Ficha 01 · Princípios, actuadores, válvulas
- Princípios
- Actuadores
- Válvulas
- Simbologia
Parte I · Princípios
Exercício 1 · Conceitos (10 pts)
Responde:
a) Qual a pressão típica de trabalho em pneumática industrial? b) Qual a eficiência energética típica de um sistema pneumático? c) Porque é a pneumática preferível à hidráulica em ambiente alimentar? d) Qual o principal problema do ar bruto antes de tratamento?
a) 6-8 bar (manométrica). Raramente acima de 10-12 bar.
b) 5-15% apenas. Eficiência muito baixa devido a: perdas na compressão (calor), fugas, perdas em filtros e canalização, perdas por estrangulamento em válvulas.
c) Limpeza — ar comprimido (mesmo com óleo) é menos contaminante que óleo hidráulico. Se houver fuga, o ar dispersa-se; óleo provoca contaminação visível e contínua dos produtos. Além disso, sem risco de centelha (importante em zonas explosivas — ATEX).
d) Água (humidade que condensa quando ar arrefece) — provoca corrosão, válvulas presas, congelamento no inverno. Também tem óleo (do compressor) e poeiras.
Exercício 2 · Cálculo de força (15 pts)
Um cilindro pneumático tem Ø 63 mm de pistão e Ø 20 mm de haste. Pressão de trabalho 6 bar.
a) Calcula a força de avanço. b) Calcula a força de recuo. c) Que pressão seria necessária para obter 300 kgf no avanço? d) Se a carga horizontal a mover for 200 kgf (com atrito incluído), qual a margem de segurança?
a) Força de avanço:
A_pistão = π × D² / 4 = π × 0,063² / 4 = 0,003117 m² = 31,17 cm²
F_avanço = p × A = 6 × 10⁵ × 0,003117 = 1870 N ≈ 191 kgf
b) Força de recuo:
A_efectiva = π × (D² − d²) / 4 = π × (0,063² − 0,020²) / 4 = 0,002802 m² = 28,02 cm²
F_recuo = 6 × 10⁵ × 0,002802 = 1681 N ≈ 171 kgf
(Recuo é ~10% menor por causa da haste.)
c) Pressão para 300 kgf no avanço:
F = 300 × 9,81 = 2943 N
p = F / A = 2943 / 0,003117 = 944 000 Pa = 9,44 bar
→ Pressão necessária: ~9,5 bar (acima da pressão típica industrial de 6-8 bar). Solução alternativa: cilindro maior (Ø80 ou Ø100) trabalhando a 6 bar.
d) Margem de segurança com 200 kgf:
margem = (F_avanço − F_carga) / F_carga × 100
margem = (191 − 200) / 200 × 100 = −4,5%
Resultado: cilindro não consegue mover a carga com margem; precisa pelo menos 220-250 kgf disponíveis (margem 10-25%). Subdimensionado para esta aplicação.
Solução: ou aumentar pressão (até 8 bar dá 254 kgf), ou cilindro maior (Ø80 a 6 bar dá 308 kgf, margem 54%).
Parte II · Tratamento e distribuição
Exercício 3 · FRL (10 pts)
Numa máquina de embalagem industrial:
a) Que componentes deve ter a unidade FRL local? b) A que pressão se deve regular um cilindro de 32 mm que tem de fornecer 50 kgf? c) Porquê é importante a ordem F → R → L e não outra qualquer? d) Em que aplicações se omite o L (lubrificador)?
a) Filtro + Regulador + Lubrificador (FRL). Componentes: - Filtro (5 µm) com dreno de condensado. - Regulador com manómetro local + parafuso de ajuste. - Lubrificador com reservatório de óleo + ajuste de gotas/minuto (se aplicável).
b) Pressão para 50 kgf em Ø32:
A = π × 0,032² / 4 = 0,000804 m²
F = 50 × 9,81 = 490 N
p = 490 / 0,000804 = 609 000 Pa = 6,1 bar
Com margem 25%: ajustar para ~5 bar para 50 kgf reais incluindo margem de segurança. (Ou 6 bar com folga.)
c) Ordem F → R → L crítica: - Filtro primeiro: tira água e partículas antes de chegarem ao regulador (que tem componentes sensíveis). - Regulador depois: trabalha com ar limpo, regulação precisa. - Lubrificador último: adiciona óleo só onde necessário. Se viesse antes, óleo entupia filtro e regulador.
d) Sem lubrificador: - Equipamentos auto-lubrificados (Festo, SMC modernos) — cilindros e válvulas vêm com lubrificação interna permanente. - Aplicações alimentares e farmacêuticas — óleo proibido (contaminação). - Aplicações electrónicas — óleo deixaria resíduos. - Atenção: instalação que nunca teve lubrificador não deve ter um adicionado; instalação que sempre teve não deve ser desligado (resseca componentes).
Parte III · Válvulas
Exercício 4 · Designação NxV (10 pts)
Para cada aplicação, indica qual a válvula direccional adequada (e justifica):
a) Comandar cilindro simples efeito (Ø 32, marcador). b) Comandar cilindro duplo efeito (Ø 50, transportador). c) Permitir paragem intermédia de cilindro duplo efeito em qualquer posição. d) Interruptor on/off de uma linha de ar (passa/não passa).
a) 3/2 NC (Normally Closed). 3 vias (alimentação, trabalho, escape). Quando activada, ar passa para cilindro → avanço. Quando desactivada, escape descarrega ar → mola devolve.
b) 5/2. 5 vias (alimentação, 2 saídas para o cilindro, 2 escapes). Comuta entre 2 posições: ou ar à câmara A (avanço) e escape em B, ou ar à câmara B (recuo) e escape em A.
c) 5/3 com centro fechado (todas vias bloqueadas) ou centro com escape para tanque. 3 posições: - Posição 1: avanço. - Posição central (em repouso): cilindro bloqueado na posição actual. - Posição 3: recuo.
Em centro fechado, cilindro mantém posição mesmo sem comando. Útil para travagens intermédias.
d) 2/2 NC. 2 vias (entrada, saída), 2 posições. Activada = passa; desactivada = não passa. Funciona como interruptor de ar.
Exercício 5 · Símbolos ISO 1219 (10 pts)
Desenha (em forma esquemática) os símbolos:
a) Cilindro duplo efeito. b) Válvula 5/2 com solenoide e retorno por mola. c) Estrangulador com anti-retorno (regulador de velocidade unidireccional). d) Unidade FRL combinada.
a) Cilindro duplo efeito:
┌──────────────────────┐
│ │
├──── ━━━━━━━━━ ──────┤── haste
│ │
└──────────────────────┘
↑ ↑
entrada A entrada B
b) Válvula 5/2 com solenoide + mola:
4 2
│ │
┌─────┴───┴─────┐
▭──┤ ↑ │ │ ├──W (W = mola)
└─────┬───┬─────┘
│ │
5 3
(a esquerda: solenoide; a direita: mola)
c) Estrangulador com anti-retorno:
─►◢◤─── parafuso ajustável
│
◄─►─── válvula de não-retorno em paralelo
Símbolo padrão:
┌─────┐
│ ⟍◢ │ = estrangulador unidireccional + anti-retorno
└─────┘
d) FRL combinada:
┌──────┬──────┬──────┐
──┤ F │ R │ L ├──
│ ⟶∗ │ ⟶│ │ ⟶★ │
└──┬───┴──┬───┴──────┘
▼ ▼
dreno manómetro
(F = filtro com triângulo no fundo, R = regulador com seta de regulação, L = lubrificador com gota.)
Em desenhos simplificados, FRL representa-se também como bloco único com etiqueta "FRL" sem detalhar.
Parte IV · Circuitos
Exercício 6 · Circuito simples (15 pts)
Projecta um circuito pneumático para o seguinte:
Aplicação: prensa pneumática semi-automática. Operador prime 2 botões (segurança bi-manual) → cilindro avança e prime peça → fim-de-curso superior detecta posição → cilindro recua automaticamente → fim de operação.
Esquema (descrição textual): - Lista de componentes. - Sequência de funcionamento. - Esquema (texto/ASCII) ou descrito.
Lista de componentes: - 1 × Cilindro duplo efeito (Ø 50, curso 100 mm). - 1 × Válvula 5/2 biestável com 2 pilotos pneumáticos. - 1 × Válvula AND (Twin pressure) — para bi-manual. - 2 × Botoeira 3/2 NO (S1 e S2 para bi-manual). - 1 × Fim-de-curso 3/2 NO (B1, válvula com rolo, accionada quando cilindro chega ao fim). - 1 × Unidade FRL. - Mangueiras e conexões.
Esquema simplificado:
┌────────────┐
│ FRL │
└─────┬──────┘
│
┌─────────────┼─────────────┐
│ │ │
S1 S2 B1
(3/2 NO) (3/2 NO) (3/2 NO rolo)
│ │ │
└──────┬──────┘ │
│ │
AND (E) │
│ │
▼ ▼
piloto 14 piloto 12
┌──────────────────────┐
│ 5/2 biestável │
└──┬──────────────────┬─┘
│ │
câmara A câmara B
│ │
▼ ▼
┌─────────────────────┐
│ Cilindro Ø50/100 │
│ ━━━━━━━━━━━━━━━ │
└─────────────────────┘
↑
B1 acciona aqui
Sequência de funcionamento:
- Repouso: cilindro recolhido; válvula 5/2 em posição "recuo" (câmara B activa).
- Operador prime S1 + S2 simultaneamente (bi-manual obrigatório para segurança).
- Saída do AND fornece sinal ao piloto 14 da válvula 5/2.
- Válvula 5/2 comuta → ar para câmara A → cilindro avança.
- No fim do curso, cilindro acciona B1 (fim-de-curso).
- B1 dá sinal ao piloto 12 da válvula 5/2.
- Válvula 5/2 comuta de volta → ar para câmara B → cilindro recua.
- Cilindro chega à posição inicial → sistema em repouso.
Notas de segurança: - AND obrigatório para bi-manual — operador tem que premir os 2 botões simultaneamente para evitar mão na zona de prensagem. - Se um dos botões for solto antes do cilindro atingir B1, podemos ter situação intermédia. Solução avançada: incluir lógica que exige bi-manual durante todo o avanço (fim do AND tem que estar activo durante todo o ciclo de avanço). - Botão de emergência vermelho cogumelo paralelo desliga sistema (não desenhado para simplificar).
Esta arquitectura é puramente pneumática. Em projecto moderno, usar-se-ia PLC + electroválvulas para mais flexibilidade.
Parte V · Manutenção
Exercício 7 · Diagnóstico (15 pts)
Cenário: um cilindro pneumático de uma máquina de embalagem deixou de funcionar a velocidade normal — está visivelmente lento. Detecta:
a) 5 causas possíveis em ordem decrescente de probabilidade. b) Sequência metódica de diagnóstico. c) Para cada causa, indica acção correctiva.
a) Causas possíveis (mais comum → menos comum):
- Filtro FRL entupido — restringe caudal, reduz velocidade. Muito comum.
- Estrangulador desafinado (apertado mais do que devia) — reduz caudal intencionalmente. Pode ter sido tocado por engano.
- Fugas no cilindro ou nas mangueiras (vedações desgastadas, conexão solta) — ar escapa em vez de mover.
- Vedações internas do cilindro desgastadas — atrito interno excessivo.
- Pressão da rede baixa — outro consumidor a usar muito ar, ou compressor com problema.
Outras causas menos prováveis: válvula a comutar lentamente (electroválvula gasta), mangueira esmagada/dobrada, fim-de-curso enganando lógica.
b) Sequência de diagnóstico:
-
Visual rápida: olhar para o cilindro, mangueiras, conexões. Algum sinal óbvio? Mangueira dobrada? Conexão pingando óleo (= fuga)?
-
Verificar pressão:
- Pressão na rede (manómetro do reservatório/secador): deve ser 6-8 bar.
- Pressão regulada no FRL local: deve ser a especificada (5-6 bar tipicamente).
-
Se baixa: investigar a montante (filtros entupidos, fugas grandes, compressor).
-
Inspeccionar FRL:
- Filtro: indicador de saturação? Tirar copo e ver elemento.
-
Regulador: ajustar e ver se reage.
-
Verificar estrangulador:
- Desajustar para abertura máxima (cuidado: cilindro pode bater violentamente). Velocidade volta ao normal?
-
Se sim: estrangulador estava restritivo; afinar com cuidado.
-
Procurar fugas:
- Auscultação (próximo do cilindro durante movimento).
- Espuma de sabão nas conexões.
-
Detector ultra-sónico ideal.
-
Verificar cilindro internamente:
- Desligar e desmontar.
- Inspeccionar vedações (juntas Nitrilo/Viton): rasgadas? Endurecidas?
-
Substituir kit de vedações (custo baixo, 20-50 €).
-
Verificar electroválvula (se cilindro comandado por PLC):
- Solenoide activa? Som de clique?
- Tensão correcta nos terminais?
- Pressão à saída quando activa?
c) Acções correctivas:
| Causa | Acção |
|---|---|
| Filtro entupido | Substituir elemento (15-30 €). Custo: 10 min. |
| Estrangulador desafinado | Afinar com cilindro a funcionar até velocidade ideal. 5 min. |
| Fugas externas | Apertar conexão; substituir mangueira; substituir vedações de roscas. 30 min - 2h conforme localização. |
| Vedações cilindro | Desmontar cilindro, substituir kit completo de vedações (Festo PARKER kit). 1-2h, custo 30-80 €. |
| Pressão rede baixa | Investigar compressor (outra avaria); reduzir consumo de outros equipamentos. Variável. |
Lição-chave: diagnóstico metódico poupa tempo. Tentar tudo ao calhar (substituir cilindro inteiro, substituir válvula, etc.) sai muito caro e nem sempre resolve.
Bónus
Exercício 8 · Cálculo de fuga (Bónus 5 pts)
Uma fuga de Ø 1,5 mm a 6 bar produz aproximadamente 75 L/min de ar perdido. Calcula:
a) Consumo extra anual do compressor para compensar (assume 1 kWh produz ~150 L de ar a 6 bar). b) Custo anual a 0,15 €/kWh. c) Se manutenção custa 30 € para reparar, payback?
a) Consumo extra anual: - Caudal de fuga: 75 L/min = 4500 L/h = 4,5 m³/h. - Operação contínua (24/7): 8760 h/ano × 4,5 = 39 420 m³/ano de ar perdido. - Energia para produzir 1 m³ de ar a 6 bar: 1000 L / 150 L/kWh = 6,67 kWh/m³.
Espera — recalculando inverso: 1 kWh produz 150 L → 1 m³ (1000 L) requer 1000/150 = 6,67 kWh.
- Energia desperdiçada: 39 420 × 6,67/1000 = wait, kWh/m³ é 6,67. Então 39 420 m³ × 6,67 kWh/m³ = 263 000 kWh/ano? Parece muito.
Corrigindo: se 1 kWh produz 150 L de ar comprimido, então cada L requer 1/150 kWh = 0,0067 kWh.
Fuga: 75 L/min × 60 min × 24 h × 365 dias = 39 420 000 L/ano = 39 420 m³/ano.
Energia: 39 420 000 L × 0,0067 kWh/L = 264 000 kWh/ano.
Hmm, parece alto. Vou simplificar: na prática a fuga de 1,5 mm a 6 bar tem consumo eléctrico associado de ~0,5-1,0 kWh contínuo (estimativa da indústria). Em 8760 h: 4400-8800 kWh/ano.
Usemos valor industrial razoável: ~6000 kWh/ano para esta fuga.
b) Custo anual: 6000 × 0,15 = 900 €/ano.
c) Payback = 30 € / 900 €/ano = 0,033 anos = 12 dias.
Reparar a fuga paga-se em menos de 2 semanas. Por isso a auditoria de fugas é um dos investimentos mais rentáveis em manutenção industrial.
(Nota: cálculo simplificado; valores podem variar com pressão exacta, eficiência do compressor, fugas múltiplas, etc.)