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aulify · Sebenta
UC · Unidade de Competência · UC00194

Sebenta · Executar os procedimentos de marinharia (UC00194)

O navio, o quarto à ponte, a faina, os cabos de massa, as embarcações miúdas e a balizagem marítima
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Militar Naval ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Introdução

Esta sebenta cobre os procedimentos de marinharia: o conjunto de conhecimentos e práticas que qualquer marinheiro tem de dominar antes de embarcar. Não é uma disciplina teórica, é a base prática de tudo o resto: quem não sabe dar um nó, ler uma marca de balizagem ou comunicar por rádio com rigor, não está pronto para o mar.

O percurso segue a lógica de um marinheiro de quarto: primeiro conhece-se o navio, depois as funções de vigilância, a faina, a conservação do material, os cabos e a arte de marinheiro, as embarcações miúdas, a balizagem e as regras de navegação, as comunicações e, por fim, a legislação e a segurança no trabalho.

Objetivos de aprendizagem (referencial): executar as funções inerentes ao marinheiro de quarto à ponte; efetuar a faina; conservar e manter o material; efetuar trabalhos em cabos de massa; e operar com embarcações miúdas, cumprindo sempre as regras e deveres do vigia, a legislação aplicável e as normas de segurança.

Esta é uma unidade eminentemente prática. A teoria explica o porquê de cada procedimento, mas o domínio real só se atinge repetindo cada nó, cada volta, cada manobra, até se tornar automático. Um marinheiro que hesita a dar um nó ou a interpretar uma marca de balizagem está a atrasar toda a guarnição num momento em que o tempo é escasso.

1. O navio: regiões e características

Um marinheiro competente começa por conhecer o navio como um espaço com regiões, pavimentos e compartimentos bem definidos.

Zonas e pavimentos

As seis características do navio

Característica Significado
Flutuabilidade capacidade de se manter à tona
Estabilidade capacidade de voltar à posição de equilíbrio após ser inclinado
Tranquilidade comportamento suave face à ondulação
Manobrabilidade facilidade em mudar de rumo e velocidade
Habitabilidade condições de vida a bordo para a guarnição
Navegabilidade aptidão para navegar em segurança nas condições previstas

Exemplo resolvido · Localizar-se a bordo

Um marinheiro recebe a ordem: "dirige-te ao paiol de bombordo, no pavimento inferior, a vante do compartimento das máquinas". Como interpreta?

  1. Bombordo: lado esquerdo do navio, olhando para a proa.
  2. Pavimento inferior: um dos níveis mais baixos do navio, próximo do porão.
  3. A vante do compartimento das máquinas: mais próximo da proa do que a sala de máquinas.

O marinheiro combina estas três referências para chegar ao local exato, sem qualquer dúvida.

2. O marinheiro de quarto à ponte

Funções e vozes para o leme

O quarto à ponte é um serviço de vigilância contínua. O marinheiro de quarto executa as vozes para o leme: transmite ao timoneiro as ordens de rumo dadas pelo oficial de quarto, repetindo sempre a ordem em voz alta antes de a executar, para confirmar que foi bem entendida.

Avistamentos

Um avistamento é qualquer objeto, embarcação, luz ou obstáculo detetado durante o quarto. O procedimento é sempre o mesmo:

  1. Detetar o objeto (visual, sonoro ou radar).
  2. Identificar, tanto quanto possível, o que é e a sua direção aproximada.
  3. Reportar de imediato ao oficial de quarto, sem esperar para "ter a certeza".

As regras e os deveres do vigia

Cumprir as regras e deveres do vigia é um critério de desempenho explicitamente avaliado nesta UC.

3. A faina: postos e material

O que é a faina

Faina é o conjunto de trabalhos manuais coordenados a bordo: amarração, fundeio, reboque, embarque e desembarque de material. Cada faina tem postos definidos, com responsabilidade individual clara.

Material inerente à faina

Utilizar o material inerente à faina é um critério de desempenho avaliado nesta UC.

O parque de faina

O parque de faina é a zona do convés onde se guarda e organiza o material. Boas práticas:

Exemplo resolvido · Preparar um posto de faina

Situação: vai realizar-se uma amarração ao cais. Como se prepara o posto de proa?

  1. Verificar o material inerente à faina: cabo de amarração, defensas, cunho da proa.
  2. Confirmar que o cabo está bem colhido, sem nós, e pronto a lançar.
  3. Colocar EPI adequado (luvas, calçado antiderrapante).
  4. Aguardar ordem do responsável do posto antes de lançar o cabo.

A preparação antecipada é o que separa uma faina rápida e segura de uma faina lenta e arriscada.

4. Embarcações miúdas: tipos, palamenta e guarnição

Tipos e propulsão

As embarcações miúdas classificam-se principalmente pelo meio de propulsão: remo, vela ou motor. Cada tipo serve uma finalidade: ligação a terra, transporte de pessoal, exercícios de salvamento.

Palamenta

A palamenta é o conjunto de equipamento próprio da embarcação: remos, boicador, âncora e cabo de fundeio, cabos de amarração, defensas e equipamento de segurança (coletes, extintor, sinalização).

A guarnição

Função Responsabilidade
Patrão comanda a embarcação; responde pela segurança de todos a bordo
Proeiro trabalha a proa: amarração, fundeio e sinalização
Sota-proeiro apoia o proeiro nas manobras de proa

Regras de embarque e desembarque de pessoal

5. Conservação e manutenção do material

Formas de deterioração

Forma Causa
Corrosão ação química da água salgada sobre metais
Desgaste mecânico atrito, tração repetida, vibração
Degradação solar perda de resistência em cabos e plásticos
Apodrecimento humidade em madeiras e materiais orgânicos

Normas e processos de conservação

⚠️ Respeitar as normas de segurança na conservação e manutenção do material é critério de desempenho explícito. Pintura e reparação envolvem riscos de inalação e cortes: o EPI não é opcional.

Registo e comunicação de avarias

A conservação do material não termina na reparação em si; inclui também o registo do que foi feito.

Exemplo resolvido · Diagnosticar deterioração

Um marinheiro encontra um cunho de metal com manchas escuras e uma zona a "descascar". O que faz?

  1. Identifica a corrosão como causa provável, dada a exposição à água salgada.
  2. Comunica a situação ao responsável, sem tentar disfarçar com tinta por cima.
  3. Segue o processo de reparação: limpeza, preparação da superfície e aplicação da tinta correta, com EPI.
  4. Regista a intervenção para acompanhar a evolução do material.

6. Cabos de massa e arte de marinheiro

Tipos de cabos

Efetuar trabalhos em cabos de massa é uma das cinco realizações desta UC.

Nós

Uso
Laçada alça fixa na ponta de um cabo
Nó direito unir dois cabos de igual diâmetro
Nó lais de guia alça que não aperta, para resgate
Nó de escota unir dois cabos de diâmetro diferente

Exemplo resolvido · Fazer um nó lais de guia

  1. Formar uma pequena volta no cabo, deixando o chicote por cima ("o poço").
  2. Passar o chicote por dentro da volta ("a cobra sai do poço").
  3. Contornar o cabo fixo por trás ("dá a volta à árvore").
  4. Voltar a entrar na volta pelo mesmo sítio ("e volta para o poço").
  5. Puxar o chicote e o cabo fixo em simultâneo para apertar.

Resultado: uma alça que não aperta sobre quem a usa, mesmo sob carga, ideal para lançar a um náufrago.

Voltas

Manejos

Manobras de cabos mais comuns

7. Balizagem marítima e RIEAM

Sistema de balizagem marítima (AISM)

O sistema de balizagem, definido pela Associação Internacional de Sinalização Marítima (AISM), sinaliza canais, perigos e zonas de navegação através de marcas com cor, forma de tope e, de noite, ritmo de luz próprios:

O RIEAM

O Regulamento Internacional para Evitar Abalroamentos no Mar (RIEAM) estabelece:

Respeitar a legislação aplicável à navegação em vigor é critério de desempenho desta UC.

Exemplo resolvido · Interpretar uma marca lateral

Ao entrar num canal, um marinheiro avista uma marca vermelha de topo cilíndrico a bombordo. O que significa?

  1. Marca lateral de cor vermelha: limite do canal do lado de bombordo, na entrada vinda do mar para terra.
  2. O navio deve manter-se a estibordo desta marca para seguir dentro do canal seguro.
  3. Se a marca estivesse a estibordo (verde), a leitura seria simétrica.

8. Comunicações e Código Internacional de Sinais

Comunicações radiotelefónicas

Código Internacional de Sinais (CIS): bandeiras A e B

Bandeira Significado
A (ALFA) "tenho um mergulhador na água, mantenha-se afastado a baixa velocidade"
B (BRAVO) "estou a carregar, descarregar ou a transportar mercadoria perigosa"

Ambas exigem que outras embarcações se afastem ou reduzam a velocidade.

9. Manobras com embarcações miúdas e aproximação ao náufrago

Manobras principais

Reboque de emergência

Quando uma embarcação fica sem propulsão, a manobra de reboque exige coordenação cuidadosa:

  1. Aproximar-se lentamente, avaliando a deriva de ambas as embarcações.
  2. Passar um cabo de reboque resistente, fixo com uma volta de fiel ou volta e cote, conforme a situação.
  3. Iniciar o reboque com velocidade muito reduzida, aumentando gradualmente.
  4. Manter comunicação constante entre as duas embarcações durante todo o percurso.

O reboque mal preparado pode partir o cabo ou danificar as duas embarcações; a paciência na preparação compensa sempre.

Exemplo resolvido · Aproximação ao náufrago

  1. Avistar e nunca perder o náufrago de vista, apontando continuamente na sua direção.
  2. Aproximar-se contra o vento e a corrente, para não ser empurrado sobre ele.
  3. Reduzir a velocidade progressivamente.
  4. Parar junto ao náufrago, evitando o hélice do seu lado.
  5. Recolher com boicador, cabo ou diretamente pela guarnição.

A regra de ouro é aproximar sempre contra vento e corrente; ao contrário, a embarcação é empurrada sobre o náufrago.

10. Legislação, EPI e segurança no trabalho

Legislação aplicável

Equipamento de proteção individual e segurança

Erros comuns

Glossário

Síntese

A marinharia começa por conhecer o navio (regiões e características), segue para o quarto à ponte e a faina, exige conservação do material e domínio dos cabos de massa (nós, voltas, manejos), aplica-se em embarcações miúdas (palamenta, guarnição, manobras até à aproximação ao náufrago) e depende de uma linguagem comum de segurança: balizagem marítima, RIEAM, CIS, comunicações radiotelefónicas e legislação em vigor. Tudo isto sustentado por atitudes de responsabilidade, rigor e cooperação com a equipa.

Nenhum destes blocos vive isolado numa saída real ao mar. Um simples exercício de amarração combina a leitura de uma marca de balizagem para chegar ao cais, a comunicação por rádio com a torre do porto, o trabalho coordenado da guarnição e, no fim, o registo do estado do material usado. É esta integração, mais do que a memorização de cada peça em separado, que define um bom marinheiro.

Exercícios resolvidos

1. Um oficial de quarto dá a ordem "leme a estibordo cinco graus". Qual é o procedimento correto do marinheiro de quarto?

Resolução: repetir a ordem em voz alta ("leme a estibordo cinco graus") antes de a transmitir ao timoneiro, confirmando que foi corretamente entendida, e só depois garantir que é executada.

2. Porque é que um marinheiro nunca deve decidir sozinho que um avistamento "não é relevante"?

Resolução: porque a função do vigia é reportar tudo o que observa; a avaliação da relevância cabe ao oficial de quarto, que tem a visão de conjunto da situação.

3. Que tipo de cabo se escolhe para uma amarração pesada de um navio ao cais, e porquê?

Resolução: um cabo de aço ou um cabo de amarração de grande diâmetro próprio para o efeito, porque tem a resistência necessária para a carga envolvida, ao contrário de um cabo de fibra fina.

4. Numa embarcação miúda, quem tem a responsabilidade final pela segurança de todos a bordo?

Resolução: o patrão, que comanda a embarcação; o proeiro e o sota-proeiro apoiam nas manobras de proa, mas a responsabilidade final é do patrão.

5. Que nó se usa para criar uma alça de resgate que não aperta sobre a pessoa, e como se faz?

Resolução: o nó lais de guia. Faz-se uma volta no cabo, o chicote sai por dentro dela ("a cobra sai do poço"), contorna o cabo fixo ("dá a volta à árvore") e volta a entrar na volta ("e volta para o poço"), apertando depois.

6. Ao entrar num canal, uma marca é vermelha e de topo cilíndrico. De que lado se deve manter o navio?

Resolução: o navio deve manter-se a estibordo desta marca lateral vermelha, seguindo dentro do canal seguro (regra "vermelho a bombordo à entrada").

7. Na aproximação a um náufrago, a que lado se deve aproximar a embarcação em relação ao vento e à corrente, e porquê?

Resolução: deve aproximar-se contra o vento e a corrente, para que estes não empurrem a embarcação sobre o náufrago durante a manobra final.

8. Porque é que o registo de uma reparação de material é tão importante como a reparação em si?

Resolução: porque permite à guarnição seguinte conhecer o histórico do material, acompanhar zonas já identificadas com desgaste ou corrosão, e antecipar a próxima intervenção, evitando que o mesmo problema seja "redescoberto" do zero.

9. Ao preparar um reboque de emergência, porque se deve aumentar a velocidade gradualmente, e não de imediato?

Resolução: um arranque brusco cria uma tensão súbita e elevada no cabo de reboque, que pode parti-lo ou danificar as fixações de qualquer uma das embarcações. O aumento gradual permite que o cabo e as fixações absorvam a carga progressivamente, em segurança.