Mini-Projecto · Campanha audiovisual e multimédia para uma causa local
Contexto
O Banco de Ajudas Técnicas do Montijo é uma estrutura da rede social do concelho que recolhe, repara e empresta gratuitamente equipamentos de mobilidade — cadeiras de rodas, andarilhos, canadianas, camas articuladas — a pessoas que deles precisam temporariamente. Funciona numa antiga garagem municipal, com dois funcionários e nove voluntários, e vive de doações de material usado.
Tem dois problemas simultâneos, e são opostos:
- Falta material. Há listas de espera de seis semanas para uma cama articulada, enquanto centenas de equipamentos estão parados em garagens de famílias que já não precisam deles e não sabem que podem doar.
- Sobra desconhecimento. Muita gente que precisa não sabe que o serviço existe, ou julga que é preciso "ser pobre" ou "ter um papel do médico" para lá chegar. Quem chega, chega por indicação de um enfermeiro do centro de saúde.
Foste contratado para conceber e produzir a campanha audiovisual e multimédia do Banco. Trabalhas individualmente ou a pares. O orçamento de produção é zero — o que tens é o equipamento da escola (ou um telemóvel com um microfone de lapela), tempo, e acesso ao espaço e às pessoas.
Entregas um conjunto coerente de peças audiovisuais com toda a documentação de produção que as sustenta, uma peça multimédia interativa, e um dossiê com briefing, guiões, storyboard, autorizações, licenças, verificação de acessibilidade, plano de medição e avaliação de riscos.
Alternativa: podes substituir o Banco de Ajudas Técnicas por uma associação, coletividade, IPSS ou microempresa real da tua zona, desde que tenhas acesso ao espaço e às pessoas e o briefing seja igualmente completo e aprovado pelo formador. Não é aceitável uma organização inventada — metade das aprendizagens deste projeto está em lidar com pessoas reais, autorizações reais e restrições reais.
Requisitos
Funcionais
- Briefing audiovisual completo com as 10 perguntas (organização, objetivo de negócio, público e contexto, mensagem única, ação pretendida, suporte/formato/duração, plataformas, restrições, recursos e métrica de sucesso). Dois públicos distintos têm de estar caracterizados: quem doa e quem precisa.
- Análise de suportes: tabela comparativa de pelo menos cinco suportes possíveis (vídeo institucional, reel vertical, animação explicativa, peça interativa, cartaz-vídeo mudo, podcast, streaming), com função, custo relativo, adequação ao público e decisão justificada — incluindo o que decidiste não fazer e porquê.
- Logline e sinopse da peça principal. A logline com personagem, objetivo e obstáculo; a sinopse em 6 a 10 linhas, com o final incluído.
- Guião a duas colunas (imagem / som) da peça principal, com coluna de duração e soma total verificada contra a duração-alvo. Narração cronometrada à razão de 2,3–2,7 palavras por segundo.
- Guião técnico da peça principal: escala de plano, movimento de câmara, ótica e transição, plano a plano.
- Storyboard completo da peça principal (mínimo 12 vinhetas) com escala, movimento, som e duração por vinheta.
- Animatic montado na timeline com as durações do storyboard e narração provisória gravada no telemóvel, antes de qualquer rodagem.
- Plano de produção: lista de planos agrupada por local e por pessoa, plano de rodagem com horas, lista de material, contingências, e autorizações de imagem assinadas por todos os participantes identificáveis.
- Peça audiovisual principal: 90 a 120 s, 16:9, com pelo menos duas pessoas reais entrevistadas, som direto de qualidade utilizável, b-roll e planos de pormenor.
- Três peças verticais de 20 a 30 s (1080 × 1920), cada uma com um ângulo diferente e legendas gravadas — pelo menos uma dirigida a quem doa e uma a quem precisa.
- Cartaz-vídeo mudo de 15 a 25 s em ciclo (16:9), para os ecrãs do centro de saúde, farmácias e junta de freguesia. Tem de comunicar sem som.
- Bloco de motion graphics de 10 a 20 s com dados reais do Banco (equipamentos emprestados, pessoas apoiadas, tempo médio de espera), com fonte visível e escala honesta, integrado na peça principal.
- Peça multimédia interativa — à escolha: (a) um percurso navegável "Preciso de um equipamento — e agora?" com ramificação por tipo de necessidade; ou (b) um módulo "Como doar" com verificação interativa do estado do equipamento. Mínimo 6 ecrãs, com mapa de navegação e ficha por ecrã, feito em H5P, Genially ou HTML.
- Legendas em SRT/VTT para a peça principal e gravadas nas verticais, revistas por outra pessoa.
- Verificação de acessibilidade documentada: contrastes medidos, legendas verificadas, informação nunca só por cor nem só por som, e navegação por teclado testada na peça interativa.
- Plano de medição: métrica por peça, instrumento de recolha, valor-alvo e critério de desvio; mais o desenho de um teste A/B com hipótese e variável isolada.
- Avaliação de riscos da rodagem (mínimo 5 riscos com medidas) e três medidas ambientais aplicadas na produção.
- Dossiê de produção com tudo o acima, mais registo de licenças de música e de imagem.
Não-funcionais
- Captação a 25 fps em todo o projeto, obturação 1/50, balanço de brancos fixo e ISO nativo. Se filmares em 4K, é para reenquadrar as verticais sem perda.
- Áudio captado a 48 kHz / 24 bit, com picos entre −12 e −6 dBFS, monitorizado com auscultadores. Room tone gravado em cada local.
- Entrega com sonoridade ≈ −14 LUFS e pico verdadeiro ≤ −1 dBTP; música 12 a 18 dB abaixo da voz, com automação.
- Correção de cor antes da etalonagem, verificada em waveform e vetorscópio; planos da mesma cena uniformizados.
- Todas as saídas exportadas a partir do master, nunca umas das outras. MP4 / H.264, AAC 48 kHz.
- Zonas seguras respeitadas nas verticais (~250 px livres em cima e em baixo); legendas com máximo de 2 linhas e ~42 caracteres por linha.
- Contraste de texto sobre imagem ≥ 4,5:1 (texto normal) e ≥ 3:1 (texto grande); sem flashes acima de 3 por segundo.
- Animação sem interpolação linear — curvas ease em todos os movimentos.
- Música e imagens com licença verificada e arquivada; autorizações de imagem assinadas, incluindo encarregados de educação para menores.
- Ficheiros organizados na estrutura de projeto (
01_bruto…06_documentos), com cópia de segurança em dois suportes antes de qualquer edição, e versionamentov01/v02/final_aprovado. - Nenhum dado pessoal de utentes visível: nomes em listas, fichas clínicas, moradas, matrículas.
Fases
Fase 1 · Briefing, análise de suportes e estratégia (2h) Visitar (ou contactar) a organização. Preencher o briefing das 10 perguntas com as duas frentes de público. Construir a tabela comparativa de suportes e decidir, por escrito, o que se faz e o que não se faz. Fixar a métrica de sucesso antes de escrever uma linha de guião.
Fase 2 · Narrativa: logline, sinopse e estrutura (2h) Encontrar a personagem. Escrever a logline e testá-la em voz alta com um colega: gera curiosidade? Escrever a sinopse com o final incluído e submetê-la a aprovação do formador antes de escrever o guião. Definir a estrutura (três atos, ou problema-solução-prova-ação) e o peso de cada bloco em segundos.
Fase 3 · Guião, guião técnico e storyboard (3h) Escrever o guião a duas colunas com durações. Somar e verificar contra a duração-alvo; cronometrar a narração em voz alta. Desenvolver o guião técnico. Desenhar as 12+ vinhetas do storyboard. Somar as vinhetas — se o total não bater certo com o guião, o problema resolve-se aqui.
Fase 4 · Animatic e plano de produção (2h) Montar o animatic com as vinhetas e a narração provisória gravada no telemóvel. Ver, ouvir e cortar o que não funciona — é aqui que se descobrem os 20 segundos a mais. Construir a lista de planos agrupada por local e por pessoa, o plano de rodagem com horas, a lista de material e as contingências. Preparar e enviar as autorizações de imagem. Fazer a avaliação de riscos do local.
Fase 5 · Rodagem (4h) Testar som antes de tudo. Gravar room tone em cada local. Entrevistas com lapela, luz de janela ou LED suave, e enquadramento com ar de olhar. Filmar b-roll generoso e planos de pormenor. Pedir aos entrevistados que respondam em frases completas. Filmar a pensar nas três verticais e no cartaz mudo desde já. No fim: copiar os cartões para dois suportes antes de sair do local.
Fase 6 · Seleção e montagem provisória (2h) Ver todo o material e marcar o que presta, com time codes. Montar a estrutura sem grafismos nem música (rough cut), só imagem e som direto. Submeter a aprovação. É nesta versão que se discute o que fica e o que sai — não depois de grafada e etalonada.
Fase 7 · Montagem final, cor, som e motion (3h) Aplicar cortes na ação, planos de corte, J-cuts e L-cuts. Corrigir a cor plano a plano com waveform e vetorscópio, uniformizar, e só depois etalonar. Produzir o bloco de motion graphics com os dados. Tratar o áudio: passa-alto, compressão, música com automação, normalização a −14 LUFS. Legendar e rever as legendas.
Fase 8 · Derivados e peça interativa (3h) Remontar (não recortar) as três verticais a partir do master, com reenquadramento, gancho nos 2 primeiros segundos e legendas gravadas. Produzir o cartaz-vídeo mudo, com o fim a ligar ao início para o ciclo. Construir a peça multimédia interativa a partir do mapa de navegação e das fichas de ecrã, com retorno em todas as ações e saída em todos os nós.
Fase 9 · Verificação, entrega e apresentação (1h) Correr a checklist de qualidade completa. Verificar acessibilidade. Exportar todas as saídas a partir do master, nos formatos corretos. Organizar o dossiê. Apresentar em 10 minutos: o problema, a decisão de suportes, uma peça, e o plano de medição — respondendo à pergunta "porque é que isto vai funcionar?".
Critérios de avaliação
| Critério | O que se avalia | Ponderação |
|---|---|---|
| Briefing e análise de suportes | Dois públicos caracterizados, métrica definida à partida, comparação fundamentada e decisão justificada (incluindo o que se rejeitou) | 10% |
| Narrativa e guião | Logline com conflito, sinopse com final, guião a duas colunas com durações somadas e verificadas, narração cronometrada | 15% |
| Storyboard, animatic e plano de produção | 12+ vinhetas legíveis, animatic montado antes da rodagem, lista de planos agrupada, contingências, autorizações tratadas | 15% |
| Captação (imagem e som) | Parâmetros corretos e constantes, luz cuidada, composição com intenção, som limpo com room tone, b-roll suficiente | 15% |
| Montagem, cor e áudio | Continuidade, ritmo, tipos de corte usados com critério, correção antes de etalonagem, mistura dentro do alvo | 15% |
| Derivados e motion | Verticais remontadas (não recortadas), cartaz que funciona mudo, animação com ease e dados honestos | 10% |
| Peça multimédia interativa | Mapa coerente, 6+ ecrãs, retorno em todas as ações, saída em todos os nós, navegável por teclado | 10% |
| Acessibilidade, normas e medição | Legendas revistas, contrastes verificados, licenças e consentimentos arquivados, riscos avaliados, plano de medição com critérios de desvio | 5% |
| Apresentação e defesa | 10 minutos claros, decisões justificadas, resposta a "porque é que isto vai funcionar?" | 5% |
| Total | 100% |
Erros comuns
- Escolher os suportes por hábito ("faz-se um vídeo e uns posts") sem comparar alternativas nem justificar as rejeições.
- Caracterizar um só público quando o problema tem duas frentes opostas — e produzir uma campanha que não fala a nenhuma delas.
- Escrever o guião sem cronómetro e descobrir na montagem que a narração não cabe.
- Saltar o animatic. É a fase que parece dispensável e é a que mais tempo poupa.
- Começar a peça com o logótipo da organização.
- Fazer o storyboard depois de filmar, para juntar ao dossiê. Nota-se sempre.
- Filmar tudo pela ordem do guião, andando de um lado para o outro, em vez de agrupar por local.
- Não gravar room tone e passar depois duas horas a tapar buracos de som.
- Confiar no microfone da câmara "porque a sala é sossegada".
- Não ouvir com auscultadores durante a gravação.
- Pedir aos entrevistados respostas curtas e ficar com frases que não funcionam sem a pergunta.
- Balanço de brancos automático numa entrevista junto a uma janela.
- Filmar em 16:9 e "arranjar" as verticais com um recorte central — cortando cabeças.
- Recortar as verticais a partir do MP4 já exportado, em vez de remontar do master.
- Etalonar antes de corrigir; decidir cor num monitor por calibrar, à noite.
- Música ao mesmo nível da voz, sem automação.
- Entregar a −9 LUFS e estranhar que a peça soe pior do que as outras na plataforma.
- Publicar sem legendas, ou aceitar a transcrição automática sem rever nomes e números.
- Animar com interpolação linear e truncar o eixo do gráfico para o crescimento parecer maior.
- Fazer a peça interativa sem mapa de navegação, com ecrãs sem saída.
- Filmar em casa de um utente sem reparar na caixa de medicação, na fatura ou no nome na porta.
- Não recolher autorizações de imagem — e ter de retirar a peça depois de publicada.
- Usar música encontrada online sem licença arquivada.
- Formatar os cartões antes de confirmar que a cópia está completa nos dois suportes.
- Entregar sem checklist e falhar no básico: um erro ortográfico no cartão final, que fica em ecrã 6 segundos.
- Publicar e não medir — e no ano seguinte não ter argumento nenhum para pedir meios.
Bónus (opcional)
- Produzir uma versão de 30 s da peça principal para exibição paga, isolando o argumento mais forte, e comparar a retenção das duas versões.
- Gravar e montar um episódio de áudio de 8 minutos com a Manuela e um voluntário, com mistura própria e normalização a −16 LUFS.
- Fazer a audiodescrição da peça principal, numa faixa alternativa.
- Produzir uma versão da peça principal legendada em inglês ou em crioulo, se for relevante para a comunidade local.
- Desenhar o ecrã de erro e o ecrã de estado vazio da peça interativa — os que ninguém desenha e toda a gente encontra.
- Fazer um teste de usabilidade com 5 pessoas na peça interativa, classificar os problemas por gravidade e aplicar as correções.
- Preparar um kit de continuidade para a organização: 3 modelos reutilizáveis, uma página de instruções e a lista de zonas seguras, para que possam produzir sozinhos depois de o projeto acabar.
- Calcular o custo real da produção se fosse contratada a preço de mercado, e apresentá-lo à organização como valor doado.
Reflexão
No final, responde por escrito:
1. Qual foi a decisão que o animatic te obrigou a mudar — e porque é que não a tinhas visto no guião escrito?
2. Em que momento é que o som te deu mais trabalho do que a imagem, e o que farias de diferente na próxima rodagem?
3. Filmaste pessoas reais numa situação de vulnerabilidade. Que decisão tomaste para proteger alguém mesmo tendo autorização assinada para filmar — e porquê? (Ter permissão legal e ser correto não são a mesma coisa.)
4. Se a campanha correr mal, que número vais olhar primeiro? E se esse número estiver bom mas os equipamentos não chegarem, onde é que o problema está — na comunicação ou na organização?