Partilhar: WhatsApp
aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC00201

Sebenta · Atuar de acordo com os procedimentos básicos de navegação (UC00201)

Da esfera terrestre às marcas de navegação, os fundamentos que sustentam qualquer manobra no mar
25h · 2.25 pontos crédito Curso: T. Militar Naval ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta reúne os procedimentos básicos de navegação que qualquer Técnico/a Militar Naval tem de dominar antes de assumir responsabilidades de quarto à ponte, de planeamento ou de coordenação em estado-maior. Navegar é responder, em permanência, a três perguntas: onde estou, para onde vou e como chego lá com segurança.

O percurso segue a lógica do próprio ofício: primeiro entendemos a Terra como superfície de trabalho (forma, dimensões, coordenadas), depois a orientação (rosa-dos-ventos, agulhas, proas), depois o movimento real do navio (rumo e deriva), depois dois fenómenos que condicionam qualquer manobra costeira, as marés e a sinalização marítima (faróis, farolins, marcas). Termina com exemplos de cálculo, os erros mais frequentes e um conjunto de exercícios resolvidos.

Objetivos de aprendizagem (referencial): interpretar os conceitos básicos de navegação e executar as operações elementares de navegação, atuando de acordo com esses conceitos e analisando corretamente as orientações e direções no mar. Aplica-se em Unidades Navais, em Organismos da Marinha e em Estados-Maiores de Comando de Forças Conjuntas ou Combinadas.

1. Navegação: conceito e utilidade

Navegar é o conjunto de técnicas, instrumentos e procedimentos que permitem a uma unidade naval determinar a sua posição, escolher e manter um rumo, e chegar ao destino com segurança. Não é uma tarefa isolada de quem está ao leme: é uma competência transversal, exigida a qualquer militar que precise de interpretar uma posição, um rumo ou uma ordem de manobra.

A navegação combina três tipos de recurso:

Onde se aplica

O referencial identifica três contextos de atuação, todos com o mesmo padrão de exigência:

Em qualquer um destes contextos, os dois critérios de desempenho que orientam esta UC mantêm-se: atuar de acordo com os conceitos básicos de navegação e analisar as orientações e direções no mar.

2. A forma e as dimensões da Terra

Para navegar, trata-se a Terra como uma esfera, aproximação suficiente para os cálculos básicos (a forma exata é um geoide, muito próximo de uma esfera achatada nos pólos). Sobre esta esfera definem-se três elementos geométricos que sustentam toda a navegação:

Círculos máximos e círculos menores

Consoante o plano de corte passe ou não pelo centro da Terra, a circunferência resultante é um círculo máximo ou um círculo menor.

Tipo de círculo O plano passa pelo centro? Exemplos
Círculo máximo sim equador, todos os meridianos
Círculo menor não paralelos, exceto o equador

O equador é simultaneamente um paralelo e um círculo máximo, o único caso em que isso acontece. Cada meridiano, ao unir os dois pólos e passar pelo centro da Terra, é sempre um círculo máximo. Este detalhe não é apenas teórico: um círculo máximo dá sempre a distância mais curta entre dois pontos da esfera, o que fundamenta a navegação em grandes distâncias.

Exemplo resolvido · classificar círculos na esfera terrestre

Classifica como círculo máximo ou círculo menor: (a) o equador; (b) o paralelo de latitude 45° Norte; (c) o meridiano de Greenwich.

Resolução: (a) o equador é círculo máximo, porque o seu plano passa pelo centro da Terra e coincide com o único paralelo que também o é. (b) o paralelo de 45° N é círculo menor, o seu plano é paralelo ao do equador mas não passa pelo centro. (c) o meridiano de Greenwich é círculo máximo, como qualquer meridiano, porque une os dois pólos passando pelo centro da Terra.

3. O sistema de coordenadas geográficas

Qualquer ponto da superfície terrestre localiza-se com dois valores angulares: latitude e longitude.

As linhas de igual latitude chamam-se paralelos; as linhas de igual longitude chamam-se meridianos. Todo o ponto da Terra fica definido, sem ambiguidade, pelo cruzamento de um paralelo com um meridiano.

Escrever e ler uma coordenada

As coordenadas exprimem-se em graus, minutos e segundos de arco, ou em graus e minutos decimais:

Latitude  38° 41' 30" N
Longitude 09° 12' 15" O

Um grau (°) divide-se em 60 minutos ('); um minuto divide-se em 60 segundos ("). A convenção de leitura é sempre a mesma: primeiro a latitude com o seu hemisfério (N ou S), depois a longitude com o seu hemisfério (E ou O).

Um facto essencial liga as coordenadas à distância no mar: um minuto de latitude equivale a uma milha náutica (1852 metros). É por isso que a milha náutica, e não o quilómetro, é a unidade de referência da navegação.

Exemplo resolvido · distância a partir da diferença de latitude

Um navio navega exatamente para Norte, do paralelo 37° 00' N para o paralelo 38° 30' N, sem alterar a longitude. Que distância percorreu, em milhas náuticas?

Resolução: a diferença de latitude é 38° 30' − 37° 00' = 1° 30' = 90 minutos de arco. Como cada minuto de latitude equivale a uma milha náutica, o navio percorreu 90 milhas náuticas.

4. A variação angular

A variação angular, também chamada declinação magnética, é o ângulo, medido no plano horizontal, entre o Norte verdadeiro (geográfico) e o Norte magnético (o indicado pela agulha magnética), num dado local e numa dada data.

Resulta de o pólo magnético da Terra não coincidir com o pólo geográfico. A variação:

Regra de sinal na conversão

Verdadeira = Magnética + variação   (Este soma-se, Oeste subtrai-se)
Magnética  = Verdadeira  variação

A forma mais segura de não errar a regra é escrever sempre a cadeia completa, com o sinal explícito da variação, em vez de a aplicar de memória.

Exemplo resolvido · aplicar a variação

Um navio segue uma proa magnética de 045°. A carta indica uma variação de 8° Oeste. Qual a proa verdadeira?

Resolução: Verdadeira = Magnética + variação. Como a variação é Oeste, subtrai-se: Pv = 045° − 8° = 037°.

5. Orientação no mar e rosa-dos-ventos

A rosa-dos-ventos é a representação gráfica, em círculo, de todas as direções possíveis, dividida tradicionalmente em 32 rumos:

A rosa-dos-ventos é a referência universal de orientação, tanto impressa nas cartas náuticas como fisicamente marcada nas agulhas.

Aparelhos de direção

Orientar-se no mar é combinar sempre a leitura destes aparelhos com a carta náutica e a observação direta do ambiente.

6. Agulhas de marear

As duas famílias de agulhas usadas a bordo têm princípios de funcionamento distintos e complementam-se.

Tipo Princípio Referência Depende de energia?
Agulha magnética agulha imantada alinha-se com o campo magnético terrestre Norte magnético não
Girobússola giroscópio de rotação rápida procura o Norte por efeito giroscópico Norte verdadeiro sim

Vantagens e limitações

A agulha magnética é simples, fiável e funciona sempre, mesmo sem eletricidade, sendo por isso a reserva de emergência a bordo. A sua limitação é estar sujeita a dois erros: a variação (fenómeno natural do planeta) e o desvio (introduzido pelo próprio navio, tratado no capítulo seguinte).

A girobússola dá o Norte verdadeiro diretamente, sem necessidade de correções de variação ou desvio, mas precisa de energia elétrica, de um tempo de arranque para estabilizar e de manutenção técnica.

Cuidados na utilização das agulhas

7. Proas e rumo

Proa é a direção para onde aponta a proa do navio, medida em graus a partir de uma referência de Norte. Consoante a referência usada, há quatro proas distintas.

Proa Referência Erro envolvido
Proa verdadeira (Pv) Norte verdadeiro (geográfico) nenhum
Proa magnética (Pm) Norte magnético variação
Proa da agulha (Pa) Norte da agulha magnética do navio variação + desvio
Proa da giro (Pg) Norte da girobússola erro de giro (normalmente pequeno)

Desvio da agulha

O desvio é o erro introduzido pelo próprio navio (massas metálicas, correntes elétricas, equipamento eletrónico) na leitura da agulha magnética. Ao contrário da variação, que é um fenómeno natural do planeta, o desvio é próprio de cada navio e de cada proa, e vem registado numa tabela de desvios específica dessa unidade.

Cadeia completa de correção, do instrumento até à proa verdadeira:

Proa da agulha (Pa)  + desvio     Proa magnética (Pm)
Proa magnética (Pm)  + variação   Proa verdadeira (Pv)

Para o caminho inverso, de verdadeira para a agulha, aplicam-se as mesmas correções com o sinal trocado, pela ordem contrária.

Rumo, proa e deriva

Proa é para onde aponta o navio; rumo é a direção do percurso efetivamente seguido sobre o fundo. Em água parada e sem vento coincidem; quando há corrente ou vento lateral, a diferença entre os dois chama-se deriva:

Rumo = Proa + deriva   (com o sinal do lado para onde a corrente ou o vento empurram)

Distinguir proa de rumo, e saber estimar a deriva, é central para analisar corretamente as orientações e direções no mar, um dos critérios de desempenho desta UC.

Exemplo resolvido · da proa da agulha à proa verdadeira

Um navio lê na agulha magnética a proa 090°. A tabela de desvios indica, para esta proa, um desvio de 2° Este. A carta indica uma variação de 5° Oeste para a zona.

Resolução: (1) Pa = 090°. (2) Aplicar o desvio, Este soma-se: Pm = 090° + 2° = 092°. (3) Aplicar a variação, Oeste subtrai-se: Pv = 092° − 5° = 087°. Os dois erros trabalham em sentidos opostos neste caso, por isso o efeito final é pequeno.

8. O fenómeno das marés

A maré é a subida e descida periódica do nível do mar, causada sobretudo pela atração gravitacional da Lua e, em menor grau, do Sol, combinada com a rotação da Terra.

Nas fases de Lua nova e Lua cheia, o Sol e a Lua alinham-se e reforçam-se mutuamente: são as marés vivas, de maior amplitude. Nos quartos de Lua, as forças opõem-se em parte: são as marés mortas, de menor amplitude.

Elementos de maré

A tabela de marés

A tabela de marés é a publicação náutica que indica, para um porto e uma data específicos, as horas e as alturas previstas de preia-mar e baixa-mar, sempre referidas a um plano fixo, o zero hidrográfico.

Porto: Lisboa          Data: 14 de setembro

06:12   0,8 m   baixa-mar
12:35   3,4 m   preia-mar
18:40   0,9 m   baixa-mar

Esta informação é indispensável para planear entradas em porto, fundeios e passagens em canais de pouco fundo.

Exemplo resolvido · calcular a altura de água necessária

Um navio precisa de um fundo mínimo de 4,0 metros para entrar num canal com 3,0 metros de profundidade cartografada. Usando a tabela acima, qual a altura de maré mínima necessária, e a que horas pode entrar com segurança?

Resolução: (1) Profundidade necessária: 4,0 m; profundidade cartografada: 3,0 m. (2) Altura de maré mínima: 4,0 − 3,0 = 1,0 m. (3) A preia-mar das 12:35, com 3,4 m, ultrapassa largamente esse mínimo; as baixa-mares (0,8 m e 0,9 m) ficam abaixo. (4) Conclusão: o navio deve entrar próximo das 12:35, com margem de segurança, e evitar as baixa-mares.

9. Faróis, farolins e marcas de navegação

Faróis e farolins são luzes de sinalização marítima que identificam a costa, as entradas de porto e os perigos à navegação. A diferença principal está no alcance e na função.

Sinal Alcance típico Função principal
Farol longo alcance referência principal da costa, pontos notáveis
Farolim curto alcance sinalização local, entradas de porto, canais

Cada luz identifica-se por três características combinadas: cor (branca, vermelha, verde, amarela), período (tempo até o ciclo se repetir) e ritmo (fixa, de ocultações, de grupos de lampejos).

Ler a notação de um farol

As publicações náuticas descrevem cada luz na ordem fixa ritmo, cor, período, alcance:

Fl (2) W 10s 15M

Marcas de navegação

As marcas de navegação (boias e balizas) assinalam canais, perigos e limites de água navegável, e fazem parte do mesmo sistema de sinalização marítima:

Perante uma marca ou uma luz que não se identifica com segurança, o procedimento correto é reduzir velocidade e confirmar por outros meios (carta, radar, ecobatímetro, observação) antes de prosseguir.

Erros comuns

Glossário

Síntese

Os procedimentos básicos de navegação assentam numa cadeia lógica: primeiro entende-se a Terra como esfera de trabalho, com círculos máximos e menores e o sistema de latitude e longitude. Sobre essa base, a rosa-dos-ventos e as agulhas (magnética e girobússola) dão a orientação, corrigida pela variação e pelo desvio até chegar à proa verdadeira. A diferença entre proa e rumo, a deriva, explica por que o navio nem sempre segue exatamente para onde aponta. Por fim, dois fenómenos condicionam qualquer manobra costeira: as marés, lidas na tabela própria, e a sinalização marítima, faróis, farolins e marcas, lida sempre em conjunto com a carta. Tudo isto exige rigor, responsabilidade e conduta militar em cada leitura e cada cálculo.

Exercícios resolvidos

1. Um navio está na latitude 41° 09' N. Quantos minutos de arco o separam do equador, e a quantas milhas náuticas correspondem?

Resolução: a distância ao equador em minutos de arco é 41° 09' convertido a minutos: 41 × 60 + 9 = 2469 minutos de arco. Como cada minuto de latitude equivale a uma milha náutica, correspondem a 2469 milhas náuticas.

2. A carta indica variação de 6° Este. O navio segue uma proa da agulha de 120°, sem desvio conhecido para esta proa. Qual a proa verdadeira?

Resolução: sem desvio, Pm = Pa = 120°. Aplicando a variação Este (soma-se): Pv = 120° + 6° = 126°.

3. Explica, em duas frases, a diferença entre variação e desvio.

Resolução: a variação é um fenómeno natural, resultado de o pólo magnético não coincidir com o pólo geográfico, e depende do local e da data. O desvio é um erro introduzido pelo próprio navio, resultado de massas metálicas ou correntes elétricas a bordo, e depende do navio e da proa seguida.

4. Um navio aponta a proa a 090° mas, devido a uma corrente lateral, o seu percurso real sobre o fundo é 095°. Qual é a proa, qual é o rumo, e qual é a deriva?

Resolução: a proa é 090° (para onde aponta o navio); o rumo é 095° (o percurso real); a deriva é a diferença entre os dois, 095° − 090° = , no sentido do rumo.

5. Na tabela de marés de um porto, a baixa-mar é às 06:00 com 0,6 m e a preia-mar seguinte é às 12:00 com 3,2 m. Qual é a amplitude desta maré?

Resolução: a amplitude é a diferença entre a altura de preia-mar e a de baixa-mar: 3,2 − 0,6 = 2,6 metros.

6. Decifra a notação de farol "Oc R 6s 8M" e explica cada parte.

Resolução: Oc indica luz de ocultações (fica ligada a maior parte do tempo, com breves interrupções); R indica cor vermelha; 6s indica período de seis segundos por ciclo; 8M indica alcance nominal de oito milhas náuticas.

7. Um navio entra num porto e avista uma marca vermelha ao lado bombordo. O que indica, e que atitude deve ter se não tiver a certeza do significado de outra marca à frente?

Resolução: uma marca vermelha a bombordo, no sentido de entrada em porto, indica o limite lateral do canal desse lado, seguindo a regra do sistema de marcas laterais. Perante uma marca cujo significado não é claro, a atitude correta é reduzir velocidade e confirmar na carta, no radar ou por outra fonte, antes de continuar.