Sebenta · Aprimorar a condição física geral e adaptação ao meio aquático em contexto militar naval (UC00191)
- Introdução
- 1. O papel desta UC no percurso de condição física
- 2. Princípios do treino: força, resistência e flexibilidade
- 3. Métodos de treino: contínuo, intervalado e circuito
- 4. Perceção de esforço: as escalas de Borg e CR10
- 5. Planeamento do treino: periodização e tapering
- 6. Aperfeiçoamento da técnica ventral: bruços e crawl
- 7. Técnica propulsiva ventral: pernas e braços
- 8. Técnica de apneia em meio aquático (nível avançado)
- 9. Saltos para a água
- 10. Normas de segurança do treino físico e prevenção de lesões
- 11. Normas de utilização dos espaços e equipamentos de educação física e prática desportiva
- 12. Atitudes do militar avançado
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta é a terceira e última UC do percurso de condição física do curso Técnico/a Militar Naval, depois de Preparar (UC00189) e Desenvolver (UC00190). Nas duas anteriores construíste a base aeróbia, a força e a flexibilidade gerais, aprendeste os fundamentos das técnicas ventrais de nado (bruços e crawl) e adquiriste as primeiras competências de sobrevivência em meio aquático. Este documento assume tudo isso como adquirido.
O que muda aqui é o nível de exigência e a responsabilidade. Já não se trata de aprender o gesto, mas de o aperfeiçoar: nadar mais depressa com o mesmo esforço, treinar com métodos estruturados em vez de "fazer exercício", planear o próprio treino rumo a um pico de forma e cumprir as normas de segurança sem depender constantemente de instrução externa.
Objetivos de aprendizagem (referencial): incrementar as capacidades físicas e motoras compatíveis com a atividade militar naval, e aperfeiçoar as técnicas de natação, cumprindo sempre o normativo regulamentar em vigor, ajustando os exercícios ao desenvolvimento das capacidades físicas e coordenando as técnicas de nado com o controlo respiratório.
1. O papel desta UC no percurso de condição física
As duas UCs anteriores tinham um foco de introdução e de consolidação. Esta tem um foco de aperfeiçoamento e autonomia:
- Incrementar capacidades físicas e motoras compatíveis com a atividade militar naval: não é treinar "mais", é treinar melhor, com métodos escolhidos para o objetivo certo.
- Aperfeiçoar as técnicas de natação: refinar o que já se sabe fazer, eliminando erros que gastam energia sem produzir velocidade.
- Autonomia no âmbito das suas funções: o militar avançado é capaz de interpretar o seu próprio estado de forma e ajustar o plano, sempre dentro do normativo em vigor, não à revelia dele.
Este capítulo é o fio condutor de tudo o resto: cada técnica de treino e cada correção de nado que se segue serve estes dois objetivos, sob a atitude de autonomia responsável.
2. Princípios do treino: força, resistência e flexibilidade
Um treino avançado não improvisa a intensidade. Aplica quatro princípios sempre presentes:
- Sobrecarga progressiva: o estímulo tem de exceder ligeiramente o que o corpo já tolera, sem saltos bruscos.
- Especificidade: treina-se o que se quer melhorar (resistência aeróbia, força funcional, flexibilidade articular), com exercícios próximos do gesto real.
- Individualização: o mesmo treino produz respostas diferentes em pessoas diferentes; a intensidade tem de ser calculada para cada militar.
- Reversibilidade: o que não se mantém, perde-se. Daí a necessidade de planeamento contínuo, não só de picos isolados.
Calcular a frequência cardíaca máxima
Para calcular intensidades com rigor, começa-se pela frequência cardíaca máxima (FCmáx). Há duas fórmulas comuns:
| Fórmula | Cálculo | Origem |
|---|---|---|
| Clássica | 220 − idade | estimativa antiga, nunca validada com rigor estatístico |
| Tanaka | 208 − 0,7 × idade | regressão sobre milhares de indivíduos, erro médio menor |
Exemplo resolvido · FCmáx de um militar de 24 anos
- Clássica: 220 − 24 = 196 bpm.
- Tanaka: 208 − 0,7 × 24 = 208 − 16,8 = 191,2 ≈ 191 bpm.
A diferença (5 bpm) parece pequena, mas muda a zona de treino calculada a seguir. Nesta UC usa-se sempre Tanaka, por ser a fórmula com base estatística mais sólida.
A fórmula de Karvonen (frequência cardíaca de reserva)
Treinar a uma percentagem simples da FCmáx ignora a forma física de base do militar. A fórmula de Karvonen corrige isto ao usar a frequência cardíaca de reserva (a diferença entre a FCmáx e a frequência cardíaca de repouso):
FC alvo = ((FCmáx − FC repouso) × %intensidade) + FC repouso
Exemplo resolvido · zonas de treino com Karvonen
Militar de 24 anos, FCmáx (Tanaka) = 191 bpm, FC repouso = 58 bpm. Reserva = 191 − 58 = 133 bpm.
- Zona de resistência aeróbia (70% a 85%): (133 × 0,70) + 58 = 151 bpm; (133 × 0,85) + 58 = 171 bpm. Zona: 151 a 171 bpm.
- Zona de treino intervalado de alta intensidade (85% a 95%): (133 × 0,85) + 58 = 171 bpm; (133 × 0,95) + 58 = 184 bpm. Zona: 171 a 184 bpm.
3. Métodos de treino: contínuo, intervalado e circuito
O referencial exige o domínio de três métodos de treino:
| Método | Como funciona | Objetivo principal |
|---|---|---|
| Contínuo | esforço constante, sem pausas, duração prolongada | resistência aeróbia de base, zona 70-85% FCmáx |
| Intervalado | alternância entre esforço intenso e recuperação | capacidade e potência aeróbia/anaeróbia, zona 85-95% |
| Circuito | estações de exercícios variados, pouco descanso entre elas | força e resistência muscular combinadas |
O treino contínuo
Mantém-se a intensidade estável (zona de resistência aeróbia calculada por Karvonen) durante 20 a 40 minutos, em corrida, natação ou remo. É a base sobre a qual assenta toda a capacidade cardiorrespiratória.
O treino intervalado
Alterna blocos de esforço elevado (zona 85-95%) com blocos de recuperação ativa ou passiva. Um formato típico: 8 repetições de 400 metros de nado a ritmo forte, com 60 segundos de recuperação entre cada uma. Desenvolve a capacidade de sustentar velocidade e de recuperar depressa, essencial numa prova de aptidão cronometrada.
O treino em circuito
Combina exercícios de força (flexões, abdominais, agachamentos, tração) em estações, com pouco ou nenhum descanso entre elas, e descanso mais longo entre voltas ao circuito. Diretrizes gerais de treino de força (não são tabelas oficiais de prova, são princípios de fisiologia do exercício):
- Resistência muscular localizada: 40% a 60% de 1RM, 15 a 20 repetições.
- Força e hipertrofia: 65% a 80% de 1RM, 8 a 12 repetições.
Exemplo resolvido · sessão de circuito de 20 minutos
4 voltas de 6 estações (flexões, prancha, agachamento com salto, remada com elástico, abdominais, corrida no lugar), 40 segundos por estação, 20 segundos de transição, 2 minutos de descanso entre voltas. Intensidade percebida alvo: RPE 14 a 16 na escala de Borg (ver capítulo seguinte).
4. Perceção de esforço: as escalas de Borg e CR10
Nem sempre há um cardiofrequencímetro disponível. As escalas de perceção subjetiva de esforço permitem regular a intensidade sem equipamento, o que é central para a autonomia do militar no seu próprio plano.
| Escala | Amplitude | Uso típico |
|---|---|---|
| Borg 6-20 | 6 (repouso total) a 20 (esforço máximo) | esforço cardiorrespiratório geral; regra prática: RPE × 10 aproxima a FC |
| CR10 | 0 (nada) a 10 (esforço máximo absoluto), com meios pontos | esforço muscular localizado ou dor, mais intuitiva |
Exemplo resolvido · usar Borg para validar uma zona
Um militar sente RPE 15 (Borg 6-20) a meio de uma série de treino contínuo. Regra prática: 15 × 10 = 150 bpm, dentro da zona de resistência aeróbia calculada (151-171 bpm) para o exemplo do capítulo 2. A perceção confirma a intensidade planeada: pode manter o ritmo.
5. Planeamento do treino: periodização e tapering
Um plano de treino avançado organiza-se em ciclos, para chegar a um pico de forma numa data concreta, como a de uma prova de aptidão física:
- Macrociclo: o período total (por exemplo, um trimestre).
- Mesociclo: blocos de 3 a 6 semanas com um objetivo predominante (base, desenvolvimento, pico).
- Microciclo: a semana de treino, com sessões concretas.
Um mesociclo de 8 semanas rumo à prova
Exemplo resolvido · periodização de 8 semanas
- Semanas 1-2 (base): volume alto, intensidade moderada (70-75% FCmáx), foco em treino contínuo e técnica.
- Semanas 3-5 (desenvolvimento): intensidade sobe (75-90%), introduz-se mais treino intervalado e circuito.
- Semanas 6-7 (pico): sessões de intensidade elevada mas curtas, simulação da prova.
- Semana 8 (tapering): o volume desce 40% a 60%, a intensidade mantém-se para preservar o estímulo, o descanso e a afinação técnica aumentam.
O tapering (afinação final) é a fase mais mal compreendida: reduzir o volume não é preguiça, é a forma de chegar ao dia da prova recuperado e não fatigado, sem perder a adaptação já conquistada.
Sobre as provas de aptidão física
O critério de desempenho desta UC exige cumprir "o normativo regulamentar em vigor". Uma prova de aptidão física militar combina tipicamente uma componente de resistência cardiorrespiratória (corrida ou natação cronometrada), uma componente de força e resistência muscular (por exemplo flexões e abdominais) e, neste curso, uma componente aquática. Esta sebenta não apresenta tabelas de referência oficiais: os valores exigidos mudam e pertencem ao regulamento da unidade de formação. Consulta sempre o normativo em vigor antes de qualquer avaliação.
6. Aperfeiçoamento da técnica ventral: bruços e crawl
Aperfeiçoar não é repetir mais vezes o mesmo gesto impreciso. É corrigir o pormenor que rouba velocidade.
Crawl
- Rotação do corpo ao longo do eixo, não só dos braços, para alcançar mais água a cada braçada.
- Respiração bilateral (para os dois lados) sempre que possível, para equilibrar a rotação e ver ambos os lados.
- Cabeça alinhada: olhar para o fundo, não para a frente, para não baixar as pernas.
- Eliminar a "pausa morta" no início da braçada: entrar a mão na água já a iniciar a tração.
Bruços
- Fase de deslize (glide): manter o corpo hidrodinâmico depois de cada ciclo de pernas, sem apressar a próxima braçada.
- Sincronização: tração dos braços, respiração, pernada e deslize num só ciclo fluido, sem paragens.
- Reduzir o levantamento excessivo da cabeça e dos ombros, que aumenta a resistência frontal.
Exemplo resolvido · corrigir um erro de crawl
Um militar cansa-se depressa a crawl apesar de bom condicionamento. Observação: braçada curta, sem rotação do tronco. Correção: exercício de "braço só" com prancha entre as pernas, focado em rodar o ombro e alcançar mais à frente antes de puxar. Repetir 4 séries de 25 metros, com foco técnico, não em velocidade.
7. Técnica propulsiva ventral: pernas e braços
A propulsão eficiente vem do detalhe de cada segmento:
- Crawl, pernas: batimento contínuo a partir da anca (não do joelho), tipicamente 6 batidas por ciclo de braços, tornozelos relaxados.
- Crawl, braços: tração em "S", com as fases de entrada, agarrar a água (catch), puxar, empurrar e recuperar.
- Bruços, pernas: pernada em chicote (whip kick), pés a rodar para fora no impulso, mais eficiente do que a antiga pernada em tesoura.
- Bruços, braços: tração em formato de coração, curta e rápida, seguida do deslize longo.
O objetivo é sempre o mesmo: maximizar a propulsão e minimizar o arrasto, com o mínimo gasto de energia por metro percorrido.
8. Técnica de apneia em meio aquático (nível avançado)
A apneia treinada aqui parte sempre da posição de flutuação, nunca de um mergulho brusco. É uma competência que exige o máximo de rigor de segurança de toda a UC.
Regras de segurança, sem exceção
- É proibida a hiperventilação antes da apneia. Respirar depressa e fundo várias vezes não aumenta o oxigénio disponível de forma útil, mas atrasa o sinal de alarme do corpo (o impulso de respirar vem do CO2 acumulado, não da falta de oxigénio), o que pode causar um blackout em água rasa: perda de consciência súbita e sem aviso, mesmo em água pouco profunda.
- A apneia só se pratica com vigilância 1 para 1: um nadador-salvador ou instrutor a observar continuamente, pronto a atuar, nunca só "um colega distraído ao lado".
- Nunca se nada ou pratica apneia sozinho, em nenhuma circunstância, mesmo com nadador-salvador presente no espaço.
- Reconhecer os sinais precoces (visão em túnel, formigueiro, tontura) como ordem de parar, não de aguentar mais um pouco.
Contraindicações à prática de apneia: problemas cardíacos ou respiratórios não diagnosticados ou não autorizados, gripe ou infeção respiratória recente, mal-estar do dia, ou qualquer medicação que afete o estado de alerta. Em caso de dúvida, não se pratica, remete-se para avaliação médica. A apneia não é um exercício "para todos, sempre".
Progressão técnica
- Expiração parcial e controlada antes da imersão (não hiperventilar).
- Posição de flutuação estável, corpo relaxado.
- Imersão suave, sem esforço muscular desnecessário que consome oxigénio.
- Regresso à superfície de forma controlada, antes do limite pessoal.
9. Saltos para a água
- Confirmar sempre a profundidade antes de qualquer salto; nunca saltar de cabeça para água de profundidade desconhecida.
- Entrada de pés, com o corpo direito, é a opção segura por omissão.
- Entrada de cabeça, só em profundidade conhecida, supervisionada, com os braços a proteger a cabeça na entrada.
- Confirmar que a zona de entrada está livre de outros nadadores antes de saltar.
10. Normas de segurança do treino físico e prevenção de lesões
Prevenção de lesões em terra
- Aquecimento antes e retorno à calma depois de qualquer sessão, sem exceção.
- Progressão gradual de volume e intensidade; saltos bruscos são a principal causa de lesão.
- Hidratação e nutrição adequadas ao volume de treino.
Sobretreino
Sinais de sobretreino: fadiga persistente, queda de rendimento apesar do esforço mantido, perturbação do sono, irritabilidade fora do habitual, maior suscetibilidade a pequenas lesões. A resposta correta é reduzir a carga, nunca "empurrar" mais na esperança de compensar. Sobretreino não se resolve com mais treino, resolve-se com descanso planeado.
Hipotermia e choque térmico de água fria
A imersão em água fria coloca dois riscos distintos, com respostas diferentes:
| Risco | Quando ocorre | Sinais | Resposta |
|---|---|---|---|
| Choque térmico de água fria | nos primeiros 1 a 3 minutos de imersão súbita | reflexo de sobressalto, hiperventilação involuntária, subida brusca da frequência cardíaca e da pressão arterial | manter a calma, flutuar, controlar a respiração; é a fase de maior risco de afogamento, mesmo em nadadores experientes |
| Hipotermia | após minutos a horas de exposição prolongada ao frio | tremores incontroláveis, confusão, perda de coordenação, pele muito fria | retirar da água, isolar do frio e do vento, reaquecer sem fricção e manusear com muito cuidado (um movimento brusco pode ser perigoso para o coração de uma pessoa hipotérmica) |
O choque térmico acontece logo à entrada em água fria, antes de haver perda relevante de temperatura corporal. É por isso que uma entrada súbita em água fria é sempre mais arriscada do que uma entrada progressiva, e nunca deve ser feita sozinho ou sem aviso a quem vigia.
Sinais de afogamento
O afogamento real é silencioso. Ao contrário da imagem comum de braços a bater e gritos, uma pessoa a afogar-se tipicamente não consegue chamar por ajuda (a respiração tem prioridade sobre a fala), mantém a boca à altura da água, abre e fecha a boca como um peixe, tem o corpo na vertical sem impulso de pernas eficaz, e o olhar vidrado ou os olhos fechados. Pode durar menos de um minuto. Vigiar significa procurar estes sinais, não esperar por gritos ou salpicos.
Cadeia de sobrevivência no afogamento
Em caso de afogamento, a sequência de atuação segue uma cadeia de sobrevivência, em que cada elo depende do anterior:
- Prevenir: vigilância ativa, normas de segurança, nunca nadar sozinho.
- Reconhecer: identificar os sinais de afogamento (silenciosos, ver acima) o mais rápido possível.
- Fornecer flutuação: alcançar, atirar ou remar um meio de flutuação antes de qualquer outra ação.
- Retirar da água e pedir ajuda: só entrar a nadar como socorrista se tiver meios e formação para o fazer; em qualquer caso, ligar 112 de imediato.
- Suporte básico de vida, se necessário: se a vítima estiver inconsciente e sem respiração normal, iniciar o SBV do afogado começando pelas 5 insuflações iniciais, antes do ciclo habitual de compressões e insuflações (a prioridade imediata é a falta de oxigénio, não a circulação, ao contrário de uma paragem cardíaca comum).
Exemplo resolvido · aplicar a cadeia de sobrevivência
Um militar avista um colega a boiar de forma estranha na piscina, sem gritar, com a boca a abrir e fechar junto à superfície. Qual a sequência correta de atuação?
- Reconhecer os sinais (silêncio, sem impulso de pernas eficaz) como afogamento, não como brincadeira.
- Alcançar ou atirar um meio de flutuação, gritar por ajuda e pedir que alguém ligue 112.
- Só entrar na água a nadar se tiver formação de socorrismo aquático; caso contrário, manter o contacto verbal e o meio de flutuação até chegar ajuda.
- Se a vítima ficar inconsciente e sem respiração normal ao ser retirada da água, iniciar o SBV do afogado, começando pelas 5 insuflações iniciais.
Emergências aquáticas na prática
- Nunca entrar na água para salvar alguém sem meios ou formação de socorrismo: alcançar ou atirar um objeto flutuante é sempre o primeiro recurso.
- Abordar uma vítima em pânico por trás, para evitar ser agarrado e arrastado para o fundo.
- Esta matéria é segurança geral, não substitui formação certificada de socorrismo aquático nem o normativo em vigor da unidade.
11. Normas de utilização dos espaços e equipamentos de educação física e prática desportiva
- Verificar o estado do equipamento desportivo e de natação (pranchas, pull buoy) antes de o usar.
- Respeitar a lotação e as regras próprias da piscina (faixas de nado, sinalização, horários).
- Arrumar o equipamento no fim de cada sessão, no local próprio.
- Reportar qualquer equipamento danificado antes de o usar novamente.
12. Atitudes do militar avançado
O referencial desta UC não avalia só o gesto técnico, avalia também a forma como o militar se comporta ao longo do treino. Estas atitudes ganham peso precisamente nesta fase avançada, porque é aqui que o militar treina com mais autonomia e menos supervisão direta:
- Responsabilidade e autonomia: cumprir o plano de treino e as normas de segurança mesmo sem alguém a verificar cada passo.
- Autoconhecimento e autocontrolo: reconhecer os próprios limites de esforço e de apneia, e parar antes de os ultrapassar.
- Autoconfiança e resiliência: manter o plano nas semanas mais exigentes do mesociclo, sem desanimar nem "queimar etapas".
- Perseverança e combatividade: sustentar a progressão ao longo de semanas, não só numa sessão isolada.
- Cooperação e camaradagem: a vigilância 1 para 1 na apneia e o apoio mútuo nos saltos e nas sessões de circuito dependem de cada um cumprir o seu papel para o colega.
- Disciplina, conduta e ética militar, e respeito pelas normas: o normativo regulamentar em vigor aplica-se sempre, mesmo quando o militar já é capaz de desenhar o seu próprio plano.
Autonomia não significa liberdade para ignorar regras. Significa ser capaz de as cumprir sem precisar que alguém o lembre a cada sessão.
Erros comuns
- Treinar sempre "no limite", sem base de resistência aeróbia construída com treino contínuo.
- Calcular a zona de treino com a fórmula clássica (220 − idade) em vez de Tanaka, e desviar-se da intensidade real pretendida.
- Ignorar o tapering por parecer "perder treino" antes da prova, chegando fatigado.
- Corrigir a braçada de crawl sem trabalhar a rotação do tronco, o erro mais comum e o que mais rouba velocidade.
- Hiperventilar antes da apneia, na crença errada de que "ajuda a aguentar mais tempo".
- Praticar apneia ou nadar sozinho, mesmo por breves segundos.
- Ignorar contraindicações à apneia (mal-estar, infeção respiratória recente) "só por esta vez".
- Saltar de cabeça para água sem confirmar a profundidade.
- Ignorar sinais de sobretreino até uma lesão obrigar a parar.
- Confundir os sinais reais de afogamento (silencioso, sem gestos largos) com uma brincadeira ruidosa na água.
- Entrar na água a nadar para salvar alguém sem confirmar primeiro que se tem formação e meios, arriscando dois afogados em vez de um.
- Tratar o choque térmico de água fria como se fosse hipotermia, e não reconhecer o risco imediato dos primeiros segundos de imersão.
Glossário
- FCmáx: frequência cardíaca máxima, teto teórico dos batimentos por minuto.
- Fórmula de Tanaka: 208 − 0,7 × idade, estimativa da FCmáx com base estatística sólida.
- Fórmula de Karvonen: cálculo da frequência cardíaca alvo a partir da frequência cardíaca de reserva.
- FC de reserva: diferença entre a FCmáx e a frequência cardíaca de repouso.
- RPE: perceção subjetiva de esforço (escala de Borg, 6 a 20).
- CR10: escala de perceção de esforço de razão de categoria, 0 a 10.
- Treino contínuo: esforço estável e prolongado, sem pausas.
- Treino intervalado: alternância entre esforço intenso e recuperação.
- Treino em circuito: estações de exercícios de força e resistência muscular.
- Periodização: organização do treino em macrociclo, mesociclo e microciclo.
- Tapering: redução planeada do volume de treino antes de uma prova, mantendo a intensidade.
- 1RM: uma repetição máxima, a carga máxima levantada uma única vez num exercício.
- Whip kick: pernada em chicote da técnica de bruços.
- Posição de flutuação: postura estável à superfície da água, ponto de partida da apneia treinada nesta UC.
- Blackout em água rasa: perda de consciência súbita associada à hiperventilação antes da apneia.
- Nadador-salvador: profissional habilitado a vigiar e intervir em segurança aquática.
- Choque térmico de água fria: resposta reflexa (sobressalto, hiperventilação, subida da FC) nos primeiros minutos de imersão súbita em água fria, distinta da hipotermia.
- Afogamento silencioso: padrão real do afogamento, sem gritos nem gestos largos, com a boca à altura da água e o corpo na vertical.
- Cadeia de sobrevivência: sequência prevenir, reconhecer, fornecer flutuação, retirar e pedir ajuda, suporte básico de vida.
Síntese
Esta UC fecha o percurso de condição física com dois eixos: treinar melhor (princípios de treino, Tanaka e Karvonen, contínuo/intervalado/circuito, Borg/CR10, periodização e tapering rumo a uma prova de aptidão física) e nadar melhor (aperfeiçoamento fino de bruços e crawl, técnica propulsiva de pernas e braços). A tudo isto junta-se a segurança avançada em meio aquático: apneia sem hiperventilação e com vigilância 1 para 1, saltos controlados e normas de utilização de espaços e equipamentos. O fio condutor é a autonomia: o militar avançado sabe calcular a sua própria zona de treino, interpretar o seu esforço e ajustar o plano, sempre dentro do normativo regulamentar em vigor.
Exercícios resolvidos
1. Calcula a FCmáx de um militar de 30 anos pela fórmula de Tanaka e pela fórmula clássica. Qual a diferença?
Resolução: Tanaka: 208 − 0,7 × 30 = 208 − 21 = 187 bpm. Clássica: 220 − 30 = 190 bpm. Diferença de 3 bpm; a fórmula de Tanaka tende a dar valores mais baixos e mais consistentes com dados reais em populações adultas.
2. Com FCmáx de 187 bpm (Tanaka) e FC de repouso de 62 bpm, calcula a zona de treino contínuo (70% a 85%) pela fórmula de Karvonen.
Resolução: reserva = 187 − 62 = 125 bpm. A 70%: (125 × 0,70) + 62 = 87,5 + 62 = 149,5 ≈ 150 bpm. A 85%: (125 × 0,85) + 62 = 106,25 + 62 = 168,25 ≈ 168 bpm. Zona: 150 a 168 bpm.
3. Um militar está na semana 8 (última) de um mesociclo de 8 semanas antes da prova de aptidão física. Que deve mudar no treino nesta semana?
Resolução: entra em tapering: reduz o volume de treino em 40% a 60%, mantém a intensidade em níveis próximos do trabalhado, e aumenta o descanso, para chegar à prova recuperado sem perder a adaptação conquistada.
4. Um colega vai fazer apneia sozinho na piscina, "só para treinar mais um bocado", e diz que vai hiperventilar primeiro para "aguentar mais". Que dois erros graves de segurança está a cometer?
Resolução: primeiro, nunca praticar apneia sozinho, é obrigatória a vigilância de um colega ou instrutor 1 para 1. Segundo, é proibido hiperventilar antes da apneia: atrasa o sinal de alarme do corpo e aumenta o risco de perda de consciência debaixo de água, mesmo em água pouco profunda.
5. Que erro técnico é mais provável se um nadador de crawl se cansa rapidamente mesmo com boa condição física, e como se corrige?
Resolução: falta de rotação do tronco na braçada, que encurta o alcance e obriga a mais braçadas por metro. Corrige-se com exercícios de "braço só" com prancha, focados em rodar o ombro e alcançar mais à frente antes de puxar.
6. Um militar acredita que uma pessoa a afogar-se grita sempre e agita os braços com força, "como nos filmes". Explica porque essa ideia é um mito e descreve três sinais reais de afogamento.
Resolução: é um mito porque a respiração tem prioridade sobre a fala e sobre gestos largos, quem se está a afogar raramente consegue gritar ou fazer sinais óbvios. Sinais reais: boca à altura da água, abrindo e fechando como um peixe; corpo na vertical, sem impulso de pernas eficaz; olhar vidrado ou olhos fechados, em silêncio. Vigiar é procurar estes sinais discretos, não esperar por gritos.
7. Um militar entra de repente em água fria e sente, nos primeiros segundos, um sobressalto com hiperventilação involuntária e o coração a bater mais forte. É hipotermia? Explica a diferença e o que fazer nesse momento.
Resolução: não é hipotermia, é choque térmico de água fria: uma resposta reflexa que ocorre nos primeiros 1 a 3 minutos de imersão súbita, ainda sem perda relevante de temperatura corporal. A hipotermia só surge depois de exposição prolongada. Nesse momento, a resposta correta é manter a calma, flutuar e controlar a respiração, sem tentar nadar com força até a resposta de sobressalto passar, precisamente a fase de maior risco de afogamento mesmo para nadadores experientes.