Sebenta · Desenvolver a condição física geral e adaptação ao meio aquático em contexto militar naval (UC00190)
- Introdução
- 1. Da preparação ao desenvolvimento
- 2. Princípios do treino e frequência cardíaca máxima
- 3. O método de Karvonen e as escalas de perceção de esforço
- 4. Progressão de carga e periodização
- 5. Programar o treino físico geral
- 6. Bruços e crawl: consolidar a técnica
- 7. Apneia em meio aquático
- 8. Saltos para a água
- 9. Técnicas de natação de sobrevivência
- 10. Normas de segurança do treino físico
- 11. Espaços, equipamentos e emergência aquática
- Erros comuns
- Glossário
- Síntese
- Exercícios resolvidos
Introdução
Esta sebenta desenvolve exercícios de promoção das capacidades físicas e motoras compatíveis com a atividade militar naval, e consolida as técnicas de natação e de natação de sobrevivência já iniciadas antes. É a segunda de três unidades curriculares do percurso de condição física e meio aquático: a Preparar deu a base (flutuação, primeiros ciclos de bruços e crawl, condição física de entrada), esta Desenvolver aumenta a exigência com progressão de carga e distâncias maiores, e a Aprimorar trata do refinamento e da performance máxima.
Quem chega a esta UC já sabe flutuar, respirar em água e nadar alguns metros. O que aqui se acrescenta é rigor: medir a intensidade do treino, planear a progressão sem lesionar, e sustentar a técnica ao longo de distâncias e tempos maiores, sempre em conformidade com o normativo regulamentar em vigor.
Objetivos de aprendizagem (referencial): executar exercícios de promoção das capacidades físicas e motoras compatíveis com a atividade militar naval; executar técnicas de natação (bruços e crawl) com sincronização entre membros superiores, membros inferiores e ciclo respiratório; executar técnicas de natação de sobrevivência, garantindo a sobrevivência em águas abertas; e cumprir sempre o normativo regulamentar em vigor.
⚠️ Aviso geral de segurança. Toda a matéria de meio aquático desta UC pratica-se sempre com supervisão direta de um nadador-salvador ou instrutor, nunca sozinho. Números, tempos e marcas de provas físicas militares apresentados aqui, quando não vêm do referencial oficial, são estimativas gerais de método, com a fórmula indicada, nunca valores normativos absolutos. Consulta sempre o normativo em vigor da tua instituição antes de qualquer prova de avaliação real.
1. Da preparação ao desenvolvimento
O lugar desta UC no percurso
Esta UC não ensina a nadar do zero. Assume que o formando já domina, da UC anterior, a flutuação, a respiração controlada em água e um primeiro contacto com bruços e crawl. Aqui, o trabalho é de consolidação e progressão:
- Da técnica isolada para a técnica sustentada em distâncias maiores (25 a 50 metros seguidos).
- Do treino genérico para o treino planeado e medido, com zonas de intensidade e periodização.
- Da apneia e dos saltos introdutórios para a técnica de natação de sobrevivência completa: mergulho, imersões voluntárias, expirações completas, alternância de respirações controladas, mergulhos em apneia à profundidade, saltos para a água, flutuação, resgate do objeto em profundidade e percurso de 25 metros.
Critérios de desempenho
No fim desta UC, o formando executa exercícios de condição física, técnicas de natação e técnicas de sobrevivência aquática:
- Cumprindo o normativo regulamentar em vigor.
- Executando técnicas ventrais de natação com sincronização entre os membros superiores, os membros inferiores e o ciclo respiratório.
- Garantindo a sua sobrevivência em águas abertas.
Estes três critérios são a grelha real de avaliação desta UC. O contexto de aplicação é o teatro de operações militares e os organismos das Forças Armadas: tudo o que se treina em piscina tem de funcionar em água aberta, com equipamento e sob fadiga.
2. Princípios do treino e frequência cardíaca máxima
As quatro capacidades e os princípios do treino
O referencial pede o desenvolvimento de força, destreza, resistência e flexibilidade. Qualquer programa de treino segue quatro princípios:
- Sobrecarga progressiva: o corpo só melhora se o estímulo aumentar aos poucos, nunca de um só golpe.
- Especificidade: treina-se o que se quer melhorar. Nadar melhora a natação; a musculação isolada não a substitui.
- Individualização: a mesma sessão pode ser pesada para um formando e leve para outro, mesmo com a mesma idade.
- Reversibilidade: uma capacidade que não se mantém, perde-se. Uma pausa longa faz regredir o que já estava conquistado.
Medir a intensidade: a frequência cardíaca máxima
Para dosear o esforço com rigor é preciso uma referência de intensidade, a frequência cardíaca máxima (FCmáx). Duas formas de estimar:
| Método | Fórmula | Precisão |
|---|---|---|
| Estimativa grosseira | FCmáx = 220 − idade | rápida, erro considerável, sobretudo em adultos jovens |
| Fórmula de Tanaka | FCmáx = 208 − 0,7 × idade | mais rigorosa, é a referência usada nesta UC |
Exemplo resolvido, formando de 19 anos:
- Estimativa grosseira: 220 − 19 = 201 bpm.
- Fórmula de Tanaka: 208 − 0,7 × 19 = 208 − 13,3 = 194,7 ≈ 195 bpm.
A diferença entre os dois métodos, quase 6 bpm neste caso, mostra porque a Tanaka é a fórmula de referência: nenhuma das duas substitui um teste de esforço real, servem para planear o treino, não para diagnosticar problemas cardíacos.
3. O método de Karvonen e as escalas de perceção de esforço
Frequência cardíaca de reserva
A FCmáx isolada não chega: dois formandos com a mesma FCmáx podem ter condições físicas muito diferentes. O método de Karvonen corrige isto com a frequência cardíaca de reserva (FCR):
- FC de reserva = FCmáx − FC de repouso.
- FC alvo = FC de repouso + (% de intensidade × FC de reserva).
- Zonas típicas de treino geral: 60-70% (base aeróbia), 70-85% (desenvolvimento), acima de 85% (alta intensidade, pontual e vigiada).
A FC de repouso mede-se ao acordar, deitado, antes de levantar. É o ponto de partida de todo o cálculo.
Exemplo resolvido, zona de desenvolvimento: formando de 19 anos, FCmáx (Tanaka) = 195 bpm, FC de repouso = 58 bpm.
- FC de reserva = 195 − 58 = 137 bpm.
- Zona de desenvolvimento (70-85%):
- 70%: 58 + 0,70 × 137 = 58 + 95,9 ≈ 154 bpm.
- 85%: 58 + 0,85 × 137 = 58 + 116,45 ≈ 174 bpm.
- Este formando deve manter as sessões de resistência aeróbia entre os 154 e os 174 bpm.
O erro de cálculo mais frequente é aplicar a percentagem diretamente à FCmáx (60% de 195), em vez de a aplicar à reserva e só depois somar de volta a FC de repouso. Repete-se o cálculo com outra FC de repouso e a zona muda: por isso a periodização não é igual para toda a turma.
Escalas de perceção de esforço
Quando não há um monitor de frequência cardíaca disponível, o caso mais comum em água aberta, usa-se a perceção subjetiva de esforço:
| Escala | Intervalo | Uso |
|---|---|---|
| Borg 6-20 | 6 (nenhum esforço) a 20 (esforço máximo) | aproxima-se do bpm × 10 |
| CR10 | 0 (nada) a 10 (máximo absoluto) | melhor para esforços muito intensos e curtos |
Para a zona de desenvolvimento (70-85% da reserva), a perceção esperada é Borg 13 a 16 (entre "um pouco difícil" e "difícil") ou CR10 4 a 6. As duas escalas são instrumentos diferentes: não se convertem uma na outra por regra fixa.
4. Progressão de carga e periodização
A regra dos 10%
Para não lesionar quem está a desenvolver a condição física, o volume ou a intensidade do treino não deve subir mais do que cerca de 10% de uma semana para a outra. É uma orientação de bom senso, calibrada em estudos de treino de resistência, não uma lei física rígida:
- Um formando mais preparado pode tolerar mais carga; outro, menos. A perceção de esforço e os sinais de fadiga têm sempre a palavra final.
- Sinais de sobretreino a vigiar: FC de repouso mais alta do que o habitual, sono fraco, desempenho a cair apesar do esforço, irritabilidade.
Periodização em microciclos
As 25 horas desta UC organizam-se em microciclos (semanas) dentro de um mesociclo (o bloco completo da UC):
| Semana | Foco | Volume relativo |
|---|---|---|
| 1-2 | consolidar técnica, zona 60-70% | base |
| 3-4 | subir volume e distância, zona 70-85% | +10% por semana |
| 5-6 | subir apneia e sobrevivência, manter zona | +10% por semana |
| 7 | reduzir carga (tapering), rever critérios | -20% |
A última semana reduz a carga de propósito. Chegar à avaliação descansado rende mais do que chegar exausto: um atleta não corre uma maratona na véspera da corrida oficial.
5. Programar o treino físico geral
Estrutura de uma sessão
Toda a sessão de treino físico geral segue a mesma arquitetura, para reduzir o risco de lesão e preparar o corpo:
- Aquecimento (10 a 15 minutos): mobilidade articular, ativação cardiovascular ligeira.
- Parte fundamental (30 a 40 minutos): o trabalho de força, resistência ou destreza do dia, na zona de FC planeada.
- Retorno à calma (10 minutos): baixar a intensidade, alongamentos, hidratação.
Saltar o aquecimento ou o retorno à calma para "ganhar tempo" é o erro mais comum e o mais evitável. Em água, o aquecimento é ainda mais importante do que em terra: a água retira calor ao corpo muito mais depressa.
Circuito de treino físico compatível com a atividade naval
Exemplo resolvido, circuito de estações de 45 segundos com 15 segundos de transição, 3 voltas:
- Flexões (força de membros superiores).
- Agachamentos (força de membros inferiores).
- Prancha (core e estabilidade).
- Burpees (resistência e destreza combinadas).
- Alongamento dinâmico (flexibilidade).
A carga deste circuito sobe seguindo a regra dos 10% e a zona de FC do microciclo em curso. É um circuito transferível para qualquer espaço reduzido, incluindo a bordo. Aumentar as voltas sem verificar a técnica é o erro mais comum: técnica errada a alta velocidade lesiona.
6. Bruços e crawl: consolidar a técnica
Consolidar o crawl
O crawl já foi introduzido na UC anterior. Aqui, consolida-se a sincronização entre membros superiores, membros inferiores e o ciclo respiratório, sem paragens:
- Braçada contínua, entrada da mão à frente do ombro, puxada até à coxa.
- Pernada batida, contínua, a partir da anca.
- Respiração bilateral: rodar a cabeça a cada 2 ou 3 braçadas, sem levantar demasiado a cabeça.
- Objetivo desta UC: manter o ritmo em distâncias maiores (25 a 50 metros seguidos) sem quebrar a coordenação.
O erro comum é prender a respiração até já não poder mais e só então virar a cabeça, quebrando o ritmo da braçada. O crawl bem sincronizado soa quase igual a cada ciclo, como um metrónomo.
Consolidar o bruços
O bruços segue uma sequência rígida: puxar, respirar, picar, deslizar. Nesta UC, o objetivo é eliminar as paragens e alongar o deslize:
- Puxar: braços em varredura, à frente do peito.
- Respirar: a cabeça sobe enquanto os braços puxam.
- Picar (pernada): os joelhos dobram, os pés viram para fora, empurram para trás e para os lados.
- Deslizar: corpo esticado, o momento mais rápido e mais descansado do ciclo, e é a fase que a maioria dos formandos encurta por ansiedade.
O deslize é a única fase do ciclo em que não se produz propulsão, e ainda assim é essencial: alongá-lo poupa energia ao longo de uma distância maior. O erro comum é puxar e picar ao mesmo tempo, em vez de respeitar a sequência puxar-respirar-picar-deslizar.
7. Apneia em meio aquático
Técnica de apneia a partir da flutuação
A apneia, suster a respiração debaixo de água, desenvolve-se a partir da posição de flutuação, já dominada na UC anterior:
- Inspiração normal e confortável, nunca forçada até ao limite.
- Corpo relaxado, sem tensão desnecessária: a tensão consome oxigénio mais depressa.
- Progressão desta UC: aumentar gradualmente o tempo (segundos) e a distância (metros) percorrida em apneia, sempre dentro da regra dos 10%.
- Sinal de alarme para parar de imediato: tonturas, formigueiro, visão turva.
A apneia treina-se como um músculo, com séries e descanso entre elas, nunca em esforço máximo repetido. Comparar o próprio tempo de apneia com o de outro formando não faz sentido: a variação individual é enorme e isto não é competição.
Segurança na apneia: regras que não se negoceiam
Três regras absolutas nesta matéria, sem exceção, em qualquer profundidade, incluindo a piscina de treino:
- Nunca hiperventilar antes de uma apneia. A hiperventilação baixa o CO2 no sangue, atrasa o sinal de "preciso de respirar" e pode causar desmaio em água rasa (shallow water blackout) sem qualquer aviso prévio. Não "ajuda a aguentar mais tempo": é exatamente o mecanismo que causa o desmaio sem aviso, como um interruptor que desliga sem dor nem sinal.
- Apneia só com vigilância um para um. Um colega ou instrutor observa cada formando em apneia, sem exceção.
- Nunca nadar ou treinar apneia sozinho.
8. Saltos para a água
Técnicas de salto e progressão
Dois tipos de entrada na água relevantes ao contexto naval:
- Salto de pé (entrada vertical): joelhos ligeiramente fletidos, braços junto ao corpo. Indicado sempre que a profundidade da água é desconhecida.
- Mergulho raso: entrada horizontal e controlada, usado apenas quando a profundidade é conhecida e segura.
A progressão desta UC usa alturas e situações crescentes, sempre com a profundidade confirmada e supervisão direta antes de cada salto novo. A escolha entre salto de pé e mergulho raso depende sempre do conhecimento da profundidade, nunca de preferência pessoal: mergulhar de cabeça em profundidade desconhecida é a causa mais comum de lesão grave em saltos para a água. Em contexto naval, saltar de um convés é sempre entrada de pé, porque a profundidade nunca está garantida.
9. Técnicas de natação de sobrevivência
Mergulho, imersões voluntárias e expirações completas
A sobrevivência em águas abertas exige controlo consciente da respiração debaixo de água:
- Imersão voluntária: submergir por vontade própria, de forma controlada, sem pânico.
- Expiração completa debaixo de água: libertar todo o ar pelo nariz ou boca antes de emergir, em vez de o prender. Prender o ar todo cria desconforto e reflexo de pânico.
- Mergulho: descer e orientar-se sob a superfície, com os olhos abertos e um percurso definido antes de descer.
Estas técnicas treinam o controlo mental tanto quanto o físico: o pânico é o maior risco em águas abertas, porque consome oxigénio e desorienta muito mais depressa do que o esforço físico.
Alternância de respirações controladas e apneia à profundidade
Duas competências que se combinam num só exercício de sobrevivência:
- Alternância de respirações controladas: inspirar, mergulhar, expirar controladamente, emergir, inspirar de novo, num ciclo ritmado e sem pressa.
- Mergulho em apneia à profundidade: descer a um alvo (objeto, marca no fundo) em apneia, sempre com vigilância 1 para 1.
A aplicação real é recolher um objeto, verificar um obstáculo, ou simplesmente gerir a fadiga em água aberta, sem parede para apoiar. O erro comum é descer depressa demais e gastar o fôlego a nadar, sem sobrar para o regresso à superfície: pensar no percurso como ida e volta, planeando o fôlego para os dois trajetos antes de descer.
Flutuação prolongada, resgate de objeto e percurso de 25 metros
Três provas práticas que fecham a técnica de sobrevivência e que resumem os critérios de desempenho da UC:
- Flutuação prolongada: manter-se à superfície com o mínimo de esforço possível, gerindo a respiração e a energia ao longo do tempo.
- Resgate do objeto em profundidade: descer, agarrar e trazer um objeto à superfície de forma controlada.
- Percurso de 25 metros: nadar a distância completa com técnica sustentada, sem parar, como prova de consolidação de toda a UC.
O erro comum é gastar toda a energia no resgate do objeto e chegar exausto ao percurso de 25 metros: encadear as três provas como uma sequência única treina exatamente a gestão de energia que se exige em água aberta.
10. Normas de segurança do treino físico
Prevenção de lesões
As normas de segurança do treino físico existem para que o desenvolvimento da condição física não se transforme em lesão:
- Aquecimento e retorno à calma sempre presentes, nunca cortados.
- Progressão gradual de carga (a regra dos 10%) em vez de saltos bruscos.
- Técnica correta antes de velocidade ou repetições: corrigir o gesto primeiro.
- Hidratação e descanso entre sessões, sobretudo com o calor e o esforço em água.
Uma dor que se mantém entre sessões exige avaliação, não teimosia: ignorá-la por "não parecer grave" é o erro mais comum. O corpo é como um motor, aquece-se antes de acelerar a fundo e arrefece-se antes de desligar.
Sinais de alarme que param o treino
Qualquer um destes sinais interrompe a sessão de imediato, sem exceção:
| Sinal | O que observar |
|---|---|
| Sobretreino | fadiga persistente, queda de rendimento, dores musculares que não passam |
| Hipotermia | tremores incontroláveis, confusão, lábios azulados após tempo prolongado em água fria |
| Golpe de calor | pele quente e seca, confusão, tonturas, após esforço intenso em calor |
| Alarme cardíaco ou respiratório | qualquer tontura, dor no peito ou falta de ar anormal |
Parar não é falhar, é a decisão certa, prevista pelo próprio treino. Quer o formando quer o instrutor devem parar de imediato ao reconhecer qualquer um destes sinais, num colega ou em si próprio.
11. Espaços, equipamentos e emergência aquática
Normas de utilização dos espaços e equipamentos
O treino usa equipamentos e infraestruturas desportivas, a piscina e material de natação (prancha, pull buoy, entre outros):
- Cada equipamento tem uma utilização própria: a prancha isola o trabalho de pernas; o pull buoy isola o trabalho de braços. Usar os dois ao mesmo tempo sem instrução para tal faz perder o objetivo do exercício isolado.
- Cumprir sempre o normativo e os regulamentos em vigor da instalação e do curso: é um critério de desempenho avaliado, não apenas bom senso.
- Verificar o material antes de o usar (pranchas rachadas, faixas gastas) e devolvê-lo ao lugar certo depois.
- Respeitar a lotação e as zonas definidas da piscina: profundidade, corredores, zona de saltos.
Emergência aquática e socorrismo
Se algo corre mal em água, a sequência de decisão é sempre a mesma, da opção mais segura para a mais arriscada:
- Alcançar (estender um braço ou objeto), depois atirar (uma boia ou corda), depois remar (barco ou prancha), só depois nadar até à vítima. Nunca entrar na água em primeiro lugar sem necessidade, e nunca sem meios ou formação para o fazer.
- Nunca expor o socorrista a risco desnecessário: uma vítima em pânico pode arrastar quem tenta ajudar.
- Chamar o 112 assim que possível.
- O suporte básico de vida (SBV) a um afogado começa com 5 insuflações (respirações de resgate), antes das compressões, ao contrário da sequência habitual de SBV em terra, porque a causa mais provável no afogamento é falta de oxigénio, não paragem cardíaca primária.
Os sinais de afogamento raramente são o que se vê nos filmes: uma pessoa a afogar-se costuma ficar silenciosa, com a cabeça baixa e a boca à altura da água, sem conseguir chamar por ajuda ou agitar os braços de forma visível. Reconhecer este sinal atempadamente é o primeiro passo da cadeia de sobrevivência no afogamento: reconhecer, alertar e acionar o 112, retirar ou aproximar-se com segurança (alcançar, atirar, remar, nadar por último), e iniciar o SBV com as 5 insuflações iniciais.
Atitudes avaliadas
Todo o treino desta UC é sustentado por atitudes que também são avaliadas: responsabilidade, autonomia, autoconfiança, autoconhecimento, autocontrolo, resiliência, combatividade, perseverança, cooperação com a equipa e camaradagem, disciplina, conduta e ética militar, e respeito pelas normas, regulamentos e procedimentos instituídos. Nenhum critério de desempenho se cumpre sem disciplina e sem respeito pelas normas de segurança: um bom nadador sem disciplina de segurança é um risco, não um trunfo, para a própria equipa.
Erros comuns
- Tratar esta UC como "aprender a nadar do zero", em vez de consolidar e aumentar a exigência sobre a base já adquirida.
- Aplicar a percentagem de Karvonen à FCmáx em vez de à FC de reserva, o que dá valores errados por defeito.
- Aumentar carga todas as sessões sem nunca reduzir, ignorando a semana de tapering antes da avaliação.
- Hiperventilar antes de uma apneia, na crença errada de que "ajuda a aguentar mais tempo".
- Treinar ou nadar em apneia sem vigilância 1 para 1, mesmo em piscina rasa.
- Mergulhar de cabeça em profundidade desconhecida, em vez de escolher o salto de pé.
- Prender o ar todo debaixo de água em vez de o libertar aos poucos, criando reflexo de pânico.
- Gastar toda a energia no resgate do objeto e chegar exausto ao percurso de 25 metros.
- Saltar para a água de imediato para socorrer alguém, sem primeiro tentar alcançar ou atirar algo.
- Ignorar uma dor persistente entre sessões por "não parecer grave".
Glossário
- FCmáx: frequência cardíaca máxima; estimada nesta UC pela fórmula de Tanaka (208 − 0,7 × idade).
- FC de reserva (FCR): FCmáx menos a FC de repouso; base do cálculo das zonas de treino pelo método de Karvonen.
- Método de Karvonen: cálculo da FC alvo somando à FC de repouso uma percentagem da FC de reserva.
- Escala de Borg: escala de perceção subjetiva de esforço, de 6 a 20.
- CR10: escala de perceção subjetiva de esforço, de 0 a 10, indicada para esforços intensos e curtos.
- Regra dos 10%: orientação de progressão de carga, aumento máximo de cerca de 10% de volume ou intensidade por semana.
- Microciclo: uma semana de treino dentro do mesociclo.
- Mesociclo: o bloco de treino completo, aqui as 25 horas da UC.
- Tapering: redução planeada da carga antes de uma avaliação ou prova, para chegar descansado.
- Apneia: suspensão voluntária da respiração, praticada em meio aquático sempre com vigilância 1 para 1.
- Shallow water blackout (desmaio em água rasa): perda de consciência súbita e sem aviso, causada por hiperventilação antes de uma apneia.
- Salto de pé: entrada vertical na água, usada quando a profundidade é desconhecida.
- Mergulho raso: entrada horizontal, usada apenas com profundidade conhecida e segura.
- Imersão voluntária: submergir por vontade própria, de forma controlada.
- Sequência alcançar, atirar, remar, nadar: ordem de prioridade de um resgate aquático, da opção mais segura para a mais arriscada.
- SBV do afogado: suporte básico de vida que começa com 5 insuflações antes das compressões.
- Sinais de afogamento: normalmente silenciosos, cabeça baixa e boca à altura da água, sem agitação visível dos braços.
Síntese
Esta UC consolida a base da UC anterior e acrescenta rigor: a FCmáx (Tanaka), o método de Karvonen e as escalas Borg/CR10 dão precisão à intensidade do treino, enquanto a regra dos 10% e a periodização em microciclos regem a progressão de carga ao longo das 25 horas. Na água, consolidam-se o bruços e o crawl com sincronização em distâncias maiores, desenvolve-se a apneia sempre com vigilância 1 para 1 e sem hiperventilação, praticam-se saltos para a água conforme o conhecimento da profundidade, e completam-se as técnicas de natação de sobrevivência: mergulho, imersões, expirações completas, alternância de respirações, apneia à profundidade, flutuação prolongada, resgate de objeto e percurso de 25 metros. Tudo isto sustentado por normas de segurança do treino físico, normas de utilização de espaços e equipamentos, e por uma sequência clara de emergência aquática: alcançar, atirar, remar, nadar, chamar o 112, e SBV com 5 insuflações iniciais.
Exercícios resolvidos
1. Um formando de 23 anos tem FC de repouso de 62 bpm. Calcula a FCmáx (Tanaka), a FC de reserva e a zona de base (60-70%).
Resolução: FCmáx (Tanaka) = 208 − 0,7 × 23 = 208 − 16,1 = 191,9 ≈ 192 bpm. FC de reserva = 192 − 62 = 130 bpm. Zona 60%: 62 + 0,60 × 130 = 62 + 78 = 140 bpm. Zona 70%: 62 + 0,70 × 130 = 62 + 91 = 153 bpm. A zona de base deste formando situa-se entre os 140 e os 153 bpm.
2. Um formando corre 20 minutos na semana 3 do mesociclo. Segundo a regra dos 10%, qual o aumento máximo recomendado para a semana 4?
Resolução: 10% de 20 minutos = 2 minutos. O aumento máximo recomendado é chegar a 22 minutos na semana 4, não mais, salvo se os sinais de fadiga permitirem menos, nunca mais do que a orientação.
3. Um colega diz que respira fundo várias vezes antes de mergulhar em apneia "para aguentar mais tempo". O que lhe respondes?
Resolução: que está a hiperventilar, o que baixa o CO2 no sangue e atrasa o sinal de "preciso de respirar", podendo causar um desmaio em água rasa sem qualquer aviso. É uma das três regras absolutas da apneia nesta UC: nunca hiperventilar, apneia só com vigilância 1 para 1, e nunca sozinho.
4. A profundidade de um local de treino é desconhecida. Que técnica de entrada na água se deve usar e porquê?
Resolução: o salto de pé (entrada vertical), porque é a única opção segura quando a profundidade não está confirmada. O mergulho raso só se usa com profundidade conhecida e segura; mergulhar de cabeça em profundidade desconhecida é a causa mais comum de lesão grave em saltos para a água.
5. Vês uma pessoa a afogar-se em água aberta, sem colete nem boia à mão, mas com uma corda perto. Qual é a sequência correta de atuação?
Resolução: primeiro alcançar se estiver ao alcance, depois atirar a corda, depois remar com uma embarcação ou prancha se disponível, e só nadar até à vítima como último recurso, sem nunca expor o socorrista a risco desnecessário. Chamar o 112 o mais rápido possível, e se a vítima não reagir e for preciso SBV, começar pelas 5 insuflações antes das compressões.