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UC · Unidade de Competência · UC00244

Desenvolver projeto de sistemas computacionais e redes (UC00244)

Do levantamento de necessidades ao manual do utilizador, planear, orçamentar, instalar e documentar um sistema computacional e uma rede
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Sist. Comp. Redes, T. Militar Naval ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Esta sebenta fecha o curso de Sistemas de Computação e Redes com o projeto que junta tudo: planear, especificar, orçamentar, instalar, configurar e documentar um sistema computacional e uma rede, do primeiro levantamento de necessidades até ao manual entregue ao cliente.

Não se trata de aprender uma tecnologia nova isolada. Trata-se de seguir, de forma disciplinada, as etapas de um projeto real: primeiro define-se o que é preciso, depois o que vai custar, depois monta-se, configura-se, testa-se e, por fim, documenta-se. É exatamente o que um técnico faz numa empresa de informática, numa loja de assistência ou num organismo público.

Objetivos de aprendizagem (referencial): definir as etapas da instalação de um sistema computacional e de uma rede; efetuar a instalação dos componentes; instalar e configurar o sistema operativo; e criar documentação técnica para os utilizadores. Ao longo do caminho, trabalham-se conceitos de sistemas computacionais, tipos e topologias de rede, orçamento, equipamentos ativos e passivos, transmissão de dados, protocolos de comunicação, endereçamento IP, serviços de rede, gestão de utilizadores, simuladores de rede, segurança, RGPD e normas técnicas.

1. O projeto de instalação

Um projeto de sistemas e redes não começa com a compra de equipamento. Começa com uma pergunta simples: o que precisa o cliente? Só depois de responder é que se define o resto.

As etapas de um projeto de instalação seguem sempre esta sequência:

  1. Levantamento de necessidades: número de postos, aplicações usadas, crescimento previsto, orçamento disponível.
  2. Especificação técnica: tipologia de rede, equipamentos ativos e passivos necessários, sistema operativo a instalar.
  3. Orçamento: proposta de custo e prazo apresentada ao cliente.
  4. Instalação física: cablagem, montagem do hardware, ligação dos equipamentos.
  5. Configuração: endereçamento IP, sistema operativo, utilizadores, serviços de rede.
  6. Testes: confirmação de que tudo liga e funciona conforme especificado.
  7. Documentação: dossiê técnico e manual do utilizador.

Cada etapa alimenta a seguinte. Sem levantamento, o orçamento é uma adivinha; sem instalação física, não há nada para configurar; sem testes, entrega-se um problema ao cliente em vez de uma solução.

Exemplo resolvido, o percurso de um pedido real

Uma oficina automóvel pede uma rede para três computadores e uma impressora partilhada.

  1. Levantamento: três postos administrativos, uma impressora, ligação à Internet existente, orçamento limitado.
  2. Especificação: rede local em estrela, um switch de 8 portas, cabo categoria 6, sistema operativo comum em cada posto, impressora partilhada por um dos postos.
  3. Orçamento: apresentado ao cliente com material e mão de obra separados (ver capítulo 5).
  4. Instalação: cablagem entre postos e switch, ligação do switch ao router existente.
  5. Configuração: endereçamento IP fixo para a impressora, DHCP para os postos, pasta partilhada para orçamentos.
  6. Testes: cada posto imprime e acede à pasta partilhada.
  7. Documentação: mapa da rede e manual de duas páginas sobre como imprimir e aceder à pasta.

2. Sistemas computacionais, conceitos

Um sistema computacional é o conjunto de hardware e software que processa informação de forma integrada. Antes de instalar qualquer coisa, o técnico precisa de dominar os seus componentes.

Camada Elementos Função
Hardware CPU, RAM, disco/SSD, placa-mãe, fonte processar e guardar dados
Sistema operativo Windows, Linux, sistemas de servidor gerir os recursos e dar acesso às aplicações
Aplicações ofimática, navegador, software técnico as tarefas que o utilizador final executa

Uma distinção central é a arquitetura cliente-servidor: um servidor centraliza recursos (ficheiros, impressão, autenticação) e vários clientes acedem-lhe pela rede. Não é uma questão de hardware especial, é uma questão do papel que a máquina desempenha.

Especificar requisitos conforme o uso

Perfil de posto Requisitos típicos
Administrativo processador comum, 8 GB RAM, SSD
Técnico/gráfico mais RAM, processador mais potente, placa gráfica dedicada
Servidor discos redundantes, fonte robusta, ligação de rede fiável

Um erro de especificação só aparece semanas depois, quando o sistema já está lento e o levantamento inicial se revela insuficiente.

3. Redes, tipos, características e topologias

Tipos de rede pela extensão geográfica

A escolha da tipologia de rede adequada à dimensão do cliente é uma aptidão avaliada nesta UC, não uma decisão automática.

Topologias físicas

Topologia Ligação Vantagem Desvantagem
Estrela todos ao switch central falha de um posto não afeta os restantes falha do switch derruba a rede toda
Barramento todos partilham o mesmo cabo pouco cabo usado um corte no cabo afeta tudo
Anel cada nó liga a dois vizinhos fluxo de dados previsível um nó em falha pode interromper o anel
Malha vários caminhos entre nós grande redundância custo elevado de cabo e equipamento

A topologia estrela domina hoje as redes locais, com o switch a fazer de ponto central.

4. Elementos e mapas de rede

Uma rede tem sempre os mesmos elementos: nós (computadores, servidores, impressoras), meios de transmissão (cabo de cobre, fibra ótica, rádio), equipamentos de interligação (switch, router, ponto de acesso) e endereços (IP e MAC) que identificam cada nó de forma única.

O projeto de rede produz sempre dois mapas:

Exemplo resolvido, ler um mapa lógico simples

[Router] ── [Switch] ──┬── PC Administração (192.168.1.10)
                        ├── PC Vendas (192.168.1.11)
                        └── Impressora (192.168.1.20)
  1. O router liga a rede local à Internet.
  2. O switch distribui o tráfego dentro da rede local.
  3. Cada nó tem um endereço IP único na mesma sub-rede 192.168.1.0/24.
  4. Se a impressora não imprimir, o mapa lógico confirma primeiro se o endereço está correto; o mapa físico confirma depois se o cabo está bem ligado.

5. Orçamento do projeto

Orçamentar é uma aptidão tão avaliada como montar a rede. Os dados a recolher são:

Exemplo resolvido, orçamento de uma rede pequena

Rede para um escritório com 4 postos, 1 servidor e 1 impressora de rede.

Item Quantidade Preço unitário Subtotal
Switch 8 portas 1 35 € 35 €
Cabo UTP (metro) 40 0,50 € 20 €
Tomadas RJ45 6 3 € 18 €
Mão de obra (horas) 8 20 € 160 €

Total do material: 73 €. Total com mão de obra: 233 €. Sobre este valor aplica-se ainda a margem comercial antes de apresentar a proposta final ao cliente.

A proposta apresentada ao cliente deve separar sempre material de mão de obra: torna o preço mais fácil de entender e de negociar item a item.

6. Equipamentos ativos e passivos

Equipamentos passivos

Não processam nem decidem nada sobre o sinal, apenas o transportam fisicamente:

Equipamentos ativos

Processam, encaminham ou amplificam o sinal, e precisam de alimentação elétrica:

Regra prática para distinguir os dois: se precisa de eletricidade e toma decisões sobre o tráfego, é ativo; se apenas conduz o sinal, é passivo.

7. Transmissão de dados e protocolos de comunicação

Meios de transmissão

Meio Características
Cabo de cobre mais barato, sensível a interferências a longa distância
Fibra ótica imune a interferência eletromagnética, alta velocidade e alcance
Rádio (Wi-Fi) prático, sem fios, mais vulnerável a interceção

Os dados viajam em pacotes, cada um com o endereço de origem e de destino, reagrupados no destino final.

Protocolos de comunicação

Um protocolo define as regras de comunicação entre dispositivos. A família TCP/IP suporta a generalidade das redes atuais, incluindo a Internet.

Protocolo Função
TCP entrega fiável e ordenada (web, email)
UDP mais rápido, sem garantia de entrega (chamadas, streaming)
HTTP/HTTPS navegação web
FTP transferência de ficheiros
DHCP atribuição automática de endereços IP
DNS tradução de nomes de domínio em endereços IP

8. Endereçamento IP

Um endereço IPv4 tem quatro grupos de números entre 0 e 255 (ex.: 192.168.1.10), divididos numa parte de rede e numa parte de anfitrião. A máscara de sub-rede define essa divisão.

Com a máscara 255.255.255.0 (notação /24), a sub-rede tem 254 endereços utilizáveis: o .0 identifica a rede e o .255 é o endereço de difusão, nenhum dos dois se atribui a um dispositivo.

Exemplo resolvido, plano de endereçamento por segmento

Uma escola quer três sub-redes separadas: administração, salas de aula e Wi-Fi de visitantes.

  1. Administração: 192.168.1.0/24, gateway 192.168.1.1, servidor de ficheiros em 192.168.1.10 (endereço fixo).
  2. Salas de aula: 192.168.2.0/24, gateway 192.168.2.1, postos com DHCP entre .100 e .200.
  3. Wi-Fi de visitantes: 192.168.3.0/24, gateway 192.168.3.1, isolada das outras por segurança.

Segmentar a rede por função é simultaneamente uma decisão técnica de organização e uma medida de segurança: um problema no Wi-Fi de visitantes não chega ao servidor de ficheiros.

9. Instalação de componentes e procedimentos de configuração

Efetuar a instalação dos componentes segue uma ordem que evita danos e retrabalho:

  1. Preparar o local: alimentação elétrica, ligação à Internet disponível, espaço e ventilação.
  2. Montar o hardware do posto (ou confirmar que chega pronto de fábrica).
  3. Passar e certificar a cablagem, das tomadas ao patch panel e ao switch.
  4. Ligar os equipamentos ativos e confirmar as luzes de estado (link/atividade) em cada porta.
  5. Só depois avançar para a configuração lógica.

Configuração inicial dos equipamentos de rede

Depois da montagem física:

Cumprir rigorosamente as orientações técnicas do fabricante em cada passo é um critério de desempenho explícito desta UC.

10. Sistema operativo, instalação e configuração

Instalar e configurar o sistema operativo é uma das quatro realizações centrais da UC. Passos típicos:

  1. Preparar o suporte de instalação (USB de arranque ou instalação em rede).
  2. Definir as partições de disco.
  3. Escolher idioma, fuso horário e teclado.
  4. Instalar os drivers dos componentes de hardware, em especial da placa de rede.
  5. Aplicar as atualizações de segurança mais recentes.

Um sistema operativo de rede acrescenta a este conjunto funções de gestão centralizada: gestão de utilizadores e grupos a partir de um único ponto, partilha de ficheiros e impressoras, políticas de segurança comuns a todos os postos e serviços de DHCP/DNS integrados. Numa rede pequena, um único servidor pode acumular todas estas funções.

11. Utilizadores, perfis e gestão

Cada pessoa que usa o sistema tem uma conta associada a um perfil, que define o que pode fazer.

Perfil Permissões típicas
Administrador instala software, altera configurações, gere outras contas
Utilizador padrão usa aplicações, guarda ficheiros na sua área
Convidado acesso limitado e temporário

O princípio orientador é o do privilégio mínimo: cada pessoa recebe apenas o acesso de que precisa.

Gerir permissões por grupo

Gerir dezenas de contas individualmente não escala. A prática correta:

  1. Criar grupos por função (ex.: "Administração", "Professores", "Alunos").
  2. Atribuir permissões de pastas e recursos ao grupo, nunca a contas individuais.
  3. Adicionar ou remover utilizadores do grupo conforme mudam de função.

Assim, alterar o acesso de vinte pessoas é uma única alteração no grupo, não vinte alterações separadas.

12. Serviços de rede

O DHCP (Dynamic Host Configuration Protocol) atribui automaticamente endereço IP, máscara, gateway e DNS a cada dispositivo que entra na rede, por um período de concessão (lease). Servidores e impressoras costumam receber endereço fixo, fora da gama do DHCP, para serem sempre encontrados no mesmo lugar.

O DNS (Domain Name System) traduz nomes fáceis de lembrar em endereços IP. Sem DNS seria preciso decorar números para tudo.

Outros serviços comuns de uma instalação:

Cada serviço ativado deve ficar registado na documentação: o que faz, em que máquina corre, quem lhe pode aceder.

13. Simuladores de redes

Um simulador de redes permite desenhar e testar uma topologia completa, com endereçamento e configuração de equipamentos, sem gastar um cabo ou um switch reais. Ferramentas comuns incluem o Cisco Packet Tracer e o GNS3.

Simular deteta erros de endereçamento e de ligação antes da instalação física, e permite experimentar cenários (falha de um equipamento, crescimento da rede) sem qualquer risco.

Exemplo resolvido, simular uma rede pequena

Rede de teste: 1 router, 1 switch, 3 computadores, sub-rede 192.168.1.0/24.

  1. Colocar os equipamentos na área de trabalho do simulador.
  2. Ligar cada computador ao switch e o switch ao router, com cabo reto.
  3. Atribuir a cada computador um endereço IP fixo dentro da sub-rede (.10, .11, .12), com a mesma máscara e gateway.
  4. Testar a ligação entre computadores com o comando ping.
  5. Se o ping falhar, verificar primeiro o cabo, depois o endereçamento.

O simulador confirma, antes de qualquer instalação real, que o plano de endereçamento está correto.

14. Segurança, normas e RGPD

Monitorizar a segurança da rede é uma aptidão contínua:

Todo o projeto respeita ainda normas e regulamentos: normas de cablagem estruturada (categorias de cabo, distâncias máximas, organização do patch panel) e regulamentos de segurança elétrica na instalação dos equipamentos.

O RGPD (Regulamento Geral de Proteção de Dados) obriga a proteger os dados pessoais tratados em qualquer sistema instalado: acesso restrito por perfil, palavras-passe fortes e um registo claro de quem trata que dados. Aplica-se mesmo a redes pequenas, sempre que existam dados de clientes ou funcionários.

15. Documentação técnica e manual do utilizador

Criar documentação técnica para os utilizadores é a última realização da UC e encerra o projeto. O dossiê técnico deve incluir:

O manual do utilizador é diferente: destina-se a quem vai usar o sistema no dia a dia, sem conhecimentos técnicos. Deve usar linguagem simples, instruções passo a passo para as tarefas mais comuns (ligar ao Wi-Fi, aceder à pasta partilhada, imprimir), contactos de suporte e, idealmente, capturas de ecrã.

Elaborar um bom manual de utilizador é tão importante como a própria instalação: de nada serve montar bem um sistema que ninguém sabe usar.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Um projeto de sistemas e redes segue sempre a mesma ordem: levantamento de necessidades, especificação técnica (tipo de rede, equipamentos, sistema operativo), orçamento, instalação física dos componentes, configuração (endereçamento IP, sistema operativo, utilizadores, serviços de rede), testes e, por fim, documentação (dossiê técnico e manual do utilizador). Ao longo do caminho, o técnico distingue equipamentos ativos de passivos, escolhe a topologia certa, monta um plano de endereçamento coerente, simula antes de instalar e trata segurança e RGPD como parte do trabalho, não como um extra. Este é o fio condutor que junta, num só projeto, tudo o que foi aprendido no curso.

Exercícios resolvidos

1. Ordena as etapas de um projeto de instalação: (a) instalação física, (b) orçamento, (c) levantamento de necessidades, (d) documentação, (e) configuração, (f) testes.

Resolução: c, b, a, e, f, d. Primeiro perceber o que o cliente precisa (c), depois orçamentar (b), instalar fisicamente (a), configurar (e), testar (f) e só no fim documentar (d).

2. Uma escola quer três sub-redes separadas para administração, salas de aula e Wi-Fi de visitantes. Porquê separar em vez de usar uma única sub-rede?

Resolução: para isolar cada segmento por função e por segurança. Um problema ou ataque no Wi-Fi de visitantes fica contido nessa sub-rede e não alcança o servidor de ficheiros da administração. É também mais fácil de gerir e de documentar.

3. Um switch de 8 portas tem 35 €, precisam-se de 40 metros de cabo a 0,50 €/metro e 6 tomadas RJ45 a 3 € cada, mais 8 horas de mão de obra a 20 €/hora. Qual o total do orçamento?

Resolução: material: 35 + 20 + 18 = 73 €. Mão de obra: 8 × 20 = 160 €. Total: 233 €, antes da margem comercial.

4. Um técnico configura um router novo e deixa a palavra-passe de fábrica "porque ainda vai voltar para acabar a instalação". Que risco corre?

Resolução: deixar as credenciais por defeito é um dos erros de segurança mais comuns e mais fáceis de evitar; qualquer pessoa com acesso à interface de gestão (mesmo na mesma rede) consegue entrar e alterar a configuração. As credenciais devem mudar-se logo no início, antes de qualquer outro passo.

5. Numa sub-rede 192.168.1.0/24, que endereços não se podem atribuir a um dispositivo, e quantos endereços utilizáveis existem?

Resolução: não se atribuem o 192.168.1.0 (endereço de rede) nem o 192.168.1.255 (endereço de difusão). Existem 254 endereços utilizáveis, de .1 a .254.

6. Porque é que se deve simular uma rede antes de a montar fisicamente?

Resolução: a simulação deteta erros de endereçamento e de ligação sem gastar cabo, switches ou tempo de instalação, e permite testar cenários (falhas, crescimento) sem qualquer risco. Corrigir um erro no simulador custa segundos; corrigi-lo depois de instalado custa horas.