Ficha 01 · Princípios e tipos
- Princípios
- Assíncrono
- Monofásico
- DC
Parte I · Princípios
Exercício 1 · Velocidade síncrona (10 pts)
Calcula a velocidade síncrona de um motor com:
a) 2 pólos, 50 Hz. b) 4 pólos, 50 Hz. c) 6 pólos, 60 Hz (rede americana). d) Que velocidade real esperarias num motor de 4 pólos com escorregamento de 4%?
Fórmula: n_sinc = 60 × f / p (onde p = pares de pólos)
a) 2 pólos = 1 par: n = 60 × 50 / 1 = 3000 rpm.
b) 4 pólos = 2 pares: n = 60 × 50 / 2 = 1500 rpm.
c) 6 pólos = 3 pares, 60 Hz: n = 60 × 60 / 3 = 1200 rpm.
d) Velocidade real com s = 4% (4 pólos): n_real = 1500 × (1 − 0,04) = 1440 rpm.
É exactamente a velocidade típica do motor industrial de 4 pólos (placa indica 1410-1440 rpm conforme fabricante e carga).
Exercício 2 · Conceitos (10 pts)
Explica brevemente:
a) Porque é que um motor de indução é "assíncrono"? b) O que é o "escorregamento" (s) e qual a sua ordem de grandeza típica? c) Pode o rotor atingir a velocidade síncrona? Justifica.
a) Assíncrono porque o rotor nunca roda exactamente à velocidade do campo magnético do estator. Há sempre uma diferença (escorregamento) — daí "não-síncrono".
b) Escorregamento (s) = diferença relativa entre velocidade síncrona e velocidade real:
s = (n_sinc − n_rotor) / n_sinc
Tipicamente 2-5% em carga nominal. Em vazio aproxima-se de 0; em carga máxima pode chegar a 10%.
c) Não pode atingir a velocidade síncrona porque, se isso acontecesse: - O campo magnético giraria à mesma velocidade que o rotor. - Não haveria variação de fluxo através das barras do rotor. - Não haveria f.e.m. induzida (Lei de Faraday). - Não haveria corrente no rotor. - Não haveria binário.
Por isso, sempre que há binário, há escorregamento. Quanto mais carga, mais escorregamento (até um limite máximo de binário).
Parte II · Motor assíncrono trifásico
Exercício 3 · Estrela vs triângulo (15 pts)
Tens um motor com a seguinte chapa:
P: 5,5 kW
U: 400/690 V Δ/Y
I: 10,8/6,2 A
cos φ: 0,84
n: 1450 rpm
a) A que tensão se liga em triângulo? E em estrela? b) Numa rede 400 V trifásica, como o ligas? c) Numa rede 690 V trifásica (industrial), como o ligas? d) Quanto consome o motor em carga nominal numa rede 400 V?
a) Triângulo liga-se a 400 V (a tensão menor da placa); estrela liga-se a 690 V (a tensão maior).
b) Em rede 400 V: ligação triângulo (Δ). Cada bobina vê 400 V (a sua tensão nominal). Consumo nominal: 10,8 A.
c) Em rede 690 V: ligação estrela (Y). Cada bobina vê 690/√3 ≈ 398 V (a sua tensão nominal). Consumo nominal: 6,2 A.
d) Em 400 V (triângulo): 10,8 A por fase. Potência absorvida da rede:
S = √3 × U × I = √3 × 400 × 10,8 ≈ 7,5 kVA
P_eléctrica = S × cos φ = 7,5 × 0,84 ≈ 6,3 kW
η = P_mec / P_eléc = 5,5 / 6,3 ≈ 87%
(O rendimento bate certo com IE3 — alta eficiência.)
Nota importante: a relação entre tensões Y/Δ (690/400 = √3) é típica. Se a placa diz "230/400 V" então liga-se em triângulo a 230 V ou estrela a 400 V. Há que ler com atenção.
Exercício 4 · Cálculos práticos (15 pts)
Motor trifásico industrial: - P = 11 kW - U = 400 V - cos φ = 0,85 - η = 90%
Calcula:
a) Corrente nominal absorvida (I_n). b) Disjuntor magnetotérmico adequado (calibre). c) Relé térmico (gama de regulação). d) Secção do cabo de alimentação (consultar tabela RTIEBT — assume cabo XLPE em conduta isolada com 3 condutores carregados, 30 °C ambiente). e) Pico de corrente esperado no arranque directo.
a) Corrente nominal:
P_eléctrica = P_mec / η = 11 / 0,9 ≈ 12,2 kW
I_n = P_eléc / (√3 × U × cos φ) = 12 200 / (√3 × 400 × 0,85)
I_n ≈ 20,7 A
b) Disjuntor magnetotérmico: calibre 1,2-1,5× I_n para suportar arranque sem disparar. Escolher disjuntor padrão acima: - Calibre adequado: 25 A (curva D para motores, suporta picos breves). - Ref típica: Schneider iC60N D25 ou ABB S203 D25.
c) Relé térmico: regulação em 20-21 A (= I_n com tolerância ±5%). Ref tipo Schneider LRD22 (gama 16-24 A) ajustado a 20-21.
d) Secção do cabo: - Para 20,7 A em XLPE, 30 °C, 3 condutores carregados: tabela RTIEBT indica 2,5 mm² suporta até 21-23 A; margem apertada. - Recomendável: 4 mm² (capacidade ~28 A) → mais reserva, queda de tensão menor.
e) Pico de arranque (directo, motor padrão): 5-7× I_n = 5×20,7 a 7×20,7 = ~104-145 A durante 1-3 segundos.
Cabo aguenta o pico breve. Disjuntor curva D não dispara se calibrado bem. Em rede fraca pode provocar queda de tensão visível.
Parte III · Motor monofásico
Exercício 5 · Princípio (10 pts)
a) Porque é que um motor monofásico não arranca sozinho? b) Quais são os 3 métodos para resolver este problema? c) Em motores domésticos, qual é o componente mais comum responsável por "criar" o segundo campo?
a) Não arranca sozinho porque uma única corrente alternada produz um campo magnético pulsante (cresce, diminui, inverte, mas não roda). Sem campo rotativo, não há binário inicial — o rotor parado fica parado.
b) 3 métodos para criar campo rotativo a partir de monofásico: 1. Capacitor de arranque + bobina auxiliar — capacitor desfasa a corrente da bobina auxiliar ~90° em relação à principal → campos quase em quadratura → campo aproximadamente rotativo. 2. Bobina auxiliar resistiva (fio mais fino, maior R) — desfasamento por diferença de impedância. Menos eficiente, usado em motores pequenos. 3. Pólo sombreado — anel de cobre em parte do pólo cria correntes induzidas que atrasam o campo nessa zona → desfasamento espacial e temporal → motor pequeno arranca. Usado em motores muito pequenos (5-50 W).
c) Componente mais comum: o capacitor. Pode ser: - Capacitor de arranque (electrolítico, 100-400 µF) desligado por interruptor centrífugo após arranque. - Capacitor permanente (film, 5-30 µF) ligado sempre.
Em muitos motores domésticos modernos vê-se o capacitor preto/cinza redondo na parte exterior da carcassa.
Parte IV · Motor DC e variantes
Exercício 6 · Tipos de motor DC (10 pts)
Distingue brevemente:
a) Motor DC com excitação série. b) Motor DC com excitação paralelo (shunt). c) BLDC (brushless DC). d) Servomotor. e) Motor passo-a-passo.
a) Excitação série: bobina de campo em série com armadura → mesma corrente. Quando carga aumenta, corrente sobe → campo sobe → binário muito alto no arranque e em carga pesada. Velocidade varia muito com carga. Aplicações: tracção (comboios antigos), gruas, ferramentas portáteis.
b) Excitação paralelo (shunt): bobina de campo em paralelo com armadura → corrente de campo aproximadamente constante. Velocidade estável com variação de carga. Aplicações: tornos, máquinas-ferramenta antigas.
c) BLDC: motor "DC sem escovas". Rotor com imã permanente, estator com bobinas, comutação electrónica baseada em sensores de posição (Hall). Sem desgaste de escovas, longevidade enorme. Aplicações: ventoinhas computador, drones, carros eléctricos, electrodomésticos inverter.
d) Servomotor: motor (frequentemente BLDC ou PMSM) + encoder + driver com lazo fechado de posição/velocidade. Precisão muito alta, posicionamento exacto. Aplicações: robótica, CNC industrial.
e) Motor passo-a-passo: motor que gira em passos discretos (típico 1,8° = 200 passos/volta) comandado por impulsos. Sem realimentação (lazo aberto). Aplicações: impressoras 3D, CNC hobby, plotters.
Diferença essencial servo vs stepper: servo tem encoder e sabe onde está; stepper conta passos e pode perdê-los se houver sobrecarga.
Exercício 7 · Aplicação (15 pts)
Para cada aplicação, indica o tipo de motor mais adequado e justifica brevemente:
a) Ventilador de casa-banho. b) Bomba de água residencial 1,5 kW. c) Bomba industrial 15 kW. d) Eixo de máquina CNC com precisão 0,01 mm. e) Ventoinha de processador de computador.
a) Ventilador casa-banho: motor monofásico pólo sombreado (10-30 W). Simples, barato, fiável, sem capacitor. Velocidade fixa adequada.
b) Bomba residencial 1,5 kW: motor monofásico com capacitor permanente ou capacitor de arranque + permanente. 230 V monofásico (rede doméstica). Acima de 2,2 kW seria forçosamente trifásico.
c) Bomba industrial 15 kW: motor assíncrono trifásico 400 V. Ligação Δ (em rede 400 V). Arranque com VFD (controlo de pressão variável + protecções) ou estrela-triângulo. Eficiência IE3.
d) Eixo CNC com precisão 0,01 mm: servomotor (BLDC ou PMSM) com encoder de alta resolução. Driver em malha fechada. Estes são os únicos com precisão adequada e binário disponível parado (manter posição contra carga). Stepper seria insuficiente em produção industrial.
e) Ventoinha CPU: BLDC pequeno (3-5 W). Razões: - Sem desgaste de escovas → silencioso e longevo (10+ anos). - Controlo de velocidade fácil por PWM (vento maior em carga, silencioso parado). - Pequeno, leve, eficiente.
Parte V · Conceito avançado
Exercício 8 · Curva binário-velocidade (15 pts)
A curva binário-velocidade de um motor assíncrono trifásico tem forma característica:
- Binário de arranque (em paragem) — moderado.
- Binário máximo (em ~80% da velocidade síncrona).
- Binário nominal (à velocidade nominal).
- Zero binário à velocidade síncrona.
a) Que zona da curva representa o funcionamento normal? b) O que acontece se a carga aumentar acima do binário máximo? c) Em motores arrancados com VFD, qual a vantagem em controlar a frequência durante o arranque?
a) Funcionamento normal está entre a velocidade síncrona (binário zero) e o binário nominal — zona descendente da curva, próxima da síncrona. Tipicamente entre 95-100% da velocidade síncrona (escorregamento 0-5%). Pequenas variações de carga = pequenas variações de velocidade.
b) Se carga excede o binário máximo: - Motor não pode acelerar mais. - Velocidade cai rapidamente para o lado "instável" da curva. - Corrente dispara (pode ser 7-10× nominal). - Motor "aborta" — fica parado ou roda muito devagar. - Aquece muito rapidamente — em segundos, isolamento queima. - Disjuntor ou relé térmico devem disparar para proteger.
Esta situação chama-se "stall" ou "rotor bloqueado".
c) VFD durante arranque — controla frequência (e tensão proporcional, mantendo V/f constante): - Começa f = 0 → motor ainda parado. - Aumenta f gradualmente → motor acelera sempre próximo da velocidade síncrona correspondente. - Como motor está sempre na zona linear da curva, binário disponível é alto durante todo o arranque (até 150-200% nominal se necessário). - Corrente de arranque ≈ corrente nominal (1-1,5×). - Sem stress mecânico, sem queda de tensão na rede, sem desgaste extra.
Por isso o VFD é o método de arranque ideal para qualquer motor: arranque suave, eficiente, controlado.