Ficha 02 · Arranque, manutenção, diagnóstico
- Arranque
- Protecção
- Manutenção
- Diagnóstico
Parte I · Métodos de arranque
Exercício 1 · Escolha do método (15 pts)
Para cada caso, indica o método de arranque mais adequado e justifica:
a) Motor 2,2 kW de ventilador de extracção de habitação. b) Motor 11 kW de bomba centrífuga em rede industrial normal. c) Motor 22 kW de compressor de ar com carga elevada no arranque. d) Motor 75 kW de bomba de elevação numa ETAR (estação de tratamento de águas). e) Motor 0,75 kW de uma esmeriladora de bancada.
a) 2,2 kW ventilador: arranque directo (DOL). Potência baixa, carga leve (ventilador arranca em vazio). Rede aguenta o pico sem problema.
b) 11 kW bomba centrífuga: estrela-triângulo ou arranque suave. Bomba arranca em vazio (água ainda não está pressurizada), suportando binário reduzido em estrela. Alternativa moderna: VFD com controlo de pressão.
c) 22 kW compressor: arranque suave (soft-starter) ou VFD. Estrela-triângulo não recomendado: compressor tem carga alta no arranque (pressão residual na linha) e em estrela o binário pode ser insuficiente. Soft-starter ou VFD permitem arranque controlado com binário adequado.
d) 75 kW bomba ETAR: VFD obrigatório. Razões: controlo contínuo de caudal conforme nível dos tanques, poupança energética (cargas variáveis), arranques/paragens frequentes sem stress mecânico, protecções integradas. Compatível com automação centralizada.
e) 0,75 kW esmeriladora: arranque directo. Potência baixa, motor pequeno; arranque DOL é o standard. Disco gira em vazio (sem carga durante arranque).
Exercício 2 · Estrela-triângulo (10 pts)
Num arranque estrela-triângulo:
a) Quais são os 3 contactores necessários? b) Em que ordem actuam? c) Que componente fundamental garante o tempo de transição? d) Que dois inter-bloqueios são obrigatórios entre os contactores estrela e triângulo? Porquê?
a) 3 contactores: - KM1 (principal) — sempre ligado durante operação do motor; alimenta um terminal de cada bobina. - KM_Y (estrela) — curto-circuita os terminais U2-V2-W2 (criando ponto comum). - KM_D (triângulo) — liga os terminais cruzados U2-V1, V2-W1, W2-U1.
b) Sequência: 1. Pressionar START → activa KM1 + KM_Y → motor em estrela. 2. Após 4-10 segundos (típico), temporizador comuta: 3. KM_Y desactiva. 4. Pausa de transição (~50-100 ms para evitar curto entre fases). 5. KM_D activa → motor em triângulo, velocidade nominal.
c) Componente fundamental: relé temporizador (KT) estrela-triângulo. Equipamento industrial standard com: - Contacto temporizado on-delay (controla transição). - Tempo ajustável (1-30 s típico). - Pausa "morta" interna garantida (estrela já abriu antes de triângulo fechar).
d) Inter-bloqueios obrigatórios: 1. Inter-bloqueio eléctrico (NC): - KM_Y.A1 alimentado via KM_D.NC. - KM_D.A1 alimentado via KM_Y.NC. - Se um está activo, o outro não pode fechar. 2. Inter-bloqueio mecânico: alavanca física entre os 2 contactores, impedindo fecho simultâneo mesmo em caso de falha eléctrica.
Porquê tão crítico: se Y e Δ fechassem simultaneamente, criar-se-ia um curto-circuito entre 2 fases (porque o triângulo cruza os bornes e a estrela os curto-circuita). Disjuntor dispararia mas com explosão dos contactos. Dupla protecção é a regra de segurança industrial.
Parte II · Protecção do motor
Exercício 3 · Conjunto de protecção (15 pts)
Para um motor trifásico 7,5 kW (I_n = 14,5 A), especifica:
a) Disjuntor magnetotérmico (calibre e curva). b) Contactor (categoria e calibre). c) Relé térmico (gama de regulação). d) DR diferencial (calibre e sensibilidade). e) Cabo (secção).
a) Disjuntor magnetotérmico: - Calibre: 1,2-1,5× I_n = 17-22 A → escolher 20 A (calibre padrão). - Curva D (para motores) — disparo magnético a 10-20× I_n (suporta picos de arranque). - Ref. típica: Schneider iC60N D20 ou ABB S203 D20.
b) Contactor: - Categoria AC3 (motor de gaiola, manobra normal). - Calibre: I_n motor = 14,5 A. Escolher contactor de 18 A AC3: - Ref. típica: Schneider LC1D18 (18 A AC3, 7,5 kW @ 400 V). - Bobina A1-A2: 230 V CA ou 24 V CA/CC conforme circuito de comando.
c) Relé térmico: - Regulação: I_n motor = 14,5 A → ajustar a 14,5 A (centro da gama). - Gama de regulação que inclui 14,5 A: 13-18 A ou 12-16 A. - Ref. típica: Schneider LRD21 (gama 12-18 A). - Classe de disparo: classe 10 (standard); classe 20 ou 30 para arranques pesados.
d) DR (diferencial): - Sensibilidade: 300 mA (protecção de equipamento em ambiente industrial). Para protecção de pessoas em circuito de tomadas seria 30 mA. - Tipo: A (corrente alternada + pulsada — adequado para motores). Tipo B se houver VFD (corrente CC componente). - Calibre nominal: ≥ I_n motor → 25 A (acima do disjuntor).
e) Cabo: - Para 14,5 A em XLPE, 30 °C, 3 condutores carregados em conduta: tabela RTIEBT indica 2,5 mm² suporta ~22 A → adequado com margem. - Para distâncias > 20 m considerar 4 mm² para queda de tensão < 3%. - Tipo: H07RN-F (flexível, exterior) ou VV (rígido em conduta).
Exercício 4 · Curva característica (10 pts)
a) Que diferença entre curva B, curva C e curva D num disjuntor magnetotérmico? b) Porquê os motores usam curva D? c) Que aconteceria se ligássemos um motor a um disjuntor curva B?
a) Diferença está no disparo magnético (instantâneo, por curto-circuito): - Curva B: dispara a 3-5× I_n instantaneamente. Para circuitos resistivos (iluminação, aquecimento) sem picos. - Curva C: dispara a 5-10× I_n. Standard para tomadas, equipamentos domésticos com picos moderados (frigoríficos, micro-ondas). - Curva D: dispara a 10-20× I_n. Para motores e transformadores com picos de arranque elevados.
(Disparo térmico, por sobrecarga, é semelhante em todas as curvas — actua em segundos/minutos conforme nível.)
b) Motores usam curva D porque: - Pico de arranque em DOL = 5-7× I_n durante 1-3 segundos. - Curva B disparava sempre (≥3× já dispara) → motor nunca conseguiria arrancar. - Curva C poderia disparar (no limite de 5-10×, próximo do pico real). - Curva D dá margem suficiente (10-20×) → não dispara no arranque mas dispara em curto-circuito real.
c) Se usar curva B com motor: - No primeiro arranque, corrente sobe a 5-7× I_n. - Como B dispara a 3-5× I_n instantaneamente → disjuntor dispara imediatamente. - Motor não consegue arrancar. - Operador volta a armar disjuntor; volta a disparar. Frustrante e prejudicial. - Erro comum em instalações onde se reutilizou disjuntor de iluminação para motor.
Solução: substituir por curva D ou aumentar calibre da curva B (mas isso reduz protecção contra curto-circuito).
Parte III · Manutenção
Exercício 5 · Plano de manutenção (15 pts)
Elabora um plano de manutenção preventiva anual para um motor trifásico 30 kW de uma bomba industrial em operação 24/7. Indica acções por frequência.
Plano de Manutenção Preventiva — Motor 30 kW bomba 24/7
Diária (operador): - Verificação visual: ruído anormal, vibração à mão, fumo, cheiro a queimado. - Leitura de instrumentos: corrente em painel, temperatura externa do motor (sensor IR opcional). - Registo em log básico (OK / observação).
Semanal (técnico): - Limpeza externa: remover poeira da carcassa e ventoinha. - Inspecção da caixa de bornes: vedação OK, sem humidade. - Verificação dos cabos de alimentação no quadro: temperatura, conexões.
Mensal (técnico de manutenção): - Medição de corrente em carga nas 3 fases (pinça): registar e comparar com chapa. Detectar desequilíbrio > 5%. - Temperatura da carcassa com sensor IR: registar. - Verificação da fundação e fixação ao chão / estrutura.
Trimestral: - Lubrificação de rolamentos (se equipados com nipple): aplicar massa especificada (consultar manual) — tipicamente 5-15 g por rolamento. - Verificar alinhamento motor-bomba (régua + nível para verificação rápida).
Semestral: - Termografia em carga: identificar pontos quentes anormais. - Análise de vibração: acelerómetro nos mancais + FFT para detectar rolamento partido, desequilíbrio, desalinhamento. - Apertar bornes (caixa de bornes do motor + quadro) — chave dinamométrica conforme manual.
Anual (paragem programada): - Medição de isolamento (megger) entre cada fase e PE: > 1 MΩ obrigatório, > 100 MΩ ideal. - Inspecção das escovas (se aplicável; em assíncrono não há). - Verificação de alinhamento com laser ou comparador. - Substituição de filtros de ventilação se aplicável. - Verificação da terra: medir resistência terra do motor (terrómetro). - Análise de óleo dos mancais (se for sistema lubrificado).
A cada 3 anos: - Revisão profunda — desmontar (em oficina), limpar enrolamentos, vernizar, substituir rolamentos, re-balancear rotor.
Registos: - Log digital (dashboard) com todos os dados. - Dossier do motor com histórico de intervenções, gráficos de vibração e termografia ao longo do tempo.
Critérios de paragem para inspecção urgente: - Vibração > 2× nível baseline. - Temperatura > 80 °C acima do ambiente. - Corrente desequilibrada > 10% entre fases. - Ruído metálico ou de rolamento.
Exercício 6 · Termografia (10 pts)
Num relatório de termografia, foram detectados:
a) Borne A1 da bobina do contactor a 95 °C (resto do contactor a 45 °C). b) Lado posterior do motor a 88 °C (carcassa exterior 65 °C, ambiente 30 °C). c) Cabo da fase L2 a 75 °C, cabos L1 e L3 a 50 °C.
Para cada caso, indica diagnóstico provável e acção recomendada.
a) Borne A1 a 95 °C, resto a 45 °C — desvio localizado de 50 °C num único ponto. - Diagnóstico: conexão eléctrica defeituosa — borne mal apertado, fio oxidado, terminal solto. Resistência localizada elevada → potência dissipada (I²R) → ponto quente. - Acção: 1. Programar paragem (não emergência se conexão ainda não é crítica, mas urgente — risco de incêndio). 2. Desligar tensão, bloquear, sinalizar. 3. Verificar visualmente o borne: oxidação? Fio danificado? 4. Limpar com escova metálica fina, re-apertar com chave dinamométrica (binário conforme manual, ~1,2 Nm para borne típico). 5. Repetir termografia 24h depois — confirmar que ponto quente desapareceu.
b) Motor com lado posterior a 88 °C, carcassa exterior 65 °C (ambiente 30 °C). - Diagnóstico: lado posterior é tipicamente o mancal traseiro ou o ventilador. 88 °C indica problema localizado nesse mancal — rolamento partido, falta lubrificação, ou ventoinha danificada (não arrefece adequadamente). Diferença de 23 °C entre frente e trás é anormal. - Acção: 1. Auscultar com estetoscópio mecânico — som de rolamento? 2. Análise de vibração no mancal — espectro FFT identifica defeito no rolamento. 3. Verificar ventoinha — gira livre? Limpa? 4. Programar substituição do rolamento o quanto antes (paragem programada de 4-8h tipicamente).
c) Cabo L2 a 75 °C, L1 e L3 a 50 °C — desequilíbrio entre fases. - Diagnóstico: corrente de L2 superior às outras → desequilíbrio de cargas ou conexão de L2 defeituosa (resistência mais alta que outras fases → mais aquecimento para a mesma corrente). Pode também indicar espira em curto no motor (uma bobina com menos espiras puxa mais corrente). - Acção: 1. Medir corrente nas 3 fases com pinça — confirmar valor real de L2. 2. Se I_L2 muito superior: verificar isolamento das bobinas (megger entre cada fase e terra) — se uma fase mostra isolamento muito menor, é defeito interno do motor. 3. Se correntes são iguais mas L2 aquece: problema é conexão (borne, terminal, junção) — re-apertar e re-medir. 4. Se motor com espira em curto: enviar para rebobinar ou substituir.
Conclusão geral: termografia é poderosa, mas é apenas o primeiro indicador. Diagnóstico completo requer outros instrumentos (multímetro, megger, vibração) e desmontagem se necessário.
Parte IV · Diagnóstico
Exercício 7 · Avaria não arranca (15 pts)
Um motor trifásico 4 kW deixou de arrancar de um dia para o outro. Não há disjuntor disparado nem fusível queimado visível. Estabelece metodologia de diagnóstico com pelo menos 6 verificações ordenadas.
Metodologia de diagnóstico — motor não arranca
1. Inspecção visual e auditiva (sem ligar): - Sinais de queimadura na caixa de bornes ou carcassa? - Cheiro a isolamento queimado? - Cabos danificados, roedores, humidade? - Veio gira à mão? Se não — bloqueio mecânico (rolamento agarrado, carga obstruída).
2. Verificar comando (com multímetro): - Premir botão START — chega tensão à bobina do contactor? - Se sim: contactor fecha? Mede continuidade nos contactos principais. - Se contactor não fecha mas bobina recebe tensão: bobina queimada → substituir contactor. - Se contactor não recebe tensão: problema no circuito de comando (botão, contactos auxiliares, relé térmico disparado e não rearmado).
3. Verificar protecções: - Relé térmico armado? Botão de reset premido? - DR ligado? Já testou? Se DR continua a disparar — fuga à terra no motor (medir isolamento). - Disjuntor armado? Volta a disparar quando se arma?
4. Medir tensão à entrada do motor (com multímetro, contactor fechado): - L1-L2, L2-L3, L1-L3: devem ler ~400 V todas iguais. - Se uma leitura é baixa (~230 V em vez de 400): falta uma fase (fusível queimado num circuito anterior, contacto do contactor não fecha, cabo cortado). - Motor com 2 fases não arranca (mas "ruge"); se já estava a girar pode continuar mas com sobrecorrente nas 2 fases activas → relé térmico dispara em segundos.
5. Medir resistência dos enrolamentos (motor desligado, com multímetro): - Entre U1-V1, V1-W1, U1-W1 (assumindo terminal acessível): devem ser iguais (ex: 2,5 Ω todas). - Se uma resistência muito diferente: bobina queimada / aberta. - Se resistência muito baixa entre uma fase e terra: isolamento partido → motor para rebobinar.
6. Medir isolamento (megger 500 V CC): - Entre cada fase e PE: > 1 MΩ. - Se < 1 MΩ: humidade ou isolamento degradado. Tentar secar (estufa 60 °C / 24h ou aquecer com resistência de baixa tensão) e re-medir. - Se persiste: motor com defeito grave → rebobinar.
7. Se até aqui tudo bem mas continua sem arrancar: - Tentar arranque manual: gira o veio enquanto se liga? Se assim arranca, é problema de binário de arranque (capacitor avariado em monofásicos; carga demasiado pesada em trifásicos). - Verificar capacitores (em motor monofásico): medir com capacímetro; comparar com valor da placa.
8. Documentação: - Registar todas as medições e observações. - Fotografar componentes suspeitos. - Comunicar conclusão e acção a tomar (reparar / substituir / chamar especialista).
Princípio: começar pelo simples (visual, comando) e ir aprofundando (medições eléctricas). Não desmontar antes de medir.
Exercício 8 · Reparar vs substituir (10 pts)
Um motor 4 kW IE2 (eficiência 88,5%) de 12 anos com rolamento partido custa 250 € para reparar (mão-de-obra + peças). Motor novo equivalente IE3 (90%) custa 380 €. O motor funciona 6000 h/ano com carga 75% nominal.
a) Qual a poupança energética anual passando para IE3 (energia a 0,15 €/kWh)? b) Calcula payback da substituição. c) Que recomendarias e porquê?
a) Poupança energética anual:
Potência mecânica = 4 × 0,75 = 3 kW.
Motor antigo (IE2, η=88,5%): - Potência absorvida = 3 / 0,885 = 3,39 kW. - Energia anual = 3,39 × 6000 = 20 340 kWh. - Custo anual = 20 340 × 0,15 = 3051 €.
Motor novo (IE3, η=90%): - Potência absorvida = 3 / 0,90 = 3,33 kW. - Energia anual = 3,33 × 6000 = 20 000 kWh. - Custo anual = 20 000 × 0,15 = 3000 €.
Poupança: 3051 − 3000 = 51 €/ano.
b) Payback da substituição:
Diferença de custo: 380 (novo) − 250 (reparar) = 130 € adicionais.
Payback = 130 / 51 ≈ 2,5 anos.
c) Recomendação:
Substituir por motor novo IE3 — razões: 1. Payback de 2,5 anos é razoável (< 3 anos = bom investimento industrial). 2. Motor de 12 anos já está perto do fim da vida útil económica — em 2-3 anos pode aparecer outro problema (enrolamento, mancal dianteiro). 3. Motor novo vem com garantia (1-2 anos). 4. IE3 é o standard actual (obrigatório em motores novos UE) — futuro-proof. 5. Avaliar também: pode ser que valha a pena saltar para IE4 (rendimento ainda maior) se diferença de preço é pequena (50-100 € extra). Payback ainda mais rápido.
Quando reparar faria sentido: - Motor < 5 anos. - Motor maior (> 30 kW) onde reparar é muito mais barato que comprar (1500 € vs 5000 €). - Motor especial (servo, brushless) onde substituição requer também reconfigurar driver. - Disponibilidade urgente do equipamento (reparação pode ser feita em 24h, substituição leva dias).
Neste caso (4 kW, 12 anos, IE2 → IE3 disponível), substituir é a melhor opção.