Ficha 01 · 5 regras de ouro, EPI, choque
- 5 regras de ouro
- EPI dieléctrico
- Efeitos corrente
Parte I · 5 regras de ouro
Exercício 1 · Ordem (10 pts)
Indica pela ordem correcta as 5 regras de ouro EN 50110-1.
- Cortar todas as fontes de tensão.
- Bloquear os órgãos de corte (LOTO).
- Verificar a ausência de tensão (VAT).
- Pôr em curto-circuito e à terra (relevante em AT/MT).
- Sinalizar e delimitar a zona de trabalho.
Exercício 2 · VAT (10 pts)
Descreve o procedimento dos 3 testes ao usar um VAT.
-
Antes: testar o VAT numa fonte conhecida em tensão (outra tomada do quadro, gerador) → o VAT deve indicar tensão (sinal piezo, LED, sonoro). Confirma que o VAT está funcional.
-
No trabalho: testar na zona onde vais trabalhar → o VAT deve indicar ausência de tensão. Testar entre cada par de condutores (fase-neutro, fase-fase, fase-terra).
-
Depois: re-testar o VAT na mesma fonte em tensão do início → continua a indicar tensão? Confirma que o VAT não se avariou entretanto.
Se o passo 1 ou 3 falham → substituir VAT antes de continuar. Se o passo 2 indicar tensão quando devia estar desligado → parar imediatamente e voltar à regra 1.
Exercício 3 · LOTO (10 pts)
Vais trabalhar num quadro eléctrico com 3 colegas durante todo o dia. Descreve o procedimento LOTO completo.
- Notificar os trabalhadores afectados que o circuito vai ser desligado.
- Identificar todas as fontes de energia do equipamento (eléctrica, eventual UPS, baterias).
- Desligar cada uma no órgão de corte respectivo.
- Lockout hasp (clasp de bloqueio múltiplo) no órgão principal.
- Cada um dos 4 trabalhadores põe o seu cadeado pessoal no hasp.
- Cada cadeado com etiqueta: nome, data, motivo.
- Dissipar energia armazenada (descarregar condensadores se aplicável).
- VAT (procedimento 3 testes).
- Trabalhar.
- Restaurar: cada trabalhador retira o seu próprio cadeado quando termina; o último a retirar = o último a verificar que está tudo OK; só depois pode-se reactivar o quadro.
Regra absoluta: nunca retirar cadeado de outra pessoa, mesmo que ela esteja ausente. Se necessário (emergência), processo formal documentado com supervisão.
Parte II · Efeitos da corrente
Exercício 4 · Limiares (15 pts)
Indica o efeito típico no corpo para cada corrente alterna 50 Hz:
a) 1 mA b) 10 mA c) 30 mA d) 100 mA e) 1 A
a) 1 mA — Limiar de percepção (formigueiro). b) 10 mA — Tetania muscular ("agarra-se"); pode não conseguir largar o condutor. c) 30 mA — Paragem respiratória possível; limite legal de protecção (diferencial corta a este nível). d) 100 mA — Fibrilhação ventricular muito provável → morte se não houver desfibrilhação rápida. e) 1 A (1 000 mA) — Queimaduras graves nos tecidos, paragem cardíaca, possíveis lesões irreversíveis mesmo se recuperar.
Tempo importa: 100 mA durante 30 ms pode ser tolerado; durante 1 s é quase sempre fatal.
Exercício 5 · Tensão vs resistência (10 pts)
Estás a trabalhar com 230 V. A diferença entre pele seca e pele molhada é grande?
Sim, é o que separa choque sem consequência de morte:
- Pele seca (R ≈ 100 000 Ω): I = V/R = 230/100 000 = 2,3 mA → choque desagradável mas não letal.
- Pele molhada (R ≈ 1000 Ω): I = 230/1000 = 230 mA → fibrilhação ventricular muito provável → morte.
Suor das mãos baixa a resistência drasticamente. Ambientes com chuva, lavagem, água parada ou mãos suadas pelo calor/EPI são especialmente perigosos.
Daí: - Nunca trabalhar molhado em instalação eléctrica. - Calçado isolante para baixar contacto com terra. - Tapete isolante sob os pés. - Luvas dieléctricas mesmo se "só ir ver".
Parte III · Protecções
Exercício 6 · Disjuntor vs diferencial (10 pts)
Distingue claramente as funções de disjuntor magnetotérmico e diferencial (RCD).
Disjuntor magnetotérmico: - Protege a instalação (fios e equipamento). - Térmico (lento): contra sobrecargas contínuas. - Magnético (instantâneo): contra curtos-circuitos. - Calibre = corrente nominal do circuito (10, 16, 25 A...). - Não protege pessoas contra choque eléctrico.
Diferencial (RCD / DR): - Mede a diferença entre corrente de fase e de neutro. - Sem fuga: igual → não actua. - Com fuga (corpo humano para terra, defeito de isolamento): corta em 30 ms ou menos. - Sensibilidade típica: 30 mA para protecção de pessoas; 300 mA para protecção incêndio. - Protege pessoas contra choque eléctrico.
Numa instalação completa, usam-se ambos: disjuntor para a instalação, diferencial à frente ou em cascata para pessoas. Não são substituíveis.
Parte IV · EPI
Exercício 7 · Equipamento certo (15 pts)
Vais inspeccionar um quadro eléctrico de 400 V (BT). Lista o EPI completo necessário.
- Luvas dieléctricas classe 0 (1000 V) ou classe 00 (500 V) se confirmado < 500 V — EN 60903. Inspeccionar antes (insuflar; sem bolhas em água).
- Calçado isolante EN 50321 classe 0.
- Capacete isolante EN 397 + EN 50365.
- Viseira facial EN 166 — proteger arco eventual.
- Fato ignífugo arc-rated (HRC 1 ou 2 consoante análise; para quadro pequeno 400 V típico, HRC 2 chega).
- Tapete isolante de borracha no chão (não conduz para terra).
- Ferramentas isoladas VDE/EN 60900 marcadas 1000 V (chave de fendas, alicates).
- VAT para procedimento dos 3 testes.
Verificar antes de cada uso: luvas (insuflar), VAT (testar em fonte conhecida).
Exercício 8 · Ferramentas (10 pts)
Que problema há em usar uma chave de fendas comum envolta em fita isoladora num quadro eléctrico?
Problemas graves:
-
Isolamento não certificado — fita isoladora típica é apenas anti-aderência ou marcação visual; não foi testada para suportar tensão.
-
Cobertura incompleta — fita raramente cobre 100% da haste; primeiro toque na zona não coberta = choque.
-
Degradação — fita rasga, sai, encolhe com temperatura. Não dura.
-
Falsa segurança — operador trabalha com confiança porque "tem isolamento", quando na realidade não tem.
-
Não cobre a ponta — a ponta da chave (metálica) tem de tocar no parafuso; se a ponta tocar acidentalmente noutro contacto, curto-circuito + arco.
Solução correcta: ferramentas certificadas VDE/EN 60900 com isolamento bicor (vermelho/amarelo), testadas até 10 kV, marcação 1000 V. Custam 20-50 € por chave de fendas — investimento que dura anos e salva vidas.
Improvisação com fita = jogar à roleta russa. Não há excepções.
Parte V · Emergência
Exercício 9 · Choque eléctrico (10 pts)
Um colega tocou num cabo e está caído junto ao quadro, sem se mexer. O cabo continua em contacto com o corpo.
a) O que NÃO podes fazer? b) O que fazes pela ordem correcta?
a) NÃO podes: - Tocar na vítima enquanto a corrente passa — ficas em paralelo e sofres o mesmo choque. - Usar objecto metálico para afastar. - Atirar água (excelente condutor). - Tentar puxar pelo cabo (também em tensão).
b) Sequência correcta:
-
Cortar energia — disjuntor principal do quadro, botão de emergência, ou ficha (se acessível). Esta é a primeira acção, segundos contam.
-
Se cortar é impossível (não localizo, demasiado longe): afastar com objecto isolante — vassoura de madeira seca, tábua, plástico grosso. NUNCA metal.
-
Avaliar consciência: chamar nome, sacudir suavemente.
-
Avaliar respiração: olhar peito subir/descer 10 segundos.
-
Chamar 112 (ou pedir a alguém que chame enquanto continuas).
-
Se inconsciente sem respirar normalmente: iniciar RCP (30 compressões + 2 insuflações; 100-120/min) até INEM chegar ou vítima recuperar.
-
Se consciente: posição lateral de segurança. Conversar, manter vigilância.
-
Não dar comida nem água.
-
Vítima vai sempre ao hospital, mesmo que se sinta bem — arritmias tardias até 48h após.