Ficha 01 · RTIEBT, circuitos, dimensionamento
- RTIEBT
- Circuitos
- Cabos
- Dimensionamento
Parte I · RTIEBT
Exercício 1 · Quem pode (10 pts)
Quem pode projectar, executar e inspeccionar uma instalação eléctrica nova em Portugal?
Projecto: Técnico Responsável (TR) com categoria adequada (TRG geral, TRE específico). Assina termo de responsabilidade. Sem TR habilitado, projecto não pode ser submetido.
Execução: Técnico Executor (TE) sob direcção do TR; ou o próprio TR. Apenas executores qualificados podem trabalhar.
Inspecção: Inspector certificado por entidade independente (ex.: CERTIEL). Verifica antes de ligação à rede. Emite certificado.
Ligação à rede: distribuidora (E-REDES) só liga o contador após receber certificado válido. Sem certificado → sem electricidade legal.
Legislação principal: DL 226/2005, Lei 14/2014, RTIEBT (Portaria 949-A/2006).
Exercício 2 · Documentação (10 pts)
Que documentos uma instalação nova deve ter ao ser entregue ao utilizador?
- Projecto eléctrico assinado pelo TR.
- Termo de responsabilidade do TR.
- Certificado de inspecção emitido por inspector certificado.
- Esquema unifilar plastificado dentro do quadro principal.
- Manual de utilização com instruções básicas.
- Lista de material com referências.
- Localização dos quadros (planta).
- Identificação dos circuitos (qual disjuntor controla o quê).
O utilizador deve poder responder, anos depois, perguntas como: - "Que disjuntor controla a tomada do quarto?" - "Onde fica o quadro principal?" - "Quando foi a última inspecção?"
Sem documentação, manutenção futura torna-se caça ao tesouro.
Parte II · Circuitos
Exercício 3 · Tipo certo (15 pts)
Para cada equipamento, indica circuito típico (calibre disjuntor, secção cabo, DR sim/não):
a) Iluminação de um corredor. b) Tomadas duma sala. c) Fogão eléctrico 5 kW. d) Termoacumulador 200L 2,2 kW. e) Máquina de lavar roupa.
a) Iluminação: disjuntor 10A, cabo 1,5 mm², sem DR específico (coberto pelo DR 300 mA geral).
b) Tomadas sala: disjuntor 16A, cabo 2,5 mm², com DR 30 mA (obrigatório em circuitos de tomadas RTIEBT).
c) Fogão 5 kW: I ≈ 5000/230 = 22A → disjuntor 25A, cabo 6 mm², com DR 30 mA. Circuito dedicado.
d) Termoacumulador 2,2 kW: I ≈ 10A → disjuntor 16A, cabo 2,5 mm², com DR 30 mA. Pode partilhar circuito mas casa-banho exige dedicado.
e) Máquina de lavar: 2-3 kW de pico → disjuntor 16A, cabo 2,5 mm², com DR 30 mA. Normalmente partilha com tomadas da cozinha mas exige carga somada não exceder.
Exercício 4 · Casas-banho (10 pts)
Que cuidados especiais o RTIEBT exige em casas-banho?
Casas-banho têm classificação por zonas consoante distância à banheira/duche:
- Zona 0 (dentro banheira/duche): apenas equipamento alimentado a muito baixa tensão SELV ≤ 12V.
- Zona 1 (até 2,25 m altura acima da Zona 0): equipamento IP_X4 mínimo, com SELV ou tensão reduzida; sem tomadas comuns.
- Zona 2 (60 cm além Zona 1): IP_X4; tomadas SELV ou de barbear apenas.
- Zona 3 (resto da casa-banho): IP_X1; tomadas tradicionais com DR 30 mA obrigatório.
Restrições adicionais: - Equipotencial suplementar — ligar todas as massas metálicas (tubagens água quente e fria, banheira metálica, blindagens) ao PE. - Iluminação Zona 0/1: apenas se classificada para imersão. - Tomadas dedicadas com DR 30 mA.
Casas-banho são a zona mais perigosa da habitação para choque eléctrico (humidade + corpo molhado = baixa resistência da pele).
Parte III · Dimensionamento
Exercício 5 · Cabo certo (15 pts)
Calcula secção mínima do cabo (cobre, tubo, 30°C) para:
a) Corrente máxima 15 A. b) 25 A. c) 50 A.
E para cada, escolhe disjuntor adequado.
| Secção | I_admissível | Adequada para |
|---|---|---|
| 1,5 mm² | 16 A | a (15 A) |
| 2,5 mm² | 21 A | — |
| 4 mm² | 28 A | b (25 A) |
| 6 mm² | 36 A | — |
| 10 mm² | 50 A | c (50 A) — limite, melhor 16 mm² |
a) Cabo 1,5 mm² → disjuntor 16A (calibre ≤ I_admissível 16A).
b) Cabo 4 mm² → disjuntor 25A (calibre = 25; I_adm = 28; OK).
c) Cabo 10 mm² → disjuntor 50A (no limite; melhor escolher 16 mm² se possível para margem).
Regra de ouro: disjuntor ≤ I_admissível do cabo. Senão cabo arde antes do disjuntor disparar.
Exercício 6 · Queda de tensão (15 pts)
Vais ligar um aquecedor de 3000 W a 230 V numa garagem a 40 metros do quadro. Que secção de cabo escolhes?
Considere ρ_cobre = 1,72 × 10⁻⁸ Ω·m. Tolerância 5%.
Corrente: I = P/V = 3000/230 ≈ 13 A.
Capacidade: cabo 2,5 mm² aguenta 21 A — suficiente. Mas verificar queda.
Queda em 2,5 mm² × 40 m × 13 A: ΔV = (2 × 1,72e-8 × 40 × 13) / 2,5e-6 = 17,9 mΩ × 13 × 2 = 7,2 V
ΔV/V = 7,2/230 = 3,1% → OK (< 5%) mas marginal.
Se quiseres ter folga (e antecipar uso de mais cargas no futuro): subir para 4 mm²: ΔV = (2 × 1,72e-8 × 40 × 13) / 4e-6 = 4,5 V = 1,9% → confortável.
Em circuito longo, subir secção é boa prática mesmo com corrente moderada.
Parte IV · Quadros
Exercício 7 · Quadro habitação (15 pts)
Desenha (descreve) a arquitectura típica do quadro principal de uma habitação T3 (3 quartos).
Rede E-REDES (230V monofásico, 16A ou 25A típico)
│
Contador + portinhola
│
[QF0 — Disjuntor geral 25A 2P curva C] proteção geral
│
[DR0 — Diferencial 40A 300 mA tipo A] incêndio
│
┌───────────┬───────────┬───────────┐
│ │ │ │
[DR1 30mA] [DR2 30mA] [DR3 30mA] [Iluminação]
"tomadas" "cozinha" "casa-banho" (sem DR específico)
│ │ │ │
├QF1 16A ├QF3 16A ├QF6 16A ├QF8 10A → ilum. sala+corredor
│ tomadas │ tomadas │ tomadas │
│ sala │ cozinha │ casa-banho │
├QF2 16A ├QF4 25A ├QF7 16A ├QF9 10A → ilum. quartos
│ tomadas │ fogão │ termo- │
│ quartos │ │ acumulador
├QF5 16A
│ frigorífico
│ (dedicado)
Total módulos no quadro: 1 disjuntor + 1 DR geral + 3 DR + 9 disjuntores ≈ 18 módulos + bornes + transformador eventual. Caixa de 24 módulos (DIN), com 20% reserva → 30 módulos.
Etiquetas obrigatórias em todos os disjuntores e DRs.
Parte V · Aplicação
Exercício 8 · Diagnóstico básico (10 pts)
Cliente reclama: "as luzes da sala não acendem nem em interruptor nem em outro ponto da casa".
Sequência de diagnóstico?
Sistemático:
- Inspecção visual no quadro principal:
- Algum disjuntor disparado (alavanca em baixo)?
- Algum DR disparado?
-
Reset com cuidado: ligar disjuntor; se voltar a disparar, há curto-circuito.
-
Se nenhum disjuntor disparado:
- Outra lâmpada funciona na casa? Sim → problema é específico desse circuito.
-
Outras luzes desse circuito funcionam? Não → problema antes da derivação.
-
No interruptor:
- Tirar tampa, verificar com multímetro AC: chega tensão?
- Premir interruptor → tensão chega à lâmpada?
- Se sim ao premir e a lâmpada não acende → lâmpada queimada.
-
Se não → interruptor avariado ou fio cortado.
-
Na lâmpada:
- Verificar continuidade do filamento (com multímetro Ω) ou substituir.
-
LED moderno: bom verificar com lâmpada conhecida funcional.
-
Se persistir:
- Cabo entre interruptor e lâmpada cortado (raro mas acontece em obras de remodelação).
- Falha de neutro (lâmpada não tem retorno).
Tempo típico diagnóstico: 10-15 min para electricista.