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UC · Unidade de Competência · UC00235

Sebenta · Reparar sistemas de antipoluição e sobrealimentação (UC00235)

Admissão, escape, catalisadores, EGR, DPF, SCR/AdBlue, turbos e diagnóstico
—h · — pontos crédito Curso: T. Mecatr. Automóvel, T. Militar Naval ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta ensina a verificar, diagnosticar e reparar os sistemas que controlam as emissões do automóvel e os que aumentam a sua potência por sobrealimentação. São dois mundos que na prática andam juntos: os gases de escape que poluem são os mesmos que fazem girar o turbo, e um turbo avariado quase sempre faz o carro poluir mais. Um técnico de mecatrónica automóvel tem de dominar os dois.

O percurso é o de uma reparação real. Primeiro percebemos porque é que o carro polui e o que a lei exige (as normas Euro). Depois seguimos o ar desde a admissão, passando pela combustão, até ao escape e a todos os órgãos que tratam os gases — sonda lambda, catalisador, EGR, filtro de partículas, SCR/AdBlue. A seguir estudamos a sobrealimentação (turbo, compressor, intercooler, wastegate, VGT). Por fim, juntamos tudo num método de diagnóstico com OBD e ferramentas, e nas técnicas de reparação, ensaio e segurança.

Objetivos de aprendizagem (referencial): verificar o estado de sistemas de antipoluição e sobrealimentação e diagnosticar anomalias; executar a manutenção e reparação dos seus componentes; e realizar os ensaios de funcionamento que comprovam que o sistema cumpre as normas do fabricante e a legislação.

A combustão perfeita de um hidrocarboneto (gasolina ou gasóleo) daria apenas dióxido de carbono (CO₂) e água (H₂O). Como a combustão real nunca é perfeita — e o ar admitido é 78% azoto —, formam-se poluentes que a lei regula:

Poluente Como se forma Perigo Predomina em
CO (monóxido de carbono) falta de oxigénio (mistura rica) tóxico, mortal gasolina
HC (hidrocarbonetos) combustível que não queimou smog, irritante gasolina
NOx (óxidos de azoto) azoto queimado a alta temperatura respiratório, chuva ácida diesel
PM (partículas/fuligem) queima incompleta do gasóleo cancerígeno diesel

Repara na lógica: a gasolina trabalha perto da mistura ideal e o seu problema é o CO e HC; o diesel trabalha com muito ar (mistura pobre) e alta pressão, por isso o seu problema é o NOx e as partículas. Esta diferença explica porque cada motor usa sistemas antipoluição diferentes.

As normas Euro

A União Europeia impõe limites de emissão em gramas por quilómetro, através das normas Euro 1 (1992) até à Euro 6 (atual), cada vez mais apertadas. Cada norma obrigou a indústria a introduzir tecnologia:

Na prática do dia-a-dia, o "juiz" é a Inspeção Periódica Obrigatória (IPO): mede o CO e o λ nos gasolina e a opacidade nos diesel. Um carro que reprova fica impedido de circular. Por isso nunca se anula um sistema antipoluição (retirar o DPF, "programar" o carro para ignorar o EGR): além de ilegal, faz reprovar e polui.

2. Sistema de admissão de ar

O sistema de admissão entrega aos cilindros ar limpo, na quantidade certa e medido para a ECU calcular a injeção. Componentes:

Avarias típicas: entrada de ar falso (fugas depois do MAF) que empobrece a mistura; MAF sujo que lê valores baixos; comportas de swirl gripadas por fuligem; borboleta suja (ralenti irregular).

3. Sistema de escape

O escape conduz os gases para fora, trata-os e reduz o ruído. Do motor para a saída:

Motor  coletor de escape  (turbina do turbo)     catalisador / DPF  silenciador primário  silenciador traseiro  saída
              sonda lambda        sensores de temperatura e de pressão diferencial

Um catalisador ou DPF entupido cria contrapressão: o motor "não respira", perde potência e aquece. É uma das causas mais subestimadas de perda de rendimento.

4. Gases de escape e opacidade

Medir os gases é a forma objetiva de saber se os sistemas funcionam.

Gasolina — analisador de gases (4 ou 5 gases): mede CO, HC, CO₂, O₂ (e NOx nos de 5 gases) e calcula o λ. Leitura típica: - CO alto → mistura rica ou catalisador em falha. - O₂ alto → mistura pobre ou fuga de ar no escape. - HC alto → falhas de ignição, combustível não queimado.

Diesel — opacímetro: mede a opacidade do fumo em aceleração livre (o motor é acelerado a fundo em ponto morto), expressa no coeficiente de absorção k (m⁻¹). Cores do fumo: - Preto → excesso de gasóleo / DPF em falha (partículas). - Azul → queima de óleo (turbo, segmentos, guias de válvula). - Brancoágua ou gasóleo não queimado (injetor, junta da cabeça).

Os valores de referência vêm da placa do fabricante (o k máximo costuma estar gravado no carro) e da legislação da IPO.

5. Sonda lambda e controlo da mistura (gasolina)

A sonda lambda mede o oxigénio residual nos gases de escape e é o que permite ao motor gasolina manter a mistura estequiométricaλ = 1, ou seja 14,7 kg de ar por 1 kg de gasolina. Só nesse ponto o catalisador de 3 vias funciona bem.

Tipos: de zircónio (dá uma tensão que comuta entre ~0,1 V pobre e ~0,9 V rica) e de banda larga (dá uma corrente proporcional, mede um intervalo largo — usada no diesel e nos gasolina modernos). Quase todas têm aquecedor para chegar depressa à temperatura de trabalho (>300 °C).

Avarias: sonda preguiçosa (comuta devagar → mais consumo), envenenada (óleo, aditivos, silicone de vedantes errados), aquecedor cortado, ou fio partido. Sintomas: código de avaria, luz acesa, consumo elevado, reprovar na IPO.

6. Catalisador, EGR e cânister EVAP

Catalisador de 3 vias (TWC)

É um favo cerâmico revestido de metais preciosos — platina (Pt), paládio (Pd) e ródio (Rh) — que, acima de ~250 °C e com λ ≈ 1, faz três reações simultâneas:

Tipo Reação
Oxidação CO + O₂ → CO₂
Oxidação HC + O₂ → CO₂ + H₂O
Redução NOx → N₂ + O₂

Avarias: fundido (o excesso de combustível por falhas de ignição sobreaquece e derrete o favo — daí ser crucial reparar primeiro a causa), envenenado (chumbo, óleo, silicone), ou entupido (contrapressão). Diagnostica-se com a sonda a jusante e por contrapressão.

EGR — recirculação de gases de escape

A válvula EGR reenvia parte dos gases de escape para a admissão. Como esses gases são inertes e "ocupam espaço", baixam a temperatura de combustão e, com isso, os NOx (que só se formam a alta temperatura). Pode ser pneumática (comandada por vácuo) ou elétrica (motor de passo com sensor de posição); muitos sistemas têm ainda um cooler EGR a água.

Avarias muito comuns: - Gripar aberta → ralenti irregular, motor "engasga", fumo, falta de força. - Gripar fechada ou entupir de carvão → sobem os NOx, código de avaria, por vezes modo de emergência.

Reparar: limpar a válvula e a tubagem (acumulam carvão), testar o atuador e o sensor de posição, verificar o cooler (fugas de líquido de refrigeração). Substituir quando o atuador/sensor já não respondem.

Cânister de carvão ativado (EVAP)

Nos gasolina, capta os vapores de gasolina do depósito (evita que evaporem para a atmosfera) e, com o motor a trabalhar, envia-os para a admissão pela válvula de purga. Uma fuga no sistema dá cheiro a combustível e um código EVAP (frequentemente detetado por um teste de estanquidade da ECU).

7. Filtro de partículas (DPF/FAP) — diesel

O DPF (também chamado FAP) retém a fuligem do gasóleo num favo cerâmico poroso. Como enche, tem de regenerar periodicamente — queimar a fuligem transformando-a em cinzas, a cerca de 600 °C:

Sensores: de pressão diferencial (mede a diferença de pressão entrada/saída → estima o entupimento) e de temperatura (protege e controla a regeneração). Alguns sistemas usam um aditivo (Eolys) que baixa a temperatura de queima.

Avarias: DPF saturado por uso só urbano (regenerações sempre interrompidas), sensor de pressão avariado, aditivo em falta, ou danos por combustível/óleo em excesso. A limpeza especializada (química ou em máquina) recupera muitos DPF; removê-lo é ilegal e faz reprovar na IPO.

8. SCR e AdBlue — cortar os NOx do diesel

Para cumprir a Euro 6, o diesel usa SCR (Selective Catalytic Reduction): injeta AdBlue (solução de ureia a 32,5% em água desmineralizada) no escape, antes de um catalisador especial. A ureia liberta amoníaco (NH₃) que reage com os NOx:

NOx + NH₃  →  N₂ + H₂O     (no catalisador SCR)

Componentes: depósito de AdBlue, bomba, injetor doseador, catalisador SCR e sensor(es) de NOx. A ECU dosea o AdBlue conforme a carga.

Avarias: cristalização da ureia no injetor/tubagem (entope), sensor de NOx avariado (dispendioso), qualidade má de AdBlue, ou nível a zero. Por imposição legal, quando o AdBlue acaba ou o sistema falha, o carro entra em modo degradado e, muitas vezes, não volta a arrancar até ser reabastecido/reparado.

9. Sobrealimentação: turbocompressor e compressor

Sobrealimentar é empurrar ar mais denso para os cilindros. Com mais ar, pode queimar-se mais combustível → mais potência e binário do mesmo motor. É o que permite o downsizing (motores pequenos com muita potência).

Turbocompressor Compressor volumétrico
Acionamento pelos gases de escape por correia do motor
Resposta tem lag a baixas rotações imediata
Eficiência aproveita energia "perdida" no escape consome potência do motor
Uso atual maioria dos carros menos comum

O turbocompressor por dentro

Tem duas rodas de pás no mesmo veio: - A turbina (lado quente) é girada pelos gases de escape. - O compressor (lado frio) comprime o ar de admissão. - O veio assenta em chumaceiras lubrificadas e arrefecidas a óleo (por vezes também a água).

Gira a mais de 150 000 rpm e a turbina fica incandescente. Por isso o óleo limpo e o hábito de deixar o motor arrefecer antes de desligar são vitais: desligar a quente "coze" o óleo no veio e destrói o turbo.

Avarias: folga no veio (assobio, fumo azul por passagem de óleo), fuga de óleo pelos vedantes, palhetas partidas (aspirou um objeto), ou entupimento por óleo carbonizado.

10. Intercooler, wastegate e geometria variável

O ar, ao ser comprimido, aquece — e ar quente é menos denso, além de favorecer a detonação. Daí os órgãos de apoio:

O sensor MAP/boost mede a pressão de sobrealimentação; a ECU regula a wastegate ou a VGT para a manter no valor-alvo definido pelo fabricante.

11. Diagnóstico: método, ferramentas e OBD

Um bom diagnóstico segue sempre a mesma ordem — evita trocar peças à sorte:

  1. Ouvir o cliente e reproduzir a avaria — há fumo? qual a cor? falta de força? luz acesa? quando acontece?
  2. Ler os códigos (DTC) por OBD-II e ver os dados em tempo real (PIDs) — λ, caudal MAF, pressão MAP/boost, contrapressão do DPF, temperatura de escape, dosagem de AdBlue.
  3. Verificar o óbvio — fugas de ar/escape, tubos rachados, abraçadeiras soltas, conetores.
  4. Testar o componente suspeito — multímetro (sondas, atuadores), manómetro de pressão/vácuo, máquina de fumo (revela fugas), boroscópio (ver dentro do turbo/admissão).
  5. Reparar, apagar o código e confirmar com ensaio que a avaria não regressa.

Ferramentas essenciais: máquina de diagnóstico, analisador de gases / opacímetro, multímetro, manómetro de pressão e de vácuo, máquina de fumo, câmara boroscópica, e o manual técnico do fabricante (valores de referência e procedimentos).

12. Reparação, ensaios de funcionamento e segurança

Técnicas de reparação: - Seguir sempre os procedimentos e valores do fabricante (binários de aperto, folgas, sequência de regeneração). - Substituir juntas e vedantes sempre que se abre o escape ou se desmonta o turbo. - Ao montar um turbo novo: ferrar o óleo (pré-lubrificar) antes de arrancar e investigar a causa da avaria anterior (óleo sujo, tubo de retorno entupido) — senão o turbo novo morre também. - Limpezas em vez de substituição sempre que válido (EGR, DPF, borboleta) — mais barato para o cliente.

Ensaios de funcionamento (comprovar a reparação): - Ensaio de estrada com leitura de dados ao vivo: o boost atinge o alvo? a sonda regula? o DPF regenera? o AdBlue doseia? - Analisador de gases / opacímetro para confirmar que o carro cumpre a norma. - Confirmar ausência de códigos e de luzes de aviso no painel.

Segurança e ambiente: - Escape e turbo ficam muito quentes — risco de queimaduras graves; deixar arrefecer. - Os gases de escape são tóxicos (CO) — usar sempre extração de fumos na oficina. - AdBlue irrita a pele e os olhos; a fuligem/cinzas do DPF são nocivas — usar EPI. - Gerir os resíduos (catalisadores, óleo) como resíduos perigosos.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Os sistemas antipoluição existem para o carro cumprir a norma Euro com que foi homologado. Na gasolina, o trio sonda lambda → catalisador TWC → EGR (mais o EVAP) trata CO, HC e NOx. No diesel, o problema são os NOx e as partículas, tratados por EGR, DPF e SCR/AdBlue. A sobrealimentação dá potência empurrando ar denso: turbo (gases) ou compressor (correia), com intercooler, wastegate e, muitas vezes, geometria variável. O diagnóstico faz-se com OBD + dados ao vivo + testes ao componente, e toda a reparação termina com um ensaio de gases/opacidade que prova que o carro voltou a cumprir a norma.

Exercícios resolvidos

1. Um gasolina reprova na IPO com CO muito alto e a sonda lambda a montante fica "colada" em rico. Qual a hipótese mais provável e como confirmar? Mistura rica constante — provável sonda lambda avariada (não corrige) ou fuga que enriquece. Confirmar vendo, na máquina de diagnóstico, se a sonda a montante comuta (0,1↔0,9 V): se ficar parada em ~0,9 V, está a mandar sempre "rico" ou avariada; testar aquecedor e cablagem. Reparada a sonda, o catalisador volta a funcionar e o CO cai.

2. Diesel com falta de força e fumo preto; código de "pressão de sobrealimentação abaixo do alvo". Por onde começar? Ler o boost ao vivo e comparar com o alvo. Começar pelo óbvio e barato: fugas no intercooler/tubos (máquina de fumo). Se estanque, verificar VGT (palhetas gripadas por fuligem) e o comando da wastegate. Só depois suspeitar do turbo em si.

3. Um turbo novo foi montado e falhou em poucos dias. O que provavelmente se esqueceu? Investigar a causa da avaria anterior e a lubrificação: tubo de alimentação/retorno de óleo entupido, óleo sujo, ou não se ferrou o óleo antes de arrancar. Turbo novo em óleo mau ou sem pré-lubrificação gripa depressa.

4. Carro entra em modo degradado e não arranca; sistema de escape diesel Euro 6. Verificação imediata? Verificar o nível de AdBlue e o sistema SCR (injetor cristalizado, sensor de NOx). É uma limitação legal: sem AdBlue/SCR funcional, o carro impede o arranque para não circular a poluir.

5. Explica porque não se deve "programar" o carro para desligar o EGR mesmo que o cliente peça. É ilegal, faz reprovar na IPO, e aumenta os NOx emitidos. O EGR anulado também pode disparar outros códigos e o carro deixa de estar conforme a homologação. A solução correta é limpar/reparar o EGR.