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UC · Unidade de Competência · UC00032

Elaborar o plano de negócios (UC00032)

Visão e objetivos, mercado, estratégia comercial, operações, RH, investimento, finanças, fiscalidade, viabilidade, financiamento e controlo
50h · 4.5 pontos crédito Curso: T. Multimédia, T. Gestão e Admin. e mais 60 cursos ↗ Referencial oficial SNQ
Índice

Há um pacote premium desta unidade: um PowerPoint editável de 100 ou mais diapositivos, um manual em PDF e dois testes com correção. Esta sebenta continua gratuita.

Introdução

Quem sai de um curso profissional com uma competência técnica (cortar e colorir cabelo, fazer tratamentos de estética, cuidar de animais, reparar equipamentos, cozinhar, organizar eventos) tem muitas vezes a oportunidade de trabalhar por conta própria. Abrir um salão, um gabinete, um hotel para animais ou uma pequena oficina é um passo sério: exige dinheiro, tempo e decisões que não se desfazem com facilidade.

O plano de negócios é o documento que transforma uma ideia num projeto concreto. Descreve o âmbito de atuação e os objetivos estratégicos do negócio a desenvolver, o mercado, a estratégia comercial, os recursos humanos, físicos e financeiros necessários, a forma de gestão e controlo e, sobretudo, os números que mostram se a ideia é viável.

Esta UC dá-te as ferramentas para construir cada parte do plano. No fim, serás capaz de elaborar um plano completo, calcular o ponto crítico, projetar resultados e tesouraria, avaliar a viabilidade (payback, VAL e TIR), conhecer o enquadramento fiscal básico de quem abre atividade e identificar as fontes de financiamento e apoios disponíveis.

Todos os valores legais e fiscais desta sebenta foram confirmados em setembro de 2026 nas fontes oficiais indicadas. Mudam com frequência: antes de decidir, confirma sempre no Portal das Finanças, na Segurança Social ou com um contabilista certificado.


1. Plano de negócios: definição, objetivos e tipos

1.1 Para que serve

O plano de negócios serve três propósitos:

Não é um documento que se faz uma vez e se arquiva: é vivo e revê-se sempre que a realidade se afasta do previsto.

1.2 Tipos de planos de negócios

Tipo Quando se usa Características
Plano de arranque criação de um negócio novo completo, com pressupostos detalhados e investimento inicial
Plano de candidatura pedido de apoio ou crédito segue o formulário e os critérios da entidade (IEFP, banco, Portugal 2030)
Plano de expansão abrir um segundo espaço, novo serviço parte de dados históricos reais
Plano interno ou operacional gestão do dia a dia curto, focado em metas, orçamento e indicadores
Plano resumido (one page) primeira validação da ideia uma página, sem detalhe financeiro

1.3 Estrutura

Secção Conteúdo
Sumário executivo síntese de tudo (1 página)
Apresentação do projeto promotores, visão, missão, objetivos, modelo de negócio
Análise de mercado dimensão, tendências, clientes, concorrentes, PESTEL, Porter, SWOT
Estratégia comercial segmentação, posicionamento, marca, 4 Ps, canais, plano de comercialização
Plano operacional processo produtivo, recursos, fornecedores, localização
Plano de recursos humanos estrutura, competências, custos com pessoal
Plano de investimento o que é preciso comprar e quanto custa
Plano financeiro vendas, custos, demonstração de resultados, balanço, tesouraria, ponto crítico
Enquadramento fiscal forma jurídica, IVA, IRS ou IRC, Segurança Social
Análise de viabilidade payback, VAL, TIR, cenários e sensibilidade
Plano de financiamento fontes, custos de financiamento, apoios
Gestão e controlo indicadores, cronograma, medidas corretivas, pontos críticos

1.4 Sumário executivo

Escreve-se por último, mas lê-se primeiro. Numa página, deve conter: o problema ou necessidade, a solução, o mercado, o modelo de negócio, a equipa, os números-chave (investimento, vendas do Ano 1, ponto crítico, payback) e o pedido (quanto dinheiro e para quê). É muitas vezes a única página que um técnico de crédito lê com atenção.


2. Âmbito de atuação, visão, missão e objetivos estratégicos

2.1 Âmbito de atuação

Antes de pensar em números, estabelece o âmbito de atuação do negócio: o que se vende, a quem, onde e o que fica de fora. Um âmbito bem definido evita dispersão.

Salão de bairro. "Serviços de cabeleireiro para senhora e homem (corte, coloração, tratamentos), numa freguesia urbana com cerca de 15 000 habitantes. Não inclui estética nem venda online de produtos no primeiro ano."

2.2 Visão e missão

Hotel e banhos para animais de companhia.

2.3 Objetivos SMARTER

Os objetivos estratégicos devem ser SMARTER:

Letra Significado Pergunta
S Específico O que exatamente?
M Mensurável Como se mede?
A Atingível É realista com os recursos que tenho?
R Relevante Contribui para a visão?
T Temporizável Até quando?
E Avaliado (evaluated) Quem acompanha e quando?
R Revisto Quando se ajusta, se a realidade mudar?

2.4 Modelo de negócio

O modelo de negócio explica como o negócio cria valor e ganha dinheiro. Deve responder a: quem são os clientes, que proposta de valor recebem, por que canais, que relação se mantém, de onde vêm as receitas (serviço avulso, pacote, assinatura mensal, venda de produtos), que recursos e atividades são essenciais, que parceiros existem e qual a estrutura de custos. A ferramenta mais usada para o desenhar numa página é o Business Model Canvas.


3. Análise de mercado e posicionamento estratégico

3.1 Estudo de mercado

Técnicas de estudo de mercado:

Tipo Técnicas Exemplo
Secundário (dados que já existem) INE, Pordata, câmara municipal, associações do setor, relatórios população e rendimento da freguesia
Primário quantitativo questionários, contagens inquérito a 100 moradores sobre frequência de idas ao cabeleireiro
Primário qualitativo entrevistas, observação, cliente mistério visitar três concorrentes e registar preços e tempo de espera

As afirmações do plano devem ser sustentadas por dados, com a fonte indicada.

3.2 Análise PESTEL

Analisa o ambiente externo (fora do controlo da empresa):

Fator Exemplos
Político políticas de apoio ao emprego, estabilidade
Económico inflação, poder de compra, juros, salário mínimo
Social envelhecimento, cuidados com a imagem, mais animais de companhia
Tecnológico marcações online, redes sociais, novos equipamentos
Ecológico produtos sustentáveis, gestão de resíduos
Legal licenciamento, higiene e segurança, RGPD, legislação laboral e fiscal

Permite identificar oportunidades e ameaças.

3.3 As 5 forças de Porter

Avalia a atratividade do setor:

  1. Rivalidade entre concorrentes existentes.
  2. Ameaça de novos entrantes (barreiras à entrada).
  3. Ameaça de produtos ou serviços substitutos.
  4. Poder negocial dos clientes.
  5. Poder negocial dos fornecedores.

Quanto mais fortes as forças, menos atrativo o setor (mais pressão sobre as margens).

3.4 Concorrentes

Identifica os concorrentes diretos (mesmo serviço, mesma zona) e indiretos (satisfazem a mesma necessidade de outra forma: serviço ao domicílio, produtos para fazer em casa). Compara-os numa tabela: preço, localização, horário, qualidade percebida, presença online, pontos fortes e fracos.

3.5 Análise SWOT

A SWOT junta o interno e o externo e é a base da formulação estratégica:

Positivo Negativo
Interno (depende de nós) Forças (Strengths) Fraquezas (Weaknesses)
Externo (não depende de nós) Oportunidades (Opportunities) Ameaças (Threats)

As oportunidades e ameaças vêm do PESTEL e das 5 forças. O passo seguinte é cruzar os quadrantes:

SWOT de um gabinete de estética a abrir.

3.6 Posicionamento estratégico

Com a SWOT feita, escolhe-se o posicionamento: o lugar que queremos ocupar na mente do cliente face à concorrência (o mais acessível, o mais especializado, o mais conveniente, o mais premium). O posicionamento orienta todas as decisões seguintes.


4. Estratégia comercial e plano de marketing

4.1 Segmentos-alvo, posicionamento e marca

4.2 Marketing mix (4 Ps)

P Decisões
Produto/serviço características, qualidade, gama, garantia
Preço custo, margem, preços da concorrência, descontos, pacotes
Distribuição (Place) canais de venda, localização, horários, logística
Promoção redes sociais, montra, parcerias, passa-palavra, promoções

Os 4 Ps devem ser coerentes entre si e com o posicionamento.

4.3 Circuitos e canais de venda e distribuição

Canal Como funciona Exemplo
Direto o negócio vende ao cliente final sem intermediários serviço no salão, loja online própria, marcações por telefone
Indireto há um ou mais intermediários venda de produtos através de lojas parceiras, plataformas de marcação que cobram comissão, hotéis que encaminham clientes

Os canais diretos dão mais margem e controlo; os indiretos dão mais alcance, mas cobram comissão. A comissão é um custo variável que entra no cálculo da margem.

4.4 Estratégias de penetração no mercado

4.5 Aquisição e retenção

Indicadores essenciais:

Um cliente de salão deixa 20 € de margem por visita, vem 8 vezes por ano e fica 2 anos: LTV = 20 × 8 × 2 = 320 €. Se o CAC for 40 €, o rácio LTV/CAC é 320 ÷ 40 = 8. Regra prática: LTV ≥ 3 × CAC.

4.6 Plano de comercialização

O plano de comercialização organiza a estratégia comercial em etapas, atividades, recursos, responsáveis, prazos e orçamento: por exemplo, pré-abertura (marca, redes sociais, parcerias), abertura (evento, oferta de lançamento), primeiros 6 meses (campanha de fidelização) e revisão.


5. Plano operacional

5.1 Processo produtivo

Descreve a "máquina" do negócio, passo a passo: marcação, receção, execução do serviço, pagamento, pós-venda. Para cada passo: tempo, recursos, responsável e controlo de qualidade. Num serviço, o tempo por serviço define a capacidade máxima (quantos serviços por dia cabem na agenda).

5.2 Recursos, fornecedores e localização

5.3 Cadeia de valor

Mapear as atividades que criam valor permite reduzir custos onde não há diferenciação, investir onde está a vantagem competitiva e decidir o que fazer internamente e o que subcontratar (contabilidade, limpeza, marketing).


6. Plano de recursos humanos

6.1 Estrutura e competências

6.2 Custo real de um trabalhador por conta de outrem

O custo para a empresa é bastante superior ao salário mensal:

Uma colaboradora com o salário mínimo de 2026 (920 €).

Salários anuais:     920 € × 14         = 12 880,00 €
TSU patronal:        12 880 € × 23,75%  =  3 059,00 €
Seguro AT (1%, ex.): 12 880 € × 1%      =    128,80 €
Custo anual                              = 16 067,80 €
Custo médio mensal:  16 067,80 € ÷ 12    ≈  1 338,98 €

Custo médio mensal ÷ salário mensal = 1 338,98 ÷ 920 ≈ 1,46, e ainda sem subsídio de refeição nem formação. A trabalhadora desconta 920 × 11% = 101,20 € por mês à Segurança Social.

Regra prática para o plano: conta com cerca de 1,45 a 1,55 vezes o salário bruto mensal por cada mês do ano. É, muitas vezes, o maior custo fixo do negócio.


7. Plano de investimento e plano financeiro

7.1 Investimento inicial

Tudo o que é preciso para arrancar. Separa três tipos de despesa, porque têm tratamento diferente:

Tipo Exemplos Tratamento
Ativos fixos (duram vários anos) cadeiras, lavatórios, marquesas, obras, computador, software entram no balanço e são amortizados
Gastos de arranque marketing de lançamento, pequenos consumíveis são gastos do período (não se amortizam)
Fundo de maneio dinheiro para pagar custos enquanto as vendas não chegam fica em caixa; não é gasto

7.2 Amortizações (depreciações)

Um equipamento perde valor com o uso. Esse desgaste reparte-se pelos anos de vida útil através das amortizações, pelo método das quotas constantes:

Amortização anual = Valor do ativo ÷ Anos de vida útil

Exemplo: equipamento de 7 500 € com vida útil de 5 anos → 7 500 ÷ 5 = 1 500 € por ano. A amortização é um gasto que não sai da caixa (o dinheiro saiu no dia da compra). Para efeitos fiscais, as taxas máximas por tipo de bem constam das tabelas do Decreto Regulamentar n.º 25/2009; confirma a do teu equipamento com o contabilista.

7.3 Previsão de vendas

Estimativa de receita, geralmente a 3 anos. Constrói-se de baixo para cima: capacidade (serviços por dia × dias por mês), taxa de ocupação prevista, preço médio. É mais credível do que "vou ter 5% do mercado". Os valores do plano são sem IVA: o IVA cobrado ao cliente não é receita da empresa.

7.4 Demonstração de resultados

Mostra se o negócio dá lucro ou prejuízo num período. A cascata completa:

Vendas e prestações de serviços
- Custos variáveis (consumíveis, comissões)
= Margem de contribuição
- Custos fixos (renda, pessoal, software, marketing, seguros)
= EBITDA (resultado antes de depreciações, juros e impostos)
- Depreciações e amortizações
= Resultado operacional
- Juros (gastos de financiamento)
= Resultado antes de impostos
- Imposto sobre o rendimento (IRC e derrama, ou IRS)
= Resultado líquido

Receita não é lucro. O lucro só existe depois de descontar todos os gastos, incluindo amortizações, juros e impostos.

Nota: na contabilidade, a margem bruta é vendas menos o custo das mercadorias vendidas e matérias consumidas. A margem de contribuição é vendas menos todos os custos variáveis. Num negócio de serviços simples os valores podem ser próximos, mas os conceitos são diferentes.

7.5 Balanço

O balanço é uma fotografia do que a empresa tem e deve numa data:

Ativo = Capital próprio + Passivo

Balanço de abertura de um gabinete (dia 1).

Ativo € Capital próprio e passivo €
Equipamento 7 500 Capital próprio (poupanças da promotora) 7 000
Caixa e depósitos 4 500 Empréstimo bancário 5 000
Total 12 000 Total 12 000

7.6 Mapa de tesouraria (cash-flow)

Mostra o dinheiro que realmente entra e sai, mês a mês. Um negócio pode ter lucro e ainda assim falhar por falta de tesouraria, se os clientes pagam tarde, se há sazonalidade ou se o investimento consome a caixa.

Mês 1 Mês 2 Mês 3
Saldo inicial 3 000 € 2 500 € 2 400 €
+ Recebimentos 1 800 € 2 200 € 2 600 €
- Pagamentos 2 300 € 2 300 € 2 400 €
Saldo final 2 500 € 2 400 € 2 600 €

O saldo final de um mês é o saldo inicial do seguinte. Diferenças entre tesouraria e resultados: a compra de equipamento sai toda da caixa no dia 1, mas no resultado só entra a amortização; o IVA recebido dos clientes entra na caixa mas tem de ser entregue ao Estado; o capital de um empréstimo entra na caixa mas não é receita.

7.7 Ponto crítico (break-even)

O ponto crítico é o volume de vendas em que a margem de contribuição cobre exatamente os custos fixos (resultado zero).

Ponto crítico (unidades) = Custos fixos ÷ (Preço unitário - Custo variável unitário)

A diferença Preço - Custo variável chama-se margem de contribuição unitária.

Salão com custos fixos de 2 000 €/mês, preço médio de 50 € por serviço de coloração e custo variável de 10 €:


8. Enquadramento fiscal e contributivo de quem abre atividade

8.1 Forma jurídica

8.2 IVA

Taxas no Continente (artigo 18.º do Código do IVA): 23% (taxa normal), 13% (taxa intermédia, bens e serviços da Lista II) e 6% (taxa reduzida, Lista I). Os Açores e a Madeira têm taxas próprias, mais baixas. A maioria dos serviços pessoais é tributada à taxa normal; confirma nas listas anexas ao código.

Exemplo: serviço de 50 € + IVA a 23% = 50 × 1,23 = 61,50 € pagos pelo cliente. Os 11,50 € de IVA são entregues ao Estado (depois de deduzido o IVA das compras): não são receita.

Regime especial de isenção (artigo 53.º do CIVA): podem beneficiar os sujeitos passivos com sede ou domicílio em Portugal que não façam exportações e cujo volume de negócios no ano civil anterior não ultrapasse 15 000 € (limiar em vigor desde 2025). Desde 1 de julho de 2025, ter contabilidade organizada já não impede o acesso ao regime. Faturam sem IVA, mas não deduzem o IVA das compras. Se num ano ultrapassarem os 15 000 €, passam ao regime normal a 1 de janeiro do ano seguinte; se ultrapassarem o limiar em mais de 25% (18 750 €), passam ao regime normal de imediato e liquidam IVA logo na fatura que excede esse valor.

8.3 IRS: categoria B, regime simplificado

Ficam no regime simplificado os independentes que no ano anterior não tenham ultrapassado 200 000 € de rendimentos da categoria B (artigo 28.º do CIRS), salvo opção pela contabilidade organizada. O rendimento tributável obtém-se aplicando coeficientes (artigo 31.º do CIRS):

Coeficiente Aplica-se a
0,15 vendas de mercadorias e produtos; serviços de hotelaria, restauração e bebidas
0,75 atividades profissionais da tabela do artigo 151.º do CIRS
0,35 outras prestações de serviços não previstas acima

Nos coeficientes 0,75 e 0,35, parte da redução depende de despesas: se as despesas e encargos considerados não chegarem a 15% dos rendimentos brutos, a diferença acresce ao rendimento tributável. Para esses 15% conta automaticamente a dedução específica da alínea a) do n.º 1 do artigo 25.º do CIRS (mais de 4 000 €) ou, se forem superiores, as contribuições para a Segurança Social; só acima desse valor é preciso ter despesas com fatura afetas à atividade.

Exemplo: 14 000 € de serviços com coeficiente 0,35 → rendimento tributável = 14 000 × 0,35 = 4 900 € (que depois segue as taxas gerais do IRS). Os 15% são 14 000 × 15% = 2 100 €, valor já coberto pela dedução automática, pelo que não há acréscimo.

8.4 Segurança Social dos trabalhadores independentes

Exemplo: 3 500 € de serviços num trimestre → rendimento relevante 2 450 € → base mensal 816,67 € → contribuição 816,67 × 21,4% ≈ 174,77 € por mês.

8.5 IRC

Para sociedades, as taxas de IRC em 2026 (artigo 87.º do CIRC, com a norma transitória da Lei n.º 64/2025) são:

Pode acrescer derrama municipal, variável por concelho.

Exemplo: PME com 60 000 € de matéria coletável → 50 000 × 15% + 10 000 × 19% = 7 500 + 1 900 = 9 400 € de IRC (antes de derrama).

8.6 Trabalhadores por conta de outrem

A taxa contributiva global do regime geral é 34,75%: 23,75% a cargo da entidade empregadora e 11% do trabalhador. O salário mínimo (retribuição mínima mensal garantida) é de 920 € em 2026.

Fontes oficiais: Portal das Finanças, Código do IVA (artigos 18.º e 53.º), Código do IRS (artigos 28.º e 31.º) e Código do IRC (artigo 87.º), em info.portaldasfinancas.gov.pt; Segurança Social, Guia Prático do Novo Regime dos Trabalhadores Independentes (seg-social.pt); Código dos Regimes Contributivos, artigo 53.º, e Decreto-Lei n.º 139/2025 (salário mínimo), em diariodarepublica.pt.


9. Análise de viabilidade

9.1 Payback

Tempo necessário para os cash-flows acumulados recuperarem o investimento. Calcula-se com fluxos de caixa (não com resultados contabilísticos, que incluem amortizações que não são saídas de dinheiro). Quanto menor, menor o risco.

9.2 VAL (Valor Atual Líquido)

Soma dos cash-flows futuros atualizados para hoje, menos o investimento:

VAL = -I₀ + CF₁/(1+i)¹ + CF₂/(1+i)² + … + CFₙ/(1+i)ⁿ

em que I₀ é o investimento inicial, CFₜ o cash-flow do ano t e i a taxa de atualização (o custo do capital ou a rentabilidade mínima exigida). VAL > 0 significa que o projeto cria valor. O VAL incorpora o valor temporal do dinheiro: 1 € hoje vale mais do que 1 € daqui a um ano.

9.3 TIR (Taxa Interna de Rendibilidade)

É a taxa i que torna o VAL igual a zero. Critério: TIR > custo do capital → o projeto é aceitável. Calcula-se por tentativas ou com a função TIR da folha de cálculo.

Investimento de 10 000 € que gera 4 000 € por ano durante 3 anos; custo do capital de 6%.

Ano 1: 4 000 ÷ 1,06   = 3 773,58 €
Ano 2: 4 000 ÷ 1,1236 = 3 559,99 €
Ano 3: 4 000 ÷ 1,191016 = 3 358,48 €
Soma                   = 10 692,05 €
VAL = 10 692,05 - 10 000 = 692,05 €  → VAL > 0, cria valor

9.4 Cenários e sensibilidade

Exemplo com o salão do ponto 7.7: a vender 60 serviços, o resultado é +400 €; com vendas -20% (48 serviços), o resultado passa a 48 × 40 - 2 000 = -80 €. Uma queda de 20% basta para dar prejuízo: o plano deve prever tesouraria para isso.


10. Plano de financiamento e apoios

10.1 Estrutura e fontes de financiamento

Fonte Características
Capitais próprios poupanças, sócios; sem juros, mas limitados ao disponível
Empréstimo bancário juros, comissões, garantias; prazo e plano de reembolso
Locação financeira (leasing) financia equipamento; paga-se uma renda
Microcrédito pequenos montantes para quem tem dificuldade de acesso ao crédito
Business angels e capital de risco entram no capital; mais comuns em negócios com grande potencial de crescimento
Crowdfunding financiamento por muitas pessoas (recompensa, donativo, capital)
Apoios públicos subsídios não reembolsáveis ou empréstimos sem juros, com regras e prazos

A estrutura de financiamento é a combinação escolhida (por exemplo, 40% capitais próprios e 60% empréstimo). Deve cobrir todo o investimento e o fundo de maneio, e ter um período e fases de financiamento coerentes com o cronograma.

10.2 Custos de financiamento

O dinheiro emprestado custa juros, comissões e, por vezes, seguros e garantias. Para comparar propostas usa-se a TAEG, que inclui todos os encargos.

Empréstimo de 5 000 € a 5 anos, taxa de juro de 6% ao ano, reembolso de 1 000 € de capital por ano:

Ano Capital em dívida no início Juros (6%) Reembolso de capital
1 5 000 € 300 € 1 000 €
2 4 000 € 240 € 1 000 €
3 3 000 € 180 € 1 000 €
4 2 000 € 120 € 1 000 €
5 1 000 € 60 € 1 000 €

Total de juros: 900 €. Os juros entram na demonstração de resultados; o reembolso de capital só entra na tesouraria.

10.3 Apoios em Portugal

Conhecer e candidatar-se a apoios pode reduzir o investimento próprio necessário e o risco. Confirma sempre as condições em vigor no site da entidade.


11. Gestão e controlo do negócio

11.1 Cronograma de implementação

O cronograma ordena as tarefas até à abertura e nos primeiros meses, com responsáveis e datas.

Tarefa Mês 1 Mês 2 Mês 3 Mês 4
Candidatura a apoio / crédito ■
Arrendamento e obras ■ ■
Início de atividade nas Finanças, licenças ■
Compra e instalação de equipamento ■
Marketing de pré-abertura ■ ■
Abertura ■

11.2 Indicadores e controlo

O plano de gestão e controlo define o que se mede, com que frequência e quem acompanha, em três áreas:

11.3 Desvios e medidas corretivas

Compara-se todos os meses o previsto com o real:

Desvio = Real - Previsto · Desvio % = Desvio ÷ Previsto

Exemplo: vendas previstas 2 500 €, reais 2 100 € → desvio = -400 € → -400 ÷ 2 500 = -16%.

Para cada desvio relevante define-se uma medida corretiva: reforçar a promoção num dia fraco, rever preços, renegociar com fornecedores, ajustar horários, adiar uma contratação.

11.4 Pontos críticos do projeto

Identifica os pressupostos de que tudo depende (atingir X serviços por mês, obter o crédito, conseguir o licenciamento a tempo) e, para cada um, um plano B.


Erros comuns

Glossário

Termo Significado
Sumário executivo síntese do plano numa página
Visão / missão onde se quer chegar / o que se faz e para quem
Objetivos SMARTER específicos, mensuráveis, atingíveis, relevantes, temporizáveis, avaliados e revistos
PESTEL análise do ambiente externo
5 forças de Porter análise da atratividade do setor
SWOT forças, fraquezas, oportunidades e ameaças
4 Ps produto, preço, distribuição, promoção
Canal direto / indireto venda sem / com intermediários
CAC / LTV custo de aquisição / valor do cliente ao longo do tempo
Margem de contribuição vendas menos custos variáveis
EBITDA resultado antes de depreciações, juros e impostos
Amortização repartição do custo de um ativo pelos anos de vida útil
Demonstração de resultados apuramento de lucro ou prejuízo
Balanço ativo = capital próprio + passivo
Mapa de tesouraria entradas e saídas de dinheiro por período
Ponto crítico volume em que o resultado é zero
Payback tempo para recuperar o investimento com os cash-flows
VAL / TIR valor atual líquido / taxa que anula o VAL
TAEG taxa que mede o custo total de um crédito
Regime de isenção do art. 53.º IVA: faturar sem IVA abaixo do limiar de volume de negócios
Regime simplificado IRS: rendimento tributável por coeficientes
TSU taxa contributiva do regime geral da Segurança Social
Empreende XXI medida de apoio à criação de empresas e do próprio emprego (IEFP)

Síntese

Elaborar um plano de negócios é traduzir uma ideia em estratégia e números. Começa-se por estabelecer o âmbito de atuação, a visão, a missão e objetivos SMARTER; analisa-se o mercado com PESTEL, Porter e SWOT; define-se a estratégia comercial (segmentos, posicionamento, 4 Ps, canais diretos e indiretos); descrevem-se as operações e os recursos humanos, com o custo real de cada colaborador. Depois constrói-se o plano de investimento e o plano financeiro (demonstração de resultados completa, balanço, tesouraria, ponto crítico), enquadra-se a fiscalidade (IVA, IRS ou IRC, Segurança Social), avalia-se a viabilidade com payback, VAL, TIR e cenários, escolhe-se o financiamento conhecendo o seu custo e os apoios, e define-se como o negócio vai ser gerido e controlado. Um bom plano não é o mais longo: é o mais claro, coerente e fundamentado.

Exercícios resolvidos

Exercício 1 · Ponto crítico de um gabinete de estética. Custos fixos de 3 600 €/mês, preço médio de 45 € por tratamento, custo variável de 9 €.

Exercício 2 · Payback, VAL e TIR. Investimento de 10 000 €, cash-flows de 4 000 € por ano durante 3 anos, custo do capital 6%.

Exercício 3 · Custo de uma contratação. Uma colaboradora com salário de 920 €: 920 × 14 = 12 880 €; TSU patronal 12 880 × 23,75% = 3 059 €; seguro (1%) 128,80 €; custo anual 16 067,80 €; custo médio mensal ≈ 1 338,98 €. O plano deve prever cerca de 1 339 € por mês e não 920 €.

Exercício 4 · Segurança Social de uma independente. 3 500 € de serviços no trimestre, fora do primeiro ano de atividade: 3 500 × 70% = 2 450 €; ÷ 3 = 816,67 €; × 21,4% ≈ 174,77 € por mês nos três meses seguintes.