, sólidos B-rep geometria exata dos sólidos, estrutura de montagem; em versões recentes pode levar mais informação histórico e parâmetros (chega como sólido "morto") trocar modelos entre programas de CAD, fornecedores de ferragens
IGES (.igs, .iges) neutro, mais antigo geometria exata, muitas vezes como superfícies histórico e parâmetros; às vezes os sólidos chegam como superfícies soltas sistemas mais antigos
STL (.stl) malha de triângulos só a forma aproximada por triângulos cotas, histórico, cores, materiais e a própria unidade impressão 3D
OBJ (.obj) malha forma aproximada e, com o ficheiro de materiais associado, cores e texturas geometria exata, parâmetros render, visualização, maquetas virtuais
DXF / DWG desenho (sobretudo 2D) linhas, arcos, camadas, cotas o sólido (em regra) contornos para CNC, troca de desenhos 2D
PDF documento o desenho impresso, legível em qualquer lado toda a geometria editável enviar o desenho técnico à oficina ou ao cliente

O STEP é descrito pela norma ISO 10303. A diferença essencial é esta: STEP e IGES trocam geometria exata (B-rep), enquanto STL e OBJ trocam malhas, isto é, aproximações por triângulos, sem cotas nem histórico.

A resolução das malhas

Ao exportar para STL, o programa pergunta (ou decide sozinho) a resolução da malha: quantos triângulos usar. Poucos triângulos dão um pé torneado "facetado"; triângulos a mais dão ficheiros enormes. Para impressão 3D de uma maqueta, uma resolução média costuma bastar; para uma peça funcional com furos pequenos, aumenta-se a resolução.

Importar sem estragar

  1. Unidade: confirmar em que unidade o ficheiro foi criado. O STL não guarda unidade nenhuma, só números: quem o abre tem de saber se são milímetros ou polegadas.
  2. Escala e medidas: medir uma dimensão conhecida (por exemplo, o diâmetro do copo de uma dobradiça, 35 mm).
  3. Integridade: verificar se o sólido chegou fechado (é sólido e tem volume) ou se chegou como superfícies soltas, com faces em falta.
  4. Orientação: alguns programas usam Z para cima, outros Y; um modelo pode chegar "deitado".
  5. Simplificar: modelos de fabricante trazem muitas vezes pormenores (roscas, logótipos) que tornam o projeto pesado e não interessam ao desenho; simplifica-se antes de os pôr na biblioteca.

Exemplo resolvido: escolher o formato para cada destino

Destino Formato Porquê
Colega que usa outro programa de CAD 3D e vai acrescentar peças ao conjunto STEP geometria exata, sólidos que se podem cotar e alterar por modelação direta
Impressão 3D de uma maqueta do puxador STL a impressora trabalha com malhas; confirmar a unidade (mm) no programa da impressora
Programa de render externo, com texturas OBJ (ou outro formato de malha com materiais aceite pelo programa de render) leva a forma e a aparência
Oficina, para cortar e montar PDF do desenho cotado legível em qualquer computador ou impresso
Continuar o projeto amanhã nativo é o único que mantém parâmetros e histórico

18. Configuração, pré-visualização e impressão dos desenhos

O desenho só está pronto quando sai impresso (ou em PDF) à escala certa, com as espessuras de linha certas e sem nada cortado. Imprimir é a última etapa, e é aqui que muitos trabalhos bem modelados se estragam.

O que se configura

A pré-visualização

A pré-visualização (print preview) mostra a folha tal como vai sair. Serve para confirmar, antes de gastar papel:

  1. que nada fica cortado nas margens (a legenda sobretudo);
  2. que as linhas grossas e finas se distinguem;
  3. que as cotas e os textos são legíveis;
  4. que a escala indicada na legenda é a escala real da impressão.

Exemplo resolvido: verificar a escala de um PDF

Um desenho de uma lateral de 720 mm, à escala 1:5, foi exportado em PDF para A3.

  1. A 1:5, a lateral deve medir 720 / 5 = 144 mm na folha impressa.
  2. Imprime-se o PDF a 100 % (tamanho real) e mede-se com uma régua: 144 mm, a escala está certa.
  3. Se medir cerca de 136 mm, alguém imprimiu com "ajustar à página": 136 / 144 ≈ 0,94, a folha foi reduzida em cerca de 6 %, e a escala 1:5 da legenda já não é verdadeira.
  4. É por isso que, mesmo com a escala certa, a oficina lê as cotas e não mede o papel.

Uma escala gráfica ajuda

Acrescentar uma escala gráfica (uma barra graduada) junto da legenda permite a quem recebe o papel perceber se ele foi ampliado ou reduzido: a barra encolhe ou estica com o desenho.

19. Testar funcionalidade e resiliência dos modelos

Porque simular antes de fabricar

Um componente pode ser testado digitalmente antes de sair para o fabrico, o que evita surpresas caras depois de a peça estar cortada, colada ou montada.

Propriedades de massa

O programa calcula o volume exato do sólido. Multiplicado pela massa volúmica do material físico atribuído, dá a massa. O programa calcula também o centro de gravidade, útil para saber se um móvel alto tende a tombar quando se abrem gavetas carregadas.

A conta que o programa faz é simples, e o técnico deve saber refazê-la para verificar o resultado:

massa (kg) = volume (m³) × massa volúmica (kg/m³)

Os programas dão o volume, muitas vezes, em mm³. Para passar a m³ divide-se por 10⁹ (mil milhões). Esquecer esta conversão dá massas absurdas. E confirma sempre que densidade o programa usou: se nenhum material físico foi atribuído, alguns programas usam um valor por omissão que nada tem a ver com madeira.

Exemplo resolvido: massa de três componentes

Peça Dimensões (mm) Volume Massa volúmica usada Massa
Painel de MDF 700 × 350 × 18 700 × 350 × 18 = 4 410 000 mm³ = 0,00441 m³ 750 kg/m³ 0,00441 × 750 ≈ 3,3 kg
Pé de pinho bravo (cilindro) Ø40 × 450 π × 20² × 450 ≈ 565 500 mm³ ≈ 0,000566 m³ 550 kg/m³ 0,000566 × 550 ≈ 0,31 kg
Tampo de carvalho 1200 × 600 × 30 0,0216 m³ 700 kg/m³ 0,0216 × 700 ≈ 15,1 kg

Se o programa indicar, para o painel de MDF, uma massa de 4,41 kg, o técnico percebe logo que foi usada uma densidade de 1000 kg/m³ (a da água, típica de valores por omissão) e corrige o material físico.

Exemplo resolvido: a flecha de uma prateleira, feita à mão

Antes de confiar numa simulação, faz-se uma estimativa à mão, para saber que ordem de grandeza esperar. Prateleira de MDF simplesmente apoiada nas pontas:

Se o projeto fixou como limite uma flecha de 3 mm (valor de exemplo, definido pelo projeto e não por uma regra universal), a prateleira não serve. Como a flecha varia com e com L⁴, as opções têm efeitos muito diferentes:

Alteração Nova flecha Conta
Espessura 25 mm ≈ 2,6 mm 7,0 × (18/25)³ = 7,0 × 0,373
Vão de 600 mm (módulo mais estreito) ≈ 1,4 mm 7,0 × (600/900)⁴ = 7,0 × 0,198
Reforço de frente (um listão colado por baixo) depende da secção do reforço aumenta muito o I da secção

Duas observações de técnico: o peso próprio da prateleira (cerca de 0,04 N/mm) aumenta um pouco a flecha; e o MDF sob carga permanente continua a deformar-se com o tempo (fluência), pelo que a flecha ao fim de meses é maior do que a calculada. Uma folga de segurança no limite é prudente.

Os limites da simulação: a madeira não é aço

As simulações de esforços por elementos finitos dividem a peça numa malha de pequenos elementos e calculam tensões e deformações. Os resultados dependem inteiramente dos dados de entrada:

Temperatura, humidade e outros fatores ambientais

Interferências e movimento

Uma verificação de interferências procura volumes de peças diferentes que se sobrepõem. Num móvel, as mais comuns são: a gaveta que bate na dobradiça da porta ao lado; o puxador que bate na parede ao abrir a porta a 90°; o pé que fica por baixo do rodapé. Os programas com montagens permitem mover as peças móveis (abrir a porta, puxar a gaveta) e detetar a colisão antes do fabrico.

Interpretar os resultados

Os resultados de uma simulação de esforços aparecem normalmente como um mapa de cor sobre o modelo: zonas de maior tensão ou deformação destacam-se visualmente. O técnico compara este resultado com o limite aceitável definido no projeto e, se necessário, ajusta a espessura, acrescenta um reforço ou muda de material, repetindo a simulação até o resultado ser aceitável. E compara-o com a estimativa à mão: se a simulação der 0,7 mm onde a conta dá 7 mm, há um erro de dados (unidade, material, carga) a encontrar.

Exemplo resolvido: avaliar uma prateleira

  1. Modelar uma prateleira de MDF de 18 mm, com 900 mm de vão livre entre apoios.
  2. Atribuir o material físico MDF com o módulo de elasticidade da ficha técnica.
  3. Definir os apoios (as pontas assentam em suportes) e uma carga distribuída típica de utilização (por exemplo, 0,3 N/mm de livros).
  4. Correr a simulação de esforços e observar a deformação máxima ao centro da prateleira; comparar com a estimativa à mão (cerca de 7 mm com E = 2500 MPa).
  5. Se a deformação ultrapassar o limite aceitável definido no projeto, considerar aumentar a espessura, acrescentar um reforço de frente, ou reduzir o vão livre entre apoios, e repetir.

20. Normas de desenho técnico, de segurança e de qualidade

Normas de desenho técnico

Modelar bem não chega: o resultado tem de ser interpretável sem ambiguidade por qualquer profissional da oficina. Isto significa seguir convenções de representação normalizadas e garantir que o modelo e as vistas derivadas as cumprem em todos os projetos do gabinete. As normas internacionais (ISO, muitas delas adotadas como normas europeias e portuguesas) mais usadas no desenho de fabrico são:

Assunto Norma de referência
Convenções gerais de representação e tipos de linha ISO 128
Cotagem ISO 129-1
Escalas ISO 5455
Vistas ortogonais (métodos de projeção) ISO 5456-2
Formatos e apresentação das folhas ISO 5457
Campos de dados da legenda ISO 7200
Escrita (letras e algarismos) ISO 3098

O gabinete escolhe as normas que aplica e passa-as para o template: formato, legenda, estilos de cota, tipos e espessuras de linha, texto. Assim, cumprir a norma deixa de depender da memória de cada técnico.

O que leva a legenda

Uma legenda (cartucho) completa identifica sem dúvidas o desenho: nome do gabinete, título e número (referência) do desenho, peça ou conjunto representado, material, escala (ou escalas), símbolo do método de projeção, autor, verificador, data, formato da folha, índice de revisão e número da folha.

Normas de segurança e saúde no trabalho

A segurança entra em três momentos diferentes, e convém não os confundir:

1. No posto de trabalho do desenhador. Trabalhar horas seguidas ao computador tem riscos para a visão, para as costas e os membros superiores, e de fadiga mental. Em Portugal, o trabalho com equipamentos dotados de visor está regulado pelo Decreto-Lei n.º 349/93, de 1 de outubro (que transpõe a Diretiva 90/270/CEE), e pela Portaria n.º 989/93. Na prática:

2. Na oficina onde a peça vai ser feita. O desenho decide muito do que acontece na oficina: peças demasiado pequenas para maquinar em segurança, peças pesadas demais para uma pessoa manusear, operações manuais perigosas que se evitariam com outra forma. O pó de madeira é um risco sério: o pó de madeiras duras é reconhecido como cancerígeno, e a Diretiva (UE) 2017/2398 fixou para ele um valor-limite de exposição de 2 mg/m³, aplicável desde 17 de janeiro de 2023. Um desenho que reduz operações de lixagem manual reduz também exposição ao pó. Na oficina, a proteção passa primeiro pela captação de pó na origem e, quando esta não chega, por proteção respiratória (máscaras FFP2 ou FFP3).

3. Na utilização do móvel. Aqui já não se trata de saúde no trabalho, mas de segurança do produto para quem o usa: arestas e cantos vivos em zonas de contacto, pontos de entalamento em portas e gavetas, estabilidade (um móvel alto que tomba com as gavetas abertas), resistência das prateleiras. Os móveis de arrumação domésticos e de cozinha têm requisitos de segurança e métodos de ensaio próprios (EN 14749), e todos os produtos de consumo estão sujeitos às regras europeias de segurança geral dos produtos. O modelo 3D é o sítio certo para resolver estes problemas: boleados, folgas, fixações à parede previstas no desenho.

Normas da qualidade

A qualidade num gabinete de desenho é a garantia de que cada desenho sai certo, sempre, e não só quando o técnico mais experiente está presente. Muitas empresas organizam-se segundo a norma ISO 9001 (sistemas de gestão da qualidade). Na prática do desenho, isso traduz-se em:

Exemplo resolvido: lista de verificação antes de enviar

Um técnico aplica a lista de verificação ao desenho de uma lateral e encontra: (1) escala da legenda 1:5, mas uma vista a 1:4; (2) furos de dobradiça sem profundidade indicada; (3) aresta frontal com canto vivo numa zona à altura de uma criança; (4) índice de revisão igual ao da versão anterior, apesar de uma cota ter mudado.

Problema Tipo Correção
Vista a 1:4 desenho técnico (escala não normalizada) passar a vista a 1:5 ou 1:2 e indicar a escala
Profundidade dos furos em falta desenho técnico (cotagem incompleta) cotar a profundidade de acordo com a ficha da dobradiça
Canto vivo exposto segurança do produto bolear o canto no modelo e atualizar as vistas
Revisão não atualizada qualidade subir o índice de revisão, registar a alteração, retirar a versão anterior

Rigor, responsabilidade e respeito pelas regras e normas definidas são atitudes explicitamente avaliadas nesta UC, tão importantes como o domínio técnico do software.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Modelar um componente de mobiliário em CAD 3D segue sempre a mesma lógica: configurar o ambiente e a unidade de trabalho → definir o sistema de coordenadas → desenhar um esboço 2D fechado → converter em sólido por extrusão, revolução, varrimento ou solevação → organizar em camadas → tornar paramétrico para gerar variantes → reutilizar blocos e bibliotecas de ferragens → derivar vistas 2D e cotas associativas do sólido → atribuir materiais e texturas → testar funcionalidade e resiliência por simulação → e cumprir sempre as normas de desenho técnico, de segurança e de qualidade. Domina este fluxo e consegues modelar qualquer componente de mobiliário com rigor e sem surpresas na oficina.

Exercícios resolvidos

1. Um cliente pede uma prateleira de 900 mm de vão livre em MDF de 18 mm. Que etapas seguirias, do esboço à peça pronta a cotar?

Resolução: primeiro configurar o ficheiro com a unidade em milímetros; desenhar um esboço retangular de 900 x 300 mm (largura da prateleira); verificar que o contorno está fechado; extrudir 18 mm; colocar o sólido na camada de estrutura; gerar as vistas 2D a partir do sólido; cotar com cotas associativas as dimensões relevantes para o corte.

2. Um técnico modela um armário com duas laterais simétricas, uma à mão e outra copiada e editada manualmente. Porque é esta prática arriscada?

Resolução: copiar e editar manualmente introduz o risco de pequenas diferenças entre as duas laterais, que deveriam ser exatamente simétricas. A prática correta é modelar apenas uma lateral e usar o comando de espelho (mirror), que garante geometricamente que a segunda é idêntica em espelho à primeira.

3. Depois de exportar um modelo em STL para um colaborador externo, a peça chega com o tamanho errado. Qual é a causa mais provável?

Resolução: a causa mais provável é uma unidade mal verificada na exportação ou na importação. O STL não guarda unidade nenhuma, só coordenadas numéricas dos triângulos; quem abre o ficheiro tem de saber, e indicar ao programa, se esses números são milímetros, centímetros ou polegadas. A razão entre o tamanho obtido e o esperado denuncia o erro: 10 (cm/mm), 25,4 (polegadas/mm) ou 1000 (m/mm). Se o colaborador só precisa de ver ou imprimir a peça em 3D, o STL serve; se precisa de a cotar ou alterar, devia ter recebido um STEP.

4. Uma simulação de esforços mostra deformação excessiva ao centro de uma prateleira. Que opções tem o desenhador?

Resolução: pode aumentar a espessura do painel, acrescentar um reforço (por exemplo, uma nervura ou uma barra metálica sob a prateleira), reduzir o vão livre entre apoios, ou mudar de material para um mais rígido. A escolha depende do orçamento e da estética pretendida para a peça.

5. Um bloco de dobradiça usado em quinze projetos diferentes tinha uma dimensão errada no furo de fixação. Qual é a vantagem, neste caso, de ter usado um bloco em vez de geometria copiada?

Resolução: a vantagem é que corrigir o bloco original atualiza automaticamente todas as instâncias nos quinze projetos, em vez de obrigar a corrigir manualmente cada cópia de geometria uma a uma. É também por isso que um bloco mal modelado propaga o erro rapidamente: a correção tem de ser feita uma só vez, na origem.

6. Porque é que as vistas 2D e as cotas se derivam do modelo 3D, e não se redesenham à mão a partir de um esboço à parte?

Resolução: porque derivar do modelo garante que qualquer alteração ao sólido atualiza automaticamente as vistas e as cotas, mantendo o desenho de fabrico sempre coerente com a peça real. Redesenhar à mão cria o risco de duas versões (o modelo e o desenho) divergirem silenciosamente, um erro difícil de detetar antes de chegar à oficina.

7. Uma prateleira de carvalho maciço mede 800 × 250 × 22 mm. Qual é a sua massa aproximada, usando 700 kg/m³?

Resolução: volume = 800 × 250 × 22 = 4 400 000 mm³. Em m³: 4 400 000 / 10⁹ = 0,0044 m³. Massa = 0,0044 × 700 ≈ 3,1 kg. Se o programa indicar 4,4 kg, está a usar 1000 kg/m³ (um valor por omissão) e falta atribuir o material físico carvalho.

8. Uma porta de 700 mm de altura vai ser desenhada numa folha A4 ao alto (área útil de cerca de 180 × 250 mm). Que escala normalizada escolher e quanto mede a porta no papel?

Resolução: a 1:2, a porta mediria 350 mm: não cabe em 250 mm. A 1:5 mede 700 / 5 = 140 mm, cabe com espaço para cotas e para uma segunda vista. A escala 1:3 daria cerca de 233 mm mas não é normalizada. Escolhe-se 1:5, e a cota inscrita continua a ser 700.

9. Num desenho recebido de um fornecedor americano, a planta aparece por cima do alçado principal. O que deves concluir antes de modelar?

Resolução: que o desenho está, muito provavelmente, no método americano (3.º diedro), em que a planta fica por cima e a vista da esquerda fica à esquerda. Confirma-se pelo símbolo do método de projeção na legenda. Ler o desenho como se fosse europeu levaria a modelar vistas trocadas e, em peças assimétricas, uma peça espelhada. Também se deve confirmar a unidade: um desenho americano pode estar em polegadas.

10. A estimativa à mão da flecha de uma prateleira dá cerca de 7 mm, mas a simulação por elementos finitos dá 0,007 mm. O que investigar?

Resolução: uma diferença de exatamente 1000 vezes aponta para um erro de unidades nos dados da simulação. Dois exemplos típicos: o módulo de elasticidade escrito como 2500 num campo em GPa (quando devia ser 2,5 GPa, isto é, 2500 MPa), o que torna o material mil vezes mais rígido; ou a carga de 0,3 escrita num campo em N/m, quando a intenção era 0,3 N/mm (300 N/m), o que a torna mil vezes menor. Corrige-se o dado, repete-se a simulação e só se aceita o resultado quando a ordem de grandeza bate com a conta à mão. E lembra-te de que, para madeira maciça, uma simulação com material isotrópico continua a ser só uma aproximação.