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UC UC02947 · T. Mecatrónica

Ficha de Trabalho 2 — Análise de Falha e Proposta de Material Alternativo

Versão · Aluno
Tempo · 45 minutos
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Ficha de Trabalho 2 — UC02947

Análise de Falha e Proposta de Material Alternativo

Duração: 90 minutos | Consulta: Sebenta e tabelas fornecidas | Calculadora: Permitida


Grupo I — Verdadeiro / Falso (20 pontos)

  1. A fractura por fadiga inicia-se normalmente no interior da peça (zona de maior tensão volumétrica). ___
  2. As marcas de praia (beach marks) numa superfície de fractura são características de uma falha por fadiga. ___
  3. O desgaste abrasivo é causado pela transferência e soldagem de material entre superfícies em contacto a seco. ___
  4. A cementação é um tratamento termoquímico que aumenta a dureza da superfície de componentes em aço de baixo teor em carbono. ___
  5. O SSCC (Sulfide Stress Corrosion Cracking) afecta principalmente aços de baixa resistência mecânica (Rm < 500 MPa). ___
  6. O shot peening (granalha) é um tratamento de superfície que introduz tensões residuais de tracção e aumenta a vida à fadiga. ___
  7. A corrosão por picadas (pitting) ocorre frequentemente em aços inoxidáveis expostos a soluções com iões cloreto. ___
  8. A presença de grafite em forma lamelar no ferro fundido cinzento actua como concentrador de tensão, reduzindo a tenacidade. ___
  9. Para identificar se uma fractura é dúctil ou frágil, basta observar a percentagem de deformação plástica antes da rotura. ___
  10. A série galvânica indica que o zinco é mais nobre que o aço carbono e, por isso, protege o aço como ânodo de sacrifício. ___

Soluções — Grupo I

  1. F — A fractura por fadiga inicia-se quase sempre na superfície da peça, em pontos de concentração de tensão (entalhes, ranhuras, mudanças de secção, marcas de maquinagem) onde a tensão local é máxima.
  2. V — As marcas de praia são formadas por variações da velocidade de propagação da fenda durante ciclos de carga (mais lenta durante paragens) e são características de fadiga.
  3. F — A descrição corresponde ao desgaste adesivo (galling), não abrasivo. O desgaste abrasivo é causado por partículas duras (abrasivos) que riscam mecanicamente a superfície.
  4. V — A cementação (carburização) aumenta o teor de C na superfície de aços de baixo C (0,1–0,2%C) como 16MnCr5 ou 20MnCr5, seguida de têmpera para obter superfície dura com núcleo tenaz.
  5. F — SSCC afecta principalmente aços de alta resistência (Rm > 700 MPa, HRC > 22). A fragilização por hidrogénio é tanto mais grave quanto maior a resistência e a dureza do aço.
  6. F — Shot peening introduz tensões residuais de compressão (não tracção) na camada superficial, o que dificulta a iniciação e propagação de fendas de fadiga, aumentando a vida à fadiga.
  7. V — O ião cloreto (Cl⁻) rompe a camada passiva de Cr₂O₃ nos inoxes, especialmente em pontos localizados, iniciando o pitting. Por isso se usa 316L (com Mo) em ambientes com Cl⁻.
  8. V — As lamelas de grafite no GG actuam como descontinuidades (concentradores de tensão) na matriz de ferro, reduzindo a tenacidade comparativamente ao GGG (grafite nodular).
  9. V — Fractura dúctil: estricção, alongamento visível, dimples (microscópio). Fractura frágil: sem deformação macroscópica aparente, superfície brilhante ou granulosa.
  10. F — O zinco é menos nobre que o aço (maior potencial anódico na série galvânica), por isso actua como ânodo de sacrifício. Ao corroer-se preferencialmente, protege o aço catodicamente.

Grupo II — Análise de Falha de uma Peça Descrita (40 pontos)

Caso de Estudo — Falha de um Eixo de Transmissão

Descrição da avaria:

Um eixo de transmissão Ø40 mm de uma correia transportadora numa fábrica de cimento falhou ao fim de 3 meses de serviço. O eixo é em aço C45 normalizado. Condições de serviço: carga de flexão rotativa (bending fatigue), com cargas de choque ocasionais da correia carregada, temperatura ambiente 30–50°C, ambiente com pó de cimento.

Observações na análise da fractura: - Fractura ocorreu na zona da chaveteira (ranhura de chaveta) - Superfície de fractura apresenta marcas de praia concêntricas ao fundo da ranhura - Zona de fractura final ocupa ≈ 30% da secção transversal - Dureza medida no veio: 175 HB (conforme normalização de C45: 170–220 HB) - Análise química do material: composição confirma C45 - Ranhura da chaveteira tem cantos vivos (raio ≈ 0,1 mm)

a) Identifique o modo de falha e justifique com base nas observações.

b) Determine a causa raíz da falha. (Considere o factor de concentração de tensão Kt de uma chaveteira com raio de fundo de 0,1 mm ≈ 3,5)

c) Proponha as melhorias de projecto/material para prevenir a recorrência.

d) Se a empresa quiser substituir o material por um de maior resistência à fadiga para a mesma geometria, compare C45 temperado e revenido (Rm = 700 MPa) vs. 42CrMo4 T&R (Rm = 1000 MPa), calculando o limite de fadiga esperado para cada um (limite de fadiga ≈ 0,45 × Rm para aços).

Soluções — Grupo II

a) Modo de falha:

Fadiga por flexão rotativa, iniciada na chaveteira.

Evidências: - Marcas de praia concêntricas ao fundo da ranhura → propagação cíclica característica de fadiga - Ponto de iniciação: fundo da chaveteira (zona de concentração de tensão) - Zona de fractura final ≈ 30% da secção → a fenda cresceu até que a secção residual não suportou a carga - Ausência de indicação de deformação plástica macroscópica antes da fractura (típico de fadiga)

b) Causa raíz:

Concentração de tensão excessiva no fundo da chaveteira (Kt ≈ 3,5) combinada com cargas de choque.

Cálculo: A tensão nominal de flexão (σ_n) é amplificada pelo Kt: σ_local = Kt × σ_n = 3,5 × σ_n

O limite de fadiga do C45 normalizado (sem concentrador): σ_f ≈ 0,45 × 370 = 167 MPa Com o concentrador: σ_f_efectivo ≈ 167 / 3,5 ≈ 48 MPa

Se σ_n > 48 MPa na zona da chaveteira (muito provável com cargas de choque), a fadiga inicia-se cedo.

Factores agravantes: - Raio de fundo de 0,1 mm é extremamente pequeno (valor recomendado: ≥ 0,5 mm, idealmente 1–2 mm) - Pó de cimento no ambiente pode actuar como abrasivo nas fendas (acelera propagação) - Cargas de choque sobrepõem tensão de impacto sobre a carga nominal

c) Melhorias de projecto/material:

Melhorias de projecto (mais impactantes): 1. Aumentar o raio de fundo da chaveteira de 0,1 mm para ≥ 1,5 mm → Kt reduz de 3,5 para ≈ 1,8–2,0 2. Shot peening da chaveteira após maquinagem → compressão residual reduz propagação 3. Rolamento da chaveteira (cold rolling) → compressão residual + encruamento superficial 4. Considerar ligação por interferência (ajuste prensado) em vez de chaveta se o torque permitir

Melhorias de material: - Usar C45 temperado e revenido (Rm ≈ 700 MPa) em vez de normalizado (Rm ≈ 370 MPa) - Ou 42CrMo4 T&R para ambientes com impacto

d) Comparação de limite de fadiga:

Material Rm (MPa) Limite de fadiga (≈0,45×Rm) Com Kt=3,5 (efectivo)
C45 normalizado 370 167 MPa 48 MPa
C45 T&R 700 315 MPa 90 MPa
42CrMo4 T&R 1000 450 MPa 129 MPa

Conclusão: Com 42CrMo4 T&R e melhorias de projecto (raio 1,5 mm → Kt ≈ 2), o limite de fadiga efectivo sobe para ≈ 225 MPa — muito superior ao C45 normalizado (48 MPa). A combinação de material melhorado + geometria corrigida é a solução mais robusta.


Grupo III — Proposta de Material Alternativo com Justificação (40 pontos)

Caso de Estudo — Falha de Retentores de Veio em Bomba Química

Contexto:

Uma bomba centrífuga numa linha de produção química utiliza retentores de veio em NBR (nitrilo). Os retentores falham sistematicamente em 2–4 meses, quando a especificação de vida seria 2 anos. A análise mostra que: - O fluido bombeado é uma solução aquosa de NaOH a 15% (soda cáustica), temperatura 85°C - O veio tem diâmetro Ø35 mm e velocidade de 1 450 rpm - Os retentores falhados apresentam endurecimento, fissuração e perda de elasticidade - Não existem indicações de desgaste mecânico excessivo (superfície do veio em bom estado)

a) Identifique o mecanismo de degradação dos retentores NBR nesta aplicação e justifique com base nas propriedades do NBR.

b) Proponha 2 materiais alternativos para os retentores, indicando para cada um: propriedades relevantes, temperatura máxima, resistência ao NaOH e custo relativo.

c) Seleccione o material preferencial justificando a escolha. Identifique algum requisito adicional que deva ser verificado antes de implementar a solução.

d) O gestor sugere também revestir o veio com carboneto de crómio (Cr₃C₂-NiCr, dureza ≈ 900 HV) por HVOF (High Velocity Oxy-Fuel). Explique os benefícios deste revestimento para a durabilidade do conjunto vedante-veio.

Solução — Grupo III

a) Mecanismo de degradação do NBR:

O NBR (nitrilo butadieno borracha) tem excelente resistência a óleos minerais, mas fraca resistência a bases concentradas a alta temperatura. O NaOH 15% a 85°C provoca:

  1. Hidrólise alcalina: a cadeia polimérica do NBR é atacada por OH⁻, quebrando as ligações éster e nitrilo → endurecimento progressivo (perda de plasticidade)
  2. Extracção de plastificantes: a base dissolve/extrai os plastificantes que mantêm a borracha flexível → rigidez, fissuração
  3. Temperatura agravante: a 85°C a cinética das reacções químicas é muito mais rápida do que a temperatura ambiente (regra de Arrhenius: cada +10°C dobra a velocidade de reacção)

Resultado: o NBR perde a elasticidade e a capacidade de vedar → falha precoce em 2–4 meses.

b) Materiais alternativos:

Opção 1: EPDM (Etileno-Propileno-Dieno Monómero)

Propriedade Valor
Temperatura máxima 150°C
Resistência a NaOH Excelente (bases fortes)
Resistência a óleos minerais Fraca
Shore A típico 60–80
Custo relativo (vs. NBR) +30–50%

Limitação: não pode ser utilizado se houver qualquer contaminação por óleo mineral no sistema.

Opção 2: FKM (Fluoroelastómero — Viton)

Propriedade Valor
Temperatura máxima 200°C
Resistência a NaOH Boa a excelente (FKM GF tipo)
Resistência a óleos minerais Excelente
Shore A típico 70–90
Custo relativo (vs. NBR) +200–400%

Nota: FKM standard tem boa resistência a bases diluídas; para NaOH concentrado a alta T recomenda-se FKM tipo GF ou FFKM (Perfluoroelastómero).

c) Selecção preferencial:

Material seleccionado: EPDM (se não há risco de contaminação por óleo) ou FKM GF (se há possibilidade de óleo no sistema)

Para esta aplicação específica (bomba dedicada a NaOH, sem óleo): - EPDM é a escolha óptima — excelente resistência a NaOH, menor custo que FKM, temperatura máxima (150°C) superior à condição (85°C)

Requisitos adicionais a verificar antes de implementar: 1. Confirmar que o sistema é exclusivamente aquoso (sem qualquer lubrificante à base de óleo mineral) 2. Verificar a compatibilidade do material do lip spring (mola da garra do retentor) com NaOH — se for aço inox standard, verificar resistência ao ataque alcalino 3. Confirmar rugosidade do veio: Ra ≤ 0,8 µm (retentor EPDM pode ser mais exigente que NBR) 4. Verificar disponibilidade de retentores EPDM nas dimensões Ø35 (nem sempre em stock; lead time 2–4 semanas)

d) Benefícios do revestimento Cr₃C₂-NiCr no veio:

  1. Dureza superficial 900 HV vs. aço comum 180–220 HB → redução drástica do desgaste do veio pelo lip do retentor
  2. Rugosidade controlada após rectificação do revestimento: Ra 0,2–0,4 µm → menor desgaste do retentor; melhor vedação hidrodinâmica
  3. Resistência à corrosão pelo NaOH: o NiCr como ligante resiste a ambientes alcalinos; o Cr₃C₂ é quimicamente estável
  4. Durabilidade do sistema: veio com vida útil 5–10× superior comparado a aço C45 sem revestimento → menor frequência de troca do veio

Nota: O revestimento HVOF é aplicado por projecção térmica de alta velocidade, resultando em porosidade muito baixa (<1%) e boa aderência (> 70 MPa), superior às técnicas de plasma spray.


Ficha de Trabalho 2 — UC02947 — TMIM — Aulify