Sebenta · Reparar sistemas de carga e arranque (UC00234)
- Introdução
- 1. O papel do sistema elétrico no automóvel
- 2. A bateria: química, tipos e grandezas
- 3. Ensaios à bateria
- 4. O sistema de carga: alternador e regulador
- 5. Dentro do alternador
- 6. Regulação de tensão e alternadores inteligentes
- 7. O sistema de arranque
- 8. Circuitos elétricos e eletrónicos automóvel
- 9. Medição: equipamentos e ferramentas
- 10. Diagnóstico de avarias: o método
- 11. Ensaios de funcionamento e valores de referência
- 12. Reparação, segurança e registo
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a verificar, diagnosticar, reparar e ensaiar os sistemas de carga e de arranque de um automóvel ligeiro. São dois sistemas elétricos que trabalham em conjunto e que estão na origem de uma grande fatia das entradas em oficina: "o carro não pega", "a bateria descarrega de um dia para o outro", "a luz da bateria acende em andamento". Por trás destas queixas simples há sempre a mesma cadeia — uma bateria que guarda energia, um alternador que a gera e recarrega, e um motor de arranque que faz girar o motor — ligados por cabos, fusíveis, relés e massas e, nos carros modernos, comandados pela eletrónica (a UCE e o sensor inteligente de bateria).
O objetivo não é decorar peças. É construir um método de diagnóstico: perante um sintoma, o técnico deve medir, comparar com o valor de referência do fabricante e concluir, em vez de trocar componentes à sorte. Trocar uma bateria boa porque o problema era uma massa suja custa dinheiro e credibilidade; trocar um alternador quando o culpado era um fusível é um erro que a medição evita. A eletricidade não se vê, mas mede-se — e quem mede bem, repara bem.
O percurso segue o de uma reparação real. Primeiro percebemos o papel do sistema elétrico e a bateria (química, grandezas, estados e ensaios). Depois estudamos o sistema de carga (o alternador por dentro, a retificação, a regulação de tensão e os alternadores inteligentes). Seguem-se o sistema de arranque (motor de arranque, solenoide, cremalheira), os circuitos elétricos e eletrónicos (Lei de Ohm, quedas de tensão, massas, redes LIN/CAN), a medição (multímetro, pinça amperimétrica, osciloscópio, scanner), o diagnóstico de avarias e, por fim, os ensaios de funcionamento, os valores de referência e as técnicas de reparação, com forte ênfase na segurança (a bateria liberta hidrogénio e o B+ dá arcos) e no registo/codificação.
Objetivos de aprendizagem (referencial UC00234):
- Verificar o estado dos sistemas de carga e arranque e diagnosticar anomalias.
- Preparar os equipamentos e ferramentas de reparação.
- Executar a manutenção e reparação de componentes de carga e arranque.
- Realizar ensaios de funcionamento aos sistemas de carga e arranque.
Ao longo do texto há exemplos resolvidos passo a passo, tabelas de valores típicos, uma secção de erros comuns, um glossário, uma síntese e exercícios resolvidos. No fim deves conseguir pegar num carro que "não pega" ou que "descarrega", reconstruir a cadeia bateria → carga → arranque, medir cada elo e reparar com confiança e segurança.
1. O papel do sistema elétrico no automóvel
Um automóvel moderno é, em boa parte, um sistema elétrico e eletrónico sobre rodas. Da gestão do motor às luzes, do ABS ao ar condicionado, tudo precisa de energia elétrica e de uma tensão estável. Essa energia é fornecida por três blocos que têm de estar em equilíbrio:
- Armazenamento — a bateria. Com o motor parado, é a única fonte. Fornece a enorme corrente de que o motor de arranque precisa e alimenta os consumos em repouso (alarme, relógio, memórias).
- Geração — o alternador. Com o motor a trabalhar, gera eletricidade suficiente para alimentar todos os consumos e ainda recarregar a bateria do que gastou no arranque.
- Consumo — os recetores e o arranque. O maior consumidor pontual é o motor de arranque; depois há luzes, ventiladores, aquecimentos, injeção, etc.
A regra que orienta todo o diagnóstico é simples: a bateria arranca o carro; o alternador mantém o carro e recarrega a bateria. Se o carro pega mas depois vai "morrendo", suspeita-se da carga. Se o carro não pega mas a bateria está boa, suspeita-se do arranque ou das ligações. Muitas avarias "elétricas" acabam por ser, afinal, de ligações e massas — o "terceiro sistema" invisível que liga tudo.
Ideia-chave. Antes de acusar a bateria, o alternador ou o motor de arranque, garante que os cabos, bornes, fusíveis e massas estão sãos. É a causa mais barata e a mais esquecida.
2. A bateria: química, tipos e grandezas
2.1 O que é e como guarda energia
A bateria de arranque é, quase sempre, de chumbo-ácido. Tem 6 células ligadas em série; cada célula dá cerca de 2,1 V, o que soma ≈ 12,6 V numa bateria "de 12 V" carregada. Cada célula tem placas de chumbo (positivas e negativas) mergulhadas num eletrólito (ácido sulfúrico diluído em água).
A energia é guardada por uma reação química reversível:
- Descarga (a alimentar o carro): as placas reagem com o ácido e formam sulfato de chumbo, libertando energia; o eletrólito fica mais "aguado" e a tensão desce.
- Carga (o alternador a repor): a corrente inverte a reação, restaura as placas e "reconcentra" o ácido; a tensão sobe.
Este ciclo repete-se milhares de vezes. Com o tempo, parte do sulfato cristaliza e deixa de reverter (sulfatação) — a bateria perde capacidade e acaba por não aguentar o arranque, sobretudo a frio.
2.2 Tipos de bateria
| Tipo | Características | Onde se usa |
|---|---|---|
| Líquida (flooded) | eletrólito líquido, mais barata | carros sem start-stop |
| EFB | flooded melhorada, mais ciclos | start-stop de entrada |
| AGM | eletrólito num separador de fibra, muito resistente a ciclos | start-stop, muitos consumos |
Regra prática: num carro com start-stop usa-se EFB ou AGM e a bateria nova tem de ser registada/codificada na gestão de energia. Montar uma bateria líquida comum num start-stop ou não a codificar leva a falhas de carga e à morte prematura da bateria.
2.3 Grandezas que tens de saber ler
- Tensão nominal (12 V): de referência; a tensão real em repouso de uma bateria carregada é ≈ 12,6 V.
- Capacidade (Ah): quanta energia guarda (ex.: 60 Ah).
- CCA / A(EN) (corrente de arranque a frio): a corrente que consegue dar a frio sem cair demasiado a tensão — é o número que interessa para arrancar.
- Estado de carga (SoC): quanto está carregada agora (em %), lê-se pela tensão em repouso ou pela densidade.
- Estado de saúde (SoH): quão boa está comparada com uma nova; só a prova de carga (tester) o revela.
Cuidado com a confusão SoC vs. SoH. Uma bateria pode estar carregada (SoC alto) e ainda assim estar velha (SoH baixo): mostra 12,6 V em repouso mas cai logo que se pede corrente ao arranque. Por isso a tensão sozinha não chega — é preciso a prova de carga.
3. Ensaios à bateria
Antes de olhar para o alternador ou o motor de arranque, garante que a bateria está boa. Uma bateria fraca "inventa" avarias por todo o carro.
3.1 Tensão em repouso (multímetro)
Com o carro parado há pelo menos 30 minutos (sem "tensão de superfície"), mede aos bornes:
| Tensão em repouso | Estado de carga (SoC) |
|---|---|
| 12,6 – 12,7 V | ~100% |
| 12,4 V | ~75% |
| 12,2 V | ~50% |
| 12,0 V | ~25% |
| < 12,0 V | descarregada |
Se estiver baixa, carrega e volta a medir — só se avalia uma bateria carregada.
3.2 Densidade do eletrólito (só nas líquidas)
Com um densímetro, uma bateria carregada dá ≈ 1,28 kg/L por célula. Se todas as células estão baixas de forma uniforme, a bateria está descarregada (carrega e reavalia). Se uma célula está muito abaixo das outras, essa célula está em curto → bateria morta (não recupera).
3.3 Prova de carga (o teste do SoH)
Um tester eletrónico (por condutância) ou de descarga controlada aplica uma corrente próxima do CCA e vê se a tensão se mantém. É o melhor indicador do SoH. Um tester moderno dá diretamente CCA medido vs. CCA nominal e um veredicto (boa / carregar / substituir).
3.4 Teste de arranque real
Com o multímetro nos bornes, faz o motor arrancar e observa a tensão: numa bateria sã, a 20 °C, a tensão não deve cair abaixo de ~9,6 V durante o arranque. Quedas para 8 V ou menos indicam bateria fraca (ou consumo de arranque excessivo — ver capítulo 7).
Exemplo resolvido 1 — bateria "que não pega de manhã". Sintoma: de manhã, roda devagar; à tarde arranca bem. Repouso: 12,45 V (~75%). Prova de carga: CCA medido 310 A para 540 A nominais → SoH baixo. Arranque: cai a 8,9 V. Conclusão: bateria gasta (perde capacidade a frio); trocar por equivalente (Ah/CCA) e, se start-stop, codificar. Depois confirmar a carga (para descartar que a bateria morreu por subcarga do alternador).
4. O sistema de carga: alternador e regulador
4.1 O que faz
Enquanto o motor trabalha, o alternador (movido pela correia auxiliar) transforma energia mecânica em elétrica. Tem de alimentar todos os consumos ligados e dar o "extra" para recarregar a bateria daquilo que gastou no arranque. Se o alternador não chega para tudo, a diferença sai da bateria — que, dia após dia, descarrega.
4.2 Ligações principais
- B+: borne grosso ligado à bateria; é por aqui que sai a corrente de carga.
- D+ / L: aciona a luz de avaria da bateria no quadro; acesa com o motor a trabalhar = suspeita de falha de carga.
- Massa: através da carcaça/motor.
- Terminal de controlo (LIN/COM/BSS): nos alternadores inteligentes, é por onde a UCE manda o alvo de tensão.
4.3 Sinal de carga saudável
Com o motor a trabalhar (ao ralenti alto, ~2000 rpm) e alguns consumos ligados, aos bornes da bateria deve ler-se 13,8 a 14,8 V. Valores abaixo de ~13,5 V de forma persistente indicam subcarga (bateria vai descarregando); acima de ~15 V indicam sobrecarga (regulador avariado → bateria "ferve", perde água, morre cedo). Nos alternadores inteligentes, a tensão varia de propósito — ver 4.6.
Atenção: a luz da bateria acesa em andamento raramente é "a bateria"; é quase sempre o sistema de carga (correia partida, alternador, regulador ou ligação D+).
5. Dentro do alternador
Perceber os componentes internos explica as avarias:
- Rotor (indutor): um eletroíman que roda; é alimentado por corrente contínua através das escovas que roçam nos anéis coletores. Cria o campo magnético.
- Estator (induzido): três enrolamentos fixos onde o campo do rotor induz corrente alternada trifásica.
- Ponte retificadora: conjunto de 6 (ou mais) díodos que converte a corrente alternada (AC) do estator em contínua (DC) utilizável pelo carro.
- Regulador de tensão: ajusta a corrente do rotor (o campo) para manter a saída estável, seja quais forem as rotações e a carga.
- Polia: liga à correia; muitas são de roda livre (OAP/OAD) para amortecer vibrações.
- Rolamentos e ventilação.
5.1 Avarias típicas e o que provocam
| Componente | Avaria | Sintoma |
|---|---|---|
| Escovas / anéis | desgaste | carga intermitente, luz a piscar |
| Díodo | em curto ou aberto | ripple alto, subcarga, bateria descarrega |
| Regulador | avariado | sobrecarga (>15 V) ou subcarga |
| Rolamento | gasto | ruído, cheiro a queimado |
| Polia de roda livre | bloqueada/solta | ruído, correia a saltar, carga irregular |
Um díodo avariado deixa passar "ondulação" (ripple AC) para o sistema: mede-se no osciloscópio ou na função AC do multímetro na saída do alternador — se houver AC significativa (> ~0,1 V), há díodo em falha.
6. Regulação de tensão e alternadores inteligentes
6.1 Regulação clássica
O alternador tende a gerar mais tensão quanto mais depressa roda e mais forte é o campo do rotor. Sem controlo, ao acelerar a tensão dispararia. O regulador resolve isto ajustando continuamente a corrente do rotor para manter a saída em torno de 14,4 V — sobe o campo quando há muita carga/baixas rotações, alivia-o quando há pouca carga/altas rotações.
6.2 Alternador inteligente (charge management)
Nos carros modernos, a UCE controla o alternador (por rede LIN/BSS) para poupar combustível e recuperar energia:
- Em travagem/desaceleração: manda carregar mais (14,5–15 V) — aproveita energia "grátis".
- Em aceleração: alivia o alternador (pode baixar a 12,5–13 V) — menos esforço no motor, menos gasóleo.
- Usa um sensor inteligente de bateria (IBS/BMS), montado no borne negativo, que mede tensão, corrente e temperatura e informa a UCE do estado real da bateria.
Consequência para o diagnóstico: num carro assim, ver 12,7 V aos bornes com o motor a trabalhar pode ser normal (o alternador está a aliviar de propósito). Não se conclui "alternador avariado" só pela tensão nos bornes — é preciso ler o live data (alvo de tensão, corrente do IBS) com o scanner e ver se o alternador obedece ao alvo pedido.
7. O sistema de arranque
7.1 Como funciona
Ao rodar a chave para "start" (ou premir o botão), com as condições de segurança satisfeitas (embraiagem/travão, ponto morto, imobilizador ok):
- Um sinal alimenta o solenoide do motor de arranque.
- O solenoide faz duas coisas ao mesmo tempo: empurra o pinhão (mecanismo de Bendix) para engrenar na cremalheira do volante do motor e fecha o contacto de potência que liga o motor de arranque ao B+ da bateria.
- O motor de arranque (elétrico, de alto consumo: 80–300 A) faz girar o motor de combustão até ele pegar.
- Quando o motor pega, o condutor solta a chave; o pinhão recua e desengrena.
7.2 Componentes
- Motor de arranque (com induzido, escovas e o solenoide integrado).
- Solenoide/relé de arranque.
- Cabo grosso B+ e massa do motor (a corrente de arranque é enorme → ligações têm de estar impecáveis).
- Interruptor de ignição / botão Start, imobilizador, contactos de segurança.
7.3 Sintomas e leitura
| Sintoma | Causa provável |
|---|---|
| "Clique" e não roda | solenoide atua mas motor não gira: bateria fraca, massa má, motor de arranque gasto |
| Roda muito devagar | bateria fraca ou queda de tensão nos cabos/massas |
| Não faz absolutamente nada | fusível, relé, imobilizador, interruptor, ou condição de segurança |
| Ruído metálico / range | pinhão ou cremalheira danificados, Bendix a patinar |
| Continua a rodar depois de pegar | solenoide/relé colado |
Exemplo resolvido 2 — "faz clique mas não pega". Bateria: repouso 12,6 V, prova de carga boa. Arranque: ao tentar, a tensão aos bornes só cai a 12,2 V (não desce) — o motor de arranque quase não puxa corrente. Mede-se a queda de tensão no cabo de massa motor↔carroçaria durante a tentativa: 1,4 V (devia ser < 0,2 V). Conclusão: má massa do motor (oxidada/solta). A bateria está boa e o motor de arranque também; a corrente não passa por causa da resistência da massa. Limpar e apertar a massa resolve — não trocar o motor de arranque.
8. Circuitos elétricos e eletrónicos automóvel
Todo o diagnóstico assenta em três ideias de eletricidade.
8.1 Lei de Ohm
U = R × I (tensão = resistência × corrente). Uma ligação suja ou uma massa má acrescenta resistência (R) ao circuito. Como o arranque puxa muita corrente (I), mesmo uma R pequena gera uma queda de tensão (U) grande, e o motor de arranque fica sem tensão para trabalhar (roda devagar).
8.2 Série, paralelo, fusíveis e relés
Os recetores ligam-se em paralelo (todos à mesma tensão). Fusíveis protegem contra excesso de corrente; relés deixam um sinal fraco comandar uma corrente forte (como no arranque). Um fusível queimado ou um relé avariado explicam muitos "não faz nada".
8.3 Queda de tensão — a medição-rainha
A queda de tensão mede-se com o circuito a funcionar (com corrente a passar), pondo as pontas do multímetro nos dois extremos do troço a testar. Mostra resistências parasitas que a medição de continuidade "em vazio" não revela. Valores de referência: < 0,5 V num percurso positivo, < 0,2 V numa massa. Acima disso, há corrosão/aperto a corrigir.
8.4 Massas (GND)
As massas são a causa nº 1 de avarias intermitentes e "impossíveis". Uma massa má faz o carro comportar-se de forma errática (luzes que oscilam, módulos que reiniciam). Verificar e limpar massas é dos gestos que mais resolve.
8.5 Redes LIN/CAN
O IBS, o alternador inteligente e a UCE comunicam por LIN (e a UCE liga à rede CAN). Se a comunicação falhar, a gestão de carga "cega" e o alternador pode não carregar ou carregar mal — daí a importância de ler DTC de comunicação e o live data.
9. Medição: equipamentos e ferramentas
Preparar os equipamentos (2ª realização do referencial) é meio caminho para um bom diagnóstico:
| Ferramenta | Mede | Uso típico |
|---|---|---|
| Multímetro | tensão, resistência, continuidade | repouso, carga, quedas de tensão |
| Pinça amperimétrica DC | corrente sem cortar o fio | consumo de arranque, fuga parasita |
| Tester de bateria | CCA/SoH | saúde da bateria |
| Osciloscópio | forma de onda | ripple dos díodos, sinais de comando |
| Scanner / EOBD | DTC, live data, codificação | IBS, alvo de carga, registo de bateria |
| Carregador/estabilizador | carrega/mantém | preparar bateria, suporte em codificações |
Preparação: ferramentas verificadas e calibradas, pontas em bom estado, EPI, e o veículo seguro (travão de mão, calços, ventilação). Ter à mão os valores de referência do fabricante (esquemas, tabelas) antes de começar.
10. Diagnóstico de avarias: o método
Um método fixo evita trocas às cegas:
- Ouvir o cliente e reproduzir o sintoma. "Não pega", "pega e morre", "descarrega parada", "luz acesa" apontam para sistemas diferentes.
- Inspeção visual (o óbvio): bornes (oxidação/aperto), tensão e estado da correia, fusíveis, cabos, massas, cheiros e ruídos.
- Bateria primeiro: repouso + prova de carga. Sem bateria sã, o resto não é fiável.
- Carga: tensão a trabalhar (13,8–14,8 V clássico; nos inteligentes, comparar com o alvo via scanner) e ripple.
- Arranque: tensão nos bornes durante o arranque (≥ 9,6 V), quedas de tensão no positivo e na massa, consumo com pinça.
- Descarga parada (fuga parasita): com tudo a "dormir", medir a corrente residual (< 30–50 mA); acima disso, procurar o consumidor (retirar fusíveis um a um).
- DTC/live data: ler avarias do sistema de carga, IBS, imobilizador e comunicação.
- Concluir com dados, comparar com a referência, reparar, e re-ensaiar.
Exemplo resolvido 3 — "a bateria descarrega sozinha durante a noite". Bateria e carga ok. Com o carro trancado e "adormecido" (≥ 30–40 min), mede-se a fuga parasita com pinça mA: 340 mA (devia ser < 50 mA). Retirando fusíveis um a um, a corrente cai ao remover o do módulo de infoentretenimento → esse módulo não adormece. Conclusão: consumo parasita por módulo que não entra em repouso. Atualizar/substituir o módulo (ou o componente responsável). Sem esta medição, trocar-se-ia a bateria em vão.
11. Ensaios de funcionamento e valores de referência
Depois de reparar, prova-se que ficou bom (4ª realização do referencial). Tabela de referência:
| Ensaio | Como medir | Referência típica (12 V, ~20 °C) |
|---|---|---|
| Tensão em repouso | multímetro, ≥ 30 min parada | 12,6 V ≈ 100% |
| Tensão de carga | bornes, motor ~2000 rpm | 13,8 – 14,8 V (clássico) |
| Ripple do alternador | osciloscópio/AC na saída | < ~0,1 V AC |
| Tensão no arranque | bornes durante o arranque | ≥ 9,6 V |
| Queda no positivo | ponta a ponta com corrente | < 0,5 V |
| Queda na massa | motor ↔ (−) bateria | < 0,2 V |
| Consumo de arranque | pinça amperimétrica | 80 – 300 A (conforme motor) |
| Fuga parasita | pinça mA, tudo a dormir | < 30 – 50 mA |
Nos alternadores inteligentes: confirmar, no live data, que o alternador segue o alvo que a UCE pede (carrega mais em travagem, alivia em aceleração) e que não há DTC de carga/IBS/comunicação. Confirmar também que a bateria nova foi registada/codificada.
12. Reparação, segurança e registo
12.1 Segurança (não negociável)
- Ordem para desligar a bateria: primeiro o negativo (−), depois o positivo. Para ligar, o inverso (positivo primeiro, negativo por último). Assim evita-se curto-circuito da ferramenta à massa.
- A bateria liberta hidrogénio (explosivo) e contém ácido sulfúrico: EPI (óculos, luvas), sem chamas/faíscas, local ventilado.
- O B+ está sempre "vivo": um curto à massa dá arco e queimaduras e pode incendiar. Cuidado com anéis, relógios e ferramentas.
- Antes de trabalhar na eletrónica, proteger memórias com um mantenedor, se o fabricante o exigir.
12.2 Reparação com método
- Bornes e ligações: limpar corrosão, aplicar aperto com o binário correto, proteger.
- Massas: limpar até ao metal, apertar, verificar por queda de tensão (não à vista).
- Alternador: muitas vezes reparável (escovas, regulador, ponte de díodos, rolamentos); noutros casos substitui-se.
- Motor de arranque: escovas, solenoide e Bendix são peças de desgaste.
- Bateria: substituir por equivalente em Ah e CCA e na tecnologia certa (líquida/EFB/AGM).
12.3 Registo e codificação
- Registar/codificar a bateria nova nos carros com gestão de energia (AGM/EFB/start-stop) — caso contrário a carga fica errada e a bateria dura pouco.
- Documentar: sintoma, medições (com valores e referências), peças, codificações feitas e resultado do ensaio final. Um bom registo protege o técnico e ajuda o próximo diagnóstico.
Erros comuns
- Trocar a bateria sem prova de carga — muitas vezes a bateria está boa e o problema é carga, massa ou fuga parasita.
- Concluir "alternador avariado" só pela tensão nos bornes num carro com alternador inteligente (a tensão varia de propósito — falta ler o live data).
- Ignorar as massas — a causa nº 1 de "roda devagar" e de avarias intermitentes.
- Medir continuidade em vazio em vez de queda de tensão com carga — a resistência parasita só aparece com corrente.
- Não codificar a bateria nova num start-stop → subcarga e morte prematura.
- Ligar/desligar a bateria pela ordem errada → curto-circuito e faíscas.
- Esquecer a fuga parasita ao investigar "descarrega parada".
- Apagar DTC antes de registar o freeze frame/live data.
Glossário
- SoC (estado de carga): percentagem de carga atual da bateria; lê-se pela tensão em repouso/densidade.
- SoH (estado de saúde): "saúde" da bateria vs. nova; revela-se na prova de carga.
- CCA / A(EN): corrente de arranque a frio que a bateria consegue fornecer.
- AGM / EFB: tecnologias de bateria resistentes a ciclos, usadas em start-stop.
- Alternador: máquina que converte energia mecânica em elétrica (AC) e alimenta/recarrega.
- Retificação: conversão de corrente alternada (AC) em contínua (DC) pelos díodos.
- Regulador de tensão: mantém a tensão de saída estável ajustando o campo do rotor.
- Alternador inteligente / charge management: alternador comandado pela UCE para poupar combustível e recuperar energia.
- IBS/BMS (sensor inteligente de bateria): mede tensão, corrente e temperatura da bateria e informa a UCE.
- Motor de arranque: motor elétrico que faz girar o motor de combustão no arranque.
- Solenoide: eletroíman que engrena o pinhão e fecha o contacto de potência do arranque.
- Bendix: mecanismo que empurra e desengrena o pinhão do motor de arranque.
- Ripple: ondulação AC residual na saída do alternador; se alta, indica díodo em falha.
- Queda de tensão: tensão "perdida" num troço de circuito devido à sua resistência; mede-se com corrente a passar.
- Fuga/consumo parasita: corrente que a bateria fornece com o carro "adormecido"; deve ser < 30–50 mA.
- LIN/CAN: redes de comunicação que ligam IBS, alternador e UCE.
Síntese
- O sistema elétrico assenta em três blocos: bateria (guarda), alternador (gera e recarrega), motor de arranque (roda o motor), unidos por cabos e massas.
- A bateria avalia-se por repouso + prova de carga (SoC vs. SoH); valores-chave: 12,6 V repouso, ≥ 9,6 V no arranque.
- A carga saudável dá 13,8–14,8 V (clássico); nos alternadores inteligentes a tensão varia de propósito e lê-se por scanner (IBS).
- O arranque vive de ligações e massas sãs — as quedas de tensão (< 0,5 V positivo, < 0,2 V massa) e o consumo (pinça) contam a verdade.
- Diagnóstico é método + medição, nunca substituição às cegas; e a reparação termina com ensaio, codificação e registo, sempre com segurança.
Exercícios resolvidos
1) Uma bateria mostra 12,6 V em repouso mas o carro "não pega de manhã". A bateria está boa? Não necessariamente. 12,6 V indica SoC bom, mas não o SoH. É preciso a prova de carga e o teste no arranque (a tensão deve manter-se ≥ 9,6 V). Uma bateria velha mostra 12,6 V parada e colapsa ao pedir corrente.
2) Com o motor a trabalhar, lês 12,7 V aos bornes num carro com start-stop. Alternador avariado? Não se conclui só por isto. Num alternador inteligente, a UCE pode estar a aliviar o alternador de propósito. É preciso ler o live data (alvo de tensão, corrente do IBS) e verificar se o alternador obedece ao alvo (ex.: sobe a carga em travagem). Só se houver DTC de carga ou o alternador não seguir o alvo é que há falha.
3) O carro faz "clique" e não roda; a bateria passou na prova de carga. Próximo passo? Medir a queda de tensão nos cabos do arranque durante a tentativa: no positivo (B+) (< 0,5 V) e na massa do motor (< 0,2 V), e o consumo com a pinça. Uma queda alta aponta para cabo/massa com resistência; consumo muito baixo aponta para circuito interrompido; consumo alto com tensão a colapsar aponta para motor de arranque gasto (ou bateria).
4) "A bateria descarrega parada durante a noite." Como confirmar a causa? Com o carro adormecido, medir a fuga parasita (pinça mA): deve ser < 30–50 mA. Se estiver alta, retirar fusíveis um a um até a corrente cair — o fusível que a faz cair identifica o circuito/módulo culpado. Só depois se decide a reparação.
5) Depois de trocar a bateria de um start-stop, o carro volta a "morrer" cedo. Porquê? Provavelmente a bateria nova não foi registada/codificada (ou foi montada tecnologia errada). A gestão de energia continua a carregar como para a bateria antiga → subcarga e morte prematura. Corrigir: usar a tecnologia certa (EFB/AGM) e codificar a bateria na UCE.