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UC · Unidade de Competência · UC00252

Sebenta · Executar desenhos técnicos de mobiliário e construções em madeira (UC00252)

Do esboço à documentação técnica, vistas ortográficas, cortes, escalas, cotagem, materiais, ligações e vistas explodidas
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. CNC em Madeira e Mobili, T. Desenho de Produto em M, T. Marcenaria e Carpintari ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a executar desenhos técnicos de mobiliário e construções em madeira, do primeiro esboço até à documentação pronta para a oficina. O desenho técnico é a linguagem comum entre quem projeta um móvel e quem o fabrica: uma linguagem rigorosa, normalizada e sem ambiguidade, onde cada linha, cada cota e cada símbolo tem um significado fixo.

Na indústria portuguesa da madeira e do mobiliário, com forte concentração no Vale do Sousa (Paços de Ferreira, que se apresenta como "Capital do Móvel", e Paredes), o desenho técnico já não fica na gaveta: alimenta a lista de corte, o software de otimização de chapas e o programa da máquina CNC. Um erro de cota ou uma furação mal indicada transforma-se, em minutos, em dezenas de peças cortadas e furadas erradas. Por isso esta UC pesa tanto em cursos tão diferentes como CNC, Desenho de Produto e Marcenaria e Carpintaria.

O percurso segue o de um profissional real: primeiro analisamos a informação de partida (esboços, objetos, desenhos existentes), depois medimos com rigor e aplicamos ergonomia, seguimos as normas de representação, dominamos as vistas ortográficas e os cortes, aprendemos a representar a madeira e os seus derivados, as ligações e as ferragens, escolhemos escalas e perspetivas corretas, cotamos com tolerâncias e acabamentos realistas e fechamos o processo com vistas explodidas, instruções de montagem e documentação técnica completa. Segurança e qualidade acompanham todo o processo.

Objetivos de aprendizagem (referencial): analisar esboços, objetos, desenhos ortográficos e outras informações de mobiliário e construções em madeira; elaborar desenhos técnicos das peças e componentes; listar nos desenhos os materiais utilizados; garantir a utilização de escalas; criar desenhos com vistas explodidas e respetivas instruções de montagem; e cumprir as diferentes normas em vigor.

Como estudar com esta sebenta. Cada capítulo tem matéria, pelo menos um exemplo resolvido passo a passo e, no fim da sebenta, exercícios resolvidos. Estuda com papel, lápis e um escalímetro ao lado: refaz as contas e os esboços dos exemplos antes de leres a resolução.

1. Do esboço ao desenho técnico

Um esboço é uma ideia rápida, à mão levantada, com proporções aproximadas. Um desenho técnico é a mesma ideia transformada em informação rigorosa, medível e normalizada, pronta a seguir sem dúvidas.

Os documentos gráficos de um móvel

Um móvel não se descreve com um único desenho. Numa empresa organizada, o processo produz uma família de documentos, cada um com a sua função:

Documento Para que serve Escala habitual
Esboço (croqui) fixar a ideia e as proporções; registar um levantamento sem escala, mas proporcionado e cotado
Desenho de conjunto mostrar o móvel completo, montado, com as vistas gerais 1:10 ou 1:5
Desenho de fabrico (de peça) definir cada peça isolada, com todas as cotas e furações 1:5, 1:2 ou 1:1
Pormenor construtivo ampliar ligações, perfis e encaixes 1:2 ou 1:1 (ampliação só em peças muito pequenas)
Perspetiva e vista explodida mostrar o volume e a ordem de montagem escala reduzida, muitas vezes sem cotas
Lista de peças e lista de corte dizer o que se corta, com que material, quantas vezes e em que sentido do fio tabela

Analisar informação de partida

Antes de desenhar, analisa-se o que já existe:

Uma forma prática de organizar a análise é responder, por escrito, a seis perguntas: para quê (função), para quem (utilizador e ergonomia), onde (espaço, humidade, luz), com quê (materiais e ferragens), como se fabrica (máquinas disponíveis, CNC ou não) e como se monta (em fábrica ou no local, desmontável ou não).

Exemplo resolvido · Analisar o esboço de uma estante

Um cliente entrega um esboço de uma estante de parede, sem cotas, apenas com a indicação "3 prateleiras, madeira clara".

  1. Função: guardar livros, expor objetos ou ambos. Afeta a profundidade e o vão das prateleiras (livros pesados pedem vãos mais curtos ou prateleiras mais espessas).
  2. Dimensões gerais: medir a parede disponível (largura, altura, rodapé, tomadas) e combinar com o cliente.
  3. Material: "madeira clara" não é uma especificação. É preciso concretizar: pinho, freixo, carvalho maciço, contraplacado de bétula, MDF lacado ou aglomerado com revestimento melamínico em cor clara.
  4. Fixação: a estante é suspensa ou pousada? Se é suspensa, que ferragens de suspensão e que parede (tijolo, betão, pladur)?
  5. Registo: todas as respostas ficam escritas num esboço cotado e numa pequena nota de decisões, datada.
  6. Só depois de esclarecido todo este ponto de partida se começa o desenho técnico, em CAD ou à mão.

Um esboço incompleto obriga a decisões técnicas antes de desenhar, nunca durante o desenho.

Do desenho à máquina

Numa oficina com CNC, o desenho técnico é o documento de origem de uma cadeia: modelo ou desenho CAD → lista de peças → lista de corte otimizada → programas de furação e fresagem → etiquetas das peças → montagem. Se o desenho estiver certo, todo o resto sai certo; se estiver errado, o erro multiplica-se em cada peça. É por isso que o desenhador é responsável não só pela forma do móvel, mas também pela coerência entre vistas, cotas e lista de peças.

2. Materiais, equipamentos e instrumentos de medição

Materiais e equipamentos de desenho

O desenho técnico de mobiliário faz-se hoje sobretudo em software de CAD, mas os materiais tradicionais continuam a formar a base do rigor e são indispensáveis no esboço e no levantamento em obra:

Material / equipamento Função e cuidados
Lapiseiras 0,3 / 0,5 / 0,7 mm traços finos e grossos com espessura constante
Minas de dureza H, HB, B H e 2H para traços de construção leves; HB e B para traços finais e letras
Régua T, régua paralela e esquadros (45° e 30°/60°) linhas paralelas, perpendiculares e ângulos correntes
Escalímetro ler e traçar diretamente em várias escalas (1:10, 1:20, 1:50...)
Compasso e cércea de curvas arcos, circunferências, boleados e curvas livres
Papel de esboço, papel vegetal e papel quadriculado levantamento, rascunho e traçado final
Borracha branca macia correções localizadas sem sujar nem marcar o papel
Software de CAD 2D e 3D desenho, vistas automáticas, listas de peças, exportação para a CNC
Dispositivos com acesso à internet catálogos de ferragens, fichas técnicas de painéis, normas

Selecionar o material certo é uma aptidão do referencial: para um levantamento em obra levas papel quadriculado, lápis HB, fita métrica e máquina fotográfica; para um desenho final à mão levas minas H e HB, esquadros e escalímetro; para produção, o CAD.

No CAD, a organização por camadas (layers) substitui a troca de lápis: uma camada por tipo de linha (contornos, ocultas, eixos, cotas, hachuras, texto), cada uma com a espessura e o tipo de linha normalizados. Assim, a impressão sai correta sem ser preciso "pintar" linha a linha. Os formatos de troca mais comuns são o DWG e o DXF (este último muito usado para enviar contornos para a CNC).

Instrumentos de apoio e medição

Para desenhar com rigor é preciso primeiro medir com rigor. Cada instrumento tem uma resolução (a menor divisão que consegue ler) e um uso próprio:

Instrumento Resolução típica Uso típico
Fita métrica (flexível, com gancho) 1 mm medidas gerais, vãos, paredes, comprimentos grandes
Metro articulado 1 mm medições em oficina, mais rígido, bom para alturas
Medidor laser 1 mm distâncias em obra, entre paredes, tetos altos
Paquímetro (craveira) 0,05 ou 0,02 mm (digital 0,01 mm) espessuras de painéis, diâmetros de furos e cavilhas, profundidades
Esquadro de marcenaria / esquadro de aba ângulo reto verificar e traçar esquadrias
Suta (falso esquadro) e transferidor ângulo copiar e medir ângulos que não são retos
Nível de bolha horizontal e vertical verificar paredes e pavimentos no local de montagem
Graminho paralelas a uma face marcar linhas paralelas às arestas (linha de furação, espigas)

A precisão do instrumento tem de ser adequada à medida. Uma fita métrica lê milímetros; não faz sentido escrever 1799,5 mm a partir de uma fita. Um paquímetro para medir o comprimento de uma prateleira também não faz sentido. E um painel vendido como "19 mm" pode medir 18,6 ou 19,2 mm: quando a espessura real interessa (encaixes, rasgos, furação de topo), mede-se com o paquímetro.

Método de levantamento de medidas

Efetuar o levantamento de medidas de uma peça de mobiliário existente é uma aptidão do referencial. Faz-se sempre pela mesma ordem, do geral para o particular:

  1. Esboço à mão levantada do móvel, em vistas (frente, lado, cima), proporcionado, antes de medir qualquer coisa.
  2. Dimensões gerais (largura, altura, profundidade), medidas em mais de um ponto: um móvel antigo ou uma parede raramente estão em esquadro.
  3. Espessuras de painéis, tampos, portas e frentes de gaveta, com paquímetro.
  4. Posições de divisórias, prateleiras, ferragens e furações, sempre a partir de uma aresta de referência (por exemplo, a base e a frente da lateral), para não somar erros.
  5. Folgas de funcionamento entre portas, gavetas e caixa.
  6. Materiais, orlas, acabamentos e ferragens, com fotografias e marcas ou referências dos fabricantes quando visíveis.
  7. Revisão no local: confirmar que a soma das partes bate com a medida total (por exemplo, a soma dos vãos mais as espessuras das divisórias tem de dar a largura exterior).

Exemplo resolvido · Levantamento de um armário existente e verificação das somas

Um armário de duas portas mede, com fita métrica, 1800 mm de altura, 900 mm de largura e 550 mm de profundidade. O paquímetro mostra painéis com 19 mm. Há uma divisória vertical ao centro.

  1. Largura interior total: 900 − 2 × 19 = 862 mm.
  2. Com a divisória central de 19 mm, sobram 862 − 19 = 843 mm para os dois vãos.
  3. Cada vão, se a divisória estiver ao centro: 843 ÷ 2 = 421,5 mm.
  4. Mede-se cada vão no local: 421 mm e 422 mm. A soma 421 + 422 + 19 + 2 × 19 = 900 mm confirma o levantamento.
  5. Registam-se ainda: dobradiças a 100 mm do topo e da base de cada porta; folga de 2 mm entre as duas portas; tipo de dobradiça (de caneco, sobreposição total).
  6. Tudo vai para o esboço cotado, com a data e o nome de quem mediu.

Se a verificação do passo 4 não batesse (por exemplo, 421 + 425 + 19 + 38 = 903 mm), havia um erro de leitura ou o móvel está deformado: mede-se de novo antes de sair do local.

Regista sempre as medidas no momento, num esboço cotado. A memória falha nos milímetros, e voltar ao local custa tempo e dinheiro.

Segurança no levantamento em oficina

Medir uma peça junto a máquinas em funcionamento expõe o técnico aos mesmos riscos de quem as opera. Ver o capítulo 14: calçado de segurança sempre, proteção auditiva e proteção ocular junto de máquinas, e nunca medir uma peça numa máquina que não esteja parada e sem ferramenta em movimento.

3. Ergonomia aplicada ao mobiliário

Conceito, princípio e importância

A ergonomia é a disciplina que estuda a relação entre as pessoas e os objetos, os espaços e as tarefas, para adaptar estes às dimensões, aos movimentos e às capacidades de quem os usa.

Antropometria: medir as pessoas

As medidas ergonómicas vêm da antropometria, o estudo estatístico das dimensões do corpo humano numa população. Como as pessoas são diferentes, os valores exprimem-se em percentis: o percentil 5 é o valor abaixo do qual estão 5% das pessoas; o percentil 95, o valor abaixo do qual estão 95%.

Regra prática para escolher o percentil:

Valores de referência correntes

Os valores seguintes são referências correntes em manuais de ergonomia e em catálogos de mobiliário para adultos. Não são obrigações legais: servem de ponto de partida e confirmam-se sempre com a função da peça e com o cliente.

Elemento Valor de referência corrente Observação
Altura do assento (cadeira de refeição ou trabalho) cerca de 420 a 460 mm medida do chão ao ponto mais alto do assento, à frente
Profundidade útil do assento cerca de 400 a 450 mm demasiado fundo corta a circulação atrás dos joelhos
Altura de mesa de refeição cerca de 720 a 760 mm
Altura de secretária de altura fixa 740 ± 20 mm valor da norma europeia EN 527-1:2011 para mobiliário de escritório
Diferença entre tampo e assento cerca de 270 a 300 mm espaço para as coxas e altura confortável dos braços
Altura de bancada de cozinha cerca de 850 a 950 mm a EN 1116 trata das medidas de coordenação de móveis de cozinha; o valor final depende da altura do utilizador
Profundidade de prateleira para livros cerca de 250 a 300 mm livros de formato grande pedem mais

Não apresentes estes valores como obrigatórios. O que é obrigatório depende do tipo de móvel e do contexto (escritório, escola, espaço público). Quando existir norma aplicável, é a norma que manda; quando não existir, decides com base nas referências e justificas a decisão na memória descritiva.

Regras ergonómicas que se aplicam ao desenho

Exemplo resolvido · Coerência entre mesa e cadeira

Um cliente quer uma mesa de refeição com tampo a 750 mm e cadeiras com assento a 470 mm.

  1. Diferença tampo/assento: 750 − 470 = 280 mm. Está dentro da referência corrente de 270 a 300 mm.
  2. Verificar o espaço para as pernas: o tampo tem 25 mm e a travessa (aro) por baixo do tampo tem 80 mm de altura. A face inferior da travessa fica a 750 − 25 − 80 = 645 mm do chão.
  3. Espaço entre o assento e a travessa: 645 − 470 = 175 mm para as coxas. É aceitável para a maioria dos adultos, mas apertado para pessoas altas ou para quem cruza as pernas.
  4. Decisão: reduzir a travessa para 70 mm (fica 185 mm de espaço) ou recuar a travessa nos lados onde as pessoas se sentam. A decisão fica registada na memória descritiva.

Exemplo resolvido · Verificar a manobra à frente de uma gaveta

Uma gaveta de cozinha abre 500 mm. Em frente, a 700 mm, há outro móvel.

  1. Espaço ocupado pela gaveta aberta: 500 mm.
  2. Espaço livre que sobra entre a gaveta aberta e o móvel em frente: 700 − 500 = 200 mm.
  3. 200 mm não chegam para uma pessoa se colocar à frente da gaveta aberta: o utilizador teria de se pôr de lado, com risco de bater e de má postura.
  4. A gaveta não resolve um problema de implantação. O desenhador assinala a situação no desenho e propõe rever a distância entre móveis (ou trocar a gaveta por portas com prateleiras extraíveis, se o cliente não puder mudar a implantação).

A ergonomia aplicada corretamente evita retrabalho e reclamações depois da entrega.

4. Normas e convenções do desenho técnico

Porque normalizamos

Normalizar é seguir regras comuns para que o desenho seja interpretado da mesma forma por qualquer profissional, em qualquer oficina, em qualquer país. Cumprir as normas em vigor é um critério de desempenho desta UC. Em Portugal, o organismo nacional de normalização é o Instituto Português da Qualidade (IPQ); as normas internacionais (ISO) e europeias (EN) de desenho técnico são a referência comum da indústria.

As normas que mais interessam

Assunto Norma de referência O que define
Linhas, vistas, cortes e secções família ISO 128 tipos e espessuras de linha, disposição das vistas, cortes, secções, hachuras
Escalas ISO 5455 escalas recomendadas e forma de as indicar
Formatos de folha ISO 5457 (série A da ISO 216) formatos, margens, moldura
Legenda ISO 7200 campos obrigatórios da legenda (cartucho)
Escrita ISO 3098 tipo e alturas das letras e algarismos
Cotagem ISO 129-1 regras de cotagem
Métodos de projeção ISO 5456 (partes 2 e 3) vistas ortográficas e perspetivas
Referências de peças e lista de peças ISO 6433 e ISO 7573 numeração das peças (balões) e tabela de peças

Na indústria da madeira há ainda convenções próprias do setor (por exemplo, a norma alemã DIN 919-1, dedicada ao desenho técnico na transformação da madeira, muito usada como referência por fabricantes e escolas europeias). Numa empresa, a regra é simples: segue-se a norma que o cliente ou a empresa adotou, e diz-se qual é.

Formatos de folha e legenda

Formato Dimensões (mm)
A0 841 × 1189
A1 594 × 841
A2 420 × 594
A3 297 × 420
A4 210 × 297

Cada formato é metade do anterior, dobrando o lado maior. A moldura deixa uma margem de 20 mm do lado esquerdo (para arquivar) e 10 mm nos outros lados. A legenda fica no canto inferior direito e inclui, no mínimo: título do desenho, número do desenho, escala, método de projeção (símbolo), autor, data, empresa e índice de revisão. Em mobiliário acrescenta-se muitas vezes o material principal e a referência do cliente ou da encomenda.

Tipos de linha normalizados

As espessuras de linha seguem uma série normalizada (0,13 · 0,18 · 0,25 · 0,35 · 0,5 · 0,7 · 1 · 1,4 · 2 mm), em que cada valor é o anterior multiplicado por cerca de 1,4 (√2). Num desenho usam-se, em regra, duas espessuras, a grossa com o dobro da fina (por exemplo, 0,5 e 0,25 mm, ou 0,7 e 0,35 mm).

Tipo de linha Uso principal
Contínua grossa arestas e contornos visíveis
Contínua fina linhas de cota e de chamada, hachuras, contornos de secções rebatidas, linhas de referência
Contínua fina à mão levantada ou em ziguezague limite de vistas parciais e de cortes parciais
Interrompida (tracejada) fina arestas e contornos ocultos
Traço-ponto fina eixos de simetria, eixos de furos, circunferências de furação
Traço-ponto fina, grossa nas extremidades e nas mudanças de direção traço do plano de corte
Traço-ponto grossa troços grossos das extremidades do plano de corte; indicação de zonas com requisitos especiais (por exemplo, uma zona a tratar de forma diferente)
Traço-dois-pontos fina contornos de peças vizinhas, posições extremas de peças móveis (porta aberta, gaveta puxada)

O plano de corte não se desenha todo a traço grosso. Desenha-se a traço-ponto fino, só engrossado nas pontas (e nas mudanças de direção, se o corte for por planos paralelos), com setas a indicar o sentido de observação e uma letra (A-A, B-B). É um dos erros mais repetidos em desenhos de alunos.

A linha traço-dois-pontos é muito útil em mobiliário: mostra o arco de abertura de uma porta, a gaveta totalmente extraída ou a parede e o eletrodoméstico vizinhos, sem os confundir com o móvel que se está a desenhar.

Escrita e regras gerais de representação

Um desenho normalizado garante que "o que está desenhado é o que se fabrica". Uma convenção pessoal, por mais clara que pareça a quem a desenhou, gera erros na oficina.

5. Vistas ortográficas e projeções auxiliares

O sistema de vistas ortográficas

A vista ortográfica representa um objeto tridimensional em várias vistas planas, cada uma obtida por projeção perpendicular (ortogonal) a um plano. Imagina o móvel dentro de uma caixa de vidro: cada face da caixa recebe a "sombra" rigorosa do móvel visto de frente para essa face. Há seis vistas possíveis:

Vista Designação corrente em mobiliário
Vista de frente alçado principal (a vista que mais informação dá)
Vista de cima planta
Vista lateral esquerda e vista lateral direita alçados laterais
Vista de baixo planta inferior (rara; útil em tampos com ferragens por baixo)
Vista posterior alçado posterior (rara; útil para tardoz e passagens de cabos)

Na maior parte dos móveis, três vistas (frente, cima e uma lateral) chegam. Nenhuma vista isolada chega: uma vista de frente não distingue uma caixa de uma placa.

Método europeu (1.º diedro)

A disposição das vistas na folha segue um método de projeção. Em Portugal e na generalidade da Europa usa-se o método do 1.º diedro (método europeu, designado E na ISO 5456-2):

O método americano (3.º diedro, designado A) faz o contrário: a vista de cima fica por cima e a lateral direita fica à direita. Os dois têm símbolos próprios (um tronco de cone visto de frente e de lado), e o símbolo do método usado vai obrigatoriamente na legenda. Um desenho recebido de um fornecedor estrangeiro pode vir no método americano: ler o símbolo antes de ler as vistas evita montar um móvel em espelho.

Regras de alinhamento

As vistas estão ligadas entre si por correspondência:

Escolhe-se como vista de frente a que mostra mais informação e menos arestas ocultas, com o móvel na sua posição de utilização (um armário desenha-se de pé, nunca deitado).

Exemplo resolvido · Três vistas de uma caixa com tampa

Caixa retangular com 400 mm de largura, 300 mm de profundidade e 200 mm de altura, com tampa articulada na aresta de trás.

  1. Vista de frente: retângulo de 400 × 200 mm, com a linha da junta da tampa fechada.
  2. Vista de cima (desenhada por baixo da vista de frente, método europeu): retângulo de 400 × 300 mm, com as dobradiças a tracejado se ficarem escondidas.
  3. Vista lateral esquerda (desenhada à direita da vista de frente): retângulo de 300 × 200 mm, com a espessura da tampa; se se quiser mostrar a tampa aberta, desenha-se essa posição a traço-dois-pontos.
  4. Verificação: 400 mm iguais na frente e na planta; 200 mm iguais na frente e na lateral; 300 mm iguais na planta e na lateral.

Vistas parciais e vistas interrompidas

Peças compridas e uniformes (um corrimão, uma travessa de 2 m, um tampo comprido) podem desenhar-se interrompidas, com linhas de rotura (contínua fina à mão levantada ou em ziguezague): poupa-se papel e mantém-se uma escala legível. A cota mantém o valor real total, mesmo que a peça pareça mais curta no papel.

Projeções auxiliares

Quando uma face da peça está inclinada em relação aos planos de projeção, as vistas principais mostram-na encurtada (em escorço): a forma e as medidas que se leem no papel não são as reais. Usa-se então uma projeção auxiliar, feita num plano paralelo à face inclinada, que mostra essa face em verdadeira grandeza.

Em mobiliário é comum em:

Passos para construir uma vista auxiliar:

  1. Na vista onde a face inclinada aparece como uma linha (de perfil), traçar linhas de chamada perpendiculares a essa linha.
  2. Traçar uma linha de referência paralela à face inclinada, afastada da vista.
  3. Transportar as profundidades a partir de outra vista (a profundidade que falta mede-se na vista de cima ou na lateral).
  4. Desenhar só a parte inclinada (vista auxiliar parcial): o resto da peça apareceria deformado e não ajuda.

Exemplo resolvido · Verdadeira grandeza de um chanfro

A aresta de um tampo tem um chanfro a 45° que, na vista lateral, aparece como uma linha inclinada cujas projeções medem 20 mm na horizontal e 20 mm na vertical. Na vista de frente, o chanfro aparece como uma faixa com apenas 20 mm de altura.

  1. A largura real do chanfro é a hipotenusa: √(20² + 20²) = √800 ≈ 28,3 mm.
  2. Na vista de frente lê-se 20 mm, o que está errado como medida da face: é o escorço.
  3. Numa vista auxiliar paralela ao chanfro, a faixa aparece com a sua largura real de 28,3 mm, e é aí que se cota, se for preciso cotar a largura da face (na prática, cota-se o chanfro como "20 × 45°", que é a forma de indicar um chanfro pela sua projeção e pelo ângulo).

6. Cortes, secções e pormenores construtivos

Corte e secção

Um corte mostra o interior de uma peça como se fosse serrada por um plano imaginário e se retirasse a parte que fica entre o observador e esse plano. Mostra a superfície cortada e tudo o que se vê para além dela. Uma secção mostra apenas a superfície que está no plano de corte, sem o resto da peça.

Tipos de corte e de secção

Tipo Quando usar
Corte total o plano atravessa a peça toda; mostra a estrutura interior completa (por exemplo, corte vertical de um armário a meio)
Meio-corte peças simétricas: metade em vista, metade em corte, separadas pelo eixo
Corte parcial (local) só interessa uma zona pequena; limita-se com linha fina à mão levantada
Corte por planos paralelos (em degrau) detalhes que não estão alinhados num só plano; o traço do plano engrossa nas mudanças de direção
Secção rebatida desenhada sobre a própria vista, com contorno em linha fina (perfil de uma travessa ou de um puxador)
Secção deslocada desenhada fora da vista, ligada ao traço do plano (perfil de molduras, de pernas torneadas em várias alturas)

Regras das hachuras

Pormenores construtivos

O pormenor construtivo amplia uma zona pequena e complexa do desenho:

  1. Na vista original, rodeia-se a zona de interesse com um círculo (ou retângulo) em linha fina e identifica-se com uma letra (por exemplo, "B").
  2. Desenha-se essa zona à parte, com a designação e a escala própria: "Pormenor B (1:2)".
  3. No pormenor cotam-se as medidas que não cabiam na vista geral: profundidades de furos, rasgos, espessuras de orla, folgas.

Em mobiliário, os pormenores fazem-se habitualmente a 1:2 ou 1:1; a ampliação (2:1, 5:1) reserva-se para peças muito pequenas, como um perfil de ferragem.

Exemplo resolvido · Corte de uma ligação de prateleira fixa com cavilhas

Uma prateleira fixa de aglomerado de 19 mm liga-se a uma lateral, também de 19 mm, com cavilhas de madeira Ø8 × 30 mm. Na lateral o furo é cego (não pode atravessar para a face exterior visível).

  1. Profundidade do furo na face da lateral: tem de deixar material suficiente até à face exterior. Com um furo de 12 mm, ficam 19 − 12 = 7 mm de material. Aceitável.
  2. Profundidade do furo no topo da prateleira: 20 mm.
  3. Verificação: soma dos furos = 12 + 20 = 32 mm; cavilha = 30 mm; sobram 2 mm para a cola e para a cavilha não "bater no fundo" e impedir o encosto das peças.
  4. Plano de corte: vertical, perpendicular à lateral, a passar pelo eixo de uma cavilha. Traço na vista de frente, com setas e letras A-A.
  5. Corte A-A: hachura da lateral numa direção, hachura da prateleira noutra direção (ou com espaçamento diferente); a cavilha desenha-se pelo contorno, sem hachura, com o eixo a traço-ponto fino.
  6. Pormenor C (1:1): ampliação da ligação, com as cotas Ø8, 12 e 20 mm e a posição dos furos a partir da frente.

Sem este corte, a ligação ficava invisível em qualquer vista exterior, e quem programa a furação não saberia as profundidades.

7. Linhas de contorno, texturas e materiais

Linhas de contorno e detalhes

O contorno é a linha contínua grossa que define a silhueta e as arestas visíveis da peça. É a primeira coisa que se desenha e a última que se revê.

A madeira é um material anisotrópico

A madeira não se comporta da mesma maneira em todas as direções: é anisotrópica. Distinguem-se três direções:

Direção Onde fica Comportamento
Longitudinal (ao longo do fio) paralela ao eixo do tronco maior resistência; retração praticamente desprezável (décimas de ponto percentual)
Radial do centro para a casca, atravessando os anéis retração moderada
Tangencial tangente aos anéis de crescimento a maior retração; em regra cerca de 1,5 a 2 vezes a radial

Consequências diretas para o desenho:

Exemplo resolvido · Quanto trabalha um tampo de madeira maciça?

Um tampo de madeira maciça tem 600 mm de largura, com o fio ao comprimento (a largura corresponde, aproximadamente, à direção tangencial). A ficha técnica da espécie indica uma variação dimensional tangencial de 0,3% por cada ponto percentual de variação do teor de água. Entre o inverno e o verão, o teor de água do tampo pode variar 4 pontos percentuais (por exemplo, de 8% para 12%).

  1. Variação relativa: 0,3% × 4 = 1,2%.
  2. Variação absoluta na largura: 600 × 0,012 = 7,2 mm.
  3. No comprimento (ao longo do fio), a variação é desprezável.
  4. Conclusão para o desenho: as fixações do tampo ao aro têm de permitir cerca de 7 mm de movimento na largura (por exemplo, furos ovalizados na direção da largura ou ferragens de fixação próprias para tampos), e isso aparece num pormenor construtivo.

O valor de 0,3% é um dado deste exercício: numa situação real, vai-se buscar à ficha técnica da espécie.

Derivados de madeira

Material Constituição Uso típico e cuidados no desenho
Aglomerado de partículas partículas de madeira coladas e prensadas caixas de móveis, sobretudo revestido a melamina; topos pedem orla; fraca resistência ao arranque de parafusos no topo
MDF (placa de fibras de média densidade) fibras de madeira coladas e prensadas frentes lacadas, peças fresadas e perfiladas na CNC; superfície e topos uniformes
Contraplacado folhas de madeira coladas com o fio cruzado (normalmente a 90°), em número ímpar boa estabilidade dimensional e resistência; indicar o sentido do fio das faces
OSB partículas longas (aparas) orientadas, em camadas construção, estruturas, revestimentos; aspeto rústico
Lamelado-colado lamelas de madeira coladas com o fio paralelo vigas e pilares de construções em madeira; tampos e bancadas em lamelas
Painel lamelado / multicamada para tampos lamelas maciças coladas lateralmente (por vezes com ligação por entalhes múltiplos nos topos) tampos, bancadas de cozinha, prateleiras em "madeira maciça"

Espessuras comerciais. As espessuras mais correntes em aglomerado e MDF para mobiliário são 16 e 19 mm, mas os fabricantes produzem uma gama larga (mais finas para fundos e tardozes, mais grossas para tampos). Em Portugal, o grupo Sonae Arauco é um dos grandes produtores europeus de painéis derivados de madeira, e os seus catálogos, como os de outros fabricantes, são a fonte certa para confirmar espessuras, formatos de chapa e revestimentos disponíveis. O desenhador desenha com a espessura real do catálogo, não com uma espessura "redonda" imaginada.

Representar texturas e materiais

O desenho técnico indica que material é cada componente, mesmo sem cor. Três ferramentas:

  1. Hachuras e padrões nos cortes: na madeira maciça distingue-se o corte ao longo do fio (linhas que acompanham o fio) do corte de topo, transversal ao fio (assinalado habitualmente com uma cruz diagonal ou com anéis); os painéis derivados têm padrões próprios (pontilhado para partículas, camadas alternadas para contraplacado, e assim por diante). Como os padrões variam entre normas e empresas, cada padrão usado explica-se numa legenda de materiais.
  2. Texturas nas vistas: nas perspetivas e nos alçados de apresentação pode desenhar-se o veio de forma ligeira, só para indicar o sentido do fio e distinguir madeira de lacado ou vidro. Nunca se desenha textura por cima de cotas.
  3. Anotação de texto e lista de peças: a informação definitiva é sempre escrita: "Aglomerado melamínico branco 19 mm, orla ABS 1 mm nas frentes". Listar os materiais nos desenhos é um critério de desempenho desta UC.

Orlas, folhas e revestimentos

Os topos dos painéis derivados orlam-se (orla de ABS, de melamina ou de folha de madeira). A orla tem espessura e essa espessura conta:

8. Ligações entre componentes e ferragens

Identificar nos desenhos técnicos as ligações entre componentes e as ferragens utilizadas é uma aptidão do referencial. Um desenho de mobiliário sem ligações definidas deixa à oficina a decisão mais importante: como é que o móvel se aguenta.

Ligações tradicionais em madeira maciça

Ligação Descrição Onde aparece
Espiga e mecha (em inglês, mortise and tenon) uma peça tem uma saliência (parte macho) que entra numa cavidade retangular (parte fêmea) da outra; pode ser cega ou passante pernas e travessas de mesas e cadeiras, caixilhos de portas
Meia-madeira retira-se metade da espessura a cada peça, que se sobrepõem ficando à face cruzamentos e cantos de aros e grades
Malhete (cauda de andorinha) encaixes em forma de leque que só se separam numa direção gavetas de qualidade, caixas, cantos de móveis maciços
Ranhura e lingueta (macho e fêmea) uma peça tem um rasgo e a outra uma lingueta que entra nele ligações de tábuas em painéis e soalhos, fundos de gaveta
Rasgo (ranhura) canal ao longo da peça onde entra um painel tardozes e fundos de gaveta encaixados

Os nomes das partes (espiga, mecha, respiga, fêmea) variam de oficina para oficina. No desenho, a dúvida resolve-se com o pormenor cotado: largura, espessura e comprimento da parte macho; largura, altura e profundidade da parte fêmea. Uma regra prática muito divulgada é dar à parte macho cerca de um terço da espessura da peça que recebe o encaixe.

Ligações com elementos de união

Elemento Como se representa e cota
Cavilhas de madeira diâmetro × comprimento (por exemplo, Ø8 × 30); posição dos furos em ambas as peças e profundidades; os diâmetros mais usados em painéis de 16 a 19 mm são 6 e 8 mm
Lamelos (placas ovais de madeira prensada) posição do rasgo a partir de uma aresta de referência e tamanho do lamelo segundo o fabricante
Ferragens de união desmontáveis (excêntricos com cavilha metálica) furo do excêntrico na face, furo da cavilha no topo; distâncias tiradas do catálogo do fabricante
Parafusos para aglomerado diâmetro × comprimento, tipo de cabeça; furo guia quando necessário; evitar parafusar no topo de aglomerado sem ferragem própria
Cantoneiras e esquadros metálicos posição e tipo; muitas vezes só com nota e referência de catálogo

Ferragens de movimento e de suporte

O Sistema 32

O Sistema 32 é o método de organização da furação usado na generalidade do mobiliário de painel europeu. Assenta em três medidas:

Como todas as ferragens (dobradiças, corrediças, suportes de prateleira) são desenhadas para encaixar nesta malha, a mesma lateral furada serve para várias configurações, e a máquina de furar (ou a CNC) trabalha com um padrão repetido. No desenho, basta cotar a primeira e a última posição da linha de furos, o afastamento de 37 mm e o passo de 32 mm, em vez de cotar furo a furo.

Exemplo resolvido · Quantos furos cabem numa linha de Sistema 32?

Uma lateral tem 720 mm de altura. O primeiro furo da linha fica a 64 mm da base e o último não pode passar os 656 mm (para ficar a 64 mm do topo).

  1. Comprimento útil entre o primeiro e o último furo possível: 656 − 64 = 592 mm.
  2. Número de intervalos de 32 mm que cabem: 592 ÷ 32 = 18,5, ou seja, 18 intervalos inteiros.
  3. Número de furos: 18 + 1 = 19 furos por linha.
  4. Posição do último furo: 64 + 18 × 32 = 64 + 576 = 640 mm da base (fica a 80 mm do topo).
  5. Cotagem no desenho: "19 furos Ø5, passo 32 (18 × 32 = 576)", com o primeiro furo cotado a 64 mm da base e a linha a 37 mm da frente.

Com duas linhas (frente e trás), são 38 furos por lateral e 76 por móvel. Este é o tipo de conta que o desenhador faz para a lista de furação da CNC.

Catálogos na mão. Toda a informação de uma ferragem (furo, profundidade, distâncias, folgas) vem da ficha técnica do fabricante. Desenhar uma dobradiça "a olho" é a forma mais rápida de ter uma porta que não fecha. Guarda a referência exata da ferragem na lista de peças.

9. Escalas, proporções e medidas

Escalas normalizadas

A escala é a relação entre uma medida no desenho e a medida correspondente na peça real. Escreve-se sempre como "medida no desenho : medida real". Garantir a utilização de escalas é um critério de desempenho central desta UC.

Tipo Escalas recomendadas (ISO 5455) Uso em mobiliário
Redução 1:2, 1:5, 1:10, 1:20, 1:50, 1:100 1:10 e 1:5 para vistas gerais de móveis; 1:20 e 1:50 para cozinhas e roupeiros inteiros e implantações em planta
Tamanho real 1:1 pormenores de ligações, perfis, moldes e gabaritos
Ampliação 2:1, 5:1, 10:1 só para peças muito pequenas (perfis de ferragens, pequenos encaixes)

A escala principal escreve-se na legenda; as vistas ou pormenores com escala diferente têm a sua escala escrita junto à designação ("Pormenor B (1:2)").

Nunca se mede um desenho impresso com a régua para "descobrir" uma medida. Uma impressão pode ter sido reduzida (A3 impresso em A4) e a escala deixa de ser verdadeira. A medida é a cota. Se falta uma cota, pede-se ao desenhador.

Contas com escalas

Exemplo resolvido · Calcular a medida no papel

Um tampo de mesa mede 1400 mm de largura. O desenho vai ser feito à escala 1:10.

  1. Medida no papel = 1400 ÷ 10 = 140 mm.
  2. Verificação inversa: 140 × 10 = 1400 mm.
  3. A cota escrita no desenho é 1400, a medida real, nunca 140.

Exemplo resolvido · Escolher a escala para um roupeiro numa folha A3

Um roupeiro tem 2400 mm de largura e 2500 mm de altura. Quer-se a vista de frente numa folha A3 deitada (420 × 297 mm). Descontando margens, legenda e espaço para cotas, sobra uma zona útil de cerca de 250 × 200 mm para esta vista.

  1. Pela largura: 2400 ÷ 250 = 9,6, ou seja, é preciso reduzir pelo menos 9,6 vezes.
  2. Pela altura: 2500 ÷ 200 = 12,5, é preciso reduzir pelo menos 12,5 vezes.
  3. Manda o valor mais exigente, 12,5. A escala normalizada seguinte é 1:20 (1:10 não cabe).
  4. Verificação a 1:20: 2400 ÷ 20 = 120 mm de largura e 2500 ÷ 20 = 125 mm de altura. Cabe com folga para as cotas.
  5. Para mostrar as ligações, fazem-se pormenores à parte, a 1:2 ou 1:1.

Proporções e medidas aplicadas

As proporções relacionam as dimensões da peça entre si (altura, largura, profundidade, espessuras, vãos). Um móvel proporcionado "parece certo" antes de se ler qualquer cota.

Exemplo resolvido · Dividir uma frente em três gavetas proporcionadas

Uma cómoda tem 750 mm de altura disponível para três frentes de gaveta, com folgas de 3 mm entre frentes (duas folgas entre as três frentes). Quer-se que cada frente seja 50 mm mais alta do que a de cima.

  1. Altura útil das frentes: 750 − 2 × 3 = 744 mm.
  2. Se a frente de cima tem h, as outras têm h + 50 e h + 100: h + (h + 50) + (h + 100) = 744.
  3. 3h + 150 = 744, logo 3h = 594 e h = 198 mm.
  4. Frentes: 198, 248 e 298 mm. Verificação: 198 + 248 + 298 + 2 × 3 = 744 + 6 = 750 mm.

10. Representação tridimensional

As vistas ortográficas são rigorosas mas exigem treino para serem lidas. A perspetiva mostra o móvel em volume, numa só imagem, e é indispensável em apresentações ao cliente, em vistas explodidas e em instruções de montagem. O referencial pede a perspetiva isométrica ou cavaleira, em escala reduzida.

Perspetiva isométrica

Perspetiva cavaleira

Qual escolher

Situação Perspetiva mais indicada Porquê
Instruções de montagem, vistas explodidas isométrica nenhuma face é privilegiada, o volume lê-se de forma equilibrada
Móvel com a frente muito trabalhada (almofadas, gavetas, molduras) cavaleira a frente fica sem deformação e desenha-se a partir do alçado
Esboço rápido para o cliente cavaleira mais rápida à mão
Modelo CAD isométrica ou outras vistas 3D geradas pelo software a vista gera-se automaticamente a partir do modelo

Exemplo resolvido · Medidas de uma caixa em cavaleira e em isométrica

Caixa com 400 mm de largura, 300 mm de profundidade e 200 mm de altura, desenhada a 1:5.

  1. Medidas no papel a 1:5: largura 400 ÷ 5 = 80 mm; profundidade 300 ÷ 5 = 60 mm; altura 200 ÷ 5 = 40 mm.
  2. Cavaleira a 45° com coeficiente 1/2: frente em verdadeira grandeza (80 × 40 mm); profundidade traçada a 45° com 60 × 1/2 = 30 mm.
  3. Isométrica (desenho isométrico): 80 mm num eixo a 30°, 60 mm no outro eixo a 30°, 40 mm na vertical, sem coeficiente.
  4. Comparação: a cavaleira ocupa menos espaço em profundidade (30 mm em vez de 60 mm) e mostra a frente sem deformação; a isométrica mostra as três faces com o mesmo peso.
  5. Em ambas indica-se a escala (1:5) e, na cavaleira, o ângulo e o coeficiente usados.

11. Cotagem, tolerância e acabamento de superfície

Elementos da cotagem

Cotar é indicar no desenho as medidas reais da peça:

Regras de cotagem

  1. Cada medida necessária aparece uma só vez (sem cotas repetidas, que podem vir a contradizer-se numa revisão).
  2. Nenhuma medida necessária fica por cotar: quem fabrica não deve ter de fazer contas para obter uma medida de corte ou de furação.
  3. Cotas preferencialmente fora das vistas e na vista onde a forma se lê melhor.
  4. As cotas menores ficam mais perto da peça e as maiores mais afastadas, para as linhas de chamada não cruzarem linhas de cota.
  5. Não se cota sobre arestas ocultas (tracejado): se é preciso, faz-se um corte.
  6. As furações cotam-se a partir das arestas de referência que a máquina usa (normalmente a base e a frente da peça).

Cotagem em série, em paralelo e por coordenadas

Método Como é Vantagem / risco
Em série (em cadeia) cada cota começa onde acaba a anterior fácil de ler; os erros acumulam-se
Em paralelo todas as cotas partem da mesma aresta de referência não acumula erros; ocupa mais espaço
Por cotas sobrepostas (de referência) uma única linha a partir de uma origem, com os valores acumulados compacta, muito usada para furações e programas CNC
Por coordenadas (tabela) cada furo com X e Y numa tabela ideal quando há muitos furos

Exemplo resolvido · Porque é que as furações se cotam a partir de uma referência

Uma lateral tem 5 furos alinhados, a 64 mm uns dos outros. A oficina trabalha com uma tolerância de ±0,2 mm em cada posição cotada.

  1. Cotagem em série (64 + 64 + 64 + 64): o último furo resulta de quatro cotas, e cada uma pode variar ±0,2 mm. No pior caso, o desvio acumulado é 4 × 0,2 = ±0,8 mm.
  2. Cotagem a partir de uma referência (0, 64, 128, 192, 256): cada furo está cotado diretamente a partir da aresta de referência, e o desvio de cada um fica em ±0,2 mm.
  3. Se esses furos recebem uma ferragem com furação fixa, 0,8 mm de desvio pode impedir a montagem. Por isso as furações cotam-se em paralelo ou por cotas sobrepostas.

Tolerâncias em marcenaria

A tolerância é a variação permitida numa medida, porque nenhuma máquina corta exatamente a medida nominal. Escreve-se junto da cota: 600 ±0,5, ou em nota geral na legenda ("tolerâncias gerais não indicadas: ±0,5 mm").

A madeira acrescenta uma dificuldade: muda de dimensão com a humidade (capítulo 7). Por isso a folga de uma gaveta de madeira maciça tem de absorver o movimento da madeira, e não só a tolerância de corte.

Acabamento de superfície

O acabamento define como fica a superfície da peça e indica-se numa nota no desenho ou no caderno de especificações. Em metal usa-se a rugosidade numérica; em mobiliário, a especificação faz-se por processo e produto:

Etapa O que se especifica Exemplo
Preparação lixagem por grãos crescentes, sem saltar grãos; lixar no sentido do fio lixa P80 → P120 → P180
Produto verniz, óleo, cera, laca, velatura, tintas verniz aquoso de poliuretano; óleo natural; laca poliuretânica
Aspeto cor (referência RAL ou NCS nas lacas), nível de brilho laca RAL 9010, acetinado
Aplicação número de demãos, lixagem entre demãos 1 demão de primário + 2 de acabamento, lixa P320 entre demãos
Zonas faces vistas, faces interiores, topos "interiores só com uma demão"; "topos orlados, sem acabamento"

Painéis melamínicos e folheados pré-acabados já vêm com a superfície acabada de fábrica: no desenho indica-se a referência do revestimento e a da orla.

Exemplo resolvido · Cotar uma prateleira com furação

Prateleira fixa de 800 mm de largura, 250 mm de profundidade e 19 mm de espessura, com furos de cavilha Ø8 nos dois topos, a 50 mm da frente e a 50 mm de trás.

  1. Vista de cima: cota da largura total 800 e da profundidade 250.
  2. Vista lateral (topo): cota da espessura 19 e posição dos furos a 50 da frente e 50 de trás, em paralelo, a partir das arestas de referência. A distância entre furos (250 − 50 − 50 = 150 mm) não se escreve, porque já está definida e repeti-la criaria uma cota a mais.
  3. Furos: indicação "Ø8 × 20 prof." e posição a meio da espessura (9,5 mm).
  4. Tolerância das posições dos furos, por exemplo ±0,2 mm, indicada junto da cota ou na nota geral de tolerâncias da empresa.
  5. Nota de material e acabamento: "Aglomerado melamínico carvalho 19 mm, orla ABS 1 mm na frente".

12. Vistas explodidas e instruções de montagem

Vistas explodidas

A vista explodida mostra os componentes de um móvel afastados uns dos outros ao longo dos eixos de montagem, cada um alinhado com o sítio para onde vai. Responde, numa só imagem, a duas perguntas: que peças há e em que ordem e direção se juntam.

Regras de construção:

  1. Desenha-se normalmente em perspetiva isométrica, a partir do móvel montado.
  2. Cada peça afasta-se só ao longo de um eixo (o eixo em que entra na montagem); linhas de eixo finas (traço-ponto ou traço fino) mostram o percurso.
  3. As ferragens (cavilhas, excêntricos, parafusos, dobradiças) aparecem junto do ponto onde se aplicam, alinhadas com os furos.
  4. Peças iguais podem desenhar-se uma só vez, com a quantidade indicada.
  5. Cada peça tem uma referência numerada num balão (círculo com o número, ligado à peça por uma linha de chamada fina que termina num ponto dentro da peça). Os números batem certo com a lista de peças (ISO 6433 e ISO 7573).

Instruções de montagem

As instruções de montagem acompanham a vista explodida e são dirigidas a quem monta: o montador da empresa ou o cliente final. Redigir esta informação é uma aptidão do referencial.

Exemplo resolvido · Vista explodida e instruções de uma estante de duas prateleiras fixas

Componentes: laterais (2), prateleira inferior (1), prateleira superior (1), tardoz de 8 mm encaixado em rasgo (1), cavilhas Ø8 × 30 (8), parafusos de fixação do tardoz (6), esquadros de fixação à parede (2).

  1. Lista de peças numerada: 1 · lateral (2); 2 · prateleira (2); 3 · tardoz (1); 4 · cavilha Ø8 × 30 (8); 5 · parafuso 3,5 × 16 (6); 6 · esquadro de fixação à parede (2).
  2. Explodida: laterais afastadas para os lados (eixo da largura); prateleiras ao centro; cavilhas entre as laterais e os topos das prateleiras, alinhadas com os furos; tardoz afastado para trás (eixo da profundidade), com os parafusos atrás dele; esquadros junto do topo.
  3. Passos:
  4. Coloque cola e as cavilhas (4) nos furos das prateleiras (2).
  5. Encaixe as prateleiras (2) numa das laterais (1).
  6. Encaixe a segunda lateral (1) e aperte com grampos; verifique a esquadria medindo as duas diagonais, que têm de ser iguais.
  7. Faça deslizar o tardoz (3) nos rasgos e fixe-o com os parafusos (5).
  8. Coloque a estante no local e fixe-a à parede com os esquadros (6). Aviso: a fixação à parede é obrigatória.
  9. Verificação: todos os números da explodida aparecem na lista e nos passos; nenhuma peça da lista fica fora da explodida.

13. Documentação técnica e especificações para produção

Um desenho raramente viaja sozinho. A documentação técnica reúne tudo o que a produção, a compra de materiais e a montagem precisam de saber.

Documento Conteúdo
Desenho de conjunto e desenhos de peça vistas, cortes, pormenores, cotas, tolerâncias, notas
Lista de peças (lista de materiais) n.º da peça, designação, quantidade, material, dimensões acabadas (C × L × E), sentido do fio, orlas, observações
Lista de corte dimensões de corte de cada peça (já com as descontas de orlas e as sobremedidas da empresa), agrupadas por material e espessura
Lista de ferragens referência do fabricante, quantidade, acabamento
Especificação de acabamentos processo e produtos (capítulo 11)
Instruções de montagem vista explodida e passos
Memória descritiva explicação das decisões: função, ergonomia, materiais, ligações, acabamentos, cuidados de uso e manutenção

Redigir informação de natureza variada (memória descritiva, notas técnicas, instruções, pedidos de esclarecimento ao cliente, notas de encomenda de ferragens) é uma aptidão do referencial. Escreve-se com frases curtas, termos técnicos corretos e sempre com referência ao número do desenho e da peça.

Exemplo resolvido · Da lista de peças à lista de corte de um módulo baixo

Módulo de 600 mm de largura, 720 mm de altura e 560 mm de profundidade, em aglomerado melamínico branco de 19 mm. Laterais de altura total; base e travessa superior entre laterais; porta sobreposta; tardoz de 3 mm aparafusado atrás. Orla de 1 mm em todas as arestas vistas. Regra desta empresa: a lista de peças indica medidas acabadas (com orla) e a lista de corte desconta a espessura das orlas.

  1. Laterais (2): 720 × 560 × 19, orla 1 mm na frente. Corte: 720 × (560 − 1) = 720 × 559.
  2. Base (1): entre laterais, largura 600 − 2 × 19 = 562 mm; profundidade 560. Orla só na frente. Corte: 562 × 559.
  3. Travessa superior (1): 562 × 100 × 19, orla na frente (1 mm na largura de 100). Corte: 562 × 99.
  4. Porta (1): sobreposição total com folga de 1,5 mm em cada lado: 600 − 2 × 1,5 = 597 mm de largura; altura 720 − 3 = 717 mm (folga no topo e na base). Orla de 1 mm nas quatro arestas: corte (597 − 2) × (717 − 2) = 595 × 715.
  5. Tardoz (1): 3 mm, aparafusado na face de trás, com a medida exterior: 600 × 720 (sem orla).
  6. Verificação: a soma 19 + 562 + 19 = 600 mm confirma a largura; o sentido do fio só importa se o melamínico tiver veio (imitação de madeira), caso em que a seta vai na lista.

As folgas de 1,5 mm e a regra das orlas são escolhas desta empresa fictícia: numa empresa real, seguem-se as regras dela e as indicações do fabricante das dobradiças.

Do desenho à CNC

Com máquinas CNC, a documentação inclui ainda os programas de maquinação (furação, fresagem, rasgos) e as etiquetas das peças, geradas pelo software a partir do modelo. O desenhador garante que o modelo está completo: todas as furações modeladas, todos os materiais e espessuras corretos, todas as faces de referência coerentes com a forma como a peça entra na máquina.

14. Segurança, saúde no trabalho e EPI

Porque é que o desenhador precisa de segurança

O desenhador de mobiliário não fica só à secretária: vai à oficina medir peças, confirmar ferragens, verificar protótipos e acompanhar a montagem em obra. Nesses momentos está exposto aos riscos de uma oficina de madeira: máquinas com ferramentas cortantes em rotação, ruído, pó de madeira, projeção de partículas, queda de painéis pesados, empilhadores e circulação de cargas.

O enquadramento legal português de base inclui o regime jurídico da promoção da segurança e saúde no trabalho (Lei n.º 102/2009), as regras de utilização de equipamentos de proteção individual (Decreto-Lei n.º 348/93) e as prescrições sobre exposição ao ruído (Decreto-Lei n.º 182/2006). A empresa avalia os riscos e define os EPI de cada posto; o trabalhador cumpre as regras e usa os EPI que lhe são entregues.

EPI na oficina de madeira

Risco EPI Nota
Queda de objetos e painéis, pregos no chão calçado de segurança sempre que se entra na oficina
Ruído de máquinas (serras, tupias, CNC, lixadoras) proteção auditiva (tampões ou auriculares) o Decreto-Lei n.º 182/2006 obriga a disponibilizar protetores acima do valor de ação inferior (80 dB(A)) e a garantir o seu uso a partir do valor de ação superior (85 dB(A))
Projeção de aparas e poeiras óculos de proteção junto de qualquer máquina a trabalhar
Pó de madeira (lixagem, corte, CNC) proteção respiratória (máscara com filtro de partículas) complementa a aspiração localizada, não a substitui
Arestas vivas e farpas no manuseamento de painéis luvas nunca junto de ferramentas em rotação: uma luva pode ser agarrada e puxar a mão

Regras para medir em oficina. Nunca medir uma peça numa máquina que não esteja parada, com a ferramenta imobilizada. Não usar luvas, roupa larga, fios ou pulseiras junto de ferramentas em rotação. Circular pelas zonas marcadas. Avisar o operador antes de se aproximar de uma máquina. Arrumar a fita métrica: uma fita esquecida numa mesa de máquina é um projétil.

Segurança que começa no desenho

O desenhador também protege o utilizador final através das decisões que desenha:

15. Normas da qualidade

A qualidade de um desenho técnico mede-se por três perguntas: está correto (as medidas e as ligações funcionam)? Está completo (a oficina não precisa de perguntar nada)? Está claro (qualquer profissional o lê da mesma forma)?

As empresas certificadas segundo a ISO 9001 (sistemas de gestão da qualidade) têm procedimentos escritos para o controlo de documentos: quem desenha, quem verifica, quem aprova, como se identificam as revisões e como se retiram de circulação as versões antigas. Mesmo numa oficina pequena, estas regras simples evitam erros caros:

  1. Verificação antes de entregar, de preferência por outra pessoa.
  2. Índice de revisão na legenda e registo do que mudou.
  3. Uma só versão válida em circulação (as antigas marcam-se "anulado" ou retiram-se).
  4. Confirmação com o cliente das medidas críticas e dos materiais, por escrito.

Exemplo resolvido · Lista de verificação de um desenho antes de o entregar

Verificar Sim / Não
Legenda completa: título, n.º, escala, símbolo do método de projeção, autor, data, revisão
Vistas alinhadas e coerentes entre si (larguras, alturas, profundidades)
Tipos e espessuras de linha normalizados; plano de corte bem indicado
Todas as medidas necessárias cotadas, uma só vez, em milímetros e pelo valor real
Furações cotadas a partir das arestas de referência
Tolerâncias indicadas nas ligações de precisão
Materiais, espessuras, orlas e sentido do fio indicados
Ferragens com referência do fabricante
Acabamento especificado
Explodida numerada e coerente com a lista de peças
Instruções de montagem completas, com avisos de segurança

Um erro de cota descoberto na oficina custa muito mais do que dez minutos de verificação antes de entregar.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Executar desenhos técnicos de mobiliário segue sempre a mesma ordem: analisar a informação de partida e medir com o instrumento certo → aplicar ergonomia com valores de referência justificados → cumprir as normas (linhas, formatos, legenda, método europeu) → desenhar as vistas ortográficas e, se houver faces inclinadas, as projeções auxiliares → acrescentar cortes, secções e pormenores onde estão as ligações → representar a madeira e os derivados (fio, movimento, espessuras reais, orlas) e as ligações e ferragens (com o catálogo na mão e o Sistema 32) → escolher a escala e a perspetivacotar a partir de referências, com tolerâncias realistas e acabamentos especificados → fechar com vista explodida, instruções de montagem, lista de peças e documentação técnica completa, sempre com segurança na oficina e verificação de qualidade antes de entregar.

Exercícios resolvidos

1. Um esboço de um armário chega sem cotas, apenas com "2 portas, madeira clara". Que informação falta confirmar antes de desenhar?

Resolução: dimensões gerais (largura, altura, profundidade) e o espaço onde fica; o material concreto (espécie de madeira ou tipo de painel e revestimento, não apenas "madeira clara"); o tipo de portas (de batente ou de correr) e, se forem de batente, o tipo de dobradiça e a sobreposição; o interior (prateleiras, varão, gavetas); a função e o utilizador (ergonomia); e a forma de fixação e de montagem. Tudo fica registado num esboço cotado e numa nota de decisões antes de abrir o CAD.

2. Uma peça mede 1400 mm de largura real e vai ser desenhada a 1:20. Que largura ocupa no papel, e que valor se escreve na cota?

Resolução: largura no papel = 1400 ÷ 20 = 70 mm. A cota é sempre a medida real: escreve-se 1400, nunca 70.

3. Distingue corte de secção e diz qual usarias para mostrar o perfil de uma moldura.

Resolução: o corte mostra a superfície cortada e tudo o que se vê para além do plano; a secção mostra só a superfície que está no plano. Para o perfil de uma moldura usa-se a secção (rebatida sobre a vista ou deslocada), porque só interessa a forma do perfil.

4. Num desenho no método europeu, a vista de cima aparece por cima da vista de frente. O que se passa?

Resolução: ou o desenho está no método americano (3.º diedro), e então o símbolo na legenda tem de o dizer, ou está errado. No método europeu (1.º diedro), a vista de cima desenha-se por baixo da vista de frente e a vista lateral esquerda à direita. Antes de ler as vistas, confirma-se o símbolo do método na legenda.

5. Como se desenha o traço de um plano de corte?

Resolução: com linha traço-ponto fina, grossa nas extremidades (e nas mudanças de direção, num corte por planos paralelos), com setas perpendiculares ao traço a indicar o sentido de observação e uma letra em cada extremidade. O corte correspondente designa-se "Corte A-A".

6. Um tampo de madeira maciça com 800 mm de largura pode variar 0,25% por cada ponto percentual de teor de água (dado da ficha técnica). Se o teor de água variar 3 pontos, quanto varia a largura? Que consequência tem no desenho?

Resolução: variação relativa = 0,25% × 3 = 0,75%; variação absoluta = 800 × 0,0075 = 6 mm. As fixações do tampo à estrutura têm de permitir cerca de 6 mm de movimento na largura (furos ovalizados ou ferragens próprias), representadas num pormenor construtivo.

7. Uma lateral de 2000 mm de altura leva uma linha de Sistema 32 com o primeiro furo a 96 mm da base e o último, no máximo, a 96 mm do topo. Quantos furos tem a linha e onde fica o último?

Resolução: comprimento útil = (2000 − 96) − 96 = 1808 mm; 1808 ÷ 32 = 56,5, logo 56 intervalos e 57 furos. O último furo fica a 96 + 56 × 32 = 96 + 1792 = 1888 mm da base (112 mm do topo). A linha fica a 37 mm da frente, com furos de Ø5 mm.

8. Uma divisão de 1200 mm de largura recebe duas portas sobrepostas iguais, com 1,5 mm de folga em cada extremo e 3 mm de folga entre as portas. Qual a largura de cada porta?

Resolução: largura disponível para portas = 1200 − 2 × 1,5 − 3 = 1200 − 6 = 1194 mm; cada porta = 1194 ÷ 2 = 597 mm. Verificação: 1,5 + 597 + 3 + 597 + 1,5 = 1200 mm.

9. Porque é que as furações de uma lateral se cotam a partir de uma aresta de referência e não em série?

Resolução: porque, em série, os desvios de cada cota somam-se: com 4 cotas em série e ±0,2 mm cada, o último furo pode ficar desviado até ±0,8 mm. Cotadas a partir de uma referência, cada posição fica com o seu desvio de ±0,2 mm. Além disso, é a referência que a máquina usa para posicionar a peça.

10. Porque é que a perspetiva isométrica é a mais usada em instruções de montagem, e quando preferirias a cavaleira?

Resolução: a isométrica mostra as três faces com o mesmo peso e usa a mesma escala nos três eixos, pelo que se lê bem por quem não tem formação técnica e se presta a vistas explodidas. A cavaleira prefere-se quando a face da frente tem o detalhe mais importante (uma porta com almofada, frentes de gaveta), porque essa face fica em verdadeira grandeza, e para esboços rápidos à mão.

11. Vais à oficina medir uma peça junto da seccionadora, que está a trabalhar. Que EPI usas e que regra cumpres antes de medir?

Resolução: calçado de segurança, proteção auditiva e óculos de proteção; luvas não, por estares junto de uma máquina com ferramenta em rotação. Antes de medir, avisas o operador e esperas que a máquina esteja parada e com a ferramenta imobilizada; nunca se mede uma peça em movimento ou sobre uma máquina em funcionamento.

12. Uma prateleira fixa em aglomerado de 19 mm liga-se com cavilhas Ø8 × 35 a uma lateral também de 19 mm. O furo na face da lateral tem 12 mm. Que profundidade mínima deve ter o furo no topo da prateleira, deixando 2 mm de folga para a cola?

Resolução: soma dos furos = comprimento da cavilha + folga = 35 + 2 = 37 mm; furo no topo = 37 − 12 = 25 mm. Na lateral ficam 19 − 12 = 7 mm de material até à face exterior, o que garante que o furo não aparece do lado de fora.