Ficha 02 · Y-Δ, temporização, sensores
- Estrela-triângulo
- Temporização
- Sensores
- GRAFCET
Parte I · Estrela-triângulo
Exercício 1 · Princípio (10 pts)
Por que arranque estrela-triângulo reduz a corrente de arranque?
Princípio físico:
Um motor trifásico de 400V/Δ tem 3 bobinas projectadas para receber 400V cada quando ligado em triângulo.
- Em triângulo (operação normal): cada bobina recebe 400V → corrente nominal.
- Em estrela: as 3 bobinas formam Y; cada uma recebe V_simples = 400/√3 ≈ 230V → tensão por bobina reduzida para 58%.
Consequência: - Corrente por bobina reduz na proporção V (1/√3). - Mas a corrente de linha em Y é igual à corrente nas bobinas (não há divisão). - Em triângulo a corrente de linha = √3 × corrente nas bobinas.
Resultado: corrente de arranque em Y é aproximadamente 1/3 da corrente de arranque em Δ.
- Arranque directo: I_pico ≈ 5-7× I_nominal.
- Arranque Y-Δ: I_pico ≈ 2-3× I_nominal.
Trade-off: binário motor também reduz para 1/3 → motor só arranca cargas leves em Y. Para cargas pesadas, soft-start ou VFD são melhores.
Exercício 2 · Esquema 3 contactores (15 pts)
Lista os 3 contactores necessários no arranque Y-Δ e a sequência de eventos.
3 contactores: - KM1 — principal (sempre fecha contactos principais durante operação). - KM_Y — contactos que ligam os terminais X-Y-Z do motor em ponto comum (criando configuração estrela). - KM_D — contactos que ligam X-Y-Z dos 3 pares (criando configuração triângulo).
Temporizador KT — controla momento da transição Y → D (típico 3-10 segundos).
Sequência:
- Premir start: KM1 + KM_Y activam simultaneamente.
- Motor recebe alimentação trifásica em configuração estrela.
- Corrente de arranque baixa (~2-3× nominal).
-
Binário arranque reduzido para 1/3 do nominal.
-
Acelerar: motor sobe a velocidade durante T segundos. KT conta.
-
T expira: KT acciona transição:
- KM_Y desactiva (abre contactos estrela).
- Pequeno intervalo de transição (50-200 ms) — motor em "roda livre" momentâneo.
-
KM_D activa (fecha contactos triângulo).
-
Operação normal: motor em triângulo com tensão nominal por bobina, potência nominal.
-
Parar: KM1 desactiva, KM_D desactiva.
Inter-bloqueios: KM_Y.NC em série com KM_D.A1 e vice-versa — impossível ambos fecharem simultaneamente (curto-circuito entre fases).
Exercício 3 · Quando usar (5 pts)
Em que situação NÃO se usa arranque estrela-triângulo?
- Motores < 7,5 kW — pico não é problema, arranque directo suficiente.
- Cargas pesadas no arranque — binário reduzido em Y (33%) não consegue arrancar a carga; máquina não funciona.
- Quando se precisa de controlo fino de velocidade — Y-Δ só tem 2 estados; VFD (variador de frequência) é a resposta para controlo total.
- Cargas com paragens/arranques frequentes — soft-start electrónico é mais suave e desgasta menos.
- Motores cuja chapa não permite Y-Δ (alguns motores só vêm preparados para uma ligação fixa).
Hoje em dia: Y-Δ está em declínio porque VFD custa pouco e dá controlo total.
Parte II · Temporização
Exercício 4 · Tipo de relé (10 pts)
Para cada aplicação, escolhe tipo de relé temporizado (on-delay, off-delay, pulse, cyclic):
a) Estrela-triângulo: KT comuta de Y para D após 5 segundos do arranque. b) Iluminação do corredor que apaga 3 minutos após movimento. c) Ventilador de motor que continua 10 minutos após desligar o motor. d) Sirene de aviso pisca a 1 Hz durante alarme.
a) On-delay — conta 5s após energização (= arranque do motor), depois comuta o estado.
b) Off-delay — energiza imediatamente quando há movimento (luz acende), mantém 3 min após cessar movimento, depois desliga.
c) Off-delay — energiza com o motor; mantém ventilador X tempo após desligar o motor.
d) Cyclic — alterna on/off ciclicamente enquanto alarme activo (1s on, 1s off para 1Hz).
Exercício 5 · Sequencia (10 pts)
Tens uma máquina que faz 3 operações em sequência (carregar, processar, descarregar), cada uma com 30 segundos. Como implementas com 3 temporizadores?
Start ── KM1 (carregar) + KT1 ──── 30s ────┐
↓
KT1.NO fecha
│
KM1 desactiva │
KM2 (processar) + KT2 ── 30s ──┐
↓
KT2.NO fecha
│
KM2 desactiva │
KM3 (descarregar) + KT3 ── 30s ──┐
↓
KT3.NO fecha
│
KM3 desactiva
Fim da sequência
Cada KT (on-delay) inicia ao activar o seu contactor; ao expirar 30s, comuta para o seguinte.
Inter-bloqueios garantem que só um contactor está activo de cada vez.
Reset: contacto auxiliar do último desactiva-se → tudo volta a estado inicial → próximo start começa do passo 1.
Em PLC: trivial com 1 timer programado. Em electromecânico puro com 3 temporizadores é viável mas cablagem extensa.
Parte III · Sensores
Exercício 6 · Sensor certo (10 pts)
Para cada situação, escolhe tipo de sensor:
a) Detectar passagem de peça metálica numa linha (10 cm acima). b) Detectar líquido (água) numa cuba. c) Detectar se porta de protecção está fechada. d) Medir distância de 1-5 m sem contacto. e) Detectar peça em qualquer material (plástico, vidro, metal) a 1 cm.
a) Indutivo (1-30 mm para metais; tipicamente o "olho" da automação industrial). Para 10 cm precisa de variante de longo alcance.
b) Capacitivo — detecta líquidos sem contacto.
c) Fim-de-curso (limit switch) mecânico — contacto físico fiável; ou magnético com íman.
d) Ultrassom (1 cm-10 m precisão alguns mm) ou fotoeléctrico difuso com refletor.
e) Capacitivo — detecta qualquer material. Indutivo só detecta metais.
Exercício 7 · PNP vs NPN (10 pts)
Tens sensor com saída digital. Distingue PNP e NPN.
PNP (sourcing): - Quando sensor activo, "fornece" +24V à saída. - Comum em PLCs europeus. - Carga (PLC input) deve ter um terminal a 0V; quando sensor activa, +24V chega → input lê high.
Sensor──┬── saída ── PLC input ── (interno PLC) ── 0V
│
+24V (alimentação)
0V
NPN (sinking): - Quando sensor activo, "puxa" a saída para 0V. - Comum em PLCs asiáticos (Mitsubishi, Omron). - Carga deve ter um terminal a +24V; quando sensor activa, puxa para 0V → input lê alteração.
Sensor──┬── saída ── PLC input ── (interno) ── +24V
│
+24V
0V
Compatibilidade: PLC tem que ser configurado para o tipo certo (PNP ou NPN) — alguns modernos suportam ambos seleccionáveis.
Em manutenção: verificar datasheet do PLC antes de comprar sensor.
Parte IV · GRAFCET
Exercício 8 · GRAFCET simples (15 pts)
Desenha (descreve em ASCII) o GRAFCET de uma máquina de furação automática: - Estado 1: espera peça. - Estado 2: prensar peça (cilindro pneumático). - Estado 3: furar (motor descer). - Estado 4: voltar furo (motor subir). - Estado 5: libertar peça. - Volta ao 1.
┌────┐
│ 1 │ Espera
│ │ (acção: nenhuma; LED verde "READY")
└─┬──┘
│ T1: peça detectada (B_peca = 1)
│
┌─v──┐
│ 2 │ Prensar
│ │ (acção: KY_prensa = 1)
└─┬──┘
│ T2: B_prensa_baixo = 1
│
┌─v──┐
│ 3 │ Furar
│ │ (acção: KM_furo + KY_descer = 1)
└─┬──┘
│ T3: B_furo_fim = 1
│
┌─v──┐
│ 4 │ Voltar furo
│ │ (acção: KY_subir = 1; KM_furo desactiva)
└─┬──┘
│ T4: B_furo_topo = 1
│
┌─v──┐
│ 5 │ Libertar
│ │ (acção: KY_prensa = 0; KY_libertar = 1 alguns segundos)
└─┬──┘
│ T5: B_peca = 0 (peça removida)
│
└────────────► volta ao 1
Componentes mecânicos/sensores: - B_peca: sensor que detecta presença de peça. - KY_prensa: electroválvula do cilindro pneumático. - B_prensa_baixo: fim-de-curso quando prensa em baixo. - KM_furo: contactor do motor de furação. - KY_descer / KY_subir: electroválvulas do cilindro de furação. - B_furo_fim / B_furo_topo: fins-de-curso vertical. - KY_libertar: electroválvula libertadora (sopro de ar).
Implementação: tipicamente em PLC com 5 estados em ladder ou função sequencial (SFC). Em electromecânico puro, precisaria de ~10-15 relés + temporizadores.
Exercício 9 · Vantagens GRAFCET (5 pts)
Por que GRAFCET é melhor que esquema multifilar para descrever automação sequencial?
-
Visualização de sequência — vê-se ordem clara das operações; multifilar mostra ligações mas não o "fluxo".
-
Comunicação com não-electricistas (engenheiros, gestores) — GRAFCET é entendível mesmo sem conhecer símbolos eléctricos.
-
Especificação independente da implementação — mesmo GRAFCET pode ser implementado em relés, PLC, microcontrolador, etc.
-
Debug — durante operação, sabe-se em que estado está; localizar problemas é mais rápido.
-
Documentação — actualizar GRAFCET é mais simples que refazer multifilar quando há mudanças.
-
Norma IEC 60848 — universal e reconhecida.
-
Programação directa em PLCs (linguagem SFC — Sequential Function Chart é GRAFCET adaptado).
GRAFCET complementa (não substitui) o multifilar — usam-se em conjunto: GRAFCET para a lógica, multifilar para a cablagem física.