Sebenta · Executar desenhos técnicos de mobiliário e construções em madeira (UC00252)
- Introdução
- 1. Do esboço ao desenho técnico
- 2. Materiais, equipamentos e instrumentos de medição
- 3. Ergonomia aplicada ao mobiliário
- 4. Normas e convenções do desenho técnico
- 5. Vistas ortográficas e projeções auxiliares
- 6. Cortes, secções e pormenores construtivos
- 7. Linhas de contorno, texturas e materiais
- 8. Ligações entre componentes e ferragens
- 9. Escalas, proporções e medidas
- 10. Representação tridimensional
- 11. Cotagem, tolerância e acabamento de superfície
- 12. Vistas explodidas e instruções de montagem
- 13. Documentação técnica e especificações para produção
- 14. Segurança, saúde no trabalho e EPI
- 15. Normas da qualidade
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a executar desenhos técnicos de mobiliário e construções em madeira, do primeiro esboço até à documentação pronta para a oficina. O desenho técnico é a linguagem comum entre quem projeta um móvel e quem o fabrica: uma linguagem rigorosa, normalizada e sem ambiguidade, onde cada linha, cada cota e cada símbolo tem um significado fixo.
Na indústria portuguesa da madeira e do mobiliário, com forte concentração no Vale do Sousa (Paços de Ferreira, que se apresenta como "Capital do Móvel", e Paredes), o desenho técnico já não fica na gaveta: alimenta a lista de corte, o software de otimização de chapas e o programa da máquina CNC. Um erro de cota ou uma furação mal indicada transforma-se, em minutos, em dezenas de peças cortadas e furadas erradas. Por isso esta UC pesa tanto em cursos tão diferentes como CNC, Desenho de Produto e Marcenaria e Carpintaria.
O percurso segue o de um profissional real: primeiro analisamos a informação de partida (esboços, objetos, desenhos existentes), depois medimos com rigor e aplicamos ergonomia, seguimos as normas de representação, dominamos as vistas ortográficas e os cortes, aprendemos a representar a madeira e os seus derivados, as ligações e as ferragens, escolhemos escalas e perspetivas corretas, cotamos com tolerâncias e acabamentos realistas e fechamos o processo com vistas explodidas, instruções de montagem e documentação técnica completa. Segurança e qualidade acompanham todo o processo.
Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar esboços, objetos, desenhos ortográficos e outras informações de mobiliário e construções em madeira; elaborar desenhos técnicos das peças e componentes; listar nos desenhos os materiais utilizados; garantir a utilização de escalas; criar desenhos com vistas explodidas e respetivas instruções de montagem; e cumprir as diferentes normas em vigor.
Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem matéria, pelo menos um exemplo resolvido passo a passo e, no fim da sebenta, exercícios resolvidos. Estuda com papel, lápis e um escalímetro ao lado: refaz as contas e os esboços dos exemplos antes de leres a resolução.
1. Do esboço ao desenho técnico
Um esboço é uma ideia rápida, à mão levantada, com proporções aproximadas. Um desenho técnico é a mesma ideia transformada em informação rigorosa, medível e normalizada, pronta a seguir sem dúvidas.
Os documentos gráficos de um móvel
Um móvel não se descreve com um único desenho. Numa empresa organizada, o processo produz uma família de documentos, cada um com a sua função:
| Documento | Para que serve | Escala habitual |
|---|---|---|
| Esboço (croqui) | fixar a ideia e as proporções; registar um levantamento | sem escala, mas proporcionado e cotado |
| Desenho de conjunto | mostrar o móvel completo, montado, com as vistas gerais | 1:10 ou 1:5 |
| Desenho de fabrico (de peça) | definir cada peça isolada, com todas as cotas e furações | 1:5, 1:2 ou 1:1 |
| Pormenor construtivo | ampliar ligações, perfis e encaixes | 1:2 ou 1:1 (ampliação só em peças muito pequenas) |
| Perspetiva e vista explodida | mostrar o volume e a ordem de montagem | escala reduzida, muitas vezes sem cotas |
| Lista de peças e lista de corte | dizer o que se corta, com que material, quantas vezes e em que sentido do fio | tabela |
Analisar informação de partida
Antes de desenhar, analisa-se o que já existe:
- Esboços à mão: intenção, forma e proporção geral da peça.
- Objetos reais: peças de mobiliário existentes, para medir e replicar ou adaptar.
- Desenhos ortográficos já feitos: plantas, alçados e cortes de projetos anteriores (confirmar sempre a escala e a data da revisão).
- Catálogos e fichas técnicas: dimensões comerciais de painéis, ferragens e acabamentos.
- O espaço onde o móvel vai ficar: paredes fora de esquadro, rodapés, tomadas, janelas, portas que abrem para o móvel.
Uma forma prática de organizar a análise é responder, por escrito, a seis perguntas: para quê (função), para quem (utilizador e ergonomia), onde (espaço, humidade, luz), com quê (materiais e ferragens), como se fabrica (máquinas disponíveis, CNC ou não) e como se monta (em fábrica ou no local, desmontável ou não).
Exemplo resolvido · Analisar o esboço de uma estante
Um cliente entrega um esboço de uma estante de parede, sem cotas, apenas com a indicação "3 prateleiras, madeira clara".
- Função: guardar livros, expor objetos ou ambos. Afeta a profundidade e o vão das prateleiras (livros pesados pedem vãos mais curtos ou prateleiras mais espessas).
- Dimensões gerais: medir a parede disponível (largura, altura, rodapé, tomadas) e combinar com o cliente.
- Material: "madeira clara" não é uma especificação. É preciso concretizar: pinho, freixo, carvalho maciço, contraplacado de bétula, MDF lacado ou aglomerado com revestimento melamínico em cor clara.
- Fixação: a estante é suspensa ou pousada? Se é suspensa, que ferragens de suspensão e que parede (tijolo, betão, pladur)?
- Registo: todas as respostas ficam escritas num esboço cotado e numa pequena nota de decisões, datada.
- Só depois de esclarecido todo este ponto de partida se começa o desenho técnico, em CAD ou à mão.
Um esboço incompleto obriga a decisões técnicas antes de desenhar, nunca durante o desenho.
Do desenho à máquina
Numa oficina com CNC, o desenho técnico é o documento de origem de uma cadeia: modelo ou desenho CAD → lista de peças → lista de corte otimizada → programas de furação e fresagem → etiquetas das peças → montagem. Se o desenho estiver certo, todo o resto sai certo; se estiver errado, o erro multiplica-se em cada peça. É por isso que o desenhador é responsável não só pela forma do móvel, mas também pela coerência entre vistas, cotas e lista de peças.
2. Materiais, equipamentos e instrumentos de medição
Materiais e equipamentos de desenho
O desenho técnico de mobiliário faz-se hoje sobretudo em software de CAD, mas os materiais tradicionais continuam a formar a base do rigor e são indispensáveis no esboço e no levantamento em obra:
| Material / equipamento | Função e cuidados |
|---|---|
| Lapiseiras 0,3 / 0,5 / 0,7 mm | traços finos e grossos com espessura constante |
| Minas de dureza H, HB, B | H e 2H para traços de construção leves; HB e B para traços finais e letras |
| Régua T, régua paralela e esquadros (45° e 30°/60°) | linhas paralelas, perpendiculares e ângulos correntes |
| Escalímetro | ler e traçar diretamente em várias escalas (1:10, 1:20, 1:50...) |
| Compasso e cércea de curvas | arcos, circunferências, boleados e curvas livres |
| Papel de esboço, papel vegetal e papel quadriculado | levantamento, rascunho e traçado final |
| Borracha branca macia | correções localizadas sem sujar nem marcar o papel |
| Software de CAD 2D e 3D | desenho, vistas automáticas, listas de peças, exportação para a CNC |
| Dispositivos com acesso à internet | catálogos de ferragens, fichas técnicas de painéis, normas |
Selecionar o material certo é uma aptidão do referencial: para um levantamento em obra levas papel quadriculado, lápis HB, fita métrica e máquina fotográfica; para um desenho final à mão levas minas H e HB, esquadros e escalímetro; para produção, o CAD.
No CAD, a organização por camadas (layers) substitui a troca de lápis: uma camada por tipo de linha (contornos, ocultas, eixos, cotas, hachuras, texto), cada uma com a espessura e o tipo de linha normalizados. Assim, a impressão sai correta sem ser preciso "pintar" linha a linha. Os formatos de troca mais comuns são o DWG e o DXF (este último muito usado para enviar contornos para a CNC).
Instrumentos de apoio e medição
Para desenhar com rigor é preciso primeiro medir com rigor. Cada instrumento tem uma resolução (a menor divisão que consegue ler) e um uso próprio:
| Instrumento | Resolução típica | Uso típico |
|---|---|---|
| Fita métrica (flexível, com gancho) | 1 mm | medidas gerais, vãos, paredes, comprimentos grandes |
| Metro articulado | 1 mm | medições em oficina, mais rígido, bom para alturas |
| Medidor laser | 1 mm | distâncias em obra, entre paredes, tetos altos |
| Paquímetro (craveira) | 0,05 ou 0,02 mm (digital 0,01 mm) | espessuras de painéis, diâmetros de furos e cavilhas, profundidades |
| Esquadro de marcenaria / esquadro de aba | ângulo reto | verificar e traçar esquadrias |
| Suta (falso esquadro) e transferidor | ângulo | copiar e medir ângulos que não são retos |
| Nível de bolha | horizontal e vertical | verificar paredes e pavimentos no local de montagem |
| Graminho | paralelas a uma face | marcar linhas paralelas às arestas (linha de furação, espigas) |
A precisão do instrumento tem de ser adequada à medida. Uma fita métrica lê milímetros; não faz sentido escrever 1799,5 mm a partir de uma fita. Um paquímetro para medir o comprimento de uma prateleira também não faz sentido. E um painel vendido como "19 mm" pode medir 18,6 ou 19,2 mm: quando a espessura real interessa (encaixes, rasgos, furação de topo), mede-se com o paquímetro.
Método de levantamento de medidas
Efetuar o levantamento de medidas de uma peça de mobiliário existente é uma aptidão do referencial. Faz-se sempre pela mesma ordem, do geral para o particular:
- Esboço à mão levantada do móvel, em vistas (frente, lado, cima), proporcionado, antes de medir qualquer coisa.
- Dimensões gerais (largura, altura, profundidade), medidas em mais de um ponto: um móvel antigo ou uma parede raramente estão em esquadro.
- Espessuras de painéis, tampos, portas e frentes de gaveta, com paquímetro.
- Posições de divisórias, prateleiras, ferragens e furações, sempre a partir de uma aresta de referência (por exemplo, a base e a frente da lateral), para não somar erros.
- Folgas de funcionamento entre portas, gavetas e caixa.
- Materiais, orlas, acabamentos e ferragens, com fotografias e marcas ou referências dos fabricantes quando visíveis.
- Revisão no local: confirmar que a soma das partes bate com a medida total (por exemplo, a soma dos vãos mais as espessuras das divisórias tem de dar a largura exterior).
Exemplo resolvido · Levantamento de um armário existente e verificação das somas
Um armário de duas portas mede, com fita métrica, 1800 mm de altura, 900 mm de largura e 550 mm de profundidade. O paquímetro mostra painéis com 19 mm. Há uma divisória vertical ao centro.
- Largura interior total: 900 − 2 × 19 = 862 mm.
- Com a divisória central de 19 mm, sobram 862 − 19 = 843 mm para os dois vãos.
- Cada vão, se a divisória estiver ao centro: 843 ÷ 2 = 421,5 mm.
- Mede-se cada vão no local: 421 mm e 422 mm. A soma 421 + 422 + 19 + 2 × 19 = 900 mm confirma o levantamento.
- Registam-se ainda: dobradiças a 100 mm do topo e da base de cada porta; folga de 2 mm entre as duas portas; tipo de dobradiça (de caneco, sobreposição total).
- Tudo vai para o esboço cotado, com a data e o nome de quem mediu.
Se a verificação do passo 4 não batesse (por exemplo, 421 + 425 + 19 + 38 = 903 mm), havia um erro de leitura ou o móvel está deformado: mede-se de novo antes de sair do local.
Regista sempre as medidas no momento, num esboço cotado. A memória falha nos milímetros, e voltar ao local custa tempo e dinheiro.
Segurança no levantamento em oficina
Medir uma peça junto a máquinas em funcionamento expõe o técnico aos mesmos riscos de quem as opera. Ver o capítulo 14: calçado de segurança sempre, proteção auditiva e proteção ocular junto de máquinas, e nunca medir uma peça numa máquina que não esteja parada e sem ferramenta em movimento.
3. Ergonomia aplicada ao mobiliário
Conceito, princípio e importância
A ergonomia é a disciplina que estuda a relação entre as pessoas e os objetos, os espaços e as tarefas, para adaptar estes às dimensões, aos movimentos e às capacidades de quem os usa.
- Conceito: estudo da relação entre o corpo humano (dimensões, alcances, posturas, força) e o mobiliário.
- Princípio: o móvel adapta-se à pessoa, não o contrário.
- Importância: conforto, saúde (costas, pescoço, ombros), segurança (quedas, entalões, tombamento) e eficiência de uso ao longo de muitos anos.
Antropometria: medir as pessoas
As medidas ergonómicas vêm da antropometria, o estudo estatístico das dimensões do corpo humano numa população. Como as pessoas são diferentes, os valores exprimem-se em percentis: o percentil 5 é o valor abaixo do qual estão 5% das pessoas; o percentil 95, o valor abaixo do qual estão 95%.
Regra prática para escolher o percentil:
- Alcances (até onde se chega com a mão, altura de uma prateleira que tem de ser alcançada): desenha-se para as pessoas mais pequenas (percentil baixo), porque se estas chegam, todos chegam.
- Folgas e passagens (espaço para as pernas debaixo de uma mesa, altura de passagem): desenha-se para as pessoas maiores (percentil alto), porque se estas cabem, todos cabem.
- Alturas de trabalho (tampo, bancada): o ideal é serem reguláveis; se não forem, escolhe-se um valor intermédio e confirma-se com o utilizador real.
Valores de referência correntes
Os valores seguintes são referências correntes em manuais de ergonomia e em catálogos de mobiliário para adultos. Não são obrigações legais: servem de ponto de partida e confirmam-se sempre com a função da peça e com o cliente.
| Elemento | Valor de referência corrente | Observação |
|---|---|---|
| Altura do assento (cadeira de refeição ou trabalho) | cerca de 420 a 460 mm | medida do chão ao ponto mais alto do assento, à frente |
| Profundidade útil do assento | cerca de 400 a 450 mm | demasiado fundo corta a circulação atrás dos joelhos |
| Altura de mesa de refeição | cerca de 720 a 760 mm | |
| Altura de secretária de altura fixa | 740 ± 20 mm | valor da norma europeia EN 527-1:2011 para mobiliário de escritório |
| Diferença entre tampo e assento | cerca de 270 a 300 mm | espaço para as coxas e altura confortável dos braços |
| Altura de bancada de cozinha | cerca de 850 a 950 mm | a EN 1116 trata das medidas de coordenação de móveis de cozinha; o valor final depende da altura do utilizador |
| Profundidade de prateleira para livros | cerca de 250 a 300 mm | livros de formato grande pedem mais |
Não apresentes estes valores como obrigatórios. O que é obrigatório depende do tipo de móvel e do contexto (escritório, escola, espaço público). Quando existir norma aplicável, é a norma que manda; quando não existir, decides com base nas referências e justificas a decisão na memória descritiva.
Regras ergonómicas que se aplicam ao desenho
- Postura de pé: a altura de trabalho relaciona-se com a altura do cotovelo do utilizador. Para trabalho leve, a superfície fica um pouco abaixo do cotovelo; para trabalho de precisão, mais alta; para trabalho com força (serrar, amassar), mais baixa.
- Alcance: aquilo que se usa todos os dias fica entre a altura das ancas e a altura dos ombros; o que se usa raramente vai para cima ou para baixo.
- Manobra: à frente de gavetas e portas abertas tem de haver espaço para o corpo. Em espaços que recebem público, a legislação portuguesa de acessibilidades (Decreto-Lei n.º 163/2006, normas técnicas) exige, por exemplo, zonas de manobra para rotação de 360° de uma cadeira de rodas com 1,50 m de diâmetro.
- Segurança: móveis altos e estreitos podem tombar, sobretudo com gavetas abertas; prevê-se no desenho a fixação à parede e indica-se a ferragem.
- Utilizadores específicos: crianças, pessoas idosas, utilizadores de cadeira de rodas, postos de trabalho de pé. As medidas mudam: confirma sempre com o cliente e com a norma aplicável.
Exemplo resolvido · Coerência entre mesa e cadeira
Um cliente quer uma mesa de refeição com tampo a 750 mm e cadeiras com assento a 470 mm.
- Diferença tampo/assento: 750 − 470 = 280 mm. Está dentro da referência corrente de 270 a 300 mm.
- Verificar o espaço para as pernas: o tampo tem 25 mm e a travessa (aro) por baixo do tampo tem 80 mm de altura. A face inferior da travessa fica a 750 − 25 − 80 = 645 mm do chão.
- Espaço entre o assento e a travessa: 645 − 470 = 175 mm para as coxas. É aceitável para a maioria dos adultos, mas apertado para pessoas altas ou para quem cruza as pernas.
- Decisão: reduzir a travessa para 70 mm (fica 185 mm de espaço) ou recuar a travessa nos lados onde as pessoas se sentam. A decisão fica registada na memória descritiva.
Exemplo resolvido · Verificar a manobra à frente de uma gaveta
Uma gaveta de cozinha abre 500 mm. Em frente, a 700 mm, há outro móvel.
- Espaço ocupado pela gaveta aberta: 500 mm.
- Espaço livre que sobra entre a gaveta aberta e o móvel em frente: 700 − 500 = 200 mm.
- 200 mm não chegam para uma pessoa se colocar à frente da gaveta aberta: o utilizador teria de se pôr de lado, com risco de bater e de má postura.
- A gaveta não resolve um problema de implantação. O desenhador assinala a situação no desenho e propõe rever a distância entre móveis (ou trocar a gaveta por portas com prateleiras extraíveis, se o cliente não puder mudar a implantação).
A ergonomia aplicada corretamente evita retrabalho e reclamações depois da entrega.
4. Normas e convenções do desenho técnico
Porque normalizamos
Normalizar é seguir regras comuns para que o desenho seja interpretado da mesma forma por qualquer profissional, em qualquer oficina, em qualquer país. Cumprir as normas em vigor é um critério de desempenho desta UC. Em Portugal, o organismo nacional de normalização é o Instituto Português da Qualidade (IPQ); as normas internacionais (ISO) e europeias (EN) de desenho técnico são a referência comum da indústria.
As normas que mais interessam
| Assunto | Norma de referência | O que define |
|---|---|---|
| Linhas, vistas, cortes e secções | família ISO 128 | tipos e espessuras de linha, disposição das vistas, cortes, secções, hachuras |
| Escalas | ISO 5455 | escalas recomendadas e forma de as indicar |
| Formatos de folha | ISO 5457 (série A da ISO 216) | formatos, margens, moldura |
| Legenda | ISO 7200 | campos obrigatórios da legenda (cartucho) |
| Escrita | ISO 3098 | tipo e alturas das letras e algarismos |
| Cotagem | ISO 129-1 | regras de cotagem |
| Métodos de projeção | ISO 5456 (partes 2 e 3) | vistas ortográficas e perspetivas |
| Referências de peças e lista de peças | ISO 6433 e ISO 7573 | numeração das peças (balões) e tabela de peças |
Na indústria da madeira há ainda convenções próprias do setor (por exemplo, a norma alemã DIN 919-1, dedicada ao desenho técnico na transformação da madeira, muito usada como referência por fabricantes e escolas europeias). Numa empresa, a regra é simples: segue-se a norma que o cliente ou a empresa adotou, e diz-se qual é.
Formatos de folha e legenda
| Formato | Dimensões (mm) |
|---|---|
| A0 | 841 × 1189 |
| A1 | 594 × 841 |
| A2 | 420 × 594 |
| A3 | 297 × 420 |
| A4 | 210 × 297 |
Cada formato é metade do anterior, dobrando o lado maior. A moldura deixa uma margem de 20 mm do lado esquerdo (para arquivar) e 10 mm nos outros lados. A legenda fica no canto inferior direito e inclui, no mínimo: título do desenho, número do desenho, escala, método de projeção (símbolo), autor, data, empresa e índice de revisão. Em mobiliário acrescenta-se muitas vezes o material principal e a referência do cliente ou da encomenda.
Tipos de linha normalizados
As espessuras de linha seguem uma série normalizada (0,13 · 0,18 · 0,25 · 0,35 · 0,5 · 0,7 · 1 · 1,4 · 2 mm), em que cada valor é o anterior multiplicado por cerca de 1,4 (√2). Num desenho usam-se, em regra, duas espessuras, a grossa com o dobro da fina (por exemplo, 0,5 e 0,25 mm, ou 0,7 e 0,35 mm).
| Tipo de linha | Uso principal |
|---|---|
| Contínua grossa | arestas e contornos visíveis |
| Contínua fina | linhas de cota e de chamada, hachuras, contornos de secções rebatidas, linhas de referência |
| Contínua fina à mão levantada ou em ziguezague | limite de vistas parciais e de cortes parciais |
| Interrompida (tracejada) fina | arestas e contornos ocultos |
| Traço-ponto fina | eixos de simetria, eixos de furos, circunferências de furação |
| Traço-ponto fina, grossa nas extremidades e nas mudanças de direção | traço do plano de corte |
| Traço-ponto grossa | troços grossos das extremidades do plano de corte; indicação de zonas com requisitos especiais (por exemplo, uma zona a tratar de forma diferente) |
| Traço-dois-pontos fina | contornos de peças vizinhas, posições extremas de peças móveis (porta aberta, gaveta puxada) |
O plano de corte não se desenha todo a traço grosso. Desenha-se a traço-ponto fino, só engrossado nas pontas (e nas mudanças de direção, se o corte for por planos paralelos), com setas a indicar o sentido de observação e uma letra (A-A, B-B). É um dos erros mais repetidos em desenhos de alunos.
A linha traço-dois-pontos é muito útil em mobiliário: mostra o arco de abertura de uma porta, a gaveta totalmente extraída ou a parede e o eletrodoméstico vizinhos, sem os confundir com o móvel que se está a desenhar.
Escrita e regras gerais de representação
- Letras e algarismos com alturas normalizadas (2,5 · 3,5 · 5 · 7 · 10 mm); cotas correntes a 3,5 mm num A3 é uma escolha comum.
- Contorno sempre a linha contínua grossa; arestas ocultas a tracejado fino, e só quando ajudam a compreender (demasiadas ocultas confundem, mais vale um corte).
- Um único método de projeção usado do início ao fim do conjunto de desenhos, com o símbolo na legenda (ver capítulo 5).
- Cada alteração a um desenho já entregue muda o índice de revisão (A, B, C...) e fica registada, com data e descrição, numa tabela de revisões.
- Nunca inventar uma convenção própria: se o desenho vai ser lido por outra pessoa, segue a norma comum da empresa.
Um desenho normalizado garante que "o que está desenhado é o que se fabrica". Uma convenção pessoal, por mais clara que pareça a quem a desenhou, gera erros na oficina.
5. Vistas ortográficas e projeções auxiliares
O sistema de vistas ortográficas
A vista ortográfica representa um objeto tridimensional em várias vistas planas, cada uma obtida por projeção perpendicular (ortogonal) a um plano. Imagina o móvel dentro de uma caixa de vidro: cada face da caixa recebe a "sombra" rigorosa do móvel visto de frente para essa face. Há seis vistas possíveis:
| Vista | Designação corrente em mobiliário |
|---|---|
| Vista de frente | alçado principal (a vista que mais informação dá) |
| Vista de cima | planta |
| Vista lateral esquerda e vista lateral direita | alçados laterais |
| Vista de baixo | planta inferior (rara; útil em tampos com ferragens por baixo) |
| Vista posterior | alçado posterior (rara; útil para tardoz e passagens de cabos) |
Na maior parte dos móveis, três vistas (frente, cima e uma lateral) chegam. Nenhuma vista isolada chega: uma vista de frente não distingue uma caixa de uma placa.
Método europeu (1.º diedro)
A disposição das vistas na folha segue um método de projeção. Em Portugal e na generalidade da Europa usa-se o método do 1.º diedro (método europeu, designado E na ISO 5456-2):
- a vista de cima desenha-se por baixo da vista de frente;
- a vista lateral esquerda (o móvel visto do lado esquerdo) desenha-se à direita da vista de frente;
- a vista lateral direita desenha-se à esquerda da vista de frente.
O método americano (3.º diedro, designado A) faz o contrário: a vista de cima fica por cima e a lateral direita fica à direita. Os dois têm símbolos próprios (um tronco de cone visto de frente e de lado), e o símbolo do método usado vai obrigatoriamente na legenda. Um desenho recebido de um fornecedor estrangeiro pode vir no método americano: ler o símbolo antes de ler as vistas evita montar um móvel em espelho.
Regras de alinhamento
As vistas estão ligadas entre si por correspondência:
- a vista de frente e a vista de cima têm a mesma largura e alinham-se na vertical;
- a vista de frente e a vista lateral têm a mesma altura e alinham-se na horizontal;
- a vista de cima e a vista lateral têm a mesma profundidade (transporta-se com uma linha a 45° ou com o compasso).
Escolhe-se como vista de frente a que mostra mais informação e menos arestas ocultas, com o móvel na sua posição de utilização (um armário desenha-se de pé, nunca deitado).
Exemplo resolvido · Três vistas de uma caixa com tampa
Caixa retangular com 400 mm de largura, 300 mm de profundidade e 200 mm de altura, com tampa articulada na aresta de trás.
- Vista de frente: retângulo de 400 × 200 mm, com a linha da junta da tampa fechada.
- Vista de cima (desenhada por baixo da vista de frente, método europeu): retângulo de 400 × 300 mm, com as dobradiças a tracejado se ficarem escondidas.
- Vista lateral esquerda (desenhada à direita da vista de frente): retângulo de 300 × 200 mm, com a espessura da tampa; se se quiser mostrar a tampa aberta, desenha-se essa posição a traço-dois-pontos.
- Verificação: 400 mm iguais na frente e na planta; 200 mm iguais na frente e na lateral; 300 mm iguais na planta e na lateral.
Vistas parciais e vistas interrompidas
Peças compridas e uniformes (um corrimão, uma travessa de 2 m, um tampo comprido) podem desenhar-se interrompidas, com linhas de rotura (contínua fina à mão levantada ou em ziguezague): poupa-se papel e mantém-se uma escala legível. A cota mantém o valor real total, mesmo que a peça pareça mais curta no papel.
Projeções auxiliares
Quando uma face da peça está inclinada em relação aos planos de projeção, as vistas principais mostram-na encurtada (em escorço): a forma e as medidas que se leem no papel não são as reais. Usa-se então uma projeção auxiliar, feita num plano paralelo à face inclinada, que mostra essa face em verdadeira grandeza.
Em mobiliário é comum em:
- tampos e prateleiras de canto com topo em ângulo;
- pernas inclinadas de cadeiras e mesas;
- costas de cadeiras inclinadas;
- chanfros e remates a 45° de molduras e rodapés.
Passos para construir uma vista auxiliar:
- Na vista onde a face inclinada aparece como uma linha (de perfil), traçar linhas de chamada perpendiculares a essa linha.
- Traçar uma linha de referência paralela à face inclinada, afastada da vista.
- Transportar as profundidades a partir de outra vista (a profundidade que falta mede-se na vista de cima ou na lateral).
- Desenhar só a parte inclinada (vista auxiliar parcial): o resto da peça apareceria deformado e não ajuda.
Exemplo resolvido · Verdadeira grandeza de um chanfro
A aresta de um tampo tem um chanfro a 45° que, na vista lateral, aparece como uma linha inclinada cujas projeções medem 20 mm na horizontal e 20 mm na vertical. Na vista de frente, o chanfro aparece como uma faixa com apenas 20 mm de altura.
- A largura real do chanfro é a hipotenusa: √(20² + 20²) = √800 ≈ 28,3 mm.
- Na vista de frente lê-se 20 mm, o que está errado como medida da face: é o escorço.
- Numa vista auxiliar paralela ao chanfro, a faixa aparece com a sua largura real de 28,3 mm, e é aí que se cota, se for preciso cotar a largura da face (na prática, cota-se o chanfro como "20 × 45°", que é a forma de indicar um chanfro pela sua projeção e pelo ângulo).
6. Cortes, secções e pormenores construtivos
Corte e secção
Um corte mostra o interior de uma peça como se fosse serrada por um plano imaginário e se retirasse a parte que fica entre o observador e esse plano. Mostra a superfície cortada e tudo o que se vê para além dela. Uma secção mostra apenas a superfície que está no plano de corte, sem o resto da peça.
- O plano de corte indica-se numa vista vizinha com linha traço-ponto fina, grossa nas extremidades, com setas no sentido de observação e uma letra (A, B...). O corte designa-se "Corte A-A".
- As superfícies cortadas preenchem-se com hachura em linha contínua fina.
- Em mobiliário, os cortes são o sítio onde se veem as ligações: cavilhas, rasgos para o tardoz, encaixes do fundo da gaveta, espessura de orlas e folheados.
Tipos de corte e de secção
| Tipo | Quando usar |
|---|---|
| Corte total | o plano atravessa a peça toda; mostra a estrutura interior completa (por exemplo, corte vertical de um armário a meio) |
| Meio-corte | peças simétricas: metade em vista, metade em corte, separadas pelo eixo |
| Corte parcial (local) | só interessa uma zona pequena; limita-se com linha fina à mão levantada |
| Corte por planos paralelos (em degrau) | detalhes que não estão alinhados num só plano; o traço do plano engrossa nas mudanças de direção |
| Secção rebatida | desenhada sobre a própria vista, com contorno em linha fina (perfil de uma travessa ou de um puxador) |
| Secção deslocada | desenhada fora da vista, ligada ao traço do plano (perfil de molduras, de pernas torneadas em várias alturas) |
Regras das hachuras
- Linhas finas, normalmente a 45°, com espaçamento proporcional à área (mais apertado em áreas pequenas).
- A mesma peça tem a mesma hachura (direção e espaçamento) em todos os cortes do desenho.
- Peças vizinhas distinguem-se mudando a direção ou o espaçamento da hachura.
- Áreas muito finas (um folheado, uma orla, um vidro fino) podem representar-se a cheio ou só com o contorno, com anotação do material.
- Por convenção geral, elementos como parafusos, pinos, cavilhas e veios não se tracejam quando cortados segundo o seu eixo: desenham-se pelo contorno, com o eixo a traço-ponto fino.
- Em madeira e derivados usam-se padrões próprios para distinguir materiais (ver capítulo 7). O padrão usado tem de estar explicado numa legenda de materiais ou numa anotação junto ao corte.
Pormenores construtivos
O pormenor construtivo amplia uma zona pequena e complexa do desenho:
- Na vista original, rodeia-se a zona de interesse com um círculo (ou retângulo) em linha fina e identifica-se com uma letra (por exemplo, "B").
- Desenha-se essa zona à parte, com a designação e a escala própria: "Pormenor B (1:2)".
- No pormenor cotam-se as medidas que não cabiam na vista geral: profundidades de furos, rasgos, espessuras de orla, folgas.
Em mobiliário, os pormenores fazem-se habitualmente a 1:2 ou 1:1; a ampliação (2:1, 5:1) reserva-se para peças muito pequenas, como um perfil de ferragem.
Exemplo resolvido · Corte de uma ligação de prateleira fixa com cavilhas
Uma prateleira fixa de aglomerado de 19 mm liga-se a uma lateral, também de 19 mm, com cavilhas de madeira Ø8 × 30 mm. Na lateral o furo é cego (não pode atravessar para a face exterior visível).
- Profundidade do furo na face da lateral: tem de deixar material suficiente até à face exterior. Com um furo de 12 mm, ficam 19 − 12 = 7 mm de material. Aceitável.
- Profundidade do furo no topo da prateleira: 20 mm.
- Verificação: soma dos furos = 12 + 20 = 32 mm; cavilha = 30 mm; sobram 2 mm para a cola e para a cavilha não "bater no fundo" e impedir o encosto das peças.
- Plano de corte: vertical, perpendicular à lateral, a passar pelo eixo de uma cavilha. Traço na vista de frente, com setas e letras A-A.
- Corte A-A: hachura da lateral numa direção, hachura da prateleira noutra direção (ou com espaçamento diferente); a cavilha desenha-se pelo contorno, sem hachura, com o eixo a traço-ponto fino.
- Pormenor C (1:1): ampliação da ligação, com as cotas Ø8, 12 e 20 mm e a posição dos furos a partir da frente.
Sem este corte, a ligação ficava invisível em qualquer vista exterior, e quem programa a furação não saberia as profundidades.
7. Linhas de contorno, texturas e materiais
Linhas de contorno e detalhes
O contorno é a linha contínua grossa que define a silhueta e as arestas visíveis da peça. É a primeira coisa que se desenha e a última que se revê.
- Boleados (arestas arredondadas), chanfros e rebaixos desenham-se no contorno, não se deixam só para uma nota de texto; cotam-se com R (raio) ou com "medida × ângulo".
- Um boleado pequeno, numa vista geral a 1:10, pode ficar só indicado por nota ("arestas boleadas R2") e desenhado no pormenor.
- Linhas de construção e de apoio apagam-se (à mão) ou ficam numa camada que não se imprime (no CAD).
- A espessura de linha tem de ser constante em todo o desenho: um contorno com espessuras misturadas lê-se como se fossem peças diferentes.
A madeira é um material anisotrópico
A madeira não se comporta da mesma maneira em todas as direções: é anisotrópica. Distinguem-se três direções:
| Direção | Onde fica | Comportamento |
|---|---|---|
| Longitudinal (ao longo do fio) | paralela ao eixo do tronco | maior resistência; retração praticamente desprezável (décimas de ponto percentual) |
| Radial | do centro para a casca, atravessando os anéis | retração moderada |
| Tangencial | tangente aos anéis de crescimento | a maior retração; em regra cerca de 1,5 a 2 vezes a radial |
Consequências diretas para o desenho:
- Sentido do fio: indica-se nas peças de madeira maciça e nas folhas decorativas, com uma seta de dupla ponta ou com a indicação "fio" na vista e na lista de peças. Na lista de peças, por convenção, o comprimento é a medida no sentido do fio.
- Movimento da madeira: um tampo largo de madeira maciça "trabalha" (incha e retrai) na largura com as variações de humidade do ar. Não pode ser aparafusado rigidamente a um aro por toda a largura: usam-se ferragens ou furos ovalizados que permitam o movimento, e o desenho tem de os mostrar.
- Teor de água: a madeira para mobiliário de interior aplica-se seca, com um teor de água da ordem dos 8 a 12%, próximo daquele que vai ter no ambiente de uso. O teor de água exigido indica-se no caderno de especificações.
Exemplo resolvido · Quanto trabalha um tampo de madeira maciça?
Um tampo de madeira maciça tem 600 mm de largura, com o fio ao comprimento (a largura corresponde, aproximadamente, à direção tangencial). A ficha técnica da espécie indica uma variação dimensional tangencial de 0,3% por cada ponto percentual de variação do teor de água. Entre o inverno e o verão, o teor de água do tampo pode variar 4 pontos percentuais (por exemplo, de 8% para 12%).
- Variação relativa: 0,3% × 4 = 1,2%.
- Variação absoluta na largura: 600 × 0,012 = 7,2 mm.
- No comprimento (ao longo do fio), a variação é desprezável.
- Conclusão para o desenho: as fixações do tampo ao aro têm de permitir cerca de 7 mm de movimento na largura (por exemplo, furos ovalizados na direção da largura ou ferragens de fixação próprias para tampos), e isso aparece num pormenor construtivo.
O valor de 0,3% é um dado deste exercício: numa situação real, vai-se buscar à ficha técnica da espécie.
Derivados de madeira
| Material | Constituição | Uso típico e cuidados no desenho |
|---|---|---|
| Aglomerado de partículas | partículas de madeira coladas e prensadas | caixas de móveis, sobretudo revestido a melamina; topos pedem orla; fraca resistência ao arranque de parafusos no topo |
| MDF (placa de fibras de média densidade) | fibras de madeira coladas e prensadas | frentes lacadas, peças fresadas e perfiladas na CNC; superfície e topos uniformes |
| Contraplacado | folhas de madeira coladas com o fio cruzado (normalmente a 90°), em número ímpar | boa estabilidade dimensional e resistência; indicar o sentido do fio das faces |
| OSB | partículas longas (aparas) orientadas, em camadas | construção, estruturas, revestimentos; aspeto rústico |
| Lamelado-colado | lamelas de madeira coladas com o fio paralelo | vigas e pilares de construções em madeira; tampos e bancadas em lamelas |
| Painel lamelado / multicamada para tampos | lamelas maciças coladas lateralmente (por vezes com ligação por entalhes múltiplos nos topos) | tampos, bancadas de cozinha, prateleiras em "madeira maciça" |
Espessuras comerciais. As espessuras mais correntes em aglomerado e MDF para mobiliário são 16 e 19 mm, mas os fabricantes produzem uma gama larga (mais finas para fundos e tardozes, mais grossas para tampos). Em Portugal, o grupo Sonae Arauco é um dos grandes produtores europeus de painéis derivados de madeira, e os seus catálogos, como os de outros fabricantes, são a fonte certa para confirmar espessuras, formatos de chapa e revestimentos disponíveis. O desenhador desenha com a espessura real do catálogo, não com uma espessura "redonda" imaginada.
Representar texturas e materiais
O desenho técnico indica que material é cada componente, mesmo sem cor. Três ferramentas:
- Hachuras e padrões nos cortes: na madeira maciça distingue-se o corte ao longo do fio (linhas que acompanham o fio) do corte de topo, transversal ao fio (assinalado habitualmente com uma cruz diagonal ou com anéis); os painéis derivados têm padrões próprios (pontilhado para partículas, camadas alternadas para contraplacado, e assim por diante). Como os padrões variam entre normas e empresas, cada padrão usado explica-se numa legenda de materiais.
- Texturas nas vistas: nas perspetivas e nos alçados de apresentação pode desenhar-se o veio de forma ligeira, só para indicar o sentido do fio e distinguir madeira de lacado ou vidro. Nunca se desenha textura por cima de cotas.
- Anotação de texto e lista de peças: a informação definitiva é sempre escrita: "Aglomerado melamínico branco 19 mm, orla ABS 1 mm nas frentes". Listar os materiais nos desenhos é um critério de desempenho desta UC.
Orlas, folhas e revestimentos
Os topos dos painéis derivados orlam-se (orla de ABS, de melamina ou de folha de madeira). A orla tem espessura e essa espessura conta:
- no desenho, indica-se que arestas levam orla (por exemplo, com um traço ao lado da aresta ou com colunas próprias na lista de peças);
- se a medida final da peça inclui a orla, a medida de corte é a medida final menos a espessura das orlas, de acordo com a prática da empresa e do software de otimização (confirma sempre qual das duas medidas a lista indica).
8. Ligações entre componentes e ferragens
Identificar nos desenhos técnicos as ligações entre componentes e as ferragens utilizadas é uma aptidão do referencial. Um desenho de mobiliário sem ligações definidas deixa à oficina a decisão mais importante: como é que o móvel se aguenta.
Ligações tradicionais em madeira maciça
| Ligação | Descrição | Onde aparece |
|---|---|---|
| Espiga e mecha (em inglês, mortise and tenon) | uma peça tem uma saliência (parte macho) que entra numa cavidade retangular (parte fêmea) da outra; pode ser cega ou passante | pernas e travessas de mesas e cadeiras, caixilhos de portas |
| Meia-madeira | retira-se metade da espessura a cada peça, que se sobrepõem ficando à face | cruzamentos e cantos de aros e grades |
| Malhete (cauda de andorinha) | encaixes em forma de leque que só se separam numa direção | gavetas de qualidade, caixas, cantos de móveis maciços |
| Ranhura e lingueta (macho e fêmea) | uma peça tem um rasgo e a outra uma lingueta que entra nele | ligações de tábuas em painéis e soalhos, fundos de gaveta |
| Rasgo (ranhura) | canal ao longo da peça onde entra um painel | tardozes e fundos de gaveta encaixados |
Os nomes das partes (espiga, mecha, respiga, fêmea) variam de oficina para oficina. No desenho, a dúvida resolve-se com o pormenor cotado: largura, espessura e comprimento da parte macho; largura, altura e profundidade da parte fêmea. Uma regra prática muito divulgada é dar à parte macho cerca de um terço da espessura da peça que recebe o encaixe.
Ligações com elementos de união
| Elemento | Como se representa e cota |
|---|---|
| Cavilhas de madeira | diâmetro × comprimento (por exemplo, Ø8 × 30); posição dos furos em ambas as peças e profundidades; os diâmetros mais usados em painéis de 16 a 19 mm são 6 e 8 mm |
| Lamelos (placas ovais de madeira prensada) | posição do rasgo a partir de uma aresta de referência e tamanho do lamelo segundo o fabricante |
| Ferragens de união desmontáveis (excêntricos com cavilha metálica) | furo do excêntrico na face, furo da cavilha no topo; distâncias tiradas do catálogo do fabricante |
| Parafusos para aglomerado | diâmetro × comprimento, tipo de cabeça; furo guia quando necessário; evitar parafusar no topo de aglomerado sem ferragem própria |
| Cantoneiras e esquadros metálicos | posição e tipo; muitas vezes só com nota e referência de catálogo |
Ferragens de movimento e de suporte
- Dobradiças de caneco (copa): o caneco embute num furo de Ø35 mm na porta (há versões de 26 mm para portas pequenas); a distância do furo à orla da porta, a profundidade e a posição do calço na lateral dependem do modelo e da sobreposição da porta (total, meia ou interior), e tiram-se do catálogo do fabricante. O número de dobradiças por porta também vem da tabela do fabricante, em função da altura e do peso da porta.
- Corrediças de gaveta: de rolamentos (esferas), de rodízios ou ocultas; o comprimento nominal, a folga lateral entre gaveta e caixa e as posições de fixação são dados do fabricante. O desenho da gaveta faz-se a partir da corrediça, não o contrário.
- Suportes de prateleira: pinos metálicos em furos de Ø5 mm (ver Sistema 32).
- Puxadores: cota-se o entre-eixo dos furos de fixação (medida comercial do puxador) e a posição na frente.
O Sistema 32
O Sistema 32 é o método de organização da furação usado na generalidade do mobiliário de painel europeu. Assenta em três medidas:
- furos de Ø5 mm em linhas verticais nas laterais;
- 32 mm de distância entre centros de furos consecutivos;
- a primeira linha de furos a 37 mm da aresta da frente da lateral.
Como todas as ferragens (dobradiças, corrediças, suportes de prateleira) são desenhadas para encaixar nesta malha, a mesma lateral furada serve para várias configurações, e a máquina de furar (ou a CNC) trabalha com um padrão repetido. No desenho, basta cotar a primeira e a última posição da linha de furos, o afastamento de 37 mm e o passo de 32 mm, em vez de cotar furo a furo.
Exemplo resolvido · Quantos furos cabem numa linha de Sistema 32?
Uma lateral tem 720 mm de altura. O primeiro furo da linha fica a 64 mm da base e o último não pode passar os 656 mm (para ficar a 64 mm do topo).
- Comprimento útil entre o primeiro e o último furo possível: 656 − 64 = 592 mm.
- Número de intervalos de 32 mm que cabem: 592 ÷ 32 = 18,5, ou seja, 18 intervalos inteiros.
- Número de furos: 18 + 1 = 19 furos por linha.
- Posição do último furo: 64 + 18 × 32 = 64 + 576 = 640 mm da base (fica a 80 mm do topo).
- Cotagem no desenho: "19 furos Ø5, passo 32 (18 × 32 = 576)", com o primeiro furo cotado a 64 mm da base e a linha a 37 mm da frente.
Com duas linhas (frente e trás), são 38 furos por lateral e 76 por móvel. Este é o tipo de conta que o desenhador faz para a lista de furação da CNC.
Catálogos na mão. Toda a informação de uma ferragem (furo, profundidade, distâncias, folgas) vem da ficha técnica do fabricante. Desenhar uma dobradiça "a olho" é a forma mais rápida de ter uma porta que não fecha. Guarda a referência exata da ferragem na lista de peças.
9. Escalas, proporções e medidas
Escalas normalizadas
A escala é a relação entre uma medida no desenho e a medida correspondente na peça real. Escreve-se sempre como "medida no desenho : medida real". Garantir a utilização de escalas é um critério de desempenho central desta UC.
| Tipo | Escalas recomendadas (ISO 5455) | Uso em mobiliário |
|---|---|---|
| Redução | 1:2, 1:5, 1:10, 1:20, 1:50, 1:100 | 1:10 e 1:5 para vistas gerais de móveis; 1:20 e 1:50 para cozinhas e roupeiros inteiros e implantações em planta |
| Tamanho real | 1:1 | pormenores de ligações, perfis, moldes e gabaritos |
| Ampliação | 2:1, 5:1, 10:1 | só para peças muito pequenas (perfis de ferragens, pequenos encaixes) |
A escala principal escreve-se na legenda; as vistas ou pormenores com escala diferente têm a sua escala escrita junto à designação ("Pormenor B (1:2)").
Nunca se mede um desenho impresso com a régua para "descobrir" uma medida. Uma impressão pode ter sido reduzida (A3 impresso em A4) e a escala deixa de ser verdadeira. A medida é a cota. Se falta uma cota, pede-se ao desenhador.
Contas com escalas
- Medida no papel = medida real × (numerador ÷ denominador). A 1:10, divide-se por 10; a 2:1, multiplica-se por 2.
- Medida real = medida no papel ÷ (numerador ÷ denominador).
- Escolher a escala para caber no formato: divide-se a medida real maior pelo espaço disponível na folha e escolhe-se a escala normalizada imediatamente a seguir.
Exemplo resolvido · Calcular a medida no papel
Um tampo de mesa mede 1400 mm de largura. O desenho vai ser feito à escala 1:10.
- Medida no papel = 1400 ÷ 10 = 140 mm.
- Verificação inversa: 140 × 10 = 1400 mm.
- A cota escrita no desenho é 1400, a medida real, nunca 140.
Exemplo resolvido · Escolher a escala para um roupeiro numa folha A3
Um roupeiro tem 2400 mm de largura e 2500 mm de altura. Quer-se a vista de frente numa folha A3 deitada (420 × 297 mm). Descontando margens, legenda e espaço para cotas, sobra uma zona útil de cerca de 250 × 200 mm para esta vista.
- Pela largura: 2400 ÷ 250 = 9,6, ou seja, é preciso reduzir pelo menos 9,6 vezes.
- Pela altura: 2500 ÷ 200 = 12,5, é preciso reduzir pelo menos 12,5 vezes.
- Manda o valor mais exigente, 12,5. A escala normalizada seguinte é 1:20 (1:10 não cabe).
- Verificação a 1:20: 2400 ÷ 20 = 120 mm de largura e 2500 ÷ 20 = 125 mm de altura. Cabe com folga para as cotas.
- Para mostrar as ligações, fazem-se pormenores à parte, a 1:2 ou 1:1.
Proporções e medidas aplicadas
As proporções relacionam as dimensões da peça entre si (altura, largura, profundidade, espessuras, vãos). Um móvel proporcionado "parece certo" antes de se ler qualquer cota.
- Proporção funcional: as medidas vêm da função e da ergonomia (altura de assento, profundidade de prateleira para pastas A4, largura de uma gaveta de talheres).
- Proporção construtiva: as espessuras têm de ser coerentes com os vãos e com as cargas. Uma prateleira de aglomerado de 16 mm com 1200 mm de vão flete com livros; reduz-se o vão com uma divisória, aumenta-se a espessura ou reforça-se a frente.
- Proporção visual: frentes de gavetas que aumentam de cima para baixo, rodapés e cimalhas coerentes com a altura do móvel, alinhamento das juntas entre portas e gavetas.
- Medidas comerciais: aproveitar os formatos de chapa, as espessuras e os comprimentos de ferragens que existem no mercado, para reduzir desperdício e custo.
Exemplo resolvido · Dividir uma frente em três gavetas proporcionadas
Uma cómoda tem 750 mm de altura disponível para três frentes de gaveta, com folgas de 3 mm entre frentes (duas folgas entre as três frentes). Quer-se que cada frente seja 50 mm mais alta do que a de cima.
- Altura útil das frentes: 750 − 2 × 3 = 744 mm.
- Se a frente de cima tem h, as outras têm h + 50 e h + 100: h + (h + 50) + (h + 100) = 744.
- 3h + 150 = 744, logo 3h = 594 e h = 198 mm.
- Frentes: 198, 248 e 298 mm. Verificação: 198 + 248 + 298 + 2 × 3 = 744 + 6 = 750 mm.
10. Representação tridimensional
As vistas ortográficas são rigorosas mas exigem treino para serem lidas. A perspetiva mostra o móvel em volume, numa só imagem, e é indispensável em apresentações ao cliente, em vistas explodidas e em instruções de montagem. O referencial pede a perspetiva isométrica ou cavaleira, em escala reduzida.
Perspetiva isométrica
- Os três eixos (largura, profundidade, altura) formam ângulos de 120° entre si; a altura fica vertical e as outras duas direções fazem 30° com a horizontal.
- As medidas marcam-se em verdadeira grandeza ao longo dos três eixos (é o chamado desenho isométrico; a projeção isométrica rigorosa encurtaria todas as medidas na mesma proporção, cerca de 0,82, o que não altera o aspeto e só complica as contas).
- As circunferências aparecem como elipses (furos de dobradiça, pernas torneadas, puxadores redondos).
- Só se medem distâncias paralelas aos eixos: uma aresta inclinada (um chanfro, uma perna inclinada) desenha-se marcando as suas extremidades por coordenadas e unindo-as.
Perspetiva cavaleira
- A face da frente fica em verdadeira grandeza (é igual à vista de frente), o que a torna muito rápida de traçar à mão a partir do alçado.
- A profundidade desenha-se segundo fugantes inclinadas, muitas vezes a 45° (também 30° ou 60°), com um coeficiente de redução que se escolhe e indica (1/2 é muito usado; com coeficiente 1 a peça parece mais funda do que é).
- Circunferências na face da frente continuam circunferências; nas outras faces viram elipses.
Qual escolher
| Situação | Perspetiva mais indicada | Porquê |
|---|---|---|
| Instruções de montagem, vistas explodidas | isométrica | nenhuma face é privilegiada, o volume lê-se de forma equilibrada |
| Móvel com a frente muito trabalhada (almofadas, gavetas, molduras) | cavaleira | a frente fica sem deformação e desenha-se a partir do alçado |
| Esboço rápido para o cliente | cavaleira | mais rápida à mão |
| Modelo CAD | isométrica ou outras vistas 3D geradas pelo software | a vista gera-se automaticamente a partir do modelo |
Exemplo resolvido · Medidas de uma caixa em cavaleira e em isométrica
Caixa com 400 mm de largura, 300 mm de profundidade e 200 mm de altura, desenhada a 1:5.
- Medidas no papel a 1:5: largura 400 ÷ 5 = 80 mm; profundidade 300 ÷ 5 = 60 mm; altura 200 ÷ 5 = 40 mm.
- Cavaleira a 45° com coeficiente 1/2: frente em verdadeira grandeza (80 × 40 mm); profundidade traçada a 45° com 60 × 1/2 = 30 mm.
- Isométrica (desenho isométrico): 80 mm num eixo a 30°, 60 mm no outro eixo a 30°, 40 mm na vertical, sem coeficiente.
- Comparação: a cavaleira ocupa menos espaço em profundidade (30 mm em vez de 60 mm) e mostra a frente sem deformação; a isométrica mostra as três faces com o mesmo peso.
- Em ambas indica-se a escala (1:5) e, na cavaleira, o ângulo e o coeficiente usados.
11. Cotagem, tolerância e acabamento de superfície
Elementos da cotagem
Cotar é indicar no desenho as medidas reais da peça:
- Linha de cota: linha contínua fina, paralela à medida, terminada em setas (ou em traços oblíquos, muito usados em desenho de arquitetura e de mobiliário de interiores).
- Linhas de chamada: linhas contínuas finas que prolongam as arestas até à linha de cota, ultrapassando-a ligeiramente, com um pequeno afastamento da peça.
- Valor da cota: a medida real, em milímetros, sem escrever a unidade. Lê-se de baixo ou do lado direito da folha.
- Símbolos: Ø (diâmetro), R (raio), □ (quadrado), e indicações como "20 × 45°" para chanfros.
Regras de cotagem
- Cada medida necessária aparece uma só vez (sem cotas repetidas, que podem vir a contradizer-se numa revisão).
- Nenhuma medida necessária fica por cotar: quem fabrica não deve ter de fazer contas para obter uma medida de corte ou de furação.
- Cotas preferencialmente fora das vistas e na vista onde a forma se lê melhor.
- As cotas menores ficam mais perto da peça e as maiores mais afastadas, para as linhas de chamada não cruzarem linhas de cota.
- Não se cota sobre arestas ocultas (tracejado): se é preciso, faz-se um corte.
- As furações cotam-se a partir das arestas de referência que a máquina usa (normalmente a base e a frente da peça).
Cotagem em série, em paralelo e por coordenadas
| Método | Como é | Vantagem / risco |
|---|---|---|
| Em série (em cadeia) | cada cota começa onde acaba a anterior | fácil de ler; os erros acumulam-se |
| Em paralelo | todas as cotas partem da mesma aresta de referência | não acumula erros; ocupa mais espaço |
| Por cotas sobrepostas (de referência) | uma única linha a partir de uma origem, com os valores acumulados | compacta, muito usada para furações e programas CNC |
| Por coordenadas (tabela) | cada furo com X e Y numa tabela | ideal quando há muitos furos |
Exemplo resolvido · Porque é que as furações se cotam a partir de uma referência
Uma lateral tem 5 furos alinhados, a 64 mm uns dos outros. A oficina trabalha com uma tolerância de ±0,2 mm em cada posição cotada.
- Cotagem em série (64 + 64 + 64 + 64): o último furo resulta de quatro cotas, e cada uma pode variar ±0,2 mm. No pior caso, o desvio acumulado é 4 × 0,2 = ±0,8 mm.
- Cotagem a partir de uma referência (0, 64, 128, 192, 256): cada furo está cotado diretamente a partir da aresta de referência, e o desvio de cada um fica em ±0,2 mm.
- Se esses furos recebem uma ferragem com furação fixa, 0,8 mm de desvio pode impedir a montagem. Por isso as furações cotam-se em paralelo ou por cotas sobrepostas.
Tolerâncias em marcenaria
A tolerância é a variação permitida numa medida, porque nenhuma máquina corta exatamente a medida nominal. Escreve-se junto da cota: 600 ±0,5, ou em nota geral na legenda ("tolerâncias gerais não indicadas: ±0,5 mm").
- Em mobiliário e marcenaria, as tolerâncias são da ordem das décimas de milímetro (e, em peças grandes ou em obra, do milímetro). Tolerâncias em micrómetros são próprias da mecânica de precisão, não da madeira.
- Os valores concretos dependem da máquina (serra de esquadria, seccionadora, CNC), do material e da função. A empresa fixa-os e o desenho indica-os.
- Apertam-se nas ligações de precisão (posição de furos de cavilhas e de ferragens, encaixes, rasgos) e alargam-se nas medidas que não afetam a função (a largura de uma prateleira que fica com folga).
- Não confundir tolerância com folga: a folga é um espaço projetado (por exemplo, 2 a 3 mm entre duas portas, ou a folga lateral pedida pelo fabricante da corrediça), e é uma medida nominal cotada, com a sua própria tolerância.
A madeira acrescenta uma dificuldade: muda de dimensão com a humidade (capítulo 7). Por isso a folga de uma gaveta de madeira maciça tem de absorver o movimento da madeira, e não só a tolerância de corte.
Acabamento de superfície
O acabamento define como fica a superfície da peça e indica-se numa nota no desenho ou no caderno de especificações. Em metal usa-se a rugosidade numérica; em mobiliário, a especificação faz-se por processo e produto:
| Etapa | O que se especifica | Exemplo |
|---|---|---|
| Preparação | lixagem por grãos crescentes, sem saltar grãos; lixar no sentido do fio | lixa P80 → P120 → P180 |
| Produto | verniz, óleo, cera, laca, velatura, tintas | verniz aquoso de poliuretano; óleo natural; laca poliuretânica |
| Aspeto | cor (referência RAL ou NCS nas lacas), nível de brilho | laca RAL 9010, acetinado |
| Aplicação | número de demãos, lixagem entre demãos | 1 demão de primário + 2 de acabamento, lixa P320 entre demãos |
| Zonas | faces vistas, faces interiores, topos | "interiores só com uma demão"; "topos orlados, sem acabamento" |
Painéis melamínicos e folheados pré-acabados já vêm com a superfície acabada de fábrica: no desenho indica-se a referência do revestimento e a da orla.
Exemplo resolvido · Cotar uma prateleira com furação
Prateleira fixa de 800 mm de largura, 250 mm de profundidade e 19 mm de espessura, com furos de cavilha Ø8 nos dois topos, a 50 mm da frente e a 50 mm de trás.
- Vista de cima: cota da largura total 800 e da profundidade 250.
- Vista lateral (topo): cota da espessura 19 e posição dos furos a 50 da frente e 50 de trás, em paralelo, a partir das arestas de referência. A distância entre furos (250 − 50 − 50 = 150 mm) não se escreve, porque já está definida e repeti-la criaria uma cota a mais.
- Furos: indicação "Ø8 × 20 prof." e posição a meio da espessura (9,5 mm).
- Tolerância das posições dos furos, por exemplo ±0,2 mm, indicada junto da cota ou na nota geral de tolerâncias da empresa.
- Nota de material e acabamento: "Aglomerado melamínico carvalho 19 mm, orla ABS 1 mm na frente".
12. Vistas explodidas e instruções de montagem
Vistas explodidas
A vista explodida mostra os componentes de um móvel afastados uns dos outros ao longo dos eixos de montagem, cada um alinhado com o sítio para onde vai. Responde, numa só imagem, a duas perguntas: que peças há e em que ordem e direção se juntam.
Regras de construção:
- Desenha-se normalmente em perspetiva isométrica, a partir do móvel montado.
- Cada peça afasta-se só ao longo de um eixo (o eixo em que entra na montagem); linhas de eixo finas (traço-ponto ou traço fino) mostram o percurso.
- As ferragens (cavilhas, excêntricos, parafusos, dobradiças) aparecem junto do ponto onde se aplicam, alinhadas com os furos.
- Peças iguais podem desenhar-se uma só vez, com a quantidade indicada.
- Cada peça tem uma referência numerada num balão (círculo com o número, ligado à peça por uma linha de chamada fina que termina num ponto dentro da peça). Os números batem certo com a lista de peças (ISO 6433 e ISO 7573).
Instruções de montagem
As instruções de montagem acompanham a vista explodida e são dirigidas a quem monta: o montador da empresa ou o cliente final. Redigir esta informação é uma aptidão do referencial.
- Lista de verificação inicial: peças e ferragens com as quantidades, e ferramentas necessárias.
- Passos numerados, cada um com uma imagem (um pormenor da explodida) e uma frase curta, no imperativo: "Coloque as cavilhas (4) nos furos da lateral (1)".
- Ordem lógica: da estrutura para o acabamento (caixa, fundo e tardoz, esquadria, prateleiras, portas e gavetas, afinação, fixação à parede).
- Avisos de segurança: fixação obrigatória à parede em móveis altos, número de pessoas necessárias, peças pesadas ou com vidro.
- Afinação final: ajuste das dobradiças e das frentes para alinhar folgas.
- Linguagem simples, sem jargão técnico, e sem depender do desenhador ao lado para ser entendida.
Exemplo resolvido · Vista explodida e instruções de uma estante de duas prateleiras fixas
Componentes: laterais (2), prateleira inferior (1), prateleira superior (1), tardoz de 8 mm encaixado em rasgo (1), cavilhas Ø8 × 30 (8), parafusos de fixação do tardoz (6), esquadros de fixação à parede (2).
- Lista de peças numerada: 1 · lateral (2); 2 · prateleira (2); 3 · tardoz (1); 4 · cavilha Ø8 × 30 (8); 5 · parafuso 3,5 × 16 (6); 6 · esquadro de fixação à parede (2).
- Explodida: laterais afastadas para os lados (eixo da largura); prateleiras ao centro; cavilhas entre as laterais e os topos das prateleiras, alinhadas com os furos; tardoz afastado para trás (eixo da profundidade), com os parafusos atrás dele; esquadros junto do topo.
- Passos:
- Coloque cola e as cavilhas (4) nos furos das prateleiras (2).
- Encaixe as prateleiras (2) numa das laterais (1).
- Encaixe a segunda lateral (1) e aperte com grampos; verifique a esquadria medindo as duas diagonais, que têm de ser iguais.
- Faça deslizar o tardoz (3) nos rasgos e fixe-o com os parafusos (5).
- Coloque a estante no local e fixe-a à parede com os esquadros (6). Aviso: a fixação à parede é obrigatória.
- Verificação: todos os números da explodida aparecem na lista e nos passos; nenhuma peça da lista fica fora da explodida.
13. Documentação técnica e especificações para produção
Um desenho raramente viaja sozinho. A documentação técnica reúne tudo o que a produção, a compra de materiais e a montagem precisam de saber.
| Documento | Conteúdo |
|---|---|
| Desenho de conjunto e desenhos de peça | vistas, cortes, pormenores, cotas, tolerâncias, notas |
| Lista de peças (lista de materiais) | n.º da peça, designação, quantidade, material, dimensões acabadas (C × L × E), sentido do fio, orlas, observações |
| Lista de corte | dimensões de corte de cada peça (já com as descontas de orlas e as sobremedidas da empresa), agrupadas por material e espessura |
| Lista de ferragens | referência do fabricante, quantidade, acabamento |
| Especificação de acabamentos | processo e produtos (capítulo 11) |
| Instruções de montagem | vista explodida e passos |
| Memória descritiva | explicação das decisões: função, ergonomia, materiais, ligações, acabamentos, cuidados de uso e manutenção |
Redigir informação de natureza variada (memória descritiva, notas técnicas, instruções, pedidos de esclarecimento ao cliente, notas de encomenda de ferragens) é uma aptidão do referencial. Escreve-se com frases curtas, termos técnicos corretos e sempre com referência ao número do desenho e da peça.
Exemplo resolvido · Da lista de peças à lista de corte de um módulo baixo
Módulo de 600 mm de largura, 720 mm de altura e 560 mm de profundidade, em aglomerado melamínico branco de 19 mm. Laterais de altura total; base e travessa superior entre laterais; porta sobreposta; tardoz de 3 mm aparafusado atrás. Orla de 1 mm em todas as arestas vistas. Regra desta empresa: a lista de peças indica medidas acabadas (com orla) e a lista de corte desconta a espessura das orlas.
- Laterais (2): 720 × 560 × 19, orla 1 mm na frente. Corte: 720 × (560 − 1) = 720 × 559.
- Base (1): entre laterais, largura 600 − 2 × 19 = 562 mm; profundidade 560. Orla só na frente. Corte: 562 × 559.
- Travessa superior (1): 562 × 100 × 19, orla na frente (1 mm na largura de 100). Corte: 562 × 99.
- Porta (1): sobreposição total com folga de 1,5 mm em cada lado: 600 − 2 × 1,5 = 597 mm de largura; altura 720 − 3 = 717 mm (folga no topo e na base). Orla de 1 mm nas quatro arestas: corte (597 − 2) × (717 − 2) = 595 × 715.
- Tardoz (1): 3 mm, aparafusado na face de trás, com a medida exterior: 600 × 720 (sem orla).
- Verificação: a soma 19 + 562 + 19 = 600 mm confirma a largura; o sentido do fio só importa se o melamínico tiver veio (imitação de madeira), caso em que a seta vai na lista.
As folgas de 1,5 mm e a regra das orlas são escolhas desta empresa fictícia: numa empresa real, seguem-se as regras dela e as indicações do fabricante das dobradiças.
Do desenho à CNC
Com máquinas CNC, a documentação inclui ainda os programas de maquinação (furação, fresagem, rasgos) e as etiquetas das peças, geradas pelo software a partir do modelo. O desenhador garante que o modelo está completo: todas as furações modeladas, todos os materiais e espessuras corretos, todas as faces de referência coerentes com a forma como a peça entra na máquina.
14. Segurança, saúde no trabalho e EPI
Porque é que o desenhador precisa de segurança
O desenhador de mobiliário não fica só à secretária: vai à oficina medir peças, confirmar ferragens, verificar protótipos e acompanhar a montagem em obra. Nesses momentos está exposto aos riscos de uma oficina de madeira: máquinas com ferramentas cortantes em rotação, ruído, pó de madeira, projeção de partículas, queda de painéis pesados, empilhadores e circulação de cargas.
O enquadramento legal português de base inclui o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho (Lei n.º 102/2009), as regras de utilização de equipamentos de proteção individual (Decreto-Lei n.º 348/93) e as prescrições sobre exposição ao ruído (Decreto-Lei n.º 182/2006). A empresa avalia os riscos e define os EPI de cada posto; o trabalhador cumpre as regras e usa os EPI que lhe são entregues.
EPI na oficina de madeira
| Risco | EPI | Nota |
|---|---|---|
| Queda de objetos e painéis, pregos no chão | calçado de segurança | sempre que se entra na oficina |
| Ruído de máquinas (serras, tupias, CNC, lixadoras) | proteção auditiva (tampões ou auriculares) | o Decreto-Lei n.º 182/2006 obriga a disponibilizar protetores acima do valor de ação inferior (80 dB(A)) e a garantir o seu uso a partir do valor de ação superior (85 dB(A)) |
| Projeção de aparas e poeiras | óculos de proteção | junto de qualquer máquina a trabalhar |
| Pó de madeira (lixagem, corte, CNC) | proteção respiratória (máscara com filtro de partículas) | complementa a aspiração localizada, não a substitui |
| Arestas vivas e farpas no manuseamento de painéis | luvas | nunca junto de ferramentas em rotação: uma luva pode ser agarrada e puxar a mão |
Regras para medir em oficina. Nunca medir uma peça numa máquina que não esteja parada, com a ferramenta imobilizada. Não usar luvas, roupa larga, fios ou pulseiras junto de ferramentas em rotação. Circular pelas zonas marcadas. Avisar o operador antes de se aproximar de uma máquina. Arrumar a fita métrica: uma fita esquecida numa mesa de máquina é um projétil.
Segurança que começa no desenho
O desenhador também protege o utilizador final através das decisões que desenha:
- prever e indicar a fixação à parede de móveis altos (risco de tombamento);
- boleados nas arestas e cantos acessíveis, sobretudo em mobiliário infantil;
- vidros com espessura e tipo adequados à função, indicados no desenho;
- folgas que evitem entalões de dedos em portas e tampas;
- instruções de montagem com os avisos necessários.
15. Normas da qualidade
A qualidade de um desenho técnico mede-se por três perguntas: está correto (as medidas e as ligações funcionam)? Está completo (a oficina não precisa de perguntar nada)? Está claro (qualquer profissional o lê da mesma forma)?
As empresas certificadas segundo a ISO 9001 (sistemas de gestão da qualidade) têm procedimentos escritos para o controlo de documentos: quem desenha, quem verifica, quem aprova, como se identificam as revisões e como se retiram de circulação as versões antigas. Mesmo numa oficina pequena, estas regras simples evitam erros caros:
- Verificação antes de entregar, de preferência por outra pessoa.
- Índice de revisão na legenda e registo do que mudou.
- Uma só versão válida em circulação (as antigas marcam-se "anulado" ou retiram-se).
- Confirmação com o cliente das medidas críticas e dos materiais, por escrito.
Exemplo resolvido · Lista de verificação de um desenho antes de o entregar
| Verificar | Sim / Não |
|---|---|
| Legenda completa: título, n.º, escala, símbolo do método de projeção, autor, data, revisão | |
| Vistas alinhadas e coerentes entre si (larguras, alturas, profundidades) | |
| Tipos e espessuras de linha normalizados; plano de corte bem indicado | |
| Todas as medidas necessárias cotadas, uma só vez, em milímetros e pelo valor real | |
| Furações cotadas a partir das arestas de referência | |
| Tolerâncias indicadas nas ligações de precisão | |
| Materiais, espessuras, orlas e sentido do fio indicados | |
| Ferragens com referência do fabricante | |
| Acabamento especificado | |
| Explodida numerada e coerente com a lista de peças | |
| Instruções de montagem completas, com avisos de segurança |
Um erro de cota descoberto na oficina custa muito mais do que dez minutos de verificação antes de entregar.
Erros comuns
- Cotar a medida vista no papel em vez da medida real da peça.
- Medir um desenho impresso com a régua em vez de ler a cota.
- Misturar escalas no mesmo desenho sem as indicar junto de cada vista ou pormenor.
- Desenhar o plano de corte todo a traço grosso, ou esquecer as setas e as letras.
- Não pôr o símbolo do método de projeção e trocar a posição das vistas (vista de cima por cima da vista de frente, no método europeu).
- Esquecer as folgas de funcionamento e desenhar uma porta ou gaveta que não abre.
- Cotar furações em série, acumulando erros, em vez de as cotar a partir de uma referência.
- Pedir tolerâncias em micrómetros a peças de madeira, ou não indicar tolerância nenhuma nas ligações de precisão.
- Esquecer o sentido do fio nas peças maciças e folheadas, ou trocar comprimento e largura na lista de peças.
- Aparafusar rigidamente um tampo maciço em toda a largura, sem prever o movimento da madeira.
- Desenhar ferragens "a olho" sem consultar a ficha técnica do fabricante.
- Explodir componentes sem manter o alinhamento com os eixos de montagem, ou com números que não batem com a lista.
- Entregar o desenho sem legenda preenchida (falta escala, data, autor ou revisão).
- Usar a mesma hachura para peças vizinhas ou materiais diferentes, sem legenda de materiais.
- Usar luvas junto de máquinas em rotação ao ir medir peças à oficina.
Glossário
- Alçado: vista de frente, de lado ou de trás de um móvel ou construção.
- Anisotropia: propriedade da madeira de se comportar de forma diferente consoante a direção (longitudinal, radial, tangencial).
- Antropometria: estudo das dimensões do corpo humano numa população.
- Balão: círculo com o número de referência de uma peça, ligado a ela por uma linha fina.
- Boleado: aresta arredondada, cotada pelo raio (R).
- Cavilha: pequeno cilindro de madeira que liga duas peças através de furos correspondentes.
- Chanfro: aresta cortada em ângulo, cotada por medida e ângulo (por exemplo, 5 × 45°).
- Corte: representação do interior de uma peça seccionada por um plano, com o que fica para além dele.
- Cota: valor numérico de uma medida real no desenho, em milímetros.
- Desenho de conjunto: desenho do móvel completo, montado.
- Dobradiça de caneco: dobradiça com uma copa embutida num furo de Ø35 mm na porta.
- Ergonomia: adaptação dos objetos e espaços às dimensões, movimentos e capacidades de quem os usa.
- Escala: relação entre a medida no desenho e a medida real.
- Fio (sentido do fio): direção das fibras da madeira.
- Folga: espaço projetado entre duas peças para permitir o funcionamento.
- Hachura: padrão de linhas finas que preenche uma superfície cortada.
- Legenda (cartucho): quadro com a identificação do desenho, no canto inferior direito.
- Lista de corte: lista das dimensões de corte das peças, por material e espessura.
- Lista de peças: tabela com todas as peças do móvel, quantidades, materiais e dimensões acabadas.
- Malhete: ligação em cauda de andorinha.
- Método europeu (1.º diedro): disposição das vistas usada em Portugal, com a vista de cima por baixo da vista de frente.
- Orla: fita que cobre o topo de um painel.
- Perspetiva cavaleira: perspetiva com a face da frente em verdadeira grandeza e a profundidade segundo fugantes inclinadas, com coeficiente de redução.
- Perspetiva isométrica: perspetiva com os três eixos a 120° entre si e a mesma escala nos três.
- Pormenor construtivo: ampliação de uma zona do desenho, com escala própria.
- Projeção auxiliar: vista num plano paralelo a uma face inclinada, que a mostra em verdadeira grandeza.
- Secção: representação só da superfície que está no plano de corte.
- Sistema 32: organização da furação de móveis com furos de Ø5 mm a 32 mm entre centros e a primeira linha a 37 mm da frente.
- Teor de água: massa de água na madeira em percentagem da massa da madeira seca.
- Tolerância: variação permitida numa medida.
- Vista explodida: representação dos componentes afastados ao longo dos eixos de montagem.
- EPI: equipamento de proteção individual.
Síntese
Executar desenhos técnicos de mobiliário segue sempre a mesma ordem: analisar a informação de partida e medir com o instrumento certo → aplicar ergonomia com valores de referência justificados → cumprir as normas (linhas, formatos, legenda, método europeu) → desenhar as vistas ortográficas e, se houver faces inclinadas, as projeções auxiliares → acrescentar cortes, secções e pormenores onde estão as ligações → representar a madeira e os derivados (fio, movimento, espessuras reais, orlas) e as ligações e ferragens (com o catálogo na mão e o Sistema 32) → escolher a escala e a perspetiva → cotar a partir de referências, com tolerâncias realistas e acabamentos especificados → fechar com vista explodida, instruções de montagem, lista de peças e documentação técnica completa, sempre com segurança na oficina e verificação de qualidade antes de entregar.
Exercícios resolvidos
1. Um esboço de um armário chega sem cotas, apenas com "2 portas, madeira clara". Que informação falta confirmar antes de desenhar?
Resolução: dimensões gerais (largura, altura, profundidade) e o espaço onde fica; o material concreto (espécie de madeira ou tipo de painel e revestimento, não apenas "madeira clara"); o tipo de portas (de batente ou de correr) e, se forem de batente, o tipo de dobradiça e a sobreposição; o interior (prateleiras, varão, gavetas); a função e o utilizador (ergonomia); e a forma de fixação e de montagem. Tudo fica registado num esboço cotado e numa nota de decisões antes de abrir o CAD.
2. Uma peça mede 1400 mm de largura real e vai ser desenhada a 1:20. Que largura ocupa no papel, e que valor se escreve na cota?
Resolução: largura no papel = 1400 ÷ 20 = 70 mm. A cota é sempre a medida real: escreve-se 1400, nunca 70.
3. Distingue corte de secção e diz qual usarias para mostrar o perfil de uma moldura.
Resolução: o corte mostra a superfície cortada e tudo o que se vê para além do plano; a secção mostra só a superfície que está no plano. Para o perfil de uma moldura usa-se a secção (rebatida sobre a vista ou deslocada), porque só interessa a forma do perfil.
4. Num desenho no método europeu, a vista de cima aparece por cima da vista de frente. O que se passa?
Resolução: ou o desenho está no método americano (3.º diedro), e então o símbolo na legenda tem de o dizer, ou está errado. No método europeu (1.º diedro), a vista de cima desenha-se por baixo da vista de frente e a vista lateral esquerda à direita. Antes de ler as vistas, confirma-se o símbolo do método na legenda.
5. Como se desenha o traço de um plano de corte?
Resolução: com linha traço-ponto fina, grossa nas extremidades (e nas mudanças de direção, num corte por planos paralelos), com setas perpendiculares ao traço a indicar o sentido de observação e uma letra em cada extremidade. O corte correspondente designa-se "Corte A-A".
6. Um tampo de madeira maciça com 800 mm de largura pode variar 0,25% por cada ponto percentual de teor de água (dado da ficha técnica). Se o teor de água variar 3 pontos, quanto varia a largura? Que consequência tem no desenho?
Resolução: variação relativa = 0,25% × 3 = 0,75%; variação absoluta = 800 × 0,0075 = 6 mm. As fixações do tampo à estrutura têm de permitir cerca de 6 mm de movimento na largura (furos ovalizados ou ferragens próprias), representadas num pormenor construtivo.
7. Uma lateral de 2000 mm de altura leva uma linha de Sistema 32 com o primeiro furo a 96 mm da base e o último, no máximo, a 96 mm do topo. Quantos furos tem a linha e onde fica o último?
Resolução: comprimento útil = (2000 − 96) − 96 = 1808 mm; 1808 ÷ 32 = 56,5, logo 56 intervalos e 57 furos. O último furo fica a 96 + 56 × 32 = 96 + 1792 = 1888 mm da base (112 mm do topo). A linha fica a 37 mm da frente, com furos de Ø5 mm.
8. Uma divisão de 1200 mm de largura recebe duas portas sobrepostas iguais, com 1,5 mm de folga em cada extremo e 3 mm de folga entre as portas. Qual a largura de cada porta?
Resolução: largura disponível para portas = 1200 − 2 × 1,5 − 3 = 1200 − 6 = 1194 mm; cada porta = 1194 ÷ 2 = 597 mm. Verificação: 1,5 + 597 + 3 + 597 + 1,5 = 1200 mm.
9. Porque é que as furações de uma lateral se cotam a partir de uma aresta de referência e não em série?
Resolução: porque, em série, os desvios de cada cota somam-se: com 4 cotas em série e ±0,2 mm cada, o último furo pode ficar desviado até ±0,8 mm. Cotadas a partir de uma referência, cada posição fica com o seu desvio de ±0,2 mm. Além disso, é a referência que a máquina usa para posicionar a peça.
10. Porque é que a perspetiva isométrica é a mais usada em instruções de montagem, e quando preferirias a cavaleira?
Resolução: a isométrica mostra as três faces com o mesmo peso e usa a mesma escala nos três eixos, pelo que se lê bem por quem não tem formação técnica e se presta a vistas explodidas. A cavaleira prefere-se quando a face da frente tem o detalhe mais importante (uma porta com almofada, frentes de gaveta), porque essa face fica em verdadeira grandeza, e para esboços rápidos à mão.
11. Vais à oficina medir uma peça junto da seccionadora, que está a trabalhar. Que EPI usas e que regra cumpres antes de medir?
Resolução: calçado de segurança, proteção auditiva e óculos de proteção; luvas não, por estares junto de uma máquina com ferramenta em rotação. Antes de medir, avisas o operador e esperas que a máquina esteja parada e com a ferramenta imobilizada; nunca se mede uma peça em movimento ou sobre uma máquina em funcionamento.
12. Uma prateleira fixa em aglomerado de 19 mm liga-se com cavilhas Ø8 × 35 a uma lateral também de 19 mm. O furo na face da lateral tem 12 mm. Que profundidade mínima deve ter o furo no topo da prateleira, deixando 2 mm de folga para a cola?
Resolução: soma dos furos = comprimento da cavilha + folga = 35 + 2 = 37 mm; furo no topo = 37 − 12 = 25 mm. Na lateral ficam 19 − 12 = 7 mm de material até à face exterior, o que garante que o furo não aparece do lado de fora.