Sebenta · Reparar sistemas de injeção a diesel (UC00232)
- Introdução
- 1. O motor diesel e a combustão por compressão
- 2. Evolução da injeção diesel
- 3. Circuito de combustível: baixa e alta pressão
- 4. Bombas de injeção
- 5. Injetores
- 6. Common rail — geração e controlo da pressão
- 7. Sensores de entrada e a UCE (EDC)
- 8. Atuadores
- 9. Sinais elétricos e medição
- 10. Diagnóstico OBD/EOBD e método
- 11. Ensaios de funcionamento
- 12. Técnicas de reparação, segurança, ambiente e registo
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta ensina a verificar, diagnosticar, reparar e ensaiar os sistemas de injeção a diesel de um automóvel ligeiro. O motor diesel moderno é um sistema onde a mecânica de precisão (bombas e injetores que trabalham a milhares de bar) e a eletrónica (a Unidade de Comando do Motor, UCE/EDC) funcionam em conjunto. Quem repara injeção diesel tem de perceber os dois lados: o percurso físico do gasóleo e o raciocínio da eletrónica, que não vê a combustão mas a deduz a partir de sensores e a comanda através de atuadores, sempre com base em valores de referência do fabricante.
O objetivo não é decorar peças. É construir um método: perante um sintoma (fumo, perda de potência, arranque difícil, luz do motor), o técnico deve medir, comparar com a referência e concluir — em vez de trocar peças à sorte, o que num sistema common rail custa muito dinheiro. Uma bomba ou um jogo de injetores enganam-se caros; um diagnóstico apressado é um erro dispendioso.
O percurso segue o de uma reparação real. Primeiro recordamos o motor diesel e a combustão por compressão. Depois vemos a evolução dos sistemas de injeção (da bomba mecânica ao common rail), o circuito de combustível (baixa e alta pressão), as bombas, os injetores e a gestão da pressão de rail. Seguem-se os sensores, a UCE e os atuadores, a medição de sinais (multímetro e osciloscópio), o diagnóstico OBD/EOBD e, finalmente, os ensaios (pressão de rail, retorno dos injetores, estanquidade, compressão) e as técnicas de reparação, com forte ênfase na segurança (a alta pressão é perigosa), no ambiente e no registo.
Objetivos de aprendizagem (referencial UC00232):
- Verificar o estado de sistemas de injeção diesel e diagnosticar anomalias.
- Executar a manutenção e reparação de componentes do sistema de injeção diesel.
- Realizar ensaios de funcionamento a sistemas de injeção diesel.
Ao longo do texto há exemplos resolvidos passo a passo, tabelas de valores típicos, uma secção de erros comuns, um glossário, uma síntese e exercícios resolvidos. No fim deves conseguir pegar num veículo diesel com um sintoma, reconstruir o percurso do gasóleo e o raciocínio da UCE, e reparar com confiança e segurança.
1. O motor diesel e a combustão por compressão
No motor a gasolina a mistura ar/combustível é inflamada por uma faísca. No diesel não há vela de ignição: o ar puro é admitido e comprimido com uma taxa de compressão elevada (16:1 a 22:1), aquecendo até 700–900 °C. Nesse instante, o gasóleo é injetado a alta pressão e auto-inflama por contacto com o ar quente. Toda a "inteligência" do sistema está em quando, quanto e a que pressão injetar.
Consequências práticas:
- A potência regula-se pela quantidade de gasóleo, não por uma borboleta de ar. Por isso o diesel funciona sempre com excesso de ar (mistura pobre, λ > 1). Ao ralenti pode ir a λ 5–8; em plena carga aproxima-se do limite de fumo.
- A taxa de compressão alta e a auto-inflamação exigem arranque a frio assistido: as velas de pré-aquecimento aquecem a câmara para o gasóleo inflamar quando o motor está frio.
- A combustão é por difusão (o gasóleo queima à medida que entra), o que gera NOx (por causa das altas temperaturas) e partículas/fuligem (por causa das zonas ricas). Toda a gestão moderna tenta equilibrar potência, ruído e emissões.
A UCE controla a combustão através de várias variáveis por ciclo:
- Quantidade injetada (massa de gasóleo, em mg/curso);
- Pressão de injeção (no common rail, até 2000–2500 bar);
- Momento e número de injeções: uma pré-injeção (piloto) reduz o ruído e o NOx amaciando o início da combustão; a principal faz o trabalho; uma pós-injeção ajuda a regenerar o filtro de partículas (FAP/DPF).
Regra de ouro da combustão diesel: ar quente + pressão alta + pulverização fina no momento certo. Falhar qualquer um destes três dá fumo, ruído, perda de potência ou não-arranque.
2. Evolução da injeção diesel
Perceber a história ajuda a diagnosticar, porque ainda há veículos de todas as gerações na estrada.
| Geração | Tecnologia | Pressão típica | Como se controla |
|---|---|---|---|
| Clássica | Bomba em linha ou rotativa mecânica | 200–350 bar | Mecânico (massas centrífugas, regulador) |
| Eletrónica antiga | Bomba rotativa VE-EDC | 300–900 bar | UCE + atuador de débito e válvula de avanço |
| Injetor-bomba | PDE/UIS (um por cilindro) | 1800–2050 bar | UCE; came da árvore aciona cada unidade |
| Common rail | Rail comum + injetores comandados | 1400–2500 bar | UCE (EDC) controla tudo (pressão e injeção) |
A grande viragem foi o common rail: separou gerar a pressão (uma bomba enche um acumulador comum, o rail) de injetar (cada injetor é comandado eletricamente pela UCE, independentemente da posição da bomba). Isto trouxe:
- Pressão de injeção independente do regime do motor (ao contrário da bomba mecânica, onde mais rpm = mais pressão);
- Multi-injeção (pré, principal e pós numa única combustão), reduzindo ruído e emissões;
- Precisão eletrónica total, com correções por cilindro.
Comercialmente aparece com nomes de fabricante: CRDi (Hyundai/Kia), HDi (PSA), TDI (VAG), dCi (Renault), CDI (Mercedes), JTD/Multijet (Fiat). Tecnicamente são todos o mesmo princípio.
3. Circuito de combustível: baixa e alta pressão
O gasóleo faz um percurso em duas etapas de pressão.
Baixa pressão (alimentação), 3–6 bar:
- Depósito de gasóleo.
- Pré-filtro / decantador de água — separa a água (o diesel absorve humidade; água nos injetores de alta pressão é destruidora).
- Bomba de alimentação (elétrica no depósito ou mecânica na bomba de alta pressão) — aspira e envia o gasóleo.
- Filtro de gasóleo — retém partículas finas; é a barreira mais importante para proteger a alta pressão.
- Entrega à bomba de alta pressão.
Alta pressão:
- Bomba de alta pressão comprime o gasóleo.
- Rail (acumulador comum) mantém a pressão estável.
- Injetores recebem o gasóleo pressurizado e injetam-no na câmara quando comandados.
Retorno (leak-off): os injetores e a regulação devolvem o gasóleo excedente ao depósito. O caudal de retorno de cada injetor é um dos testes mais reveladores: um injetor gasto devolve muito mais que os outros.
Água e sujidade são os grandes inimigos. Um filtro de gasóleo em mau estado ou um decantador cheio de água podem, sozinhos, arruinar uma bomba CP4 e um jogo de injetores. Manutenção do filtro não é opcional.
4. Bombas de injeção
Bomba em linha: um êmbolo por cilindro, acionados por uma árvore de cames própria. Robusta, usada em veículos pesados e diesel antigos. Regulação mecânica por massas centrífugas.
Bomba rotativa (VE): um único elemento de bombagem distribui o gasóleo pelos cilindros por rotação. Existe em versão mecânica e em versão EDC (com atuador eletromagnético de débito e válvula de avanço comandados pela UCE). Muito comum nos diesel dos anos 90/2000.
Bomba de alta pressão do common rail (CP1, CP3, CP4…):
- Acionada pela correia ou corrente de distribuição (sincronismo com o motor).
- Tem 1 a 3 êmbolos radiais que comprimem o gasóleo até ao rail.
- O débito é regulado pela IMV (válvula reguladora de admissão / metering unit), que controla quanto gasóleo entra na bomba — assim a bomba só comprime o necessário, poupando energia e reduzindo aquecimento.
Atenção especial à CP4: é muito sensível à qualidade e lubricidade do gasóleo. Gasóleo contaminado ou com pouca lubricidade pode provocar desgaste do tucho/roletes e libertar limalha metálica que contamina todo o circuito de alta pressão — obrigando a substituir bomba, rail e injetores. É por isso que a limpeza e o filtro são tão críticos.
5. Injetores
O injetor pulveriza o gasóleo dentro da câmara, no instante e na quantidade exatos, através de um bico com vários orifícios micrométricos. Tipos:
- Mecânicos (porta-injetor com mola tarada): abrem quando a pressão do gasóleo vence a mola. Usados nos sistemas clássicos.
- Eletromagnéticos (solenoide): common rail de 1ª/2ª geração. Um eletroíman levanta uma agulha/válvula piloto, permitindo a injeção. Resistência típica do solenoide: 0,2–0,5 Ω.
- Piezoelétricos: um cristal piezo que muda de dimensão com a tensão, comutando muito mais depressa. Permitem mais injeções por ciclo e maior precisão; são mais caros e frágeis.
Códigos de calibração (IMA/IQA/C2i, conforme o fabricante): cada injetor traz gravado um código que descreve o seu desvio de fabrico. Após substituir ou trocar um injetor de cilindro, esse código tem de ser programado na UCE com o equipamento de diagnóstico; caso contrário o motor treme, fuma ou entra em modo de emergência.
O que se mede num injetor:
| Grandeza | Método | Referência típica |
|---|---|---|
| Resistência do solenoide | multímetro (Ω) | 0,2–0,5 Ω (piezo: capacitivo, medir diferente) |
| Isolamento à massa | multímetro (MΩ) | muito alto (sem fuga) |
| Corrente de comando | osciloscópio/pinça | pico ~18–20 A → manutenção ~12 A |
| Caudal de retorno | provetas (teste leak-off) | equilibrado entre cilindros |
6. Common rail — geração e controlo da pressão
O rail é um tubo/acumulador comum que recebe o gasóleo da bomba e o distribui aos injetores, amortecendo pulsações e mantendo a pressão estável.
- Sensor de pressão de rail (RPS): mede a pressão real e devolve à UCE um sinal analógico (tipicamente 0,5 V ao mínimo, ~4,5 V ao máximo). É o feedback do sistema.
- Regulação da pressão (para atingir o alvo definido pelos mapas em função de rpm e carga):
- IMV (lado de admissão da bomba): controla o caudal que entra a comprimir — regulação eficiente (só se comprime o necessário).
- DRV / PCV (lado do rail): sangra o excesso para o retorno — permite baixar a pressão rapidamente (ex.: ao largar o pé).
- Muitos sistemas usam regulação dupla (IMV + DRV) para responder depressa em ambos os sentidos.
Alvo de pressão ← (rpm + carga do pedal) → UCE → comanda IMV/DRV
↑
RPS (pressão real) —— feedback —— corrige até bater no alvo
Um desvio persistente entre pressão real e alvo é um dos sinais mais úteis: pressão baixa que não atinge o alvo aponta para bomba fraca, fuga, IMV/DRV ou retorno excessivo dos injetores; pressão instável aponta para regulação ou sensor.
7. Sensores de entrada e a UCE (EDC)
A UCE / EDC (Electronic Diesel Control) é o cérebro: lê os sensores, calcula segundo mapas calibrados e comanda os atuadores. Não "vê" a combustão — deduz o estado do motor a partir dos sinais.
| Sensor | Sigla | O que mede | Tipo de sinal |
|---|---|---|---|
| Cambota | CKP | rpm e posição (PMS) | indutivo/Hall (roda dentada) |
| Árvore de cames | CMP | fase (identifica cilindro 1) | Hall |
| Pressão de rail | RPS | pressão de injeção | analógico (tensão) |
| Caudal de ar | MAF | massa de ar admitida | analógico/frequência |
| Pressão do coletor | MAP | sobrepressão do turbo | analógico |
| Temp. do líquido | ECT | temperatura do motor | NTC (resistência ↓ com Tª) |
| Temp. do ar | IAT | temperatura de admissão | NTC |
| Posição do pedal | APP | pedido do condutor | 2 pistas (redundância) |
Notas de diagnóstico:
- O sinal CKP é vital: sem ele o motor não arranca (a UCE não sabe onde estão os pistões). A roda dentada tem um dente em falta que marca a referência — visível no osciloscópio.
- O MAF é usado no controlo de EGR e no limite de fumo; um MAF a "mentir" para menos causa perda de potência e fumo.
- Sensores NTC (ECT/IAT) partilham a lógica: resistência varia com a temperatura; um valor "preso" indica sensor ou cablagem.
8. Atuadores
- Injetores — o atuador central; a UCE define o timing e a duração do impulso (e a corrente, nos solenoides).
- IMV / DRV — regulam a pressão de rail (ver §6).
- Válvula EGR — recircula parte dos gases de escape para a admissão, baixando a temperatura de combustão e o NOx. Quando entope, dá perda de potência, fumo e códigos.
- Atuador do turbo (VGT/geometria variável) — ajusta a sobrealimentação.
- Velas de pré-aquecimento (glow plugs) — aquecem a câmara no arranque a frio, comandadas por um relé/módulo. Velas fracas = arranque difícil a frio e fumo branco.
- Borboleta de admissão — permite corte suave do motor ao desligar e ajuda a gerir o EGR.
Sequência de arranque a frio: ao rodar a chave para contacto, acende a luz de pré-aquecimento; só depois de apagar se deve acionar o motor de arranque, para dar tempo às velas de aquecerem a câmara.
9. Sinais elétricos e medição
Diagnosticar é medir e comparar. Ferramentas:
Multímetro:
- Resistência do solenoide do injetor (0,2–0,5 Ω) e das velas de pré-aquecimento (< 1–2 Ω).
- Tensão de alimentação e massas dos sensores (uma massa má "engana" vários sinais ao mesmo tempo).
- Tensão do RPS/MAP com o contacto e com o motor a trabalhar (comparar com live data).
Osciloscópio:
- Forma de onda do CKP/CMP — deteta dente em falta, folga ou sinal fraco.
- Corrente de comando do injetor — o padrão típico é um pico de abertura seguido de um patamar de manutenção:
Injetor solenoide: corrente sobe a ~18–20 A (abre a agulha)
→ desce e mantém-se em ~12 A (mantém aberto)
→ corta (fecha)
Equipamento específico:
- Manómetro / tester de alta pressão para ler/forçar pressão de rail.
- Provetas graduadas para o teste de retorno dos injetores.
- Câmara/kit de estanquidade para procurar fugas de gasóleo e entradas de ar.
Regra: nunca concluir por um valor isolado. Cruza pelo menos dois indícios (ex.: DTC + live data + medição direta) antes de decidir substituir.
10. Diagnóstico OBD/EOBD e método
O diesel moderno cumpre EOBD (equivalente europeu do OBD-II). Com o scanner lê-se:
- DTC (códigos de avaria) — ex.: pressão de rail fora do alvo, correção de cilindro, EGR, MAF.
- Freeze frame — condições no momento do código (rpm, carga, temperatura).
- Live data — parâmetros em tempo real: pressão de rail real vs. alvo, correções/balanceamento por cilindro (IQA), caudal de retorno estimado, MAF, rpm, temperaturas, estado das velas e do EGR.
Método de diagnóstico (fluxo recomendado):
- Ouvir o cliente e reproduzir o sintoma (quando aparece: a frio, em carga, ao ralenti?).
- Ler DTC + freeze frame e registar (não apagar antes de anotar).
- Verificar o óbvio: nível e qualidade do gasóleo, filtro, água no decantador, fugas, tubagens, ligações elétricas e massas.
- Formular hipóteses e testar dirigido com valores de referência (não substituir às cegas).
- Reparar, programar códigos se preciso e ensaiar.
- Apagar DTC, confirmar que não voltam e registar a intervenção.
Interpretação rápida de sintomas frequentes:
| Sintoma | Hipóteses a testar primeiro |
|---|---|
| Não arranca a frio | velas de pré-aquecimento, ar no circuito, filtro entupido, sinal CKP |
| Perde potência / entra em emergência | pressão de rail baixa, MAF, turbo/VGT, EGR entupido |
| Fumo preto | excesso de gasóleo/injetor a gotejar, MAF a mentir, EGR |
| Fumo branco/azul | velas fracas, injetor com fuga, timing de injeção |
| Motor a "bater"/trepidar ao ralenti | injetor com retorno alto, código IQA errado, compressão |
11. Ensaios de funcionamento
Ensaiar prova que a reparação resultou e ajuda a isolar a causa.
- Pressão de rail (arranque e em carga): confirma bomba + regulação. No arranque deve subir depressa ao valor esperado; em carga deve seguir o alvo.
- Teste de estanquidade / queda de pressão: com o motor parado após correr, ver quanto tempo a pressão se mantém. Queda rápida = fuga (rail, uniões, injetor, DRV).
- Teste de retorno dos injetores (leak-off): ligar provetas ao retorno de cada injetor e dar arranque durante alguns segundos; caudais muito desiguais identificam o injetor gasto/com fuga interna.
- Compressão: mede o estado mecânico; descarta que o problema seja do motor antes de culpar a injeção.
- Estanquidade do lado da alimentação (entrada de ar): ar no circuito dá arranque difícil e perda de potência intermitente; procura-se com o sistema pressurizado ou com um copo transparente no retorno (bolhas de ar).
| Teste | O que revela |
|---|---|
| Pressão de rail | bomba, IMV/DRV, sensor RPS |
| Retorno (leak-off) | injetores gastos/com fuga interna |
| Estanquidade / queda de pressão | fugas de gasóleo e de ar |
| Compressão | estado mecânico do motor |
12. Técnicas de reparação, segurança, ambiente e registo
Segurança (prioridade absoluta):
- O common rail trabalha a milhares de bar. Nunca soltar uniões de alta pressão com o motor a trabalhar nem imediatamente a seguir a parar — a pressão mantém-se. Aliviar a pressão segundo o procedimento do fabricante e esperar.
- Um jato de gasóleo a alta pressão penetra a pele e provoca lesões graves (necessita de urgência médica). Nunca procurar fugas com a mão.
- Trabalhar com EPI (óculos, luvas resistentes a hidrocarbonetos) e o motor frio quando indicado.
Limpeza (a regra de ouro do diesel):
- Qualquer partícula danifica injetores e bomba (folgas micrométricas). Trabalhar em bancada limpa, tampar todas as aberturas ao desligar tubos, usar panos que não largam fibras e componentes selados até à montagem.
Reparação:
- Substituir componentes com os binários e sequências do fabricante.
- Após injetores novos/trocados: programar os códigos IMA/IQA e executar as adaptações.
- Purgar o circuito e confirmar ausência de fugas com o sistema pressurizado.
- Confirmar que não retornam DTC e que o motor arranca, ralenta e responde bem.
Ambiente e registo:
- Gasóleo, filtros e componentes contaminados são resíduos perigosos — encaminhar para os circuitos próprios (nunca ao esgoto/solo).
- Registar no sistema informático oficinal: peças, medições feitas, códigos programados e resultado dos ensaios. O registo protege a oficina e permite o histórico do veículo.
Erros comuns
- Trocar injetores/bomba "à sorte" sem medir pressão de rail nem fazer teste de retorno — caro e muitas vezes sem resolver.
- Não programar os códigos IMA/IQA após substituir injetores — motor treme, fuma ou fica em emergência.
- Ignorar o filtro/decantador: água ou entupimento destroem a alta pressão; muitos "problemas de injetores" começam num filtro esgotado.
- Abrir a alta pressão sem aliviar — risco de lesão grave e de contaminar tudo.
- Concluir por um DTC isolado: o código diz onde olhar, não o que substituir. Falta a medição.
- Apagar os códigos antes de registar o freeze frame — perde-se informação valiosa.
- Desprezar as velas de pré-aquecimento num arranque difícil a frio.
- Sujar o circuito ao desmontar (partículas, panos que largam fibra) — avaria induzida pelo próprio técnico.
- Esquecer a purga/estanquidade no fim — o carro parece bom na oficina e falha no cliente.
Glossário
- UCE / EDC — Unidade de Comando Eletrónico do motor diesel (Electronic Diesel Control).
- Common rail — sistema com acumulador comum de alta pressão; separa gerar pressão de injetar.
- Rail — acumulador que mantém a pressão de injeção estável.
- RPS — sensor de pressão de rail.
- IMV — válvula reguladora de admissão da bomba (controla o caudal comprimido).
- DRV / PCV — válvula reguladora de pressão no rail (sangra o excesso).
- Injetor piezoelétrico — injetor comandado por cristal piezo, comutação ultrarrápida.
- IMA / IQA / código de injetor — código de calibração que descreve o desvio do injetor; programa-se na UCE.
- Leak-off (retorno) — gasóleo que o injetor devolve; o seu caudal denuncia desgaste.
- CKP / CMP — sensores de posição de cambota e de árvore de cames.
- MAF / MAP — sensores de massa de ar e de pressão do coletor.
- EGR — recirculação de gases de escape (reduz NOx).
- VGT — turbo de geometria variável.
- Velas de pré-aquecimento (glow plugs) — aquecem a câmara no arranque a frio.
- FAP / DPF — filtro de partículas diesel.
- λ (lambda) — relação ar/combustível relativa; no diesel é sempre > 1 (mistura pobre).
- EOBD — diagnóstico a bordo europeu (equivalente ao OBD-II).
- DTC — código de diagnóstico de avaria.
Síntese
O motor diesel auto-inflama por compressão e regula a potência pela quantidade de gasóleo, funcionando sempre com excesso de ar. A injeção evoluiu da bomba mecânica ao common rail, que separa gerar pressão (bomba + rail + IMV/DRV, até 2000–2500 bar) de injetar (injetores solenoide ou piezo comandados pela UCE). O gasóleo faz um percurso de baixa e alta pressão, protegido por decantador e filtro — a limpeza é crítica. A UCE/EDC deduz o estado do motor pelos sensores (CKP, CMP, RPS, MAF, MAP, ECT, IAT, APP) e comanda atuadores (injetores, IMV/DRV, EGR, VGT, velas). Diagnostica-se com EOBD (DTC, freeze frame, live data, pressão real vs. alvo, correções por cilindro) e com multímetro/osciloscópio, seguindo um método: ouvir, ler, verificar o óbvio, formular hipóteses, testar com valores de referência, reparar, programar códigos e ensaiar. Os ensaios-chave são pressão de rail, retorno dos injetores, estanquidade e compressão. A reparação exige limpeza total, respeito absoluto pela alta pressão, gestão de resíduos e registo da intervenção.
Exercícios resolvidos
1) Por que razão o diesel não precisa de velas de ignição? Porque a inflamação é por compressão: o ar admitido é comprimido a taxas altas (16:1 a 22:1) e aquece a 700–900 °C; ao injetar o gasóleo, este auto-inflama por contacto com o ar quente. As velas do diesel são de pré-aquecimento (glow plugs), servem apenas para aquecer a câmara no arranque a frio, não para gerar faísca.
2) No common rail, o que faz a IMV e o que faz a DRV? A IMV está no lado de admissão da bomba e regula quanto gasóleo entra a ser comprimido — permite gerar só a pressão necessária (eficiente). A DRV/PCV está no rail e sangra o excesso para o retorno, baixando a pressão rapidamente (ex.: ao largar o acelerador). Sistemas com regulação dupla usam as duas para responder depressa nos dois sentidos.
3) Um veículo perde potência e entra em modo de emergência. No live data, a pressão de rail real fica muito abaixo do alvo em carga. Que hipóteses testar primeiro? Pressão real < alvo indica falta de pressão: (a) bomba de alta pressão fraca; (b) fuga no circuito de alta pressão (uniões, DRV a sangrar demais); (c) retorno excessivo dos injetores (teste de leak-off); (d) IMV avariada. Confirmar com manómetro e teste de retorno antes de substituir seja o que for. Verificar também filtro e possível ar no circuito de alimentação.
4) Substituíste dois injetores e agora o motor treme e fuma ao ralenti. O que falta fazer? Falta programar os códigos de calibração (IMA/IQA) dos injetores novos na UCE e correr as adaptações. Sem esses códigos a UCE não conhece os desvios de fabrico e injeta quantidades erradas por cilindro, dando trepidação e fumo. Programar com o equipamento de diagnóstico e reensaiar.
5) Como se faz o teste de retorno (leak-off) e o que revela? Ligam-se provetas graduadas ao retorno de cada injetor e dá-se arranque durante alguns segundos (ou põe-se o motor ao ralenti, conforme o procedimento). Compara-se o caudal recolhido por injetor: caudais muito desiguais identificam o injetor gasto ou com fuga interna (o que devolve muito mais gasóleo). Revela desgaste que não aparece na resistência elétrica.
6) Porque é tão importante o filtro de gasóleo e o decantador num sistema common rail? Porque os componentes de alta pressão têm folgas micrométricas e trabalham a milhares de bar. Água (que o gasóleo absorve) e partículas provocam corrosão e desgaste na bomba (sobretudo na CP4) e nos injetores, podendo libertar limalha que contamina todo o circuito. O decantador separa a água e o filtro retém as partículas: são a barreira que evita reparações caríssimas.